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        Sinopse

        Traduzido em 22 pases, com mais de 12 milhes de exemplares vendidos, no deixe de ler o segundo volume de Outlander, a srie que, misturando fantasia,
histria e romance, conquistou leitores entusiastas em todos os continentes.
        Em A viajante do tempo, o primeiro volume da srie, Diana Gabaldon apresentou uma protagonista inesquecvel, Claire, uma mulher de personalidade forte, que
busca o amor verdadeiro em meio a importantes acontecimentos histricos. Separada do marido pouco depois da lua-de-mel, quando ele foi convocado para lutar na Segunda
Guerra Mundial, alistou-se como enfermeira na Cruz Vermelha, o que mudou sua viso de mundo. Ao visitar uma antiga formao de rochas, depois de assistir a uma cerimnia
celta, ela atravessa sculos de histria e vai parar em 1743.  quando conhece o jovem guerreiro escocs Jamie Fraser, com quem comea a viver uma inesperada e intensa
paixo.
        A liblula no mbar se passa no mesmo universo mgico e surpreendente do livro anterior. O cenrio agora  a Paris do sculo XVIII. Jamie tem que ajudar
o prncipe Carlos Stuart a formar alianas que o apoiassem na retomada do trono da Inglaterra, que se encontrava nas mos dos protestantes. Claire, no entanto, sabia
que a rebelio estava fadada ao fracasso. A tentativa de devolver o Reino aos catlicos resultaria num banho de sangue que ficaria conhecido como a Batalha de Culloden,
e deixaria os cls escoceses em runas. Em meio a intrigas da corte parisiense, enfrentando novamente um velho rival, ela tenta impedir o morticnio cruel e salvar
a vida do homem que ama.
        Fundamentada em uma extensa pesquisa histrica e em sua poderosa imaginao, Diana Gabaldon reitera, nesse volume, as razes de seu sucesso internacional.















        A VIAJANTE DO TEMPO         VOLUME I

        A LIBLULA NO MBAR         VOLUME II

        DIANA GABALDON











A Liblula no mbar
Ttulo original
DRAGONFLY IN AMBER
Copyright (c) 1992 by Diana Gabaldon












        Esta  uma obra de fico. Nomes, personagens, empresas, organizaes, localidades e incidentes so produtos da imaginao do autor ou foram usados de forma
ficcional.
        Qualquer semelhana com pessoas reais, vivas ou no, acontecimentos e locais,  mera coincidncia.



        A meu marido, Doug Watkins, em agradecimento pela matria-prima
Prlogo



        A cordei trs vezes de madrugada. Na primeira, de tristeza, depois de alegria e, finalmente, de solido. As lgrimas de uma profunda perda acordaram-me devagar,
banhando meu rosto como o toque reconfortante de um pano mido em mos tranqilizadoras. Virei o rosto no travesseiro molhado e naveguei por um rio salgado, para
dentro das cavernas da dor relembrada, para as profundezas subterrneas do sono.
        Despertei, ento, de pura alegria, o corpo arqueado nos espasmos da unio fsica, sentindo o toque de seu corpo ainda na minha pele, morrendo ao longo dos
caminhos dos meus nervos como as ondulaes da consumao espalhando-se a partir do centro do meu ser. Repeli a conscincia, virando-me outra vez, buscando o cheiro
pungente e penetrante do desejo satisfeito de um homem e, nos braos reconfortantes do meu amado, dormi.
        Na terceira vez, acordei sozinha, alm do alcance do amor ou do sofrimento. A viso das rochas estava ntida em minha mente. Um pequeno crculo, pedras em
p no topo de uma colina verde e ngreme. O nome da colina  Craigh na Dun; a colina das fadas. Alguns dizem que a colina  encantada, outros que  amaldioada.
Todos tm razo. Mas ningum sabe a funo ou o propsito das pedras.
        Exceto eu.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
PARTE I
ATRAVS DE UM ESPELHO, S ESCURAS
INVERNESS, 1968

1 - Conferindo a lista de combatentes
        
        Roger Wakefield parou no meio da sala, sentindo-se cercado. Achou a sensao absolutamente justificvel, j que realmente estava cercado: de mesas abarrotadas 
de bibels e suvenires; de moblias pesadas, no estilo vitoriano, repletas de paninhos de renda nos braos e encostos das poltronas, de capas de veludo e mantas 
de l xadrez; de minsculos tapetes tranados, espalhados pelo lustroso assoalho de madeira, ardilosamente  espera de uma oportunidade para deslizar sob um p desavisado. 
Cercado por doze aposentos de mveis, roupas e papis. E livros - meu Deus, os livros! O gabinete onde estava possua trs paredes forradas de estantes de livros, 
cada qual abarrotada muito alm do limite de sua capacidade. Romances de mistrio em brochura acumulavam-se em pilhas vistosas, espalhafatosas, em frente a tomos 
encadernados em couro, espremidos contra selees do clube do livro, volumes antigos surrupiados de extintas bibliotecas, e milhares e milhares de folhetos, panfletos 
e manuscritos costurados a mo.
        A situao no era muito diferente no resto da casa. Livros e papis amontoavam-se em toda superfcie horizontal e todos os armrios rangiam e guinchavam 
nas dobradias. Seu falecido pai adotivo vivera uma vida longa e plena, uns bons dez anos a mais do que os setenta que lhe eram biblicamente designados. E em oitenta 
e tantos anos, o reverendo Reginald Wakefield nunca jogara nada fora.
        Roger conteve o mpeto de sair correndo pela porta a fora, pular para dentro do seu Morris Minor e voltar para Oxford, abandonando a residncia paroquial 
e todo o seu contedo  merc dos vndalos e das intempries. Acalme-se, disse a si mesmo, inspirando fundo. Voc consegue lidar com isto. Os livros so a parte 
mais fcil;  s questo de orden-los, depois chamar algum e mandar lev-los embora.  bem verdade que vo precisar de um caminho do tamanho de um vago de trem, 
mas pode ser feito. Roupas - sem problema. A Oxfam receber o lote inteiro.
        Ele no sabia o que esta ONG iria fazer com um monte de ternos de sarja preta e coletes do final dos anos 1940, mas talvez os necessitados no fossem to 
exigentes. Comeou a respirar um pouco melhor. Tirara um ms de licena do departamento de histria de Oxford, a fim de resolver os negcios do reverendo. Talvez, 
afinal de contas, isso fosse suficiente. Em seus momentos de maior depresso, parecia-lhe que a tarefa poderia levar anos.
        Dirigiu-se a uma das mesas e pegou uma pequena travessa de porcelana. Estava repleta de pequenos retngulos de metal; "gaberlunzies", os distintivos retangulares 
de chumbo que as parquias forneciam aos mendigos andarilhos como uma espcie de licena para pedir esmolas. Uma coleo de garrafas de cermica vitrificada mantinha-se 
de p junto ao abajur, com uma surrada caixa de rap, ornamentada em prata, ao lado. D-los a um museu?, pensou em dvida. A casa estava cheia de artefatos jacobitas; 
o reverendo fora um historiador amador, o sculo XVIII o seu territrio de caa favorito.
        Estendeu a mo involuntariamente e seus dedos acariciaram a superfcie da caixa de rap, seguindo as linhas pretas das inscries - os nomes e datas dos 
Diconos e Tesoureiros da Associao de Alfaiates de Canongate, de Edimburgo, 1726. Talvez ele devesse guardar algumas das melhores aquisies do reverendo... mas 
em seguida recuou, sacudindo a cabea decididamente.
        - Nada disso, rapaz - disse em voz alta. - Isso pode levar  loucura.
        Ou no mnimo  vida incipiente daqueles ratos que carregam e escondem pequenos objetos. Se comeasse a guardar coisas, iria acabar ficando com tudo, morando 
naquela casa monstruosa, cercado de geraes de quinquilharias.
        - E falando sozinho tambm - murmurou.
        A idia de geraes de entulho o fez lembrar-se da garagem e sentiu uma certa prostrao nos joelhos. O reverendo, que na realidade era tioav de Roger, 
adotara-o aos cinco anos de idade, depois que seus pais morreram na Segunda Guerra Mundial; sua me na Blitz, seu pai nas guas escuras do Canal. com seu usual instinto 
de preservao, o reverendo guardara todos os pertences dos pais de Roger, embalados em caixas de madeira e de papelo e guardados nos fundos da garagem. Roger tinha 
certeza de que ningum abrira nenhuma dessas caixas nos ltimos vinte anos.
        Roger proferiu a lamria do Velho Testamento diante da idia de ter que manusear toda a memorabilia de seus pais.
        - Ah, meu Deus - exclamou em voz alta. - Qualquer coisa, menos isso!
        A observao no teve a inteno de ser uma prece, mas a campainha tocou como se fosse em resposta, fazendo Roger morder a lngua de susto.
        A porta da casa costumava emperrar com o tempo mido, o que significava que ficava emperrada a maior parte do ano. Roger libertou-a com um rangido lancinante 
e deparou-se com uma mulher na soleira da porta.
        - Pois no, o que deseja?
        Era de altura mediana e muito bonita, dando a impresso de uma boa constituio fsica sob o linho branco, tudo encimado por abundantes cabelos castanhos 
cacheados, presos numa espcie de coque rebelde. E no meio de tudo, o mais extraordinrio par de olhos claros, da cor do xerez envelhecido.
        Os olhos ergueram-se rapidamente dos tnis tamanho quarenta e dois para o rosto dele, uns trinta centmetros acima do seu. O sorriso enviesado ampliou-se.
        - Detesto comear logo com um clich - ela disse -, mas, Santo Deus, como voc cresceu, Roger!
        Roger sentiu-se enrubescer. A mulher riu e estendeu a mo.
        - Voc  o Roger, no ? Meu nome  Claire Randall, uma velha amiga do reverendo. Mas no vejo voc desde que tinha cinco anos de idade.
        - Ha... a senhora disse que era uma amiga do meu pai? Ento, j sabe... O sorriso desapareceu, substitudo por um ar de tristeza.
        - Sim, lamentei profundamente a notcia. Corao, no foi?
        - Hum, sim. Muito repentino. Acabo de chegar de Oxford para comear a lidar com... tudo. - Abanou a mo vagamente, englobando a morte do reverendo, a casa 
s suas costas e todo o seu contedo.
        - Do que eu me lembro da biblioteca de seu pai, a pequena tarefa deve ocup-lo at o prximo Natal - Claire observou.
        - Nesse caso, talvez no devssemos estar perturbando-o - disse uma voz doce, com sotaque americano.
        - Ah, me esqueci - disse Claire, virando-se parcialmente para a jovem que se mantinha fora da viso de Roger, no canto do prtico de entrada. - Roger Wakefield, 
minha filha, Brianna.
        Brianna Randall deu um passo  frente, um sorriso tmido no rosto. Roger fitou-a por um instante, depois lembrou-se de suas boas maneiras. Recuou um passo 
e abriu a porta de par em par, perguntando-se exatamente quando ele havia trocado a camisa.
        - De modo algum, de modo algum! - disse, fervorosamente. - Estava mesmo querendo fazer uma pausa. Entrem, por favor.
        Fez um gesto com a mo, sinalizando para que as duas mulheres seguissem pelo corredor em direo ao gabinete do reverendo, notando que alm de ser razoavelmente 
atraente, a filha era uma das jovens mais altas que ele ja vira de perto. Ela devia ter facilmente mais de um metro e oitenta, pensou, vendo sua cabea no mesmo 
nvel do topo do porta-chapus do vestbulo quando ela passou por ele. Inconscientemente, ele empertigou-se, alcanando toda a sua altura de um metro e noventa e 
dois.
        No ltimo instante, abaixou-se, para no bater a cabea na viga da porta do gabinete quando entrou no aposento, seguindo as mulheres.
        - Eu queria ter vindo antes - Claire disse, acomodando-se melhor na enorme poltrona bergre.
        A quarta parede do gabinete do reverendo tinha janelas que iam do cho ao teto e a luz do sol cintilava do prendedor de prolas em seus cabelos castanho-claros. 
Os cachos comeavam a se desprender de seu confinamento e ela distraidamente enfiou um deles atrs da orelha enquanto falava.
        - Na verdade, j tinha arranjado tudo para vir no ano passado, mas houve uma emergncia no hospital em Boston, eu sou mdica - explicou, a boca curvando-se 
um pouco diante do olhar de surpresa que Roger no conseguiu disfarar. - Mas lamento no ter vindo. Queria muito ter visto seu pai outra vez.
        Roger perguntou-se por que teriam vindo agora, sabendo que o reverendo estava morto, mas pareceu-lhe indelicado perguntar. Em vez disso, perguntou:
        - Vieram excursionar um pouco, ento?
        - Sim, viemos de carro de Londres - Claire respondeu. Sorriu para a filha. - Queria que Bri conhecesse o pas. Voc no imaginaria, ouvindoa falar, mas ela 
 to inglesa quanto eu, embora nunca tenha vivido aqui.
        -  mesmo? - Roger lanou um olhar para Brianna. Ela de fato no parecia inglesa, pensou; fora a altura, possua uma vasta cabeleira ruiva, solta sobre os 
ombros, e rosto de traos fortes e angulosos, com o nariz longo e reto, talvez um pouco comprido demais.
        - Nasci nos Estados Unidos - Briana exxplicou -, mas tanto meu pai quanto minha me so... eram... ingleses.
        - Eram?
        - Meu marido morreu h dois anos - Claire explicou. - Voc o conheceu, eu acho. Frank Randall.
        - Frank Randall! Claro! - Roger deu um tapa na testa e sentiu as faces ficarem quentes quando Brianna deu uma risadinha. - Devem me achar um completo idiota, 
mas acabo de me lembrar de vocs.
        O nome explicava muita coisa; Frank Randall fora um eminente historiador e um grande amigo do reverendo; durante anos, trocaram informaes secretas sobre 
os jacobitas, embora fizesse pelo menos dez anos desde a ltima visita de Frank Randall  residncia paroquial.
        - E ento, vo visitar os locais histricos perto de Inverness? - Roger arriscou. -J estiveram em Culloden?
        - Ainda no - Brianna respondeu. - Pensamos em ir mais para o final da semana. - Seu sorriso em resposta foi apenas cordial, nada mais.
        - Marcamos um passeio pelo lago Ness hoje  tarde - Claire explicou. - E talvez a gente v de carro at Fort William amanh ou fiquemos apenas andando por 
Inverness. A cidade cresceu muito desde a ltima vez que estive aqui.
        - E quando foi? - Roger imaginou se deveria oferecer seus servios como guia turstico. Na realidade, no deveria perder tempo, mas os Randall foram grandes 
amigos do reverendo. Alm do mais, uma viagem de carro a Fort William na companhia de duas mulheres encantadoras parecia uma perspectiva muito mais atraente do que 
limpar a garagem, que era a prxima tarefa em sua lista.
        - Ah, h mais de vinte anos. J faz muito tempo. - Houve um tom estranho na voz de Claire que fez Roger olhar para ela, mas ela fitou-o direto nos olhos 
com um sorriso.
        - Bem - ele arriscou -, se houver alguma coisa que eu possa fazer por vocs, enquanto estiverem nas Highlands...
        Claire ainda estava sorrindo, mas algo em seu rosto mudou. Ele chegou a pensar que ela estivera esperando uma abertura. Ela lanou um olhar para Brianna, 
depois se voltou de novo para Roger.
        - J que tocou no assunto - disse, o sorriso ampliando-se.
        - Ah, mame! - Brianna exclamou, empertigando-se na cadeira. No v incomodar o sr. Wakefield! Olhe s quanta coisa ele tem a fazer! - Abanou a mo abarcando 
o gabinete atulhado, com suas caixas abarrotadas e infindveis pilhas de livros.
        - Ah, no  incmodo nenhum! - Roger protestou. - Ento... do que se trata?
        Claire lanou  filha um olhar repressor.
        - Eu no estava pretendendo dar uma pancada na cabea dele e arrastlo daqui - disse, ironicamente. - Mas ele pode muito bem conhecer algum que possa ajudar. 
 um pequeno projeto histrico - explicou a Roger. - Preciso de algum que seja bem versado nos jacobitas do sculo XVIII. O prncipe Carlos Eduardo Stuart e todo 
aquele pessoal.
        Roger inclinou-se para frente, interessado.
        - Jacobitas? - disse. - Esse perodo no  uma das minhas especialidades, mas sei um pouco a respeito. Difcil no saber, morando to perto de Culloden. 
Foi onde a ltima batalha foi travada, como deve saber - ele explicou a Brianna. - Onde os partidrios do prncipe Carlos defrontaram-se com o duque de Cumberland 
e foram completamente massacrados.
        - Exato - disse Claire. - E isso, de fato, tem a ver com o que eu quero descobrir. - Enfiou a mo na bolsa e retirou um papel dobrado.
        Roger abriu-o e passou os olhos pelo contedo. Era uma lista de nomes, talvez uns trinta, todos homens. No alto da folha, havia um cabealho: REVOLUO JACOBITA, 
1745 - CULLODEN.
        - Ah, a rebelio de 45? - Roger disse. - Esses homens lutaram em Culloden, no foi?
        - Sim - Claire respondeu. - O que eu quero descobrir  quantos homens desta lista sobreviveram quela batalha.
        Roger esfregou o queixo enquanto lia a lista.
        -  uma pergunta simples - disse -, mas a resposta pode ser difcil de ser encontrada. Tantos homens dos cls das Highlands que seguiam o prncipe Carlos 
foram mortos no campo de batalha de Culloden que no foram enterrados individualmente. Foram colocados em sepulturas coletivas, com uma nica pedra gravada com o 
nome do cl como marco.
        - Eu sei - Claire disse. - Brianna no esteve l, mas eu estive... h muito tempo. - Ele achou ter vislumbrado uma sombra fugaz atravessar seus olhos, embora 
tenha sido rapidamente ocultada quando voltou a enfiar a mo na bolsa. No era de admirar, pensou. O Campo de Culloden era um lugar emocionante; trouxe lgrimas 
aos seus prprios olhos ver aquela grande extenso de terra pantanosa e lembrar-se da bravura e da coragem dos escoceses das Highlands que jaziam massacrados sob 
o capim.
        Ela desdobrou vrias outras folhas datilografadas e entregou-as a ele. Um dedo longo e branco percorreu a margem de uma das folhas. Belas mos, Roger observou; 
delicadamente torneadas, bem-cuidadas, com uma nica aliana em cada mo. A de prata na mo direita chamava especialmente a ateno; uma aliana jacobita larga, 
no padro entrelaado das Highlands, adornada com flores de cardo.
        - Esses so os nomes das mulheres, pelo que eu sei. Achei que isso talvez pudesse ajudar, j que se os maridos tivessem sido mortos em Culloden, provavelmente 
veramos essas mulheres casando de novo ou emigrando para outro lugar mais tarde. Esses registros com toda a certeza devem existir nos livros da parquia, no? So 
todos da mesma parquia. A igreja ficava em Broch Mordha, fica a uma boa distncia ao sul daqui.
        -  uma idia bastante til - Roger disse, ligeiramente surpreso. -  o tipo de coisa na qual um historiador teria pensado.
        - No sou uma historiadora - Claire disse secamente. - Por outro lado, quando se vive com um, aprende-se um ou outro truque.
        - Sem dvida. - Um pensamento ocorreu a Roger e ele levantou-se de sua cadeira. - Estou sendo um pssimo anfitrio; por favor, permita-me servir-lhes um 
drinque e depois podem me contar mais a respeito disso. Talvez eu mesmo possa ajud-las.
        Apesar da desordem, ele sabia onde as garrafas de bebidas ficavam guardadas e rapidamente suas visitas estavam servidas de usque. Colocou bastante soda 
no usque de Brianna, mas notou que ela apenas o tocou com os lbios como se seu copo contivesse formicida em vez do melhor Glenfiddich de puro malte. Claire, que 
pedira seu usque puro, parecia apreci-lo bem mais.
        - Bem. - Roger retomou seu lugar e pegou os papis outra vez. -  um problema interessante, em termos de pesquisa histrica. Disse que esses homens pertenciam 
 mesma parquia? Devem ter pertencido a um nico cl ou tribo. Vejo que vrios tinham o sobrenome Fraser.
        Claire balanou a cabea afirmativamente, as mos cruzadas no colo.
        - Vinham todos da mesma propriedade, uma pequena fazenda nas Highlands chamada Broch Tuarach e conhecida na regio como Lallybroch. Faziam parte do cl Fraser, 
embora nunca tenham formalmente jurado lealdade a lorde Lovat como chefe. Esses homens participaram da Revoluo desde o incio, lutando na Batalha de Prestonpans, 
enquanto os homens de Lovat s chegaram pouco antes de Culloden.
        -  mesmo? Interessante. - Em circunstncias normais do sculo XVIII, esses pequenos arrendatrios teriam morrido onde viviam e teriam sido sepultados lado 
a lado no cemitrio da vila, cuidadosamente includos nos registros da parquia. Entretanto, a tentativa do prncipe Carlos de recuperar o trono da Esccia em 1745 
interrompeu de modo drstico o curso normal dos acontecimentos.
        Na fome que se seguiu ao desastre de Culloden, muitos escoceses das Highlands emigraram para o Novo Mundo, outros foram abandonando os desfiladeiros e os 
pntanos em direo s cidades, em busca de alimento e emprego. Alguns permaneceram, agarrando-se teimosamente s suas terras e tradies.
        - Daria um artigo fascinante - Roger disse, pensando em voz alta. Seguir o destino de um grupo de indivduos, descobrir o que aconteceu a cada um deles. 
Seria menos interessante se todos tivessem realmente morrido em Culloden, mas  provvel que alguns tenham conseguido escapar. Estaria disposto a aceitar o projeto 
como uma trgua bem-vinda ainda que no tivesse sido Claire Randall quem tivesse pedido. - Sim, acho que posso ajud-la com isso - disse, sentindo-se recompensado 
com o sorriso caloroso com que ela o brindou.
        - Verdade? Que maravilha! - ela exclamou.
        - Ser um prazer - Roger disse. Dobrou o papel e colocou-o sobre a mesa. -vou comear logo a trabalhar nisso. Mas, diga-me, como foi a viagem de Londres 
at aqui?
        A conversa versou sobre questes gerais, conforme as mulheres Randall brindavam-no com histrias de sua viagem transatlntica e do trajeto de carro de Londres 
at ali. A ateno de Roger desviou-se ligeiramente quando ele comeou a planejar a pesquisa para aquele projeto. Sentia-se levemente culpado por t-lo aceitado; 
na verdade, no devia comprometer seu tempo. Por outro lado, era um assunto interessante. E talvez ele pudesse aliar o projeto  necessria tarefa de limpeza do 
material do reverendo; ele sabia com certeza que havia quarenta e oito caixas de papelo na garagem, todas etiquetadas JACOBITAS, MISCELNEA. A simples lembrana 
desse fato foi suficiente para provocar nele uma sensao de desmaio.
        com um violento esforo, arrancou a mente da garagem, descobrindo, ento, que a conversa sofrera uma mudana brusca de rumo.
        - Druidas? - Roger sentia-se tonto. Espiou com desconfiana dentro do copo, tentando verificar se havia realmente acrescentado soda  sua bebida.
        - No ouviu falar deles? - Claire pareceu ligeiramente desapontada. Seu pai, o reverendo, conhecia-os, embora apenas extra-oficialmente. Talvez achasse que 
no valia a pena contar-lhe; ele considerava o assunto uma espcie de piada.
        Roger coou a cabea, despenteando os cabelos negros e espessos.
        - No, honestamente no me lembro. Mas tem razo, ele no devia achar que o assunto fosse srio.
        - Bem, no tenho certeza se . - Ela cruzou as pernas. Um raio de sol cintilou ao longo de sua meia de seda, ressaltando a delicadeza do longo osso sob ela. 
- Quando estive aqui pela ltima vez com Frank... Meu Deus, isso foi h vinte e trs anos!... o reverendo disse-lhe que havia um grupo local de, bem, druidas modernos, 
acho que podem ser chamados assim. No fao a menor idia da autenticidade desse grupo.  provvel que no sejam mesmo genunos.
        Brianna estava inclinada para a frente agora, interessada, o copo de usque esquecido entre as mos.
        - O reverendo no podia reconhec-los oficialmente... por causa de paganismo e tudo isso, voc sabe... mas sua governanta, a sra. Graham, estava envolvida 
com o grupo, ento ele ouvia falar de suas andanas de vez em quando e deu uma dica a Frank de que haveria uma espcie de cerimnia no amanhecer do Beltane, isto 
, no Primeiro de Maio.
        Roger balanou a cabea, tentando adaptar-se  idia da velha sra. Graham, aquela mulher extremamente digna e respeitvel, participando de rituais pagos 
e danando em volta de crculos de pedras ao nascer do sol. Tudo que ele prprio conseguia se lembrar de cerimnias druidas era que algumas delas envolviam queimar 
vtimas em gaiolas de vime, em sacrifcio, o que parecia um comportamento ainda mais improvvel para uma senhora escocesa e presbiteriana de idade avanada.
        - H um crculo de pedras verticais no topo de uma colina, bem perto daqui. Ento, ns fomos l antes do sol nascer para... bem, espion-los - ela continuou, 
encolhendo os ombros como se quisesse se desculpar. - Sabe como so os acadmicos, no tm nenhum escrpulo quando se trata do seu prprio campo de trabalho, quanto 
mais uma noo de sensibilidade social. - Roger contraiu-se ligeiramente diante dessa observao, mas balanou a cabea, concordando a contragosto.
        - E l estavam eles - Claire disse. - Inclusive a sra. Graham, todos enrolados em lenis brancos, entoando cnticos e danando no meio do crculo de pedras. 
Frank ficou fascinado - ela acrescentou com um sorriso. E realmente era impressionante, at para mim.
        Parou por um instante, observando Roger de forma especulativa.
        - Ouvi dizer que a sra. Graham faleceu h alguns anos. Mas imagino... sabe se ela tinha algum parente? Acredito que a participao nesses grupos geralmente 
 hereditria, talvez haja uma filha ou neta que pudesse me contar um pouco a respeito.
        - Bem - Roger disse devagar. - H uma neta, seu nome  Fiona, Fiona Graham. Na realidade, ela veio dar uma ajuda aqui na casa depois que sua av morreu. 
O reverendo estava de fato muito idoso para ficar aqui inteiramente sozinho.
        Se alguma coisa pudesse afastar sua viso da sra. Graham danando envolta num lenol era a idia de Fiona, de dezenove anos, como guardi de uma antiga sabedoria 
mstica, mas Roger refez-se heroicamente e continuou.
        - Receio que ela no esteja aqui no momento, Mas eu poderia mandar cham-la para vir falar com voc.
        Claire abanou a mo delgada, descartando a idia.
        - No precisa se incomodar. Uma outra hora. Ns j tomamos demais do seu tempo.
        Para desalento de Roger, ela colocou o copo vazio na mesinha entre as cadeiras e Brianna acrescentou seu prprio copo, ainda cheio, com o que lhe pareceu 
uma certa nsia. Ele notou que Brianna Randall roa as unhas. Essa pequena prova de imperfeio lhe deu coragem para dar o prximo passo. Ela o intrigava e ele no 
queria que ela fosse embora sem ter certeza de que voltaria a v-la.
        - Por falar em crculos de pedra - ele disse rpido -, acho que sei qual voc mencionou.  um belo cenrio e no fica muito longe da cidade. - Sorriu direto 
para Brianna Randall, automaticamente notando o fato de que ela possua trs pequenas sardas no alto da ma do rosto. - Acho que vou comear este projeto com uma 
viagem at Broch Tuarach. Fica na mesma direo do crculo de pedras, ento, talvez... aaahh!
        Com um movimento brusco e repentino de sua volumosa bolsa, Claire Randall lanou os dois copos de usque para longe da mesa, encharcando o colo e as coxas 
de Roger de usque puro e muita soda.
        - Ah, sinto muito - ela desculpou-se, obviamente envergonhada. Abaixou-se e comeou a recolher os pedaos de cristal estilhaado, apesar dos esforos no 
muito coerentes de Roger de tentar impedi-la.
        Brianna, aproximando-se para ajudar com um punhado de guardanapos de linho que pegara de cima do aparador, dizia:
        - Francamente, mame, no sei como  que deixam voc fazer cirurgias. No d para confiar a voc nada menor do que uma cesta de po. Olhe, voc encharcou 
os sapatos dele de usque! - Abaixou-se no cho e comeou a enxugar energicamente o usque derramado e a catar os fragmentos de cristal. - E as calas dele tambm!
        Arrancando um novo guardanapo da pilha sobre seu brao, ela diligentemente lustrou as pontas dos sapatos de Roger, a cabeleira ruiva flutuando delirantemente 
em torno dos seus joelhos. Sua cabea erguia-se, enquanto espreitava as coxas de Roger, aplicando com energia o guardanapo nas manchas molhadas no veludo das suas 
calas. Roger cerrou os olhos e pensou freneticamente em terrveis colises de carros na autoestrada, em formulrios de imposto de renda e em monstros devoradores 
do espao - qualquer coisa que o impedisse de dar um completo vexame, enquanto o hlito quente de Brianna Randall penetrava como uma nvoa pelo tecido molhado de 
suas calas.
        - Hum... talvez seja melhor voc mesmo fazer o resto. - A voz veio de algum lugar ao nvel do seu nariz e ele abriu os olhos, deparando-se com um par de 
olhos de um azul profundo fitando-o acima de um amplo sorriso. Segurou frouxamente o guardanapo que ela lhe oferecia, respirando como se tivesse acabado de ser perseguido 
por um trem.
        Abaixando a cabea para esfregar as calas, viu Claire Randall observando-o com uma expresso mista de simpatia e divertimento. No havia nada mais visvel 
em sua expresso; nada daquele lampejo que achara ter visto em seus olhos logo antes da catstrofe. Perturbado como estava, provavelmente no passara de sua imaginao, 
pensou. Afinal, por que haveria ela de fazer aquilo de propsito?
        - Desde quando se interessa por druidas, mame? - Brianna parecia disposta a encontrar algo hilrio na idia; eu a vira mordendo a parte interna das bochechas 
enquanto eu conversava com Roger Wakefield, e o sorriso que ela disfarava na ocasio agora estava estampado em seu rosto. - Vai levar seu prprio lenol e se unir 
a eles?
        - Deve ser mais interessante do que as reunies de pessoal do hospital toda quinta-feira - eu disse. - Porm, um pouco frio.
        Ela soltou um riso chiado, assustando dois pssaros grandes, duas mejengras de cabea preta, do caminho  nossa frente.
        - No - eu disse, retornando ao ar srio. - Meu interesse no  tanto pelas mulheres druidas. H uma pessoa que eu conhecia na Esccia que eu gostaria de 
encontrar, se puder. No tenho o endereo dela, no tenho contato com ela h mais de vinte anos, mas ela se interessava por coisas estranhas como magia negra, crenas 
antigas, folclore. Esse tipo de coisa. Houve uma poca em que morou perto daqui; achei que se ainda estivesse aqui, poderia estar envolvida com um grupo como esse.
        - Qual o nome dela?
        Sacudi a cabea, agarrando o frouxo prendedor de cabelo que escorregava pelos meus cachos. Ele deslizou pelo meio dos meus dedos e caiu no capim alto  margem 
do caminho.
        - Droga! - exclamei, inclinando-me para procur-lo. Meus dedos estavam trmulos quando tateava pelos talos densos e tive dificuldade em pegar o prendedor, 
escorregadio com a umidade do capim molhado. A lembrana de Geillis Duncan me deixava nervosa, mesmo agora. - No sei - respondi, afastando os cachos do meu rosto 
afogueado. - Quer dizer, faz tanto tempo, tenho certeza de que deve ter um nome diferente agora. Ela era viva; deve ter se casado outra vez ou estar usando seu 
nome de solteira.
        - Ah. - Brianna perdeu o interesse no assunto e continuou a caminhar em silncio por algum tempo. - De repente, disse: - O que achou de Roger Wakefield, 
mame?
        Lancei-lhe um olhar; suas faces estavam rosadas, mas podia ser por causa do vento de primavera.
        - Parece um bom rapaz - respondi com cautela. - Sem dvida,  inteligente;  um dos mais jovens professores de Oxford. - A inteligncia, eu ficara sabendo; 
perguntava-me se ele teria alguma imaginao. Geralmente, os tipos cultos e estudiosos no tinham. Mas um pouco de imaginao seria til.
        - Os olhos dele so incrveis - Brianna disse, ignorando sonhadoramente a questo da inteligncia. - No so os mais verdes que j viu?
        - Sim, so impressionantes - concordei. - Sempre foram assim. Lembro-me de que me chamaram a ateno quando o conheci em criana.
        Brianna olhou para mim, franzindo o cenho.
        - Francamente, mame! Voc tinha que dizer: "Meu Deus, como voc cresceu", quando nos atendeu  porta? Que vergonha!
        Eu ri.
        - Bem, a ltima vez em que o vi ele batia na altura do meu umbigo e de repente me vejo levantando a cabea para ver seu nariz - eu disse, defendendo-me. 
- No pude deixar de observar a diferena.
        - Mame! - Mas ela ria alegremente.
        - Ele tambm tem um bumbum muito bonito - acrescentei, s para faz-la continuar a rir. - Notei quando ele se inclinou para pegar o usque.
        - Meeee! As pessoas vo ouvi-la!
        Havamos chegado ao ponto de nibus. Havia duas ou trs mulheres e um senhor idoso de terno de tweed de p junto aplaca; viraram-se para olhar para ns quando 
nos aproximamos.
        -  aqui o ponto do nibus de turismo para o lago Ness? - perguntei, passando os olhos pela confusa profuso de anncios e avisos pregados na tabuleta.
        - Ah, , sim - respondeu uma das senhoras amavelmente. - Deve chegar em mais ou menos dez minutos.
        Ela olhou Brianna de cima a baixo, to obviamente americana em suas calas jeans e jaqueta branca. O detalhe patritico final era acrescentado pelo rosto 
afogueado, vermelho por causa do riso preso.
        - Vo visitar o lago Ness?  a primeira vez? Sorri para ela.
        - Desci o lago de barco com meu marido h vinte e poucos anos, mas esta  a primeira viagem de minha filha  Esccia.
        - Ah,  mesmo? - Isso atraiu a ateno das outras senhoras que se amontoaram  nossa volta, repentinamente acolhedoras, oferecendo sugestes e fazendo perguntas, 
at que o enorme nibus amarelo dobrou a esquina soltando descargas do motor.
        Brianna parou antes de subir os degraus, admirando o pitoresco desenho das curvas verdes em forma de serpentina, ondulando por um lago de tinta azul cercado 
de pinheiros negros.
        - Isso vai ser divertido - disse, rindo. - Acha que veremos o monstro?
        - Nunca se sabe - respondi.
        Roger passou o resto do dia em estado de abstrao, vagando distraidamente de uma tarefa para outra. Os livros a serem empacotados para doao  Sociedade 
de Preservao de Antigidades escorregavam de sua caixa cheia demais; a velha caminhonete do reverendo estava parada na entrada da casa com o cap aberto, no meio 
de uma inspeo do motor; e uma xcara de ch com leite, parcialmente consumido e de onde a nata fora retirada, jazia junto ao seu cotovelo, enquanto ele fitava, 
com os olhos vidrados e inexpressivos, a chuva que caa no incio da noite.
        O que deveria fazer, sabia-o, era dar cabo da tarefa de desmantelar o mago do gabinete do reverendo. No os livros; por mais penosa que fosse a empreitada, 
era apenas uma questo de decidir quais guardar para si mesmo e quais despachar para a SPA ou para a velha biblioteca da universidade do reverendo. No, mais cedo 
ou mais tarde ele teria que enfrentar a enorme escrivaninha, com papis saindo de cada uma das imensas gavetas e projetando-se de suas dezenas de escaninhos. Ele 
teria que retirar, organizar e desfazer-se de toda a quinquilharia que decorava a parede de cortia de um dos lados do aposento. Uma misso capaz de assombrar o 
mais destemido esprito.
        Alm da total falta de vontade de iniciar a tediosa tarefa, Roger era contido por outro fator. Ele no queria estar fazendo tudo aquilo, por mais necessrio 
que fosse; queria estar trabalhando no projeto de Claire Randall, seguindo o rastro dos homens dos cls que lutaram em Culloden.
        Era um projeto interessante por si prprio, embora provavelmente um trabalho de pesquisa sem grande valor. Mas no era esse o motivo. No, pensou, se quisesse 
ser sincero consigo mesmo, ele queria era dedicar-se ao projeto de Claire Randall para poder ir  pousada da sra. Thomas e colocar seus resultados aos ps de Brianna 
Randall, como os cavaleiros faziam com as cabeas de drages. Ainda que no obtivesse resultados dessa escala, ansiava ardentemente por alguma desculpa para v-la 
e conversar com ela outra vez.
        Ela o fazia lembrar-se de uma pintura de Bronzino, concluiu. Tanto ela quanto sua me davam uma estranha impresso de terem sido de algum modo delineadas, 
desenhadas com pinceladas to vigorosas e com detalhes to delicados que se destacavam do fundo, como se tivessem sido esculpidas na paisagem. Mas Brianna possua 
aquelas cores vivas e aquele ar de absoluta presena fsica que fazia as modelos de Bronzino parecerem seguilo com os olhos, prestes a falar de suas molduras. Nunca 
vira uma pintura de Bronzino fazendo caretas diante de um copo de usque, mas se houvesse uma, tinha certeza de que seria exatamente como Brianna Randall.
        - Bem, pr inferno - disse em voz alta. - No vai levar tanto tempo assim para dar uma espiada nos registros da Casa Culloden amanh, certo? Quanto a voc 
- disse, dirigindo-se  escrivaninha e sua profusa carga -, pode esperar mais um dia. E voc tambm - disse  parede, retirando desafiadoramente um romance policial 
da estante. Olhou  sua volta de forma beligerante, como se desafiasse qualquer pea do mobilirio a objetar, mas no se ouviu nenhum som alm do zumbido do aquecedor 
eltrico.
        Desligou-o e, com o livro embaixo do brao, deixou o gabinete, apagando a luz.
        Um minuto depois, retornou, atravessando o aposento no escuro, e resgatou a lista de nomes de cima da mesa.
        - Bem, pr inferno! - exclamou outra vez, enfiando o papel no bolso da camisa. - Novou querer esquecer a maldita lista pela manh. - Deu um tapinha no bolso, 
sentindo o papel estalar bem em cima do seu corao, e subiu para a cama.
        Voltamos do lago Ness ofegantes por causa do vento e enregeladas pela chuva para o reconfortante aconchego de uma comida quente e uma lareira acesa na sala 
de estar. Brianna comeara a bocejar em cima dos ovos mexidos e logo desculpou-se e subiu para tomar um banho quente. Permaneci na sala por mais alguns instantes, 
conversando com a sra. Thomas, a dona da pousada, e j eram quase dez horas quando subi para o meu prprio banho e minha camisola.
        Brianna costumava dormir cedo e acordar cedo; sua respirao suave saudou-me quando abri a porta do quarto. Ela dormia cedo e tambm dormia profundamente; 
movimentei-me com todo o cuidado pelo quarto, pendurando minhas roupas e arrumando nossos pertences, mas no havia risco de acord-la. A casa foi ficando silenciosa 
conforme eu fazia minhas arrumaes, de modo que o murmrio de meus prprios movimentos parecia alto demais aos meus ouvidos.
        Trouxera comigo vrios livros de Frank, pretendendo do-los  biblioteca de Inverness. Estavam habilmente arrumados no fundo da minha mala, formando uma 
base para os itens mais passveis de serem amassados que estavam em cima. Retirei-os um a um, colocando-os sobre a cama. Cinco volumes encadernados, brilhantes em 
suas capas protetoras de plstico transparente. Objetos pesados, slidos; quinhentas ou seiscentas pginas cada um, fora os ndices e ilustraes.
        Eram as Obras Completas de meu falecido marido, nas edies comentadas. Os elogios da crtica cobriam as orelhas da sobrecapa, com os comentrios de cada 
renomado especialista na rea de histria. Nada mau para a obra de toda uma vida, pensei. Um feito do qual se orgulhar. Compacto, slido, autorizado.
        Empilhei os livros cuidadosamente sobre a mesa ao lado de minha mala, para no esquec-los pela manh. Os ttulos nas lombadas eram diferentes,  claro, 
mas empilhei-os de modo que os nomes "Frank W. Randall" nas pontas ficassem alinhados de modo uniforme, um acima do outro. Reluziam como uma jia na pequena poa 
de luz formada pelo abajur da mesinha-de-cabeceira.
        A pousada estava em silncio; ainda no era a alta estao e os poucos hspedes existentes j haviam se recolhido h muito tempo. Na outra cama de solteiro, 
a respirao de Briannafez um leve rudo e ela se virou, deixando longas mechas de cabelos ruivos cobrirem seu rosto adormecido. Um p longo e nu projetava-se de 
baixo das cobertas e eu o cobri delicadamente com o cobertor.
        O impulso de tocar uma criana adormecida nunca desaparece, ainda que a criana seja muito maior que a me, e ela mesma uma mulher - ainda que jovem. Alisei 
seus cabelos para trs, afastando-os do rosto, e acariciei sua cabea. Ela sorriu em seu sono, um breve reflexo de satisfao, desfeito quase no mesmo instante em 
que surgiu. Meu prprio sorriso demorou-se enquanto eu a observava. Sussurrei a seus ouvidos surdos de sono, como j fizera tantas outras vezes:
        - Meu Deus, voc  to parecida com ele.
        Engoli em seco, para livrar-me do n que se formava em minha garganta - j se tornara quase um hbito, a essa altura - e peguei meu penhoar nas costas da 
cadeira. Fazia um frio glacial nas Highlands escocesas em abril, mas eu no estava pronta ainda para procurar o santurio acolhedor da minha prpria cama de solteiro.
        Eu havia pedido  proprietria para deixar a lareira acesa na sala de estar, assegurando-lhe que apagaria o fogo antes de me recolher. Fechei a porta devagar, 
ainda observando os longos membros esparramados na cama, as cascatas de sedosos cabelos ruivos derramadas na colcha azul de matelass.
        - Tambm no  nada mau para a obra de uma vida inteira - sussurrei para o corredor escuro. - Talvez no to compacta, mas absolutamente autorizada.
        A pequena sala de estar estava s escuras e acolhedoramente aquecida, o fogo reduzido ao claro estvel de uma chama ao longo da espinha dorsal da tora principal. 
Puxei uma pequena poltrona para a frente da lareira e apoiei os ps na grade de proteo. Eu podia ouvir todos os pequenos e costumeiros sons da vida moderna  minha 
volta; o zumbido surdo da geladeira no subsolo, o chiado e o murmrio do aquecimento central, que fazia da lareira um conforto, no uma necessidade; o rangido rpido 
e abafado de um ou outro carro na rua.
        Entretanto, sob tudo isso, havia o profundo silncio de uma noite das Highlands. Fiquei sentada absolutamente imvel, tentando senti-lo. Fazia vinte anos 
que o sentira pela ltima vez, mas o poder calmante da escurido ainda estava l, protegido entre as montanhas.
        Enfiei a mo no bolso do meu penhoar e retirei a folha de papel dobrada - uma cpia da lista que eu dera a Roger Wakefield. Estava escuro demais para ler 
na fraca claridade do fogo da lareira, mas eu no precisava ver os nomes. Desdobrei o papel sobre meu joelho recoberto de seda e permaneci ali sentada, olhando cegamente 
as linhas de caligrafia ilegvel. Corri os dedos devagar sobre o papel, murmurando o nome de cada um dos homens para mim mesma, como uma prece. Eles faziam parte 
da fria noite de primavera, mais do que eu. Mas continuei fitando as chamas, deixando a escurido l de fora vir preencher os espaos vazios dentro de mim.
        E pronunciando seus nomes como se os invocasse, comecei a dar os primeiros passos para trs, atravessando o vazio da escurido em direo ao lugar onde me 
aguardavam.
        
        
        
        2 - A TRAMA SE COMPLICA
        
        Roger deixou a Casa Culloden na manh seguinte com doze pginas de anotaes e uma crescente sensao de assombro. O que a princpio parecera uma tarefa 
razoavelmente simples de pesquisa histrica estava apresentando algumas reviravoltas certamente muito estranhas.
        Ele encontrara apenas trs dos nomes da lista de Claire Randall na relao de mortos em Culloden. Isso, por si s, no era nada extraordinrio. O exrcito 
de Carlos Stuart raramente tivera uma lista coerente de alistamento, uma vez que os chefes de cls aparentemente se uniam ao prncipe quando lhes dava na veneta 
e muitos iam embora sem nenhum aviso prvio, antes que os nomes de seus homens pudessem ser inscritos em qualquer documento oficial. Os registros do exrcito das 
Highlands, desordenados, para dizer o mnimo, haviam praticamente se desintegrado nos ltimos dias da Revoluo; afinal, no fazia sentido manter uma folha de pagamentos 
se no se tinha como pagar aos homens inscritos.
        Dobrou com todo o cuidado seu esqueleto longilneo e enfiou-se no seu velho Morris, automaticamente abaixando a cabea para no bater no teto. Tirando a 
pasta de baixo do brao, abriu-a e examinou, com a testa franzida, as pginas que copiara. O estranho  que quase todos os homens da lista de Claire realmente tinham 
aparecido em outra lista do exrcito.
        Nos diferentes escales do regimento de um determinado cl, os homens podem ter desertado assim que as dimenses do iminente desastre se tornavam evidentes; 
no teria sido nada incomum. No, o que tornava todo o problema to incompreensvel era que os nomes na lista de Claire haviam aparecido - completos e por extenso 
- como parte do regimento do Senhor de Lovat, enviado no fim da campanha para cumprir uma promessa de apoio feita aos Stuart por Simon Fraser, lorde Lovat.
        Entretanto, Claire afirmara com convico - e uma olhada nas folhas originais confirmava isso - que esses homens eram todos provenientes de uma pequena propriedade 
chamada Broch Tuarach, bem ao sul e a oeste das terras dos Fraser - na verdade, nos limites das terras do cl MacKenzie. Mais do que isso, ela dissera que esses 
homens j faziam parte do exrcito das Highlands desde a Batalha de Prestonpans, que ocorrera no comeo da campanha.
        Roger sacudiu a cabea. Aquilo no fazia nenhum sentido.  bem verdade que Claire podia ter confundido a poca - ela mesma dissera que no era uma historiadora. 
Mas seguramente no erraria o local. E como era possvel que homens da propriedade de Broch Tuarach, que no haviam feito nenhum juramento de lealdade ao chefe do 
cl Fraser, estivessem  disposio de Simon Fraser?  verdade que lorde Lovat era conhecido como "a Velha Raposa", e com toda a razo, mas Roger duvidava que mesmo 
o temvel conde tivesse tido astcia suficiente para conseguir tal proeza.
        Com o cenho franzido, Roger deu partida no carro e saiu do estacionamento. Os arquivos da Casa Culloden eram tristemente incompletos; a maior parte, cartas 
pitorescas de lorde George Murray, queixando-se de problemas de suprimento, e coisas que ficavam bem nas exposies do museu para agradar os turistas. Ele precisava 
de muito mais do que isso.
        - Espere a, rapaz - advertiu a si prprio, estreitando os olhos no retrovisor ao fazer a curva. - Voc tem que descobrir o que aconteceu queles que no 
bateram as botas em Culloden. O que importa como chegaram l, desde que tenham sado inteiros da batalha?
        Mas no conseguia deixar de lado a questo. Era uma circunstncia muito estranha. Os nomes se embaralhavam com enorme freqncia, especialmente nas Highlands, 
onde metade da populao em determinado momento parecia ter recebido o nome de "Alexander". Em conseqncia, os homens eram habitualmente conhecidos pelo nome de 
seu lugar, assim como pelo nome do cl ou por seus sobrenomes. s vezes, s pelo nome do lugar. "Lochiel", um dos mais proeminentes chefes jacobitas, era na verdade 
Donald Cameron, de Lochiel, o que o distinguia perfeitamente das centenas de outros Cameron chamados Donald.
        E todos os homens das Highlands que no tinham sido denominados Donald ou Alec, foram chamados de Jofcn. Dos trs nomes da lista de Claire que ele havia 
encontrado nos registros de bito, um era Donald Murray, o outro era Alexander MacKenzie Fraser e o outro, John Graham Fraser. Todos sem nenhum nome do lugar de 
origem anexado; apenas o nome e o regimento ao qual pertenciam. O regimento do Senhor de Lovat, o regimento Fraser.
        Mas sem o nome do local de nascimento, ele no podia ter certeza de que esses fossem de verdade os mesmos homens da lista de Claire. Havia pelo menos seis 
John Fraser na relao de mortos e mesmo isso estava incompleto; os ingleses davam pouca ateno ao rigor ou  preciso - a maioria dos registros fora compilada 
depois do fato passado, por chefes de cls contando o nmero de presentes e verificando quem no voltara para casa. Muitas vezes, o prprio chefe do cl no retornara 
para casa, o que complicava a questo.
        Passou a mo com fora pelos cabelos num gesto de frustrao, como se massagear o couro cabeludo pudesse estimular o crebro. E se os trs nomes no fossem 
dos mesmos homens, o mistrio apenas se aprofundava. Cerca da metade do exrcito de Carlos Stuart fora massacrada em Culloden. E os homens de Lovat estavam no meio 
de tudo isso, bem no centro da batalha. Era inconcebvel que um grupo de trinta homens tivesse sobrevivido naquela posio sem nem uma baixa. Os homens do Senhor 
de Lovat uniram-se mais tarde  Revoluo; enquanto a desero predominara em outros regimentos, que j serviam h tempo suficiente para ter alguma idia do que 
os aguardava, os Fraser permaneceram excepcionalmente leais - e sofreram as conseqncias.
        Um sonoro barulho de buzina vindo de trs o assustou, tirando-o de sua concentrao, e ele saiu para o acostamento para deixar um caminho grande e apressado 
passar estrondando. Pensar e dirigir no eram atividades compatveis, concluiu. Acabaria esmagado contra um muro de pedra, se continuasse assim.
        Ficou sentado imvel por uns instantes, refletindo. Seu impulso natural era ir  pousada da sra. Thomas e dizer a Claire o que ele havia encontrado at agora. 
O fato de que isso pudesse significar mais alguns momentos na presena de Brianna Randall tornava a idia ainda mais atraente.
        Por outro lado, todos os seus instintos de historiador clamavam por mais dados. E no achava que Claire fosse a pessoa indicada para forneclos. No conseguia 
imaginar por que ela confiara aquela tarefa a ele e, ao mesmo tempo, por que atrapalhara a sua concluso fornecendo-lhe informaes erradas. No era sensato, e Claire 
Randall parecera-lhe uma pessoa eminentemente sensata.
        Ainda assim, havia aquele incidente com o usque. Seu rosto ficou afogueado com a lembrana. Tinha certeza de que ela agira de propsito - e como no era 
o tipo de pessoa que se desse a piadas prticas, sentia-se compelido a presumir que ela fizera aquilo para impedi-lo de convidar Brianna a Broch Tuarach. Ela queria 
mant-lo longe do lugar ou apenas impedi-lo de levar Brianna l? Quanto mais pensava no incidente, mais convencido ficava de que Claire Randall estava escondendo 
alguma coisa de sua filha, mas no conseguia imaginar o que poderia ser. Menos ainda podia imaginar que relao isso teria com ele ou com o projeto que assumira.
        Desistiria da tarefa, se no fosse por dois motivos. Brianna e simples curiosidade. Queria saber o que estava acontecendo e com toda a certeza pretendia 
descobrir.
        Batia levemente com o punho cerrado no volante, pensando, ignorando a precipitao dos veculos em trnsito. Finalmente, tomada a deciso, ligou o motor 
outra vez e retornou  estrada. Deu a volta no trevo seguinte e rumou para o centro da cidade de Inverness, para a estao de trem.
        O Escocs Voador poderia lev-lo a Edimburgo em trs horas. O curador responsvel pelos Arquivos Stuart fora um grande amigo do reverendo. E ele tinha uma 
pista para comear, por mais surpreendente que fosse. A relao dos nomes que integravam o regimento do Senhor de Lovat mostrava que esses trinta homens estavam 
sob o comando de um capito James Fraser - de Broch Tuarach. Esse homem era o nico elo aparente entre Broch Tuarach e os Fraser de Lovat. Perguntou-se por que James 
Fraser no constava da lista de Claire.
        O dia estava ensolarado; um acontecimento raro para meados de abril e Roger procurou aproveitar ao mximo, girando a manivela e abaixando a minscula janela 
do lado do motorista, para que o vento refrescante zumbisse pelo seu ouvido.
        Tivera que pernoitar em Edimburgo e voltar tarde no dia seguinte. Ficara to cansado da longa viagem de trem que fizera pouco mais do que tomar a sopa quente 
que Fiona insistira em preparar e logo em seguida desabar na cama. Hoje, no entanto, acordara com a energia e a determinao renovadas e, de carro, dirigira-se para 
a cidadezinha de Broch Mordha, prxima ao local onde ficava a propriedade chamada Broch Tuarach. Se sua me no queria que Brianna Randall fosse a Broch Tuarach, 
nada impedia que ele desse uma olhada no local.
        Ele realmente encontrou a prpria Broch Tuarach, ou assim presumia; havia uma enorme pilha de pedras desmoronadas, cercando o remanescente de uma das antigas 
"brochs" circulares, ou torres, usadas no passado distante tanto para moradia como para defesa. Seus conhecimentos de galico eram suficientes para saber que o nome 
significava "torre de frente para o norte" e perguntou-se distraidamente como uma torre circular pde receber tal denominao.
        Havia uma manso e construes anexas perto dali, tambm em runas, embora em muito melhor estado do que a torre. A placa de um agente imobilirio, quase 
ilegvel pela ao do tempo, permanecia pregada numa estaca perto do porto de entrada do ptio. Roger parou numa elevao, acima da casa, olhando ao redor.  primeira 
vista, no parecia haver nada que pudesse explicar o motivo de Claire querer impedir a filha de ir ao local.
        Estacionou o Morris no ptio de entrada e desceu do carro. Era um belo lugar, porm muito isolado; depois que sara da auto-estrada, levara aproximadamente 
quarenta e cinco minutos de cuidadosas manobras para conduzir seu Morris pela estrada rural, estreita e cheia de valas, sem danificar o tanque de leo.
        No entrou na casa; estava com certeza abandonada e provavelmente o estado precrio era perigoso - no haveria nada l dentro. Entretanto, o nome FRASER 
estava esculpido na verga acima da porta e o mesmo nome adornava a maioria das pequenas pedras tumulares no que devia ter sido o cemitrio da famlia - as que eram 
legveis. Isso no ajudava muito, refletiu. Nenhuma daquelas pedras ostentava os nomes dos homens da lista. Teria que prosseguir pela estrada; de acordo com o mapa 
rodovirio, a vila de Broch Mordha ficava a aproximadamente cinco quilmetros dali.
        Como temia, a igrejinha da vila cara em desuso e fora derrubada h muitos anos. Batidas persistentes nas portas provocaram olhares desinteressados, expresses 
avessas e finalmente uma especulao incerta de um fazendeiro idoso de que os antigos registros da parquia pudessem ter ido para o museu de Fort William, ou talvez 
at para Inverness; havia um ministro mais acima naquela direo que colecionava esses papis velhos.
        Cansado e empoeirado, mas no desencorajado, Roger arrastou-se de volta ao carro, abrigando-se no beco ao lado do pub da vila. Esse era o tipo de empecilho 
que freqentemente acometia a pesquisa histrica de campo e ele j estava acostumado. Um rpido caneco de cerveja - bem, dois, talvez, o dia estava extraordinariamente 
quente - e retomaria o caminho para Fort William.
        Seria bem feito para ele, refletiu amargamente, se no final das buscas, visse que os registros que procurava tinham estado o tempo todo nos arquivos do reverendo. 
Era o que dava negligenciar seu trabalho para sair  caa do impossvel s para impressionar uma garota. Sua viagem a Edimburgo pouco adiantara alm de servir para 
eliminar os trs nomes que encontrara na Casa Culloden; verificou-se que os trs homens eram provenientes de regimentos diferentes, no do grupo de Broch Tuarach.
        Os Arquivos Stuart ocupavam trs aposentos inteiros, bem como incontveis embalagens no subsolo do museu, de modo que ele dificilmente poderia dizer que 
fez um estudo completo. Ainda assim, encontrara uma segunda via de uma folha de pagamentos que vira na Casa Culloden, registrando o alistamento dos homens como parte 
de um regimento sob o comando geral do Senhor de Lovat - o filho da Velha Raposa, que teria sido o Jovem Simon. O velhaco dividira seu voto, Roger pensou; enviou 
o herdeiro para lutar pelos Stuart e ele prprio permaneceu em casa, alegando o tempo inteiro ter sido um sdito leal do rei Geordie. Pouco lhe adiantou.
        Esse documento registrava o Jovem Simon Fraser como comandante e no fazia nenhuma meno a James Fraser. Entretanto, um certo James Fraser era mencionado 
em inmeros despachos, memorandos e outros documentos do exrcito. Se fosse o mesmo homem, ele tinha sido bastante atuante na campanha. Ainda assim, apenas com o 
nome "James Fraser" era impossvel saber se era o mesmo de Broch Tuarach; James era um nome to comum nas Highlands quanto Duncan ou Robert. Em apenas um lugar havia 
um James Fraser relacionado com os nomes do meio, o que poderia ajudar a identificao, mas esse documento no fazia nenhuma meno a seus homens.
        Deu de ombros, espantando irritadamente uma nuvem repentina de pequeninos e vorazes mosquitos. Analisar esses registros de forma coerente levaria vrios 
anos. Sem conseguir afugentar os mosquitinhos, abaixou-se e entrou no ambiente escuro do pub, tpico de uma cervejaria, deixando-os girando em crculo do lado de 
fora, numa nuvem frentica de perplexidade.
        Bebericando a cerveja amarga e fresca, reviu mentalmente os passos que dera at ali e as opes que se abriam  sua frente. Ainda tinha tempo de ir a Fort 
William hoje, embora significasse voltar bem tarde a Inverness. E se Fort William no oferecesse nenhum resultado, ento uma boa varredura nos arquivos do reverendo 
seria o prximo passo lgico, embora irnico.
        E depois? Esvaziou o caneco das ltimas gotas de cerveja e fez um sinal para o proprietrio pedindo outro. Bem, se fosse necessrio, um passeio por todo 
cemitrio e adro de igreja nas vizinhanas de Broch Tuarach seria provavelmente o melhor que poderia fazer a curto prazo. Duvidava que as Randall fossem permanecer 
em Inverness nos prximos dois ou trs dias, pacientemente esperando os resultados.
        Enfiou a mo no bolso  procura de seu caderninho de notas, que  a marca registrada do historiador. Antes de deixar Broch Mordha, ele deveria ao menos dar 
uma olhada no que restou do antigo ptio de igreja. Nunca se sabe o que poderia ser encontrado e ao menos o pouparia de ter que voltar.
        Na tarde seguinte, as Randall foram tomar ch com Roger a seu convite, para ouvirem o relatrio de seus progressos.
        - Encontrei vrios dos nomes de sua lista - disse a Claire, conduzindo-as ao gabinete. -  muito estranho, mas ainda no encontrei nenhum que tenha com certeza 
morrido em Culloden. Achei que trs deles sim, mas constatei depois que eram outros homens com os mesmos nomes. Lanou um olhar  dra. Randall. Ela estava de p, 
absolutamente imvel, uma das mos agarradas com fora ao encosto de uma bergre, como se tivesse se esquecido de onde estava.
        - Ha, no quer se sentar? - Roger convidou e, com um pequeno sobressalto de surpresa, ela fez um sinal com a cabea e sentou-se abruptamente na borda da 
poltrona. Roger olhou-a intrigado, mas continuou, apanhando sua pasta com anotaes da pesquisa e entregando-a a Claire.
        - Como eu disse,  estranho. No consegui localizar todos os nomes. Acho que vou ter que fuar os registros paroquiais e os cemitrios prximos a Broch Tuarach. 
Encontrei a maioria desses registros entre os papis de meu pai. Mas seria de pensar que eu me deparasse com uma ou duas mortes em ao, pelo menos, considerando-se 
que todos estiveram em Culloden. Especialmente se, como voc disse, pertenciam a um dos regimentos Fraser; quase todos eles estiveram no centro da batalha, onde 
a luta foi mais demolidora.
        - Eu sei. - Alguma coisa em sua voz o fez voltar-se para ela, estarrecido, mas seu rosto ficou invisvel quando ela se curvou sobre a escrivaninha. A maioria 
dos registros eram cpias, feitas  mo pelo prprio Roger, j que a extica tecnologia de fotocpias ainda no chegara at o arquivo do governo que guardava os 
documentos de Stuart, mas havia algumas folhas originais, desenterradas do estoque de documentos do sculo XVIII do falecido reverendo Wakefield. Ela examinou os 
arquivos com delicadeza, tendo cuidado para no tocar no frgil papel mais do que o necessrio.
        - Tem razo,  mesmo estranho.
        Agora ele percebeu a emoo em sua voz - era agitao, mas misturada a satisfao e alvio. De algum modo, ela j esperava - ou torcia - por isso.
        - Diga-me... - Ela hesitou. - Os nomes que encontrou. O que aconteceu a eles, se no morreram em Culloden?
        Ficou ligeiramente surpreso que a questo parecesse to importante para ela, mas gentilmente pegou a pasta onde guardara suas anotaes de pesquisa e abriu-a.
        - Dois deles estavam na relao de passageiros de um navio; emigraram para a Amrica logo depois de Culloden. Quatro morreram de causas naturais cerca de 
um ano mais tarde. No  de admirar, houve uma terrvel fome depois de Culloden, e muita gente morreu nas Highlands. E esse aqui eu encontrei no registro de uma 
parquia, mas no a parquia de onde ele era oriundo. Mas tenho quase certeza de que se trata de um dos seus homens.
        Foi somente quando a tenso saiu dos ombros de Claire que ele notou que ela estivera tensa.
        - Quer que eu continue procurando os demais? - ele perguntou, esperanoso de que a resposta fosse "sim". Observava Brianna por cima do ombro da me. Estava 
parada junto  parede de cortia, parcialmente virada, como se no estivesse interessada no projeto de sua me, mas podia ver uma pequena ruga vertical entre suas 
sobrancelhas.
        Talvez pressentisse o mesmo que ele, o estranho ar de agitao contida que cercava Claire como um campo magntico. Ele o notara desde o instante em que ela 
entrara no aposento e suas revelaes apenas o aumentaram. Imaginava que, se a tocasse agora, uma grande fasca eltrica saltaria entre eles.
        Uma batida na porta do gabinete interrompeu seus pensamentos. A porta se abriu e Fiona Graham entrou, empurrando um carrinho de ch, inteiramente equipado 
com bule, xcaras, pequenos guardanapos de renda, trs tipos de sanduches, bolo de frutas com creme, po-de-l, tortinhas de gelia, bolinhos e manteiga caseira.
        - Huummm! - Brianna exclamou ao ver o carrinho. - Tudo isso  para ns ou voc est esperando mais dez pessoas?
        Claire Randall examinou os preparativos para o ch, sorrindo. O campo magntico ainda estava l, mas amortecido por um grande esforo. Roger podia ver uma 
de suas mos apertada com tanta fora nas dobras de sua saia que as bordas de sua aliana penetravam na pele.
        - Este ch est to completo que no vamos ter que comer durante semanas - disse. - Que maravilha!
        Fiona abriu um largo sorriso de contentamento. Ela era baixa, gorda e bonita como uma pequena galinha marrom. Roger suspirou por dentro. Embora estivesse 
satisfeito em poder oferecer hospitalidade a suas convidadas, tinha plena conscincia de que a natureza extravagante do lanche era destinada  sua apreciao, no 
 delas. Fiona, de dezenove anos, tinha uma premente ambio na vida. Casar-se. De preferncia com um profissional. Dera uma olhada em Roger quando ele chegou uma 
semana antes para cuidar dos assuntos do reverendo e decidira que um professor assistente de histria era a melhor perspectiva que Inverness oferecia.
        Desde ento, ele vinha sendo empanturrado como um ganso de Natal, seus sapatos eram engraxados, os chinelos e escova de dente guardados, a cama arrumada, 
o casaco escovado e o jornal da tarde comprado para ele e colocado ao lado do prato, o pescoo massageado quando ficava trabalhando em sua escrivaninha por longas 
horas e constantes perguntas feitas sobre seu conforto fsico, estado de esprito e sade em geral. Nunca antes fora exposto a tal bombardeio de prendas domsticas.
        Em resumo, Fiona estava enlouquecendo-o. Seu atual estado desgrenhado e com a barba por fazer era mais uma reao  sua perseguio implacvel do que um 
sinal do desleixo natural tpico dos homens temporariamente livres das exigncias do trabalho e da sociedade.
        A idia de estar unido a Fiona Graham pelos laos sagrados do matrimnio deixava-o enregelado at a medula. Ela o deixaria louco em um ano, com seu excesso 
de atenes. Alm disso, havia Branna Randall, agora fitando contemplativamente o carrinho de ch, como se no soubesse por onde comear.
        Mantivera sua ateno firmemente concentrada em Claire Randall e seu projeto, evitando olhar para sua filha. Claire Randall era adorvel, com o tipo de bela 
ossatura e pele translcida que a faria permanecer quase a mesma aos sessenta anos como era aos vinte. Mas olhar para Brianna Randall deixava-o ligeiramente ofegante.
        Ostentava o porte de uma rainha, e no era curvada como a maioria das mulheres altas. Notando as costas eretas e a postura graciosa de sua me, podia ver 
de onde vinha aquele atributo em particular. Mas no a altura extraordinria, a cascata de cabelos ruivos at a cintura, com reflexos dourados e acobreados, mechas 
cor de mbar e de canela, ondeando-se naturalmente em torno do rosto e dos ombros como um manto. Os olhos, de um azul to escuro que, dependendo da luz, at pareciam 
negros. Nem aquela boca larga e generosa, com o lbio inferior cheio, que convidava a beijos mordiscados e mordidas de paixo. Tudo isso deve ter vindo de seu pai.
        No geral, Roger sentia-se at satisfeito por seu pai no estar presente, j que sem dvida teria adotado uma indignao paternal diante do tipo de pensamentos 
que Roger estava cultivando; pensamentos que ele temia desesperadamente que se revelassem em seu rosto.
        - Ch, hein? - disse calorosamente. - Esplndido. Maravilhoso. Parece delicioso, Fiona. Ha, obrigado, Fiona. Eu, bem, acho que no precisamos de mais nada.
        Ignorando a deixa nada sutil para ir embora, Fiona balanou a cabea graciosamente em agradecimento aos elogios das convidadas, disps os guardanapos e xcaras 
com hbil economia de movimentos, serviu o ch, passou a primeira travessa de bolo e preparou-se para permanecer ali indefinidamente, presidindo a cerimnia como 
dona da casa.
        - Passe um pouco de manteiga em seus bolinhos, Rog... quero dizer, sr. Wakefield - sugeriu, espalhando-a nos bolinhos sem esperar por sua resposta. - Est 
magro demais, precisa se alimentar bem. - Olhou de maneira conspiratria para Brianna Randall, dizendo: - Sabe como so os homens; nunca comem direito se no tiverem 
uma mulher cuidando deles.
        - Que sorte ele ter voc para cuidar dele - Brianna respondeu educadamente.
        Roger respirou fundo e flexionou os dedos vrias vezes, at o mpeto de estrangular Fiona ter passado.
        - Fiona - ele disse. - Voc poderia, hum, poderia me fazer um pequeno favor?
        Ela iluminou-se como uma daquelas lanternas de abbora usadas no Dia das Bruxas, o sorriso aberto num esgar ansioso diante da idia de fazer alguma coisa 
por ele.
        - Claro, Rog... sr. Wakefield! Qualquer coisa!
        Roger sentiu-se um pouco envergonhado de si mesmo, mas afinal, argumentou, era para o bem dela tanto quanto para o dele. Se ela no sasse dali, em breve 
ele no conseguiria responder por seus atos e acabaria cometendo algum desatino do qual ambos se arrependeriam.
        - Ah, obrigado, Fiona. No  nada de especial;  que eu pedi um pouco de... de... - pensava freneticamente, tentando lembrar-se do nome de um dos comerciantes 
da vila - tabaco, da loja do sr. Buchan, na High Street. Voc poderia ir l peg-lo para mim? Adoraria usar meu cachimbo depois de um ch maravilhoso como este.
        Fiona j desamarrava o avental - um avental de rendas e babados, Roger notou com desagrado. Cerrou os olhos por um instante, aliviado, quando a porta do 
gabinete fechou-se atrs de Fiona, negligenciando por enquanto o fato de que ele no fumava. com um suspiro de alvio, voltou-se para retomar a conversa com suas 
convidadas.
        - Voc estava perguntando se eu queria que procurasse o resto dos nomes da minha lista - Claire disse, quase de imediato. Roger teve a estranha impresso 
de que ela compartilhava seu alvio com a sada de Fiona. - Sim, gostaria muito. Se no for muito trabalho.
        - No, no! Absolutamente - Roger disse, com uma ponta de falsidade. - com muito prazer.
        A mo de Roger pairou, indecisa, acima da variedade de opes no carrinho de ch, depois se abaixou para pegar a garrafa de cristal de usque Muir Breame 
de doze anos. Depois do entrevero com Fiona, achava que merecia um drinque.
        - Aceitam uma dose de usque? - perguntou s convidadas amavelmente. Notando a expresso de desagrado no rosto de Brianna, acrescentou rapidamente. - Ou 
ento um pouco de ch?
        - Ch - Brianna respondeu, aliviada.
        - No sabe o que est perdendo - Claire disse a sua filha, inalando os vapores do usque avidamente.
        - Ah, sim, eu sei - Brianna retrucou. -  por isso que estou recusando. - Encolheu os ombros e ergueu uma das sobrancelhas em direo a Roger.
        -  preciso ter vinte e um anos para beber legalmente em Massachusetts - Claire explicou a Roger. - Ainda faltam oito meses para Bri, de modo que ela realmente 
no est acostumada com usque.
        - Voc age como se fosse um crime no gostar de usque - Brianna protestou, sorrindo para Roger por cima da xcara de ch.
        Ele prprio ergueu as sobrancelhas em resposta.
        - Minha cara - disse com ar severo. - Estamos na Esccia.  claro que no gostar de usque  um crime!
        - Ah,  mesmo? - disse Brianna com doura, numa perfeita imitao do sotaque escocs ligeiramente arrastado de Roger. - Bem, esperrro que no seja um crrrime 
capital, cerrrto?
        Pego de surpresa, ele conteve uma risada enquanto engolia um trago do usque e engasgou-se. Tossindo e batendo no peito, olhou para Claire, compartilhando 
a piada. Um sorriso forado pairava nos lbios de Claire, mas seu rosto ficara completamente lvido. Ento, ela pestanejou, o sorriso voltou com mais naturalidade 
e o momento passou.
        Roger surpreendeu-se com a facilidade com que a conversa flua entre eles - tanto sobre trivialidades quanto em relao ao projeto de Claire. Brianna obviamente 
se interessara pelo trabalho do pai e sabia bem mais a respeito dos jacobitas do que sua me.
        -  surpreendente como conseguiram chegar at Culloden - ela disse.
        - Sabia que os homens das Highlands venceram a batalha de Prestonpans com menos de dois mil homens? Contra um exrcito ingls de oito mil? Incrvel!
        - Bem, e a Batalha de Falkirk tambm foi praticamente assim - Roger acrescentou. - Em menor nmero, com menos armas, marchando a p... era de supor que nunca 
conseguiriam fazer o que fizeram... mas conseguiram.
        - Hum, hum - disse Claire, tomando um grande gole de seu usque.
        - Conseguiram.
        - Estive pensando - Roger disse a Brianna, com um ar afetadamente descontrado. - Gostaria de vir comigo visitar alguns dos locais... campos de batalha e 
outros lugares? So interessantes e tenho certeza de que ajudaria muito na pesquisa.
        Brianna riu e ajeitou os cabelos para trs, j que pareciam ter a tendncia de cair em seu ch.
        - No sei quanto  ajuda, mas adoraria ir.
        - timo! - Surpreso e exultante por ela ter aceitado o seu convite, tentou pegar a garrafa de usque e quase a derrubou. Claire segurou-a agilmente e encheu 
seu copo com preciso.
        -  o mnimo que posso fazer, depois de t-lo derramado da ltima vez - disse, sorrindo em resposta aos agradecimentos de Roger.
        Vendo-a agora, tranqila e relaxada, Roger inclinava-se a duvidar de suas suspeitas anteriores. Teria sido apenas um acidente, afinal? Aquele rosto calmo 
e atraente nada revelava.
        Meia hora depois, a mesa de ch estava uma desordem, a garrafa de usque vazia e os trs sentados, compartilhando um estado de estupor de puro contentamento. 
Brianna remexeu-se uma ou duas vezes, olhou para Roger e por fim perguntou se poderia usar o lavabo.
        - Ah, o banheiro? Claro. - Ergueu-se com esforo, sentindo-se pesado de bolo de frutas e po-de-l de amndoas. Se no fugisse logo de Fiona, iria pesar 
cento e cinqenta quilos antes de voltar para Oxford.
        -  do tipo antigo - ele explicou, apontando para o fim do corredor, na direo do banheiro. - com uma caixa d'gua no teto e uma cordinha para puxar.
        - Vi umas assim no Museu Britnico - Brianna disse, balanando a cabea. - S que no faziam parte do acervo, estavam no toalete feminino. - Hesitou, depois 
perguntou: - Voc no tem o mesmo tipo de papel higinico que tem no Museu Britnico, tem? Porque nesse caso, tenho lenos-de-papel na bolsa.
        Roger fechou um dos olhos e olhou para ela com o outro.
        - Ou isso  uma estranha relao - disse - ou eu bebi muito mais do que pensava. - De fato, ele e Claire haviam dado conta do Muir Breame com muito sucesso, 
embora Brianna tivesse se limitado ao ch.
        Claire riu, ouvindo a conversa, e levantou-se para entregar a Brianna vrias folhas de lenos-de-papel que tirou de sua prpria bolsa.
        - No vai ser papel encerado gravado com "Propriedade do Governo de Sua Majestade", como o do Museu, mas  provvel que no seja muito melhor - disse  filha. 
- O papel higinico ingls geralmente  um tanto spero.
        - Obrigada. - Brianna pegou os lenos-de-papel e dirigiu-se para a porta, mas ento virou para trs. - Por que as pessoas haveriam de deliberadamente fazer 
um papel higinico que parecem uma lixa? - perguntou.
        - O corao de nossos homens  de carvalho - Roger entoou -, de ao inoxidvel  seu traseiro. Fortalece o carter nacional.
        - No caso dos escoceses, imagino que funcione como um anestesiante hereditrio dos nervos - Claire acrescentou. - O tipo de homem que pode montar um cavalo 
usando um kiut tem o traseiro duro como o couro de uma sela.
        Brianna deu uma risadinha chiada.
        - Detestaria ver o que usavam como papel higinico naquela poca - disse.
        - Na verdade, no era to ruim assim - Claire disse, causando surpresa. - As folhas do verbasco so realmente muito boas; quase to macias quanto lenos-de-papel 
de folha dupla. E no inverno ou dentro de casa, em geral usava-se um pedao de pano mido; no muito higinico, mas bastante confortvel.
        Roger e Brianna olharam-na boquiabertos por um instante.
        - Ha... li num livro - ela disse, ficando espantosamente vermelha. Enquanto Brianna, ainda contendo o riso, afastava-se  procura do banheiro, Claire permaneceu 
de p junto  porta.
        - Foi muita gentileza sua nos receber com tanta ateno - ela disse, sorrindo para Roger. A momentnea perturbao desaparecera, substituda por sua serenidade 
de costume. - E muita bondade ter descoberto o paradeiro daqueles nomes para mim.
        - Foi um prazer - Roger assegurou-lhe. - Uma boa alternativa s teias de aranha e bolas de naftalina. Eu a informarei assim que tiver descoberto mais alguma 
coisa a respeito dos seus jacobitas.
        - Obrigada. - Claire hesitou, olhou por cima do ombro e abaixou a voz. - Na verdade, agora que a Bri se ausentou um instante... h uma coisa que queria lhe 
pedir, em particular.
        Roger limpou a garganta e ajeitou a gravata que colocara em homenagem  ocasio.
        - Pea - ele disse, sentindo-se alegremente expansivo com o sucesso do ch. - Estou inteiramente ao seu dispor.
        - Voc perguntou  Bri se ela iria com voc fazer pesquisa de campo. Eu queria lhe pedir... h um lugar onde eu preferia que voc no a levasse, se no se 
importar.
        Sinais de alarme dispararam imediatamente na cabea de Roger. Iria descobrir o segredo sobre Broch Tuarach?
        - O crculo de pedras verticais que chamam de Craigh na Dun. - O rosto de Claire estava srio quando se inclinou um pouco mais perto de Roger. - H uma razo 
importante ou eu no lhe pediria. Eu mesma quero levar Brianna ao crculo, mas receio que no possa lhe contar por que no momento. Contarei, no devido tempo, mas 
no agora. Promete?
        Os pensamentos corriam cleres pela mente de Roger. Ento, no era de Broch Tuarach que ela queria manter a jovem distante, afinal de contas! Um dos mistrios 
estava esclarecido, apenas para dar lugar a outro ainda maior.
        - Se assim deseja - ele disse finalmente. -  claro.
        - Obrigada. - Ela tocou em seu brao, levemente, e virou-se para ir embora. Vendo sua silhueta recortada contra a luz, lembrou-se repentinamente de uma pergunta 
que queria lhe fazer. Talvez o momento no fosse o mais apropriado, mas no faria mal perguntar.
        - Ah, dra. Randall... Claire!
        Claire virou para ele. Sem Brianna por perto para desviar sua ateno, podia ver que Claire Randall era, ela mesma, uma mulher muito bonita. Seu rosto estava 
afogueado do usque e seus olhos possuam uma cor castanho-dourada muito peculiar, ele pensou - como mbar em cristal.
        - Em todos os registros que encontrei relativos a esses homens - Roger disse, escolhendo com cuidado as palavras -, havia meno a um certo capito James 
Fraser, que parece ter sido o lder. Mas ele no estava em sua lista. Fiquei pensando, voc tinha conhecimento dele?
        Ela ficou paralisada por um instante, fazendo-o lembrar a forma como se comportara quando chegara ali naquela tarde. Mas aps um instante, estremeceu ligeiramente 
e respondeu com aparente tranqilidade.
        - Sim, eu tinha conhecimento dele. - Falou calmamente, mas todo o sangue fugira de seu rosto e Roger pde notar uma palpitao rpida na base de sua garganta. 
- No o coloquei na lista porque eu j sabia o que aconteceu com ele. Jamie Fraser morreu em Culloden.
        - Tem certeza?
        Como se estivesse ansiosa para ir embora, Claire pegou sua bolsa e lanou um olhar ao corredor, em direo ao banheiro, onde o chocalhar metlico de uma 
maaneta antiga indicava os esforos de Brianna para sair.
        - Sim - respondeu, sem olhar para trs. - Absoluta certeza. Ah, sr. Wakefield... quero dizer, Roger. - Virou-se de repente, fixando nele aqueles olhos de 
cor estranha. Naquela luz, pareciam quase amarelos, pensou; os olhos de um felino, os olhos de um leopardo.
        - Por favor - disse -, no mencione Jamie Fraser  minha filha.
        Era tarde e h muito tempo deveria estar na cama, mas Roger via-se incapaz de dormir. Quer fosse por causa da irritao com Fiona, das intrigantes contradies 
de Claire Randall ou da euforia diante da perspectiva de fazer pesquisa de campo com Brianna Randall, ele estava totalmente desperto e com grandes possibilidades 
de assim permanecer. Em vez de debater-se, virar-se na cama ou contar carneirinhos, decidiu dar uma boa serventia  sua viglia. Uma busca minuciosa nos papis do 
reverendo provavelmente o faria dormir rpido.
        A luz do quarto de Fiona no final do corredor ainda estava acesa, mas ele desceu as escadas na ponta dos ps, para no perturb-la. Em seguida, acendendo 
a luz do gabinete, permaneceu parado por um instante, contemplando a magnitude da tarefa  sua frente.
        A parede de cortia exemplificava a mente do reverendo. Cobrindo inteiramente um dos lados do gabinete, era um enorme quadro de cortia que media cerca de 
cinco metros por sete. Rigorosamente nenhum pedacinho da cortia era visvel sob as camadas e camadas de papis, bilhetes, fotografias, folhas mimeografadas, contas, 
recibos, penas de pssaros, cantos rasgados de envelopes ostentando selos postais interessantes, etiquetas de endereos, chaveiros, cartes-postais, elsticos e 
outras parafernlias, tudo preso com tachas ou amarrado com pedaos de barbante.
        Havia alguns pontos onde as quinquilharias atingiam doze camadas de profundidade e, ainda assim, o reverendo sempre fora capaz de colocar o dedo certeiro 
no item que desejava. Roger achava que a parede devia ter sido organizada segundo algum princpio subjacente to sutil que nem os cientistas da NASA seriam capazes 
de discerni-lo.
        Roger fitou a parede com um olhar dbio. No havia um ponto lgico por onde comear. Estendeu a mo sem muita certeza para uma lista mimeografada das datas 
de reunio da Assemblia Geral, enviada pelo escritrio do bispo, mas sua ateno foi atrada pelo desenho a pastel de um drago, completo, com artsticos rolos 
de fumaa projetando-se das ventas fumegantes e chamas verdes lanando-se da boca escancarada.
        O nome ROGER estava escrito em letras maisculas grandes e irregulares no p da folha. Lembrou-se vagamente de ter explicado que o drago expelia fogo verde 
porque s comia espinafre. Deixou a lista da Assemblia Geral cair mais uma vez em seu lugar e afastou-se da parede. Podia cuidar daquela parte mais tarde.
        A escrivaninha, um mvel enorme, de carvalho, de tampo corredio, com pelo menos quarenta escaninhos abarrotados at a borda, era comparvel a uma torta 
com muito recheio. com um suspiro, Roger puxou a surrada cadeira de escritrio e sentou-se para organizar todos os documentos que o reverendo julgou que valia a 
pena guardar.
        Uma pilha de contas ainda a pagar. Outra de papis de carter oficial: documentos de automvel, relatrios de agrimensores, certificados de inspeo do prdio. 
Outra pilha para registros e anotaes histricas. Outra para lembranas familiares. E outra - sem dvida a maior de todas - de papis sem valor, a serem destinados 
ao lixo.
        Absorto em sua tarefa, no ouviu a porta abrir-se s suas costas nem passos aproximando-se. De repente, um grande bule de ch surgiu a seu lado na escrivaninha.
        - Hein? - Empertigou-se, pestanejando.
        - Achei que gostaria de um pouco de ch, sr. Wake... quero dizer, Roger. - Fiona colocou sobre a escrivaninha uma pequena bandeja com uma xcara e pires 
e um prato de biscoitos.
        - Ah, obrigado. - Estava realmente com fome e lanou um sorriso amistoso a Fiona, o qual provocou um repentino afluxo de sangue em suas faces claras e rechonchudas. 
Aparentemente encorajada com a reao dele, no se retirou, mas empoleirou-se na borda da escrivaninha, observando-o extasiada enquanto ele prosseguia em seu trabalho, 
entre bocados de biscoito de chocolate.
        Sentindo obscuramente que deveria reconhecer sua presena de alguma forma, Roger ergueu um biscoito parcialmente consumido e murmurou:
        - Muito bom.
        - Verdade? Fui eu mesma que fiz, sabe. - O vermelho das faces de Fiona acentuou-se. Uma garota atraente, Fiona. Pequena, arredondada, com cabelos escuros 
cacheados e grandes olhos castanhos. De repente viu-se imaginando se Brianna Randall saberia cozinhar e sacudiu a cabea para afastar a viso.
        Aparentemente tomando a reao como um gesto de descrena, Fiona inclinou-se mais para perto.
        - No,  verdade.  uma receita de minha av. Ela sempre disse que eram os preferidos do reverendo. - Os grandes olhos castanhos toldaram-se de leve. - Ela 
me deixou todos os seus livros de receita e seus pertences. Eu era a nica neta, sabe.
        - Lamento muito por sua av - Roger disse com sinceridade. - Foi rpido, no foi?
        Fiona balanou a cabea cheia de pesar.
        - Ah, sim. Em p como a chuva o dia inteiro, depois disse, aps o jantar, que se sentia um pouco cansada e subiu para deitar-se. - A jovem ergueu os ombros 
e deixou-os cair. - Dormiu e nunca mais acordou.
        - Uma boa maneira de ir embora - Roger disse. - Ainda bem. - A sra. Graham j era um patrimnio da casa antes mesmo da chegada de Roger, um garoto assustado, 
de cinco anos de idade, rfo h pouco tempo. J de meia-idade nessa poca e viva com filhos adultos, ainda assim lhe proporcionava um abundante e slido suprimento 
de afeto maternal, durante as frias escolares, quando Roger voltava  casa paroquial. Ela e o reverendo formavam um par estranho e, no entanto, haviam conseguido 
em definitivo transformar a velha casa num lar.
        Emocionado com suas lembranas, Roger estendeu o brao e apertou a mo de Fiona. Ela correspondeu, os olhos castanhos repentinamente enternecidos. A boca 
pequena e rsea abriu-se um pouco e ela inclinou-se em direo a Roger, o hlito quente em sua orelha.
        - Ah, obrigado - Roger falou inesperadamente. Retirou sua mo como se tivesse se queimado. - Muito obrigado. Pelo... o... ha, ch e tudo o mais. bom. Estava 
bom. Muito bom. Obrigado. - Ele virou-se e estendeu a mo apressado para pegar outra pilha de papis e disfarar o seu embarao, agarrando um rolo de recortes de 
jornais de um escaninho escolhido ao acaso.
        Desenrolou os recortes amarelados e espalhou-os sobre a escrivaninha, mantendo-os na posio com as palmas das mos. Franziu ostensivamente o cenho, como 
se estivesse em profunda concentrao, e inclinou ainda mais a cabea em cima do texto manchado. Aps um instante, Fiona levantou-se com um profundo suspiro e os 
seus passos recuaram em direo  porta. Roger no ergueu a cabea.
        Exalando um profundo suspiro, cerrou os olhos por alguns instantes e ofereceu uma pequena prece em agradecimento por ter escapado por um triz. Sim, Fiona 
era atraente. Sim, ela sem dvida era uma excelente cozinheira. Era tambm enxerida, intrometida, irritante e com idia fixa em casamento. Coloque a mo naquela 
pele rsea outra vez e no prximo ms j estariam publicando os proclamas. Mas se houvesse algum proclama a ser anunciado, o nome ligado a Roger Wakefield no registro 
da parquia seria o de Brianna Randall, se Roger pudesse ter alguma ingerncia.
        Perguntando-se quanta ingerncia ele realmente teria, Roger abriu os olhos e pestanejou. Pois ali, diante dele, estava o nome que visualizara num edital 
de casamento - Randall.
        No,  claro, Brianna Randall. Claire Randall. A manchete dizia DE VOLTA AO MUNDO DOS VIVOS. Embaixo, via-se uma foto de Claire Randall, vinte anos mais 
jovem, porm com praticamente a mesma aparncia atual, exceto a expresso em seu rosto. Fora fotografada sentada absolutamente ereta em sua cama de hospital, os 
cabelos desgrenhados e esvoaados, a boca delicada firmemente cerrada e aqueles olhos extraordinrios olhando direto para a cmera.
        com uma sensao de choque, Roger folheou rpido o mao de recortes, depois voltou para l-los com todo o cuidado. Embora os jornais tivessem tratado a histria 
com o maior sensacionalismo possvel, os fatos eram escassos
        Claire Randall, mulher do renomado historiador dr. Franklm W. Randall, desaparecera durante suas frias na Esccia, em Inverness, no final da primavera de 
1946. O carro que estava dirigindo foi encontrado, mas ela prpria desaparecera sem deixar vestgios. Todas as buscas foram inteis, a polcia e o desesperado marido 
concluram que Claire Randall fora assassinada, talvez por um mendigo errante, e seu corpo ocultado em algum lugar nos penhascos rochosos da rea.
        E em 1948, trs anos depois, Claire Randall havia retornado. Fora encontrada, desgrenhada e vestida de trapos, vagando perto do local de onde desaparecera. 
Embora aparentando estar em bom estado fsico, ainda que um pouco subnutrida, a sra. Randall parecia desorientada e confusa.
        Erguendo ligeiramente as sobrancelhas  idia de Claire Randall um dia ter estado confusa e incoerente, Roger folheou o resto dos recortes de jornais. Continham 
pouco mais do que a informao de que a sra. Randall estava sendo tratada por exposio ao tempo e choque no hospital da localidade. Havia fotografias do marido 
aparentemente radiante, Frank Randall. Ele parecia mais perplexo do que radiante, Roger pensou de modo crtico, no que algum pudesse culp-lo.
        Examinou as fotos com curiosidade. Frank Randall fora um homem esbelto, bonito, com um ar aristocrtico. Moreno, com uma beleza extravagante, que se evidenciava 
no ngulo de seu corpo, parado na porta do hospital, surpreendido pelo fotgrafo quando ia visitar sua mulher que acabara de ressurgir.
        Traou a linha do maxilar longo e estreito, a curva da cabea, e percebeu que buscava traos de Brianna em seu pai. Intrigado pelo pensamento, ergueu-se 
e apanhou um dos livros de Frank Randall da estante. Voltando-se para a sobrecapa do livro, encontrou uma fotografia melhor. Na sobrecapa, via-se o retrato de Frank 
Randall, colorido e de perto. No, os cabelos eram definitivamente castanho-escuros, e no ruivos. A gloriosa cabeleira flamejante devia ter vindo de um av ou av, 
junto com os olhos azul-escuros, rasgados como os de um gato. Eram lindos, mas em nada semelhantes aos de sua me. E tampouco como os de seu pai. Por mais que tentasse, 
no conseguia ver nada da deusa flamejante no rosto do famoso historiador.
        Com um suspiro, guardou o livro e juntou os recortes de jornais. Precisava realmente parar de sonhar acordado e dar prosseguimento ao trabalho, ou iria ficar 
sentado ali pelos prximos doze meses.
        Estava prestes a colocar os recortes na pilha de lembranas, quando um deles, com a manchete SEQESTRADA PELAS FADAS?, chamou sua ateno. Ou melhor, no 
o recorte, mas a data que aparecia logo acima da manchete: 6 de maio de 1948.
        Recolocou o recorte na pilha vagarosamente, como se fosse uma bomba que pudesse explodir em sua mo. Cerrou os olhos e tentou evocar a conversa anterior 
que tivera com as Randall. " preciso ter vinte e um anos para beber legalmente em Massachusetts", Claire dissera. "Ainda faltam oito meses para Brianna." Vinte, 
ento. Brianna Randall tinha vinte anos.
        Incapaz de contar para trs com suficiente rapidez, levantou-se e comeou a remexer no calendrio perptuo que o vigrio mantivera num espao livre s para 
ele na parede atulhada. Encontrou a data e ficou parado com o dedo pressionando-a, o sangue fugindo de seu rosto.
        Claire Randall retornara de seu misterioso desaparecimento desgrenhada, subnutrida, confusa... e grvida.
        Com o passar do tempo, Roger enfim conseguiu dormir, mas em conseqncia das horas insones, acordou tarde, com os olhos pesados e uma dor de cabea incipiente, 
que nem um banho frio nem a vivacidade de Fiona durante o caf da manh conseguiram dissipar
        A sensao era to opressiva que ele abandonou seu trabalho e saiu de casa para dar uma volta Caminhando sob uma chuva fina, viu que o ar fresco melhorara 
a dor de cabea, mas infelizmente clareara sua mente o suficiente para faz-lo comear a pensar outra vez sobre as implicaes da descoberta da noite anterior
        Brianna no sabia. Isso era bastante evidente, pelo modo como falava de seu falecido pai - ou sobre o homem que ela achava que era seu pai, Frank Randall. 
E presumivelmente Claire no queria que ela soubesse, ou ela prpria teria contado  jovem. A menos que esta viagem  Esccia tivesse o objetivo de ser um preldio 
a tal confisso. O pai verdadeiro devia ter sido um escocs, afinal, Claire desaparecera - e reaparecera - na Esccia. Ele ainda estaria aqui?
        Esse era um pensamento assombroso. Teria Claire trazido sua filha  Esccia a fim de apresent-la a seu verdadeiro pai. Roger sacudiu a cabea, duvidando. 
Terrivelmente arriscada, uma atitude dessas. Seria muito perturbadora para Brianna e extremamente dolorosa para a prpria Claire. Iria deixar o pai apavorado tambm 
E a garota era obviamente devotada a Frank Randall. Como iria se sentir, vendo que o homem que amara e idolatrara toda a sua vida afinal de contas no tinha nenhum 
lao de sangue com ela?
        Roger sentiu-se mal por todos os envolvidos, inclusive ele prprio. No pediu para ter nenhuma participao naquilo e gostaria de estar no mesmo estado de 
abenoada ignorncia de ontem. Gostava de Claire Randall, gostava muito dela, e achava detestvel o fato de ter cometido adultrio. Ao mesmo tempo, ele zombava de 
si mesmo por seu sentimentalismo antiquado. Quem saberia como era a sua vida com Frank Randall? Talvez tivesse tido uma boa razo para fugir com outro homem. Ento, 
por que teria voltado?
        Suando e deprimido, Roger voltou para casa. Tirou o casaco no corredor e subiu para tomar um banho. s vezes, o banho servia para acalmlo e ele sentia muita 
necessidade de ser reconfortado.
        Correu a mo pela fileira de cabides no closet, tateando em busca do ombro felpudo de seu velho roupo de banho branco. Ento, parando por um instante, enfiou 
a mo ainda mais para o fundo do armrio, arrastando os cabides ao longo do suporte at pegar o que queria.
        Examinou o surrado e antigo robe com ternura. A seda amarela do fundo desbotara para um tom de ocre, mas os paves multicoloridos continuavam to altaneiros 
como sempre, abrindo suas caudas com arrogante indiferena, fitando o observador com seus olhos como contas negras. Levou o tecido macio ao nariz e inalou profundamente, 
cerrando os olhos. O ligeiro perfume de Borkum Riffe usque derramado trouxeram de volta o reverendo Wakefield de uma maneira que nem mesmo a parede de quinquilharias 
de seu pai conseguira fazer.
        Muitas foram as vezes em que sentira exatamente aquele aroma reconfortante, com um toque inconfundvel de colnia Old Spice, seu rosto pressionado contra 
a seda macia e escorregadia, os braos gorduchos do reverendo envolvendo-o de modo protetor, prometendo-lhe refgio. Dera todas as outras roupas de seu pai para 
a Oxfam, mas por algum motivo no conseguiu abrir mo daquele robe.
        Num impulso, jogou o robe por cima dos ombros nus, um pouco surpreso com o seu leve calor, como a carcia de dedos por sua pele. Remexeu os ombros confortavelmente 
sob a seda, depois enrolou o robe bem apertado em torno do corpo, amarrando a faixa com um n frouxo.
        com o olhar atento a alguma apario sbita de Fiona, percorreu o corredor do andar superior em direo ao banheiro. O aquecedor de gua postava-se contra 
a cabeceira da banheira, como o guardio de uma fonte sagrada, acachapado e eterno. Outra de suas lembranas de juventude era o terror semanal de tentar acender 
o aquecedor com um acendedor de slex para esquentar a gua de seu banho - o gs escapando, passando por sua cabea com seu silvo ameaador, enquanto suas mos, 
ineficientes, suadas de medo de exploso e morte iminente, escorregavam no metal do acendedor.
        H muito tempo transformado em automtico por uma operao em seu misterioso interior, o aquecedor agora gorgolejava baixinho para si mesmo, o bocal do gs 
em sua base rugindo e soprando com a chama oculta sob a tampa de metal. Roger girou a torneira "quente" rachada at onde foi possvel, acrescentou uma meia-volta 
da torneira "fria", depois ficou de p diante do espelho para analisar-se enquanto esperava a banheira encher.
        Nada muito errado com ele, refletiu, encolhendo a barriga e empertigando-se diante do espelho de corpo inteiro pregado atrs da porta. Firme. Em boa forma. 
Pernas longas, mas no um varapau. Talvez um pouco magricela nos ombros? Franziu a testa com ar crtico, girando o corpo esbelto de um lado para o outro.
        Correu a mo pela espessa cabeleira negra, at ficar eriada como um pincel de barba, tentando visualizar-se com uma barba e cabelos compridos, como alguns 
de seus alunos. Ficaria com uma aparncia arrojada ou meramente antiquada? Talvez um brinco, j que estava pensando nisso. Ficaria com um ar de pirata, como Edward 
Teach ou Henry Morgan. Juntou as sobrancelhas e arreganhou os dentes.
        - Grrrrr - rosnou para a imagem refletida.
        - Sr. Wakefield - disse a imagem.
        Roger deu um pulo para trs, assustado, e bateu o dedo do p contra o protuberante p em forma de pata de animal da antiga banheira. -Ai!
        - O senhor est bem, sr. Wakefield? - o espelho perguntou. A maaneta de porcelana da porta chacoalhou.
        - Claro que estou! - retrucou com impacincia, lanando um olhar furioso para a porta. - V embora, Fiona, estou tomando banho!
        Ouviu-se uma risadinha do outro lado da porta.
        - Ooooh, dois em um nico dia. Algum est muito vaidoso, no? Quer um sabonete de essncia de louro? Est l no armrio, se quiser.
        - No, no quero - disse entre dentes. O nvel da gua alcanara o meio da banheira e ele fechou as torneiras. O silncio repentino era calmante e ele respirou 
fundo, inalando o vapor da gua. Contraindo-se um pouco diante da temperatura quente, entrou na gua e sentou-se cautelosamente, sentindo um leve suor comear a 
porejar em seu rosto conforme o calor percorria seu corpo.
        - Sr. Wakefield? - A voz estava de volta, trinando do outro lado da porta como um perturbador pintarroxo.
        - V embora, Fiona - disse, rangendo os dentes; em seguida, deixou-se afundar, recostando-se na banheira. A gua fumegante ergueu-se ao seu redor, reconfortante 
como os braos de uma amante. - Tenho tudo que preciso.
        - No, no tem - retorquiu a voz.
        - Tenho, sim. - Seus olhos varreram a impressionante coleo de frascos, vidros e apetrechos alinhados na prateleira acima da banheira. - Xampu, trs tipos. 
Condicionador. Creme de barbear. Barbeador. Sabonete para o corpo. Sabonete para o rosto. Loo ps-barba. Colnia. Desodorante. No me falta nada, Fiona.
        - E toalhas? - perguntou a voz, com um tom aucarado.
        Depois de uma olhadela desesperada pelos limites - completamente desprovidos de toalhas - do banheiro, Roger fechou os olhos, cerrou os dentes e contou at 
dez bem devagar. Vendo que no era suficiente, continuou contando at vinte. Depois, sentindo-se em condies de responder sem espumar pela boca, disse calmamente.
        - Est bem, Fiona. Coloque-as do lado de fora da porta, por favor. E depois, por favor... por favor, Fiona... v embora.
        A um rudo farfalhante do lado de fora sucedeu-se um som de passos afastando-se com relutncia e Roger, com um suspiro de alvio, entregou-se s alegrias 
da privacidade. Paz. Tranqilidade. Nenhuma Fiona.
        Agora, capaz de pensar mais objetivamente sobre a perturbadora descoberta, viu-se mais do que curioso sobre o real e misterioso pai de Brianna. A julgar 
pela filha, o homem deve ter tido um raro grau de beleza fsica; teria apenas isso sido suficiente para atrair uma mulher como Claire Randall?
        J se perguntara se o pai de Brianna teria sido um escocs. Vivia - ou teria vivido - em Inverness? Imaginou que tal proximidade devia explicar o nervosismo 
de Claire e o ar de quem guardava segredos. Mas explicaria os pedidos intrigantes que ela lhe fizera? No queria que ele levasse Brianna a Craigh na Dun nem que 
mencionasse o capito dos homens de Broch Tuarach a sua filha. Mas por que no?
        Um pensamento repentino o fez sentar-se ereto na banheira, negligentemente agitando e espirrando a gua contra as laterais de ferro fundido. E se ela no 
estivesse preocupada com o soldado jacobita do sculo XVIII, mas apenas com seu nome? E se o homem que dera vida a sua filha em 1947 tambm se chamasse James Fraser? 
Era um nome bastante comum nas Highlands.
        Sim, pensou, isso poderia muito bem explicar sua atitude. Quanto ao desejo de Claire de mostrar, ela prpria, o crculo de pedras a sua filha talvez tambm 
estivesse ligado ao mistrio de seu pai; talvez tenha sido l que ela conheceu o sujeito ou talvez tenha sido l que Brianna foi concebida. Roger sabia muito bem 
que o crculo de pedras era comumente usado como local de encontro; ele mesmo levara garotas l quando estava no colgio, confiando no ar de mistrio pago do crculo 
para relaxar a timidez de ambos. Sempre funcionava.
        Teve uma viso repentina e surpreendente das pernas alvas e elegantes de Claire Randall presas num abandono selvagem ao corpo nu, estendido, de um homem 
ruivo, os dois corpos escorregadios da chuva e sujos da grama esmagada, contorcendo-se em xtase entre as pedras verticais. A viso era to chocante em sua especificidade 
que o deixou trmulo, o suor escorrendo pelo peito para desaparecer na gua fumegante do banho.
        Meu Deus! Como iria poder fitar Claire Randall nos olhos na prxima vez em que se encontrassem? O que iria dizer a Brianna quanto a isso? "Leu algum livro 
interessante ultimamente?" "Viu algum filme bom?" "Voc sabe que  ilegtima?"
        Sacudiu a cabea, tentando clare-la. A verdade  que ele no sabia como agir em seguida. Era uma situao confusa. No queria ter nenhuma participao naquela 
histria, no entanto, ao mesmo tempo, queria.
        Gostava de Claire Randall; gostava de Brianna Randall, tambm - muito mais do que simplesmente gostar, para dizer a verdade. Queria proteg-la e evitar que 
tivesse qualquer sofrimento. No entanto, parecia no haver nenhuma maneira de conseguir isso. Tudo que podia fazer era ficar de boca fechada at que Claire Randall 
tivesse feito o que quer que tenha planejado. E ento estar por perto para juntar os pedaos.
        
        
        
3 - MES E FICHAS
        
        Imaginava exatamente quantas minsculas lojas de ch havia em Inverness. A High Street  alinhada, dos dois lados, por uma fileira de pequenos cafs e lojas 
para turistas, at onde a vista pode alcanar. Desde que a rainha Vitria tornou as Highlands seguras para os viajantes dando sua aprovao real ao lugar, os turistas 
tm afludo para o norte em bandos cada vez maiores. Os escoceses, desacostumados a receber qualquer coisa do sul que no fossem invases armadas e interferncia 
poltica, enfrentaram magnificamente o desafio.
        No se podia andar mais do que alguns metros pela rua principal de qualquer cidade das Highlands sem encontrar uma loja vendendo biscoitos amanteigados; 
rock de Edimburgo; lenos bordados com cardos; gaitas de foles de brinquedo; brases de cls de alumnio fundido; abridores de cartas na forma das antigas espadas 
escocesas de dois gumes; bolsinhas de moedas imitando as bolsas de plo que os escoceses usam na frente dos saiotes; e uma atordoante variedade de falsos tarts 
de cls, adornando cada objeto concebvel feito de tecido - de bons, gravatas e guardanapos at cuecas de nilon, daquelas com abertura em forma de Y invertido, 
feitas com um xadrez tipo "Buchanan", amarelo, particularmente horroroso.
        Examinando um sortimento de toalhas de ch pintadas com uma ilustrao terrivelmente malfeita do monstro do lago Ness cantando "Auld Lang Syne", pensei comigo 
mesma que Vitria era a responsvel por tudo aquilo.
        Brianna caminhava devagar pelo corredor estreito da loja, a cabea inclinada para trs enquanto fitava espantada a diversidade de mercadorias penduradas 
das vigas do teto.
        - Acha que so reais? - perguntou, apontando para cima, para um conjunto de chifres de veado presos numa armao, as pontas das galhadas enfiando-se com 
curiosidade por uma completa floresta de bordes de gaitas de foles.
        - Os chifres de veados? Ah, sim. No acredito que a tecnologia da indstria de plsticos j tenha atingido essa perfeio - respondi. - Alm do mais, veja 
o preo. Qualquer coisa acima de cem libras muito provavelmente  real.
        Os olhos de Brianna arregalaram-se e ela abaixou a cabea.
        - Nossa! Acho que, em vez disso,vou levar um pedao de tart para Jane fazer uma saia.
        - Um tart de l de boa qualidade no vai custar muito menos - eu disse secamente -, mas ser bem mais fcil de levar para casa no avio. Ento, vamos atravessar 
a rua at a loja do fabricante de kilts; eles tero a melhor qualidade.
        Comeara a chover -  claro -, e ns enfiamos nossos pacotes embrulhados em papel embaixo de nossas capas de chuva que eu prudentemente insistira que usssemos. 
Brianna achou graa.
        - A gente fica to acostumada a chamar essas capas emborrachadas de "mes" que at se esquece de como se chamam realmente. No me surpreende que tenha sido 
um escocs a invent-las - acrescentou, erguendo os olhos para a cortina de gua que caa da borda da marquise. - Aqui chove o tempo todo?
        - Praticamente - eu disse, olhando de um lado para o outro atravs do aguaceiro para os carros que se aproximavam. - Embora eu sempre tenha achado o sr. 
Macintosh um tipo um tanto pusilnime, a maioria dos escoceses que conheci eram relativamente impermeveis  chuva. - Mordi o lbio repentinamente, mas Brianna no 
notara o deslize, embora pequeno; examinava a enxurrada que corria pela sarjeta e que chegaria  altura do tornozelo.
        -vou lhe dizer uma coisa, mame, acho melhor irmos para o cruzamento. No vamos conseguir atravessar aqui, fora da faixa de pedestres.
        Anuindo com um movimento da cabea, segui-a rua acima, o corao batendo com a adrenalina embaixo da cobertura pegajosa da minha capa. Quando voc vai acabar 
com isso?, minha mente reclamava. No pode ficar policiando suas palavras e engolindo metade das frases que comea a dizer. Por que no contar a ela simplesmente?
        Ainda no, pensei comigo mesma. No sou covarde - ou se sou, isso no vem ao caso. Mas ainda no chegou exatamente a hora. Eu queria que ela conhecesse a 
Esccia primeiro. No esta parte - quando passamos por uma loja oferecendo uma ampla variedade de botinhas de tart para crianas -, mas o campo. E Culloden. Mais 
do que tudo, quero poder lhe contar o fim da histria. E para isso eu preciso de Roger Wakefield.
        Como se meus pensamentos o tivessem invocado e materializado, o teto laranja de um Morris surrado chamou minha ateno no estacionamento  esquerda, brilhando 
como uma baliza do trfego na chuva brumosa.
        Brianna tambm o vira - no podia haver muitos carros em Inverness naquele lamentvel estado e naquela cor especfica - e apontou para ele dizendo:
        - Olhe, mame, no  o carro de Roger Wakefield?
        - Sim, acho que  - eu disse. Havia um caf  direita, de onde o cheiro de pezinhos frescos, torradas e caf flutuava para a rua, misturando-se ao ar puro 
e chuvoso. Agarrei o brao de Brianna e puxei-a para dentro do caf
        - Acho que estou com fome - expliquei. - Vamos tomar chocolate quente com biscoitos
        Ainda criana o suficiente para se deixar tentar por chocolate e bastante jovem para estar disposta a comer a qualquer hora, Bri no protestou, mas sentou-se 
imediatamente e pegou a folha de papel verde manchada de ch que servia como o menu dirio.
        Eu no queria especificamente chocolate quente, mas precisava de um ou dois minutos para pensar. Havia uma grande placa na parede de concreto do estacionamento 
do outro lado da rua que dizia ESTACIONAMENTO EXCLUSIVO PARA A FERROVIA, seguido de vrias ameaas em letras minsculas quanto ao que aconteceria aos veculos das 
pessoas que estacionassem ali sem serem passageiros do trem A menos que Roger soubesse alguma coisa sobre as foras da lei e da ordem em Inverness que eu no sabia, 
as chances eram de que ele havia tomado um trem. Admitindo-se que ele tivesse ido a algum lugar, tanto podia ser Edimburgo quanto Londres. O pobre rapaz estava levando 
o projeto de pesquisa a srio.
        Ns mesmas havamos tomado o trem em Edimburgo. Tentei me lembrar do horrio dos trens, sem nenhum sucesso.
        - Ser que Roger voltar no trem da tarde? - Bri perguntou, fazendo eco a meus pensamentos de uma forma to surpreendente que me fez engasgar com o chocolate 
quente. O fato de ela estar pensando no reaparecimento de Roger me fez pensar em quanto ela estaria de fato interessada no jovem sr. Wakefield.
        Aparentemente, bastante.
        - Eu estava pensando - disse de modo casual -, talvez devssemos comprar alguma coisa para Roger Wakefield enquanto estamos na rua, como agradecimento pelo 
projeto que ele est pesquisando para voc.
        - Boa idia - eu disse, achando graa. - O que voc acha que ele gostaria?
        Ela franziu a testa enquanto tomava seu chocolate, como se buscasse inspirao.
        - No sei. Algo bonito, parece que esse projeto pode dar muito trabalho - Ergueu os olhos para mim subitamente, as sobrancelhas arqueadas. Por que pediu 
a ele? - ela perguntou. - Se queria localizar pessoas do sculo XVIII, h firmas que fazem isso. Mapas genealgicos e coisas assim, quero dizer. Papai sempre usava 
a Scot-Search, se tivesse que descobrir uma genealogia e no tivesse tempo de fazer ele mesmo.
        - Sim, eu sei - eu disse, respirando fundo. Estvamos pisando em areia movedia ali - Este projeto, era algo especial para... para o seu pai. Ele iria querer 
que Roger Wakefield cuidasse disso.
        - Ah. - Ela ficou em silncio por um instante, observando a chuva respingar e formar gotculas nas janelas do caf.
        - Voc sente falta do papai? - ela perguntou de repente, o nariz enfiado na xcara, as pestanas abaixadas para evitar olhar para mim.
        - Sim - eu disse. Corri o dedo indicador pela borda de minha prpria xcara, limpando um pingo de chocolate que havia derramado. - Ns nem sempre nos demos 
bem, voc sabe disso, mas. sim. Ns nos respeitvamos; isso vale muito. E gostvamos um do outro, apesar de tudo. Sim, eu sinto sua falta.
        Ela balanou a cabea, calada, e colocou a mo sobre a minha, apertando-a de leve. Envolvi meus dedos nos seus, longos e quentes, e ficamos ali sentadas, 
momentaneamente ligadas, tomando pequenos goles de chocolate quente em silncio.
        - Sabe - eu disse por fim, empurrando minha cadeira para trs com um rangido de metal sobre linleo -, tinha me esquecido de uma coisa. Preciso colocar uma 
carta no correio para o hospital. Pensei em fazer isso no caminho para a cidade, mas me esqueci. Se eu correr, acho que ainda pego o ltimo correio que sai hoje. 
Por que voc no vai indo para a loja de kilts?  logo ali mais abaixo na rua, na outra calada. Encontro-me com voc l depois que sair do correio, est bem?
        Bri pareceu surpresa, mas assentiu prontamente.
        - Ah OK. Mas o correio no fica longe daqui? Vai ficar encharcada
        - Tudo bem. Eu pego um txi.
        Deixei uma nota de uma libra na mesa para pagar o lanche e vesti a capa de novo.
        Na maioria das cidades, a reao costumeira dos txis  chuva  desaparecerem, como se fossem solveis em gua. Em Inverness, no entanto, tal comportamento 
acarretaria rpido a extino da espcie. Eu havia caminhado menos de um quarteiro quando encontrei dois txis pretos, pequenos e robustos, furtivamente emboscados 
na porta de um hotel. Entrei no interior aquecido, cheirando a tabaco, com uma aconchegante sensao de familiaridade. Alm do espao maior para as pernas e do conforto, 
os txis britnicos tinham um cheiro diferente dos txis americanos; uma dessas mincias que eu nunca percebera que sentira falta nesses ltimos vinte anos.
        - Nmero sessenta e quatro?  a velha casa paroquial, no ?
        Apesar da eficincia da calefao do carro, o motorista estava enrolado at as orelhas num cachecol e num casaco grosso, com um gorro achatado protegendo 
o topo de sua cabea das correntes de vento extraviadas. Os escoceses modernos haviam se tornado mais frgeis, refleti; muito diferentes da poca em que os vigorosos 
homens das Highlands dormiam nas urzes com nada alm de uma camisa e uma manta escocesa. Por outro lado, eu tambm no estava ansiosa para ir dormir nas urzes com 
uma manta mida. Fiz um sinal para o motorista com a cabea e partimos espadanando gua.
        Senti-me um pouco subversiva, fugindo sorrateiramente para entrevistar a governanta de Roger enquanto ele estava fora e, no processo, enganando Bri. Por 
outro lado, seria difcil explicar a qualquer um dos dois precisamente o que eu estava fazendo. No havia determinado ainda exatamente como ou quando eu lhes diria 
o que tinha a lhes dizer, mas eu sabia que ainda no havia chegado a hora.
        Meus dedos tatearam o interior do bolso da minha capa, tranqilizados pelo barulho do papel do envelope da Scot-Search. Embora eu no tivesse prestado muita 
ateno ao trabalho de Frank, eu conhecia a firma, que mantinha um quadro de meia dzia de pesquisadores profissionais especializados em genealogia escocesa; no 
o tipo de firma que lhe d uma rvore genealgica mostrando seu parentesco com um antigo rei da Esccia e ponto final.
        Eles haviam feito seu trabalho minucioso e discreto sobre Roger Wakefield. Eu sabia quem eram seus pais e avs, at a stima ou oitava gerao. O que eu 
no sabia era como ele era. O tempo me daria a resposta.
        Paguei a corrida e fui chapinhando pelo caminho inundado at os degraus da velha casa do reverendo. O prtico estava seco e, depois de ter tocado a campainha, 
tive a oportunidade de sacudir grande parte da gua da minha capa antes de a porta abrir.
        Fiona recebeu-me com um sorriso radiante; ela possua o tipo de rosto redondo, alegre, cuja expresso natural era sorridente. Vestia jeans e um avental cheio 
de babados, e o cheiro de detergente de limo e de fornadas de pes e biscoitos soprava de suas pregas como incenso.
        - Ora, sra. Randall! - exclamou. - Posso ajud-la de alguma forma?
        - Acho que talvez possa, Fiona - eu disse. - Queria conversar com voc sobre sua av.
        - Tem certeza de que est bem, mame? Eu poderia ligar para o Roger e pedir-lhe para irmos amanh, se quiser que eu fique aqui com voc. - Brianna pairava 
na soleira da porta do quarto da pousada, uma expresso de ansiedade na testa franzida. Estava vestida para caminhar, de botas, jeans e suter, mas acrescentara 
a esplndida echarpe de seda azul e laranja que Frank comprara para ela em Paris, pouco antes de sua morte h dois anos.
        "Exatamente da cor dos seus olhos, princesinha", ele dissera, sorrindo enquanto passava a echarpe em torno de seus ombros. Era uma brincadeira entre eles, 
o "princesinha", quando Bri ultrapassara os modestos um metro e setenta e sete centmetros de Frank aos quinze anos de idade. Entretanto, era assim que ele a chamava 
desde criana e a ternura do tratamento permaneceu mesmo quando ele passou a ter que erguer o brao para tocar a ponta do seu nariz.
        A parte azul da echarpe  que era na verdade da cor de seus olhos; cor dos lagos e dos cus de vero escoceses, e do azul-escuro de montanhas distantes. 
Eu sabia que ela adorava a echarpe e refiz minha avaliao de seu interesse em Roger Wakefield vrios pontos para cima.
        - No, euvou ficar bem - afirmei. Abanei a mo na direo da mesinha-de-cabeceira, adornada com um pequeno bule de ch, mantido aquecido com todo o cuidado 
com uma tampa de croch no bico, e um porta-torradas de prata, tambm cuidadosamente conservando as torradas.
        - A sra. Thomas me trouxe ch e torradas; talvez eu consiga comer um pouco mais tarde. - Esperava que ela no pudesse ouvir o ronco no meu estmago vazio 
embaixo das cobertas, registrando uma descrena perplexa diante dessa perspectiva.
        - Ento, est bem. - Virou-se relutante da porta. - Mas vamos voltar direto de Culloden.
        - No precisam se apressar por minha causa - eu disse enquanto ela se afastava.
        Esperei at ouvir o barulho da porta da rua se fechar e ter certeza de que ela j se fora. Somente ento enfiei a mo na gaveta da mesinha-de-cabeceira para 
pegar a enorme barra Hershey de chocolate com amndoas que escondera ali na noite anterior.
        Restabelecidas as relaes cordiais com meu estmago, recostei-me no travesseiro, preguiosamente observando a nvoa cinza se espessar no cu l fora. A 
ponta de um ramo florescente de tlia batia s vezes contra a vidraa; o vento estava aumentando. O quarto estava bem aquecido, com a sada da calefao central 
roncando ao p da cama, mas ainda assim estremeci. Estaria frio no Campo de Culloden.
        Talvez no to frio como estava em abril de 1746, quando o prncipe Carlos Eduardo conduziu seus homens quele campo, para se defrontarem com a congeladora 
mistura de chuva com neve e o rugido do fogo dos canhes ingleses. Os relatos da data informavam que o frio era cortante e que os escoceses feridos foram amontoados 
com os mortos, encharcados de chuva e sangue,  espera da compaixo dos conquistadores. O duque de Cumberland, no comando do exrcito ingls, no tivera nenhuma 
clemncia com os vencidos.
        Os mortos foram empilhados como lenha e queimados para impedir a disseminao de doenas e dizia-se que muitos dos feridos tiveram destino semelhante, sem 
a bno de um tiro de misericrdia. Todos eles jaziam agora alm do alcance da guerra ou do tempo, sob o gramado do Campo de Culloden.
        Eu vira o lugar uma vez, h quase trinta anos, quando Frank me levara at l em nossa lua-de-mel. Agora, Frank tambm estava morto e eu trouxera minha filha 
de volta  Esccia. Eu queria que Brianna conhecesse Culloden, mas nada no mundo me faria colocar os ps naquele lugar fatal outra vez.
        Achei melhor permanecer na cama, para manter a credibilidade na repentina indisposio que me impedira de acompanhar Brianna e Roger em sua expedio; a 
sra. Thomas podia dar com a lngua nos dentes se eu me levantasse e fizesse um pedido de almoo. Espiei dentro da gaveta; mais trs barras de doces e um romance 
policial. com sorte, me ajudariam a atravessar o dia.
        O romance era bastante bom, mas o zunido do vento cada vez mais forte do lado de fora era hipntico e o abrao da cama quente era acolhedor. Adormeci tranqilamente, 
para sonhar com homens das Highlands vestidos de kilt e o som aveludado de conversas em escocs, a fala macia puxando os "erres" em volta de uma lareira, como o 
zumbido de abelhas nas urzes.
        
        
        
4 - CULODEN
        
        Que carinha gorducha e malvada! - Brianna inclinou-se para espreitar fascinada o manequim de casaco vermelho ameaadoramente postado em um dos lados do saguo 
do Centro de Visitantes de Culloden. A figura tinha menos de um metro e sessenta, peruca empoada empurrada hostilmente para frente por cima da fronte baixa e bochechas 
cadas, pintadas de rosa.
        - Bem, ele era um sujeito baixo e gordo - Roger concordou, divertindo-se. - Mas um general e tanto, ao menos em comparao com seu elegante primo l do outro 
lado. - Abanou a mo indicando a figura mais alta de Carlos Eduardo Stuart do outro lado do saguo, o olhar fidalgo perdido ao longe, sob o chapu de veludo azul 
com sua fita branca, orgulhosamente ignorando o duque de Cumberland.
        - Era chamado de "Billy, o Carniceiro". - Roger indicou o duque, impassvel em suas calas brancas na altura dos joelhos e casaco coberto de gales dourados. 
- E com muita razo. Alm do que fizeram aqui - ele fez um gesto largo abrangendo toda a extenso do terreno verdejante l fora, agora sombreado pelas nuvens escuras 
no cu -, os homens de Cumberland foram responsveis pelo pior reinado de terror jamais visto nas Highlands. Perseguiram os sobreviventes da batalha, empurrando-os 
de volta para as montanhas, queimando e saqueando em seu caminho. Mulheres e crianas foram deixadas para morrer de fome e os homens abatidos onde estivessem, sem 
nenhuma preocupao de descobrir se haviam ou no lutado por Carlos. Um dos contemporneos do duque disse que "ele criava um deserto e chamava aquilo de paz". Acho 
que o duque de Cumberland ainda  bastante impopular por aqui.
        Isso era verdade; o curador do museu para os visitantes, um amigo de Roger, dissera-lhe que, enquanto a figura do prncipe Carlos era tratada com respeito 
reverente, os botes do casaco do duque eram sujeitos a freqentes desaparecimentos e a prpria figura era alvo de muitas piadas ofensivas.
        - Ele disse que uma vez chegou aqui mais cedo e, quando acendeu a luz, deparou-se com uma genuna adaga das Highlands enfiada na barriga de Sua Excelncia 
- Roger disse, balanando a cabea na direo do gordo homenzinho. - Disse que levou um tremendo susto.
        - Posso imaginar - Brianna murmurou, olhando para o duque com as sobrancelhas erguidas. - As pessoas ainda levam isso a srio?
        - Ah, sim. Os escoceses tm memria longa e no so um povo que perdoe com facilidade.
        - Verdade? - Olhou-o com curiosidade. - Voc  escocs, Roger? Wakefield no soa como um nome escocs, mas h alguma coisa na maneira como fala do duque 
de Cumberland... - Havia um sorriso quase imperceptvel no canto de sua boca e ele no tinha certeza se ela estava caoando dele, mas respondeu com toda a seriedade.
        - Ah, sim. - Sorriu. - Sou escocs. Wakefield no  meu verdadeiro nome, sabe. O reverendo me deu seu nome quando me adotou. Ele era tio de minha me. Quando 
meus pais morreram na guerra, ele me trouxe para viver com ele. Mas o meu nome original  MacKenzie. Quanto ao duque de Cumberland... - ele balanou a cabea na 
direo da janela de vidro laminado, atravs da qual os monumentos do Campo de Culloden eram perfeitamente visveis. - H uma lpide de cl l fora com o nome MacKenzie 
gravado e muitos parentes meus enterrados embaixo.
        Estendeu a mo e deu um piparote nas franjas de uma dragona dourada, deixando-a balanar-se.
        - No levo a questo a um nvel to pessoal quanto algumas pessoas, mas tambm no me esqueci. - Estendeu a mo para ela. - Vamos l fora?
        Estava frio do lado de fora, com rajadas de vento que aoitavam duas bandeiras militares esvoaando no alto de mastros fincados de cada um dos lados do terreno. 
Uma amarela, outra vermelha, assinalavam as posies dos dois comandantes atrs de suas tropas, esperando o desfecho da batalha.
        - Bem longe do caminho, pelo que vejo - Brianna observou secamente. - Sem nenhum perigo de estar na rota de uma bala perdida.
        Roger notou que ela tremia e puxou a mo em seu brao para junto do seu corpo, trazendo-a para mais perto. Pensou que iria explodir com a repentina onda 
de felicidade que o fato de toc-la lhe proporcionava, mas tentou disfarar refugiando-se num monlogo histrico.
        - Bem, era assim que os generais comandavam as tropas naquela poca, da retaguarda. Especialmente Carlos; fugiu em tamanha disparada no fim da batalha que 
deixou para trs seu conjunto de piquenique de prata de lei.
        - Um conjunto de piquenique? Ele trouxe um piquenique para a batalha?
        - Ah, sim. - Roger descobriu que ele gostava muito de ser escocs para Brianna. Em geral, esforava-se para modular o seu sotaque segundo o genrico "discurso 
de Oxbridge", de Oxford e Cambridge, que usava na universidade, mas agora estava deixando-o correr a rdeas soltas s para ver o sorriso que atravessava o rosto 
de Brianna ao ouvi-lo.
        - Sabe por que o chamavam de "Prince Charlie"? - Roger perguntou.
        - Os ingleses sempre acharam que era um apelido carinhoso, mostrando o quanto seus homens o amavam.
        - E no era?
        Roger sacudiu a cabea.
        - Na verdade, no. Seus homens o chamavam de prncipe Tcharlach - soletrou a palavra cuidadosamente - que  a forma galica de Charles. Tcharlach mac Seamus, 
"Charles, filho de James". Na realidade, muito formal e respeitoso. A questo  que Tcharlach em galico soa muito parecido com "Charlie" em ingls.
        Brianna riu.
        - Ento ele nunca foi "Bonnie Prince Charlie"?
        - No na poca. - Roger encolheu os ombros. - Agora ele , obviamente. Um desses pequenos erros histricos que  aceito como fato. H muitos iguais a esse.
        - E voc  um historiador! - Brianna disse, com ar de troa. Roger sorriu ironicamente.
        -  por isso que eu sei.
        Prosseguiram devagar pelos caminhos de cascalhos que atravessavam o campo de batalha, Roger indicando as posies dos diferentes regimentos que haviam lutado 
ali, explicando a ordem de batalha, recontando pequenas anedotas dos comandantes.
        Enquanto caminhavam, o vento amainou e o silncio do campo comeou a se afirmar. Gradualmente, a conversa entre eles tambm cessou, at trocarem apenas algumas 
palavras de vez em quando, em voz baixa, quase sussurrando. O cu estava carregado e cinzento de nuvens de horizonte a horizonte e tudo sob sua abbada parecia emudecido, 
restando apenas o murmrio das plantas da charneca falando com as vozes dos homens que as alimentavam.
        - Este  o lugar denominado "Poo da Morte". - Roger inclinou-se junto  pequena fonte. No cobrindo sequer uma rea de trinta centmetros de lado, era um 
laguinho de gua escura, brotando de baixo de uma formao rochosa. - Um dos chefes escoceses morreu aqui. Seus seguidores lavaram o sangue de seu rosto com a gua 
desta fonte. E l esto os tmulos dos cls.
        As pedras tumulares dos cls eram grandes rochas de granito cinza, arredondadas pelo tempo e manchadas de liquens. Estavam assentadas em lotes de grama lisa 
e macia, espalhadas por uma grande extenso na borda do terreno. Cada uma ostentava um nico nome, o entalhe to desgastado pelo tempo que se tornaram quase ilegveis 
em alguns casos. MacGillivray. MacDonald. Fraser. Grant. Chisholm. MacKenzie.
        - Olhe - Brianna disse, quase num sussurro. Apontou para uma das pedras. Um punhado de galhos finos, cinza-esverdeado, jazia ali; algumas das primeiras flores 
da primavera misturavam-se, murchas, aos pequenos galhos.
        - Urzes - Roger disse. - So mais comuns no vero, quando florescem. Ento, voc v montculos como esse diante da pedra de cada cl. Roxas e, aqui e ali, 
um galho de urze branca. O branco significa sorte e tambm majestade, realeza; era o emblema de Carlos, ela e a rosa branca.
        - Quem as coloca ali? - Brianna agachou-se sobre os tornozelos junto ao caminho, tocando os galhos delicadamente.
        - Visitantes. - Roger agachou-se a seu lado. Correu o dedo pelas letras desgastadas na pedra, FRASER. - Descendentes das famlias dos homens que foram mortos 
aqui. Ou simplesmente aqueles que gostam de lembr-los.
        Ela olhou-o de esguelha, os cabelos esvoaando ao redor de seu rosto.
        - Voc j fez isso?
        Ele abaixou os olhos, sorrindo para as mos soltas entre os joelhos.
        - J. Suponho que seja muito sentimental, mas fao isso, sim. Brianna voltou-se para o bosque cerrado de plantas da charneca que ladeava o caminho no outro 
lado.
        - Mostre-me qual  a urze - ela disse.
        No caminho de volta para casa, a melancolia de Culloden dispersou-se, mas a sensao de sentimentos compartilhados permaneceu, e eles conversaram e riram 
juntos como velhos amigos.
        - Que pena que mame no pde vir conosco - Brianna observou quando entraram na rua da pousada.
        Embora gostasse muito de Claire Randall, Roger no concordava absolutamente que era uma pena que ela no tivesse vindo com eles. Trs, ele pensou, teria 
sido uma multido, com certeza. Mas emitiu um grunhido evasivo e pouco depois perguntou:
        - Como est sua me? Espero que no esteja seriamente doente.
        - Ah, no,  apenas uma indisposio estomacal; ao menos, foi o que ela disse. - Brianna franziu o cenho consigo mesma por um instante, depois voltou-se 
para Roger, colocando a mo de leve sobre sua perna. Ele sentiu os msculos estremecerem do joelho  virilha e teve uma grande dificuldade de prestar ateno ao 
que ela dizia. Ainda falava de sua me.
        - ...Acho que ela est bem - concluiu. Sacudiu a cabea e o brilho do cobre cintilou das ondulaes dos seus cabelos, mesmo  luz turva do carro. - No sei. 
Ela parece muito preocupada. No exatamente doente,  mais como se estivesse preocupada com alguma coisa.
        Roger sentiu um peso repentino na boca do estmago.
        - Mrnmhum - ele disse. - Talvez por estar afastada do seu trabalho. Tenho certeza de que vai ficar tudo bem. - Brianna sorriu para ele com gratido quando 
pararam em frente  pequena casa de pedras da sra. Thomas.
        - Foi maravilhoso, Roger - ela disse, tocando levemente em seu ombro. - Mas no havia muita coisa l para ajudar no projeto da mame. Posso ajud-lo a colocar 
a mo na massa?
        Roger sentiu o esprito consideravelmente mais leve e sorriu para ela.
        - Acho que isso pode ser arranjado. Quer vir amanh e dar uma busca na garagem comigo? Se o que voc quer  sujar-se, dificilmente vai conseguir algo mais 
apropriado.
        - timo. - Ela sorriu, apoiando-se no carro para voltar a olhar para dentro. - Talvez mame queira ir ajudar tambm.
        Ele sentiu os msculos do rosto se retesarem, mas continuou sorrindo galhardamente.
        - Certo - disse. - timo. Assim espero.
        Na verdade, Brianna foi sozinha  casa paroquial no dia seguinte.
        - Mame est na biblioteca pblica - ela explicou. - Consultando velhos catlogos telefnicos. Ela est tentando localizar algum que conhecia.
        O corao de Roger deu um pequeno salto diante do que ouviu. Ele verificara o catlogo telefnico do reverendo na noite anterior. Havia trs entradas locais 
para o nome "James Fraser" e mais duas com o primeiro nome diferente, mas a inicial do meio "J".
        - Bem, espero que ela o encontre - disse, ainda tentando parecer descontrado. - Tem certeza de que quer ajudar?  um trabalho maante e sujo. - Roger olhou 
em dvida para Brianna, mas ela balanou a cabea confirmando, nem um pouco aflita diante da perspectiva.
        - Eu sei. Eu costumava ajudar meu pai s vezes, vasculhando registros antigos e procurando notas de rodap. Alm do mais, o projeto  da mame; o mnimo 
que posso fazer  ajud-lo com ele.
        - Est bem. - Roger abaixou os olhos para sua camisa branca. Deixe-me trocar de roupa e iremos dar uma olhada.
        A porta da garagem rangeu, gemeu, ento se rendeu ao inevitvel e enroscou-se subitamente para cima, entre guinchos agudos de molas e nuvens de poeira.
        Brianna abanou as mos para frente e para trs diante do rosto, tossindo.
        - Credo! - exclamou. - Quanto tempo faz que a ltima pessoa entrou neste lugar?
        - Sculos, imagino. - Roger respondeu distraidamente. Passeou a lanterna pelo interior da garagem, iluminando por breves instantes pilhas de caixas de papelo 
e engradados de madeira, antigos bas de viagens de navio salpicados de etiquetas descascadas e fardos amorfos cobertos com lona. Aqui e ali, pernas de mveis viradas 
para cima despontavam na obscuridade como os esqueletos de pequenos dinossauros projetando-se de suas formaes rochosas nativas.
        Havia uma espcie de fresta no entulho; Roger foi avanando lentamente nessa direo e logo desapareceu em um tnel delimitado por sombras e poeira, seu 
progresso foi assinalado pelo plido crculo de luz de sua lanterna,  medida que surgia intermitentemente no teto. Finalmente, com um grito de triunfo, agarrou 
a ponta de uma corda pendurada acima dele e de repente a garagem foi iluminada pelo claro de uma enorme lmpada.
        - Por aqui - Roger disse, reaparecendo bruscamente e puxando Brianna pela mo. - H uma espcie de clareira nos fundos.
        Havia uma mesa antiga encostada na parede dos fundos. Talvez originalmente a pea central da sala de jantar do reverendo Wakefield, evidentemente sofrera 
diversas e sucessivas encarnaes como mesa de cozinha, bancada de ferramentas, cavalete de serrador e mesa de pintura, antes de ir repousar naquele santurio empoeirado. 
Acima da mesa, havia uma janela recoberta de teias de aranha, atravs da qual uma claridade turva incidia sobre a superfcie retalhada e manchada de tinta.
        - Podemos trabalhar aqui - Roger disse, arrancando um banquinho da confuso e limpando-o superficialmente com um grande leno. - Sente-se e euvou ver se 
consigo abrir um pouco a janela; caso contrrio, vamos ficar sufocados aqui dentro.
        Brianna assentiu, mas, em vez de sentar-se, comeou a cutucar com curiosidade as pilhas de entulho mais prximas, enquanto Roger empurrava a armao empenada 
da janela. Ele podia ouvi-la s suas costas, lendo as etiquetas em algumas das caixas.
        - Aqui  de 1930 a 33 - disse. - Raqui de 1942 a 46. O que so?
        - Dirios - Roger disse, grunhindo enquanto escorava os cotovelos no peitoril imundo da janela. - Meu pai, quero dizer, o reverendo, sempre mantinha um dirio. 
Atualizava-o toda noite aps o jantar.
        - Parece que ele encontrou muitas coisas sobre as quais escrever. Brianna iou e trouxe para baixo vrias caixas, empilhando-as ao lado, a fim de inspecionar 
a camada seguinte. - Aqui est um monte de caixas com nomes nas etiquetas: "Kerse", "Livingston", "Balnain". Paroquianos?
        - No. Vilas. - Roger interrompeu seus esforos por uns instantes, arquejante. Limpou a testa, deixando uma listra de sujeira ao longo da manga da camisa. 
Felizmente, ambos vestiam roupas velhas, adequadas para remexer na imundcie. - So anotaes sobre a histria de vrias vilas das Highlands. Algumas dessas caixas, 
na verdade, acabaram como livros; voc pode encontr-los em algumas lojas para turistas pelas Highlands.
        Ele virou-se para um quadro de onde pendia uma variedade de ferramentas dilapidadas e selecionou uma enorme chave de fenda para ajud-lo em seu ataque  
janela.
        - Procure as que dizem "Registros Paroquiais" - ele aconselhou. - Ou as que tm nomes de vilas na regio de Broch Tuarach.
        - No conheo nenhuma das vilas da regio - Brianna ressaltou.
        - Ah, sim, ia me esquecendo. - Roger enfiou a ponta da chave de fenda entre as bordas da esquadria da janela, escavando sem piedade as muitas camadas de 
pintura antiga. - Procure os nomes de Broch Mordha... humm, Mariannan e... oh, St. Kilda. H outras, mas sei que essas tinham igrejas razoavelmente grandes que foram 
fechadas ou demolidas.
        - OK. - Afastando uma aba solta de lona, Brianna de repente deu um salto para trs com um grito agudo.
        - O qu? O que foi? - Roger girou-se imediatamente na direo de Brianna, a chave de fenda em riste.
        - No sei. Alguma coisa saiu correndo quando toquei na lona - disse Brianna, apontando, e Roger abaixou sua arma, aliviado.
        - Ah, isso? Um camundongo, provavelmente. Talvez um rato.
        - Um rato! H ratos aqui? - A agitao de Brianna era visvel.
        - Bem, espero que no, porque se houver, tero comido os registros que estamos procurando - Roger retrucou. Entregou-lhe a lanterna. Tome, ilumine qualquer 
canto escuro; ao menos, no ser pega de surpresa.
        - Muito obrigada. - Brianna aceitou a lanterna, mas continuou olhando as pilhas de caixas com alguma relutncia.
        - Bem, ento, prossiga - Roger disse. - Ou vai querer que eu declame uma stira do rato agora mesmo?
        O rosto de Brianna iluminou-se num largo sorriso.
        - Uma stira do rato? O que  isso?
        Roger adiou sua resposta, o tempo suficiente para uma nova tentativa de abrir a janela. Empurrou at sentir os bceps forando o tecido das mangas da camisa, 
mas finalmente, com um guincho agudo, a janela cedeu e uma revigorante corrente de ar fresco soprou para dentro da garagem pela abertura de quinze centmetros que 
ele criara.
        - Nossa, assim  bem melhor. - Ele se abanou exageradamente, rindo para Brianna. - Bem, vamos continuar?
        Ela entregou-lhe a lanterna e recuou um passo.
        - Que tal voc encontrar as caixas e eu examin-las? E o que  uma stira do rato?
        - Covarde - ele disse, curvando-se para inspecionar embaixo da lona.
        - Uma stira do rato  um antigo costume escocs; se houvesse ratos ou camundongos em sua casa no celeiro, voc podia fazer com que fossem embora compondo 
um poema, ou cantando, para dizer aos ratos como a comida era pouca onde eles estavam e como era boa em algum outro lugar. Voc lhes dizia para onde deveriam ir 
e como chegar l. Acreditava-se que, se a stira fosse bastante boa, eles iriam embora.
        Ele puxou uma caixa com a etiqueta JACOBITAS, MISCELNEA e carregou-a para a mesa, cantando:
        Vocs ratos, so muitos e demais,
        E se querem jantar mais,
        Vocs tm que sair, tm que sair.
        Largando a caixa sobre a mesa com um baque surdo, fez uma mesura em resposta  risada de Brianna e voltou para as pilhas, continuando numa voz retumbante:
        Vo para a horta dos Campbell, Onde no h nenhum gato na linha E a couve cresce verdinha.
        Vo e encham a pana,
        No fiquem aqui comendo minhas galochas.
        Vo embora, ratos, vo!
        Brianna deu uma risada resfolegante, divertindo-se.
        - Voc acabou de inventar isso?
        - Claro. - Roger depositou outra caixa sobre a mesa com um floreio.
        - Uma boa stira do rato sempre deve ser original. - Lanou um olhar s compactas fileiras de caixas de papelo. - Depois dessa atuao, no deve haver mais 
nenhum rato num raio de quilmetros deste lugar.
        - timo. - Brianna retirou um canivete do bolso e cortou a fita adesiva que fechava a caixa mais alta. - Voc devia cantar uma dessas l na pousada; mame 
diz que tem certeza que h camundongos no banheiro. Alguma coisa roeu sua caixa de sabonete.
        - S Deus sabe o que seria preciso para desalojar um camundongo capaz de comer sabonete; est muito alm dos meus frgeis poderes, eu acho. - Rolou um pufe 
esfarrapado de trs de uma pilha oscilante de enciclopdias obsoletas e deixou-se cair pesadamente ao lado de Brianna. - Tome, fique com os registros das parquias, 
so um pouco mais fceis de ler.
        Trabalharam a manh inteira num agradvel companheirismo, descobrindo de vez em quando uma passagem interessante, uma ou outra traa e recorrentes nuvens 
de p, mas quase nada de valor para o projeto em questo.
        -  melhor pararmos para almoar - Roger disse finalmente. Sentia uma forte relutncia em entrar de novo na casa, onde mais uma vez ficaria  merc de Fiona, 
mas o estmago de Brianna comeou a roncar quase to alto quanto o dele prprio. - OK. Podemos trabalhar mais um pouco depois de comermos, se voc no estiver exausta. 
- Brianna levantou-se e espreguiou-se, seus punhos fechados quase tocando as vigas do teto da velha garagem. Ela limpou as mos nas pernas da cala jeans e mergulhou 
pelo meio das pilhas de caixas.
        - Ei! - Ela parou de repente, perto da porta. Roger, atrs dela, teve que estancar bruscamente, o nariz quase tocando a sua cabea.
        - O que foi? - perguntou. - Outro rato? - Observou com aprovao que o sol iluminava sua trana espessa com reflexos de cobre e ouro. com uma pequena aurola 
dourada de poeira ao seu redor e a luz do sol do meio-dia recortando a silhueta do perfil de nariz longo, ele achou que ela parecia bem medieval; Nossa Senhora dos 
Arquivos.
        - No. Olhe isso, Roger! - Ela apontou para uma caixa de papelo no meio de uma pilha. Na lateral, na escrita forte e preta do reverendo, via-se uma etiqueta 
com uma nica palavra: "Randall".
        Roger sentiu uma estocada, um misto de empolgao e apreenso. O entusiasmo de Brianna era puro.
        - Talvez tenha o que estamos procurando! - exclamou. - Mame disse que era algo em que meu pai estava interessado. Talvez ele ja tivesse consultado o reverendo.
        -  possvel. - Roger refreou a sensao repentina de terror que o acometeu  vista do nome na etiqueta. Ajoelhou-se para retirar a caixa. - Vamos lev-la 
para dentro de casa. Podemos examin-la depois do almoo.
        A caixa, uma vez aberta no gabinete do reverendo, continha uma estranha miscelnea. Havia velhas cpias xerocadas de pginas de diversos registros paroquiais, 
duas ou trs listas de chamada do exrcito, vrias cartas e papis dispersos, um caderno de notas pequeno e fino, encadernado em papelo cinza, um mao de fotografias 
antigas, enrolando-se nas pontas, e uma pasta dura, com o nome "Randall" gravado na capa.
        Brianna pegou a pasta e abriu-a.
        - Ora, veja s,  a rvore genealgica do papai! - exclamou. - Olhe. -assou a pasta a Roger. Dentro, viam-se duas folhas de pergaminho grosso, com as linhas 
da descendncia cuidadosamente traadas horizontalmente e para baixo. O ano de incio era 1633; a ltima entrada, ao p da segunda folha, dizia:
        Frank Wolverton Randall casa-se com Claire Elizabeth Beauchamp, 1937.
        - Feita antes de voc nascer - Roger murmurou.
        Brianna espreitou por cima de seu ombro conforme seu dedo percorria lentamente as linhas do mapa genealgico.
        - J vi isso antes; papai tinha uma cpia em seu gabinete. Costumava mostr-la para mim o tempo todo. A dele, entretanto, tinha meu nascimento no fim. Esta 
deve ser uma cpia antiga.
        - Talvez o reverendo tenha feito um pouco de pesquisa para ele. - Roger devolveu a pasta a Brianna e pegou um dos papis da pilha sobre a mesa. - Bem, aqui 
est uma verdadeira relquia de famlia para voc - ele disse. E percorreu com o dedo o braso de armas gravado em alto-relevo no alto da folha. - Uma carta patente, 
assinada por Sua Majestade, o rei Jorge II.
        - Jorge Segundo? Nossa, isso foi antes at da Revoluo Americana.
        - Bem antes. Data de 1735. Em nome de Jonathan Wolverton Randall. Conhece o nome?
        - Sim. - Brianna balanou a cabea, fiapos soltos de cabelo caam sobre seu rosto. Alisou-os para trs despreocupadamente e pegou a carta. De vez em quando 
papai falava sobre ele; um dos seus poucos ancestrais que ele conhecia bem. Era capito no exrcito que lutou contra o prncipe Carlos Eduardo em Culloden. - Ergueu 
os olhos para Roger, piscando.
        - Na verdade, acho que foi morto nessa batalha. Mas no teria sido enterrado l, no ?
        Roger sacudiu a cabea.
        - Creio que no. Foram os ingleses que limparam o local depois da batalha. Despacharam a maioria de seus mortos de volta para casa para serem enterrados; 
os oficiais, pelo menos.
        Foi impedido de continuar suas observaes pela sbita apario de Fiona no vo da porta, segurando um espanador de penas como um estandarte de batalha.
        - Sr. Wakefield - chamou. - Est a o homem que veio para levar a caminhonete do reverendo, mas ele no consegue dar partida no motor. Ele pergunta se pode 
lhe dar uma mozinha.
        Roger levantou-se, sentindo-se culpado. Levara a bateria a uma oficina para test-la e ela ainda estava no banco de trs de seu prprio Morris. No era de 
admirar que a caminhonete do reverendo no quisesse pegar.
        - Vou ter que ir l resolver isso - disse a Brianna. - Talvez demore um pouco.
        - Tudo bem. - Sorriu para ele, os olhos azuis estreitando-se. - Devo ir tambm. Mame j deve ter voltado. Pensamos em ir a Clava Cairns, se desse tempo. 
Obrigada pelo almoo.
        - O prazer foi todo meu. E de Fiona. - Roger lamentou no poder oferecer-se para acompanh-la, mas o dever o chamava. Lanou um olhar  papelada espalhada 
sobre a escrivaninha, depois juntou tudo e depositou de volta na caixa.
        - Pronto - disse. - Todos os registros de sua famlia esto aqui. Leve com voc. Talvez sua me esteja interessada.
        - Verdade? Bem, obrigada, Roger. Tem certeza?
        - Absoluta - ele disse, colocando a pasta com o mapa genealgico cuidadosamente em cima. - Ah, espere. Talvez nem tudo. - O canto do caderno de notas cinza 
despontava de baixo da carta-patente; puxou-o e arrumou os papis revirados novamente na caixa. - Parece um dos dirios do reverendo. No imagino o que possa estar 
fazendo a, mas acho que  melhor guard-lo junto com os outros; a sociedade histrica disse que quer todos eles.
        - Ah, claro. - Brianna levantara-se para ir embora, segurando a caixa contra o peito, mas hesitou, olhando para ele. - Quer... gostaria que eu voltasse?
        Roger sorriu. Havia teias de aranha em seus cabelos e uma listra de sujeira ao longo do seu nariz.
        - Nada me deixaria mais satisfeito - disse. - Vejo-a amanh, ento, certo?
        O pensamento de Roger continuou no dirio do reverendo, durante toda a maante tarefa de fazer a velha caminhonete pegar e a subseqente visita ao avaliador 
de antigidades que veio separar as peas antigas valiosas do refugo e fixar um valor sobre a moblia do reverendo para leilo.
        A disposio dos pertences do reverendo deu a Roger uma sensao de aflita melancolia. Era, afinal de contas, o desmantelamento de sua prpria infncia tanto 
quanto a limpeza de quinquilharias inteis. Quando finalmente sentou-se no gabinete aps o jantar, no sabia dizer se era curiosidade a respeito dos Randall que 
o compeliu a pegar o dirio ou simplesmente a necessidade premente de recuperar uma tnue conexo com o homem que fora seu pai por tantos anos.
        Os dirios eram meticulosamente anotados, as linhas regulares de tinta registrando todos os acontecimentos importantes da parquia e da comunidade  qual 
o reverendo Wakefield pertencera durante tantos anos. A sensao do dirio simples, cinza, em suas mos e a vista de suas pginas evocaram para Roger uma viso imediata 
do reverendo, a cabea calva brilhando  luz do abajur da escrivaninha enquanto ele laboriosamente registrava os acontecimentos do dia.
        " uma questo de disciplina", explicara a Roger em certa ocasio. "H um grande benefcio em manter alguma atividade regular que ordene a mente. Os monges 
catlicos realizam cerimnias religiosas em horas predeterminadas do dia, os sacerdotes tm seus brevirios. Receio que eu no tenha o talento para uma devoo to 
imediata, mas anotar os acontecimentos do dia ajuda a clarear a mente. Assim, posso fazer minhas preces noturnas com o corao tranqilo."
        Um corao tranqilo. Roger gostaria, ele mesmo, de conseguir ter um corao tranqilo, mas a serenidade o abandonara desde que encontrara aqueles recortes 
de jornais na escrivaninha do reverendo.
        Abriu o dirio ao acaso e lentamente virou as pginas, buscando uma meno ao nome "Randall". A capa do dirio identificava o perodo: janeiro-junho de 1948. 
Embora o que dissera a Brianna sobre a sociedade histrica fosse verdade, essa no fora sua motivao principal para ficar com o caderno de notas. Em maio de 1948, 
Claire Randall retornara de seu misterioso desaparecimento. O reverendo conhecia bem os Randall; tal acontecimento com certeza fora mencionado no dirio.
        Como previsto, as anotaes de 7 de maio diziam:
        Visita a Frank Randall esta noite; o problema com sua mulher. To doloroso! Eu a vi ontem - muito frgil, com os olhos arregalados. Sentime constrangido 
a seu lado, pobre mulher, embora ela conversasse de maneira sensata.
        Capaz de transtornar qualquer um, tudo que ela passou - o que quer que tenha sido. Terrveis mexericos sobre o caso - foi muita imprudncia do dr. Bartholomew 
revelar que ela est grvida. Muito difcil para Frank - e para ela,  claro! Tenho pena de ambos.
        A sra. Graham est doente esta semana - no poderia ter escolhido momento pior; temos o bazar semana que vem e a varanda est cheia de roupas doadas...
        Roger passou as pginas seguintes rpido, procurando a prxima meno aos Randall. Encontrou-a um pouco adiante, na mesma semana.
        10 de maio - Jantar com Frank Randall. Estou fazendo o possvel para me associar publicamente com ele e sua mulher; fao-lhe companhia por mais ou menos 
uma hora todos os dias, na esperana de aplacar um pouco os mexericos. Agora, reduziram-se praticamente em piedade; espalhou-se o boato de que est louca. Conhecendo 
Claire Randall, no sei se no ficaria mais ofendida em ser considerada demente do que em ser considerada imoral - mas tem necessariamente que ser um ou outro?
        Tentei inmeras vezes conversar com ela sobre suas experincias, mas ela no fala nada a respeito. Conversa normalmente sobre qualquer outro assunto, mas 
sempre d a impresso de estar pensando em outra coisa.
        No posso me esquecer de pregar neste domingo sobre os males das intrigas e mexericos - embora receie que chamar ateno para o caso com um sermo s v 
piorar tudo.
        12 de maio - ...No consigo deixar de pensar que Claire Randall no est louca. J ouvi o boato,  claro, mas no vejo nada em seu comportamento que parea 
sequer instvel.
        Acredito que ela esteja guardando um terrvel segredo; um segredo que est decidida a no revelar. Conversei - informalmente - sobre isso com Frank; ele 
mostrou-se reticente, mas estou convencido de que ela contou-lhe alguma coisa. Tentei deixar claro que gostaria de ajudar, no que me for possvel.
        14 de maio - Uma visita de Frank Randall. Surpreendente. Ele pediu minha ajuda, mas no vejo por que me fez tal pedido. No entanto, parece muito importante 
para ele; mantm um rgido autocontrole, mas est tenso como uma corda de violino. Receio a liberao - se vier.
        Claire j est em condies de viajar - ele pretende lev-la de volta para Londres esta semana. Assegurei-lhe que comunicaria quaisquer resultados por carta, 
para seu endereo na universidade; nenhuma aluso sobre isso  sua mulher.
        Tenho vrios documentos interessantes sobre Jonathan Randall, embora no possa imaginar o significado que o antepassado de Frank possa ter para este triste 
caso. Sobre James Fraser, como eu disse a Frank - nem a mais leve meno; um completo mistrio.
        Um completo mistrio. Sob muitos aspectos, Roger pensou. O que Frank Randall teria pedido ao reverendo para fazer? Aparentemente, descobrir o que pudesse 
sobre Jonathan Randall e James Fraser. Portanto, Claire contara a seu marido sobre James Fraser - contara-lhe alguma coisa, ao menos, ainda que no tudo.
        Mas que conexo imaginvel poderia haver entre um capito do exrcito ingls, morto em Culloden em 1746, e o homem cujo nome parecia inexplicavelmente ligado 
ao mistrio do desaparecimento de Claire em 1945 - e o outro mistrio, da relao de parentesco de Brianna?
        O resto do dirio estava repleto dos registros de costume dos acontecimentos da parquia; a embriaguez crnica de Derick Gowan, culminando na remoo do 
cadver desse paroquiano das guas do rio Ness no fim de maio; o casamento realizado s pressas de Maggie Brown e William Dundee, um ms antes do batizado de sua 
filha, June; a operao para retirada do apndice da sra. Graham e as tentativas do reverendo de lidar com o conseqente afluxo de travessas cobertas trazidas pelas 
generosas senhoras da parquia - Herbert, o cachorro do reverendo na poca, parece ter sido o beneficirio da maioria delas.
        Lendo as pginas, Roger viu-se sorrindo, ao perceber o vvido interesse do reverendo por seu rebanho voltar  vida nas palavras do velho ministro. Folheando 
e passando os olhos, quase deixara passar a ltima anotao referente ao pedido de Frank Randall.
        18 de junho - Recebi um curto bilhete de Frank Randall, avisando-me de que a sade de sua mulher  precria; a gravidez  de risco e ele pede minhas preces.
        Respondi garantindo-lhe minhas preces e meus melhores votos para ambos. Anexei tambm as informaes que obtive at agora para ele; no sei para que servem, 
mas isso cabe a ele julgar. Contei-lhe a surpreendente descoberta do tmulo de Jonathan Randall em St. Kilda; perguntei-lhe se queria que eu fotografasse a lpide.
        Era tudo. No havia mais nenhuma meno aos Randall nem a James Fraser. Roger colocou o dirio sobre a mesa e massageou as tmporas; ler as linhas de caligrafia 
inclinada causara-lhe uma leve dor de cabea.
        Fora ter confirmado suas suspeitas de que um homem chamado James Fraser estava envolvido em tudo aquilo, a questo permanecia to inescrutvel quanto antes. 
O que, em nome de Deus, Jonathan Randall tinha a ver com a histria e por que estava enterrado em St. Kilda. A carta-patente dera o local de nascimento de Jonathan 
Randall como sendo em uma propriedade em Sussex; como ele foi acabar no cemitrio de uma remota igreja escocesa?  bem verdade que no era to longe assim de Culloden 
mas por que no foi enviado de volta para Sussex?
        - Vai precisar de mais alguma coisa esta noite, sr. Wakefield? - A voz de Fiona arrancou-o de suas meditaes estreis. Empertigou-se na cadeira, piscando, 
e deparou-se com ela segurando uma vassoura e um pano de p.
        - O qu? Ah, no. No, obrigado, Fiona. Mas o que voc est fazendo com todos esses apetrechos? No est limpando ainda, a essa hora da noite, no ?
        - Bem,  por causa das senhoras da igreja - Fiona explicou. - Lembra-se que disse a elas que podiam realizar sua reunio mensal aqui amanh? Achei melhor 
arrumar um pouco.
        As senhoras da igreja? Roger encolheu-se diante da idia de quarenta donas-de-casa, transbordando simpatia, abatendo-se sobre a casa numa avalanche de conjuntinhos 
de tweed e prolas cultivadas.
        - Vai acompanhar as senhoras no ch? - Fiona perguntava. - O reverendo sempre o fazia.
        A idia de receber Brianna Randall e as senhoras da igreja simultaneamente era mais do que Roger podia considerar com tranqilidade.
        - Ha, no - disse bruscamente. - Tenho... tenho um compromisso amanh. - Pousou a mo sobre o telefone, semi-oculto em meio ao entulho na escrivaninha do 
reverendo. - Se me d licena, Fiona, tenho que dar um telefonema.
        Brianna entrou devagar no quarto, sorrindo consigo mesma. Ergui os olhos do meu livro e arqueei uma sobrancelha, em sinal de indagao.
        - Telefonema de Roger? - perguntei.
        - Como sabia? - Pareceu surpresa por um instante, depois riu, tirando o robe. - Ah, porque ele  o nico rapaz que conheo em Inverness?
        - No achei que nenhum dos seus amigos iria fazer uma ligao internacional de Boston - eu disse. Dei uma olhada no relgio sobre a mesa. Ao menos, no a 
esta hora, de qualquer modo. Todos eles devem estar no treino de futebol agora.
        Brianna ignorou o comentrio e enfiou os ps embaixo das cobertas.
        - Roger nos convidou para ir at um lugar chamado St. Kilda amanh. Disse que  uma interessante igreja antiga.
        - J ouvi falar - eu disse, bocejando. - Tudo bem, por que no? Levarei minha prensa de plantas; talvez consiga encontrar alguma vagem de ervilhaca. Prometi 
levar algumas sementes para o dr. Abernathy usar em sua Pesquisa. Mas, se vamos passar o dia lendo lpides antigas,vou desistir desde j. Desencavar o passado  
um trabalho rduo.
        Uma centelha repentina atravessou o rosto de Brianna e eu achei que estava Prestes a dizer alguma coisa. Mas ela apenas balanou a cabea e ndeu o brao 
para apagar a luz, o sorriso furtivo ainda escondido nos cantos de sua boca.
        Permaneci deitada, olhando para cima na escurido, ouvindo seus movimentos leves ao virar-se na cama e que gradualmente deram lugar s cadncias regulares 
da respirao durante o sono. St. Kilda, hein? Nunca estive l, mas j ouvira falar do lugar; era uma velha igreja, como Brianna dissera, h muito abandonada e fora 
da rota dos turistas - apenas um ou outro pesquisador ia l ocasionalmente. Seria essa a oportunidade que eu estava esperando?
        Eu teria Roger e Brianna juntos l, e sozinha, com poucas chances de interrupo. E talvez fosse um lugar apropriado para contar-lhes - l, entre os paroquianos 
h muito falecidos de St. Kilda. Roger ainda no verificara o paradeiro do resto dos homens de Lallybroch, mas era quase certo que ao menos tivessem deixado o Campo 
de Culloden vivos e isso era tudo que eu precisava saber agora. Eu j podia contar a Bri o final da histria.
        Senti a boca seca ao pensar na conversa que teramos. Onde eu encontraria as palavras certas? Tentei visualizar o desdobramento da conversa; o que eu diria 
e como eles reagiriam, mas a imaginao me falhou. Mais do que nunca me arrependi de minha promessa a Frank que me impedira de escrever ao reverendo Wakefield. Se 
o tivesse feito, ao menos Roger j poderia saber a verdade. Ou talvez no; o reverendo poderia no acreditar em mim.
        Revirava-me na cama inquieta, em busca de inspirao, mas o cansao me dominava. Finalmente, desisti e virei-me de costas, fechando os olhos para a escurido 
acima de mim. Como se meus pensamentos tivessem evocado o esprito do reverendo, uma citao bblica insinuou-se na minha conscincia quase adormecida: Suficiente 
para o dia, a voz do reverendo parecia murmurar-me, suficiente para o dia so seus prprios males. Ento, adormeci.
        Acordei nas sombras da escurido, as mos agarradas s cobertas, o corao batendo com tanta fora que me sacudia como a pele de um tmpano.
        - Meu Deus! - exclamei.
        A seda da minha camisola estava quente e pegajosa; olhando par baixo, pude divisar meus mamilos projetando-se por baixo da seda, duro como bolas de gude. 
Os espasmos trmulos ainda ondulavam pelos meus pulsos e coxas, como os tremores de terra secundrios que se seguem a um terremoto. Esperava no ter gritado. Provavelmente, 
no; podia ouvir a respirao de Brianna, tranqila e regular do outro lado do quarto.
        Deixei-me cair no travesseiro outra vez, tremendo de fraqueza, uma repentina onda de calor banhando minhas tmporas de suor.
        - Jesus H. Roosevelt Cristo - balbuciei minha expresso preferida, respirando fundo enquanto meu corao lentamente retornava ao normal.
        Um dos efeitos de um ciclo de sono interrompido  que se pra de sonhar coerentemente. Atravs dos longos anos de cuidados maternos e depois de estgio, 
residncia e plantes noturnos, eu me acostumara a cair imediatamente no sono quando me deitava, com sonhos que no passavam de fragmentos e lampejos, centelhas 
nervosas na escurido, como sinapses disparadas a esmo, recarregando-se para o trabalho do dia que logo recomearia.
        Nos anos mais recentes, com a retomada de algo mais parecido com um horrio normal, eu comeara a sonhar outra vez Os tipos comuns de sonhos, fossem pesadelos 
ou sonhos bons - longas seqncias de imagens, perambulaes pelo bosque da mente. E eu tambm estava familiarizada com este tipo de sonho; era comum ao que se podia 
chamar de maneira educada de perodos de privao.
        Com freqncia, entretanto, tais sonhos vinham flutuando, suaves como o toque de lenis de cetim e, se me acordavam, eu voltava logo a dormir, vagamente 
arrebatada com uma lembrana que no duraria at a manh seguinte.
        Esse fora diferente. No que eu me lembrasse muito a respeito, mas tinha a vaga sensao de mos que me agarravam, rudes e prementes, no seduzindo, mas 
exigindo. E uma voz, quase gritada, que ecoava nas cmaras internas dos meus ouvidos, junto com as batidas do meu corao.
        Coloquei a mo no peito, sobre a pulsao galopante, sentindo o volume macio do meu seio sob a seda. A respirao de Brianna contraiu um ronronar suave, 
depois retomou a cadncia regular. Lembro-me de ficar ouvindo com ateno aquele som quando ela era pequena; o ritmo lento, rouco, que me tranqilizava, ressoando 
pelo quarto escuro, regular como o batimento cardaco.
        Os prprios batimentos do meu corao desaceleravam-se sob a minha mo, sob a seda rosa forte, da cor da bochecha corada de um beb adormecido. Quando voc 
segura uma criana contra o seio para aliment-la, a curva e pequenina cabea reproduz exatamente a curva do seio que ela suga, como se essa nova pessoa de fato 
espelhasse a carne de onde provm.
        Os bebs so macios. Qualquer um olhando para eles pode ver a pele macia e frgil e conhec-la pela suavidade de uma ptala de rosa que convida ao toque. 
Mas, quando voc vive com eles e os ama, sente a maciez toda para dentro, a carne da bochecha gorducha trmula como um pudim, o leque sem ossos das mos minsculas. 
Suas juntas so borracha derretida e mesmo quando voc os beija com fora, na paixo de amar sua existncia, seus lbios afundam e parecem nunca encontrar o osso 
Segurando-os contra o corpo, eles derretem-se e amoldam-se, como se pudessem, a qualquer momento, fluir de volta para dentro do seu corpo.
        Entretanto, desde o incio, existe um pequeno vestgio de ao dentro de cada criana. Aquilo que diz "eu sou" e forma a essncia da personalidade.
        No segundo ano, os ossos endurecem e a criana fica de p, o crnio desenvolvido e slido, um capacete protegendo o delicado contedo. E o "eu sou" cresce 
tambm. Olhando para elas, voc quase pode v-lo, rijo como cerne, brilhando atravs da carne translcida.
        Os ossos da face emergem aos seis e a alma fixa-se aos sete. O processo de encapsulamento continua, atingindo o pico na concha lustrosa da adolescncia, 
quando ento toda a maciez  oculta sobre as camadas nacaradas das mltiplas personalidades novas que os adolescentes experimentam para se protegerem.
        Nos anos seguintes, o endurecimento se espalha do centro,  medida que a pessoa encontra e fixa as facetas da alma, at que "eu sou" esteja definido, delicado 
e detalhado como um inseto no mbar.
        Pensei que j houvesse ultrapassado esse estgio h muito tempo, tivesse perdido todo vestgio de maciez e estivesse bem estabelecida em meu caminho em direo 
a uma meia-idade de ao inoxidvel. Mas agora achava que a morte de Frank havia me fraturado de alguma forma. E as rachaduras estavam se alargando, de tal modo que 
j no podia remend-las com a negao. Eu trouxera minha filha de volta  Esccia, ela com seus ossos fortes como o espinhao das montanhas das Highlands, na esperana 
de que sua concha fosse suficientemente forte para sustent-la, enquanto o centro de seu "eu sou" ainda fosse alcanvel.
        Entretanto, meu prprio mago no resistia mais no isolamento do "eu sou", e eu no possua nenhuma proteo para me defender da brandura que vinha do interior. 
Eu j no sabia o que eu era ou o que ela seria; somente o que eu tinha que fazer.
        Eu voltara, e sonhara mais uma vez, no ar frio das Highlands. E a voz do meu sonho ainda ecoava pelos meus ouvidos e meu corao, repetindo-se com o som 
da respirao de Brianna, adormecida.
        - Voc  minha - dissera a voz. - Minha! E eu no a deixarei ir embora.
        
        
        
5 - AMADA ESPOSA
        
        Oadro da St. Kilda repousava silenciosamente sob o sol. No era plano
        - ocupava um plat escavado da encosta da colina por algum capricho geolgico. O terreno inclinava-se e ondulava-se, de modo que as lpides ficavam ocultas 
em pequenos cncavos ou projetavam-se de repente do topo de uma elevao. O deslocamento da terra havia deslocado muitas, inclinando-as como se estivessem embriagadas 
ou derrubando-as completamente, deixando-as estateladas e quebradas na relva crescida.
        - Est um pouco abandonado - Roger disse, como se estivesse se desculpando. Pararam junto ao porto do ptio da igreja, examinando a pequena coleo de pedras 
antigas, parcialmente cobertas de mato e sombreadas pela fileira de gigantescos teixos, plantados h muito tempo como quebra-vento contra as tempestades que avanavam 
do mar do Norte. Nuvens se aglomeravam l agora, ao longe, sobre o esturio distante, mas o sol brilhava ali no alto da colina e o ar estava parado e quente
        - Meu pai costumava reunir um bando de homens da igreja uma ou duas vezes por ano e traz-los aqui para manter o lugar em ordem, mas receio que ultimamente 
tenha ficado abandonado. - Ele tentou abrir o porto grande e coberto, notando a dobradia quebrada e o encaixe do trinco pendurado por um nico prego
        -  um lugar lindo e tranqilo. - Brianna esgueirou-se com cuidado pelo porto cheio de farpas. - Realmente antigo, no?
        - Sim, . Papai achava que esta igreja presbiteriana foi construda no local de outra igreja ou at mesmo de um tipo de templo mais antigo.  por isso que 
est aqui num lugar to inconveniente. Um dos amigos dele de Oxford estava sempre ameaando vir aqui fazer escavaes para ver o que havia embaixo, mas obviamente 
nunca conseguiu permisso das autoridades da Igreja, apesar de o lugar estar desconsagrado h anos.  uma subida e tanto. - O rubor do esforo comeava a desaparecer 
do rosto de Brianna conforme ela se abanava com um guia de informaes tursticas. - Mas  lindo.
        Observou a fachada da igreja com aprovao. Construda numa abertura natural do rochedo, suas pedras e vigas tinham sido colocadas a mo, fissuras vedadas 
com turfa e barro, de modo que parecia ter brotado ali, como uma parte natural da escarpa. Entalhes antigos decoravam o umbral da porta e a moldura da janela, alguns 
ostentando os smbolos do cristianismo, outros visivelmente muito mais antigos.
        - A sepultura de Jonathan Randall est l? - Apontou para o cemitrio da igreja, visvel alm do porto. - Mame vai ficar to surpresa!
        - Sim, acho que sim. Eu mesmo nunca a vi. - Ele esperava que a surpresa fosse agradvel; quando mencionou o tmulo cautelosamente para Brianna pelo telefone 
na noite anterior, ela ficara entusiasmada.
        - J ouvi falar de Jonathan Randall - dizia a Roger. - Papai sempre o admirou; dizia que ele era uma das poucas pessoas interessantes na rvore da famlia. 
Acho que foi um bom soldado; papai tinha referncias de um monte de condecoraes e honrarias que ele obteve.
        -  mesmo? - Roger olhou para trs,  procura de Claire. - Sua me precisa de ajuda com aquela prensa de plantas?
        Brianna sacudiu a cabea.
        - No.  que ela encontrou uma planta  beira do caminho  qual no pde resistir. Logo estar aqui.
        Era um lugar silencioso. At os pssaros estavam quietos  medida que se aproximava o meio do dia, e os arbustos verde-escuros que debruavam o plat permaneciam 
imveis, sem nenhuma brisa para balanar seus galhos. Sem as feridas de sepulturas novas ou os enfeites de flores de plstico como testemunha de luto recente, o 
cemitrio da igreja respirava apenas a paz dos que haviam morrido h muito tempo. Afastados da luta e das dificuldades, somente o aspecto factual de suas vidas continuava 
para dar o conforto de uma presena humana nos montes solitrios de uma terra deserta.
        O progresso dos trs visitantes era lento; vagaram sem rumo pelo antigo adro, Roger e Brianna parando para ler em voz alta inscries esquisitas nas pedras 
gastas pelo tempo, Claire, sozinha, abaixando-se de vez em quando para cortar uma amostra de trepadeira ou arrancar uma pequena planta florida pelas razes.
        Roger inclinou-se sobre uma lpide e, rindo, acenou para Brianna, chamando-a para ler a inscrio.
        - "Aproxime-se e leia, mas sem o chapu" - ela leu. - "Aqui jaz Bailie William Watson / Famoso por suas idias / e moderao na bebida." Brianna ergueu-se 
depois de examinar a pedra, o rosto afogueado, no contendo o riso. - Sem datas. Quando ser que William Watson viveu?
        - Sculo XVIII, provavelmente - Roger respondeu. - A maioria das lpides do sculo XVII est gasta demais para se poder ler e ningum foi enterrado aqui 
nos ltimos duzentos anos. A igreja foi desconsagrada em 1800.
        Um instante depois, Brianna deixou escapar um grito abafado de surpresa.
        - Aqui est! - Ergueu-se e acenou para Claire, que estava de p do outro lado do ptio, espreitando curiosamente um punhado de folhas verdes que segurava 
em uma das mos. - Mame! Venha ver isto!
        - O que ? - ela perguntou - Encontrou um tmulo interessante?
        - Acho que sim. Reconhece este nome? - Roger recuou um passo, para que ela pudesse ter uma viso clara.
        - Jesus H. Roosevelt Cristo! - Ligeiramente surpreso, Roger olhou para Claire e ficou espantado de ver como ficara plida. Fitava a pedra castigada pelo 
tempo e os msculos de sua garganta moviam-se num ato convulsivo de engolir. A planta que arrancara estava amassada em sua mo, esquecida.
        - Dra. Randall... Claire... voc est bem?
        Por um instante, seus olhos cor de mbar ficaram vazios e ela pareceu no ouvi-lo. Em seguida, piscou e olhou para ele. Ainda estava plida, mas parecia 
melhor agora; novamente senhora de si.
        - Estou bem - afirmou, a voz sem expresso. Inclinou-se e correu os dedos pelas letras gravadas na pedra como se as lesse em Braille.
        - Jonathan Wolverton Randall - disse, a voz baixa -, 1705-1746. Eu lhe disse, no foi? Seu filho-da-me, eu disse a voc! - Sua voz, to inexpressiva um 
momento antes, transformara-se de sbito, agora vibrante, repleta de uma ira contida.
        - Mame! Voc est bem? - Brianna, obviamente transtornada, puxava sua me pelo brao.
        Roger observou que era como se uma sombra tivesse toldado os olhos de Claire; o sentimento que brilhara ali foi escondido de repente, quando ela voltou subitamente 
 percepo das duas pessoas que a fitavam, perplexos. Sorriu, um esgar breve, mecnico, e balanou a cabea.
        - Sim. Sim, claro. Estou bem. - Sua mo abriu-se e o talo de folhas amassadas caiu ao cho.
        - Achei que ficaria surpresa. - Brianna olhava com preocupao para sua me. - No  um antepassado do papai? O soldado que morreu em Culloden?
        Claire lanou um olhar para a lpide prxima a seus ps.
        - , sim - disse. - E ele est morto, no ?
        Roger e Brianna trocaram um olhar. Sentindo-se responsvel, Roger tocou o ombro de Claire.
        - O dia est um pouco quente - ele disse, tentando falar num tom descontrado e prtico. - Acho melhor entrar na igreja e aproveitar a sombra, h uns entalhes 
muito interessantes na pia batismal.
        Claire sorriu para ele. Um sorriso verdadeiro desta vez, um pouco forado, mas eminentemente equilibrado.
        - Vo vocs - ela disse, incluindo Brianna com uma inclinao da cabea. - Preciso de um pouco de ar.vou ficar por aqui mais um pouco,
        - Vou ficar com voc. - Brianna pairava ao seu redor, claramente no querendo deixar a me sozinha, mas Claire recobrou tanto sua serenidade quanto seu ar 
de comando.
        - Bobagem - disse, com rispidez. - Estou perfeitamente bem.vou sentar-me na sombra daquelas rvores l. V com ele. Prefiro ficar um pouco sozinha - acrescentou 
com firmeza, ao ver Roger abrir a boca para protestar.
        Sem mais comoo, virou-se e se afastou em direo  linha de teixos escuros que margeava o cemitrio a oeste. Brianna hesitou, vendo-a se afastar, mas Roger 
segurou a jovem pelo brao e conduziu-a em direo  igreja.
        -  melhor deix-la sozinha - murmurou. - Afinal, sua me  mdica, no ? Ela saber se est bem.
        - Sim... creio que sim. - com um ltimo olhar perturbado  figura de Claire cada vez mais distante, Brianna deixou que ele a levasse dali.
        A igreja no passava de um salo vazio de assoalho de madeira, com a pia batismal abandonada, mas deixada em seu lugar apenas porque no podia ser removida. 
A bacia rasa fora esculpida do ressalto de pedra que percorria um dos lados do aposento. Acima da bacia, o rosto esculpido de St. Kilda contemplava inexpressivamente 
o teto, os olhos piedosos virados para cima.
        - No comeo, provavelmente era um dos deuses pagos - Roger disse, traando o contorno da escultura com o dedo. -  possvel ver onde acrescentaram o vu 
e a touca de freira  figura original, para no mencionar os olhos.
        - Como ovos escaldados - Brianna concordou, revirando seus prprios olhos para cima numa imitao. - Que entalhe  aquele? Assemelha-se muito aos padres 
daquelas pedras dos povos pictos que se v perto de Clava.
        Caminharam despreocupadamente ao longo das paredes da igreja, respirando o ar empoeirado, examinando os entalhes antigos nas paredes de pedra e lendo as 
pequenas placas de madeira afixadas por membros da congregao h muito desaparecidos em memria de ancestrais desaparecidos h mais tempo ainda. Falavam em voz 
baixa, ambos atentos a qualquer som vindo do ptio, mas tudo estava silencioso e aos poucos comearam a relaxar outra vez.
        Roger seguiu Brianna em direo  frente do altar, observando os cachos de cabelo que escapavam de sua trana enrolarem-se, midos, em seu pescoo.
        Tudo que restava agora no frontal da igreja era uma simples prateleira de madeira acima do buraco de onde o retbulo fora removido. Ainda assim, Roger sentiu 
uma espcie de calafrio percorrer sua espinha ao permanecer parado ali, ao lado de Brianna, de frente para o altar desaparecido.
        A pura intensidade de seus sentimentos parecia ecoar no lugar vazio. Esperava que ela no pudesse ouvi-los. Conheciam-se h pouco mais de uma semana, afinal, 
e mal tiveram qualquer conversa particular. Ela ficaria embaraada, sem dvida, ou assustada, se soubesse o que ele sentia. Ou pior ainda, ela daria risada.
        No entanto, quando lhe lanou um olhar furtivo, seu rosto estava calmo e srio. Tambm olhava para ele, com uma expresso no azul-escuro de seus olhos que 
o fez virar-se para ela e segur-la entre os braos sem pensar.
        O beijo foi breve e delicado, pouco mais do que a formalidade que encerra uma cerimnia de casamento e, no entanto, to impressionante em seu impacto como 
se tivessem selado um compromisso solene.
        As mos de Roger soltaram-na, mas o calor dela permaneceu em suas mos, lbios e corpo, como se ainda a tivesse nos braos. Ficaram parados por um instante, 
os corpos mal se roando, respirando o ar um do outro e, ento, ela deu um passo para trs. Ainda podia senti-la sob as palmas de suas mos. Dobrou os dedos cerrando 
os punhos, no querendo que a sensao se dissipasse.
        O ar parado da igreja estilhaou-se repentinamente, os ecos de um grito espalhando as partculas de poeira. Sem parar para pensar, Roger j estava l fora, 
correndo, tropeando e saltando por cima de pedras tombadas, em direo  linha escura de teixos. Abriu caminho pelo meio dos ramos cobertos de ervas, sem se preocupar 
em segurar os pequenos galhos farpados para Brianna, logo atrs dele.
        Plido nas sombras, viu o rosto de Claire Randall. Completamente exangue, parecia um fantasma contra os galhos escuros do teixo. Ficou parada por um momento, 
oscilando, depois caiu de joelhos na grama, como se suas pernas no conseguissem mais sustent-la.
        - Mame! - Brianna ajoelhou-se ao lado da figura encolhida, esfregando uma de suas mos frouxas. - Mame, o que foi? Est se sentindo fraca? Devia colocar 
a cabea entre os joelhos. Vamos, por que no se deita?
        Claire resistia aos esforos de sua filha para ajud-la e a cabea cada endireitou-se sobre o pescoo fino outra vez.
        - No quero me deitar - disse, arquejante. - Eu quero... ah, meu Deus. Ah, meu Deus do cu! - Ajoelhada na grama alta, estendeu a mo trmula para a superfcie 
da lpide. Era de granito, uma placa simples. - Dra. Randall! Claire!? - Roger apoiou-se sobre um joelho do outro lado de Claire, colocando a mo sob o outro brao 
dela para apoi-la.
        Estava assustado de verdade com seu aspecto. Uma pelcula de suor brotara em suas tmporas e ela parecia prestes a desmaiar. - Claire - repetiu, ansiosamente, 
tentando acord-la do transe hipntico em que cara. - O que foi? Voc conhece esse nome? - Enquanto falava, suas prprias palavras ressoavam em seus ouvidos. Ningum 
foi enterrado aqui desde o sculo XVIII, dissera a Brianna. Ningum foi enterrado aqui nos ltimos duzentos anos. Os dedos de Claire afastaram os dele e tocaram 
a pedra, carinhosamente, como se tocasse tecido humano, percorrendo as letras com delicadeza, os sulcos rasos com o desgaste do tempo, mas ainda ntidos.
        - "JAMES ALEXANDER MALCOLM MACKENZIE FRASER" - leu em voz alta. - Sim, eu o conheo. - Sua mo desceu pela pedra, afastando a grama espessa e alta ao redor, 
ocultando a linha de letras menores em sua base.
        - "Amado esposo de Claire" - leu.
        - Sim, eu o conheci - repetiu, to baixo que Roger mal conseguiu ouvi-la. - Eu sou Claire. Ele foi meu marido. - Ergueu os olhos, fitando diretamente o rosto 
de sua filha, branco e perplexo acima do seu. -  seu pai - disse.
        Roger e Brianna olharam-na atnitos e o cemitrio ficou em silncio, exceto pelo farfalhar dos teixos acima.
        - No! - exclamei, enfurecida. - Pela quinta vez, no! No quero um copo d'gua. No estou com insolao. No estou com tontura. No estou doente. E no 
perdi a cabea tampouco, embora imagine que seja o que esto pensando.
        Roger e Brianna trocaram olhares que deixavam claro que era isso precisamente o que estavam pensando. Os dois, reunindo esforos, me tiraram do cemitrio 
e levaram de volta para o carro. Recusara-me a ser levada a um hospital, de modo que voltamos para a residncia paroquial. Roger me dera uma dose de usque para 
me reanimar, mas seus olhos lanaram-se sobre o telefone agora, como se imaginasse se deveria pedir uma ajuda adicional - como uma camisa-de-fora, por exemplo.
        - Mame. - Brianna falou com voz suave, como se quisesse acalm-la, e estendeu o brao para afastar seus cabelos do rosto. - Voc est transtornada.
        - Claro que estou transtornada! - retorqui. Inspirei fundo, com um longo e trmulo suspiro, e cerrei os lbios, at achar que tinha condies de falar calmamente. 
-  claro que estou transtornada - comecei -, mas no estou louca. - Parei, lutando para manter o controle. No era desse modo que planejara contar-lhe. No sabia 
ao certo como planejara, mas no era assim, deixando a verdade escapar sem nenhuma preparao ou tempo para organizar meus prprios pensamentos. Ver aquela maldita 
sepultura desfizera qualquer plano que eu pudesse ter esboado.
        - Droga, Jamie Fraser! - exclamei, furiosa. - O que estava fazendo l, de qualquer modo? Fica a quilmetros de Culloden!
        Os olhos de Brianna quase saltavam das rbitas e a mo de Roger pairava sobre o telefone. Parei bruscamente e tentei me controlar.
        Fique calma, Beauchamp, disse a mim mesma. Respire fundo. Uma vez... duas vezes... mais uma vez. Melhor. Vamos.  muito simples; tudo que precisa fazer  
contar-lhes a verdade. Foi para isso que veio  Esccia, no foi?
        Abri a boca, mas nenhum som foi emitido. Fechei a boca, os olhos tambm, esperando que a coragem voltasse se eu no pudesse ver os dois rostos lvidos diante 
de mim. Apenas... deixe-me... contar-lhes... a verdade, rezei, sem a menor idia de para quem dirigia minha prece. Para Jamie, pensei.
        Eu contara a verdade uma vez antes. No me sa bem.
        Cerrei minhas plpebras com mais fora. Novamente pude sentir o cheiro de lcool dos ambientes de hospital e sentir a estranha fronha engomada sob minha 
face. Do corredor l fora veio a voz de Frank, engasgada de raiva e perplexidade.
        - O que quer dizer com no pression-la? No pression-la? Minha mulher desaparece por quase trs anos, retorna imunda, maltratada e grvida, pelo amor de 
Deus, e eu no devo fazer perguntas?
        E a voz do mdico, murmurando, tentando acalm-lo. Captei as palavras "delrio" e "estado traumtico" e "deixe para mais tarde, meu caro, espere um pouco", 
enquanto a voz de Frank, ainda esbravejando e interrompendo o mdico, era firmemente arrastada para o fim do corredor. Aquela voz to familiar, que reacendia a tormenta 
de dor, raiva e terror dentro de mim.
        Enrosquei-me numa bola defensiva, o travesseiro apertado contra o peito, mordendo-o, com todas as foras, at sentir a fronha de algodo ceder e a textura 
macia de penas ranger entre meus dentes.
        Eu rangia os dentes agora, em detrimento de uma nova obturao. Parei e abri os olhos.
        - Olhem - eu disse, da forma mais sensata possvel. - Sinto muito, sei que no parece. Mas  verdade e no h nada que eu possa fazer a respeito.
        Esse discurso em nada contribuiu para devolver a confiana a Brianna, que se aproximou mais de Roger. Este ltimo, entretanto, perdera o tom esverdeado e 
exibia sinais de cauteloso interesse. Seria possvel que ele realmente tivesse imaginao suficiente para ser capaz de apreender a verdade?
        Extra esperana de sua expresso e abri os punhos cerrados.
        - So aquelas malditas pedras - eu disse. - Sabe, o crculo de pedras verticais, na colina das fadas, a oeste?
        - Craigh na Dun - Roger murmurou. - Aquela?
        - Certo. - Soltei a respirao ruidosamente. - Voc deve conhecer as lendas a respeito de colinas de fadas, no? Sobre pessoas que ficam presas em colinas 
pedregosas e acordam duzentos anos mais tarde?
        Brianna parecia cada vez mais alarmada.
        - Mame, eu realmente acho que voc devia subir e deitar-se - ela disse. Comeou a erguer-se da cadeira. - Posso ir chamar Fiona...
        Roger colocou a mo em seu brao para impedi-la.
        - No, espere - disse. Olhou para mim, com a espcie de curiosidade reprimida que um cientista demonstra quando coloca um novo slide no microscpio. - Prossiga 
- disse para mim.
        - Obrigada - agradeci secamente. - No se preocupe, novou comear a dizer baboseiras sobre fadas; achei simplesmente que gostaria de saber que existe uma 
base verdadeira nas lendas. No fao a menor idia do que de verdade existe l em cima, ou como funciona, mas o fato ... - respirei fundo. - Bem, o fato  que atravessei 
uma maldita fenda numa pedra naquele crculo em 1945 e acabei na encosta l embaixo em 1743.
        Era exatamente o que eu dissera a Frank. Ele fitara-me, perplexo, por um instante, pegara um vaso de flores da mesinha-de-cabeceira e o estilhaara no cho.
        Roger parecia um cientista cujo novo micrbio tivesse conseguido permanecer vivo. Eu me perguntava por qu, mas estava envolvida demais na luta para encontrar 
palavras que fizessem um pouco de sentido.
        - A primeira pessoa com quem me deparei foi um oficial ingls da cavalaria, um drago, em traje completo - eu disse. - O que de certa forma me deu a impresso 
de que havia alguma coisa errada.
        Um sorriso repentino iluminou o rosto de Roger, embora Brianna continuasse me olhando aterrorizada.
        - Imagino que no era para menos.
        - O problema  que eu no podia voltar, sabe. - Achei melhor dirigir minhas observaes a Roger, que ao menos parecia disposto a ouvir, quer acreditasse 
ou no em mim.
        - A questo  que naquela poca as senhoras no andavam por a sem escolta e, se o fizessem, no era usando vestidos estampados e mocassins expliquei. - 
Todo mundo que eu encontrava, a comear pelo capito dos drages, sabia que havia algo de errado comigo, mas no sabiam o qu.
        Como poderiam? No podia explicar-lhes melhor do que estou fazendo agora e asilos para lunticos na poca eram locais bem menos agradveis do que so hoje. 
Nada de tranar cestos - acrescentei, num esforo para pilheriar. No fui muito bem-sucedida; o rosto de Brianna contorceu-se numa careta e pareceu mais preocupado 
do que nunca.
        - Esse drago... - eu disse, e um ligeiro estremecimento me percorreu diante da lembrana de Jonathan Wolverton Randall, era capito da Oitava Companhia 
dos Drages de Sua Majestade. - No comeo, achei que estava tendo alucinaes, porque o homem parecia-se muito com Frank;  primeira vista, achei que era ele. - 
Lancei um olhar para a mesa onde havia um dos livros de Frank, com a fotografia de um homem de rosto fino, moreno e atraente, na contracapa.
        -  muita coincidncia - Roger disse. Seus olhos estavam alertas, fixos nos meus.
        - Bem, era e no era - eu lhe disse, desviando meus olhos com dificuldade da pilha de livros. - Voc sabe que ele era um antepassado de Frank. Todos os homens 
dessa famlia tm uma forte semelhana... fsica, pelo menos - acrescentei, pensando nas marcantes diferenas em outros aspectos que no os fsicos.
        - Como... como ele era? - Brianna parecia estar saindo de seu estupor, ao menos ligeiramente.
        - Era um pervertido imundo - respondi. Dois pares de olhos arregalaram-se e voltaram-se um para o outro com um olhar idntico de consternao.
        - No precisam ficar horrorizados - eu disse. - Havia perverso no sculo XVIII; isso no  novo, vocs sabem. S que naquela poca era pior, talvez porque 
ningum realmente se importava, desde que tudo fosse mantido decente e tranqilo nas aparncias. E Black Jack Randall, como era conhecido, era um soldado; comandava 
uma guarnio nas Highlands, encarregada de manter os cls sob controle; tinha uma autonomia considervel para suas atividades, todas oficialmente sancionadas. - 
Tomei um gole restaurador do copo de usque que eu ainda segurava.
        - Ele gostava de ferir as pessoas - eu disse. - Sim, gostava muito disso.
        - Ele... feriu voc? - Roger colocou a questo com certa delicadeza, aps uma pausa perceptvel. Bri parecia retesar-se, a pele sobre as faces esticando-se.
        - No diretamente. Ou, ao menos, no muito. - Sacudi a cabea. Podia sentir um frio na boca do estmago, que o usque no conseguia aquecer. Jack Randall 
atingira-me ali com um soco certa vez. Senti-o na minha lembrana, como a dor de um ferimento h muito curado.
        - Ele tinha gostos bem eclticos. Mas era Jamie que ele... queria. - Em nenhuma circunstncia eu teria usado a palavra "amava". Senti um n na garganta e 
sorvi as ltimas gotas de usque. Roger pegou a garrafa, uma das sobrancelhas erguidas interrogativamente, e eu balancei a cabea e estendi o copo.
        - Jamie. Jamie Fraser? E ele era...
        - Ele era meu marido - eu disse.
        Brianna sacudiu a cabea como um cavalo procurando afastar as moscas.
        - Mas voc tinha um marido - ela disse. - No podia... mesmo se... quero dizer... voc no podia.
        - Fui obrigada - disse sem rodeios. - No o fiz de propsito, afinal.
        - Mame, voc no pode se casar acidentalmente! - Brianna estava perdendo sua atitude de enfermeira gentil com uma doente mental. Achei que talvez fosse 
um bom sinal, ainda que a alternativa fosse raiva.
        - Bem, no foi exatamente um acidente - eu disse. - Mas foi a melhor alternativa a ser entregue a Jack Randall. Jamie casou-se comigo para me proteger e 
foi muita generosidade da parte dele - conclu, fitando Bri por cima do meu copo. - Ele no tinha que fazer isso, mas fez.
        Tentei conter a lembrana de nossa noite de npcias. Ele era virgem; suas mos tremiam quando me tocaram. Eu tambm tinha medo... por razes melhores. Depois, 
ao amanhecer, ele me abraara, costas nuas contra peito nu, suas coxas quentes e fortes atrs das minhas, murmurando entre os cachos do meu cabelo: "No tenha medo. 
Agora, somos ns dois."
        - Veja bem - voltei-me de novo para Roger -, eu no podia voltar. Estava fugindo do capito Randall quando os escoceses me encontraram. Um grupo de ladres 
de gado. Jamie estava com eles, era o povo de sua me, os MacKenzie de Leoch. No sabiam o que ou quem eu era, mas me levaram com eles como prisioneira-E outra vez 
eu no pude fugir.
        Lembrei-me das minhas tentativas frustradas de fugir do Castelo Leoch. Depois, o dia em que contei a verdade a Jamie e ele - sem acreditar, do mesmo modo 
que Frank no acreditara, mas ao menos disposto a agir como se acreditasse - me levara de volta  colina e ao crculo de pedras.
        - Ele achava que eu era uma bruxa, talvez - eu disse, os olhos fechados, sorrindo levemente  idia. - Agora, acham que voc est louca; na poca, achavam 
que voc era uma bruxa. Tradies culturais - expliquei, abrindo os olhos. - Hoje em dia chamam de psicologia o que ento era chamado de magia. Na verdade, no h 
muita diferena. - Roger balanou a cabea, parecendo um pouco abalado.
        - Eles me julgaram por bruxaria - eu disse. - Na vila de Cranesmuir, logo abaixo do castelo. Mas Jamie salvou-me e ento eu lhe contei. E ele me levou para 
a colina e me disse para voltar. Voltar para Frank. - Parei e respirei fundo, lembrando-me daquela tarde de outubro, quando o controle sobre o meu destino, h tanto 
tempo arrancado de mim, foi repentinamente atirado de volta em minhas mos, e a escolha no me foi dada, mas exigida de mim.
        "Volte!", ele dissera. "No h nada aqui para voc! Nada, a no ser perigo."
        Eu perguntara: "No h realmente nada aqui para mim?" Honrado demais para falar, ainda assim respondeu, e eu fiz minha escolha.
        - Era tarde demais - eu disse, fitando minhas mos, abertas sobre meus joelhos. O dia escurecia com a iminncia da chuva, mas as minhas duas alianas de 
casamento ainda brilhavam na luz fraca, ouro e prata. Eu no retirara a aliana de ouro de Frank da mo esquerda quando me casei com Jamie, mas usara a aliana de 
prata de Jamie no quarto dedo da mo direita, todos os dias dos vinte e tantos anos desde que ele a colocara ali.
        "Eu amava Frank", disse em voz baixa, sem olhar para Bri. "Eu o amava muito. Mas a essa altura, Jamie era meu corao e o ar que eu respirava. No podia 
deix-lo. Eu no podia", disse, erguendo a cabea de repente para Bri, numa splica. Ela devolveu-me o olhar, o rosto impassvel.
        Abaixei os olhos para minhas mos outra vez e continuei.
        - Ele me levou para sua prpria terra natal. Lallybroch, chamava-se. Um lindo lugar. - Cerrei os olhos de novo, para fugir do olhar no rosto de Brianna e 
deliberadamente evoquei a imagem de Broch Tuarach, Lallybroch, para as pessoas que moravam ali. Uma bela fazenda das Highlands, com bosques e riachos; at mesmo 
com um pedao de terreno frtil, raro nas Highlands. Um lugar tranqilo, adorvel, encerrado entre montanhas, acima de um desfiladeiro que o mantinha isolado das 
rixas recorrentes que perturbavam as Highlands. Entretanto, at mesmo Lallybroch mostrara ser apenas um santurio temporrio.
        - Jamie era um fora-da-lei - eu disse, vendo por trs de minhas plpebras cerradas as cicatrizes do aoitamento que os ingleses haviam deixado em suas costas. 
Uma rede de finas linhas brancas que teciam uma teia nos ombros largos como uma grade marcada a ferro em brasa - Sua cabea estava a prmio. Um de seus prprios 
colonos o traiu para os ingleses. Eles o capturaram e o levaram para a priso de Wentworth, para enforc-lo
        Roger soltou um assovio longo e baixo.
        - Um inferno de lugar - observou - J esteve l? As paredes devem ter trs metros de espessura Abri os olhos
        - Tem, sim - eu disse secamente - Estive dentro delas. Mas at mesmo paredes mais grossas tm portas. - Senti uma fagulha da chama de coragem desesperada 
que me levara para dentro da priso de Wentworth, em busca do meu corao. Se fiz isso por voc, disse silenciosamente a Jamie, posso fazer o que tenho que fazer 
agora. Mas me ajude, maldito escocs, ajude-me!
        - Consegui tir-lo de l - eu disse, respirando fundo. - O que restara dele. Jack Randall comandava a guarnio de Wentworth. - No queria relembrar as imagens 
que minhas palavras trouxeram de volta, mas elas se recusavam a desaparecer. Jamie, nu e ensangentado, no cho da Manso Eldridge, onde encontrramos abrigo.
        "No deixarei que me levem de volta, Sassenach", dissera-me, os dentes cerrados contra a dor, enquanto eu consertava os ossos esmagados dos dedos de sua 
mo e limpava os ferimentos. "Sassenach." Chamara-me assim desde o primeiro instante; a palavra galica para um forasteiro, um estranho. Um ingls. Primeiro, de 
troa, depois afetuosamente.
        E eu no deixara que o encontrassem; com a ajuda de um parente, um membro do cl Fraser chamado Murtagh, consegui faz-lo atravessar o Canal at a Frana 
e escond-lo no Mosteiro de St. Anne de Beaupr, onde um de seus tios Fraser era abade. Mas, uma vez ali em segurana, descobri que salvar sua vida no era o fim 
da minha tarefa.
        O que Jack Randall lhe infligira marcara sua alma a fundo, do mesmo modo que as tiras do aoite haviam penetrado em suas costas, deixando cicatrizes indelveis 
para sempre. No sabia ao certo, nem mesmo agora, o que eu fizera quando evoquei seus demnios e os enfrentei sozinha, na escurido de sua mente; h bem pouca diferena 
entre medicina e magia, quando se trata de certos tipos de cura.
        Eu ainda podia sentir a pedra dura e fria que me feria e a fora da fria que eu extrara dele, as mos que se fecharam em volta do meu pescoo e a criatura 
ardendo em febre que me perseguira na escurido.
        - Mas eu consegui cur-lo - disse, num sussurro. - Consegui traz-lo de volta para mim.
        Brianna sacudia a cabea devagar para trs e para frente, desnorteada, mas com uma inclinao teimosa da cabea que eu conhecia muito bem. "Os Graham so 
ignorantes, os Campbell, enganadores, os MacKenzie so encantadores, mas dissimulados, e os Fraser so teimosos", Jamie dissera-me certa vez, dando-me sua interpretao 
das caractersticas gerais dos cls. No estava muito errado, na verdade; os Fraser eram extremamente teimosos, principalmente ele. E Bri.
        - No acredito nisso - ela disse sem rodeios. Sentou-se mais empertigada, olhando-me atentamente. - Acho que voc andou pensando demais naqueles homens de 
Culloden - ela disse. - Afinal, voc tem estado sob muita tenso nos ltimos tempos e talvez a morte de papai...
        - Frank no era seu pai - eu disse de chofre.
        - Era, sim! - ela devolveu imediatamente, to depressa que nos assustou. Frank, com o tempo, acatou a insistncia dos mdicos de que qualquer tentativa de 
"forar-me a aceitar a realidade", como disse um deles, poderia ser danosa  minha gravidez. Ouviram-se muitos murmrios nos corredores - e gritos, de vez em quando 
-, mas ele desistiu de perguntar-me a verdade. E eu, com a sade frgil e o corao partido, desisti de contar-lhe. No iria desistir, desta vez.
        - Prometi a Frank - eu disse. - H vinte anos, quando voc nasceu. Tentei deix-lo, mas ele no permitiu que eu fosse embora. Ele a amava. Senti a voz abrandar-se 
ao olhar para Brianna. - Ele no conseguia acreditar na verdade, mas ele sabia,  claro, que no era seu pai. Pediu-me para no lhe contar, para deixar que ele fosse 
seu pai, enquanto ele vivesse. Depois disso, ele disse, ficava a meu critrio. - Engoli em seco, umedecendo os lbios.
        - Eu devia isso a ele - eu disse. - Porque ele a amava. Mas agora Frank est morto e voc tem o direito de saber quem . Se duvida, v  National Portrait 
Gallery. Eles tm l um retrato de Ellen MacKenzie; a me de Jamie. Ela est usando este colar. - Toquei o colar de prolas em meu pescoo. Uma fileira de prolas 
barrocas de gua doce dos rios da Esccia, separadas por bolinhas de ouro perfuradas. - Jamie o deu para mim no dia do nosso casamento.
        Olhei para Brianna, sentada ereta e tensa, os ossos da face inflexveis em protesto.
        - Leve um espelho com voc - eu disse. - D uma boa olhada no retrato e depois se olhe no espelho. No  uma semelhana absoluta, mas voc se parece muito 
com a sua av.
        Roger olhou para Brianna como se nunca a tivesse visto antes. Olhou de mim para ela vrias vezes e, depois, como se tomasse uma deciso, repentinamente empertigou 
os ombros e levantou-se do sof onde estivera sentado a seu lado.
        - Tenho algo que acho que voc deveria ver - disse com firmeza. Atravessou rapidamente o aposento at a antiga escrivaninha de tampo corredio e retirou 
um mao preso com um elstico de recortes amarelados de jornal de um dos escaninhos.
        - Depois de l-los, olhe as datas - disse a Brianna, entregando-lhe o mao de recortes. Em seguida, ainda de p, virou-se para mim e olhou-me de cima a baixo, 
com o olhar longo e desapaixonado que reconheci como olhar de um estudioso, treinado em objetividade. Ele ainda no acreditava, mas tinha imaginao suficiente para 
duvidar.
        - Mil setecentos e quarenta e trs - ele disse, como se falasse consigo mesmo. Sacudiu a cabea, admirado. - E eu achava que fosse um homem que voc tivesse 
conhecido aqui em 1945. Meu Deus, eu jamais poderia imaginar... bem, Cristo, quem poderia?
        Surpreendi-me.
        - Voc sabia? Sobre o pai de Brianna?
        Ele indicou com um movimento da cabea os recortes de jornais nas mos de Brianna. Ela ainda no os examinara, mas olhava fixamente para Roger, em parte 
com raiva e em parte perplexa. Eu podia ver a tempestade avolumando-se em seus olhos e assim, pensei, Roger tambm. Ele desviou o olhar apressadamente, voltando-se 
de novo para mim com uma pergunta.
        - Ento, aqueles homens cujos nomes voc me deu, aqueles que lutaram em Culloden... voc os conheceu?
        Relaxei, quase imperceptivelmente.
        - Sim, eu os conheci. - Ouviu-se o estrondo de um trovo a leste e a chuva irrompeu, fustigando com fora as longas vidraas que cobriam um dos lados do 
gabinete do cho ao teto. A cabea de Brianna estava abaixada sobre os recortes de jornal, seus longos cabelos ocultando-lhe o rosto, exceto a ponta de seu nariz, 
muito vermelha. Jamie sempre ficava vermelho quando estava furioso ou aborrecido. Eu estava completamente familiarizada com a viso de um Fraser  beira da exploso.
        - E voc esteve na Frana - Roger murmurou como se falasse consigo mesmo, ainda me examinando atentamente. O choque que se via em seu rosto desfazia-se, 
dando lugar  conjectura, e a uma espcie de empolgao. - No creio que tenha conhecido...
        - Sim, conheci - eu lhe disse. - Foi para isso que fomos para Paris. Eu contara a Jamie sobre Culloden, a Conspirao de 1745, e o que iria acontecer. Fomos 
para Paris para tentar dissuadir Carlos Stuart.
        
        
        
        
PARTE II
OS PRETENDENTES AO TRONO
HAVRE, FRANA FEVEREIRO DE 1744



6 - PROVOCANDO MAROLAS
        
        - Po - balbuciei debilmente, mantendo os olhos bem cerrados. No houve reao do objeto grande e quente a meu lado, alm do sopro quase imperceptvel de 
sua respirao.
        - Po! - repeti, um pouco mais alto. As cobertas da cama subiram e desceram de repente e eu agarrei a borda do colcho e enrijeci todos os meus msculos, 
esperando estabilizar as guinadas dos meus rgos internos.
        Rudos de algum andando s tontas e remexendo atrapalhadamente com as mos vieram do outro lado da cama, seguidos do deslizamento de uma gaveta, uma exclamao 
abafada em galico, o baque surdo e macio de ps descalos em pranchas de madeira e, depois, o afundamento do colcho sob o peso de um corpo pesado.
        - Tome, Sassenach - disse uma voz ansiosa, e eu senti o toque de uma crosta de po seco contra meu lbio inferior. Estendendo as mos s cegas, sem abrir 
os olhos, agarrei o pedao de po e comecei a mastig-lo com cuidado, forando cada mordida que me engasgava a descer pela garganta seca. Sabia muito bem que no 
devia pedir gua.
        As bolas ressecadas de farelos de po gradualmente desciam pela minha garganta e acomodavam-se em meu estmago, onde permaneciam como pequenos montes de 
lastro. Os movimentos das minhas ondas internas que me causavam nsias de vmito aos poucos se acalmaram e, por fim, minhas vsceras pararam, ancoradas. Abri os 
olhos, deparando-me com o rosto ansioso de Jamie Fraser pairando alguns centmetros acima de mim.
        - Arh! - exclamei, sobressaltada.
        - Tudo bem? - ele perguntou. Quando balancei a cabea e debilmente comecei a sentar-me, ele passou o brao pelas minhas costas para me ajudar. Sentando-se 
ao meu lado na rstica cama da estalagem, puxou-me delicadamente para junto dele e alisou meus cabelos desgrenhados pela noite de sono.
        - Pobrezinha - ele disse. - Um gole de vinho ajudaria? H um frasco de vinho do Reno no meu alforje.
        - No. No, obrigada. - Tive um leve estremecimento  idia de beber Vinho do Reno, a simples meno do vinho fazia-me sentir o cheiro dos seus vapores escuros 
e adocicados, e forcei-me a sentar ereta.
        - Logo ficarei bem - eu disse, com uma animao forada. - No se preocupe,  normal as mulheres grvidas sentirem enjo de manh.
        com um olhar duvidoso em minha direo, Jamie ergueu-se e foi pegar suas roupas no banco junto  janela. A Frana em fevereiro  fria como o inferno congelado 
e as vidraas de vidro de bolhas da janela estavam recobertas com uma espessa camada de cristais de gelo.
        Ele estava nu e uma onda de arrepio roou seus ombros e levantou os plos ruivo-dourados dos seus braos e pernas. Entretanto, acostumado ao frio, ele nem 
tremeu nem se apressou enquanto vestia a camisa e calava as meias. Parando no meio do ato de se vestir, ele voltou at a cama e me abraou rapidamente.
        - Volte a dormir - ele sugeriu. -vou mandar a camareira subir para acender a lareira. Talvez consiga descansar um pouco depois de comer. No vai mais sentir 
enjo agora, no ? - Eu no tinha certeza, mas sacudi a cabea com confiana para tranqiliz-lo.
        - No, acho que no. - Lancei um olhar  cama; as colchas, como a maioria das cobertas fornecidas pelas hospedarias, no eram muito limpas. Ainda assim, 
as moedas de prata da bolsa de Jamie haviam nos assegurado o melhor quarto da estalagem e a cama estreita era forrada de penas de ganso, em vez de l ou palha.
        - Hum, talvez eu realmente me deite um pouco - murmurei, tirando os ps do cho gelado e enfiando-os embaixo das colchas,  cata dos ltimos remanescentes 
de calor. Meu estmago parecia ter se acalmado suficientemente para eu arriscar um gole de gua e, assim, enchi uma caneca do jarro rachado do quarto.
        - Em que voc estava pisoteando? - perguntei, bebendo cuidadosamente. - No h aranhas aqui, h?
        Enrolando o kilt em volta da cintura, Jamie sacudiu a cabea.
        - Ah, no - ele disse. As mos ocupadas, ele inclinou a cabea em direo  mesa. - Era s um rato. Acho que estava atrs do po.
        Olhando para baixo, vi a forma cinza e lnguida no assoalho, uma pequena prola de sangue brilhando no focinho. Dei um salto da cama bem a tempo.
        - Tudo bem - disse debilmente alguns instantes depois. - No tem mais nada no meu estmago para vomitar.
        - Lave a boca, Sassenach, mas no engula gua, pelo amor de Deus. Jamie segurou a caneca para mim, limpou minha boca com um pano como se eu fosse uma criana 
pequena e suja, em seguida ergueu-me nos braos e colocou-me com cuidado de volta na cama. Franziu o cenho para mim com ar de preocupao.
        - Talvez seja melhor eu ficar aqui - ele disse. - Posso mandar avisar.
        - No, no, eu estou bem - eu disse. E estava. Por mais que me esforasse para no vomitar pela manh, no conseguia manter nada no estmago por muito tempo. 
No entanto, depois que a crise passava, sentia-me completamente restaurada. Fora um gosto amargo na boca e os msculos abdominais um pouco doloridos, sentia-me perfeitamente 
normal. Joguei as cobertas para o lado e levantei-me para comprovar.
        - Est vendo?vou ficar muito bem. E voc precisa ir; afinal, no pode deixar seu primo esperando.
        Estava comeando a me sentir animada outra vez, apesar do ar frio zumbindo por baixo da porta e sob as pregas da minha camisola. Jamie ainda hesitava, relutando 
em me deixar, e eu me aproximei e abracei-o com fora, tanto para assegurar-lhe que eu estava bem como porque ele era deliciosamente quente.
        - Br r r - eu disse. - Como  que voc pode estar quente como uma torrada vestindo apenas um kilt?
        - Tambm estou de camisa - protestou, sorrindo para mim. Ficamos abraados por um instante, desfrutando o calor um do outro no frio tranqilo do comeo de 
uma manh na Frana. No corredor, os rudos da camareira com sua caixa de gravetos para a lareira se aproximavam.
        Jamie remexeu-se um pouco, pressionando o corpo contra o meu. Por causa das dificuldades de viajar no inverno, ficamos quase uma semana na estrada de St. 
Anne a L Havre. E entre as chegadas tarde da noite em lgubres hospedarias, molhados, sujos e trmulos de fadiga e frio, alm do despertar cada vez mais atabalhoado 
 medida que meus enjos matinais pioravam, ns mal havamos nos tocado desde nossa ltima noite no mosteiro.
        - Vem para a cama comigo? - convidei, ternamente.
        Ele hesitou. A fora de seu desejo era evidente atravs do tecido de seu kilt e suas mos estavam quentes sobre a pele fria das minhas, mas ele no fez meno 
de me tomar nos braos.
        - Bem... - disse, em dvida.
        - Voc tambm quer, no? - eu disse, deslizando a mo fria sob seu kilt para me certificar.
        - Ah! Ha... sim. Sim, quero. - A prova evidente confirmava essa declarao. Ele gemeu baixinho quando coloquei a mo entre suas pernas. Ah, meu Deus. No 
faa isso, Sassenach. Novou conseguir tirar as mos de voc.
        Abraou-me com fora, envolvendo-me com seus longos braos e puxando meu rosto contra as dobras de sua camisa, macias e brancas como a neve, com o perfume 
suave da roupa lavada e engomada pelo irmo Alfonse no mosteiro.
        - Por que deveria? - eu disse, a voz abafada no linho da camisa. - Voc tem um tempinho, no tem?  apenas uma cavalgada curta at as docas.
        - No  isso - ele disse, ajeitando meus cabelos rebeldes.
        - Ah, estou gorda demais? - Na realidade, minha barriga estava quase plana e eu estava mais magra do que o normal por causa dos enjos. - Ou ser qu...?
        - No - ele disse, sorrindo. - Voc fala demais. - Inclinou-se e me beijou, depois me ergueu nos braos e sentou-se na cama, segurando-me em seu colo. Deitei-me 
e puxei-o resolutamente para cima de mim.
        - Claire, no! - ele protestou quando comecei a abrir a fivela de seu kilt. Olhei-o espantada.
        - Mas por que no?
        - Bem - ele disse, embaraado, corando um pouco. - A criana... quero dizer, no quero machuc-la.
        Eu ri.
        - Jamie, voc no pode machuc-la. Ainda no tem o tamanho da ponta do meu dedo. - Ergui o dedo para ilustrar, depois o usei para traar a li nha cheia, 
curva, de seu lbio inferior. Ele agarrou minha mo e inclinou-se bruscamente para me beijar, como se quisesse apagar a ccega provocada pelo toque do meu dedo.
        - Tem certeza? - ele perguntou. - Quero dizer... fico pensando que ele no iria gostar de ser jogado de um lado para o outro...
        - Ele nem vai notar - assegurei-lhe, as mos novamente ocupadas com a frvela de seu kilt.
        - Bem... se voc tem certeza.
        Ouviu-se uma batida decidida na porta e, com um impecvel senso de oportunidade gauls, a camareira entrou empurrando a porta de costas, descuidadamente 
arranhando a porta com uma tora de lenha quando se virou.
        Pelas superfcies marcadas da porta e do batente, tudo indicava que aquele era seu mtodo de operao costumeiro.
        - Bonjour, monsieur, madame - murmurou, com um cumprimento de cabea em direo  cama enquanto arrastava os ps em direo  lareira. Tu do bem para algumas 
pessoas, dizia sua atitude, mais eloqente do que palavras. Acostumada a essa altura  naturalidade com que as criadas tratavam a viso dos hspedes de uma estalagem 
em qualquer condio de roupas de dormir, simplesmente murmurei: "Bonjour, mademoiselle", em resposta e deixei-a prosseguir. Tambm soltei o kilt de Jamie e deslizei 
para baixo das cobertas, puxando a colcha para cima para esconder minhas faces ruborizadas.
        Possuidor de mais sangue-frio, Jamie colocou uma das almofadas estrategicamente sobre o colo, apoiou os cotovelos sobre ela, descansou o queixo nas palmas 
das mos viradas para cima e comeou a conversar amistosamente com a camareira, elogiando a cozinha da casa.
        - E de onde vocs compram o vinho, mademoiselle? - perguntou educadamente.
        - Aqui e ali. - Ela deu de ombros, enchendo rpido de gravetos os espaos sob os pedaos de madeira com grande prtica. - Onde for mais barato. - O rosto 
gordo da mulher enrugou-se ligeiramente quando lanou um olhar de esguelha a Jamie de onde estava junto  lareira.
        - Foi o que imaginei - ele disse, rindo para ela, que resfolegou, achando graa.
        - Aposto que posso manter o preo que esto pagando e dobrar a qualidade - ele sugeriu. - Diga  sua patroa.
        Uma das sobrancelhas ergueu-se com ceticismo.
        - E qual  seu prprio preo, monsieur?
        Ele fez um gesto inteiramente gauls de auto-sacrifcio.
        - Nada, mademoiselle.vou visitar um parente que vende vinho. Talvez eu possa levar um novo negcio para ele e assim garantir as boasvindas, no ?
        Ela concordou balanando a cabea, vendo a sabedoria de suas palavras, e resmungou quando se levantou dos joelhos.
        - Muito bem, monsieur. Falarei com a patronne.
        A porta fechou-se com um baque atrs da criada, ajudada por um hbil giro de seu quadril ao passar. Colocando a almofada de lado, Jamie levantou-se e comeou 
a afivelar o kilt outra vez.
        - Aonde voc pensa que vai? - protestei.
        Abaixou os olhos para mim e um sorriso relutante curvou sua boca.
        - Ah. Bem... tem certeza de que est disposta, Sassenach?
        - Estou, se voc estiver - respondi, incapaz de resistir. Fitou-me severamente.
        - S por isso, eu deveria sair imediatamente - ele disse. - No entanto, ouvi dizer que deve-se fazer as vontades das mulheres grvidas. - Deixou o kilt cair 
no cho e sentou-se a meu lado apenas de camisa, a cama rangendo sob seu peso.
        Seu hlito ergueu-se numa leve nuvem quando afastou a colcha e abriu a frente da camisola, expondo meus seios. Inclinando a cabea, beijou cada um, tocando 
o mamilo delicadamente com a lngua, fazendo-os erguerem-se como por mgica, um rosa-escuro avolumando-se contra a pele branca do meu seio.
        - Meu Deus, so to lindos - ele murmurou, repetindo o processo do outro lado. Segurou-os com as duas mos em concha, admirando-os.
        
- Esto mais pesados - ele disse -, s um pouco. E os mamilos esto mais escuros tambm. - Seu dedo indicador traou a curva de um nico plo fino e claro que erguia-se 
perto da arola escura, prateado  luz branca da manh.
        Levantando a colcha, rolou o corpo para o meu lado e eu me virei, encaixando-me em seus braos, agarrando as curvas slidas de suas costas, deixando minhas 
mos envolverem os msculos firmes de suas ndegas. Sua pele nua estava fria pelo ar da manh, mas a pele arrepiada alisou-se sob o calor do toque de minhas mos.
        Tentei traz-lo imediatamente para mim, mas ele resistiu delicadamente, forando-me a deitar no travesseiro enquanto ele mordiscava meu pescoo e orelhas. 
Uma de suas mos deslizou pela minha coxa, o tecido fino da camisola escorregando em ondas macias conforme ele avanava.
        Sua cabea abaixou-se mais e suas mos carinhosas abriram minhas coxas. Estremeci por um momento quando o ar frio atingiu a pele nua de minhas pernas, depois 
relaxei completamente sob a exigncia quente de sua boca.
        Seus cabelos estavam soltos, ainda no os prendera na nuca com um lao como costumava usar durante o dia, e os fios ruivos e macios roavam minhas coxas, 
excitando-me. O peso slido de seu corpo descansava confortavelmente entre minhas pernas, as mos grandes envolvendo a curva dos meus quadris.
        - Hummm? - Um som interrogativo veio l de baixo.
        Arqueei meus quadris em resposta e uma breve risadinha roou minha pele com seu calor.
        As mos deslizaram para baixo dos meus quadris e me ergueram. Deixei-me relaxar e o pequeno tremor cresceu e se espalhou, elevando-se em segundos a um prazer 
que me deixou lnguida e ofegante, a cabea de Jamie descansando em minha coxa. Ele esperou um instante para que eu me recobrasse, acariciando a curva de minha perna, 
antes de retornar  sua tarefa auto-imposta.
        Alisei os cabelos cados para trs, acariciando aquelas orelhas, to inadequadamente pequenas e bem torneadas para um homem to corpulento e rstico. A curva 
superior ardia com um rseo translcido e amortecido, e eu corri o polegar pela borda da curva.
        - So pontudas na ponta - eu disse. - S um pouco. Como as de um fauno.
        - Ah, ? - disse, interrompendo seu trabalho por um instante. - Voc quer dizer como as de um pequeno veado, ou aquelas coisas que se v nas pinturas clssicas 
com pernas de bode, perseguindo mulheres nuas?
        Ergui a cabea e olhei para baixo, pelo tumulto de cobertas reviradas, camisola e corpos nus, para os olhos de gato azul-escuros, brilhando acima dos cachos 
midos de cabelos castanhos.
        - Se a carapua serve - eu disse -, use-a. - E deixei minha cabea cair de volta sobre o travesseiro conforme a risada abafada que se seguiu vibrou pela 
minha pele agora extremamente sensvel.
        - Ah - exclamei, esforando-me para erguer-me. - Oh, Nossa. Jamie, venha c.
        - Ainda no - ele disse, fazendo alguma coisa com a ponta da lngua que fez meu corpo contorcer-se incontrolavelmente.
        - Agora - eu disse.
        Ele no se deu ao trabalho de responder e eu j no tinha mais flego para falar.
        - Ah - exclamei, pouco depois. - Isso ...
        - Hummm?
        - timo - murmurei. - Venha c.
        - No, eu espero - ele disse, o rosto invisvel por trs do emaranhado ruivo e canela. - Gostaria que eu...
        - Jamie - eu disse. - Eu quero voc. Venha c.
        com um suspiro de resignao, ergueu-se sobre os joelhos e deixou que eu o puxasse para cima, assentando-se por fim com o peso sobre os cotovelos, mas confortavelmente 
slido em cima de mim, ventre e lbios unidos. Ele abriu a boca para protestar, mas beijei-o prontamente e ele deslizou entre minhas coxas antes que pudesse se controlar. 
Gemeu baixinho de prazer involuntrio ao entrar em mim, os msculos retesando-se ao agarrar meus ombros.
        Era gentil e vagaroso, parando de vez em quando para beijar-me de modo apaixonado, movendo-se de novo apenas diante da minha urgncia silenciosa. Corri as 
mos suavemente pela curva de suas costas, com cuidado para no pressionar as feridas novas, ainda cicatrizando-se. Os msculos longos de suas coxas tremeram ligeiramente 
contra os meus, mas ele continha-se, sem querer mover-se to depressa quanto precisava.
        Ergui meus quadris contra ele, para traz-lo mais fundo.
        Ele cerrou os olhos e sua testa franziu-se um pouco em concentrao. A boca estava entreaberta e sua respirao vinha pesada.
        - No posso... - disse. - Ah, meu Deus, no posso mais. - Suas ndegas contraram-se de repente, tensas sob minhas mos.
        Suspirei de puro prazer e puxei-o com fora contra mim.
        - Voc est bem? - ele perguntou, alguns instantes depois.
        - No vou quebrar, sabe - eu disse sorrindo, fitando-o nos olhos. Ele soltou um riso rouco.
        - Talvez no, Sassenach, mas talvez eu possa quebrar. - Abraou-me com fora, o rosto pressionado contra meus cabelos. Puxei a colcha e enrolei-a em volta 
de seus ombros, fechando-nos num bolso de calor. O calor do fogo na lareira ainda no havia alcanado a cama, mas o gelo na janela estava se derretendo, e as bordas 
da fina camada de orvalho congelado estavam se transformando em cintilantes diamantes.
        Ficamos deitados em silncio por algum tempo, ouvindo o estalido das achas de macieira que queimavam na lareira e os sons longnquos da estalagem conforme 
os hspedes acordavam. Ouviam-se chamados das sacadas em todos os lados do ptio interno, o barulho dos cascos dos cavalos nas pedras lodosas l fora e um ou outro 
guincho que vinha de baixo, dos porquinhos que a proprietria estava criando na cozinha, atrs do fogo.
        - Trs franais, n'est-ce ps? - eu disse, sorrindo diante das vozes altercadas que se infiltravam pelas tbuas do assoalho, uma discusso amigvel para 
saldar as contas entre a mulher do estalajadeiro e o negociante de vinhos.
        - Filho doente de uma puta bexiguenta - a voz feminina desferiu. O conhaque da semana passada parecia mijo de cavalo.
        Eu no precisei ver a resposta para imaginar o dar de ombros que a acompanhou:
        - Como poderia saber, madame? Depois do sexto copo, tudo tem o mesmo sabor, no ?
        A cama sacudiu-se um pouco quando Jamie riu tambm. Ele ergueu a cabea do travesseiro e aspirou com prazer o cheiro de presunto frito que se infiltrava 
pelas frestas do assoalho.
        - Sim,  a Frana - ele concordou. - Comida, bebida... e amor. - Deu um tapinha no meu quadril desnudo antes de cobri-lo com a camisola amassada.
        - Jamie - sussurrei -, voc est feliz com isso? com o beb? Perseguido na Esccia, impedido de voltar a seu prprio lar e apenas com vagas perspectivas 
na Frana, seria compreensvel que ele no estivesse muito entusiasmado com a aquisio de mais uma responsabilidade.
        Ele ficou em silncio por um instante, apenas abraando-me com mais fora, depois soltou um breve suspiro antes de me responder.
        - Sim, Sassenach. - Sua mo desceu pelo meu corpo e acariciou delicadamente minha barriga. - Estou feliz. E orgulhoso como um garanho. Mas tambm estou 
apavorado.
        - Com o parto? Euvou ficar bem. - No podia culp-lo por sua apreenso; a prpria me morrera de parto e o nascimento de uma criana e suas complicaes 
eram a principal causa de morte das mulheres nessa poca. Ainda assim, eu mesma tinha alguns conhecimentos e no pretendia me expor de forma alguma ao que passava 
por cuidados mdicos ali.
        - Sim, isso... e tudo o mais - disse em voz baixa. - Quero proteg-la, Sassenach. Estender meu corpo sobre voc como um manto e servir de escudo para voc 
e a criana. - Sua voz era rouca e suave, ligeiramente embargada. - Eu faria qualquer coisa por voc... e no entanto... no h nada que eu possa fazer. No importa 
o quanto eu seja forte ou o quanto queira ajud-la; no posso acompanh-la aonde voc tem que ir... nem ajud-la de nenhuma forma. E pensar em tudo que pode acontecer 
e eu impotente, sem poder fazer nada... sim, eu tenho medo, Sassenach.
        - No entanto - virou-se para mim, a mo delicadamente pousada sobre meu seio -, quando penso em voc amamentando meu filho... sinto-me leve como uma bolha 
de sabo, achando que vou explodir de alegria.
        Apertou-me contra o peito e eu o abracei com todas as minhas foras.
        - Ah, Claire, meu corao di de tanto amar voc.
        Dormi por mais algum tempo e acordei devagar, ouvindo o repicar de um sino de igreja na praa ali perto. Recm-sada do Mosteiro de St. Anne, onde todas 
as atividades do dia eram realizadas ao ritmo de sinos, automaticamente olhei pela janela, para avaliar a intensidade da luz e adivinhar a hora do dia. Uma luz branca 
e brilhante, uma janela livre de cristais de gelo. Ento, os sinos tocavam pelo ngelus, era meio-dia.
        Espreguicei-me, desfrutando o abenoado prazer de no ter que me levantar logo. A gravidez me deixava cansada pela manh e o esforo da viagem aumentara 
minha sensao de fadiga, fazendo-me apreciar duplamente o longo descanso.
        Chovera e nevara sem parar durante toda a viagem, conforme as tormentas de inverno castigavam a costa francesa. Ainda assim podia ter sido pior. A princpio, 
pretendamos ir para Roma, e no L Havre. Seria uma viagem de trs ou quatro semanas naquelas condies de tempo.
        Diante da perspectiva de ter que ganhar a vida no estrangeiro, Jamie obteve uma recomendao como intrprete a Jaime Eduardo Stuart, o rei exilado da Esccia 
- ou simplesmente o Cavaleiro de So Jorge, o Pretendente ao Trono, dependendo do lado que voc estava -, e havamos decidido nos unir  corte do Pretendente perto 
de Roma.
        Nesse ponto, era uma idia bastante vivel; estvamos prestes a partir para a Itlia quando o tio de Jamie, Alexander, o abade de St. Anne, nos convocou 
a seu gabinete.
        - Recebi um recado de Sua Majestade - anunciou sem prembulos.
        - Qual deles? - Jamie perguntou. A leve semelhana familiar entre os dois homens foi ressaltada pela postura, ambos estavam sentados absolutamente empertigados 
em suas cadeiras, os ombros retos. com relao ao abade, a postura devia-se ao ascetismo natural; com relao a Jamie, devia-se ao cuidado para que seus recentes 
ferimentos em processo de cicatrizao no roassem a madeira do encosto da cadeira.
        - Sua Majestade o rei Jaime - seu tio respondeu, enrugando a testa ligeiramente para mim. Tive o cuidado de manter o rosto inexpressivo; minha presena no 
gabinete do abade Alexander era uma prova de confiana e eu no queria fazer nada que a colocasse em risco. Ele me conhecia h apenas seis semanas, desde o dia seguinte 
ao Natal, quando apareci em seu porto com Jamie, que estava quase morto das torturas e da priso. O conhecimento posterior provavelmente dera ao abade alguma confiana 
em mim. Por outro lado, eu ainda era inglesa. E o nome do rei ingls era Jorge, e no Jaime.
        - Sim? Ento, ele no est precisando de um intrprete? - Jamie ainda estava magro, mas andara trabalhando ao ar livre com os irmos que cuidavam dos estbulos 
e das plantaes do mosteiro e seu rosto estava recuperando os matizes de sua cor saudvel natural.
        - Ele est precisando de um servo leal... e de um amigo. - O abade Alexander bateu os dedos em uma carta dobrada que repousava sobre sua escrivaninha, o 
lacre quebrado. Ele franziu os lbios, olhando de mim para seu sobrinho e de novo para mim.
        - O que vou dizer a vocs agora no pode ser repetido a ningum disse com ar severo. - Logo ser do conhecimento geral, mas por enquanto... - Tentei mostrar 
uma expresso confivel e discreta. Jamie apenas assentiu balanando a cabea, com um toque de impacincia.
        - Sua Alteza, o prncipe Carlos Eduardo, deixou Roma e chegar  Frana dentro de uma semana - o abade disse, inclinando-se ligeiramente para frente, como 
se quisesse enfatizar a importncia do que estava revelando.
        E era importante. Jaime Stuart deslanchara uma tentativa malsucedida de recuperar o trono em 1715 - uma operao militar mal planejada que fracassara quase 
de imediato por falta de apoio. Desde ento - segundo Alexander -, o exilado Jaime da Esccia trabalhava incansavelmente, escrevendo sem parar a seus amigos monarcas, 
e particularmente a seu primo, Lus da Frana, reiterando a legitimidade de sua reivindicao ao trono da Esccia e da Inglaterra, e da posio de seu filho, o prncipe 
Carlos, como sucessor desse trono.
        - Seu primo real Lus tem se mostrado, para grande preocupao de Sua Majestade, surdo a essas reivindicaes inteiramente justas - o abade dissera, franzindo 
o cenho para a carta como se ela fosse o prprio Lus. Se ele agora chegou  compreenso de suas responsabilidades na questo, isso  motivo de grande jbilo entre 
aqueles que prezam o direito sagrado  realeza.
        Entre os jacobitas, ou seja, os seguidores de Jaime. Entre os quais contava-se o abade Alexander do Mosteiro de St. Anne - nascido Alexander Fraser da Esccia. 
Jamie dissera-me que Alexander era um dos correspondentes mais assduos do rei exilado, a par de tudo que dizia respeito  causa dos Stuart.
        - Ele ocupa uma boa posio para isso -Jamie explicara-me, quando discutamos a empreitada em que estvamos prestes a embarcar. - O sistema de mensageiros 
do papa atravessa a Itlia, a Frana e a Espanha mais depressa do que praticamente qualquer outro. E os mensageiros do papa no podem ser detidos por oficiais da 
alfndega de nenhum governo, de modo que as cartas que transportam dificilmente so interceptadas.
        Jaime da Esccia, exilado em Roma, era fortemente apoiado pelo papa, em cujo interesse estava ver uma monarquia catlica restaurada na Inglaterra e na Esccia. 
Portanto, a maior parte da correspondncia particular de Jaime era transportada pelo mensageiro papal - e passada pelas mos de partidrios leais dentro da hierarquia 
da Igreja, como o abade Alexander de St. Anne de Beaupr, com quem se podia contar para comunicar-se com os seguidores do rei na Esccia, com menos risco do que 
enviando as cartas abertamente de Roma a Edimburgo e s Highlands.
        Observei Alexander com interesse, enquanto ele discorria sobre a importncia da visita do prncipe Carlos  Frana. O abade era um homem troncudo, mais ou 
menos da minha altura, moreno e consideravelmente mais baixo do que seu sobrinho, mas compartilhava com ele os olhos ligeiramente oblquos, a inteligncia aguda 
e o talento para discernir motivaes ocultas que pareciam caracterizar os Fraser que eu conhecia.
        - Portanto - concluiu, alisando a barba cheia, castanho-escura -, no sei dizer se Sua Alteza est ou no na Frana a convite de Lus, ou se veio sem ser 
convidado, como representante de seu pai.
        - Isso faz uma certa diferena - Jamie observou, erguendo uma das sobrancelhas ceticamente.
        Seu tio concordou balanando a cabea, e um sorriso enviesado se esboou rpido em meio  barba espessa.
        -  verdade, rapaz - ele disse, deixando que uma leve indicao de seu escocs nativo emergisse no meio de seu ingls sempre formal. -  bem verdade. E  
a que voc e sua mulher podem ser teis, se assim o desejarem.
        A proposta era simples; Sua Majestade o rei Jaime pagaria as despesas da viagem e mais uma certa quantia se o sobrinho de seu mais leal e estimado amigo 
Alexander concordasse em viajar a Paris para dar assistncia a seu filho, Sua Alteza o prncipe Carlos Eduardo, em qualquer aspecto que o ltimo pudesse requerer.
        Fiquei perplexa. Pretendamos originalmente ir para Roma porque este parecia o melhor lugar para perseguir nosso objetivo: impedir o segundo levante jacobita 
- o de 1745. Do meu prprio conhecimento de histria, sabia que a conspirao, financiada pela Frana e realizada por Carlos Eduardo Stuart, iria muito alm da tentativa 
de seu pai em 1715 - mas no suficientemente longe. Se os acontecimentos se desdobrassem como eu achava que aconteceria, as tropas sob o comando de Bonnie Prince 
Charlie seriam fragorosamente derrotadas em Culloden em 1746 e os habitantes das Highlands ainda sofreriam as repercusses da derrota dois sculos depois.
        Agora, em 1744, aparentemente o prprio Carlos estava apenas comeando sua busca de apoio na Frana. Que ocasio seria melhor para tentar impedir uma rebelio 
do que ao lado do seu lder?
        Virei-me para Jamie, que olhava por cima do ombro do tio para um pequeno santurio embutido na parede. Seus olhos repousavam sobre a imagem recoberta de 
ouro da prpria St. Anne e o ramalhete de flores da estufa colocado a seus ps, enquanto seus pensamentos trabalhavam por trs do rosto impassvel. Finalmente, ele 
piscou uma vez e sorriu para o tio.
        - Qualquer tipo de assistncia que Sua Alteza possa requerer? Sim - disse serenamente -, acho que posso fazer isso. Ns iremos.
        E viemos. No entanto, em vez de seguir direto para Paris, primeiro descemos pela costa a partir de St. Anne at L Havre, para nos encontrarmos com o primo 
de Jamie, Jared Fraser.
        Jared era um prspero imigrante escocs, importador de vinhos e outras bebidas alcolicas, com um pequeno armazm e uma grande residncia em Paris e com 
um enorme armazm aqui em L Havre, onde pedira a Jamie que o encontrasse, quando Jamie lhe escreveu para dizer que estvamos a caminho de Paris.
        Suficientemente descansada agora, comeava a sentir fome. Havia comida sobre a mesa; Jamie deve ter pedido  camareira para traz-la enquanto eu dormia.
        Eu no possua nenhum robe, mas meu pesado manto de viagem de veludo vinha a calhar; sentei-me e puxei o tecido quente e pesado sobre os ombros antes de 
me levantar para me aliviar, acrescentar mais uma tora de lenha ao fogo e sentar-me para meu caf da manh tardio.
        Mastiguei pezinhos duros e presunto cozido com satisfao, engolindo-os com o leite da jarra que haviam fornecido. Esperava que Jamie tambm estivesse sendo 
bem alimentado; ele insistiu que Jared era um bom amigo, mas eu tinha minhas dvidas sobre a hospitalidade de alguns parentes de Jamie, j tendo conhecido alguns 
deles a esta altura.  bem verdade que o abade nos recebera muito bem - at o ponto em que um homem na posio do abade possa receber bem um sobrinho fora-da-lei 
com uma mulher suspeita que surgem diante dele inesperadamente. Mas nossa estada com os familiares da me de Jamie, os MacKenzie de Leoch, por pouco no me matara 
no outono anterior, quando fui presa e julgada como bruxa.
        -  bem verdade - eu disse - que esse Jared  um Fraser, e eles parecem um pouco mais confiveis do que seus parentes MacKenzie. Mas voc j se encontrou 
com ele antes?
        - Morei com ele durante algum tempo quando tinha dezoito anos. - Ele me disse, pingando cera derretida em sua resposta e pressionando o anel de casamento 
de seu pai na resultante poa cinza-esverdeado. Um pequeno cabocho de rubi, o engaste gravado com o lema do cl Fraser, je suis prest: "Estou pronto."
        - Ele quis que eu ficasse com ele quando vim a Paris terminar meus estudos e conhecer um pouco do mundo. Ele foi muito bom para mim; um grande amigo de meu 
pai. E no h ningum que conhea melhor a sociedade parisiense do que o homem que lhe vende bebida - acrescentou, arrancando o anel da cera endurecida. - Quero 
conversar com Jared antes de entrar na corte de Lus ao lado de Carlos Stuart. Gostaria de sentir que tenho alguma chance de sair de l outra vez - concluiu ironicamente.
        - Por qu? Acha que haver dificuldades? - perguntei. "Qualquer tipo de assistncia que Sua Alteza possa requerer" parecia uma proposta bastante ampla.
        Sorriu diante do meu olhar preocupado.
        - No, no espero nenhuma dificuldade. Mas o que  que a Bblia diz, Sassenach? "No deposite sua confiana em prncipes"? - Levantou-se e me deu um beijo 
rpido na testa, guardando o anel de volta na bolsa do seu kilt. - Quem sou eu para ignorar a palavra de Deus, hein?
        Passei a tarde no quarto lendo um dos herbrios que meu amigo, o irmo Ambrose, enfiara em minhas mos como presente de despedida, e em seguida fazendo os 
consertos necessrios com linha e agulha. Nenhum de ns dois possua muitas roupas e embora houvesse vantagens em viajar com pouca bagagem, isso significava que 
meias furadas e bainhas desfeitas requeriam ateno imediata. Minha caixinha de linhas e agulhas era quase to preciosa para mim quanto o pequeno ba em que carregava 
ervas e remdios.
        A agulha entrava e saa do tecido, cintilando  luz da janela. Perguntava-me como estaria indo a visita de Jamie a Jared. Perguntava-me mais ainda como seria 
o prncipe Carlos. Seria o primeiro personagem histrico famoso que eu conheceria e, enquanto eu sabia que no devia acreditar em todas as lendas que haviam surgido 
(no haviam, mas iriam surgir) em torno dele, a realidade do homem era um mistrio. A Revoluo de 45 iria depender quase inteiramente da personalidade desse jovem 
em particular a derrota ou a vitria. Se chegaria sequer a acontecer iria depender dos esforos de outro jovem - Jamie Fraser. E de mim.
        Ainda estava absorvida em meus remendos e pensamentos, quando passos pesados no corredor fizeram-me perceber que j era tarde. O gotejar de gua das calhas 
diminura conforme a temperatura caa e as chamas do sol poente brilhavam nas lanas de gelo que pendiam do teto. A porta abriu-se e Jamie entrou.
        Sorriu vagamente em minha direo, depois parou imvel junto  mesa, o rosto pensativo, como se tentasse se lembrar de alguma coisa. Tirou a capa, dobrou-a, 
colocou-a com todo o cuidado sobre o p da cama, empertigou-se, marchou at o outro banco, sentou-se com grande preciso e cerrou os olhos.
        Permaneci sentada, imvel, a costura esquecida no colo, observando seus movimentos com grande interesse. Aps alguns instantes, ele abriu os olhos e sorriu 
para mim, mas no disse nada. Inclinou-se para a frente, examinando meu rosto com muita ateno, como se no me visse h semanas. Finalmente, uma expresso de profunda 
revelao atravessou seu rosto e ele relaxou, os ombros curvando-se enquanto apoiava os cotovelos nos joelhos.
        - Usque - disse, com imensa satisfao.
        - Sei - eu disse cautelosamente. - Muito?
        Ele sacudiu a cabea devagar de um lado para o outro, como se estivesse muito pesada. Eu quase podia ouvir o contedo chocalhando l dentro.
        - Eu, no - disse, pronunciando as palavras distintamente. - Voc.
        - Eu? - perguntei, indignada.
        - Seus olhos - ele disse, com um sorriso de felicidade. Seus prprios olhos estavam meigos e sonhadores, enevoados como um lago de trutas sob a chuva.
        - Meus olhos? O que meus olhos tm a ver com...
        - So da cor do usque de excelente qualidade, com o sol brilhando atravs deles por trs. Hoje de manh, achei que pareciam xerez, mas me enganei. Xerez, 
no. Conhaque, no.  usque. Essa  a cor. - Parecia to gratificado ao dizer isso que no pude deixar de rir.
        - Jamie, voc est muito bbado. O que andou fazendo?
        Seu rosto alterou-se, assumindo uma expresso ligeiramente carrancuda.
        - No estou bbado.
        - Ah, no? - Deixei a costura de lado e aproximei-me para colocar a mo em sua fronte. Estava fria e mida, embora o rosto estivesse afogueado. Ele imediatamente 
passou os braos em volta da minha cintura e puxou-me para junto dele, esfregando o nariz de modo afetuoso no meu peito. O cheiro de bebidas misturadas emanava de 
sua boca como uma nvoa, to espessa que era quase visvel.
        - Venha para mim, Sassenach - murmurou. - Minha mulher de olhos de usque, meu amor. Deixe-me lev-la para a cama.
        Achei discutvel a questo de quem ia levar quem para a cama, mas no contestei. No importava por qual motivo ele achava que iria para a cama, contanto 
que chegasse l. Curvei-me e coloquei o ombro por baixo de seu brao para ajud-lo a levantar-se, mas ele inclinou-se para se livrar de minha ajuda, erguendo-se 
lenta e majestosamente  prpria custa.
        - No preciso de ajuda - disse, levando a mo  corda na gola da camisa. - J lhe disse, no estou bbado.
        - Tem razo - retruquei. - "Bbado" no chega nem perto de descrever seu estado atual. Jamie, voc est completamente encharcado.
        Seus olhos percorreram a frente de seu kilt, atravessaram o assoalho e subiram pela frente da minha camisola.
        - No, no estou - disse, com grande dignidade. - Fiz isso l fora. - Deu um passo em minha direo, incandescente de paixo. - Venha para mim, Sassenach. 
Estou pronto.
        Achei que "pronto" era um pouco de exagero em determinado aspecto; conseguira desabotoar metade dos botes e a camisa caa, enviesada, por um dos ombros, 
mas talvez ele no fosse alm disso sem ajuda.
        Em outros aspectos, entretanto... o peito largo estava exposto, exibindo o pequeno vale no centro onde eu costumava descansar meu queixo, e os plos curtos 
e encaracolados saltavam alegremente em volta dos seus mamilos. Viu-me olhando-o e esticou-se para pegar minha mo, levando-a a seu peito. Senti seu calor sob minha 
mo e me aproximei instintivamente. O outro brao envolveu-me com fora e ele inclinou-se para me beijar. Fez um servio to completo que me senti ligeiramente embriagada, 
s em compartilhar seu hlito.
        - Est bem - eu disse, rindo. - Se voc est pronto, eu tambm estou. Mas deixe-me despi-lo primeiro, j costurei o suficiente por hoje.
        Ficou parado enquanto eu o despia, quase imvel. Tambm no se mexeu enquanto eu cuidava de minha prpria roupa e puxava as cobertas.
        Entrei na cama e virei-me para olh-lo, avermelhado e magnfico  luz do pr-do-sol. Era belamente esculpido, como uma esttua grega, o nariz longo e reto, 
as mas do rosto proeminentes como um perfil em uma moeda romana. A boca larga, macia, fixara-se num sorriso sonhador e os olhos rasgados exibiam um olhar distante. 
Estava perfeitamente imvel.
        Fitei-o com certa preocupao.
        - Jamie, como exatamente voc decide se est ou no bbado?
        Despertado pela minha voz, cambaleou perigosamente para um lado, mas segurou-se na borda do consolo da lareira. Seus olhos vagaram pelo quarto, depois se 
fixaram em meu rosto. Por um instante, resplandeceram lmpidos e cristalinos de inteligncia.
        - Ah, fcil, Sassenach. Se voc consegue ficar em p, no est bbado.
        - Soltou a borda do consolo da lareira, deu um passo em minha direo e desmoronou lentamente no cho em frente  lareira, os olhos vazios e um sorriso largo 
e meigo no rosto sonhador.
        - Oh! - exclamei.
        O coro dos galos l fora e o barulho de panelas no andar de baixo acordaram-me logo aps o nascer do sol no dia seguinte. A figura ao meu lado deu um salto, 
acordando bruscamente, depois se paralisou, quando o movimento repentino chocalhou seus miolos.
        Ergui-me sobre um cotovelo para examinar o que sobrou dele. No estava to mal assim, pensei com senso crtico. Seus olhos estavam cerrados com fora contra 
alguns raios desgarrados de luz do sol e os cabelos projetavam-se em todas as direes, como os espinhos de um ourio, mas a pele estava plida e lmpida e as mos 
agarradas  colcha estavam firmes.
        Ergui uma das plpebras, espreitei l dentro e disse de brincadeira:
        - Algum em casa?
        O olho gmeo daquele que eu espreitava abriu-se devagar, para acrescentar seu olhar maligno ao primeiro. Deixei cair a mo e sorri sedutoramente para ele.
        - Bom-dia.
        - Isso, Sassenach,  inteiramente uma questo de opinio - ele disse, fechando os dois olhos outra vez.
        - Voc faz idia de quanto pesa? - perguntei, em tom de conversa.
        - No.
        A brusquido da resposta sugeria que ele no s no sabia, como no se importava, mas insisti em meus esforos.
        - Algo em torno de cem quilos, calculo. Quase tanto quanto um javali de bom tamanho. Infelizmente, eu no tinha nenhum ajudante de caador para pendur-lo 
de cabea para baixo numa vara e carreg-lo para casa, para o barraco de defumao.
        - Como conseguiu me trazer para a cama?
        - No trouxe. Eu no conseguia remov-lo do lugar, ento apenas o cobri com uma colcha e o deixei perto da lareira. Voc voltou  vida e arrastou-se para 
cima da cama por conta prpria, em algum momento no meio da noite.
        Ele pareceu surpreso e abriu o outro olho outra vez.
        - Eu fiz isso?
        Confirmei balanando a cabea e tentei alisar os cabelos espetados sobre a orelha esquerda.
        - Ah, sim. Voc estava muito obstinado.
        - Obstinado? - Franziu a testa, pensando, e espreguiou-se, erguendo os braos acima da cabea. Ento, pareceu perplexo.
        - No. Eu no poderia.
        - Sim, pde. Duas vezes.
        Estreitou os olhos para baixo de seu peito, como se buscasse confirmao dessa afirmao improvvel, depois olhou novamente para mim.
        - Verdade? Bem, isso no  justo, no me lembro de nada. - Hesitou por um instante, parecendo envergonhado. - E foi tudo bem? No fiz nenhuma bobagem?
        Deixei-me cair a seu lado e aconcheguei minha cabea na curva de seu ombro.
        - No, no chamaria a isso de bobagem. Mas voc no estava a fim de muita conversa.
        - Graas a Deus pelas pequenas bnos - ele disse, uma risadinha retumbando pelo seu peito.
        - Hum. Voc no conseguia dizer nada alm de "eu a amo", mas repetiu isso sem parar.
        A risadinha retornou, mais alta desta vez.
        - Ah,  mesmo? Bem, podia ter sido pior, imagino.
        Inspirou fundo, depois parou. Virou a cabea e cheirou desconfiadamente o tufo macio de plos cor de canela sob seu brao erguido.
        - Nossa! - exclamou. Tentou me empurrar. - No coloque a cabea perto da minha axila, Sassenach. Estou cheirando a javali morto h uma semana.
        - E conservado no conhaque depois - concordei, aconchegando-me mais. - Alis, como  que voc conseguiu ficar... ha... to bbado e fedorento?
        - A hospitalidade de Jared. - Ajeitou-se nos travesseiros com um profundo suspiro, o brao em volta do meu ombro. - Ele me levou at as docas para me mostrar 
seu armazm. E o depsito onde ele guarda os vinhos raros, o conhaque portugus e o rum jamaicano. - Riu levemente, recordando-se. - O vinho no foi to ruim, porque 
voc s prova e cospe no cho depois de encher a boca. Mas nenhum de ns dois podia ver desperdiar o conhaque dessa forma. Alm disso, Jared disse que voc tem 
que deixar o conhaque descer devagar pelo fundo da garganta para poder apreci-lo bem.
        - E quanto conhaque voc apreciou? - perguntei com curiosidade.
        - Perdi a conta depois da segunda garrafa. - Nesse momento, um sino de igreja comeou a soar ali perto; a convocao para a missa matinal. Jamie sentou-se 
com um salto, olhando espantado para a janela, completamente iluminada pelo sol.
        - Meu Deus, Sassenach! Que horas so?
        - Umas seis horas, eu acho - respondi, intrigada. - Por qu? Ele relaxou um pouco, embora permanecesse sentado.
        - Ah, tudo bem, ento. Pensei que fosse o sino do ngelus. Perdi completamente a noo do tempo.
        - Eu diria que sim. E isso importa?
        Numa exploso de energia, livrou-se das cobertas e levantou-se. Cambaleou por um instante, mas recuperou o equilbrio, embora tenha levado as duas mos  
cabea, para se certificar de que ainda estava presa ao corpo.
        - Sim - respondeu, um pouco ofegante. - Temos um compromisso esta manh nas docas, no armazm de Jared. Ns dois.
        -  mesmo? - Eu tambm me levantei e tateei em busca do urinol embaixo da cama. - Se ele pretende completar o servio, no acho que iria querer testemunhas.
        A cabea de Jamie saltou da gola de sua camisa, as sobrancelhas erguidas.
        - Completar o servio?
        - Bem, a maioria dos seus outros parentes parecem querer matar voc ou a mim; por que no Jared? Mas parece que ele comeou bem, envenenando-o desse jeito.
        - Muito engraado, Sassenach - disse, secamente. - Tem alguma coisa decente para vestir?
        Eu vinha usando um vestido largo e prtico de sarja cinza em nossas viagens, adquirido atravs dos bons prstimos do frade esmoler do Mosteiro de St. Anne, 
mas tambm levava o vestido com o qual fugira da Esccia, um presente de lady Annabelle MacRannoch. Um bonito vestido de veludo verde que me fazia parecer um pouco 
plida, mas que era muito elegante.
        - Acho que sim, se no estiver muito manchado da gua salgada do mar.
        Ajoelhei-me ao lado do pequeno ba de viagem, desdobrando o veludo verde. Ajoelhando-se a meu lado, Jamie levantou a tampa da minha caixa de remdios, analisando 
as camadas de frascos, caixas e embrulhos de ervas em pedaos de gaze
        - Voc tem alguma coisa aqui para uma terrvel dor de cabea, Sassenach?
        Espreitei por cima de seu ombro, depois enfiei a mo na caixa e toquei em um frasco.
        - Marroio-branco talvez ajude, embora no seja o melhor. E ch de casca de salgueiro com sementes de funcho funciona muito bem, mas leva algum tempo para 
a infuso. J sei,vou preparar uma receita de fgado macerado. Excelente para curar ressaca.
        Voltou um olho azul desconfiado para mim.
        - Parece horrvel.
        - E  - eu disse animadamente. - Mas vai se sentir muito melhor depois de vomitar
        - Muhm. - Levantou-se e empurrou o urinol para mim com o dedo do p. - Esse negcio de vomitar de manh  para voc, Sassenach - disse. - Acabe logo com 
isso e vista-se. Euvou agentar a dor de cabea.
        Jared Munro Fraser era um homem magro, pequeno, de olhos negros, que possua mais do que uma leve semelhana com seu primo distante Murtagh, o membro do 
cl Fraser que nos acompanhara at L Havre. Assim que vi Jared, majestosamente em p no vo das portas de seu armazm, de modo que o fluxo contnuo de estivadores 
carregando barris era obrigado a passar em redor dele, a semelhana era to forte que pisquei e esfreguei os olhos. Murtagh, at onde eu sabia, ainda estava na hospedaria, 
cuidando de um cavalo que mancava
        Jared possua os mesmos cabelos escuros, escorridos, e os mesmos olhos penetrantes; a mesma estrutura musculosa, semelhante a um macaco. Mas as semelhanas 
terminavam a e, conforme nos aproximamos, Jamie cavalheirescamente abrindo caminho para mim pela multido com os ombros e os cotovelos, pude ver tambm as diferenas. 
O rosto de Jared era oval, em vez de parecer cortado a machadinha, com um alegre nariz arrebitado que efetivamente arruinava o ar digno conferido a distncia pelo 
traje de corte excelente e pelo porte ereto
        Era um prspero comerciante, em vez de um ladro de gado, e tambm sabia sorrir - ao contrrio de Murtagh, cuja expresso natural era de invarivel rabugice. 
Um amplo sorriso de boas-vindas espraiou-se em seu rosto quando ramos empurrados e acotovelados rampa acima, em sua direo.
        - Minha cara! - exclamou, agarrando-me pelo brao e arrancando-me com destreza do caminho de dois estivadores musculosos que giravam um barril gigantesco 
pela imensa porta. - Que prazer conhec-la finalmente!
        - O barril batia com estrondo nas pranchas de madeira da rampa e eu podia ouvir a agitao do lquido em seu interior quando passou por mim.
        - O rum voc pode tratar assim - Jared observou, prestando ateno ao desajeitado progresso do barril imenso pelos obstculos do enorme depsito -, mas no 
o vinho do Porto. Sempre vou busc-lo eu mesmo, junto com as garrafas de vinho. Na realidade, eu estava saindo para receber uma nova remessa do vinho do Porto Belle 
Rouge. Estariam interessados em me acompanhar?
        Olhei parajamie, que assentiu, e partimos imediatamente no rastro de Jared, desviando-nos do retumbante trfego de barris e tambores, carroas e carrinhos 
de mo, e homens e meninos de todos os tipos. Carregavam rolos de tecidos, caixas de gros e outros gneros alimentcios, rolos de cobre martelado, sacas de farinha 
e qualquer outro produto que pudesse ser transportado de navio.
        O Havre era um importante centro de comrcio martimo e as docas eram o corao da cidade. Um cais longo e slido corria por quase quatrocentos metros ao 
longo da margem do porto; peres menores projetavam-se do cais e, ao longo destes, viam-se ancorados bergantins e brigues de trs mastros, barcos leves a remo e 
pequenas gals - um leque completo dos navios que abasteciam a Frana.
        Jamie continuava me segurando com fora pelo cotovelo, a melhor maneira de me arrancar do caminho de carrinhos de mo, barris rolando e comerciantes e marujos 
descuidados, que vinham em nossa direo, inclinados a no olhar por onde passavam, mas a confiar exclusivamente no momentum para atravessar a confusa barreira das 
docas.
        Conforme abramos nosso caminho pelo cais, Jared gritava educadamente no meu ouvido do outro lado, apontando objetos de interesse  medida que passvamos 
e explicando a histria e a propriedade dos vrios navios de uma maneira desarticulada, em staccato. O Arianna, o qual estvamos a caminho para ver, era na realidade 
um dos prprios navios de Jared. Os navios, pelo que entendi, deviam pertencer a um nico proprietrio, em geral uma companhia de mercadores, que os possuam coletivamente, 
ou, de vez em quando, a um capito que contratava sua embarcao, tripulao e servios para uma viagem. Vendo o nmero de navios pertencentes a companhias, comparados 
aos relativamente poucos pertencentes a indivduos, comecei a formar uma idia muito respeitosa do valor de Jared.
        O Arianna estava no meio da fileira de navios ancorados, perto de um grande depsito com o nome FRASER pintado a cal, em letras inclinadas.
        Ao v-lo, senti uma estranha emoo, um repentino sentimento de unio e afinidade, percebendo que aquele tambm era o meu nome e, com isso, reconhecendo 
o parentesco com aqueles que o usavam.
        O Arianna era um navio de trs mastros, com uns dezoito metros de comprimento e uma proa larga. Havia dois canhes na lateral do navio virada para a doca; 
para o caso de saque em alto-mar, imaginei. Por todo o convs, fervilhava uma multido de homens, presumivelmente com algum propsito definido, embora no parecesse 
mais do que um formigueiro sob ataque.
        Todas as velas estavam amarradas, mas a mar, subindo, balanava o navio ligeiramente, lanando o gurups em nossa direo. Era decorado com uma carranca 
de expresso demonaca; com seu formidvel peito nu e madeixas encaracoladas, tudo borrifado de sal, aquela senhora no parecia gostar muito da brisa do mar.
        -  uma beleza, no ? - Jared perguntou, abanando a mo num gesto amplo. Presumi que ele se referia ao navio, e no  carranca.
        - Uma maravilha - Jamie disse educadamente. Percebi o olhar temeroso que ele lanou  linha-d'gua do navio, onde pequenas ondas cinzaescuro lambiam o casco. 
Pude notar que ele torcia para que no tivssemos que subir a bordo. Um guerreiro valoroso, brilhante, destemido e arrojado no campo de batalha, Jamie Fraser era 
tambm um homem da terra firme.
        No sendo definitivamente um daqueles inquebrantveis marinheiros escoceses, verdadeiros lobos-do-mar, que caavam baleias de Tarwathie ou viajavam pelo 
mundo em busca de riqueza, sofria de enjo do mar de forma to aguda que nossa travessia do Canal em dezembro quase o matara, fraco como estava na ocasio em conseqncia 
da tortura e da priso. E embora no fosse esta a inteno da orgia de bebidas de ontem com Jared, no  provvel que o tivesse tornado mais apto a navegar.
        Pude ver recordaes sombrias atravessando seu rosto enquanto ouvia seu primo exaltar a robustez e a velocidade do Arianna e me aproximei o suficiente para 
sussurrar-lhe:
        - Certamente no enquanto estiver ancorado, no ?
        - No sei, Sassenach - ele respondeu, com um olhar para o navio onde o asco e a resignao misturavam-se facilmente. - Mas suponho que logo descobriremos. 
- Jared j estava no meio da prancha de embarque, cumprimentando o capito com sonoros gritos de boas-vindas. - Se eu ficar verde, pode fingir desmaiar ou algo assim?vou 
dar m impresso se eu vomitar nos sapatos de Jared.
        Dei uns tapinhas em seu brao para tranqiliz-lo.
        - No se preocupe. Tenho f em voc.
        - No sou eu - ele disse, com um derradeiro e demorado olhar  terra firme. -  meu estmago.
        Entretanto, a embarcao permaneceu confortavelmente estvel sob nossos sapatos e tanto Jamie quanto seu estmago comportaram-se briosamente - ajudados, 
talvez, pelo conhaque que o capito nos serviu.
        - Um excelente produto - Jamie disse, passando o copo de leve sob o nariz e fechando os olhos em sinal de aprovao s emanaes densas e aromticas. - Portugus, 
no?
        Jared riu, encantado, e cutucou o capito.
        - Est vendo, Portis? Eu disse a voc que ele tinha um paladar apurado! S o provou uma vez antes!
        Mordi a parte interna da minha bochecha e evitei o olhar de Jamie. O capito, um tipo grandalho, de aparncia imunda, parecia entediado, mas riu educadamente 
na direo de Jamie, exibindo trs dentes de ouro. Um homem que gostava de manter sua riqueza por perto.
        - Hum - resmungou. - Esse rapaz vai manter seus pores vazios, no ? Jared pareceu repentinamente constrangido, um leve rubor surgindo por baixo da pele 
curtida de seu rosto. Notei, fascinada, que uma de suas orelhas era furada para um brinco e me perguntei exatamente que tipo de passado o levara ao seu sucesso atual.
        - Sim, bem - ele disse, denunciando pela primeira vez um leve sotaque escocs -, isso ainda vamos ver. Mas eu acho... - Correu os olhos pelo porto, para 
a atividade que se desenrolava no cais, depois de volta para o copo do capito, esvaziado com trs grandes goles enquanto o resto de ns bebericava o conhaque bem 
devagar. - Hum, sabe, Portis, poderia nos deixar usar sua cabine por um instante? Gostaria de conversar com meu sobrinho e sua mulher... e acho que o poro da popa 
est tendo uma certa dificuldade com as redes de carga, pelo barulho que estou ouvindo. - Essa observao habilmente acrescentada foi suficiente para fazer com que 
o capito Portis sasse disparado da cabine como um javali no ataque, a voz rouca exaltada num pato hispano-francs, que eu, por sorte, no compreendi.
        Jared caminhou delicadamente at a porta e fechou-a com firmeza atrs da figura volumosa do capito, reduzindo substancialmente o nvel de barulho. Retornou 
 minscula mesa do capito e cheio de cerimnia encheu outra vez todos os nossos copos antes de falar. Em seguida, olhou de Jamie para mim e sorriu mais uma vez, 
numa sedutora splica.
        -  um pouco mais precipitado do que eu pretendia fazer tal pedido - disse. - Mas vejo que o bom capito de certa forma j me denunciou. A verdade  que 
- ergueu o copo de modo que os reflexos aquosos do porto trespassassem o conhaque, atingindo manchas de luz ondulantes produzidas pelos acessrios de bronze da cabine 
- preciso de um homem. - Ele inclinou a borda do copo na direo de Jamie, depois o levou aos lbios e tomou um gole.
        - Um bom homem - reforou, abaixando o copo. - Sabe, minha cara - disse, fazendo uma ligeira mesura para mim -, tenho a oportunidade de fazer um investimento 
excepcional em um novo estabelecimento vincola na regio de Moselle. Mas a misso de avaliar o empreendimento no  de tal sorte que eu me sinta confortvel em 
confi-la a um subordinado; eu mesmo precisaria ver as instalaes e supervisionar seu desenvolvimento. A tarefa exigiria vrios meses.
        Olhou pensativo para dentro do copo, agitando delicadamente o lquido castanho e fragrante, de modo que seu perfume encheu a minscula cabine. Eu no bebera 
mais do que alguns pequenos goles do meu prprio copo, mas comecei a me sentir um pouco tonta, mais em virtude de uma crescente empolgao do que da bebida.
        -  uma oportunidade boa demais para deixar escapar - Jared disse. E h a chance de fazer vrios contratos novos com as vincolas ao longo do Reno; os produtos 
de l so excelentes, mas relativamente raros em Paris. Meu Deus, eles venderiam entre a nobreza como neve no vero! - Seus astutos olhos negros brilharam por um 
momento, com vises de poder e riqueza, depois faiscaram de humor ao olharem para mim.
        - Mas... - disse.
        - Mas - conclu para ele - voc no pode abandonar seus negcios aqui sem algum para administr-los.
        - Inteligncia, assim como beleza e charme. Parabns, primo. - Inclinou a cabea bem tratada em direo a Jamie, uma das sobrancelhas arqueada num sinal 
de cmica aprovao.
        - Confesso que estava um pouco perdido, sem saber como deveria colocar a questo - disse, depositando o copo sobre a pequena mesa com o ar de um homem que 
coloca de lado as frivolidades sociais em prol da seriedade dos negcios. - Mas quando voc escreveu de St. Anne, dizendo que pretendia visitar Paris... - Hesitou 
por um instante, depois sorriu para Jamie, com um peculiar meneio das mos.
        - Sabendo que voc, meu rapaz - disse, indicando Jamie -, tem uma tima cabea para nmeros, senti-me fortemente inclinado a considerar sua chegada como 
uma resposta s minhas preces. Ainda assim, achei que talvez fosse melhor ns nos encontrarmos e reatarmos nossos laos, antes que eu desse o passo de lhe fazer 
uma proposta definitiva.
        Quer dizer, achou melhor ver o quanto eu era apresentvel, pensei cinicamente, mas sorri para ele mesmo assim. Meus olhos encontraram os de Jamie e uma de 
suas sobrancelhas curvou-se para cima. Esta era nossa semana de propostas, evidentemente. Para um fora-da-lei sem posses e uma inglesa suspeita de espionagem, nossos 
servios pareciam estar sendo bem requisitados.
        A proposta de Jared era mais do que generosa; em troca do trabalho de Jamie administrando o ramo francs dos negcios pelos prximos seis meses, Jared no 
s lhe pagaria um salrio, como deixaria a casa de Paris, com todos os empregados,  nossa disposio.
        - De modo algum, de modo algum - disse, quando Jamie tentou protestar contra essa estipulao. Pressionou um dedo na ponta do nariz, sorrindo sedutoramente 
para mim. - Uma bela mulher para realizar jantares  uma grande vantagem no negcio de vinhos, primo. Voc no faz idia de quanto vinho voc pode vender, se deixar 
os clientes o provarem primeiro. - Sacudiu a cabea decisivamente. - No, ser um grande servio para mim se sua mulher se dispuser a fazer festas e receber pessoas.
        A idia de promover grandes jantares para a sociedade parisiense era na realidade um pouco assustadora. Jamie olhou para mim, as sobrancelhas erguidas interrogativamente, 
mas eu engoli em seco e sorri, balanando a cabea em consentimento. Era uma boa oferta; se ele se sentisse competente para assumir a administrao de um negcio 
importante, o mnimo que eu poderia fazer era organizar jantares e atualizar meu francs para conversas animadas.
        - Certamente - murmurei, mas Jared j assumira minha concordncia como certa e prosseguia, os olhos negros e decididos fixos em Jamie.
        - Depois, achei que talvez fossem precisar de algum tipo de moradia, em benefcio dos outros interesses que os trazem a Paris.
        Jamie sorriu evasivamente, o que fez Jared dar uma risada e pegar seu copo de conhaque. Tambm haviam servido um copo d'gua a cada um de ns, para limpar 
o paladar entre um gole e outro, e Jared pegou um desses com a outra mo.
        - Bem, um brinde! - exclamou. -  nossa parceria, primo! E  Sua Majestade! - Ergueu o copo numa saudao, depois passou-o ostensivamente por cima do copo 
de gua e levou-o aos lbios.
        Observei aquele estranho comportamento com surpresa, mas aparentemente significava alguma coisa para Jamie, pois ele sorriu para Jared, pegou seu prprio 
copo e passou-o por cima da gua.
        -  Sua Majestade! - ele repetiu. Depois, vendo-me fitando-o confusa, ele sorriu e explicou: -  Sua Majestade... do outro lado da gua, Sassenach.
        - Oh? - exclamei, ento, por fim entendendo o significado do gesto.
        - Oh! - O rei do outro lado da gua, o rei Jaime. O que explicava em parte a urgncia da parte de todo mundo para ver Jamie e a mim estabelecidos em Paris, 
o que de outra forma teria parecido uma improvvel coincidncia.
        Se Jared tambm era um jacobita, ento sua correlao com o abade Alexander seria muito provavelmente mais do que uma coincidncia; as probabilidades eram 
de que a carta de Jamie anunciando nossa chegada viera junto com uma de Alexander, explicando a incumbncia que recebera do rei Jaime. E se nossa presena em Paris 
vinha a calhar para os prprios planos de Jared, tanto melhor. com uma sbita admirao pelas complexidades da rede jacobita, ergui meu prprio copo e bebi  Sua 
Majestade do outro lado da gua - e  nossa nova sociedade com Jared.
        Jared e Jamie, em seguida, sentaram-se para discutir os negcios e logo estavam debruados sobre folhas de papel recobertas de anotaes a tinta, evidentemente 
notas de cargas e de despacho de mercadorias por via martima. A minscula cabine recendia a tabaco, emanaes de conhaque e marinheiro sujo, e comecei a me sentir 
ligeiramente enjoada outra vez. Vendo que minha presena no seria necessria por algum tempo, levantei-me em silncio e subi para o convs.
        Tive a precauo de evitar a briga que ainda continuava em torno da portinhola de carga na parte posterior do navio e escolhi meu caminho entre rolos de 
cordas, objetos que presumi serem cunhos de marcao e pilhas desordenadas de tecido de velas, at um lugar tranqilo na proa. Dali, a vista do porto era completa 
e desobstruda.
        Sentei numa arca com as costas apoiadas no balastre, desfrutando a brisa marinha e os odores de peixe e de alcatro de navios e docas. Ainda estava frio, 
mas com meu manto bem enrolado no corpo, estava bem aquecida. A embarcao oscilava devagar, levantando-se na preamar; eu podia ver as fitas de algas nos pilares 
dos peres mais prximos erguerem-se e bailarem sinuosamente, obscurecendo as manchas brilhantes e negras de mexilhes em meio a elas.
        A idia me fez lembrar dos mexilhes no vapor que eu comera no jantar do dia anterior e de repente me senti faminta. Os absurdos contrastes da gravidez pareciam 
me manter sempre consciente de minha digesto; se no estava vomitando, estava com uma fome voraz. A idia de comida me levou a pensar em menus, o que remeteu  
considerao das festas e jantares que Jared mencionara. Jantares, hein? Parecia uma estranha maneira de comear a tarefa de salvar a Esccia, mas na verdade no 
conseguia pensar em nada melhor.
        Ao menos, se eu tivesse Carlos Eduardo sentado  mesa  minha frente, poderia ficar de olho nele, pensei, sorrindo para mim mesma diante da piada. Se ele 
mostrasse sinais de pegar um navio para a Esccia, quem sabe eu poderia colocar alguma coisa em sua sopa.
        Talvez isso no fosse to engraado assim, afinal de contas. O pensamento me fez recordar Geillis Duncan e meu sorriso desapareceu. Mulher do procurador 
fiscal em Cranesmuir, assassinara o marido colocando cianureto em p em sua comida em um banquete. Acusada de bruxaria pouco tempo depois, fora detida quando eu 
estava com ela e eu mesma tambm fui levada a julgamento; um julgamento do qual Jamie me resgatara. As lembranas de vrios dias presa na escurido fria do buraco 
dos ladres em Cranesmuir ainda eram muito recentes, e de repente o vento pareceu-me demasiado frio.
        Estremeci, mas no tanto pelo frio. No podia pensar em Geillis Duncan sem aquele calafrio na espinha. No tanto pelo que ela havia feito, mas por quem ela 
fora. Uma jacobita, tambm; algum cujo apoio  causa Stuart fora mais do que levemente tingido de loucura. Pior ainda, ela era o que eu era - uma viajante atravs 
do crculo de pedras.
        Eu no sabia se ela viera para o passado como eu, acidentalmente, ou se sua jornada fora deliberada. Tambm no sabia precisamente de onde ela viera. Entretanto, 
a ltima viso que tive dela, gritando de modo desafiador para os juizes que a condenariam  fogueira, era a de uma mulher alta, clara, os braos estendidos acima 
do corpo, mostrando em um dos braos a reveladora cicatriz de uma vacina. Automaticamente, procurei a pequena marca redonda de pele spera no meu prprio brao, 
sob as dobras reconfortantes de meu manto, e estremeci quando a encontrei.
        Minha ateno foi desviada dessas tristes lembranas por um crescente alvoroo no per ao lado. Um bando de homens aglomerara-se junto  prancha de embarque 
de um navio, gritando e empurrando-se. No era uma briga; olhei a altercao, protegendo meus olhos da luz com a mo, mas no vi nenhum soco sendo desferido. Em 
vez disso, parecia haver um esforo em abrir caminho pela multido agitada para as portas de um grande armazm na extremidade superior do per. A multido resistia 
tenazmente a esse esforo, voltando como uma grande onda aps cada empurro.
        Jamie logo surgiu atrs de mim, seguido de perto por Jared, que estreitou os olhos para o tumulto l embaixo. Absorvida pela gritaria, eu no ouvira o rudo 
de sua aproximao.
        - O que ? - perguntei, levantando-me e apoiando-me em Jamie, para me proteger da crescente oscilao do navio sob meus ps. Assim de perto, senti seu cheiro; 
ele tomara banho na estalagem e tinha um aconchegante cheiro de limpeza, com um toque de sol e poeira. O olfato aguado era outro efeito da gravidez, aparentemente; 
podia sentir o cheiro de seu corpo mesmo entre a mirade de aromas e odores ftidos do porto, assim como se pode ouvir uma voz baixa junto ao ouvido no meio de uma 
multido barulhenta.
        - No sei. Algum problema com o outro navio, ao que parece. - Ele segurou-me pelo cotovelo, para me firmar. Jared virou-se e gritou uma ordem em francs 
chulo a um dos marujos prximos. O sujeito prontamente saltou por cima do corrimo e deslizou por uma das cordas at o cais, o rabo-de-cavalo tpico dos marinheiros 
balanando-se acima da gua. Observamos do convs quando ele se juntou  multido, cutucou outro homem nas costelas e recebeu uma resposta, acompanhada de expressivas 
gesticulaes.
        Jared franziu a testa quando o homem de rabo-de-cavalo desvencilhou-se da multido na rampa de embarque. O marinheiro disse-lhe alguma coisa no mesmo francs 
ordinrio e rpido demais para que eu pudesse entender. Aps mais algumas palavras de conversa, Jared virou-se bruscamente e veio postar-se ao meu lado, as mos 
esbeltas agarradas ao corrimo.
        - Ele diz que h alguma doena a bordo do Patagnia.
        - Que tipo de doena? - No pensara em trazer minha caixa de remdios, de modo que pouco poderia fazer de qualquer modo, mas estava curiosa. Jared pareceu 
preocupado e infeliz.
        - Receiam que seja varola, mas no sabem. O inspetor e o capito do porto foram chamados.
        - Gostaria que eu desse uma olhada? - ofereci-me. - Talvez eu possa ao menos dizer se  uma doena contagiosa ou no.
        As sobrancelhas mal delineadas de Jared desapareceram sob a franja negra e lisa de seus cabelos. Jamie pareceu ligeiramente embaraado.
        - Minha mulher  uma grande curandeira, primo - explicou, mas depois se voltou e sacudiu a cabea para mim.
        - No, Sassenach. No seria seguro.
        Eu podia ver perfeitamente a rampa do Patagnia; agora a multido recuava rpido, tropeando e pisando nos ps uns dos outros. Dois marinheiros desceram 
do convs, um pedao de lona erguida entre eles como uma espcie de maca. O tecido branco de vela curvava-se pronunciadamente sob o peso do homem que carregavam 
e um brao nu, queimado de sol, balanava da rede improvisada.
        Os marinheiros usavam tiras de pano amarradas por cima do nariz e da boca e mantinham o rosto afastado da maca, sacudindo a cabea conforme resmungavam um 
para o outro, manobrando seu fardo sobre as pranchas lascadas. A dupla passou sob os olhares fascinados da multido e desapareceu em um armazm prximo.
        Tomando uma rpida deciso, virei-me e rumei em direo  rampa da Popa do Arianna.
        - No se preocupe - gritei para Jamie por cima do ombro -, se for varola, eu no posso pegar. - Um dos marinheiros, ouvindo-me, parou boquiaberto, mas eu 
apenas sorri para ele e segui em frente.
        A multido estava em silncio agora, no mais arremessando-se para frente e para trs, e no foi muito difcil abrir caminho entre os grupos de marinheiros 
murmurando entre si, muitos dos quais franziam o cenho ou pareciam espantados enquanto eu passava por eles. O armazm estava abandonado; nenhum fardo ou tonei preenchia 
as sombras ressoantes do imenso espao vazio, mas os cheiros de madeira serrada, carne defumada e peixe pairavam no ar, facilmente distinguveis da multiplicidade 
de outros odores.
        O doente fora largado com pressa perto da porta, sobre um monte de palha de enchimento descartada. Seus acompanhantes me empurraram ao passar por mim quando 
entrei, ansiosos para sarem dali.
        Aproximei-me do doente cautelosamente, parando a certa distncia. Ele ardia em febre, a pele com um estranho tom vermelho-escuro e com uma grossa crosta 
de pstulas brancas. Ele gemia, irrequieto, sacudindo a cabea de um lado para o outro, a boca entreaberta movendo-se como se buscasse gua.
        - Arranje-me um pouco de gua - eu disse a um dos marinheiros mais prximos. O homem, um sujeito baixo, musculoso, com a barba untada e penteada em espetos 
ornamentais, apenas me fitou, como se um peixe tivesse lhe dirigido a palavra.
        Dando-lhe as costas com impacincia, ajoelhei-me ao lado do doente e abri sua camisa imunda. Ele fedia de modo abominvel; provavelmente j no era asseado 
desde o comeo e fora deixado para apodrecer em sua prpria imundcie, seus companheiros temerosos de tocar nele. Os braos estavam razoavelmente limpos, mas as 
pstulas cobriam-lhe o peito e a barriga, e sua pele queimava ao toque.
        Jamie entrara enquanto eu examinava o doente, acompanhado de Jared. com eles, via-se um homem pequeno, com rosto em formato de pra, trajando um vistoso 
casaco de oficial ornamentado com festes dourados, e dois outros homens - um era um nobre ou burgus rico, a julgar pelas roupas; o outro, um sujeito alto e magro, 
obviamente um homem do mar por sua compleio. Provavelmente, o capito do navio empestado, se fosse esse o caso.
        E parecia ser. J vira varola muitas vezes antes, nas regies primitivas do mundo s quais meu tio Lamb, um eminente arquelogo, me levara na minha infncia. 
Este homem no urinava sangue, como s vezes acontecia quando a doena atacava os rins, mas fora isso apresentava todos os sintomas clssicos.
        - Receio que seja varola - eu disse.
        O capito do Patagnia soltou um grito de angstia e avanou na minha direo, o rosto desfigurado, erguendo a mo como se fosse me agredir.
        - No! - berrou. - Mulher idiota! Salope! Femme sans cervelle! Quer me arruinar?
        A ltima palavra soou como um gargarejo quando a mo de Jamie fechou-se em sua garganta. A outra mo segurava o homem pela frente da camisa, torcendo-a com 
fora e levantando o sujeito do cho.
        - Gostaria que se dirigisse  minha mulher com mais respeito, monsieur - Jamie disse, sem se alterar. O capito, o rosto ficando roxo, conseguiu fazer um 
curto e espasmdico aceno de cabea e Jamie largou-o. Ele deu um passo para trs, chiando como um asmtico, esfregando a garganta, e foi se afastando de lado, para 
trs de seu companheiro, como se procurasse refgio.
        O atarracado oficial inclinava-se cautelosamente sobre o homem doente, segurando um grande recipiente de prata contendo substncias aromticas. Do lado de 
fora, o nvel de barulho reduziu-se de repente, quando a multido recuou da entrada do armazm para deixar entrar outra cama de lona.
        O homem diante de ns sentou-se abruptamente, assustando o pequeno oficial de tal modo que ele quase caiu. O homem olhou ao redor do armazm com os olhos 
esbugalhados, depois seus olhos reviraram-se para trs e ele caiu de volta na palha, como se tivesse sido abatido por uma alabarda. No era o caso, mas o resultado 
final foi quase o mesmo.
        - Est morto - eu disse, desnecessariamente.
        O oficial, recuperando a dignidade junto com seu recipiente aromtico, aproximou-se mais uma vez, olhou o defunto atentamente, empertigou-se e anunciou:
        - Varola. A senhora tem razo. Desculpe-me, monsieur l comte, mas conhece a lei como todo mundo.
        O homem a quem ele se dirigiu suspirou impacientemente. Lanou-me um olhar, franzindo a testa, depois sacudiu a cabea na direo do oficial.
        - Tenho certeza de que isso pode ser arranjado, monsieur Pamplemousse. Por favor, um instante para uma conversinha particular... - Fez um gesto com a mo 
indicando a barraca deserta do contramestre que ficava a alguns metros de distncia, uma pequena estrutura abandonada dentro da construo maior. Um nobre pelos 
trajes tanto quanto pelo ttulo, monsieur Lecomte era um tipo elegante e esbelto, com sobrancelhas grossas e lbios finos. Toda a sua postura proclamava que era 
um homem acostumado a ser obedecido.
        Mas o pequeno oficial recuava, as mos estendidas  sua frente numa atitude de autodefesa.
        - Non, monsieur l comte - disse. - Je l regrette, mais c'est impossible. No pode ser feito. Muita gente j sabe do ocorrido. A notcia j se espalhou 
por todo o porto a essa altura. - Olhou desamparadamente para Jamie e Jared, depois agitou a mo vagamente em direo  porta do armazm, onde as cabeas sem rosto 
dos espectadores eram mostradas em silhueta, o sol do final de tarde coroando-os com aurolas douradas.
        - No - repetiu, as feies rechonchudas endurecendo-se com determinao. - Vai me desculpar, monsieur... e madame - acrescentou tardiamente, como se me 
visse pela primeira vez. - Devo ir e dar incio s medidas legais para destruio do navio.
        O capito emitiu outro grito engasgado e agarrou o oficial pela manga do casaco, mas ele livrou-se e saiu s pressas do armazm.
        O ambiente ficou um pouco tenso depois de sua partida, com monsieur l comte e seu capito lanando-me um olhar furioso, Jamie fitando-os de modo ameaador, 
e o morto olhando cega e fixamente para o teto doze metros acima.
        O conde deu um passo em minha direo, os olhos faiscando.
        - Tem alguma idia do que acaba de fazer? - rosnou. - Estou avisando-a, madame. Vai pagar pelo que fez hoje!
        Jamie lanou-se na direo do conde, mas Jared foi mais rpido, puxando Jamie pela manga da camisa, empurrando-me delicadamente na direo da porta e murmurando 
alguma coisa ininteligvel para o aflito capito, que apenas sacudiu a cabea em resposta.
        - Pobre-diabo - Jared disse do lado de fora, sacudindo a cabea. Caramba! - Fazia frio no per, com um vento gelado e cinzento balanando os navios ancorados, 
mas Jared enxugou o rosto e o pescoo com um grande e esquisito leno vermelho de lona que tirou do bolso do casaco. - Vamos, rapaz, vamos procurar uma taverna. 
Preciso de uma bebida.
        Escondidos em segurana no salo superior de uma das tavernas  beira do cais, com um jarro de vinho sobre a mesa, Jared deixou-se cair numa cadeira, abanando-se, 
e expirou ruidosamente.
        - Meu Deus, que sorte! - Serviu uma boa quantidade de vinho na sua caneca, jogou-a fora e serviu outra. Vendo-me olh-lo espantada, riu e empurrou o jarro 
na minha direo.
        - Bem, h o vinho, moa - explicou -, e h aquilo que voc bebe para tirar a poeira. Beba de um gole s, antes de ter tempo de sentir o gosto e ele cumpre 
sua finalidade muito bem. - Seguindo seu prprio conselho, esvaziou a caneca e estendeu o brao para o jarro outra vez. Comecei a ver exatamente o que acontecera 
a Jamie no dia anterior.
        - Boa sorte ou m sorte? - perguntei a Jared, curiosa. Presumia que a resposta fosse "m", mas o ar de jovial exultao do comerciante parecia pronunciado 
demais para ser atribudo ao vinho tinto, que se assemelhava fortemente a cido de bateria. Coloquei minha prpria caneca sobre a mesa, esperando que o esmalte dos 
meus dentes continuasse intacto.
        - M para St. Germain, boa para mim - disse sucintamente. Levantouse de sua cadeira e espreitou pela janela.
        - timo - disse, sentando-se outra vez com ar de satisfao. - J tero terminado de tirar o vinho e guard-lo no armazm quando o sol se pr. So e salvo.
        Jamie recostou-se na cadeira, examinando seu primo com uma das sobrancelhas arqueadas, um sorriso nos lbios.
        - Devemos supor que o navio de monsieur l comte St. Germain tambm carregava bebidas, primo?
        Um sorriso de orelha a orelha em resposta exibiu dois dentes de ouro na arcada inferior, o que fez Jared parecer ainda mais um pirata.
        - O melhor vinho do Porto envelhecido de Pinho - disse alegremente. - Custou-lhe uma fortuna. Metade da produo das vincolas Noval e mais nenhum disponvel 
por um ano.
        - E suponho que a outra metade do porto Noval  a que est sendo descarregada no seu armazm? - Eu comeava a entender seu deslumbramento.
        - Certo, moa, absolutamente certo! -Jared disse com uma gargalhada, quase abraando a si mesmo de alegria. - Faz idia de por quanto esse vinho vai ser 
vendido em Paris? - perguntou, inclinando-se para frente e batendo com a caneca na mesa. - Um estoque limitado e eu com o monoplio? Meu Deus, j fiz todo o lucro 
do ano!
        Levantei-me e fui eu mesma olhar pela janela. O Arianna estava ancorado, j perceptivelmente mais elevado na gua, enquanto as enormes redes de carga desciam 
balanando-se pelo pau-de-carga montado no convs da popa, para serem com todo o cuidado descarregadas, garrafa por garrafa, nos carrinhos de mo para o transporte 
at o armazm.
        - Sem querer prejudicar o contentamento geral - eu disse, um pouco timidamente -, mas voc disse que o vinho do Porto veio do mesmo lugar que o carregamento 
de St. Germain?
        - Sim, disse. -Jared veio colocar-se a meu lado junto  janela, estreitando os olhos para a procisso de carregadores l embaixo. - Noval produz o melhor 
Porto de toda a Espanha e Portugal. Eu gostaria de ter comprado toda a produo engarrafada, mas no tive capital suficiente. Por qu?
        -  que, se os navios esto vindo do mesmo lugar, h uma possibilidade de que alguns de seus marinheiros tambm tenham contrado varola eu disse.
        O pensamento empalideceu o rubor causado pelo vinho no rosto magro de Jared e ele estendeu a mo para tomar um gole restaurador.
        - Meu Deus, que idia! - exclamou, respirando fundo ao colocar a caneca sobre a mesa. - Mas acho que est tudo bem - disse, procurando se tranqilizar. - 
Metade do vinho j foi descarregado. Mas  melhor eu falar com o capito, de qualquer forma - acrescentou, franzindo a testa. -vou dizer para ele pagar os homens 
e dispens-los assim que o descarregamento tiver terminado... e se algum parecer doente, pode receber seu dinheiro e ir embora imediatamente. - Virou-se decidido 
e deixou o salo como uma flecha, parando no vo da porta apenas o suficiente para gritar por cima do ombro: - Peam o jantar! - Em seguida, desapareceu escada abaixo 
com um barulho de um pequeno bando de elefantes.
        Voltei-me para Jamie, que fitava bestificado o interior de sua caneca de vinho intocado.
        - Ele no devia fazer isso! - exclamei. - Se houver varola a bordo, ele poder espalh-la por toda a cidade ao liberar homens contaminados.
        Jamie balanou a cabea devagar.
        - Ento, suponho que devemos torcer para que seu navio no tenha varola - observou serenamente.
        Voltei-me para a porta sem saber ao certo o que fazer.
        - Mas... no deveramos fazer alguma coisa? Eu poderia ao menos ir dar uma olhada em seus homens. E dizer-lhes o que fazer com os corpos dos homens do outro 
navio...
        - Sassenach. - A voz profunda ainda estava serena, mas guardava um tom inconfundvel de advertncia.
        - O que foi? - Virei-me e o encontrei inclinado para frente, olhando-me por cima da borda de sua caneca. Fitou-me pensativo por um instante antes de falar.
        - Acha que aquilo que nos propusemos fazer  importante, Sassenach? Minha mo soltou-se da maaneta da porta.
        - Impedir os Stuart de deflagrar uma rebelio na Esccia? Sim, claro que acho. Por que pergunta?
        Ele balanou a cabea, paciente como um instrutor de um aluno retardado.
        - Sim, muito bem. Se acha, ento voc vir aqui, se sentar e beber vinho comigo at Jared voltar. Se no acha... - Parou e soltou uma longa respirao 
que agitou um cacho de cabelos ruivos sobre sua testa. - Se no acha, ento voc descer para um cais cheio de marinheiros e comerciantes que acreditam que a presena 
de mulheres perto de navios  o mximo de azar e que j esto espalhando o boato de que voc colocou uma maldio no navio de St. Germain, e voc, ento, lhes dir 
o que devem fazer.
        Com sorte, ficaro com medo demais de voc para estupr-la antes de cortar sua garganta e atir-la na gua, e a mim depois de voc. Se o prprio St. Germain 
no estrangul-la primeiro. Voc no viu a expresso do rosto dele?
        Voltei para a mesa e sentei-me, meio abruptamente. Meus joelhos estavam um pouco vacilantes.
        - Eu vi - respondi. - Mas ele poderia...? Ele no faria...
        Jamie ergueu as sobrancelhas e empurrou uma caneca de vinho para mim.
        - Ele poderia e faria, se achasse que pudesse ser resolvido discretamente. Pelo amor de Deus, Sassenach, voc custou ao sujeito quase a renda de um ano inteiro! 
E ele no parece do tipo que aceite essa perda filosoficamente. Se voc no tivesse dito ao capito do porto que era varola, bem alto diante de testemunhas, alguns 
subornos discretos teriam resolvido a questo. Do jeito que , por que voc acha que Jared nos trouxe aqui para cima to depressa? Pela qualidade da bebida?
        Meus lbios endureceram, como se eu realmente tivesse bebido uma boa quantidade do cido da jarra.
        - Voc est querendo dizer... que estamos correndo perigo? Jamie recostou-se no espaldar da cadeira, balanando a cabea.
        - Agora voc entendeu - ele disse com delicadeza. - Acho que Jared no quis assust-la. Acredito que ele tenha ido arranjar um tipo de guarda para ns, alm 
de cuidar de sua tripulao. Ele provavelmente estar a salvo, todos o conhecem e sua tripulao e seus carregadores esto todos l fora.
        Esfreguei as mos sobre a pele arrepiada dos meus braos. Havia um fogo forte na lareira e o salo estava quente e enfumaado, mas eu sentia frio.
        - Como pode saber tanto sobre o que o conde St. Germain faria? - Eu no duvidava de Jamie em absoluto, lembrava-me muito bem do olhar sombrio e maligno que 
o conde me lanou no armazm, mas perguntava-me como ele conhecia o sujeito.
        Jamie tomou um pequeno gole do vinho, fez uma careta e colocou a caneca sobre a mesa.
        - Para comear, ele tem a reputao de violento... e outras coisas. Ouvi falar dele quando morei em Paris, embora tenha tido a sorte de no me meter em encrenca 
com o sujeito na ocasio. Depois, Jared passou algum tempo ontem me avisando para ter cuidado com ele. O conde  o principal concorrente de Jared em Paris.
        Descansei os cotovelos sobre a velha mesa e coloquei o queixo nas mos entrelaadas.
        - Acho que atrapalhei tudo, no foi? - eu disse com tristeza. - Fiz voc comear mal nos negcios.
        Ele sorriu, depois se levantou e parou atrs de mim, inclinando-se para passar os braos ao meu redor. Eu ainda estava um pouco abatida com as suas recentes 
revelaes, mas senti-me melhor com a fora dos seus braos e o volume de seu corpo atrs de mim. Ele me beijou de leve no topo da cabea.
        - No se preocupe, Sassenach - disse. - Posso cuidar de mim mesmo. E tambm posso cuidar de voc... e voc vai me permitir. - Havia um sorriso em sua voz, 
mas uma indagao tambm. Assenti, balanando a cabea e deixando-a recostar-se em seu peito.
        - Euvou permitir - eu disse. - Os cidados de L Havre vo ter simplesmente que correr o risco com a varola.
        Passou-se quase uma hora at Jared voltar, as orelhas vermelhas do frio, mas a garganta sem corte e aparentemente em boas condies. Fiquei feliz ao v-lo.
        - Est tudo bem - anunciou, radiante. - Nada alm de escorbuto e as gripes e resfriados de costume a bordo. Nenhuma varola. - Olhou  volta do salo, esfregando 
as mos. - E o jantar?
        Suas faces estavam avermelhadas do vento e ele parecia alegre e bemdisposto.
        Ao que parecia, lidar com adversrios nos negcios que resolviam as disputas matando fazia parte do dia-a-dia desse comerciante. E por que no?, pensei cinicamente. 
Afinal, ele era um maldito escocs.
        Como para confirmar meu ponto de vista, Jared pediu o jantar, obteve um excelente vinho para acompanhar mediante a simples providncia de mandar algum ir 
buscar no seu armazm e acomodou-se para uma genial discusso ps-refeio com Jamie sobre as maneiras e meios de lidar com comerciantes franceses.
        - Bandidos - disse. - Qualquer um deles  capaz de esfaque-lo pelas costas assim que o vir. Malditos ladres. Nunca confie neles. Metade antes, metade depois 
da entrega e jamais permita que um fidalgo pague a crdito.
        Apesar das garantias de Jared de que deixara dois homens de vigia l embaixo, eu ainda estava um pouco nervosa e, aps o jantar, posicioneime ao lado da 
janela de onde podia ver as idas e vindas ao longo do per. No que a minha vigilncia fosse adiantar muito, pensei; um de cada dois homens nas docas parecia um 
assassino para mim.
        Nuvens carregadas fechavam-se sobre o porto; iria nevar outra vez esta noite. As velas enrizadas sacudiam-se violentamente ao vento cada vez mais forte, 
batendo nos mastros com um barulho que quase sobrepujava os gritos dos carregadores. O porto fulgurava com um momento de incandescncia verde e opaca,  medida que 
o sol poente era empurrado para dentro d'gua por nuvens insistentes.
        Conforme escurecia, a agitao de um lado para o outro arrefeceu, os carregadores com seus carrinhos de mo desapareceram pelas ruas que levavam  cidade, 
e os marinheiros sumiram pelas portas iluminadas de estabelecimentos como aquele em que eu estava. Ainda assim, o lugar estava longe de estar deserto; em particular, 
ainda havia uma pequena aglomerao perto do desafortunado Patagnia. Os homens, numa espcie de uniforme, formavam um cordo ao p da rampa de embarque; sem dvida, 
para impedir que algum subisse a bordo ou retirasse a carga. Jared explicara que os integrantes saudveis da tripulao teriam permisso de descer a terra, mas 
no poderiam trazer nada do navio com eles, a no ser as roupas que vestiam.
        - Melhor do que estariam sob os holandeses - disse, coando os plos negros, curtos e eriados, que comeavam a emergir ao longo dos maxilares. - Se chega 
um navio proveniente de um porto onde se sabe que h algum tipo de praga, os malditos holandeses fazem os marinheiros nadarem nus at a costa.
        - como eles conseguem roupas quando chegam a terra? - perguntei, curiosa.
        - No sei - disse Jared distraidamente -, mas como encontraro um bordel assim que pisarem em terra, acho que no precisam de nenhuma... com sua permisso, 
minha cara - acrescentou apressadamente, lembrando-se de repente de que falava com uma senhora.
        Encobrindo seu embarao momentneo com cordialidade, levantou-se e veio espreitar pela janela a meu lado.
        - Ah - disse. - Esto se preparando para incendiar o navio. Considerando-se o que est carregando,  melhor que primeiro o reboquem para o meio da enseada, 
a uma boa distncia do porto.
        Cabos usados para rebocar haviam sido amarrados ao condenado Patagnia. E vrios barcos pequenos tripulados por remadores aguardavam em prontido,  espera 
de um sinal. Este era dado pelo capito do porto, cujos festes dourados mal eram perceptveis como uma leve cintilao  luz agonizante do dia. Ele gritou, acenando 
ambas as mos devagar para frente e para trs acima da cabea como se transmitisse sinais por semforos.
        Seu grito foi ecoado pelos capites dos barcos a remo e das gals. Lentamente, conforme se retesavam, os cabos comearam a se erguer da gua, fazendo-a escorrer 
pelas grossas espirais de cnhamo com um barulho audvel no repentino silncio que assaltou as docas. Os gritos vindos dos rebocadores foi o nico som que se ouviu 
quando o casco escuro do navio condenado rangeu, estremeceu e virou-se na direo do vento, as enxrcias gemendo enquanto ele partia em sua ltima e breve viagem.
        Deixaram-no no meio da enseada, a uma distncia segura dos outros navios. Os conveses haviam sido embebidos de leo e, quando os barcos de reboque foram 
dispensados e as gals afastadas, a figura pequena e redonda do capito do porto ergueu-se do banco do pequeno barco a remo que o levara para fora do porto. Inclinou-se, 
aproximou a cabea de uma das figuras sentadas, depois se ergueu com a chama brilhante e repentina de uma tocha em uma das mos. O remador s suas costas afastou-se 
para um lado quando ele levou o brao s costas e lanou a tocha - uma clava pesada envolvida em trapos embebidos em leo, que foi virando-se no ar, o fogo reduzindo-se 
a uma chama azulada, at aterrissar fora do alcance da vista, atrs da balaustrada. O capito do porto no esperou para ver os efeitos de sua ao; sentou-se imediatamente, 
gesticulando como um alucinado para o remador, que comeou a erguer e abaixar os remos, fazendo o pequeno barco partir em disparada pelas guas escuras.
        Por longos momentos, nada aconteceu, mas a multido nas docas continuou parada, imvel, murmurando em surdina. Pude ver o reflexo plido do rosto de Jamie, 
flutuando acima do meu no vidro escuro da janela. O vidro estava frio e enevoou-se rpido com a nossa respirao; limpei-o com a ponta do meu manto.
        - Veja - Jamie disse, num sussurro. A chama correu subitamente por trs da balaustrada, uma pequena linha azul e brilhante. A seguir, uma centelha, e as 
enxrcias  frente lanaram-se no ar, linhas vermelho-alaranjadas contra o cu. Um salto silencioso, e as labaredas comearam a danar ao longo dos parapeitos encharcados 
de leo. Uma vela dobrada faiscou e explodiu em chamas.
        Em menos de um minuto, as enxrcias da mezena haviam pegado fogo e a vela mestra abriu-se, suas amarras foram destrudas, um lenol caindo em chamas. Depois, 
o fogo se espalhou depressa demais para que seu progresso pudesse ser seguido; tudo pareceu incendiar-se ao mesmo tempo.
        - Agora - Jared disse repentinamente. - Vamos descer. Os pores vo pegar fogo em um minuto e essa ser a melhor hora para escapar daqui. Ningum nos ver.
        Ele tinha razo; quando deslizamos com toda a cautela para fora da taverna, dois homens materializaram-se ao lado de Jared - marinheiros que trabalhavam 
para ele mesmo, armados com pistolas e aguilhes de marfim -, porm ningum mais notou nossa presena. Todos estavam voltados para a enseada, onde a superestrutura 
do Patagnia era visvel agora como um esqueleto negro dentro de um corpo de chama ondulante. Ouviu-se uma srie de estalos, to seguidos uns dos outros que soavam 
como rajada de metralhadora. Em seguida, uma estrondosa exploso ergueu-se do centro do navio num chafariz de fagulhas e madeira incandescente.
        - Vamos. - A mo de Jamie agarrou meu brao com firmeza e eu no fiz nenhum protesto. Seguindo Jared, escoltados pelos marinheiros, abandonamos o cais furtivamente, 
como se tivssemos sido ns a deflagrar o incndio.
        
        
        
7 - AUDINCIA REAL
        
        A casa de Jared em Paris ficava na rue Tremoulins. Era uma rea prspera, com casas de fachada de pedra e trs, quatro e cinco andares, coladas umas nas 
outras. Aqui e ali, uma casa muito grande erguia-se sozinha em seu prprio jardim, mas, em relao  maioria, um ladro de porte razoavelmente atltico poderia pular 
de telhado em telhado sem nenhuma dificuldade.
        - Muhm - foi a observao solitria de Murtagh, ao observarmos a casa de Jared. - Encontrarei meu prprio alojamento.
        - Se o deixa nervoso ter um teto decente sobre sua cabea, companheiro, pode dormir nos estbulos - Jamie sugeriu. Abriu um largo sorriso para seu pequeno 
e circunspecto padrinho. - Mandaremos o criado levar seu mingau numa bandeja de prata.
        Dentro, a casa era mobiliada com confortvel elegncia, embora, como pude perceber mais tarde, fosse espartana em comparao  maioria das casas da nobreza 
e dos burgueses ricos. Suponho que isso em parte devia-se ao fato de que a casa no tinha uma mulher. Jared nunca se casara, embora no mostrasse nenhum sinal de 
sentir falta de uma esposa.
        - Bem, ele tem uma amante,  claro -Jamie explicou quando especulei sobre a vida privada de seu primo.
        - Ah, claro - murmurei.
        - Mas ela  casada. Jared contou-me certa vez que um homem de negcios jamais deveria se envolver com mulheres solteiras. Disse que elas exigem demais do 
seu tempo e do despesa. E se voc se casa com elas, vo gastar todo o seu dinheiro e voc vai acabar pobre.
        - Bela opinio ele tem sobre as mulheres - eu disse. - O que ele acha de voc ter se casado, apesar de todos esses conselhos teis?
        Jamie riu.
        - Bem, para comear, eu no tenho nenhum dinheiro, portanto no posso ficar mais pobre. Ele acha que voc  muito decorativa, mas disse que eu preciso comprar-lhe 
um vestido novo.
        Abri a roda da saia de meu vestido de veludo verde, mais do que um pouco enxovalhada.
        - Acho que sim - concordei. - Ouvou andar por a enrolada num lenol depois de algum tempo. Este ja est ficando apertado na cintura.
        - No resto tambm - ele disse, rindo ao me olhar de cima a baixo. Recuperou seu apetite, Sassenach?
        - Ah! - exclamei friamente. - Sabe muito bem que Annabelle MacRannoch possui o tamanho e o formato do cabo de uma p, enquanto eu no.
        - Voc, no - ele concordou, avaliando-me com aprovao. - Graas a Deus. - Deu uns tapinhas com intimidade no meu traseiro.
        - Devo me reunir com Jared no armazm hoje de manh para examinarmos os livros da contabilidade, depois vamos visitar alguns de seus clientes, para ele me 
apresentar. Vai ficar bem aqui sozinha?
        - Sim, claro - eu disse. -vou explorar um pouco a casa e conhecer os empregados. - Eu havia conhecido os empregados em conjunto quando chegamos no fim da 
tarde de ontem, mas como fizemos uma refeio leve em nosso quarto, no vira mais ningum desde ento, alm do criado de libr que trouxera o jantar e a camareira 
que viera de manh cedo para abrir as cortinas, arrumar e acender a lareira e levar o urinol. Acovardeime um pouco  idia de repentinamente estar no comando de 
toda uma criadagem, mas tranqilizei-me pensando que no poderia ser muito diferente do que dirigir serventes de hospital e enfermeiras novatas, como j fizera anteriormente, 
como enfermeira-chefe numa base militar francesa em 1943.
        Depois da partida de Jamie, sem pressa, fiz toda a toalete que podia ser feita com gua e um pente, que eram os nicos implementos de que eu dispunha para 
me arrumar. Se Jared falava a srio sobre a realizao de jantares, eu podia ver que um vestido novo seria apenas o comeo.
        Na verdade, eu possua numa gaveta lateral da minha caixa de remdios os raminhos desfiados de salgueiro com que limpava meus dentes. Retirei um deles da 
caixa e comecei o trabalho, meditando sobre a incrvel sorte que nos levara ali.
        Praticamente impedidos de viver na Esccia, teramos que encontrar um lugar para criar nosso futuro, fosse na Europa ou emigrando para a Amrica. Considerando-se 
o que eu agora sabia sobre a atitude de Jamie em relao a navios, no estava nem um pouco surpresa por ele ter preferido a Frana desde o comeo.
        Os Fraser tinham laos poderosos com a Frana; muitos deles, como o abade Alexander e Jared Fraser, fizeram a vida ali, raramente, ou talvez nunca, retornando 
 sua Esccia natal. E tambm havia muitos jacobitas, Jamie dissera-me, que haviam seguido seu rei ao exlio e agora viviam da melhor forma que podiam na Frana 
ou na Itlia, enquanto aguardavam a reabilitao da Casa Stuart.
        - Sempre se discute o assunto - ele dissera. - Nas casas, principalmente, no nas tavernas. E  por isso que nada acontece. Quando a discusso chega s tavernas, 
voc sabe que  srio.
        - Diga-me - perguntei, observando-o sacudir a poeira do casaco -, todos os escoceses j nascem com conhecimento de poltica ou  s voc?
        Ele riu, mas logo ficou srio ao abrir o enorme armrio e pendurar o casaco, que tinha um ar desgastado e pattico, pendurado sozinho no enorme espao que 
recendia a um aroma agradvel e intenso de cedro.
        - Bem,vou lhe dizer, Sassenach, eu preferia no saber. Mas nascido onde nasci, em meio aos MacKenzie e aos Fraser, no tive muita escolha. E voc no passa 
um ano na sociedade francesa e dois anos no exrcito sem aprender a ouvir o que est sendo dito, o seu significado e como diferenciar os dois. Na poca em que estamos, 
entretanto, no sou s eu; no existe proprietrio de terras nem colono nas Highlands que possa passar ao largo do que est para vir.
        - Do que est para vir. - O que estava para vir?, perguntei-me. O que viria, caso no fssemos bem-sucedidos em nossos esforos ali, era uma rebelio armada, 
uma tentativa de restaurar a monarquia Stuart, liderada pelo filho do rei exilado, prncipe Carlos Eduardo (Casimir Maria Sylvester) Stuart.
        - Bonnie Prince Charlie - disse, sussurrando comigo mesma, olhando minha imagem refletida no enorme tremo, um aparador com espelho alto, ocupando o espao 
da parede entre duas janelas. Ele estava ali, agora, na mesma cidade, talvez a uma pequena distncia. Como seria ele? S conseguia imagin-lo em termos de seu retrato 
histrico habitual, que mostrava um jovem atraente, ligeiramente efeminado, de cerca de dezesseis anos, lbios macios e rosados e cabelos empoados, conforme a moda 
da poca. Ou as pinturas imaginadas, mostrando uma verso mais robusta, brandindo uma espada de folha larga enquanto descia de um barco nas costas da Esccia.
        Uma Esccia que ele iria arruinar e deixar devastada na luta para retomar o trono para seu pai e para si mesmo. Fadado ao fracasso, atrairia apoio suficiente 
para dividir o pas e comandaria seus partidrios por uma guerra civil, at um final sangrento no campo de batalha de Culloden. Depois, ele fugiria de volta para 
a segurana da Frana, mas o castigo de seus inimigos seria aplicado queles que ele deixou para trs.
        Era para evitar esse desastre que ns viramos para a Frana. Parecia inacreditvel, quando se pensava sobre isso na paz e no luxo da casa de Jared. Como 
se podia impedir uma rebelio? Bem, se os levantes eram fomentados nas tavernas, talvez pudessem ser evitados em mesas de jantar.
        Encolhi os ombros para a imagem no espelho, soprei um cacho desgarrado sobre um dos olhos e desci para angariar as boas graas da cozinheira.
        A criadagem, a princpio inclinada a me ver com amedrontada suspeita, logo percebeu que eu no tinha nenhuma inteno de interferir em seu trabalho e relaxou 
em um estado de esprito de cautelosa e obsequiosa cordialidade. No comeo, eu imaginara, no meu estado de entorpecimento e cansao, que havia pelo menos uma dzia 
de criados alinhados no vestbulo para minha inspeo. Na verdade, havia dezesseis deles, contando-se o cavalario, o moo da estrebaria e o amolador de facas, que 
eu no notara na formao geral. Eu estava ainda mais impressionada com o sucesso de Jared nos negcios, at perceber como os criados ganhavam pouco: um par de sapatos 
novos e duas libras francesas por ano para os criados de libr, um pouco menos para as arrumadeiras e ajudantes de cozinha, um pouco mais para personagens de categoria 
superior como madame Vionnet, a cozinheira, e o mordomo, Magnus.
        Enquanto eu examinava o funcionamento dos arranjos domsticos e armazenava as informaes que pudesse colher em casa por meio dos mexericos das arrumadeiras, 
Jamie saa com Jared todo dia, visitando clientes, conhecendo pessoas. Ao estabelecer essas ligaes sociais, que poderiam ser valiosas para um prncipe exilado, 
ele preparava-se para "dar assistncia ao prncipe". Era entre os convidados aos jantares que poderamos encontrar aliados - ou inimigos.
        - St. Germain? - eu disse, repentinamente captando um nome familiar no meio da tagarelice de Marguerite, enquanto ela lustrava o assoalho de parque. - O 
conde St. Germain?
        - Oui, madame. - Era uma jovem baixa, gorducha, com um rosto estranhamente achatado e olhos esbugalhados que a faziam parecer um linguado, mas era amvel 
e ansiosa para agradar. Ela franziu os lbios num pequeno crculo, anunciando a revelao de algum mexerico realmente escandaloso. Mostrei-me o mais interessada 
possvel.
        - O conde, madame, tem pssima reputao - disse, afetadamente. Como isso tambm se aplicava - segundo Marguerite - a quase todos que vinham ao jantar, arqueei 
as sobrancelhas,  espera de mais detalhes.
        - Ele vendeu a alma ao diabo, sabe - confidenciou, abaixando a voz e olhando ao redor como se o cavalheiro pudesse estar espreitando por trs do ressalto 
da lareira. - Ele celebra a Missa Negra, em que o sangue e a carne de crianas inocentes so compartilhados entre os seres diablicos!
        Belo espcime voc escolheu para transformar em inimigo, pensei comigo mesma.
        - Ah, todo mundo sabe, madame - Marguerite assegurou-me. - Mas no importa; as mulheres so loucas por ele, mesmo assim; aonde quer que ele v, elas se jogam 
para cima dele. Mas, por outro lado, ele  rico. - Obviamente, esta ltima qualificao era ao menos suficiente para contrabalanar, se no ultrapassar, o fato de 
beber sangue e comer carne humana.
        - Que interessante - eu disse. - Mas eu pensava que monsieur l comte fosse um concorrente de monsieur Jared; ele tambm no importa vinhos? Por que monsieur 
Jared o convidou, ento?
        Marguerite ergueu os olhos do assoalho e riu.
        - Ora, madame! Para que monsieur Jared possa servir o melhor Beaune durante o jantar, dizer a monsieur l comte que acabou de adquirir dez caixas e, ao fim 
da refeio, generosamente presente-lo com uma garrafa para ele levar para casa!
        - Ah, sei - eu disse, rindo. - E monsieur Jared tambm  da mesma forma convidado para jantar com monsieur l comte'?
        Ela balanou a cabea, confirmando, o leno branco nos cabelos sacudindo-se acima da garrafa de leo e do esfrego.
        - Ah, sim, madame. Mas no com a mesma freqncia!
        O conde St. Germain felizmente no fora convidado para o jantar desta noite. Jantamos simplesmente, enfamille, de modo que Jared pudesse ensaiar Jamie nos 
detalhes finais a serem resolvidos antes de sua partida. Desses, o mais importante era o lever (levantar-se) do rei, em Versalhes.
        Ser convidado para o lever do rei era uma significativa marca de considerao, Jared explicou durante o jantar.
        - No com voc, rapaz - disse gentilmente, sacudindo um garfo para Jamie. - Comigo. O rei quer se assegurar de que eu volte da Alemanha. Ou ao menos Duverney, 
o ministro das Finanas. A ltima onda de impostos atingiu duramente os comerciantes e muitos estrangeiros foram embora, com os efeitos danosos sobre o Tesouro Real 
que voc bem pode imaginar. - Fez uma careta ao pensar em impostos, franzindo o cenho para o filhote de enguia em seu garfo.
        - Pretendo partir segunda-feira. S estou esperando a notcia de que o Wilhelmina chegou a salvo em Calais; em seguida, partirei. -Jared abocanhou mais um 
pedao de enguia e balanou a cabea para Jamie, falando com a boca cheia. - Estou deixando os negcios em boas mos, rapaz; no tenho nenhuma preocupao nesse 
aspecto. Mas precisamos conversar um pouco sobre outras questes antes da minha partida. Combinei com o conde Marischal que iremos com ele a Montmartre daqui a dois 
dias, para que voc faa uma visita de cortesia a Sua Alteza, o prncipe Carlos Eduardo.
        Senti um sbito baque de empolgao na boca do estmago e troquei um olhar rpido com Jamie. Ele balanou a cabea para Jared, como se isso no fosse nada 
de mais, mas seus olhos cintilavam de expectativa quando olhou para mim. Ento, esse era o comeo de tudo.
        - Sua Alteza vive uma vida muito reservada em Paris - Jared dizia, enquanto caava o ltimo pedao de enguia, escorregadia de manteiga, em volta da borda 
do prato. - No seria apropriado que ele freqentasse a sociedade, enquanto o rei no o receba oficialmente. Assim, Sua Alteza raramente sai de casa e convive com 
poucas pessoas, exceto os partidrios de seu pai que vo visit-lo.
        - No foi o que ouvi dizer - interrompi.
        - O qu? - Dois pares de olhos perplexos voltaram-se em minha direo e Jared abaixou seu garfo, abandonando o ltimo pedao de enguia  prpria sorte.
        Jamie arqueou uma das sobrancelhas em minha direo.
        - O que voc ouviu, Sassenach, e de quem?
        - Dos criados - eu disse, concentrando-me na minha prpria enguia. Vendo Jared franzir o cenho, ocorreu-me pela primeira vez que no devia ser muito apropriado 
 dona da casa ficar de mexericos com as arrumadeiras. Ora, para o inferno, pensei com rebeldia. No me restava muita coisa a fazer.
        - A arrumadeira diz que Sua Alteza o prncipe Carlos tem visitado a princesa Louise de La Tour de Rohan - eu disse, arrancando um pedao de enguia do garfo 
e mastigando devagar. Eram deliciosos, mas davam uma sensao desagradvel se engolidos inteiros, como se a criatura ainda estivesse viva. Engoli cuidadosamente. 
At ento, tudo bem.
        - Na ausncia do marido da princesa - acrescentei delicadamente. Jamie parecia se divertir, Jared parecia horrorizado.
        - A princesa de Rohan? - Jared perguntou. - Marie-LouiseHenriette-Jeanne de La Tour d'Auvergne? A famlia do seu marido  muito ligada ao rei. - Esfregou 
os dedos nos lbios, deixando um brilho amanteigado em volta da boca. - Isso pode ser muito perigoso - murmurou, como se falasse consigo mesmo. - Ser que o pequeno 
idiota... no. Certamente ele tem mais juzo. Deve ser apenas inexperincia; ele no tem vivido muito em sociedade e as coisas so diferentes em Roma. Ainda assim... 
- Parou de murmurar e virou-se para Jamie com deciso.
        - Essa ser sua primeira tarefa, meu rapaz, a servio de Sua Majestade. Voc tem mais ou menos a mesma idade de Sua Alteza, mas voc tem a experincia e 
a capacidade de julgamento do tempo que passou em Paris. E a educao que eu lhe dei, devo me vangloriar. - Sorriu brevemente para Jamie. - Pode se tornar amigo 
de Sua Alteza; facilitar tanto quanto possvel seu trato com os homens que podero lhe ser teis. J conheceu a maioria deles a essa altura. E explique a Sua Alteza, 
o mais diplomaticamente possvel, que o galanteio na direo errada pode causar danos considerveis aos objetivos de seu pai.
        Jamie balanou a cabea distraidamente, com toda a certeza pensando em outra coisa.
        - Como a nossa copeira soube das visitas de Sua Alteza, Sassenach? - perguntou. - Ela no sai de casa mais do que uma vez por semana, para ir  missa, no 
?
        Sacudi a cabea e engoli o bocado seguinte antes de responder.
        - At onde pude apurar, nossa ajudante de cozinha ouviu isso do amolador de facas, que ouviu do rapaz da estrebaria, que ouviu do cavalario do vizinho. 
No sei quantas pessoas h nesse meio, mas a casa dos Rohan fica a trs portas daqui. Imagino que a princesa tambm saiba tudo a nosso respeito - acrescentei animadamente. 
- Ao menos  provvel que saiba, se conversa com sua ajudante de cozinha.
        - Uma lady no fica de mexericos com as empregadas - Jared disse friamente. Estreitou os olhos para Jamie numa splica silenciosa para que controlasse melhor 
sua mulher.
        Pude ver o canto da boca de Jamie contorcer-se, mas ele meramente bebeu um gole de seu Montrachet e mudou de assunto para uma discusso sobre a mais recente 
iniciativa de Jared; um carregamento de rum, a caminho da Jamaica.
        Quando Jared tocou o sino para que a mesa fosse tirada e o conhaque servido, pedi licena e sa. uma das idiossincrasias de Jared era o gosto por longas 
e escuras cigarrilhas para acompanhar seu conhaque e eu tinha a distinta sensao de que, cuidadosamente mastigadas ou no, as enguias que eu comera no iriam gostar 
de serem defumadas.
        Deitei-me na cama e tentei, com limitado sucesso, no pensar em enguias. Fechei os olhos e tentei pensar na Jamaica - em lindas praias brancas sob o sol 
tropical. Mas a idia da Jamaica levou-me a pensar no Wilhelmina e a idia de navios me fez pensar no mar, que me levou direto de volta a imagens de gigantescas 
enguias, enroscando-se e serpenteando por ondas verdes subindo e descendo. Saudei com alvio a chegada de Jamie, sentando-me na cama quando ele entrou.
        - Ufa! - Ele recostou-se contra a porta fechada, abanando-se com a ponta solta de seu jab. - Sinto-me como uma salsicha defumada. Eu gosto do Jared, mas 
ficarei muito satisfeito quando ele tiver levado suas malditas cigarrilhas para a Alemanha.
        - Bem, no chegue perto de mim, se estiver cheirando a cigarrilha. - eu disse. - As enguias no gostam de fumaa.
        - No as culpo nem um pouco por isso. - Tirou seu casaco e desabotoou a camisa. - Acho que  um plano, sabe - confidenciou, indicando a porta com um movimento 
da cabea enquanto tirava a camisa. - Como acontece com as abelhas.
        - Abelhas?
        - Como voc leva uma colmia de um lugar para o outro - explicou, abrindo a janela e pendurando a camisa do lado de fora, na tranca no batente da janela. 
- Voc enche um cachimbo do tabaco mais forte que puder encontrar, enfia o cachimbo na colmia e sopra fumaa l dentro, nos favos. Todas as abelhas caem, atordoadas, 
e voc ento pode lev-las para onde quiser. Acho que  isso que Jared faz com seus clientes; enche-os de fumaa at ficarem entorpecidos e terem assinado pedidos 
do triplo da quantidade de vinho que pretendiam encomendar antes de recuperarem os sentidos.
        Dei uma risadinha e ele abriu um largo sorriso, colocando o dedo nos lbios quando ouviu os passos leves de Jared comeando a descer o corredor, passando 
diante de nossa porta e seguindo em direo a seu prprio quarto.
        Passado o perigo de ser descoberto, ele veio e esticou-se a meu lado, vestido apenas com seu kilt e meias.
        - No est insuportvel? - ele perguntou. - Posso dormir na saleta de vestir, se estiver. Ou colocar a cabea para fora da janela para arejar.
        Cheirei seus cabelos, onde o odor do tabaco se infiltrara nas ondas ruivas. A luz de vela projetava reflexos dourados nas mechas vermelhas e eu as despenteei 
com os dedos, sentindo sua maciez e volume, tocando o crnio duro e slido embaixo.
        - No, no est insuportvel. Ento, voc no est preocupado com a partida de Jared dentro de pouco tempo?
        Ele beijou minha testa e deitou-se, a cabea sobre a almofada. Sorriu para mim, sacudindo a cabea.
        - No. J fui apresentado a todos os principais clientes e capites, conheo todos os homens dos armazns e as autoridades, tenho as listas de preos e os 
inventrios dos estoques na memria. O que resta a aprender sobre o negcio terei que aprender tentando. Jared no pode me ensinar mais nada.
        - E o prncipe Carlos?
        Ele semicerrou os olhos e soltou um pequeno grunhido de resignao.
        - Sim, bem. Quanto a isso, tenho que deixar nas mos de Deus, no nas de Jared. E acho at que ser mais fcil se Jared no estiver por perto para ver o 
que estou fazendo.
        Deitei-me a seu lado e ele virou-se para mim, passando o brao em volta da minha cintura de modo que ficssemos bem juntos.
        - O que vamos fazer? - perguntei. - Tem alguma idia, Jamie?
        Eu sentia seu hlito quente em meu rosto, cheirando a conhaque, e inclinei a cabea para cima para beij-lo. Sua boca larga e macia abriu-se sobre a minha 
e ele demorou-se nesse beijo por um instante antes de responder.
        - Ah, eu tenho algumas idias - disse, afastando-se com um suspiro. - S Deus sabe no que vo dar, mas eu tenho algumas idias.
        - Conte-me.
        - Muhm. - Ajeitou-se mais confortavelmente, virando-se de costas e envolvendo-me com um brao, a cabea em seu ombro.
        - Bem - comeou -, a meu ver,  uma questo de dinheiro, Sassenach.
        - Dinheiro? Pensei que fosse uma questo de poltica. Os franceses no querem Jaime reabilitado porque isso causar problemas aos ingleses? Do pouco que 
me recordo, Lus queria... ir querer - corrigi-me - que Carlos Eduardo distraia o rei Jorge do que Lus est tramando em Bruxelas.
        - Eu acho que ele quer - disse -, mas restaurar uma monarquia exige dinheiro. E o prprio Lus no tem tanto dinheiro que possa us-lo de um lado para travar 
guerras em Bruxelas e de outro para financiar invases  Inglaterra. Ouviu o que Jared disse sobre o Tesouro Real e os impostos?
        - Sim, mas...
        - No, no ser Lus quem far isso acontecer - disse, esclarecendo-me. - Embora ele tenha uma contribuio a dar,  claro. No, h outras fontes de recursos 
que Jaime e Carlos tambm iro tentar, que so as famlias de banqueiros franceses, o Vaticano e a corte de Espanha.
        - Ento, acha que Jaime est cobrindo o Vaticano e a corte espanhola e Carlos os banqueiros franceses? - perguntei, interessada.
        Ele balanou a cabea, fitando os painis esculpidos do teto. Os painis de nogueira eram de um marrom-claro e suave  luz bruxuleante das velas, com rosetas 
mais escuras e fitas entrelaando-se em cada canto.
        - Sim,  o que penso. Tio Alex mostrou-me a correspondncia de Sua Majestade o rei Jaime e eu diria que os espanhis so sua melhor chance, a julgar por 
ela. O papa sente-se obrigado a apoi-lo, voc sabe, tratando-se de um monarca catlico. O papa Clemente apoiou Jaime por muitos anos e agora que Clemente est morto, 
Benedito continua a apoi-lo, mas no em um nvel to alto quanto antes. Mas tanto Felipe da Espanha quanto Lus so primos de Jaime;  para o dever de sangue dos 
Bourbon que ele est apelando. - Sorriu ironicamente para mim, com um olhar de esguelha. - E pelo que andei vendo, posso dizer-lhe que o sangue real corre bem fino 
quando se trata de dinheiro, Sassenach.
        Erguendo um p de cada vez, ele retirou as meias com apenas uma das mos e atirou-as sobre a banqueta do quarto.
        - Jaime conseguiu algum dinheiro da Espanha h trinta anos - ele observou. - Uma pequena frota de navios e alguns homens Foi a Revoluo de 1715. Mas ele 
no teve sorte e as foras de Jaime foram derrotadas em Sheriffsmuir antes mesmo que o prprio Jaime chegasse. Portanto, eu diria que os espanhis provavelmente 
no esto muito ansiosos para financiar uma segunda tentativa de restaurao dos Stuart, no sem uma boa chance de que possa ser bem-sucedida.
        - Ento, Carlos veio para a Frana para tentar convencer Lus e os banqueiros - ponderei. - E segundo o que eu sei de histria, ser bemsucedido. O que nos 
deixa onde?
        Jamie tirou o brao do meu ombro e espreguiou-se, fazendo o colcho inclinar-se com a sua mudana de posio.
        - Me deixa vendendo vinho para banqueiros, Sassenach - disse, bocejando - E voc conversando com arrumadeiras. E se soprarmos bastante fumaa, talvez a gente 
consiga atordoar as abelhas.
        Pouco antes da partida de Jared, ele levou Jamie  pequena casa em Montmartre onde Sua Alteza, prncipe Carlos Eduardo Lus Filipe Casimir etc Stuart estava 
residindo, aguardando para ver o que Lus faria ou no por um primo pobre com aspiraes a um trono.
        Eu os acompanhara at a porta, ambos vestidos em seus melhores trajes, e passei o tempo em que ficaram fora imaginando o encontro em minha mente, perguntando-me 
como teria sido.
        - Como foi? - perguntei a Jamie, assim que ficamos sozinhos quando ele retornou. - Como ele ?
        Ele sacudiu a cabea, pensando.
        - Bem - disse, finalmente -, ele estava com dor de dente.
        - O qu?
        - Foi o que ele disse. E parecia realmente muito doloroso, seu rosto estava contorcido para um dos lados, com o maxilar um pouco inchado. No sei dizer se 
ele  sempre assim frio e formal ou se no conseguia falar de dor, mas no disse muita coisa.
        Depois das apresentaes formais, de fato, os homens mais velhos, Jared, o conde Manschal e um sujeito com uma aparncia um tanto desalinhada chamado informalmente 
de "Balhaldy", comearam a se aproximar e a falar de poltica escocesa, deixando Jamie e Sua Alteza mais ou menos entregues a si mesmos
        - Tomamos um copo de conhaque - Jamie relatou obedientemente, diante de minha insistncia. - Eu lhe perguntei o que estava achando de Paris e ele disse que 
estava achando um pouco montono e sentindo-se confinado. Depois, conversamos sobre caadas. Ele prefere caar com cachorros a caar com batedores, e eu disse que 
tambm prefiro. Em seguida, disse-me quantos faises havia abatido em uma nica caada na Itlia. Falou da Itlia, at dizer que o ar frio que entrava pela janela 
estava fazendo sua dor de dente piorar. No  uma casa muito bem construda; apenas uma pequena vila. Ento, bebeu um pouco mais de conhaque por causa de seu dente 
e eu lhe falei sobre a caa ao veado nas Highlands e ele disse que gostaria de experimentar isso um dia e me perguntou se eu era bom no arco. Eu disse que era e 
ele disse que esperava que tivesse a oportunidade de me convidar para caar com ele na Esccia. Depois, Jared disse que precisava passar no armazm na volta, ento 
Sua Alteza me estendeu a mo, eu a beijei e partimos.
        - Humm - eu disse. Embora a razo afirmasse que naturalmente os famosos, ou futuramente famoso ou possivelmente famoso, de qualquer modo, deveriam ser como 
pessoas comuns em seu comportamento dirio, eu tinha que admitir que achei esse relatrio do prncipe um pouco decepcionante. Ainda assim, Jamie fora convidado a 
retornar. O importante, como ele ressaltou, era tornar-se prximo de Sua Alteza, a fim de ficar de olho em seus planos,  medida que algum se desenvolvesse. Imaginava 
se o rei da Frana causaria uma impresso um pouco mais forte pessoalmente.
        No demoramos muito a descobrir. Uma semana mais tarde, Jamie levantou-se na madrugada fria e escura e vestiu-se para o longo trajeto at Versalhes, para 
assistir ao lever do rei. Lus sempre acordava s seis horas da manh. A essa hora, os poucos privilegiados escolhidos para comparecer  cerimnia de toalete do 
rei j deviam estar reunidos na antecmara, prontos a seguir a procisso de nobres e auxiliares que eram necessrios para ajudar o monarca a saudar o novo dia.
        Acordado nas primeiras horas da madrugada por Magnus, o mordomo, Jamie saiu da cama aos tropees, sonolento, e se aprontou, bocejando e resmungando. quela 
hora, minhas entranhas estavam tranqilas e eu me comprazi naquela sensao deliciosa que se sente quando observamos algum ter que fazer alguma coisa desagradvel 
que ns mesmos no somos obrigados a fazer.
        - Observe tudo atentamente - eu disse, a voz rouca de sono. - Para poder me contar tudo depois.
        Com um sonolento grunhido de concordncia, ele inclinou-se para me beijar, depois saiu arrastando os ps, a vela na mo, para mandar que aprontassem os cavalos. 
A ltima coisa que ouvi antes de me deixar afundar de novo no sono foi a voz de Jamie no andar trreo, repentinamente clara e alerta no ar cortante da noite, trocando 
despedidas com o cavalario na rua, em frente  casa.
        Considerando-se a distncia de Versalhes e a possibilidade - sobre a qual Jared j avisara - de serem convidados a ficar para o almoo, no fiquei surpresa 
quando ele no voltou antes do meio-dia, mas no pude deixar de ficar curiosa e esperei com crescente impacincia at ele chegar - finalmente - quase na hora do 
ch.
        - E como foi o lever do rei? - perguntei, aproximando-me para ajudar Jamie a tirar o casaco. Usando as justas luvas de pele de porco, obrigatrias segundo 
a moda na corte, ele no conseguia desabotoar os botes de prata, decorados com um braso no veludo escorregadio.
        - Ah, agora est bem melhor - ele disse, flexionando os ombros largos de alvio quando os botes se libertaram. O casaco estava apertado demais em seus ombros; 
remov-lo de seu corpo foi como descascar um ovo.
        - Interessante, Sassenach - ele disse, em resposta  minha pergunta -, ao menos na primeira hora ou um pouco mais.
         medida que a procisso de nobres entrava no quarto de dormir oficial, cada qual portando seus apetrechos para o ritual dirio - toalha, navalha, caneca, 
o selo real etc. -, os auxiliares abriam as cortinas pesadas que impediam a entrada da luz do alvorecer, desvelavam os cortinados da majestosa cama real e expunham 
o rosto de l ri Louis ao olho interessado do sol nascente.
        Ajudado a assumir uma posio sentada na beira da cama, o rei ali permaneceu bocejando e esfregando o queixo espetado com a barba por fazer, enquanto seus 
auxiliares passavam um robe de seda, pesado com bordados de prata e ouro, pelos ombros reais; em seguida, os ajudantes ajoelharam-se para retirar as grossas meias 
de flanela com que o rei dormia, substituindo-as por meias de seda, compridas e mais leves, e finalizando com chinelos macios forrados de plo de coelho.
        Um a um, os fidalgos da corte vieram se ajoelhar aos ps do soberano, para cumpriment-lo respeitosamente e perguntar como Sua Majestade havia passado a 
noite.
        - No muito bem, eu diria - Jamie interrompeu o relato para observar. - Ele parecia ter dormido pouco mais de uma ou duas horas, e um sono cheio de pesadelos.
        Apesar dos olhos injetados e da papada cada, Sua Majestade balanou a cabea graciosamente para seus cortesos, depois se levantou devagar e fez uma ligeira 
mesura para os convidados privilegiados ao fundo do aposento. Um desalentado aceno de mo convocou um dos auxiliares do cerimonial, o qual conduziu Sua Majestade 
a uma cadeira que j o aguardava. Ele sentou-se e cerrou os olhos, desfrutando os cuidados ministrados por seus auxiliares, enquanto os visitantes eram conduzidos, 
um de cada vez, pelo duque d'Orleans para se ajoelhar diante do rei e saud-lo com algumas palavras. Peties formais seriam apresentadas mais tarde, quando haveria 
a chance de Lus estar suficientemente acordado para ouvi-las.
        - Eu no estava l para fazer nenhum pedido, somente para assinalar o meu favoritismo - Jamie explicou -, ento apenas me ajoelhei e disse: "Bom-dia, Vossa 
Majestade", enquanto o duque dizia ao rei quem era eu.
        - O rei lhe disse alguma coisa? - perguntei.
        Jamie riu, as mos entrelaadas atrs da cabea enquanto se alongava.
        - Ah, sim. Abriu um dos olhos e me olhou como se no acreditasse. com o olho ainda aberto, Lus examinou o visitante de cima a baixo com uma espcie de dbil 
interesse, depois comentou:
        - Voc  grande, hein?
        - Eu disse: "Sim, Vossa Majestade" - Jamie relatou. - Em seguida ele perguntou: "Voc sabe danar?", e eu disse que sim. Ento, ele fechou o olho outra vez 
e o duque fez sinal para que eu voltasse ao meu lugar.
        Encerradas as apresentaes, os ajudantes do ritual monrquico dirio, cerimoniosamente assistidos pelos principais nobres da corte, passaram  toalete do 
rei. Enquanto o faziam, os diversos peticionrios adiantavam-se a um sinal do duque D'Orleans, para murmurar ao ouvido do rei enquanto ele virava a cabea, a fim 
de acomodar a navalha, ou dobrava o pescoo para que sua peruca fosse ajustada.
        - Ah, ? E voc foi honrado com a permisso de ajudar Sua Majestade a assoar o nariz? - perguntei.
        Jamie riu, estendendo as mos entrelaadas at os ns dos dedos estalarem.
        - No, graas a Deus. Afastei-me sorrateiramente para perto do armrio, tentando parecer parte da moblia, com aqueles duques e condes anezinhos todos olhando-me 
pelo canto dos olhos, como se a nacionalidade escocesa fosse alguma doena contagiosa.
        - Bem, ao menos pde ver tudo com a sua altura?
        - Ah, sim. Isso eu fiz, at quando ele sentou-se na sua chaise perce.
        - Ele fez realmente isso? Diante de todo mundo? - Eu estava fascinada. J lera sobre isso,  claro, mas achava difcil de acreditar.
        - Ah, sim, e todo mundo se comportando exatamente como fizeram quando ele lavou o rosto e assoou o nariz. O duque de Neve teve a inacreditvel honra - acrescentou 
com ironia - de limpar o traseiro de Sua Majestade para ele. No notei o que o duque fez com a toalha; levou-a para fora e mandou recobrir de ouro, sem dvida.
        - E foi um negcio muito cansativo - acrescentou, dobrando o corpo e colocando as mos no cho para alongar os msculos das pernas. - Levou uma eternidade; 
o homem  preso como uma coruja.
        - Preso como uma coruja? - perguntei, achando graa da comparao.
        - Constipado, voc quer dizer?
        - Sim, com priso de ventre. No  de admirar, considerando-se o que se come na corte - acrescentou criticamente, esticando-se para trs. - Uma dieta terrvel, 
s creme e manteiga. Ele devia comer mingau de aveia toda manh. Resolveria o problema. Muito bom para os intestinos, sabe.
        Se os escoceses eram teimosos a respeito de alguma coisa - e, de fato, tendiam a ser teimosos sobre muitas coisas, verdade seja dita -, eram em relao s 
virtudes do mingau de aveia no desjejum. Aps milhares de anos vivendo numa terra to pobre que havia pouco a comer alm de aveia, haviam convertido a necessidade 
em virtude e insistiam que gostavam daquilo.
        Jamie agora se atirara ao cho e fazia os exerccios da Royal Air Force que eu lhe recomendara para fortalecer os msculos de suas costas.
        Voltando  sua observao anterior, perguntei:
        - Por que voc disse "preso como uma coruja"? J ouvi alguma coisa referente a coruja, mas significando bbado, no constipado. As corujas tm priso de 
ventre?
        Completando sua srie de exerccios, ele virou-se e ficou deitado no tapete, ofegante.
        - Ah, tm. - Deixou escapar um longo suspiro e recuperou o flego. Sentou-se e afastou os cabelos dos olhos. - Ou talvez, no, mas  isso o que dizem. As 
pessoas dizem que as corujas no tm nus, de modo que no podem expelir o que comem, como os ratos, hein? Assim, os ossos e plos ingeridos so transformados numa 
bola, que a coruja vomita, no sendo capaz de se livrar dela pela outra extremidade.
        - Verdade?
        - Ah, sim,  verdade.  assim que voc acha uma rvore de corujas; olha embaixo da rvore procurando bolotas no cho. As corujas fazem uma sujeira terrvel 
- acrescentou, afastando o colarinho do pescoo para o ar entrar. - Mas elas tm nus - informou-me. - Uma vez eu abati uma da rvore com uma atiradeira e olhei.
        - Um garoto com uma mente curiosa, hein? - eu disse, rindo.
        - Certamente, Sassenach. - Riu. - E elas tambm defecam. Uma vez, passei um dia inteiro sentado embaixo de uma rvore de corujas com lan, s para me certificar.
        - Nossa, voc deve ter sido muito curioso mesmo - observei.
        - Bem, eu queria saber. lan no queria ficar sentado quieto por tanto tempo e eu tive que dar uns cascudos nele para ele parar de se mexer. - Jamie riu, 
recordando-se. - Assim, ele ficou ali parado comigo at acontecer e ento pegou um punhado de bolotas de coruja, enfiou-as pela gola da minha camisa e saiu correndo 
como uma bala. Meu Deus, ele podia correr como o vento. - Uma sombra de tristeza atravessou seu rosto, a lembrana do amigo de infncia com asas nos ps confundindo-se 
com recordaes mais recentes de seu cunhado, mancando rigidamente, embora de bom humor, sobre uma perna de pau, resultado de uma bala recebida numa guerra estrangeira.
        - Deve ser horrvel viver assim - comentei, tentando distra-lo. - No observando corujas, quero dizer, o rei. Sem nenhuma privacidade, em nenhum momento, 
nem mesmo na privada.
        -  verdade - Jamie concordou. - Mas por outro lado, ele  o rei.
        - Humm. E suponho que o poder, o luxo e tudo o mais compensam muita coisa.
        Ele deu de ombros.
        - Bem, se compensam ou no,  a sua parte no seu acordo com Deus e ele no tem escolha a no ser fazer o melhor possvel. - Pegou seu xale de xadrez, passou 
a ponta pelo cinto e jogou-o nas costas.
        - Deixe-me ajud-lo. - Peguei o broche de prata em forma de anel e prendi o tecido flamejante em cima do ombro. Ele arrumou o drapeado, alisando a l de 
cores vivas entre os dedos.
        - Eu tambm tenho um acordo semelhante, Sassenach - disse serenamente, abaixando os olhos para mim. Sorriu ligeiramente. - Embora graas a Deus isso no 
signifique convidar lan a limpar meu traseiro para mim. Mas eu nasci senhor de terras. Sou o responsvel por aquelas propriedades e pelas pessoas que vivem l, e 
tenho que fazer o melhor possvel em relao a elas.
        Estendeu o brao e tocou de leve em meus cabelos.
        - Foi por isso que fiquei feliz quando voc disse que ns viramos para ver o que poderamos fazer. Porque h uma parte de mim que no gostaria de mais nada 
alm de levar voc e a criana para um lugar bem distante, para passar o resto da vida trabalhando com a terra e os animais, para chegar  noite e me deitar a seu 
lado, e dormir tranqilo a noite inteira.
        Os olhos de um azul profundo estavam perdidos em pensamento, enquanto a mo retornava s pregas de seu xale, acariciando o xadrez vvido do tart dos Fraser, 
com a fina listra branca que distinguia Lallybroch das outras tribos e famlias.
        - Mas, se o fizesse - continuou, como se falasse mais consigo mesmo do que comigo -, uma parte da minha alma se sentiria renegada e eu acho... eu acho que 
sempre ouviria as vozes do meu povo me chamando.
        143
        Pousei a mo em seu ombro e ele ergueu os olhos, um ligeiro sorriso enviesado na boca marcante.
        - Eu tambm acho - concordei. - Jamie... o que quer que acontea, o que quer que possamos fazer... - Parei, buscando as palavras. Como ocorrera tantas vezes 
antes, a absoluta enormidade da tarefa que havamos assumido me deixava perplexa e sem fala. Quem ramos ns para alterar o curso da histria, para mudar o curso 
dos acontecimentos, no para ns mesmos, mas para prncipes e camponeses, para toda a nao escocesa?
        Jamie colocou sua mo sobre a minha e apertou-a com confiana.
        - Ningum pode pedir mais de ns do que o melhor que possamos fazer, Sassenach. No, se houver derramamento de sangue, ao menos ele no estar em nossas 
mos e queira Deus que no chegue a isso.
        Pensei nas lpides dos cls, cinzentas e solitrias na charneca de Culloden e nos homens das Highlands que estariam sepultados sob elas caso fracassssemos.
        - Queira Deus - repeti.
        
        
8 - FANTASMAS E CROCODILOS
        
        Entre audincias reais e as exigncias dirias dos negcios de Jared, Jamie parecia estar achando a vida atarefada. Toda manh, ele desaparecia com Murtagh 
logo aps o desjejum para verificar as novas entregas no armazm, fazer inventrios, visitar as docas no Sena e conduzir uma turn pelo que parecia ser, segundo 
sua descrio, tavernas extremamente desagradveis.
        - Bem, ao menos voc tem o Murtagh - observei, encontrando consolo no fato -, e vocs dois no podem entrar em muita confuso em plena luz do dia. - A julgar 
pela aparncia, no se daria nada pelo magro, mas rijo homenzinho. Seus trajes diferenciavam-se daqueles dos vagabundos nas docas somente pelo fato de que a parte 
de baixo era de xadrez de tart, mas eu havia atravessado metade da Esccia com Murtagh para resgatar Jamie da priso de Wentworth e no havia nenhuma outra pessoa 
no mundo a quem eu confiaria seu bem-estar.
        Depois do almoo, Jamie fazia suas rondas de visitas - sociais e a negcios, ambas em nmero crescente - e em seguida se retirava para seu gabinete por uma 
ou duas horas com os livros de registros de contas antes do jantar. Ele estava muito ocupado.
        Eu no. Alguns dias de educada escaramua com madame Vionnet, a cozinheira-chefe, deixaram claro quem estava no comando da casa, e no era eu. Madame vinha 
 minha sala-de-estar toda manh para me consultar sobre o cardpio do dia e me apresentar a lista de despesas necessrias para abastecer a cozinha - frutas, legumes, 
manteiga e leite de uma fazenda logo na sada da cidade, entregue fresco todas as manhs, peixe fisgado no Sena e vendido num carrinho de mo na rua, junto com mexilhes 
frescos que projetavam suas curvas negras e seladas de montes de plantas aquticas murchas. Eu examinava as listas por pura formalidade, aprovava tudo, elogiava 
o jantar da noite anterior e nada mais. Fora uma ou outra chamada para abrir o armrio de roupas de cama e mesa, a adega, o poro ou a despensa com uma chave do 
meu molhe, meu tempo era todo meu, at a hora de me vestir para o jantar.
        A vida social da residncia de Jared continuava quase a mesma de quando ele estava morando ali. Eu ainda estava cautelosa quanto a promover reunies sociais 
em larga escala, mas realizvamos jantares ntimos toda noite, ao qual compareciam nobres, cavalheiros e damas, jacobitas pobres no exlio, comerciantes ricos e 
suas esposas.
        Entretanto, descobri que comer e beber e se preparar para comer e beber no era de fato uma ocupao satisfatria. Fiquei to irrequieta a ponto de Jamie 
por fim sugerir que eu o ajudasse a fazer os lanamentos nos livros de escriturao contbil para ele.
        - Melhor fazer isso do que ficar a se roendo - ele disse, olhando criticamente para minhas unhas rodas. - Alm do mais, voc tem uma letra melhor do que 
a dos funcionrios do armazm.
        E foi assim que eu estava no gabinete, diligentemente debruada sobre os enormes livros da contabilidade, quando o sr. Silas Hawkins chegou no final de uma 
tarde, com uma encomenda de dois toneis de conhaque da regio de Flandres. O sr. Hawkins era um ingls corpulento e prspero; emigrante como Jared, especializara-se 
na exportao de conhaques franceses para sua terra natal.
        Imaginei que um comerciante que parecia abstmio teria alguma dificuldade em vender vinhos e outras bebidas alcolicas a granel. O sr. Hawkins era afortunado 
nesse aspecto, j que permanentemente exibia faces rosadas e o sorriso alegre de um festeiro. Entretanto, Jamie me contara que o sujeito nunca testava suas prprias 
mercadorias e na verdade raramente bebia alguma coisa alm de cerveja escura e pouco refinada, embora seu apetite para comida fosse uma lenda nas tavernas que visitava. 
Uma expresso calculista e alerta espreitava no fundo de seus olhos castanhos e brilhantes, por trs da serena cordialidade que azeitava suas transaes.
        - Meus melhores fornecedores, posso afirmar - declarou, assinando um grande pedido com um floreio. - Sempre confiveis, sempre de primeira qualidade. Sentirei 
muito a falta de seu primo em sua ausncia - ele disse, fazendo uma mesura para Jamie -, mas ele fez uma boa escolha na hora de indicar um substituto. Um escocs 
sempre mantm os negcios em famlia.
        Os olhos pequenos e brilhantes demoraram-se no kilt de Jamie, o vermelho dos Fraser vvido contra os lambris de madeira escura da sala de visitas.
        - Acabam de chegar da Esccia? - o sr. Hawkins perguntou descontraidamente, enfiando a mo dentro do casaco.
        - No, j estou na Frana h algum tempo. -Jamie sorriu, encerrando o assunto. Pegou a caneta de pena do sr. Hawkins, mas achando-a rombuda demais para seu 
gosto deixou-a de lado, pegando outra nova do buqu de penas de ganso que saltava de um pequeno jarro de vidro sobre o aparador.
        - Ah. Vejo pela sua roupa que  um escocs das Highlands; achei que talvez pudesse me informar sobre os sentimentos que predominam atualmente naquela regio 
do pas. Ouvem-se muitos boatos, sabe. - O sr. Hawkins afundou-se na cadeira diante do aceno da mo de Jamie, o rosto redondo, rosado, aparentemente concentrado 
na volumosa bolsa de couro que retirara do bolso.
        - Quanto a boatos, bem, esse  o estado normal das coisas na Esccia, no? - Jamie disse, afiando a pena nova com ateno. - Mas sentimentos? No, se quer 
dizer poltica, receio que eu mesmo no d muita ateno a isso. - O pequeno canivete fazia um som agudo de corte conforme as lascas duras eram talhadas da haste 
grossa da pena.
        O sr. Hawkins retirou vrias moedas de prata de sua bolsa, empilhando-as cuidadosamente numa coluna perfeita entre os dois homens.
        - Caramba! - disse, quase distraidamente. - Se assim for,  o primeiro escocs das Highlands que eu conheo que pensa assim.
        Jamie terminou de apontar a pena de escrever e ergueu a ponta da caneta, estreitando os olhos para avaliar o ngulo do corte.
        - Humm? - disse vagamente. - Ah, bem, tenho outras questes com que me preocupar; administrar um negcio como este exige todo o nosso tempo, como o senhor 
mesmo sabe, imagino.
        -  verdade. - O sr. Hawkins recontou as moedas de sua pilha e retirou uma, substituindo-a por duas menores. - Ouvi dizer que Carlos Eduardo chegou h pouco 
tempo a Paris - disse. Seu rosto redondo de beberro no demonstrava mais do que um leve interesse, mas os olhos estavam alertas em suas bolsas de gordura.
        - Ah, sim -Jamie murmurou, o tom de sua voz deixando em aberto se isso era o reconhecimento de um fato ou meramente uma expresso de educada indiferena. 
Tinha o pedido de compra diante dele e assinava cada folha com excessivo cuidado, desenhando as letras em vez de rabisc-las apressadamente, como era de costume. 
Um homem canhoto, forado em criana a escrever com a mo direita, ele sempre achara as letras difceis, mas quase nunca se importunava com isso.
        - Ento, no compartilha as simpatias de seu primo nessa direo? Hawkins empertigou-se um pouco na cadeira, observando o topo da cabea inclinada de Jamie, 
numa postura naturalmente neutra.
        - Isso  algo do seu interesse, senhor? - Jamie ergueu a cabea e olhou o sr. Hawkins direto nos olhos com um olhar azul e sereno. O gordo comerciante devolveu 
o olhar por um instante, depois abanou a mo rechonchuda num gesto de quem descarta a pergunta.
        - De modo algum - disse afavelmente. -  que estou familiarizado com as inclinaes jacobitas de seu primo, ele no faz nenhum segredo delas. S estava me 
perguntando se todos os escoceses tinham a mesma opinio na questo das pretenses dos Stuart ao trono.
        - Se conhece bem os escoceses das Highlands - Jamie disse secamente entregando-lhe uma cpia do pedido -, deve saber que  raro encontrar dois deles que 
concordem com alguma coisa alm da cor do cu, e mesmo isso est sujeito a questionamento de vez em quando.
        O sr. Hawkins riu, a pana de homem prspero sacudindo-se sob o colete, e enfiou o documento dobrado no casaco. Vendo que Jamie no estava disposto a continuar 
nessa linha de conversa, interrompi-os nesse ponto com uma oferta hospitaleira de Madeira e biscoitos.
        O sr. Hawkins pareceu tentado por um instante, mas depois sacudiu a cabea pesarosamente, empurrando a cadeira para trs para levantar-se.
        - No, no, muito obrigado, milady, mas no. O Arabella aporta nesta quinta-feira e eu tenho que estar em Calais para esper-lo. E ainda h muito a fazer 
at eu poder colocar o p na carruagem para partir. - Fez uma careta para um mao de ordens de compra e recibos que retirara do bolso, acrescentou o recibo de Jamie 
 pilha e enfiou-a em uma larga carteira de couro de viagem.
        - Ainda assim - disse, alegrando-se -, posso fazer alguns negcios no caminho. Devo visitar as hospedarias e tavernas entre Paris e Calais.
        - Se vai parar em todas as tavernas entre aqui e a costa, s vai chegar a Calais no ms que vem - observou Jamie. Pegou sua prpria moedeira da bolsa do 
kilt e arrastou a pequena pilha de moedas de prata para dentro.
        -  verdade, milorde - disse o sr. Hawkins, franzindo a testa com tristeza. - Acho que devo omitir uma ou duas e visit-las na volta.
        - Certamente poderia enviar algum a Calais em seu lugar, j que seu tempo  to precioso, no? - sugeri.
        Ele revirou os olhos expressivos, franzindo a boca pequena e jovial numa expresso o mais prxima possvel da melancolia a que ele pde chegar dentro das 
limitaes de sua forma.
        - Eu poderia fazer isso, milady. Mas o carregamento do Arabella, valha-me Deus, no pode ser confiado aos bons servios de um funcionrio. Minha sobrinha 
Mary est a bordo - confidenciou -, a caminho neste momento das costas da Frana. Tem apenas quinze anos e nunca se afastou de casa antes. Receio que no possa deix-la 
encontrar o caminho para Paris por conta prpria.
        - Creio que no - concordei educadamente. O nome me pareceu familiar, mas eu no sabia explicar por qu. Mary Hawkins. Bastante comum; no conseguia ligar 
o nome a nenhum fato em particular. Ainda meditava sobre isso quando Jamie levantou-se para acompanhar o sr. Hawkins at a porta.
        - Espero que a viagem de sua sobrinha seja agradvel - disse educadamente. - Ela est vindo estudar? Ou visitar parentes?
        - Est vindo para casar-se - disse o tio, satisfeito. - Meu irmo teve a felicidade de arranjar um casamento muito vantajoso para ela, com um membro da nobreza 
francesa. - Pareceu expandir-se de orgulho com o fato, os botes lisos de ouro esticando o tecido na cintura. - Meu irmo mais velho  baronete.
        - Ela tem quinze anos? - perguntei, constrangida. Eu sabia que casamentos com pouca idade no eram raros, mas quinze anos? Ainda assim, eu me casara aos 
dezenove. E novamente aos vinte e sete. Eu sabia muito mais aos vinte e sete.
        - Ha, sua sobrinha conhece o noivo h muito tempo? - perguntei cautelosamente.
        - Ela no o conhece. Na verdade - o sr. Hawkins inclinou-se para mais perto, colocando o dedo sobre os lbios e abaixando a voz -, ela nem sabe a respeito 
do casamento. As negociaes ainda no esto terminadas, sabe?
        Fiquei chocada e abri a boca para dizer alguma coisa, mas Jamie segurou meu cotovelo com fora para me advertir.
        - Bem, se o cavalheiro pertence  nobreza, talvez vejamos sua sobrinha na corte - sugeriu, empurrando-me com firmeza em direo  porta como a p de uma 
mquina de terraplenagem. O sr. Hawkins, movendo-se forosamente para evitar que eu o pisasse, recuou ainda falando.
        -  bem verdade, milorde Broch Tuarach. De fato, eu consideraria uma grande honra que o senhor e sua senhora conhecessem minha sobrinha. Tenho certeza de 
que ela sentiria um grande conforto na companhia de uma conterrnea - acrescentou com sorriso adulador para mim. - No que eu queira me aproveitar do que no  mais 
do que uma relao de negcios, sem dvida.
        Pois sim que no queria se aproveitar, pensei indignada. Voc faria qualquer coisa para enfiar sua famlia na nobreza francesa, inclusive casar sua sobrinha 
com... com...
        - Ha, afinal quem  o noivo de sua sobrinha? - perguntei sem rodeios. O rosto do sr. Hawkins adquiriu um ar astuto e ele inclinou-se suficientemente perto 
para sussurrar com voz rouca no meu ouvido.
        - Na verdade, eu no deveria dizer nada at os papis terem sido assinados, mas sendo a senhora quem pergunta... posso dizer-lhe que  um membro da Casa 
de Gascogne. E um membro de posio realmente alta!
        - Realmente - eu disse.
        O sr. Hawkins saiu esfregando as mos num verdadeiro frenesi de expectativa, e eu me virei imediatamente para Jamie.
        - Gascogne! Ele deve estar se referindo... mas no  possvel, ? Aquele velho nojento com manchas de rap no queixo que veio jantar aqui na semana passada?
        - O visconde de Marigny? - Jamie disse, sorrindo diante de minha descrio. - Acho que  ele mesmo;  vivo e o nico homem disponvel da linhagem, at onde 
eu sei. Mas no acho que era rap;  que a barba dele cresce daquele jeito. Um pouco rodo pelas traas - admitiu -, mas deve ser um inferno fazer a barba com todas 
aquelas verrugas.
        - Ele no pode casar uma menina de quinze anos com... com... aquilo! E sem nem ao menos consult-la!
        - Ah, acho que pode, sim -Jamie disse, com uma calma irritante. - De qualquer modo, Sassenach, no  da sua conta. - Segurou-me com firmeza pelos dois braos 
e sacudiu-me de leve.
        - Voc me ouviu? Sei que parece estranho a voc, mas  assim que as coisas so. Afinal - a boca larga curvou-se em um dos cantos -, voc teve que se casar 
comigo contra a vontade. Ainda no se conformou com isso?
        - s vezes, eu me pergunto! - disse, com um safano, tentando me desvencilhar, mas ele simplesmente me puxou para junto dele, rindo, e me beijou. Aps um 
instante, desisti de lutar. Relaxei em seus braos, admitindo a capitulao, ainda que temporria. Eu iria me encontrar com Mary Hawkins, pensei, e veramos exatamente 
o que ela pensava dessa proposta de casamento. Se ela no quisesse ver seu nome em um contrato de casamento, ligada ao visconde de Marigny, ento... De repente, 
fiquei rgida, afastando-me do abrao de Jamie.
        - O que foi? - perguntou, alarmado. - Est se sentindo mal, Sassenach? Voc ficou lvida de repente!
        E no era de admirar. Porque subitamente me lembrei de onde eu tinha visto o nome de Mary Hawkins. Jamie estava errado. Aquilo era da minha conta. Porque 
eu havia visto esse nome, manuscrito com base em calcografia, no topo de um mapa genealgico, a tinta envelhecida e desbotada pelo tempo, a cor original transformada 
num tom spia. Mary Hawkins no estava destinada a ser a mulher do decrpito visconde Marigny. Ela iria se casar comjonathan Randall, no ano de 1745 de Nosso Senhor 
Jesus Cristo.
        - Bem, ela no pode, no ? Jack Randall est morto. - Ele terminou de encher o clice de conhaque e estendeu-o a mim. Sua mo estava firme na haste do clice 
de cristal, mas a boca transformara-se numa linha cerrada e a voz deu  palavra "morto" um tom cortante e definitivo.
        - Deite-se com os ps para cima, Sassenach. Voc ainda est plida.
        A sua intimao, levantei os ps e estiquei-me no sof. Jamie sentou-se junto  minha cabea e distraidamente colocou a mo em meu ombro. Seus dedos eram 
quentes e fortes, delicadamente massageando a pequena cavidade da junta.
        - Marcus MacRannoch disse-me que viu Randall pisoteado at a morte pelo gado nas masmorras da priso de Wentworth - ele disse outra vez, como se quisesse 
se tranqilizar pela repetio. - "Como um boneco de trapos, envolto em sangue." Foi isso que sir Marcus disse. Ele afirmou com toda a certeza.
        - Sim. - Tomei um pequeno gole do meu conhaque, sentindo o sangue voltar ao meu rosto. - Foi o que ele me disse tambm. No, tem razo, o capito Randall 
est morto.  que fiquei abalada quando me lembrei subitamente de Mary Hawkins. Por causa de Frank. - Olhei para minha mo esquerda, pousada sobre meu estmago. 
O fogo queimava na lareira e sua luz se refletiu na aliana lisa de ouro do meu primeiro casamento. A aliana de Jamie, de prata escocesa, brilhava no quarto dedo 
da outra mo.
        - Ah. - A mo de Jamie em meu ombro paralisou-se. Sua cabea estava inclinada, mas ele ergueu os olhos para me encarar. No falvamos de Frank desde que 
eu resgatara Jamie de Wentworth, nem a morte de Jonathan Randall fora mencionada entre ns. Na ocasio, parecera de pouca importncia, exceto enquanto significava 
que nenhum perigo nos ameaava mais daquela direo. Desde ento, eu evitava trazer qualquer lembrana de Wentworth a Jamie.
        - Voc sabe que ele est morto, no , mo duinne? -Jamie sussurrou devagar, os dedos pousados no meu pulso e eu sei que ele falava de Frank, no de Jonathan.
        - Talvez no - eu disse, os olhos ainda fixos na aliana. Ergui a mo, de modo que o metal brilhou na luz do final de tarde. - Se ele estiver morto, Jamie, 
se ele no vier a existir porque Jonathan est morto, ento por que eu ainda tenho a aliana que ele me deu?
        Ele fitou o anel e eu vi um pequeno msculo contorcer-se junto  sua boca. Vi que seu rosto tambm estava plido. No sabia se seria prejudicial para ele 
pensar em Jonathan Randall agora, mas no havia muita escolha.
        - Tem certeza de que Randall no teve um filho antes de morrer? - perguntou. - Isso explicaria tudo.
        - Sim, explicaria - eu disse. - Mas, no, tenho certeza de que no. Frank... - minha voz tremeu um pouco ao pronunciar seu nome e a mo de Jamie apertou 
meu pulso com mais fora - Frank explicou-me com detalhes as circunstncias trgicas da morte de Jonathan Randall. Disse que ele, Jack Randall, morreu no Campo de 
Culloden, na ltima batalha da revoluo, e que seu filho nasceu alguns meses depois da morte do pai. Sua viva casou-se outra vez, alguns anos mais tarde. Ainda 
que houvesse um filho ilegtimo, ele no estaria na linha de antepassados de Frank.
        A testa de Jamie estava franzida e uma fina linha vertical corria entre as sobrancelhas.
        - Poderia talvez ser um erro, que a criana no fosse de Randall? Frank pode descender apenas da linhagem de Mary Hawkins, pois sabemos que ela ainda vive.
        Sacudi a cabea, desanimada.
        - No vejo como. Se voc tivesse conhecido Frank... mas, no, acho que nunca lhe contei. Quando me deparei com Jonathan Randall pela primeira vez, pensei 
naquele instante que ele era Frank. No eram iguais,  claro, mas a semelhana era... impressionante. No, Jack Randall foi um antepassado de Frank, sem dvida.
        - Sei. - Os dedos de Jamie haviam ficado midos; retirou-os do meu pulso e limpou-os distraidamente em seu kilt.
        - Ento... talvez a aliana no signifique nada, mo duinne - sugeriu meigamente.
        - Talvez no. - Toquei o metal, quente como minha prpria pele, depois deixei a mo cair desamparadamente. - Ah, Jamie, eu no sei! Eu no sei de nada!
        Ele esfregou os ns dos dedos, cansado, na ruga entre seus olhos.
        - Nem eu, Sassenach. - Abaixou a mo e tentou sorrir para mim.
        - Mas uma coisa  certa - falou. - Voc disse que Frank lhe contou que Jonathan Randall morreria em Culloden?
        - Sim. Na verdade, eu mesma disse isso a Jack Randall, para assust-lo, em Wentworth, quando ele me colocou para fora, na neve, antes... antes de voltar 
para voc. - Seus olhos e sua boca cerraram-se num sbito espasmo e eu girei os ps para o cho, alarmada.
        - Jamie! Voc est bem? - Tentei colocar a mo em sua cabea, mas ele afastou-se, levantando-se e dirigindo-se  janela.
        - No. Sim. Tudo bem, Sassenach. Passei a manh toda escrevendo cartas e minha cabea parece que vai explodir. No se preocupe. - Afastou-me com um gesto 
da mo, pressionando a testa contra a vidraa fria da janela, os olhos fechados. Continuou a falar, como se quisesse distrair-se da dor.
        - Ento se voc... e Frank... sabiam que Jack Randall morreria em Culloden, mas ns sabemos que ele ja morreu... ento, pode ser feito, Claire.
        - O que pode ser feito? - Eu o rondava ansiosa, querendo ajud-lo, mas sem saber o que fazer. Claramente, ele no queria ser tocado.
        - O que voc sabe que acontecer pode ser modificado. - Ergueu a cabea da janela e sorriu para mim, com um ar cansado. Seu rosto ainda estava plido, mas 
os vestgios do espasmo momentneo haviam desaparecido. - Jack Randall morreu antes do devido tempo e Mary Hawkins se casar com outro homem. Ainda que isso signifique 
que seu Frank no nascer... ou talvez nasa de alguma outra maneira - acrescentou, para me confortar -, tambm significa que temos uma chance de sermos bemsucedidos 
naquilo que pretendemos fazer. Talvez Jack Randall no tenha morrido no Campo de Culloden porque a batalha que deveria ocorrer ali nunca acontecer.
        Pude ver o esforo que ele estava fazendo para se virar, para se aproximar de mim e envolver-me em seus braos. Abracei-o pela cintura, de leve, sem me mexer. 
Ele abaixou a cabea, repousando a testa sobre meus cabelos.
        - Sei que isso deve faz-la sofrer, mo duinne. Mas no lhe d alvio saber o bem que pode advir da?
        - Sim - murmurei por fim, nas pregas de sua camisa. Desvencilhei-me delicadamente de seus braos e coloquei a mo em sua face. A ruga entre suas sobrancelhas 
estava mais funda e seus olhos meio desfocados, mas ele sorriu para mim.
        - Jamie - eu disse -, v para a cama se deitar. Mandarei um recado aos d'Arbanville avisando que no poderemos ir l esta noite.
        - Ah, no - protestou. -vou ficar bem. Eu conheo este tipo de dor de cabea, Sassenach;  de ficar escrevendo muito tempo e uma hora de sono vai cur-la.vou 
subir agora. - Virou-se em direo  porta, depois hesitou e voltou-se outra vez, com um meio sorriso.
        - E se eu gritar no meu sono, Sassenach, apenas coloque a mo sobre mim e diga "Jack Randall est morto". Tudo ficar bem comigo outra vez.
        Tanto a comida quanto a companhia na casa dos d'Arbanville foram boas. Chegamos em casa tarde da noite e eu ca num sono profundo assim que minha cabea 
encostou no travesseiro. Dormi um sono sem sonhos, mas acordei repentinamente no meio da noite, sentindo que havia algo errado.
        A noite estava fria e o acolchoado de penas de ganso havia escorregado para o cho, como costumava acontecer, deixando apenas o fino cobertor de l sobre 
mim. Rolei na cama, semi-adormecida, buscando o calor do corpo de Jamie. Ele no estava ali.
        Sentei-me, procurando-o, e o vi quase imediatamente, sentado na banqueta encaixada sob a janela, a cabea entre as mos.
        - Jamie! O que foi? Est com dor de cabea outra vez? - Tateei  cata da vela, pensando em ir buscar minha caixa de remdios, mas algo na maneira como ele 
estava sentado me fez abandonar a busca e ir para perto dele na mesma hora.
        Ele respirava com dificuldade, como se tivesse corrido e, apesar do frio, seu corpo estava encharcado de suor. Toquei seu ombro e encontrei-o rgido e frio 
como uma esttua de metal.
        Ele contraiu-se ao toque de minha mo e ps-se de p num salto, os olhos arregalados e fundos no quarto s escuras.
        - No quis assust-lo - eu disse. - Voc est bem?
        Imaginei por um instante se ele no estaria com sonambulismo, porque sua expresso no mudou; olhava direto atravs de mim e, o que quer que estivesse vendo, 
o apavorava.
        - Jamie! - eu disse incisivamente. - Jamie, acorde!
        Ento, ele piscou e me viu, embora seu rosto mantivesse a expresso desesperada de um animal caado.
        - Estou bem - ele disse. - Estou acordado. - Falava como se quisesse se convencer do fato.
        - O que foi? Teve um pesadelo?
        - Um sonho. Sim. Foi um sonho.
        Dei um passo adiante e coloquei a mo em seu brao.
        - Conte-me. Ir embora se voc me contar.
        Ele me segurou com fora pelos braos, tanto para me impedir de toc-lo quanto para se apoiar. Era noite de lua cheia e eu podia ver que cada msculo de 
seu corpo estava tenso, rgido e imvel como uma pedra, mas pulsando de furiosa energia, pronto para explodir em ao.
        - No - ele disse, ainda parecendo aturdido.
        - Sim - eu disse. - Jamie, fale comigo. Conte-me. Conte-me o que est vendo.
        - No posso... ver nada. Nada. No posso enxergar.
        Puxei, virando-o das sombras do quarto para encarar de frente o luar claro que entrava pela janela. A claridade pareceu ajudar, pois sua respirao arrefeceu 
e, aos poucos, as palavras dolorosamente entrecortadas vieram  tona.
        Ele sonhara com as pedras da priso de Wentworth. Enquanto falava, a sombra de Jonathan Randall entrou no quarto. E deitou-se nu na minha cama, em cima do 
cobertor de l. Houve o som de respirao rouca bem atrs dele, e a sensao de pele encharcada de suor, deslizando contra a sua prpria pele. Rangeu os dentes numa 
agonia de frustrao. O homem atrs dele pressentiu o pequeno movimento e riu.
        - Ah, ns ainda temos algum tempo antes de o enforcarem, meu rapaz - sussurrou. - Muito tempo para aproveitar. - Randall moveu-se repentina, rgida e bruscamente, 
e ele deixou escapar um gemido involuntrio.
        A mo de Randall acariciou seus cabelos para trs, afastando-os da sua testa e ajeitando-o atrs da orelha. O hlito quente estava junto a seu ouvido e ele 
virou a cabea para escapar, mas ele seguiu-o nas palavras sussurradas.
        - J viu um homem enforcado, Fraser? - continuaram as palavras, sem esperar por sua resposta, e a mo delgada e longa rodeou sua cintura, delicadamente acariciando 
a curva de sua barriga, provocando-o cada vez mais para baixo a cada palavra.
        - Sim, claro que sim; voc esteve na Frana, j viu desertores enforcados algumas vezes. Um homem enforcado esvazia os intestinos, no ? Conforme a corda 
aperta em volta do seu pescoo. - A mo o segurava, delicadamente, com firmeza, acariciando e esfregando. Ele agarrou a borda da cama com a mo que no fora dilacerada 
e enfiou o rosto no cobertor spero, mas as palavras o perseguiam.
        - Isso vai acontecer com voc, Fraser. S mais algumas horas e voc sentir o lao da forca. - A voz riu, satisfeita consigo mesma. - Voc ir para a sua 
morte com a bunda ardendo do meu prazer e quando liberar seus intestinos, ser meu esperma que escorrer pelas suas pernas e pingar no cho embaixo da forca.
        No emitiu nenhum som. Ele podia sentir o prprio cheiro, o corpo coberto de crostas de imundcie da priso, o cheiro custico do suor de medo e raiva. E 
tambm podia sentir o cheiro do homem atrs dele, o fedor do animal transpassando o perfume delicado da gua-de-colnia de alfazema.
        - O cobertor - ele disse. Seus olhos estavam fechados, o rosto tenso sob o luar. - Era spero sob a minha face e tudo que eu podia ver eram as pedras da 
parede diante de mim. No havia nada ali em que eu pudesse fixar minha mente... nada que pudesse ver. Assim, mantive os olhos cerrados e pensei no cobertor sob meu 
rosto. Era tudo que eu podia sentir alm da dor... e dele. Eu... me agarrei a isso.
        - Jamie. Deixe-me abra-lo - falei num sussurro, tentando acalmar o  furor que eu podia sentir correndo pelo seu sangue. Suas mos agarravam meus braos 
com tanta fora que eles ficaram dormentes, mas ele no permitia que eu me aproximasse. Mantinha-me a distncia com a mesma fora com que se agarrava a mim.
        De repente, soltou-me, afastando-se com um salto e virando-se para a janela banhada pelo luar. Permaneceu ali, tenso e trmulo, como a corda de um arco que 
acabou de lanar uma flecha, mas sua voz era calma.
        - No. No vou us-la dessa forma, Sassenach. Voc no vai fazer parte disso.
        Dei um passo em sua direo, mas ele me impediu com um movimento. Voltou a virar o rosto para a janela, agora calmo, e vazio como o vidro atravs do qual 
ele olhava.
        - V para a cama, Sassenach. Deixe-me um pouco sozinho; logo estarei bem. No h nada com que se preocupar agora.
        Estendeu os braos, agarrando o batente da janela, encobrindo a luminosidade com seu corpo. Os msculos de seus ombros avolumaram-se e eu pude perceber que 
ele empurrava a madeira com todas as suas foras.
        - Foi somente um sonho. Jack Randall est morto.
        Finalmente, consegui dormir, com Jamie ainda parado  janela, olhando para fora, diretamente para a face da luz. Quando acordei ao amanhecer, entretanto, 
ele dormia, curvado na banqueta da janela, enrolado em seu xale xadrez, com meu manto de viagem em volta das pernas para se aquecer.
        Acordou com meus movimentos e parecia normal, com aquele seu jeito matinal irritantemente alegre. Mas eu no podia esquecer os acontecimentos da noite e 
fui buscar minha caixa de remdios depois do desjejum.
        Para minha consternao, faltavam vrias ervas de que eu precisava para o tnico de dormir que eu tinha em mente. Depois, entretanto, lembrei-me do homem 
de quem Marguerite me falara. Raymond, o comerciante de ervas, na rue de Varennes. Um bruxo, ela dissera. Um lugar que valia a pena ver. Muito bem. Jamie ficaria 
no armazm a manh inteira. Eu tinha uma carruagem e um lacaio  minha disposio; resolvi ir  loja.
        Um balco de madeira limpo percorria o comprimento da loja de ambos os lados, com prateleiras com o dobro da altura de um homem estendendo-se do cho ao 
teto atrs do balco. Algumas das prateleiras eram fechadas com portas de vidro com dobradias, protegendo as substncias mais raras e mais caras, imaginei. Cupidos 
gordos e dourados se espalhavam libidinosamente acima dos armrios de prateleiras, tocando cornetas, agitando suas vestes difanas e, de um modo geral, parecendo 
ter bebido alguns dos produtos mais alcolicos da loja.
        - Monsieur Raymond? - perguntei educadamente  jovem mulher atrs do balco.
        - Maitre Raymond - ela me corrigiu. Limpou o nariz vermelho deselegantemente na manga do vestido e abanou a mo indicando os fundos da loja, onde nuvens 
sinistras de uma fumaa marrom flutuavam pela bandeira da meia-porta.
        Bruxo ou no, Raymond tinha o cenrio certo para bruxaria. Uma fumaa erguia-se de uma lareira de ardsia preta, enroscando-se sob as vigas pretas do teto 
baixo. Acima do fogo, uma prateleira de pedra perfurada de buracos contendo alambiques de vidro, destiladores de cobre vasilhames de metal com longos bicos de onde 
substncias sinistras pingavam em xcaras - e o que parecia ser uma pequena, mas til destilaria. Aspirei o ar, cautelosamente. Entre os outros odores fortes na 
loja, um inebriante cheiro alcolico distinguia-se claramente na direo do fogo. Uma fileira perfeita de frascos limpos ao longo de um aparador reforava minhas 
suspeitas originais. Qualquer que fosse seu comrcio em amuletos e poes, o mestre Raymond obviamente tinha um bem-sucedido negcio de licor de cerejas de alta 
qualidade.
        O prprio destilador estava curvado sobre o fogo, empurrando pedaos errticos de carvo de volta  lareira. Ouvindo-me entrar, aprumou-se e voltou-se para 
me cumprimentar com um sorriso amvel.
        - Como vai? - eu disse educadamente ao topo de sua cabea. A impresso de que eu entrara no esconderijo de um mago era to forte que eu no me surpreenderia 
se ouvisse um coaxar de sapo em resposta.
        Na verdade, mestre Raymond no se parecia a outra coisa que no um sapo grande. com menos de um metro e meio de altura, peito redondo e pernas arqueadas, 
possua a pele espessa e viscosa de um habitante dos pntanos, alm de olhos pretos e amistosos, ligeiramente saltados. Fora o pequeno seno de que ele no era verde, 
tudo que lhe faltava eram verrugas.
        - Madona! - exclamou, radiante. - Em que posso ter o prazer de servi-la? - Ele no possua nem um dente, o que aumentava ainda mais a impresso de sapo, 
e eu fiquei olhando-o fixamente, fascinada.
        - Madona? - ele disse, espreitando-me com um ar inquisitivo. Percebendo subitamente o quanto eu estava sendo grosseira fitando-o daquela forma, atrapalhei-me, 
afogueada, e disse sem pensar:
        - S estava imaginando se foi beijado por uma jovem princesa. Fiquei ainda mais vermelha quando ele desatou a rir. Ainda com um amplo sorriso, disse:
        - Muitas vezes, senhora. Mas, pobre de mim, no adianta. Como bem pode ver. - E imitou o coaxar de um sapo.
        Ns nos desmanchamos em incontidas gargalhadas, atraindo a ateno da vendedora, que espreitou por cima da meia-porta, espantada. Mestre Raymond abanou a 
mo para que ela fosse embora, em seguida caminhou mancando at a janela, tossindo e apoiando as mos nos quadris. Abriu as vidraas, permitindo que um pouco da 
fumaa pudesse escapar.
        - Ah, assim est bem melhor! - exclamou, inspirando profundamente o ar frio de primavera que penetrou no aposento. Virou-se para mim, alisando para trs 
os longos cabelos prateados na altura dos ombros. - Bem, madona. J que somos amigos, talvez possa esperar um instante enquanto eu cuido de uma coisa.
        Ainda corada, concordei imediatamente e ele virou-se para sua prateleira acima do fogo, ainda sacudindo-se de risadas, enquanto enchia novamente o recipiente 
do alambique. Aproveitando a oportunidade para recobrar a compostura, andei a esmo pela sala de trabalho, olhando a surpreendente coleo de objetos desordenados.
        Um crocodilo de bom tamanho, provavelmente empalhado, pendurava-se do teto. Observei fascinada as placas crneas da barriga amarela, duras e brilhantes como 
cera prensada.
        -  de verdade? - perguntei, sentando-me  mesa de carvalho arranhada. Mestre Raymond lanou um olhar para cima, sorrindo.
        - Meu crocodile? Ah, sem dvida, madona. Inspira confiana aos fregueses, - Fez um sinal com a cabea indicando a prateleira que corria ao longo da parede, 
pouco acima da altura dos olhos. Estava repleta de botijas brancas de porcelana vitrificada, cada qual ornamentada com floreios dourados, flores e animais selvagens 
pintados, e um rtulo, escrito em letras pretas e rebuscadas. Trs das botijas mais prximas de mim estavam etiquetadas em latim, que traduzi com alguma dificuldade: 
sangue de crocodilo e o fgado e a blis do mesmo animal, presumivelmente aquele que se balanava sinistramente acima de minha cabea com a corrente de ar que soprava 
da loja principal.
        Peguei uma das botijas, retirei a tampa e cheirei delicadamente.
        - Mostarda - eu disse, torcendo o nariz - e tomilho. Em leo de nozes, eu acho, mas o que usou para tornar o cheiro to desagradvel? Inclinei a botija, 
examinando com ar crtico o lquido preto e lamacento.
        - Ah, ento o seu nariz no  meramente decorativo, milady! - Um largo sorriso cortou o rosto de sapo, revelando gengivas duras e azuladas.
        - O material preto  a polpa estragada de uma cabaa - confidenciou, inclinando-se para mais perto e abaixando a voz. - Quanto ao cheiro... bem, na verdade 
 de fato sangue.
        - No de crocodilo - eu disse, erguendo os olhos.
        - Tanto cinismo em algum to jovem - Raymond lamentou. - As damas e os cavalheiros da corte possuem felizmente uma natureza mais confivel, no que confiana 
seja a emoo que venha imediatamente  mente quando se trata de aristocracia. No, na realidade  sangue de porco, madona. Porcos so bem mais disponveis do que 
crocodilos.
        - Hum, sim - concordei. - Este deve ter lhe custado um bom dinheiro.
        - Felizmente, eu o herdei, junto com meu estoque atual, do proprietrio anterior. - Achei ter visto um dbil tremor de inquietao no fundo dos suaves olhos 
negros, mas nos ltimos tempos eu me tornara excessivamente sensvel a nuances de expresso, de tanto observar as feies das pessoas nas festas, em busca de pequenas 
pistas que pudessem ser teis a Jamie em suas manipulaes.
        O pequeno e atarracado proprietrio inclinou-se ainda mais para perto, colocando a mo sobre a minha, como se fosse me contar um segredo.
        - Voc  uma profissional, no ? - disse. - Devo dizer, no parece. Meu primeiro impulso foi retirar minha mo, mas o toque de sua mo era estranhamente 
reconfortante; bastante impessoal e, no entanto, inesperadamente caloroso e tranqilizador. Olhei os cristais de gelo recobrindo as bordas das vidraas da janela 
e pensei que isso j era demais; suas mos sem luvas eram quentes, uma condio altamente incomum para qualquer pessoa naquela poca do ano.
        - Depende inteiramente do que queira dizer com o termo "profissional" - eu disse formalmente. - Sou uma curandeira.
        - Ah, uma curandeira? - Inclinou-se para trs em sua cadeira, examinando-me com interesse. - Sim, foi o que pensei. Mais alguma coisa? Nada de ler a sorte, 
nada de feitios de amor?
        Senti uma momentnea dor de conscincia ao recordar a poca passada nas estradas com Murtagh, quando procurvamos Jamie pelas Highlands da Esccia, lendo 
a sorte e cantando para poder comer, como um casal de ciganos.
        - Nada desse tipo - respondi, corando ligeiramente.
        - De qualquer modo, no  uma mentirosa profissional - ele disse, olhando-me com ar divertido. - Uma pena. Ainda assim, como posso ter o prazer de servi-la, 
senhora?
        Expliquei minhas necessidades e ele balanava a cabea sabiamente enquanto escutava, os cabelos brancos e espessos balanando-se para a frente sobre os ombros. 
No usava nenhuma peruca no recesso de sua loja nem empoava os cabelos. Eram escovados para trs, desde a testa alta e larga, e caam lisos como uma vareta at os 
ombros, onde terminavam bruscamente, como se tivessem sido cortados com uma tesoura cega.
        Era fcil conversar com ele, visto que possua grande conhecimento sobre o uso de ervas e fitoterpicos. Pegou das prateleiras pequenos frascos de diferentes 
substncias, sacudindo-os para retirar pequenas pores e esmagando as folhas na palma da mo para eu cheirar ou provar.
        Nossa conversa foi interrompida pelo barulho de vozes altercadas na loja. Um lacaio elegantemente trajado estava inclinado sobre o balco, dizendo alguma 
coisa  jovem balconista. Ou melhor, tentando dizer alguma coisa. Suas dbeis tentativas eram-lhe atiradas de volta por uma enxurrada de virulento dialeto provenal 
do outro lado do balco. Era idiomtico demais para que eu pudesse entender completamente, mas compreendi o teor geral de suas observaes. Algo envolvendo repolhos 
e salsichas, nada lisonjeiro.
        Eu estava refletindo sobre a estranha tendncia dos franceses de se referirem  comida em qualquer tipo de discusso, quando a porta da loja abriu-se repentinamente 
com uma forte pancada. Reforos se aproximaram rpido por trs do lacaio, sob a aparncia de um tipo de personagem de faces pintadas de ruge e cheio de babados.
        - Ah - murmurou Raymond, espreitando com interesse por baixo do meu brao o desenrolar do drama em sua loja. - A viscondessa de Rambeau.
        - Voc a conhece? - A balconista evidentemente conhecia, pois abandonou seu ataque ao criado de libr e recuou, encolhendo-se contra o armrio de purgantes.
        - Sim, senhora - disse Raymond, balanando a cabea. - Ela  um pouco cara.
        Vi o que ele queria dizer, quando a senhora em questo pegou a evidente fonte de discrdia, um pequeno jarro contendo uma planta em conserva, mirou e atirou-o 
com fora e preciso considerveis na porta de vidro do armrio.
        O barulho do impacto silenciou a comoo imediatamente. A viscondessa apontou um dedo longo e ossudo para a jovem.
        - Voc - disse, numa voz cortante como aparas de metal -, traga-me a poo negra. Imediatamente.
        A jovem abriu a boca como se pretendesse protestar, depois, vendo a viscondessa levar a mo a outro mssil, fechou-a e saiu correndo para a sala dos fundos.
        Antecipando-se  sua chegada, Raymond estendeu o brao resignadamente acima de sua cabea e enfiou um frasco na mo da balconista quando ela atravessou a 
porta.
        - Entregue-lhe isso - ele disse, encolhendo os ombros. - Antes que ela quebre mais alguma coisa.
        Enquanto a balconista timidamente retornava  loja principal para entregar o frasco, ele virou-se para mim, com uma expresso irnica.
        - Veneno para uma rival - disse. - Ou ao menos  o que ela pensa.
        - Ah,  mesmo? - exclamei. - E o que  na verdade? Cscara-sagrada? Olhou para mim, agradavelmente surpreso.
        - Voc  muito boa nisso - disse. - Um talento natural ou lhe ensinaram? Bem, no importa. - Abanou a mo grande, descartando o assunto. - Sim, isso mesmo, 
cscara. A rival vai cair doente amanh, sofrer visivelmente para satisfazer o desejo de vingana da viscondessa e convenc-la de que fez uma boa compra. Depois 
a vtima se recobrar, sem nenhum dano permanente, e a viscondessa atribuir a recuperao  interveno do padre ou a um antdoto feito por um feiticeiro contratado 
pela vtima.
        - Hum - eu disse. - E os danos  sua loja? - O sol do final de tarde brilhava nos fragmentos de vidro sobre o balco e no nico cu, uma antiga moeda francesa, 
de prata que a viscondessa atirara como pagamento.
        Raymond virou a palma da mo de um lado para o outro, no costume imemorial de indicar ambigidade.
        - Acaba ficando tudo igual - disse calmamente. - Quando ela voltar no ms que vem para um abortivo, eu cobrarei o suficiente no s para,, pagar os danos, 
mas para mandar fazer trs armrios novos. E ela pagar sem reclamar. - Sorriu brevemente, mas sem o humor demonstrado antes. - Tudo depende da hora certa, sabe.
        Eu estava ciente dos olhos negros pestanejando com discernimento pela minha figura. Minha gravidez ainda no era visvel, mas eu tinha certeza de que ele 
sabia.
        - E o remdio que dar  viscondessa no ms que vem funciona? - perguntei.
        - Tudo depende da hora certa - repetiu, inclinando a cabea inquisitivamente para o lado. - Se for administrado bem cedo, tudo ir bem. Mas  perigoso esperar 
muito tempo.
        O tom de aviso em sua voz era claro e eu sorri para ele.
        - No  para mim - eu disse. - S para saber. Ele pareceu relaxar.
        - Ah. Foi o que imaginei.
        Um barulho prolongado vindo da rua anunciou a passagem da carruagem azul e prateada da viscondessa. O lacaio acenava e gritava de trs da carruagem, conforme 
os pedestres eram forados a sair correndo para o abrigo de prticos e becos para no serem atropelados.
        - A la lanterne - murmureTem voz baixa, repetindo a expresso gritada pela multido ao escoltar as vtimas  guilhotina. Era raro que minha perspectiva incomum 
sobre assuntos corriqueiros me proporcionasse muita satisfao, mas esta certamente era uma dessas ocasies.
        - No pergunte por quem a carroa dos condenados clama - observei, voltando-me para Raymond. - Ela clama por ti.
        Ele pareceu ligeiramente perturbado.
        - Oh? Bem, de qualquer forma, a senhora estava dizendo que usa a betnica preta como purgativo? Eu costumo usar a branca.
        -  mesmo? Por qu?
        E sem mais nenhuma meno  viscondessa, nos sentamos para terminar minhas compras.
        
        
        
9 - OS ESPLENDORES DE VERSALHES
        
        Fechei a porta da sala de visitas silenciosamente atrs de mim e fiquei parada, imvel, por um instante, reunindo coragem. Ensaiei uma respirao funda para 
recobrar a serenidade, mas a presso do espartilho com barbatanas de baleia fez o ar sair como uma respirao sufocada.
        Jamie, imerso num punhado de notas de remessas por navio, ergueu a cabea com o rudo e ficou paralisado, os olhos arregalados. A boca abriu-se, mas no 
emitiu nenhum som.
        - Gosta? - Movendo a cauda do vestido com um pouco de cautela, avancei pelo aposento, oscilando delicadamente como a costureira me instrura, a fim de exibir 
as finas nesgas de seda plissada embutidas na sobre-saia.
        Jamie fechou a boca e piscou vrias vezes.
        - ... ah... vermelho, no? - observou.
        - Um pouco. - Sang-du-Christ, para ser exata. Sangue de Cristo, a cor mais em moda da temporada, ou assim haviam me dito.
        - Nem toda mulher poderia usar esta cor, madame - a costureira dissera, a fala inalterada apesar da boca cheia de alfinetes. - Mas a senhora, com essa pele! 
Me de Deus, os homens vo se arrastar para baixo de sua saia a noite toda!
        - Se algum tentar, esmagarei seus dedos com os ps - eu disse. Afinal, esse no era absolutamente o efeito desejado. Mas eu de verdade queria ser notada. 
Jamie insistiu para que eu mandasse fazer um traje que me destacasse na multido. Apesar do torpor matinal, o rei havia evidentemente se lembrado de seu comparecimento 
ao lever e tnhamos sido convidados para um baile em Versalhes.
        - Vou precisar da ateno dos homens de dinheiro - Jamie dissera, fazendo planos comigo anteriormente. - E como eu mesmo no tenho uma posio notvel nem 
poder, vamos ter que conseguir isso fazendo com que busquem minha companhia. - Deu um suspiro, olhando para mim, decididamente, sem nenhum glamour em minha camisola 
de l.
        - E receio que em Paris isso signifique que vamos ter que freqentar um pouco a sociedade; aparecer na corte, se conseguirmos. Vo saber que sou escocs; 
ser natural para as pessoas me perguntarem sobre o prncipe Carlos e se a Esccia est esperando com ansiedade a volta dos Stuart. Ento, poderei assegurar-lhes 
discretamente que a maioria dos escoceses pagaria um bom dinheiro para no ter os Stuart de volta, embora a contra-gosto.
        - Sim,  melhor ser discreto - concordei. - Ou o prncipe Carlos pode soltar os cachorros em cima de voc da prxima vez que for visit-lo. - De acordo com 
o seu plano de se manter bem-informado das atividades de Carlos, Jamie fazia visitas semanais obrigatrias  pequena casa em Montmartre.
        Jamie sorriu brevemente.
        - Sim. Bem, no que diz respeito a Sua Alteza, e aos partidrios jacobitas, sou um leal simpatizante da causa Stuart. E como Carlos Stuart no  recebido 
na corte e eu sou, as probabilidades de ele descobrir o que estou dizendo l no so grandes. Os jacobitas em Paris mantm-se, de um modo geral, reservados. Para 
comear, no tm o dinheiro necessrio para freqentar os crculos da moda. Mas ns temos, graas a Jared.
        Jared concordara - por razes inteiramente diversas - com a proposta de Jamie de ampliarmos o seu crculo de relacionamentos de negcios, de modo que a nobreza 
francesa e os chefes das ricas famlias de banqueiros passassem a freqentar a casa. Nas reunies sociais, seriam aliciados e seduzidos com vinho do Reno, boa conversa, 
bom entretenimento e grandes quantidades do bom usque escocs que Murtagh passara as duas ltimas semanas transportando pelo Canal e acompanhando por terra at 
nossas adegas.
        -  o entretenimento de um tipo ou de outro que os atrai, sabe - Jamie dissera, esboando planos no verso de um poema impresso, descrevendo o caso escandaloso 
entre o conde de Svigny e a mulher do ministro da Agricultura. - Tudo com que a nobreza se preocupa so as aparncias. Assim, para comear, precisamos oferecer-lhes 
alguma coisa interessante para admirarem.
        A julgar pelo olhar estupefato em seu rosto, eu comeara bem. Deslizei elegantemente pela sala, fazendo a imensa sobre-saia balanar-se como um sino.
        - Nada mau, hein? - perguntei. - Muito vistoso, de qualquer modo.
        Ele recuperou a voz finalmente.
        - Vistoso? - grasnou. - Vistoso? Meu Deus, posso ver cada centmetro seu, at a terceira costela!
        Olhei para meu colo.
        - No, no pode. No sou eu sob a renda,  um forro de chameuse branco.
        - Ah, bom, parece voc! - Aproximou-se, inclinando-se para inspecionar o corpete do vestido. Olhou entre meus seios.
        - Cristo, posso ver at o seu umbigo! Certamente voc no pretende sair em pblico assim!
        - Irritei-me um pouco com o comentrio. Eu mesma estava me sentindo meio nervosa com a transparncia geral do vestido, apesar dos esboos que a costureira 
havia me mostrado. Mas a reao de Jamie me colocou numa atitude de defesa e, portanto, rebelde.
        - Foi voc quem me disse para chamar ateno - lembrei-o. - E isso no  absolutamente nada, comparado  madame de Prignon e  duquesa de Rouen. - Coloquei 
as mos na cintura e inspecionei-o friamente. Ou vai querer que eu aparea na corte no meu vestido de veludo verde?
        Jamie desviou os olhos do meu dcolletage e cerrou os lbios.
        - Muhm - resmungou, com um ar escocs genuno.
        Tentando ser conciliatria, aproximei-me e coloquei a mo em seu brao.
        - Vamos, Jamie - eu disse. - Voc j esteve na corte antes; com certeza sabe como as mulheres se vestem. Sabe que no est terrivelmente exagerado para aqueles 
padres.
        Abaixou os olhos para mim e sorriu, um pouco envergonhado.
        - Sim,  verdade.  que... bem, voc  minha mulher, Sassenach. No quero outros homens olhando para voc da maneira como eu olhei para aquelas senhoras.
        Eu ri e passei os braos ao redor de seu pescoo, puxando-o para me beijar. Ele me segurou pela cintura, os polegares inconscientemente acariciando a maciez 
da seda vermelha onde ela revestia meu torso. Suas mos subiram, deslizando pelo tecido escorregadio, at a minha nuca. A outra mo agarrou meu seio redondo e macio, 
saltando do arrocho do espartilho, voluptuosamente livres sob uma nica camada de pura seda. Soltoume por fim e empertigou-se, sacudindo a cabea, em dvida.
        - Imagino que tenha que usar isso, Sassenach, mas pelo amor de Deus tenha cuidado.
        - Cuidado? com o qu?
        Sua boca contorceu-se num sorriso pesaroso.
        - Por Deus, mulher, voc no tem noo de sua aparncia neste vestido? Me d vontade de cometer estupro agora mesmo. E esses malditos comedores de r no 
tm o meu comedimento. - Franziu de leve a testa. Voc podia... cobrir um pouco a em cima? - Abanou vagamente a enorme mo na direo do seu prprio jab de renda, 
preso com um alfinete de rubi. - Um babado... ou algo assim? Um leno?
        - Os homens no tm a menor noo de moda. Mas no se preocupe. A costureira disse que  para isso que serve o leque. - com um rpido piparote, abri o leque 
enfeitado de rendas, que combinava com o vestido, um gesto que exigira quinze minutos de prtica para aperfeioar, e abanei-o sedutoramente sobre o peito.
        Jamie piscou pensativamente diante daquela performance, depois virou-se para pegar meu manto do armrio.
        - Me faa um nico favor, Sassenach - ele disse, cobrindo meus ombros com o pesado manto de veludo. - Arranje um leque maior.
        No aspecto de atrair a ateno, o vestido foi um sucesso absoluto. Quanto aos efeitos sobre a presso sangnea de Jamie, foi mais discutvel.
        Ele ficou pairando de modo protetor junto ao meu cotovelo, olhando ferozmente para qualquer homem que lanasse um olhar em minha direo, at que Annalise 
de Marillac, avistando-nos do outro lado do salo, veio flutuando em nossa direo, as feies delicadas emoldurando um sorriso de boas-vindas. Senti o sorriso no 
meu prprio rosto se congelar. Annalise de Marillac era uma "conhecida" - segundo ele - de Jamie, do tempo em que ele morou em Paris. Ela tambm era bonita, charmosa 
e primorosamente mida.
        - Mon petit sauvage! - disse, cumprimentando Jamie. - Tenho algum que voc precisa conhecer. Vrios "alguns", na verdade. - Inclinou a cabea como uma 
boneca de porcelana na direo de um grupo de homens, reunidos em torno de um tabuleiro de xadrez em um canto do salo, discutindo calorosamente sobre alguma coisa. 
Reconheci o duque d'Orleans e Grard Gobelin, um proeminente banqueiro. Portanto, um grupo muito influente.
        - Venha jogar xadrez com eles - Annalise insistiu, pousando a mo de mariposa no brao de Jamie. - Ser um bom lugar para Sua Majestade encontr-lo mais 
tarde.
        A presena do rei era esperada depois do jantar a que havia comparecido, dentro de uma ou duas hora"s. Nesse nterim, os convidados vagavam de um lado para 
o outro, conversando, admirando os quadros nas paredes, flertando por trs dos leques, consumindo balas e bombons, pequenas tortas de frutas e vinho, e desaparecendo 
a intervalos mais ou menos discretos em uma ou outra alcova pequena e fechada com cortinas. Esses pequenos compartimentos ficavam astuciosamente encaixados nos painis 
de lambris dos sales, de tal forma que quase passavam despercebidos, a menos que voc se aproximasse o suficiente para ouvir os rudos que vinham l de dentro.
        Jamie hesitou, e Annalise puxou-o com mais firmeza.
        - Venha - insistiu. - No precisa temer por sua mulher. - Lanou um olhar de aprovao ao meu vestido. - Ela no vai ficar muito tempo sozinha-
        -  isso que eu temo - Jamie balbuciou num sussurro. - Est bem, ento, s um momento. - Desvencilhou-se momentaneamente da mo de Annalise e inclinou-se 
para sussurrar ao meu ouvido.
        - Se eu a encontrar numa dessas alcovas, Sassenach, o homem que estiver com voc est morto. E quanto a voc... - Suas mos contorceram-se inconscientemente 
na direo do cinto de sua espada.
        - Ah, no, no vai no - eu disse. - Voc jurou sobre sua adaga que nunca mais me bateria outra vez. A adaga sagrada no est valendo mais nada?
        Um sorriso relutante repuxou sua boca.
        - No, novou bater em voc, embora bem que gostaria.
        - timo. O que pretende fazer ento? - perguntei, provocando-o.
        - Pensarei em alguma coisa - respondeu, com uma certa crueldade. - No sei o qu, mas voc no vai gostar.
        E com um ltimo olhar penetrante ao redor e um aperto de proprietrio no meu ombro, deixou que Annalise o levasse dali, como um pequeno mas entusistico 
rebocador puxando uma barca relutante.
        Annalise tinha razo. No mais desencorajados pela presena ostensiva de Jamie, os cavalheiros da corte caram sobre mim como um bando de papagaios sobre 
um maracuj maduro.
        Minha mo foi beijada inmeras vezes e demoradamente retida, dezenas de cumprimentos floreados foram feitos e taas de vinho condimentado me foram trazidas 
numa procisso infindvel. Aps meia hora de atenes, meus ps comearam a doer. Assim como meu rosto, de tanto sorrir. E minha mo, de tanto abanar o leque.
        Tive que admitir uma certa gratido a Jamie pela intransigncia na questo do leque. Cedendo s suas susceptibilidades, levara comigo o maior leque que eu 
possua, uma coisa enorme, de uns trinta centmetros, pintado com o que pretendia ser uma cena de veados escoceses saltando pelo urzal. Jamie criticara o artista, 
mas aprovara o tamanho. Graciosamente abanando o leque, tentando afastar as atenes de um ardoroso jovem vestido de prpura, abri o leque discretamente sob meu 
queixo para desviar farelos enquanto comia uma torrada com salmo.
        E no apenas farelos de torrada. Enquanto Jamie, de seu lugar privilegiado trinta centmetros acima de mim, alegara ser capaz de ver meu umbigo, este estava 
a salvo do escrutnio dos cortesos franceses, a maioria dos quais era mais baixa do que eu. Por outro lado...
        Eu sempre gostara de aconchegar-me no peito de Jamie, meu nariz encaixando-se confortavelmente na pequena cavidade no centro. Alguns dos indivduos mais 
baixos e mais ousados entre meus admiradores pareciam inclinados a desfrutar experincia semelhante. Tais atenes me mantinham ocupada, abanando o leque com fora 
suficiente para lanar seus cachos para trs, descobrindo-lhes os rostos. Se isso no bastasse para desencoraj-los, eu fechava o leque com um estalo e batia-o vigorosamente 
em suas cabeas.
        Foi um alvio considervel ouvir o criado de libr parado  porta repentinamente empertigar-se e entoar:
        - S Majest, l ri Louis!
        Embora o rei possa acordar com o nascer do sol, aparentemente ele desabrochava  noite. No muito mais alto do que o meu um metro e setenta, Lus chegou 
com a postura de um homem bem maior, olhando para a direita e para a esquerda, balanando a cabea em elegante reconhecimento de seus sditos curvados em mesuras 
para cumpriment-lo.
        Esse, pensei, examinando-o de cima a baixo, estava muito mais de acordo com minhas idias de como um rei deveria ser. No particularmente atraente, agia 
como se o fosse; uma impresso intensificada no s pela suntuosidade de suas roupas, mas pela atitude dos que o cercavam. Usava a peruca penteada para trs como 
ditava a ltima moda e seu casaco era de veludo, bordado em toda a extenso com centenas de frvolas borboletas de seda. Era cortado na cintura, expondo um colete 
de luxuosa seda de cor creme com botes de diamantes, combinando com as grandes fivelas em forma de borboleta em seus sapatos.
        Os olhos escuros e velados varriam a multido incansavelmente e o arrogante nariz Bourbon empinava-se como se quisesse detectar algum item de interesse.
        Vestido de kilt e xale de tart, mas com um casaco e colete de seda amarela reforada, e com seus cabelos flamejantes soltos at os ombros, uma nica trana 
pequena de um lado, de acordo com antigo costume escocs, Jamie definitivamente se qualificava. Ao menos, achei que tinha sido Jamie quem atrara a atenodo rei, 
quando l ris Louis deu uma guinada de forma resoluta e veio em nossa direo, apartando a multido diante dele como as ondas do mar Vermelho. Madame Nesle de La 
Tourelle, que reconheci de uma festa anterior, seguia-o de perto como um pequeno barco na esteira de um navio.
        Eu havia me esquecido do vestido vermelho; Sua Majestade parou diretamente  minha frente e fez uma mesura exagerada, a mo sobre a cintura.
        - Chre madame! - disse. - Estamos encantados!
        Ouvi Jamie inspirar fundo, em seguida deu um passo  frente e fez uma reverncia para o rei.
        - Permita-me apresentar-lhe minha mulher, Vossa Majestade: a senhora de Broch Tuarach. - Ergueu-se e deu um passo para trs.
        Atrada por um ligeiro meneio da mo de Jamie, olhei para ele por um instante, sem compreender, at perceber repentinamente que ele estava me sinalizando 
para fazer uma reverncia.
        Dobrei o joelho automaticamente, esforando-me para manter os olhos no cho e me perguntando para onde eu deveria olhar quando me erguesse outra vez. Madame 
Nesle de La Tourelle estava parada bem atrs de Lus, observando as apresentaes com um olhar ligeiramente entediado no rosto. Os mexericos diziam que "Nesle" era 
a atual favorita do rei. Ela estava, conforme a moda atual, usando um vestido cortado embaixo de ambos os seios, com um pedacinho de tecido transparente superposto, 
que obviamente s devia estar ali por questes de moda, j que no servia nem para aquecer nem para ocultar nada.
        Entretanto, no foi nem o vestido nem a viso que ele oferecia que me abalaram. Os seios de "Nesle", embora razoavelmente adequados no tamanho, agradveis 
nas propores e encimados por grandes arolas de uma cor marrom-clara, eram adornados com um par de jias de mamilo que fazia os engastes tornarem-se totalmente 
insignificantes. Um par de cisnes encravados de diamantes com olhos de rubi esticava seus pescoos um em direo ao outro, oscilando precariamente em seus poleiros 
de ouro na forma de um galho arqueado. O trabalho artstico era esplndido e o material impressionante, mas o que me fez sentir um pouco tonta foi o fato de que 
cada prendedor da jia, o poleiro de ouro, na realidade atravessava o mamilo. Na verdade, os mamilos estavam seriamente invertidos, mas o fato era disfarado pela 
enorme prola que cobria cada um, penduradas em uma fina corrente de ouro que formava uma ala de um lado ao outro do galho arqueado.
        Ergui-me, ruborizada e tossindo, e consegui pedir licena, segurando educadamente um leno junto  boca enquanto recuava. Senti uma presena s minhas costas 
e parei exatamente a tempo de evitar uma coliso comjamie, que observava a amante do rei sem nenhuma preocupao de fingir educadamente que no tinha notado.
        - Ela disse a Marie d'Arbanville que mestre Raymond foi quem fez a perfurao dos mamilos para ela - observei, num sussurro. Seu olhar fascinado no se desviou.
        - Devo marcar uma hora com ele? - perguntei. - Imagino que ele faria isso para mim se eu lhe desse a receita do tnico de cominho.
        Jamie olhou para mim finalmente. Segurando-me pelo cotovelo, conduziu-me a uma das alcovas de descanso.
        - Se voc sequer falar com mestre Raymond outra vez - disse, pelo canto da boca -, eu os perfurarei para voc eu mesmo, com os dentes.
        A essa altura, o rei j havia se dirigido ao Salo de Apoio, o espao vazio deixado por sua passagem foi logo preenchido por outras pessoas vindas da sala 
de jantar. Vendo Jamie absorvido numa conversa com monsieur Genet, patriarca de uma rica famlia de armadores, olhei furtvamente ao redor,  procura de um lugar 
onde pudesse tirar meus sapatos por alguns instantes.
        Uma das alcovas estava perto e, pela ausncia de sons, desocupada.) Despachei um insistente admirador com um pedido de um pouco mais de vinho e, em seguida, 
com um rpido olhar  minha volta, deslizei para dentro da alcova.
        Era mobiliada sugestivamente com um sof, uma mesinha e duas cadeiras mais adequadas para servir de suporte a peas de vesturio do que para servir de assento, 
pensei com ar crtico. Sentei-me ainda assim, arranquei os sapatos e coloquei os ps sobre a outra cadeira.
        Um leve tinir das argolas da cortina atrs de mim anunciou o fato de que minha partida, afinal de contas, no passara despercebida.
        - Madame! Finalmente estamos a ss!
        - Sim, infelizmente - eu disse, suspirando. Era um dos incontveis) condes, pensei. Ou no, este era um visconde; algum o apresentara a mim antes como o 
visconde de Rambeau. Um dos baixinhos. Lembrei-me de seus olhinhos como duas contas brilhantes erguidos para mim extasiados de um ponto abaixo do leque.
        Sem perder tempo, deslizou habilmente para a outra cadeira, levantando meus ps e colocando-os no colo. Agarrou ardentemente meus dedos revestidos de meias 
de seda contra a sua forquilha.
        - Ah, ma petite! Quanta delicadeza! Sua beleza me deixa perturbado! Achei que devia mesmo, se ele estava sob a iluso de que meus ps eram particularmente 
delicados. Erguendo um deles aos lbios, mordiscou meus dedos.
        - C'est un cochon qui vit dans Ia ville, c'est un cochon qui vit... Arranquei meu p de suas mos e levantei-me apressadamente, um pouco atrapalhada com 
minhas anguas volumosas.
        - Por falar em cochons que moram na cidade - eu disse, um pouco nervosa -, acho que meu marido no ficaria nem um pouco satisfeito de encontr-lo aqui.
        - Seu marido? Pah! - Descartou Jamie com um leve abano da mo. -, Ele vai estar ocupado por algum tempo, tenho certeza. E enquanto o gato est fora... venha 
para mim, ma petite souris; deixe-me ouvi-la guinchar, minha ratinha.
        Provavelmente pretendendo se fortalecer para a refrega, o visconde tirou uma caixa de rap esmaltada do bolso, salpicou com destreza uma linha de gros escuros 
ao longo das costas da mo e limpou-a delicadamente nas narinas.
        Respirou fundo, os olhos brilhando de expectativa, depois virou de modo brusco a cabea quando a cortina foi subitamente afastada com um chacoalhar de argolas 
de metal. com a ateno desviada pela intruso, o visconde espirrou direto no meu colo com considervel vigor.
        Dei um berro.
        - Seu nojento - eu disse e atingi-o em cheio no rosto com meu leque fechado.
        O visconde cambaleou para trs, os olhos lacrimejando. Tropeou nos meus sapatos tamanho trinta e nove que estavam no cho e caiu de cabea nos braos de 
Jamie, parado na entrada.
        - Bem, voc realmente conseguiu atrair uma certa dose de ateno - eu disse finalmente.
        - Bah - ele disse. - O filho-da-me teve sorte de eu no ter arrancado sua cabea e o obrigado a engolir.
        - Bem, teria sido um espetculo interessante - concordei secamente. - Mas afund-lo na fonte teve quase o mesmo efeito.
        Ele ergueu os olhos, o ar carrancudo substitudo por um riso relutante.
        - Sim, bem. Afinal, eu no afoguei o sujeito.
        - Tenho certeza de que o visconde apreciou seu comedimento. Bufou outra vez. Estava de p no meio de uma sala de estar, parte de um pequeno appartement no 
palcio, para o qual o rei, depois que parou de rir, nos enviara, insistindo que no deveramos empreender a viagem de volta a Paris nesta noite.
        - Afinal, mon chevalier - ele dissera, examinando a figura enorme, escorrendo gua, no terrao -, ficaramos extremamente aborrecidos se voc pegasse um 
resfriado. Tenho certeza de que, nesse caso, a corte seria privada de um bocado de divertimento e madame jamais me perdoaria. No , querida? - Ele estendeu o brao 
e beliscou madame de La Tourelle de brincadeira em um dos mamilos.
        Sua amante pareceu ligeiramente aborrecida, mas sorriu obedientemente. Notei, entretanto, que assim que a ateno do rei se desviou, foi em Jamie que seu 
olhar se demorou. Bem, ele era impressionante, eu tinha que admitir, parado ali, escorrendo gua  luz de tochas, com as roupas coladas ao corpo. Isso no queria 
dizer que eu gostasse do que ela estava fazendo.
        Ele tirou a camisa molhada e jogou-a numa pilha de roupas encharcadas. Era ainda mais impressionante sem ela.
        - Quanto a voc - ele disse, olhando-me de maneira sinistra. - Eu no lhe disse para ficar longe daquelas alcovas?
        - Sim. Mas fora isso, sr. Lincoln, o que achou da pea? - perguntei educadamente.
        - O qu? - Fitou-me como se eu tivesse acabado de perder a sanidade.
        - Deixe pra l; est um pouco fora de seu quadro de referncia. Eu s quis dizer: encontrou algum til antes de ir defender seus direitos conjugais?
        Ele esfregou vigorosamente os cabelos com uma toalha retirada do lavatrio.
        - Ah, sim. Joguei xadrez com monsieur Duverney. E ainda o derrotei e o deixei furioso.
        - Ah, parece promissor. E quem  monsieur Duverney? Atirou-me a toalha, rindo.
        - O ministro das Finanas francs, Sassenach.
        - Ah. E voc est satisfeito porque o deixou com raiva?
        - Ele ficou com raiva de si mesmo por perder, Sassenach - Jamie explicou. - Agora ele no vai descansar enquanto no me derrotar. Vai nos visitar no domingo 
para jogarmos outra vez.
        - Ah, muito bem! - eu disse. - E no processo, voc pode assegurar-lhe que as perspectivas dos Stuart so extremamente dbeis e convenc-lo de que Lus no 
quer ajud-los financeiramente, parente ou no.
        Balanou a cabea confirmando e penteou os cabelos midos para trs com as duas mos. O fogo ainda no fora aceso e ele estremeceu ligeiramente.
        - Onde aprendeu a jogar xadrez? - perguntei, curiosa. - No sabia que voc jogava xadrez.
        - Colum MacKenzie me ensinou - ele disse. - Quando eu tinha dezesseis anos e passei um ano no Castelo Leoch. Tive tutores de francs e alemo, matemtica 
e outras matrias, mas eu ia ao quarto de Colum toda noite jogar xadrez por uma hora. No que ele em geral precisasse de uma hora para me derrotar - acrescentou 
com ar pesaroso.
        - No  de admirar que jogue bem - eu disse. Colum, o tio de Jamie, vtima de uma enfermidade deformadora que o privava de quase toda a sua mobilidade, compensava 
esse fato com uma mente que teria deixado Maquiavel com vergonha.
        Jamie levantou-se e desabotoou o cinto de sua espada, estreitando os olhos para mim.
        - No pense que eu no sei o que voc est pretendendo, Sassenach. Mudando de assunto e me lisonjeando como uma cortes. Eu no lhe falei a respeito das 
alcovas?
        - Voc disse que no pretendia me bater - lembrei-o, sentando um pouco mais para dentro da poltrona, s por segurana.
        Ele bufou outra vez, atirando o cinto sobre a cmoda e deixando o kilt cair junto  camisa encharcada.
        - Eu pareo o tipo de homem que bateria numa mulher grvida? perguntou.
        Olhei-o em dvida. Completamente despido, com os cabelos em cachos ruivos e midos e as cicatrizes brancas ainda visveis em seu corpo, ele parecia ter acabado 
de saltar de um navio viking, pensando em saque e estupro.
        - Na verdade, voc parece capaz de qualquer coisa - disse-lhe. - Quanto s alcovas, sim, voc me avisou. Acho que deveria ter ido l fora para tirar meus 
sapatos, mas como eu ia saber que o idiota iria me seguir e comear a morder meus dedos? E se no pretende me bater, o que exatamente tinha em mente? - Segurei com 
fora os braos da cadeira.
        Ele deitou na cama e riu para mim.
        - Tire seu vestido de prostituta, Sassenach, e venha para a cama.
        - Por qu?
        - Bem, eu no posso espanc-la nem jog-la na fonte. - Deu de ombros. - Pretendia fazer um terrvel sermo, mas no acho que vou conseguir manter os olhos 
abertos por tanto tempo. - Bocejou magnificamente, depois pestanejou e riu de novo para mim. - Lembre-me de fazer isso de manh, est bem?
        - Est melhor agora? - Os olhos azul-escuros de Jamie estavam turvos de preocupao. - Est certo voc ficar assim to enjoada, Sassenach?
        Afastei os cabelos das minhas tmporas molhadas de suor e delicadamente passei uma toalha mida pelo rosto.
        - Eu no sei se est certo - disse fracamente -, mas ao menos acho que  normal. Algumas mulheres enjoam durante toda a gravidez. - No era um pensamento 
agradvel no momento.
        Jamie olhou no para o relgio festivamente pintado que havia sobre a mesa, mas para fora da janela, para o sol, como de costume.
        - Sente-se bastante bem para descer para o desjejum, Sassenach, ou devo dizer  camareira para trazer alguma coisa numa bandeja?
        - No. Estou muito bem agora. - E estava.  estranha maneira do enjo matinal, assim que a inexorvel nusea tenha conseguido realizar seu objetivo, eu me 
sentia perfeitamente bem em questo de minutos. - Deixe-me apenas lavar a boca.
        Quando me inclinei sobre a bacia, a gua fria escorrendo pelo meu rosto, ouviu-se uma batida na porta do appartement. Provavelmente o criado que fora despachado 
 casa em Paris para trazer roupas limpas, imaginei.
        Para minha surpresa, entretanto, era um corteso, com um convite escrito para o almoo.
        - Sua Majestade almoar hoje com um nobre ingls - explicou o corteso - recm-chegado a Paris. Sua Majestade convocou vrios comerciantes ingleses proeminentes 
da Cite para o almoo, a fim de proporcionar a Sua Excelncia o duque a companhia de alguns compatriotas. E algum observou a Sua Majestade que a madame sua esposa 
 uma dama inglesa tambm e, assim, deveriam ser convidados a comparecer.
        - Muito bem - Jamie disse, depois de lanar um olhar para mim. - Pode dizer a Sua Majestade que ficaremos honrados em permanecer para o almoo.
        Pouco depois, Murtagh chegou, circunspecto como sempre, carregando uma grande trouxa de roupas limpas, bem como minha caixa de remdios, conforme eu havia 
pedido. Jamie encaminhou-o  sala de estar para lhe dar instrues para o dia, enquanto eu apressadamente tentava me enfiar num vestido limpo, pela primeira vez 
lamentando minha recusa em empregar uma criada de quarto. Sempre alvoroados, o estado dos meus cabelos no melhorara depois de dormir bem abraada a um escocs 
grande e mido; os cachos embaraados saltavam em todas as direes, resistindo a qualquer tentativa de dom-los com escova e pente.
        Finalmente, emergi na sala, afogueada e irritada com o esforo, mas com os cabelos com alguma aparncia de estarem penteados. Jamie olhou para mim e murmurou 
qualquer coisa sobre ourios em voz baixa, mas recebeu um olhar fulminante em resposta e teve o bom senso de calar-se.
        Um passeio a p pelos gramados, em meio aos canteiros de flores e fontes dos jardins do palcio, fez muito pela restaurao da minha serenidade. A maioria 
das rvores ainda estava sem folhas, mas o dia estava inesperadamente quente para o final de maro e o cheiro dos brotos despontando nos galhos era penetrante e 
fresco. Era quase possvel sentir a seiva subindo pelas elevadas castanheiras e choupos que ladeavam os caminhos e abrigavam as centenas de esttuas de mrmore branco.
        Parei ao lado de uma esttua de um homem com uma tnica drapeada, uvas nos cabelos e uma flauta nos lbios. Um bode grande, sedoso, mordia vorazmente mais 
uvas que desciam em cascata pelas pregas de mrmore da tnica.
        - Quem ? - perguntei. - Pa?
        Jamie sacudiu a cabea, sorrindo. Ele vestia seu kilt velho e um casaco gasto, embora confortvel, mas parecia-me muito melhor do que os cortesos luxuosamente 
vestidos que passavam por ns em grupos tagarelas.
        - No, acho que existe uma esttua de Pa por a, mas no  essa. Essa  um dos Quatro Humores do Homem.
        - Bem, ele parece bem-humorado - eu disse, erguendo os olhos para o amigo sorridente do bode.
        Jamie riu.
        - E voc sendo uma mdica, Sassenach! No  essa espcie de humor. No conhece os quatro humores que compem o corpo humano? Aquele l  o Sangue - indicou 
um tocador de flauta, depois apontou mais adiante - e aquele  a Melancolia. - Este era um homem alto numa espcie de toga, segurando um livro aberto.
        Jamie apontou para o outro lado do caminho.
        - L est a Clera. - Um jovem nu e musculoso, que sem dvida tinha o cenho ferozmente carregado, sem tomar conhecimento do leo de mrmore que estava prestes 
a mord-lo na perna. - E aquela  a Fleuma.
        -  mesmo? - Fleuma, um cavalheiro barbado, com um chapu dobrado, tinha os braos cruzados sobre o peito e uma tartaruga aos ps.
        - Hum - observei.
        - Os mdicos no aprendem sobre os humores na sua poca? - Jamie perguntou, curioso.
        - No - respondi. - Em vez disso, temos os germes.
        - Verdade? Germes - disse consigo mesmo, experimentando a palavra, fazendo-a girar em sua boca com um sotaque escocs, o que a fazia parecer extremamente 
sinistra. - Gerrrmes. E como so os germes?
        Ergui os olhos para uma representao da Amrica, uma jovem donzela casadoura, trajando saia e touca emplumadas, com um crocodilo aos ps.
        - Bem, no dariam nem de longe esttuas to pitorescas - eu disse.
        O crocodilo aos ps da Amrica me fez lembrar da loja de mestre Raymond.
        - Falava a srio quando disse que no queria que eu fosse  loja do mestre Raymond? - perguntei. - Ou apenas no quer que eu perfure os mamilos?
        - Definitivamente no quero que voc perfure os mamilos - ele disse com firmeza, segurando-me pelo cotovelo e conduzindo-me apressadamente em frente, com 
receio de que eu pudesse extrair alguma desagradvel idia dos seios despidos da Amrica. - Mas tambm no quero que v a loja do mestre Raymond. H boatos sobre 
o sujeito.
        - H boatos sobre todo mundo em Paris - observei -, e eu poderia apostar que mestre Raymond conhece todos eles.
        Jamie fez um sinal afirmativo com a cabea, os cabelos brilhando na Plida luz de primavera.
        - Ah, sim, imagino que sim. Mas acho que posso ficar sabendo o que for til nas tavernas e salas de estar. Dizem que mestre Raymond est no Centro de um 
determinado crculo, mas no  de simpatizantes jacobitas.
        -  mesmo? Quem, ento?
        - Cabalistas e ocultistas. Bruxos, talvez.
        - Jamie, voc no se preocupa seriamente com bruxas e demnios, no ?
        Havamos chegado  parte do jardim conhecida como "Tapete Verde". No comeo da primavera, o verde do imenso gramado no passava de um tom desmaiado, mas 
as pessoas reclinavam-se na grama ou moviam-se sem pressa, aproveitando o raro dia de tempo agradvel.
        - Bruxos, no - ele disse finalmente, encontrando um lugar perto de uma sebe de forstea e sentando-se na grama. - O conde St. Germain, talvez.
        Lembrei-me da expresso dos olhos escuros do conde St. Germain em L Havre e estremeci, apesar do sol e do xale de l que eu usava.
        - Acha que ele est associado a mestre Raymond? Jamie encolheu os ombros.
        - No sei. Mas foi voc quem me contou os rumores sobre St. Germain, no foi? E se o mestre Raymond fizer parte desse crculo, ento acho que voc deve ficar 
bem longe dele, Sassenach. - Lanou-me um sorriso enviesado. - Afinal, prefiro no ter que salv-la da fogueira outra vez.
        As sombras sob as rvores me fizeram lembrar da escurido fria do buraco dos ladres em Cranesmuir. Estremeci e aproximei-me mais de Jamie, saindo para a 
luz do sol.
        - Tambm prefiro.
        Os pombos cortejavam na grama sob um arbusto de forstea florescente. As damas e os cavalheiros da corte desenvolviam atividades semelhantes nos caminhos 
que atravessavam os jardins de esculturas. A diferena principal  que os pombos eram mais discretos.
        Uma apario em seda na cor pastel verde-gua surgiu  retaguarda do nosso local de repouso, em espalhafatosas exclamaes sobre o carter divino da pea 
teatral da noite anterior. As trs damas que acompanhavam cavalheiro, embora no com tanto exagero, repetiam suas opinies enfaticamente.
        - Magnfica! Absolutamente magnfica, a voz de La Couelle!
        - Ah, magnfica! Sim, excelente.
        - Maravilhosa, maravilhosa! Magnfica  a nica palavra para descrev-la!
        - Ah, sim, magnfica!
        As vozes - dos quatro - eram estridentes como pregos sendo arrancados da madeira. Em contraste, o pombo fazendo sua parte a alguns metros de meu nariz tinha 
um arrulho baixo e doce, elevando-se de um rumor apaixonado, profundo, a um assobio de ar escapando, enquanto estufava o peito e fazia repetidas reverncias, colocando 
seu corao aos ps de sua amada, que at ento no parecia muito interessada.
        Olhei alm do pombo, para o corteso acetinado em verde-gua, que voltara correndo para resgatar um leno enfeitado de renda, timidamente deixado cair como 
isca por uma de suas companheiras.
        - As mulheres chamam este tipo de "UAndouille" - observei. - Por que ser?
        Jamie resmungou sonolentamente e eu abri um olho para seguir o corteso que se afastava.
        - Hum? Ah, "A Salsicha". Significa que ele no consegue manter seu "Roger" nas calas. Voc conhece o tipo... mulheres, lacaios, cortesos, pajens. Cezinhos 
de estimao tambm, se os boatos forem verdadeiros acrescentou, estreitando os olhos na direo da seda verde-gua que j desaparecera, e de onde uma dama da corte 
agora se aproximava, um feixe de plos brancos e fofos agarrado protetoramente a seus fartos seios. - Imprudente. Eu no arriscaria o meu nem perto de uma dessas 
bolinhas de plo esganiadas.
        - Seu "Roger"? - perguntei, achando graa. - Costumava ouvir chamarem-no de "Peter", de vez em quando. E os ianques, por alguma estranha razo, chamavam 
os seus de "Dick". Uma vez chamei um paciente que estava me importunando de "Clever Dick", querendo dizer "engraadinho", e ele quase rompeu os pontos de tanto rir.
        Jamie tambm riu, espreguiando-se voluptuosamente no quente sol de primavera. Piscou uma ou duas vezes e rolou sobre o corpo, rindo para mim de cabea para 
baixo.
        - Voc causa o mesmo efeito em mim, Sassenach - ele disse. Alisei seus cabelos para trs, retirando-os de sua testa, e beijei-o entre os olhos.
        - Por que os homens lhe do nomes? - perguntei. - "John Thomas", por exemplo. Ou "Roger", tambm. As mulheres no fazem isso.
        - No? - Jamie perguntou, interessado.
        - No, claro que no.  mais fcil eu chamar meu nariz de "Jane". Seu peito subiu e desceu enquanto ele ria. Rolei-me para cima dele, desfrutando seu corpo 
slido sob mim. Pressionei meus quadris sobre ele, mas as camadas de anguas entre ns transformaram o movimento mais em um gesto do que qualquer outra coisa.
        - Bem - disse Jamie, de forma lgica -, o seu no fica subindo e descendo sozinho, afinal, nem vai em frente independentemente de sua prpria vontade. At 
onde eu saiba, pelo menos - ele acrescentou, arqueando uma das sobrancelhas inquisitivamente.
        - No, graas a Deus. Imagino se os franceses chamam o deles de "lerre" - eu disse, olhando para um almofadinha que passava em um moir Verde forrado de 
veludo.
        Jamie explodiu numa gargalhada que espantou os pombos do arbusto de forstea. Saram batendo as asas num farfalhar de indignao, espalhando penugens cinzentas 
em seu rastro. O cozinho branco e felpudo, at ento satisfeito em refestelar-se nos braos de sua dona como uma trouxa de trapos, acordou repentinamente, tomando 
conscincia de suas responsabilidades. Saltou de seu ninho aconchegante como uma bola de pinguepongue e saiu correndo atrs dos pombos, latindo como um louco, sua 
dona gritando da mesma forma atrs dele.
        - No sei, Sassenach - ele disse, recobrando-se o suficiente para enxugar as lgrimas dos olhos. - O nico francs que j ouvi dar um nome a isto chamou 
o seu de "Georges".
        - Georges! - eu repeti, alto o suficiente para atrair a ateno de um pequeno grupo de cortesos que passava por ali. Um deles, um espcime baixo, mas animado, 
vestindo um dramtico cetim listrado de preto e branco, parou junto a ns e fez uma profunda saudao, varrendo o cho aos meus ps com seu chapu. Um dos olhos 
ainda estava fechado do inchao e havia uma marca roxa na ponta do seu nariz, mas seu estilo estava impecvel.
        - A votre service, madame - ele disse.
        Eu poderia ter conseguido se no fosse pelos malditos rouxinis. O salo de jantar estava quente e apinhado de cortesos e espectadores, uma das barbatanas 
da armao do meu vestido se soltara e fincava-se cruelmente sob o rim esquerdo toda vez que eu inspirava e eu estava sofrendo da mais comum de todas as pragas da 
gravidez - a necessidade de urinar a cada intervalo de alguns minutos. Ainda assim, eu poderia ter conseguido. Era, afinal, uma grave violao das boas maneiras 
deixar a mesa antes do rei, embora o almoo fosse um acontecimento informal, em comparao aos jantares convencionais que eram freqentes em Versalhes - ou assim 
haviam me dado a entender. "Informal", entretanto, era um termo relativo.
         verdade, havia apenas trs variedades de picles condimentados, e no oito. E um caldo leve, e no uma sopa grossa. A carne de cervo era apenas assada, 
no servida en brochette, e o peixe, embora saborosamente cozido no vinho, era servido em fils, e no inteiro e montado num mar de musse gelatinosa recheada de 
camaro.
        Entretanto, como se frustrado por tanta simplicidade rstica, um dos chefs nos brindou com um encantador hors-d'oeuvre - um ninho, habilmente construdo 
com tiras finas de massa, ornamentado com raminhos verdadeiros de macieira em flor, na ponta dos quais estavam pousados dois rouxinis, sem pele, assados, recheados 
com ma e canela, depois recobertos com suas penas outra vez. E no ninho estava a famlia inteira de filhotes de rouxinol, minsculos tocos de asas estendidas, 
bem tostadas e crocantes, a peie macia, depenada, besuntada de mel, bicos enegrecidos abertos, mostrando uma parte mnima, quase imperceptvel, do recheio de pasta 
de amndoas l dentro.
        Aps uma volta triunfal pela mesa para exibir o acepipe - ao acompanhamento de murmrios de admirao em redor -, a iguaria foi colocada diante do rei, que 
se voltou de sua conversa com madame de La Tourelle o tempo suficiente para espetar um dos filhotes do passarinho do seu lugar no ninho e atir-lo dentro da boca.
        Croc, croc, croc, continuavam os dentes de Lus. Hipnotizada, eu observava os msculos de sua garganta ondearem-se e senti os fragmentos de pequenos ossos 
deslizarem pelo meu prprio esfago. Dedos morenos estenderam-se para pegar outro filhote.
        Nesse ponto, conclu que provavelmente havia coisas piores do que insultar Sua Majestade deixando a mesa e sa em disparada.
        Erguendo-se dos meus joelhos no meio dos arbustos alguns minutos depois, ouvi um som atrs de mim. Esperando encontrar o olhar de um jardineiro justificavelmente 
irado, virei-me com ar de culpa para depararme com o olhar de um marido irado.
        - Droga, Claire, voc tem que fazer isso o tempo todo? - perguntou.
        - Em uma palavra: sim - eu disse, deixando-me cair, exausta, na borda de um chafariz. Minhas mos estavam midas e eu as passei na minha saia.
        - Acha que eu fiz isso de brincadeira? - Sentia-me zonza e fechei os olhos, tentando recuperar meu equilbrio interno antes de comear a cair para dentro 
da fonte.
        De repente, senti a mo de Jamie na base das minhas costas e eu em parte me apoiei, em parte ca em seus braos, enquanto ele sentava-se ao meu lado e me 
abraava.
        - Ah, meu Deus, Sassenach. Desculpe-me, mo duinne. Voc est bem, Claire?
        Afastei-me o suficiente para erguer os olhos para ele e sorrir.
        - Eu estou bem. S um pouco tonta. - Estendi o brao e tentei desfazer a profunda ruga de preocupao em sua testa. Ele devolveu o sorriso, mas a ruga permaneceu 
l, uma linha fina e vertical entre as curvas espessas e ruivas de suas sobrancelhas. Ele enfiou a mo na gua da fonte e passou-a suavemente em minhas faces. Eu 
devia estar bastante plida.
        - Desculpe-me - acrescentei. - Realmente, Jamie, no pude evitar.
        A mo molhada apertou minha nuca de forma reconfortante, vigorosa e firme. Um borrifo fino de gotculas sado da boca de um golfinho de olhos saltados cobriu 
meus cabelos.
        - Oh, no ligue para o que eu digo, Sassenach. No tive a inteno de repreend-la.  apenas que... - Fez um gesto de impotncia com a mo. ... que eu me 
sinto um idiota de cabea-dura. Vejo voc sofrendo e eu sei que fiz isso a voc e no h nada que eu possa fazer para ajud-la. Ento, eu a culpo por isso e fico 
zangado e rosnando para voc... Por que voc simplesmente no me manda para o inferno, Sassenach? - desabafou.
        Ri at minhas costelas doerem sob o espartilho apertado, apoiando-me em seu brao.
        - V para o inferno, Jamie - eu disse finalmente, enxugando os olhos.
        - V direto para o inferno. No passe pelo incio, no receba duzentos dlares - Continuei, numa referncia  clssica carta do jogo Banco Imobilirio. - 
Pronto. Sente-se melhor agora?
        - Sim, sinto-me - ele disse, a expresso desanuviando-se. - Quando voc comea a falar que nem uma louca, sei que est bem. E voc, Sassenach, sente-se melhor?
        - Sim - respondi, endireitando-me e comeando a observar o ambiente ao meu redor. As terras de Versalhes eram abertas ao pblico e pequenos grupos de comerciantes 
e trabalhadores misturavam-se estranhamente aos fidalgos alegremente coloridos, todos aproveitando o tempo bom.
        De repente, a porta mais prxima que se abria para o terrao escancarou-se, derramando os convidados do rei no jardim numa onda de tagarelice. O xodo do 
almoo aumentara com uma nova comitiva, aparentemente recm-sados de duas grandes carruagens que eu podia ver passando pela borda do jardim em direo aos estbulos 
distantes.
        Era um grande grupo de pessoas, homens e mulheres, sobriamente vestidos em comparao s cores vivas dos cortesos  sua volta. No entanto, foi o som que 
produziam, em vez de sua aparncia, que me chamara a ateno. O francs, falado por vrias pessoas a uma certa distncia, assemelha-se  conversa grasnada de patos 
e gansos, com elementos nasais. O ingls, por outro lado, possui um ritmo mais lento e muito menos subidas e descidas em suas entonaes. Falado a uma certa distncia, 
onde as vozes individuais so impossveis de serem distinguidas, possui a monotonia amistosa e rouca do latido de um co pastor. O efeito geral do xodo em massa 
que no momento vinha em nossa direo era o de um grupo de gansos sendo conduzido ao mercado por um bando de ces.
        O grupo de ingleses chegara, embora um pouco atrasado. Sem dvida, estavam sendo educadamente enxotados para o jardim, enquanto o pessoal da cozinha apressadamente 
preparava outra refeio e arrumava de novo a colossal mesa para eles.
        Passei os olhos pelo grupo, curiosa. O duque de Sandringham eu conhecia,  claro, j o tendo encontrado antes na Esccia, no Castelo Leoch. Sua figura com 
o peito estufado destacava-se facilmente, andando lado a lado com Lus, a peruca moderna inclinada numa ateno educada.
        A maioria das outras pessoas era estranha, embora eu achasse que a elegante dama de meia-idade que acabara de atravessar as portas fosse a duquesa de Claymore, 
que eu ouvira falar que estava sendo esperada. A rainha, normalmente deixada para trs em alguma casa de campo para divertir-se da melhor maneira que pudesse, fora 
trazida s pressas para a ocasio. Conversava com a visitante, o rosto meigo e ansioso afogueado pela empolgao do evento a que no estava acostumada.
        A jovem logo atrs da duquesa me avistou. Vestida com absoluta simplicidade, possua o tipo de beleza que a faria destacar-se em qualquer multido. Era graciosa, 
delicada, mas com uma figura agradavelmente arredondada. Os cabelos escuros, brilhantes, sem talco, e a mais extraordinria pele alva, ruborizada nas faces com um 
tom de rosa profundo e translcido que a fazia parecer exatamente como uma ptala de flor.
        Suas cores me fizeram lembrar de um vestido que tive em minha prpria poca, um vestido leve de algodo estampado com papoulas vermelhas. O pensamento, por 
alguma razo, provocou uma repentina e inesperada onda de lembranas nostlgicas e eu agarrei a borda do banco de mrmore, as plpebras marejadas de lgrimas de 
saudades. Devia ser pelo fato de ouvir o ingls simples e comum, pensei, aps tantos meses entre a cadncia da Esccia e o grasnido da Frana. Os visitantes soavam 
como se eu estivesse de volta ao lar.
        Ento, eu o vi. Pude sentir todo o sangue esvair-se de minha cabea conforme meus olhos traavam, incrdulos, a elegante curva do crnio arrojado, de cabelos 
escuros, entre as perucas empoadas ao redor. Alarmes soaram em minha cabea como sirenes de bombardeio areo, enquanto eu lutava para aceitar e repelir as impresses 
que me assaltavam. Meu subconsciente viu a linha do nariz, pensou "Frank", e virou meu corpo para lanar-me em sua direo e abra-lo. "No  Frank", emitiu o centro 
ligeiramente mais alto, mais racional, do meu crebro, estancando meus movimentos quando eu vi a curva familiar de uma boca, um meio sorriso esboado. "Voc sabe 
que no  Frank", repetiu o centro do meu crebro, fazendo os msculos de minhas pernas paralisarem. Em seguida, a guinada para o pnico, o aperto das mos, o n 
no estmago, conforme os processos mais lentos do pensamento lgico sobrevieram obstinadamente no rastro do instinto e do conhecimento, ao ver a fronte alta e a 
inclinao arrogante da cabea, assegurando-me do impensvel. No podia ser Frank. E Se no era, ento s poderia ser...
        - Jack Randall. - No foi minha voz que ouvi, mas a de Jamie, soando estranhamente calma e distante. com a ateno atrada pelo meu comportamento estranho, 
ele olhara para onde eu estava olhando e vira o que eu acabara de ver.
        Ele no se mexeu. At onde eu podia ver atravs da minha crescente nvoa de pnico, ele nem respirou. Eu estava vagamente consciente de um criado perto de 
mim, espreitando curiosamente para cima, para a figura altaneira de um guerreiro escocs paralisado ao meu lado, silencioso como uma esttua do deus Marte. Mas toda 
a minha preocupao estava voltada para Jamie.
        Ele estava absolutamente imvel. Imvel como um leo quando se torna parte da plancie, o olhar intenso e fixo como o sol que queima a estepe. E eu vi algo 
se mover nas profundezas de seus olhos. A intrigante contrao do felino  espreita, a minscula sacudidela do tufo de plos na ponta da cauda, precursoras da carnificina.
        Sacar armas na presena do rei era morte certa. Murtagh estava no outro lado do jardim, longe demais para ajudar. Mais dois passos trariam a voz de Randall 
ao alcance de nossos ouvidos. Ao alcance da espada. Coloquei a mo no brao de Jamie. Estava rgido como o ao do punho da espada sob sua mo. O sangue rugiu em 
meus tmpanos.
        - Jamie - eu disse. - Jamie! - E desmaiei.
        
10 - UMA DAMA, com LUXURIANTES CABELOS CASTANHOS E CACHEADOS
        
        Aos poucos, vim  tona de uma nvoa amarela e tremeluzente, composta de luz do sol, poeira e lembranas fragmentadas, sentindo-me completamente desorientada.
        Frank estava debruado sobre mim, o rosto consternado de preocupao. Segurava minha mo, exceto que no era ele. A mo que eu segurava era muito maior do 
que a de Frank e meus dedos roavam em plos speros no pulso. As mos de Frank eram lisas e macias como as de uma jovem.
        - Est bem? - A voz era a de Frank, baixa e modulada.
        - Claire! - Esta voz, mais spera e gutural, no era absolutamente de Frank. Nem era uma voz modulada. Era cheia de angstia e medo.
        - Jamie. - Encontrei por fim o nome que combinava com a imagem mental que eu buscava freneticamente. - Jamie! No... - Sentei-me num salto, olhando desesperadamente 
de um para o outro. Estava no meio de um crculo de rostos curiosos, uma roda de duas e trs fileiras de cortesos ao meu redor, olhando-me com uma expresso de 
interesse e cuidado.
        Dois homens estavam ajoelhados no cho de terra a meu lado. Jamie  direita, os olhos arregalados e o rosto plido como as flores de espinheiro acima dele. 
E  minha esquerda...
        - A senhora est bem, madame? - Os olhos claros cor de avel demonstravam apenas uma preocupao respeitosa, as sobrancelhas escuras e bem delineadas inquisitivamente 
arqueadas acima deles. No era Frank,  claro. Nem era Jonathan Randall. Aquele homem era uns dez anos mais novo do que o capito, talvez quase da minha idade, o 
rosto plido e sem rugas de exposio ao tempo. Os lbios possuam as mesmas linhas esculpidas a cinzel, mas no possuam as marcas de crueldade que delineavam a 
boca do capito.
        - Voc... - disse com a voz rouca, inclinando o corpo para longe dele. "Voc ...
        - Alexander Randall, escudeiro, madame - respondeu rapidamente, um gesto em direo  cabea, como se fosse tirar um chapu que no estava usando. - Acho 
que no nos conhecemos, no ? - disse, sem muita certeza.
        - Eu, quero dizer, ha, no, no nos conhecemos - eu disse, deixandome cair de volta nos braos de Jamie. O brao estava firme como uma grade de ferro, mas 
a mo que segurava a minha tremia e eu puxei nossas mos entrelaadas para baixo das pregas da minha saia para esconder o fato.
        - Uma apresentao um tanto informal, sra., ha, no...  lady Broch Tuarach, no ? - A voz alta, sibilante, atraiu minha ateno para algum ponto acima 
e atrs de mim. Deparei-me com o semblante afogueado, querubnico, do duque de Sandringham espreitando com interesse por cima dos ombros do conde de Svigny e do 
duque d'Orleans. Empurrou seu corpo desajeitado pela estreita abertura permitida e estendeu a mo para ajudar-me a levantar. Ainda segurando a minha palma suada 
em sua mo, inclinou a cabea na direo de Alexander Randall, escudeiro, que franzia o cenho, desconcertado.
        - O sr. Randall trabalha para mim como secretrio, lady Broch Tuarach. As Ordens Sagradas so uma vocao nobre, mas infelizmente nobreza de propsitos no 
paga a conta do sapateiro, no , Alex?
        O jovem enrubesceu ligeiramente diante dessa farpa, mas inclinou a cabea cortesmente para mim, aprovando a apresentao de seu empregador. Somente ento 
percebi a vestimenta negra e sbria e o colarinho branco que o identificavam como alguma espcie de sacerdote jnior.
        - Sua Excelncia tem razo, senhora. E assim sendo, devo considerar sua oferta de emprego com a mais profunda gratido. - Um ligeiro endurecimento das linhas 
dos lbios durante esse discurso pareceu indicar que a gratido sentida talvez no fosse to profunda assim, apesar das palavras amveis. Olhei para o duque, deparando-me 
com seus pequenos olhos azuis enrugados contra o sol, a expresso impenetrvel.
        Essa pequena cena dramtica foi interrompida pelas palmas do rei, convocando dois lacaios, que por ordem de Lus, seguraram-me pelos dois braos e obrigaram-me 
a sentar numa liteira, apesar dos meus protestos.
        - Absolutamente, madame - ele disse, descartando tanto meus protestos quanto meus agradecimentos. - V para casa e descanse. No queremos que esteja indisposta 
para o baile amanh, non? - Os grandes olhos castanhos cintilaram para mim quando ergueu minha mo aos seus lbios. Sem tirar os olhos do meu rosto, inclinou-se 
formalmente para Jamie, que se recobrara o suficiente para fazer um educado discurso de agradecimento, e disse: - Eu talvez aceite seus agradecimentos, my ZOITZ, 
na forma de sua permisso para requisitar uma dana  sua adorvel esposa.
        Os lbios de Jamie apertaram-se, mas ele fez uma reverncia e disse:
        - Minha mulher compartilha minha honra com a sua ateno, Vossa Majestade. - Lanou-me um olhar. - Se ela estiver suficientemente bem para comparecer ao 
baile amanh  noite, tenho certeza de que ficar lisonjeada em danar com Vossa Majestade. - Virou-se sem esperar uma licena formal para retirar-se e, com um movimento 
brusco da cabea em direo aos carregadores da liteira, disse: - Para casa.
        Finalmente em casa depois de um percurso quente e aos solavancos pelas ruas que cheiravam a flores e a esgoto a cu aberto, despi meu pesado vestido e sua 
desconfortvel armao, em favor de uma camisola de seda.
        Encontrei Jamie sentado junto  lareira apagada, os olhos cerrados, as mos sobre os joelhos como se estivesse pensando. Estava plido em sua camisa de linho, 
luminescente como um fantasma  sombra do console da lareira.
        - Santa Me de Deus - murmurou, sacudindo a cabea. - Meu Deus, foi por pouco. Estive por um fio de matar aquele homem. J pensou, Claire, se voc no tivesse 
desmaiado? Deus, eu pretendia mat-lo, com todas as minhas foras - extravasou de repente, estremecendo novamente em reao.
        - Venha,  melhor voc colocar os ps para cima - insisti, empurrando um banquinho de madeira pesada e esculpida.
        - No, j estou bem - ele disse, descartando-o com um aceno da mo.
        - Ento... ele  o irmo de Jack Randall?
        - Acho extremamente provvel - respondi secamente. - Afinal, no poderia ser ningum mais.
        - Sabia que ele trabalhava para Sandringham? Sacudi a cabea.
        - Eu no soube... no sei... nada sobre ele alm de seu nome e do fato de que  um padre. F-Frank no estava particularmente interessado nele, j que no 
era um antepassado direto seu. - O leve tremor de minha voz ao pronunciar o nome de Frank me denunciou.
        Jamie colocou o frasco que segurava sobre o consolo e veio em minha direo. Inclinando-se de forma decidida, pegou-me no colo e aconchegou-me junto a seu 
peito. Os aromas dos jardins de Versalhes exalaram-se pungentes e frescos das pregas de sua camisa. Ele beijou minha cabea e voltou-se para a cama.
        - Venha descansar sua cabea, Claire - disse serenamente. - Foi um longo dia para ns dois.
        Tive medo de que o encontro com Alexander Randall desencadeasse os pesadelos de Jamie outra vez. No acontecia com freqncia, mas de vez em quando, eu o 
sentia acordar ao meu lado, o corpo tenso numa batalha repentina. Saa da cama, ento, cambaleante, e passava o resto da noite junto  janela como se ela oferecesse 
uma fuga, recusando qualquer forma de consolo ou interferncia. E pela manh, Jack Randall e os outros demnios das horas de trevas j haviam sido forados para 
dentro de sua caixa, as tbuas pregadas e presas pelas cintas de ao da vontade de Jamie, e tudo voltara ao normal outra vez.
        Mas Jamie adormeceu rapidamente e as tenses do dia j haviam desaparecido de seu rosto, deixando sua expresso serena e desanuviada quando apaguei a vela.
        Era uma bno estar deitada, imvel, com o calor crescendo em torno de meus braos e pernas frios, a mirade de pequenas dores nas costas, no pescoo e 
nos joelhos desaparecendo na suavidade do sono que se aproximava. Mas a minha mente, livre do estado de alerta, repassava mil vezes a cena do lado de fora do palcio 
- a viso rpida de uma cabea de cabelos escuros e testa alta, orelhas bem junto ao crnio e um maxilar bem delineado -, aquele primeiro e fulminante lampejo de 
reconhecimento equivocado, que atingiu meu corao com um golpe de alegria e angstia. Frank, eu pensara. Frank. E foi o rosto de Frank que eu via quando adormeci 
finalmente.
        A sala de aula era uma daquelas caractersticas da Universidade de Londres; teto antigo de vigas e assoalhos modernos, linleo arranhado por ps inquietos. 
Os assentos eram os bancos antigos e lisos; carteiras novas eram reservadas para as aulas de cincia. A histria teria que se contentar com madeira arranhada, de 
sessenta anos; afinal, o assunto j estava determinado e no iria mudar - por que suas acomodaes deveriam?
        - Objetos de arte - dizia a voz de Frank - e objetos de uso. - Seus dedos longos tocaram a borda de um castial de prata e o sol que penetrava pela janela 
cintilou no metal, como se o toque de sua mo fosse eltrico.
        Os objetos, todos emprestados dos acervos do Museu Britnico, estavam alinhados ao longo da beirada da mesa, suficientemente perto para que os alunos na 
primeira fila pudessem ver as minsculas rachaduras no marfim amarelado da caixa francesa de jogos de dama e xadrez e as manchas de tabaco que escureciam as bordas 
do cachimbo branco de cermica. Um frasco de perfume ingls, ornamentado a ouro; um tinteiro folheado a ouro, com a tampa lavrada; uma colher de chifre rachada e 
um pequeno relgio de mrmore encimado por dois cisnes.
        Atrs da fileira de objetos, uma outra fileira, de retratos em miniatura, deitados na mesa, as feies dos retratados obscurecidas pelo reflexo da luz em 
suas superfcies.
        Frank inclinava a cabeleira escura sobre os objetos, absorvido. O sol da tarde captou um errante reflexo avermelhado em seus cabelos. Ele ergueu o cachimbo 
de argila, seguro na palma da mo, como uma casca de ovo.
        - Para alguns perodos da histria - ele disse -, ns temos a prpria histria; o testemunho escrito das pessoas que viviam na poca. Para outros, temos 
apenas os objetos do perodo, mostrando-nos como o homem vivia.
        Levou o cachimbo  boca e fingiu tirar grandes baforadas, as sobrancelhas comicamente erguidas. Ouviram-se risadinhas abafadas na platia e ele sorriu e 
colocou o cachimbo de volta sobre a mesa.
        - A arte e os objetos de arte - fez um gesto abrangente com a mo sobre a cintilante coleo -  o que vemos com mais freqncia, as decoraes da sociedade. 
E por que no? - Escolheu um rapaz de cabelos castanhos e ar inteligente para dirigir-se direto a ele. Um truque familiar aos professores experientes; escolha um 
membro da platia para falar com ele como se estivessem s os dois. Instantes depois, passe para outro. E todos na sala se sentiro o foco de suas observaes.
        - So belos objetos, afinal de contas. - O toque de um dedo fez com que os cisnes do relgio comeassem a girar, os pescoos curvilneos majestosos numa 
procisso dupla. - Dignos de serem preservados. Mas quem iria se dar ao trabalho de guardar uma capa de bule velha e remendada ou um pneu gasto? - Desta vez, dirigia-se 
a uma bela loura de culos, que sorriu e respondeu com uma pequena risada.
        - Entretanto, so os objetos teis, aqueles que no esto registrados em documentos, que so usados, quebrados e jogados fora sem maiores consideraes, 
que contam a voc como vivia o homem comum. As quantidades desses cachimbos, por exemplo, nos dizem algo a respeito da freqncia e dos tipos de tabaco usados nas 
diferentes classes sociais, da alta - um dedo bateu na tampa de uma caixa d rape esmaltada -  baixa. - O dedo prosseguiu para acariciar a haste longa e reta do 
cachimbo com afetuosa familiaridade.
        Agora, uma mulher de meia-idade, rabiscando freneticamente para anotar cada palavra, alheia ao olhar exclusivo sobre ela. As linhas se enrugaram ao lado 
dos olhos sorridentes, castanho-dourados.
        - No precisa anotar tudo, srta. Smith - ele repreendeu-a. - Afinal, a aula  de uma hora, seu lpis no vai durar tanto tempo.
        A mulher enrubesceu e largou o lpis, mas sorriu timidamente em resposta  amistosa expresso de riso no rosto magro e moreno de Frank. Agora ele cativara 
todos eles, aquecidos pela chama do bom humor, a ateno atrada pelos pequenos lampejos de objetos dourados e cintilantes. Agora, eles o seguiriam sem queixa ou 
cansao, ao longo do caminho da lgica, at os bosques cerrados da discusso. uma certa tenso abandonou seu pescoo quando sentiu a ateno dos alunos fixar-se 
nele.
        - A melhor testemunha da histria  o homem, ou mulher - um movimento da cabea na direo da bela loura -, que a viveu, certo? Sorriu e pegou a colher de 
chifre rachada. - Bem, talvez. Afinal, faz parte da natureza humana dourar a plula quando sabe que algum lera o que voc escreveu. As pessoas tendem a se concentrar 
nas coisas que consideram importantes e com freqncia as embelezam um pouco para consumo do pblico.  raro encontrar um Samuel Pepys que registre com igual interesse 
os detalhes de um desfile real e o nmero de vezes que ele  obrigado a usar o urinol todas as noites.
        A risada desta vez foi geral e ele relaxou, apoiando-se informalmente na mesa, gesticulando com a colher.
        - Igualmente, os adorveis objetos, os artefatos artsticos, so em geral os mais preservados. Mas os urinis e as colheres e os baratos cachimbos de argila 
podem nos dizer tanto ou mais a respeito das pessoas que os usaram.
        - E quanto a essas pessoas? Pensamos nos personagens histricos como pessoas diferentes de ns mesmos, s vezes at um pouco mitolgicos. Mas algum jogou 
com isso - o esbelto dedo indicador tocou a caixa de jogos -, uma senhora usou isto - deu um pequeno empurro no frasco de perfume -, aplicando uma pequena quantidade 
de perfume atrs das orelhas, nos pulsos... onde mais as senhoras presentes aplicam perfume? - Erguendo a cabea de repente, ele sorriu para uma jovem loura e robusta 
na primeira fila, que ficou vermelha, abafou uma risadinha e tocou-se discretamente logo acima do V de sua blusa.
        - Ah, sim. Bem ali. Ora, assim tambm a senhora a quem esse objeto pertencia.
        Ainda sorrindo para a jovem, abriu o frasco de perfume e passou-o delicadamente sob o nariz.
        - Qual , professor? Arpge? - No to tmida, essa aluna; cabelos escuros, como os de Frank, com olhos cinza que ostentavam mais do que uma aluso de flerte.
        Ele fechou os olhos e inspirou profundamente, as narinas alargando-se sobre a boca do frasco.
        - No.  UHeure Bleu. Meu preferido.
        Voltou-se novamente para a mesa, os cabelos caindo sobre a testa em concentrao, enquanto sua mo pairava sobre a fileira de retratos em miniatura.
        - Depois, h uma classe especial de objetos: retratos. Um pouco de arte e, ao mesmo tempo, o mximo que podemos ver das prprias pessoas. Mas at onde so 
reais para ns? 
        Ergueu um minsculo retrato oval e virou-o para a turma, lendo a pequena etiqueta colada no verso.
        - Uma dama, pintado por Nathaniel Plimer, assinado com iniciais e datado de 1786, com cabelos castanhos, cacheados, presos no alto da cabea, usando um vestido 
cor-de-rosa e uma blusa com gola de babados, fundo de cu e nuvens.
        Ergue um retrato quadrado que estava ao lado do oval.
        - Um cavalheiro, de Horace Hone, assinado com monograma e datado de 1780, com cabelos empoados presos num rabicho, usando casaco marrom, colete azul, jab 
de tecido fino e uma insgnia de membro de uma ordem, provavelmente a Honorvel Ordem de Bach.
        A miniatura mostrava um homem de rosto redondo, a boca rosada fechada na pose formal dos retratos do sculo XVIII.
        - Os artistas ns conhecemos - ele disse, recolocando o retrato sobre a mesa. - Assinaram seus trabalhos ou deixaram pistas de sua identidade nas tcnicas 
e nos temas que usaram. Os estranhos penteados, as roupas esquisitas... no parecem pessoas que conheceramos, no ? E a maneira como tantos artistas as pintaram, 
os rostos so todos iguais: rechonchudos e plidos, a maioria, e no h muito mais que se possa dizer a respeito deles. Aqui e ali, um se destaca...
        Estendendo a mo sobre a fileira, selecionou outro retrato oval.
        - Um cavalheiro...
        Ergueu a miniatura e os olhos azuis de Jamie chisparam sob a fulgurante cabeleira cor de palha, desta vez penteados, presos numa trana amarrada com uma 
fita, um penteado formal a que ele no estava acostumado. O nariz cinzelado era ousado acima da renda de seu colarinho e a boca larga parecia prestes a falar, ligeiramente 
curva num dos cantos.
        - Mas eram pessoas reais - insistiu a voz de Frank. - Faziam praticamente as mesmas coisas que vocs fazem, exceto por alguns detalhes menores como ir ao 
cinema ou dirigir um carro pela estrada. - Ouviram-se alguns "ss contidos entre os alunos. - Mas preocupavam-se com seus filhos, amavam seus maridos ou esposas... 
bem, s vezes eles... - Mais risadas.
        - Uma dama - disse em voz baixa, segurando o ltimo retrato na Palma da mo, encobrindo-o para o momento de apresent-lo. - De cabelos castanhos, luxuriosamente 
cacheados at os ombros, e um colar de Prolas. Sem data. Artista desconhecido.
        Era um espelho, no uma miniatura. Minhas faces estavam afogueadas e meus lbios tremiam quando o dedo de Frank delicadamente traou a linha do meu queixo, 
a linha graciosa do meu pescoo. As lgrimas assolaram aos meus olhos e escorreram pelo meu rosto quando ouvi sua voz. ainda lecionando, quando ele colocou a miniatura 
de volta sobre a mesa e eu fiquei olhando para cima, para o teto de vigas de madeira.
        - Sem data. Desconhecida. Mas um dia... um dia ela foi real. Sentia dificuldade de respirar e pensei, a princpio, que estava senda esmagada pelo vidro sobre 
a miniatura. Mas o material que pressionava meu nariz era macio e mido e eu virei a cabea e acordei, sentindo o travesseiro forrado de linho molhado de lgrimas 
sob meu rosto. A mo de Jamie era grande e quente em meu ombro, sacudindo-me delicadamente.
        - Calma, menina. Calma! Voc s est sonhando. Eu estou aqui. Aconcheguei o rosto no calor de seu ombro nu, sentindo as lgrimas deslizarem entre minha face 
e sua pele. Agarrei-me com fora  sua solidez e os sons da madrugada da casa de Paris vieram lentamente aos meus ouvidos, trazendo-me de volta  minha vida.
        - Desculpe-me - murmurei. - Eu estava sonhando com... com... Deu uns tapinhas nas minhas costas e enfiou a mo debaixo do travesseiro em busca de um leno.
        - Eu sei. Voc estava chamando o nome dele. - Parecia resignado. Deitei a cabea novamente em seu ombro. Senti um cheiro quente e aconchegante, seu prprio 
cheiro sonolento misturado  fragrncia de lenis limpos de linho e colchas de penas de ganso.
        - Desculpe-me - repeti.
        Ele soltou a respirao com fora, no propriamente uma risada.
        - Bem, novou dizer que no estou doente de cimes do sujeito disse melancolicamente -, porque estou. Mas certamente no posso culplo pelos seus sonhos. 
Ou suas lgrimas. - Seu dedo percorreu suavemente a trilha molhada na minha face, depois a enxugou com o leno.
        -No?
        Seu sorriso na semi-obscuridade era enviesado.
        - No. Voc o amava. No posso culpar nenhum dos dois por voc sofrer com sua ausncia. E sinto certo conforto em saber... - Hesitou e eu estendi a mo para 
afastar os cabelos desgrenhados do seu rosto.
        - Saber o qu?
        - Que se vier a acontecer, voc vai sofrer por mim assim tambm. - disse suavemente.
        Pressionei o rosto com fora contra seu peito, de modo que minhas palavras foram abafadas.
        - Eu novou chorar por voc, porque novou precisar. Eu novou perd-lo, no vou! - Um pensamento me ocorreu e ergui os olhos para ele, a leve aspereza da 
barba por fazer sombreando seu rosto.
        - Voc no teme que eu volte, no ? No acha que porque eu.- penso em Frank...
        - No. - Sua voz foi rpida e suave, uma resposta imediata como o aperto possessivo de seus braos ao meu redor.
        - No - ele disse outra vez, mais serenamente. - Ns estamos unidos, voc e eu, e nada neste mundo me separar de voc. - Sua mo ergueu-se para acariciar 
meus cabelos. - Lembra-se do voto de sangue que eu fiz a voc quando nos casamos?
        - Sim, acho que sim. "Sangue do meu sangue, ossos dos meus ossos..."
        - "Eu lhe dou meu corpo para que sejamos um s" - ele concluiu. - Sim, e eu mantenho esse juramento, Sassenach, e voc tambm. - Viroume ligeiramente e sua 
mo fechou-se delicadamente sobre o pequeno volume no meu ventre.
        - Sangue do meu sangue - murmurou - e ossos dos meus ossos. Voc me carrega dentro de voc, Claire, e no pode me deixar, no importa o que acontea. Voc 
 minha, para sempre, quer queira quer no, quer me ame ou no. Minha e eu no a deixarei partir. - Coloquei uma mo sobre a dele, pressionando-a contra mim.
        - No - disse, num sussurro -, nem voc pode me deixar.
        - No - ele disse, esboando um sorriso. - Pois tenho mantido o final do juramento tambm. - Segurou-me com as duas mos e inclinou a cabea sobre meu ombro, 
para que eu pudesse sentir o hlito quente de suas palavras em meu ouvido, murmuradas na escurido.
        - "Eu lhe dou meu esprito, at o fim de nossas vidas."
        
        
        
11 - OCUPAES TEIS
        
        - Quem  aquele homenzinho estranho? - perguntei a Jamie com curiosidade. O homem em questo abria seu caminho lentamente em meio aos grupos de convidados 
reunidos no salo principal da casa dos Rohan. Parava por um instante, examinando um grupo com olhar crtico, depois ou encolhia um ombro ossudo e seguia em frente 
ou subitamente se aproximava de um homem ou mulher, exibia alguma coisa diante de seu rosto e emitia uma espcie de comando. O que quer que estivesse fazendo, suas 
aes pareciam ser motivo de grande hilaridade.
        Antes que Jamie pudesse responder, o homem, um indivduo pequeno, encarquilhado, em sarja cinza, detectou-nos e seu rosto se iluminou. Lanou-se sobre Jamie 
como uma minscula ave de rapina abatendo-se de repente sobre um coelho grande e assustado.
        - Cante - ele ordenou.
        - Hein? -Jamie pestanejou para a pequena figura, perplexo.
        - Eu disse "cante" - respondeu o sujeito, pacientemente. Cutucou o peito de Jamie com admirao. - com uma caixa de ressonncia como esta, voc deve ter 
uma excelente intensidade de voz.
        - Ah, tem, sim - eu disse, divertindo-me. - Pode-se ouvi-lo a trs quarteires de distncia quando est furioso.
        Jamie lanou-me um olhar hostil. O homenzinho andava ao seu redor, medindo a largura de suas costas e batendo de leve nele como um pica-pau experimentando 
uma rvore de excelente qualidade.
        - Eu no sei cantar - ele protestou.
        - Bobagem, bobagem. Claro que sabe. E deve ter uma voz grave e excelente de bartono - disse o homenzinho com aprovao. - timo.  perfeito para o que eu 
precisava. Veja,vou ajud-lo um pouco. Tente igualar este tom.
        Extraindo agilmente um pequeno diapaso do bolso, bateu-o habilmente contra uma pilastra e segurou-o junto ao ouvido esquerdo de Jamie.
        Jamie revirou os olhos para o cu, mas deu de ombros e sendo obediente emitiu uma nota. O homenzinho deu um salto para trs como se tivesse levado um tiro.
        - No - exclamou, incrdulo.
        - Receio que sim - eu disse, com compreenso. - Ele tem razo, sabe. Ele realmente no sabe cantar.
        O homenzinho estreitou os olhos com ar acusador para Jamie, depois bateu o diapaso outra vez e segurou-o de forma convidativa.
        - Mais uma vez - disse, tentando persuadir Jamie. - Apenas oua e deixe um som igual sair dos pulmes.
        paciente como sempre, Jamie ouviu com toda a ateno o "A" do diapaso e arriscou outra vez, produzindo um som espremido entre um mibemol e um r-sustenido.
        - No  possvel - disse o homenzinho, desconsolado. - Ningum pode ser to desafinado, nem de propsito.
        - Eu posso - disse Jamie alegremente, fazendo uma reverncia para o homenzinho. A essa altura, comeramos a atrair uma pequena multido de espectadores 
interessados. Louise de Rohan era uma grande anfitri e seus sales atraam a nata da sociedade parisiense.
        - Sim, ele pode - assegurei ao visitante. - Ele no tem ouvido musical.
        - Sim, estou vendo - disse o homenzinho, decepcionado. Ento, comeou a me analisar especulativamente.
        - Eu no! - eu disse, rindo.
        - A senhora com certeza no  desafinada tambm, no , madame? - Os olhos cintilando como uma cobra arrastando-se na direo de um pssaro hipnotizado, 
o homenzinho comeou a vir na minha direo, o diapaso estremecendo como a lngua de uma vbora.
        - Espere um minuto - eu disse, esticando a mo para estanc-lo. - Exatamente quem  voc?
        - Este  herr Johannes Gerstmann, Sassenach. - com ar divertido, Jamie fez nova reverncia para o sujeito. - O professor de canto do rei. Posso apresent-lo 
 minha mulher, lady Broch Tuarach, herr Gerstmann? - Sem dvida, Jamie conhecia at o ltimo membro da corte, por mais insignificante que fosse.
        Johannes Gerstmann. Bem, isso explicava o leve sotaque que eu detectara sob a formalidade do francs falado na corte. Alemo, me perguntei, ou austraco?
        - Estou reunindo um pequeno coro improvisado - o pequeno professor de msica explicou. - As vozes tm que ser treinadas, mas devem ser fortes e verdadeiras. 
- Lanou um olhar de desiluso para Jamie, que apenas riu em resposta. Ele pegou o diapaso das mos de herr Gerstmann e Segurou-o para mim com um ar interrogativo.
        - Ah, est bem - eu disse, e repeti o som do diapaso.
        O que quer que tenha ouvido pareceu animar herr Gerstmann, porque ele guardou o diapaso e espreitou-me com interesse. Sua peruca era ligeiramente grande 
demais e tendia a deslizar para frente quando ele balanava a cabea. Foi o que ele fez agora e, em seguida, puxou a peruca para trs de qualquer jeito, dizendo:
        - Excelente tom, madame! Realmente muito bom, muito bom mesmo. Estaria familiarizada com L Papillon? - Cantarolou uma passagem da msica.
        - Bem, ao menos j a ouvi antes - respondi cautelosamente. - Bem, quero dizer, a melodia; no sei a letra.
        - Ah! Sem problemas, madame. O coro  pura simplicidade; assim... O brao preso pela mo do professor de msica, vi-me forosamente conduzida na direo 
dos acordes de um cravo numa sala distante, herr Gerstmann cantarolando em meu ouvido como um zango ensandecido.
        Lancei um olhar impotente por cima do ombro para Jamie, que apenas riu e ergueu sua taa de sorbet numa saudao de despedida antes de voltar-se e entabular 
uma conversa com o jovem monsieur Duverney, filho do ministro das Finanas.
        A casa dos Rohan - se fosse possvel usar uma palavra simples como "casa" para descrever tal lugar - estava iluminada com lanternas penduradas por todo o 
jardim dos fundos e bordas do terrao. Enquanto herr Gerstmann rebocava-me pelos corredores, pude ver criados apressados entrando e saindo dos sales de jantar, 
estendendo toalhas de linho e arrumando a prataria para o banquete que seria servido mais tarde. A maior parte dos "sales" eram cmodos pequenos, ntimos, mas a 
princesa Louise de La Tour de Rohan era uma personalidade expansiva.
        Eu conhecera a princesa h uma semana, em outra festa, e achei-a surpreendente. Rechonchuda e sem graa, possua um rosto redondo com um queixo pequeno e 
esfrico, olhos azul-claros e sem pestanas, e uma pinta falsa no formato de estrela que no concorria para cumprir sua misso na vida. Ento esta era a mulher que 
seduzira o prncipe Carlos, levando-o a ignorar os ditames da decncia?, pensei, fazendo uma reverencia na fila de recepo.
        Ainda assim, ela possua um ar enrgico e cheio de vida que era muito atraente, alm de uma linda boca rosada. Na realidade, a boca era a parte mais animada 
da princesa.
        - Ah, estou encantada! - ela exclamara, agarrando minha mo quando lhe fui apresentada. - Que maravilha poder conhec-la! Meu marido e meu pai fazem elogios 
infindveis a milorde Broch Tuarach, mas nada disseram de sua encantadora mulher. Estou absolutamente encantada com sua presena, minha cara senhora... tenho mesmo 
que dizer Broch Tuarach, ou posso dizer apenas lady Tuarach? No sei se conseguiria lembrar o nome todo, mas uma nica palavra, sem dvida, ainda que tenha um som 
to estranho.  escocs, no? Que encantador!
        Na realidade, Broch Tuarach significa "torre voltada para o norte", mas se ela quisesse me chamar de "Lady Voltada para o Norte", por mim tudo bem. De fato, 
ela logo desistiu de tentar lembrar-se de "Tuarach" e desde ento passou a chamar-me apenas de "ma chre Claire".
        A prpria Louise estava com o grupo de cantores na sala de msica, agitando o corpo rolio de um a outro, conversando e rindo. Ao me ver, disparou pela sala 
to rpido quanto suas saias permitiam, o rosto sem graa radiante de entusiasmo.
        - Ma chre Claire! - exclamou, confiscando-me bruscamente de herr Gertsmann. - Chegou bem na hora! Venha, tem que conversar com essa tola criana inglesa 
por mim.
        A "tola criana inglesa" era de fato muito jovem; uma garota de no mais do que quinze anos, com os cabelos escuros penteados em cachos brilhantes, as faces 
to afogueadas de constrangimento que ela me fez lembrar uma brilhante papoula. Na realidade, foram as mas do rosto que me fizeram lembrar da jovem que eu vira 
no jardim de Versalhes, pouco antes da perturbadora apario de Alexander Randall.
        - Madame Fraser tambm  inglesa - Louise explicou  jovem. - Ela logo a far se sentir em casa. Ela  tmida - Louise explicou, voltando-se para mim sem 
fazer uma pausa para respirar. - Converse com ela. Convena-a a cantar conosco. Garantiram-me que ela tem uma bela voz. Pronto, ms enfants, divirtam-se! - E com 
um tapinha de bno, partiu para o outro lado da sala, exclamando, adulando, admirando-se com o vestido de uma recm-chegada, parando para afagar uma criana obesa 
sentada ao cravo, enrolando os anis dos cabelos do menino nos dedos enquanto conversava com o duque de Castellotti.
        - D at cansao s de observ-la, no ? - eu disse em ingls, sorrindo para a jovem. Um leve sorriso surgiu em seus prprios lbios e ela balanou a cabea 
rapidamente, mas no falou. Pensei que tudo aquilo devia ser um pouco assustador; as festas de Louise tendiam a fazer minha prpria cabea girar e a pequena papoula 
parecia ter acabado de sair da escola.
        - Sou Claire Fraser - eu disse -, mas Louise no se lembrou de me dizer o seu nome. - Parei,  espera, mas ela no respondeu. Seu rosto ficou ainda mais 
vermelho, os lbios pressionados com fora e os punhos cerrados ao lado do corpo. Fiquei um pouco assustada diante de sua aparncia, mas ela por fim conseguiu reunir 
foras para falar. Respirou fundo e ergueu o queixo como algum prestes a subir ao cadafalso.
        - M-m-meu nome ... M-M-M - comeou e logo compreendi o motivo de seu silncio e de sua timidez. Ela fechou os olhos, mordendo o lbio com fora, depois 
reabriu os olhos e heroicamente fez nova tentativa. - M-M-Mary Hawkins - conseguiu dizer. - Eu n-n-no sei cantar acrescentou audaciosamente.
        Se eu a achara interessante antes, agora estava fascinada. Ento esta era a sobrinha de Silas Hawkins, a filha do baronete, a noiva prometida do visconde 
de Marigny! Parecia um peso considervel de expectativa masculina para uma menina to jovem suportar. Olhei ao meu redor para ver se o visconde estava presente e 
fiquei aliviada ao descobrir que no estava.
        - No se preocupe com isso - eu disse, colocando-me  sua frente, para ocult-la das levas de pessoas que agora enchiam a sala de msica. No precisa falar 
se no quiser. Embora talvez devesse tentar cantar - eu disse, com um pensamento repentino. - Conheci um mdico certa vez que era especializado no tratamento de 
gagueira; ele disse que as pessoas que gaguejam no o fazem quando esto cantando.
        Os olhos de Mary Hawkins arregalaram-se de surpresa. Olhei ao meu redor e vi uma alcova prxima, com as cortinas cerradas, escondendo um sof confortvel.
        - Por aqui - eu disse, tomando-a pela mo. - Pode ficar sentada aqui, de modo que no ter que conversar com as pessoas. Se quiser cantar, pode sair quando 
comearmos; se no, apenas permanea aqui at a festa acabar.
        - Ela fitou-me por um instante, depois me deu um repentino e ofuscante sorriso em agradecimento e entrou na alcova.
        Fiquei flanando de um lado para o outro do lado de fora, para evitar que algum criado enxerido perturbasse seu esconderijo, conversando com os que passavam.
        - Voc est linda esta noite, my chrel - Era madame de Ramage, uma das damas de companhia da rainha. Uma mulher mais velha, respeitvel, fora jantar  rue 
de Tremoulins uma ou duas vezes. Abraou-me calorosamente, depois olhou ao redor para certificar-se de que no ramos observadas.
        - Esperava encontr-la aqui, querida - ela disse, inclinando-se um pouco mais para perto e abaixando a voz. - Queria avis-la para tomar cuidado com o conde 
St. Germain.
        Virando-me parcialmente na direo do seu olhar, avistei o homem do rosto delgado que conheci nas docas de L Havre entrando na sala de msica, de brao 
com uma mulher mais jovem, vestida com elegncia. Ele no me vira, aparentemente, e eu rpido me voltei outra vez para madame de Ramage.
        - O que... ele... quero dizer... - Senti que estava ficando cada vez mais ruborizada, agitada com a chegada do soturno conde.
        - Bem, sim, ouviram-no falando de voc - disse madame de Ramage, gentilmente me ajudando a sair do meu estado de confuso. - Pelo que entendi, houve alguma 
pequena dificuldade em L Havre?
        - Algo do tipo - eu disse. - Tudo que fiz foi reconhecer um caso de varola, mas isso resultou na destruio de seu navio e... ele no ficou nada satisfeito 
- conclu debilmente.
        - Ah, ento foi isso. - Madame de Ramage parecia satisfeita. Imaginei que sabendo da histria direto da fonte, por assim dizer, dar-lhe-ia uma vantagem na 
troca de mexericos e informaes que era o comrcio da vida social parisiense.
        - Ele tem andado por a dizendo s pessoas que acredita que voc seja uma bruxa - ela disse, sorrindo e acenando para uma amiga do outro lado do aposento. 
- Que bela histria! Ah, ningum acredita nisso - asseguroume. - Todo mundo sabe que se h algum envolvido nessas questes  o prprio monsieur l comte.
        -  mesmo? - Quis perguntar o que ela queria dizer com aquilo, mas neste exato momento herr Gerstmann alvoroou-se, batendo palmas como se tocasse um bando 
de galinhas.
        - Vamos, vamos, mesdames! - disse. - J estamos completos. Vamos comear!
        Enquanto o coral reunia-se apressadamente perto do cravo, olhei para trs, na direo da alcova onde deixara Mary Hawkins. Achei ter visto a cortina mover-se, 
mas no tinha certeza. E quando a msica comeou, e as vozes reunidas elevaram-se, pensei ter ouvido um soprano alto e claro na direo da alcova - entretanto, mais 
uma vez, eu no tinha certeza.
        - Muito bem, Sassenach - Jamie disse quando voltei a me unir a ele, afogueada e ofegante, aps a apresentao do coral. Riu para mim e deu uns tapinhas no 
meu ombro.
        - Como poderia saber? - eu disse, aceitando uma taa de ponche de Um criado que passava. - Voc nem sabe distinguir as canes.
        - Bem, de qualquer forma, voc cantou bem alto - ele disse, sem se perturbar. - Eu pude ouvir cada palavra. - Senti seu corpo retesar-se ligeiramente ao 
meu lado e virei-me para ver o que, ou quem, ele estava olhando.
        A mulher que acabara de entrar era mida, mal atingindo a primeira costela de Jamie, com mos e ps como os de uma boneca e sobrancelhas bicadas como um 
ornamento chins, acima de olhos negros como jabuticabas.
        Avanou com um passo que reproduzia sua prpria leveza, de modo que ela parecia danar pouco acima do cho.
        - Annalise de Marillac - eu disse, admirando-a. - No  encantadora?
        - Ah, sim. - Algo em sua voz me fez olhar incisivamente para cima. Um tom rosado coloria a ponta de suas orelhas.
        - E eu que pensava que voc havia passado seus anos na Frana lutando, e no fazendo conquistas romnticas - eu disse, com sarcasmo.
        Para minha surpresa, ele achou graa. Ouvindo sua risada, a mulher voltou-se para ns. Um sorriso radiante iluminou seu rosto quando viu Jamie despontando 
acima da multido. Virou como se viesse em nossa direo, mas teve a ateno desviada por um cavalheiro, de peruca e resplandecente em seu cetim lils, que colocou 
a mo atrevidamente em seu brao delgado. Ela sacudiu o leque faceira para Jamie num gesto coquete de pesar, antes de devotar sua ateno ao novo companheiro.
        - O que h de to engraado? - perguntei, ao v-lo ainda rindo de orelha a orelha para as saias de renda, suavemente oscilantes, de sua amiga.
        Recobrou de forma repentina a conscincia da minha presena e sorriu para mim.
        - Ah, nada, Sassenach. Apenas uma observao ao que voc disse sobre lutar. Eu travei meu primeiro duelo, bem, na verdade, o nico, por causa de Annalise 
de Marillac. Quando eu tinha dezoito anos.
        O tom de sua voz era ligeiramente sonhador, observando a cabeleira lustrosa e escura afastar-se, sacolejando, pela multido, cercada onde quer que fosse 
por aglomerados brancos de perucas e cabelos empoados, com uma ou outra peruca modernamente tingida de rosa para variar.
        - Um duelo? com quem? - perguntei, olhando ao redor com cautela  procura de algum admirador da boneca chinesa que pudesse se sentir inclinado a dar prosseguimento 
a uma antiga disputa.
        - Ah, ele no est aqui - Jamie disse, seguindo o meu olhar e interpretando-o corretamente. -J morreu.
        - Voc o matou? - Agitada, falei um pouco mais alto do que pretendia. Quando algumas cabeas prximas voltaram-se com curiosidade em nossa direo, Jamie 
segurou-me pelo cotovelo e me fez girar nos calcanhares e seguir com pressa em direo s portas que se abriam para o terrao.
        - Cuidado, Sassenach, fale mais baixo - ele disse, pacificamente. - No, eu no o matei. Bem que eu queria - acrescentou com sarcasmo -, mas no o fiz. Ele 
morreu h dois anos, de infeco na garganta. Jared contou-me.
        Conduziu-me por um dos caminhos do jardim, iluminado por criados segurando lanternas, parados como postes a intervalos de cinco metros, do terrao ao chafariz 
na outra extremidade do caminho. No meio do grande, espelho-d'gua, quatro golfinhos lanavam lenis de borrifos de gua sobre um Trito com ar enfurecido no centro, 
brandindo um tridente um tanto ineficaz em sua direo.
        - Bem, no me deixe em suspense - insisti quando ficamos fora do alcance dos ouvidos dos grupos no terrao. - O que aconteceu?
        - Est bem, ento - ele disse resignado. - Bem, voc deve ter observado que Annalise  muito bonita, no?
        - Ah,  mesmo? Bem, talvez, agora que voc mencionou, posso ver algo do tipo - respondi docemente, provocando um olhar repentino e lancinante, seguido de 
um sorriso enviesado.
        - Sim. Bem, eu no era o nico jovem galante em Paris com a mesma opinio, nem o nico a perder a cabea por ela. Andava por a numa espcie de estupor, 
tropeando nos prprios ps. Esperava por ela na rua, na esperana de v-la sair de casa para a sua carruagem. Esquecia-me at de comer. Jared disse que meu casaco 
ficava pendurado em mim como num espantalho e o estado do meu cabelo reforava a comparao. - Levou a mo distraidamente  cabea, dando uns tapinhas no rabicho 
impecvel preso com fora na nuca e amarrado com uma fita azul.
        - Esquecia-se de comer? Meu Deus, voc estava mal mesmo - observei. Ele reprimiu uma risadinha.
        - Ah, sim. E pior ainda quando ela comeou a flertar com Charles Gauloise. Veja bem - acrescentou, para fins de esclarecimento -, ela flertava com todo mundo, 
 verdade, mas ela o escolhia como seu acompanhante para jantar com freqncia demais para o meu gosto, danava demais com ele nas festas e... bem, para resumir, 
Sassenach, certa noite eu o flagrei beijando-a ao luar no terrao da casa do pai dela e o desafiei.
        A essa altura, havamos alcanado o chafariz em nosso passeio. Jamie parou e sentamo-nos na borda da fonte, no sentido do vento, antes dos repuxos que borrifavam 
da boca dos golfinhos. Jamie correu a mo pela agua escura e ergueu-a escorrendo, de modo distrado, observando as gotas prateadas escorrerem pelos seus dedos.
        - Duelar era ilegal em Paris na poca, como ainda  hoje. Mas havia lugares para isso; sempre h. Cabia a ele escolher e ele escolheu um lugar n Bois de 
Boulogne. Perto da estrada dos Sete Santos, mas oculto por uma cortina de carvalhos. A escolha da arma tambm cabia a ele. Eu esperava pistolas, mas ele escolheu 
espadas.
        - Por que ele faria isso? Voc devia ser uns quinze centmetros mais alto do que ele, ou mais. - Eu no era nenhuma especialista, mas era forada a aprender 
um pouco sobre a estratgia e as tticas da luta de espadas; Jamie e Murtagh enfrentavam-se a cada dois ou trs dias para no perderem a prtica, colidindo-se, desviando-se 
e atacando para cima e para baixo no jardim, para absoluta satisfao dos criados, tanto homens quanto mulheres, que se acotovelavam nas sacadas para assistir.
        - Por que ele escolheu espadins? Porque era muito bom com espadins. Alm disso, acho que pensou que eu poderia mat-lo acidentalmente com uma pistola, embora 
soubesse que eu ficaria satisfeito s de tirar sangue dele com uma lmina. Eu no pretendia mat-lo - explicou. - Apenas humilh-lo. E ele sabia disso. Nosso Charles 
no era nenhum tolo - disse, sacudindo a cabea melancolicamente.
        A nvoa do chafariz estava fazendo com que anis dos meus cabelos escapassem do penteado, cacheando-se ao redor do meu rosto. Afastei uma mecha para trs, 
perguntando:
        - E voc o humilhou?
        - Bem, eu o feri, ao menos. - Surpreendi-me ao ouvir um leve tom de satisfao em sua voz e ergui uma das sobrancelhas. - Ele aprendera a lutar com Lejeune, 
um dos melhores mestres espadachins da Frana. Foi como lutar com uma maldita pulga e eu lutei com ele com a mo direita.
        - Passou a mo pelos cabelos outra vez, como se verificasse se continuavam presos.
        - Meus cabelos soltaram-se, no meio da luta - ele disse. - A tira de couro que os prendia rompeu-se e o vento jogava meus cabelos nos olhos, de modo que 
tudo que eu conseguia ver era o minsculo vulto branco de Charles em mangas de camisa, saltando para frente e para trs, como um peixinho de gua doce. E foi assim 
que eu o peguei, finalmente: do modo como voc espeta um peixe com uma adaga. - Deixou escapar um riso debochado.
        - Ele soltou um berro como se eu o tivesse atravessado, embora eu soubesse que s o tinha picado em um brao. Enfim tirei os cabelos do rosto e olhei alm 
dele, para Anaelise parada l na borda da clareira, com os olhos arregalados e escuros como este lago. - Abanou a mo indicando a superfcie negro-prateada ao nosso 
lado.
        - Assim, embainhei minha espada, arrumei os cabelos para trs e fiquei l parado, em parte esperando que ela viesse se atirar nos meus braos, suponho.
        - Hum - eu disse, delicadamente. - E ela no o fez?
        - Bem, eu no sabia nada a respeito de mulheres na poca - disse. No, ela veio e se atirou sobre ele,  claro. - Emitiu um som escocs no fundo da garganta, 
um som de desdm de si mesmo e de desgosto bemhumorado. - Ouvi dizer que se casou com ele um ms depois.
        "Sim, bem." Deu de ombros, com um sorriso pesaroso. "Assim, meu corao ficou partido. Voltei para a Esccia e durante semanas perambulei pelos cantos, desanimado 
e triste, at que meu pai perdeu a pacincia comigo. Riu. "At pensei em virar um monge por causa disso. Uma noite, disse a meu pai durante o jantar que achava que 
talvez, na primavera eu atravessaria o Canal e iria para a abadia tornar-me um novio."
        Ri diante da idia.
        - Bem, voc no teria nenhuma dificuldade com o voto de pobreza; castidade e obedincia poderiam ser mais difceis. O que seu pai disse?
        Ele riu, os dentes brancos no rosto sombrio.
        - Ele estava tomando sopa. Colocou a colher sobre a mesa e olhou para mim por um instante. Depois, suspirou, sacudiu a cabea e disse: "Foi um dia muito 
difcil, Jamie." Ento, pegou a colher outra vez e retornou ao seu jantar e eu nunca mais disse uma palavra sobre o assunto.
        Seus olhos percorreram o caminho meio inclinado que levava ao terrao, onde aqueles que no estavam danando passeavam de um lado para o outro, refrescando-se 
entre uma dana e outra, apreciando seu vinho e flertando por trs de leques. Suspirou nostalgicamente.
        - Sim, uma jovem muito bonita, Annalise de Marillac. Graciosa como o vento e to pequena que d vontade de enfi-la dentro da camisa e carreg-la como um 
gatinho de estimao.
        Fiquei em silncio, ouvindo a msica ao longe, filtrando-se pelas portas abertas l em cima, enquanto contemplava a brilhante chinela de cetim que envolvia 
meu p tamanho trinta e nove.
        Aps um instante, Jamie apercebeu-se de meu silncio.
        - O que foi, Sassenach? - perguntou, colocando a mo em meu brao.
        - Ah, nada - eu disse com um suspiro. - S estava pensando que duvido que algum um dia me descreva como "graciosa como o vento".
        - Ah. - Sua cabea estava parcialmente virada, o nariz longo e reto e o queixo firme iluminados por trs pela claridade da lanterna mais prxima. Pude ver 
um meio-sorriso em seus lbios quando se voltou para mim.
        - Bem,vou lhe dizer, Sassenach, "graciosa" provavelmente no  a primeira palavra que acorre  mente quando se pensa em voc. - Passou o brao por trs de 
mim, a mo quente e grande no meu ombro coberto de seda.
        - Mas eu converso com voc como se conversasse com minha prpria alma - ele disse, virando-me para ele. Ergueu o brao e segurou minha testa, os dedos tocando 
de leve minha tmpora.
        - Ah, Sassenach - murmurou. - Seu rosto  meu corao.
        Foi a mudana do vento, alguns minutos mais tarde, que nos separou finalmente com uma chuva fina do chafariz. Separamo-nos e nos levantamos apressados, rindo 
com o frio repentino da gua. Jamie inclinou a cabea interrogativamente em direo ao terrao e eu tomei o seu brao, assentindo.
        - Ento - observei, enquanto subamos devagar os amplos degraus at o salo de baile -, pelo que vejo, voc sabe um pouco mais sobre as mulheres agora.
        Ele riu, uma risada gutural e baixa, apertando o brao em torno de minha cintura.
        - A coisa mais importante que aprendi sobre as mulheres, Sassenach,  qual escolher. - Afastou-se, fazendo uma reverncia para mim, e com um amplo gesto 
indicando as portas abertas para a magnfica cena no interior, disse: - Concede-me a honra desta dana, milady?
        Passei a tarde seguinte na casa dos d'Arbanville, onde encontrei novamente o mestre de canto do rei. Desta vez, tivemos tempo para uma conversa, que contei 
ajamie aps o jantar.
        - Voc o qu? - Jamie estreitou os olhos para mim, como se suspeitasse que eu estivesse lhe pregando uma pea.
        - Eu disse que herr Gerstmann sugeriu que eu poderia estar interessada em conhecer uma amiga dele. Madre Hildegarde  a encarregada de L'Hpital ds Anges, 
voc sabe, o hospital de caridade que fica perto da catedral.
        - Sei onde fica. - Sua voz era acentuada por uma falta geral de entusiasmo.
        - Ele tinha a garganta inflamada e isso me levou a lhe dizer o que deveria tomar e a falar um pouco sobre remdios em geral e em como eu era interessada 
em doenas e, bem, voc sabe como uma coisa leva a outra.
        - com voc, sempre leva - concordou, com distinto cinismo. Ignorei o tom de sua voz e continuei.
        - Assim,vou ao hospital amanh. - Estiquei-me na ponta dos ps para pegar minha caixa de remdios de sua prateleira. - Talvez eu no a leve comigo da primeira 
vez - eu disse, examinando o contedo pensativamente. - Poderia parecer muito forado. O que acha?
        - Forado? - Ele parecia perplexo. - Est pensando em visitar o lugar ou em se mudar para l?
        - Ha, bem - eu disse. Respirei fundo. - Eu, ha, achei que talvez pudesse trabalhar l regularmente. Herr Gerstmann diz que todos os mdicos e curandeiros 
que vo l trabalham como voluntrios. A maioria no vai l todo dia, mas eu tenho tempo de sobra e poderia...
        - Tempo de sobra?
        - Pare de repetir tudo que eu digo - retruquei. - Sim, tempo de sobra. Sei que  importante comparecer a recepes, jantares e tudo isso, mas no ocupam 
o dia todo, ao menos, no precisa. Eu poderia...
        - Sassenach, voc est grvida! No pretende sair para cuidar de mendigos e criminosos, no ? - Ele soava um pouco desamparado agora, como se imaginasse 
como lidar com algum que acabou de enlouquecer bem diante dele.
        - Eu no me esqueci - afirmei. Pressionei as mos sobre minha barriga, estreitando os olhos para baixo.
        - Na verdade, ainda nem d para notar; com um vestido largo posso escapar impune durante algum tempo. E no h nada de errado comigo, exceto o enjo matinal. 
No h nenhuma razo para eu no poder trabalhar por alguns meses ainda.
        - Nenhuma razo, exceto que eu novou permitir que faa isso! No esperando nenhuma visita esta noite, ele tirara a echarpe do pescoo e abrira a gola da 
camisa ao chegar em casa. Eu podia ver a onda de cabelos ruivos avanando at sua garganta.
        - Jamie - eu disse, procurando ser racional. - Voc sabe o que eu sou.
        - Voc  minha mulher.
        - Bem, isso tambm. - Afastei a idia com os dedos. - Sou enfermeira, Jamie. Uma curandeira. Voc devia saber. Ele ficou vermelho.
        - Sim, sei. E porque voc me curou quando eu estava ferido, eu deveria achar certo que voc cuidasse de mendigos e prostitutas? Sassenach, voc no conhece 
o tipo de gente que vai para L'Hpital ds Anges? - Olhou-me com um olhar de splica, como se esperasse que eu recobrasse o juzo a qualquer instante.
        - Que diferena isso faz?
        Olhou desesperadamente ao redor da sala, implorando o testemunho do retrato acima da lareira quanto  minha irracionalidade.
        - Voc pode pegar uma doena imunda, pelo amor de Deus! No tem nenhuma considerao pelo seu filho, ainda que no tenha nenhuma por mim?
        Racionalidade parecia um objetivo cada vez menos desejvel.
        - Claro que tenho! Que tipo de pessoa irresponsvel, insensvel, voc Pensa que sou?
        - O tipo que abandonaria o marido para ir brincar com esgoto na sarjeta. - retorquiu. -J que perguntou. - Passou a enorme mo pelos cabelos, arrepiando-os 
no alto da cabea.
        - Abandon-lo? Desde quando sugerir que preciso fazer alguma coisa  abandon-lo? No quero mais ficar apodrecendo no salo dos Rbanville, vendo Louise de 
Rohan entupir-se de doces e ouvindo poesia ruim e msica pior ainda? Quero ser til!
        - Tomar conta da sua prpria casa no  ser til? Ser casada comigo no  ser til? - O lao que amarrava seus cabelos desfez-se sob o estresse e os cachos 
espessos espalharam-se como uma aurola flamejante. Lanoume um olhar penetrante, feito um anjo vingador.
        - O que vale para um vale para o outro - retorqui friamente. - Ser casado comigo  ocupao suficiente para voc. No o vejo perambulando pela casa o dia 
todo, adorando-me. E quanto  casa, parvoce!
        - Parvoce? O que  parvoce? - perguntou.
        - Tolice, bobagem. Besteira. Em outras palavras, no seja ridculo. Madame Vionnet faz tudo e faz centenas de vezes melhor do que eu faria.
        Isso era uma verdade to patente que o fez parar por um instante. Lanou-me um olhar furioso, o maxilar remexendo-se.
        - Ah, ? E se eu proibi-la de ir?
        Aquilo me paralisou por um instante. Empertiguei-me e olhei-o de cima a baixo. Seus olhos tinham a cor da ardsia cinza-escuro, a boca larga e generosa apertada 
numa linha reta. Os ombros largos e eretos, os braos cruzados sobre o peito como uma esttua de ferro fundido, "ameaador" era a palavra certa para descrev-lo.
        - Voc me probe? - A tenso entre ns crepitava. Eu queria piscar, mas no iria lhe dar a satisfao de interromper meu prprio olhar glacial. O que eu 
faria se ele me proibisse de ir? As alternativas corriam pela minha mente, tudo desde plantar o abridor de cartas de marfim entre suas costelas a atear fogo  casa 
com ele dentro. A nica idia que eu rejeitava completamente era a de ceder.
        Ele parou e respirou fundo antes de falar. Seus punhos estavam cerrados ao lado do corpo e ele abriu as mos num esforo consciente.
        - No - disse. - No, eu no a probo. - Sua voz estremeceu um pouco com o esforo para control-la. - Mas e se eu lhe pedisse?
        Abaixei os olhos e fitei seu reflexo no tampo lustrado da mesa. No comeo, a idia de visitar L'Hpital ds Anges parecera-me meramente interessante, uma 
alternativa atraente para os infindveis mexericos e intrigas mesquinhas da sociedade parisiense. Mas agora... podia sentir os msculos do meu brao avolumarem-se 
quando eu cerrava meus prprios punhos. Eu no apenas queria trabalhar outra vez, eu precisava.
        - No sei - respondi finalmente.
        Ele respirou fundo e soltou o ar devagar.
        - Pensar nisso, Claire? - Podia sentir seus olhos sobre mim. Depois do que pareceu um longo tempo, assenti, balanando a cabea.
        - Sim, pensarei.
        - timo. - A tenso quebrada, ele desviou-se, irrequieto. Ficou vagando pela sala de visitas, pegando pequenos objetos e devolvendo-os aleatoriamente, at 
parar junto  estante de livros, onde se apoiou, fitando sem ver os ttulos nas capas de couro. Aproximei-me hesitante e coloquei a mo em seu brao.
        - Jamie, eu no quis aborrec-lo.
        Abaixou os olhos para mim e lanou-me um sorriso oblquo.
        - Sim, bem. Eu tambm no quis brigar com voc, Sassenach. Acho que estou irritadio e muito sensvel. - Deu uns tapinhas na minha mo como desculpas, depois 
se afastou e ficou parado, olhando sua escrivaninha.
        - Voc tem trabalhado demais - eu disse, seguindo-o e procurando acalm-lo.
        - No  isso. - Sacudiu a cabea e estendeu a mo para abrir com um nico golpe o enorme livro de contabilidade que estava no centro da escrivaninha.
        - O negcio de vinhos, ele vai bem.  muito trabalho, sim, mas no me incomodo. A questo  outra. - Fez um gesto indicando uma pequena pilha de cartas, 
seguras por um peso para papel de alabastro. Era um dos vrios que Jared possua, esculpido na forma de uma rosa branca, o emblema dos Stuart. As cartas que segurava 
eram do abade Alexander, do conde de Mar, de outros jacobitas proeminentes. Todas repletas de perguntas veladas, promessas nebulosas, expectativas contraditrias.
        - Sinto-me como se estivesse lutando contra o vazio! - James disse, violentamente. - Queria uma luta de verdade, algo em que eu pudesse botar as mos, algo 
que eu pudesse fazer. Mas isto... - Agarrou o punhado de cartas da escrivaninha e atirou-as para cima. Havia uma corrente de ar no aposento e os papis ziguezaguearam 
loucamente, deslizando para baixo dos mveis e agitando-se sobre o tapete.
        - No h nada de palpvel - disse, sentindo-se impotente. - Posso conversar com mil pessoas, escrever centenas de cartas, beber com Carlos at perder a conscincia 
e nunca saber se estou progredindo ou no.
        Deixei as cartas espalhadas permanecerem onde estavam; uma das criadas poderia resgat-las mais tarde.
        - Jamie - eu disse suavemente. - Ns no podemos fazer nada alm de tentar.
        Ele sorriu debilmente, as mos agarradas  escrivaninha.
        - Sim. Fico contente que tenha dito "ns", Sassenach. s vezes, sinto-me muito solitrio com tudo isso.
        Passei meus braos pela sua cintura e recostei o rosto contra as suas costas.
        - Voc sabe que eu no o deixaria sozinho com isso - eu disse. - Afinal, fui eu quem o meteu nisso, para comear.
        Pude sentir a ligeira vibrao de uma risada sob meu rosto.
        - Sim,  verdade. Novou censur-la por isso, Sassenach. - Virou-se, inclinou-se e me beijou de leve na testa. - Voc parece cansada, mo duinne. V para 
a cama agora. Ainda tenho um pouco de trabalho para fazer, mas logo irei me juntar a voc.
        - Est bem. - Eu estava realmente cansada esta noite, embora a sonolncia crnica do incio da gravidez estivesse dando lugar a uma nova energia; eu estava 
comeando a sentir-me alerta durante o dia, transbordando de necessidade de ficar ativa.
        Parei  porta ao sair. Ele ainda estava parado junto  escrivaninha, fitando as pginas do livro de contabilidade aberto.
        - Jamie? - eu disse.
        - Sim?
        - O hospital... eu disse que iria pensar no assunto. Pense, tambm, hum?
        Ele virou a cabea, uma das sobrancelhas pronunciadamente arqueada. Em seguida, sorriu e balanou a cabea de leve.
        -vou subir daqui a pouco, Sassenach - ele disse.
        Ainda caa uma mistura de chuva e neve, e minsculas partculas de gelo aoitavam ruidosamente as janelas e sibilavam no fogo da lareira quando o vento noturno 
virava e as empurrava pelo cano da chamin. O vento estava intenso e gemia e rugia entre as chamins, fazendo o quarto parecer ainda mais aconchegante em contraste. 
A prpria cama era um osis de calor e conforto, equipada com acolchoados de penugem de ganso, travesseiros enormes e fofos, e Jamie, fielmente emitindo Unidades 
Trmicas Britnicas como um aquecedor eltrico.
        Sua mo grande e pesada acariciou de leve meu estmago, quente atravs da seda fina da minha camisola.
        - No, mais embaixo. Tem que apertar com um pouco mais de fora.
        - Peguei sua mo e pressionei seus dedos para baixo, pouco acima do osso pbico, onde o tero comeava a se tornar evidente, um inchao duro e redondo, um 
pouco maior do que uma laranja.
        - Sim, posso senti-lo - ele murmurou. - Ele est realmente a. - Um pequeno sorriso de encantamento e reverncia repuxou o canto de sua boca e ele ergueu 
o rosto para mim, o olhar cintilante. - Voc j pode senti-lo se mexer?
        Sacudi a cabea.
        - Ainda no. Mais um ms e pouco, eu acho, pelo que sua irm Jenny me disse.
        - Hum - ele disse, beijando o minsculo volume. - O que voc acha de "Dalhousie", Sassenach?
        - O que eu acho de "Dalhousie" como o qu? - perguntei.
        - Ora, como um nome - ele disse. Deu um tapinha de leve no meu ventre. - Ele vai precisar de um nome.
        -  verdade - eu disse. - Mas o que o faz pensar que seja um menino? pode muito bem ser uma menina.
        - Oh? Ah, sim,  verdade - admitiu, como se a possibilidade tivesse acabado de lhe ocorrer. - Ainda assim, por que no comear com nomes de meninos? Podamos 
lhe dar o nome do seu tio que a criou.
        - Huumm. - Franzi as sobrancelhas. Por mais que eu tivesse amado meu tio Lamb, no sabia se iria querer infligir nem "Lambert" nem "Quentin" num pobre beb 
indefeso. - No, acho que no. Por outro lado, tambm no acho que gostaria de lhe dar o nome de um de seus tios tampouco.
        Jamie acariciou minha barriga distraidamente, pensando.
        - Qual o nome de seu pai, Sassenach? - ele perguntou. Tive que parar um instante para me lembrar.
        - Henry - respondi. - Henry Montmorency Beauchamp. Jamie, eu novou dar o nome "Montmorency Fraser" a uma criana, de modo algum. Tambm no sou muito favorvel 
a "Henry", embora seja melhor do que Lambert. Que tal William? - sugeri. - Pelo seu irmo. - Seu irmo mais velho, William, morrera ainda criana, mas vivera o suficiente 
para Jamie lembrar-se dele com grande afeto.
        Franziu o cenho, absorto em seus pensamentos.
        - Humm - disse. - Sim, talvez. Ou poderamos cham-lo de... - James - disse uma voz oca e sepulcral, vinda da chamin da lareira.
        - O qu? - eu disse, sentando-me ereta na cama. - James - disse a lareira, impacientemente. - James, James!
        - Santo Deus! - Jamie exclamou, fitando as chamas saltitantes na lareira. Pude sentir os plos em seu brao arrepiarem-se, duros como arame. Ficou sentado, 
paralisado, por um instante; em seguida, ocorrendo-lhe um pensamento, ps-se de p num salto e dirigiu-se  janela que se projetava do telhado, sem se preocupar 
em vestir qualquer coisa por cima da camisa.
        Ergueu a vidraa da gua-furtada, deixando entrar uma rajada de ar frio e esticou a cabea para fora, na noite. Ouvi um grito abafado e em seguida um som 
arranhado pelas ardsias do telhado. Jamie inclinou-se ainda mais para fora, erguendo-se nas pontas dos ps, depois recuou devagar para dentro do quarto, molhado 
da chuva e grunhindo com o esforo. Arrastava com ele para dentro do quarto, os braos ao redor de seu pescoo a figura de um rapaz atraente de roupas escuras, completamente 
encharcado, com um pano manchado de sangue enrolado em volta de uma das mos.
        O visitante colocou o p no parapeito da janela e aterrissou desajeitadamente, estatelando-se no cho. Mas levantou-se logo e aos tropees, fez uma mesura 
para mim, arrancando o chapu desengonado.
        - Madame - disse, num francs de sotaque carregado. - Peo-lhe desculpas por chegar assim, sem cerimnia.  uma intruso, mas  por necessidade que recorro 
a meu amigo James em uma hora to imprpria.
        Era um rapaz vigoroso, atraente, com abundantes cabelos castanhoclaros cacheados e soltos sobre os ombros. E um rosto bonito, as faces afogueadas do frio 
e do esforo fsico. Seu nariz escorria um pouco e ele o limpou nas costas da mo envolvida no pano, contraindo-se um pouco ao faz-lo.
        Jamie, as duas sobrancelhas erguidas, saudou de modo educado o visitante com uma reverncia.
        - Minha casa est ao seu dispor, Alteza - ele disse, com um olhar que avaliava a desordem geral dos trajes do visitante. O lao da echarpe de seda do pescoo 
estava desfeito e as pontas soltas pendiam sobre o peito, metade dos botes estava abotoada de maneira torta e a braguilha de suas calas estava parcialmente aberta. 
Vi Jamie franzir a testa de leve diante disso e postar-se despercebidamente em frente ao rapaz, para ocultar de mim a indelicada viso.
        - Gostaria de apresentar-lhe minha esposa, Vossa Alteza - ele disse. Claire, lady Broch Tuarach. Claire, este  Sua Alteza o prncipe Carlos, filho do rei 
Jaime da Esccia.
        - Hum, sim - eu disse. - Foi o que imaginei. Ha, boa-noite, Alteza. Balancei a cabea graciosamente, puxando as cobertas para cima. Imaginei que, nas atuais 
circunstncias, ele podia dispensar a reverncia de costume.
        O prncipe aproveitara a prolixa apresentao de Jamie para ajeitar melhor as calas e agora balanava a cabea para mim, repleto de dignidade real.
        - O prazer  meu, madame - disse e fez uma nova reverncia, agora de uma forma muito mais elegante. Empertigou-se e ficou girando o chapu nas mos, obviamente 
pensando no que dizer em seguida. Jamie, parado ao lado dele com as pernas nuas, olhava de mim para Carlos, aparentemente da mesma forma embaraado, sem saber o 
que dizer.
        - Ha... - eu disse, para quebrar o silncio. - Sofreu um acidente, Alteza? - Balancei a cabea, indicando o leno amarrado em volta da mo e ele abaixou 
os olhos como se somente agora notasse o problema.
        - Sim - disse -, ah... no. Quero dizer... no  nada, milady. - Ficou ainda mais vermelho, olhando fixamente para a mo. Seus modos eram estranhos; algo 
entre raiva e constrangimento. Entretanto, eu podia ver a mancha de sangue espalhando-se no leno e, assim, coloquei os ps para fora da cama, tateando em busca 
do meu robe.
        -  melhor deixar eu dar uma olhada nisso - eu disse.
        O ferimento, exposto com alguma relutncia pelo prncipe, no era grave, mas era incomum.
        - Parece uma mordida de um animal - eu disse, incrdula, limpando delicadamente o pequeno semicrculo de perfuraes na pele entre o polegar e o indicador. 
O prncipe Carlos contraiu-se quando espremi o tecido ao redor, no intuito de limpar o ferimento atravs do sangramento, antes de enfaix-lo.
        - Sim - ele disse. - Uma mordida de macaco. Bicho nojento, infestado de pulgas! - explodiu. - Eu disse a ela para livrar-se dele. com certeza o animal est 
doente!
        Eu encontrara minha caixa de remdios e agora aplicava uma fina camada de ungento de genciana.
        - Acho que no precisa se preocupar - eu disse, atenta ao meu trabalho. - Quer dizer, desde que ele no esteja infectado com raiva.
        - Raiva? - O prncipe ficou lvido. - Acha que poderia estar? Obviamente, ele no fazia a menor idia do que era a doena, mas no queria ter nada a ver 
com ela.
        - Tudo  possvel - eu disse, animada. Surpresa com sua repentina apario, somente agora eu estava comeando a perceber que, no final das contas, pouparia 
muito trabalho a muita gente se aquele rapaz sucumbisse elegantemente a alguma doena rpida e mortal. Ainda assim, em meu corao no pude desejar que ele tivesse 
gangrena ou raiva e, deste modo, enfaixei sua mo com cuidado com uma atadura limpa de linho.
        Ele sorriu, inclinou-se numa mesura outra vez, e agradeceu-me charmosamente numa mistura de francs e italiano. Ainda desculpando-se de modo efusivo pela 
visita inoportuna, ele foi com toda a educao rebocado por Jamie, agora respeitavelmente vestido com seu kilt, para tomar uma bebida l embaixo.
        Sentindo o frio do quarto infiltrar-se pelo meu robe e minha camisola, enfiei-me de novo na cama e puxei as cobertas at o queixo. Ento, aquele era o prncipe 
Carlos! Realmente belo, como seu apelido, "bon-le", ao menos, na aparncia. Parecia muito jovem - muito mais novo do que Jamie, embora eu soubesse que Jamie era 
apenas um ou dois anos mais velho. Mas Sua Alteza realmente possua modos encantadores e boa dose de dignidade e presuno, apesar dos trajes desalinhados. Seria 
isso suficiente para lev-lo  Esccia,  frente de um exrcito de restaurao? Conforme eu cochilava, perguntava-me exatamente o que o herdeiro do trono da Esccia 
andara fazendo, perambulando pelos telhados de Paris no meio da noite, com uma mordida de macaco na mo.
        A questo ainda estava na minha cabea quando Jamie acordou-me algum tempo depois ao deslizar para baixo das cobertas e plantar os ps grandes e congelados 
direto atrs dos meus joelhos.
        - No grite assim - ele disse. - Vai acordar os empregados.
        - Que diabos Carlos Stuart estava fazendo correndo pelos telhados com macacos? - perguntei, esquivando-me. - Tire esses malditos cubos de gelo de mim.
        - Visitando sua amante - disse Jamie, de modo sucinto. - Est bem, pare de me chutar. - Ele retirou os ps e abraou-me, tremendo de frio, quando me virei 
para ele.
        - Ele tem uma amante? Quem? - Estimulada por aragens de frio de escndalo, eu despertava rpido.
        - Louise de La Tour - Jamie explicou com relutncia, em resposta  minha cutucada. Seu nariz parecia mais longo e afilado do que de costume, com as sobrancelhas 
grossas reunidas logo acima. Ter uma amante j era bastante ruim, em sua viso catlica escocesa, mas era amplamente sabido que a realeza possua certos privilgios 
a esse respeito. Entretanto, a princesa Louise de La Tour era casada. E realeza ou no, tomar uma mulher casada como amante era decididamente imoral, apesar do exemplo 
de seu tio Jared.
        - Ah! - exclamei com satisfao. - Eu sabia!
        - Ele diz que est apaixonado por ela - relatou sucintamente, puxando as cobertas at os ombros com um safano. - Ele insiste em dizer que ela tambm o ama; 
diz que ela tem sido fiel apenas a ele nos ltimos trs meses. Essa  boa!
        - Bem, s vezes acontece - eu disse, achando graa. - Ento, ele a estava visitando? Mas, ento, como ele foi parar no telhado? Ele lhe contou isso?
        - Ah, sim. Ele me contou.
        Carlos, fortalecido contra a noite com vrios copos do melhor Porto envelhecido de Jared, mostrara-se bastante expansivo. A fora do verdadeiro amor fora 
posta duramente  prova nesta noite, segundo Carlos, pela devoo de sua enamorada a seu animal de estimao, um macaco um tanto mal-humorado que retribua a antipatia 
de Sua Alteza e possua meios mais concretos de demonstrar suas opinies. Estalando os dedos sob o nariz do macaco num ato de deboche, Sua Alteza sofrera primeiro 
uma lancinante mordida na mo e, depois, a mordida ainda mais lancinante da lngua de sua amante, exercida em amarga repreenso. O casal discutira a ponto de Louise, 
princesa de Rohan, ordenar a Carlos que desaparecesse de sua presena. Ele dissera que estava mais do que disposto a ir embora - para no retornar, enfatizou de 
modo dramtico, nunca mais.
        A partida do prncipe, entretanto, fora consideravelmente atrasada pela descoberta de que o marido da princesa retornara mais cedo de sua noite de jogatina 
e estava instalado com todo o conforto na ante-sala com uma garrafa de conhaque.
        - Ento - Jamie disse, sorrindo sem querer diante da idia -, ele no queria ficar com a rapariga, mas no podia sair pela porta. Assim, ele abriu a vidraa 
e pulou para o telhado. Desceu at quase a rua, disse, pelas calhas de escoamento da chuva; mas o guarda municipal apareceu e ele teve que arrastar-se para cima 
outra vez para ficar fora de suas vistas. Passou um mau bocado, segundo ele, desviando-se das chamins e escorregando pelas ardsias molhadas, at que lhe ocorreu 
que nossa casa ficava a apenas trs casas adiante e que os telhados eram suficientemente prximos para ele pular de um para o outro como se fossem folhas de ninfias.
        - Hum - eu disse, sentindo o calor restabelecer-se em torno dos dedos dos meus ps. - Voc o mandou para casa na carruagem?
        - No, ele levou um dos cavalos do estbulo.
        - Se ele andou bebendo o Porto de Jared, espero que ambos consigam chegar a Montmartre - observei. -  uma boa distncia.
        - Bem, vai ser uma jornada longa e molhada, sem dvida - Jamie disse, com a satisfao de um homem legalmente casado e virtuosamente enfiado numa cama quente 
com sua esposa. Apagou a vela e puxou-me para junto do seu peito, como uma colher.
        - Bem feito - murmurou. - Um homem deve se casar.
        Os empregados acordaram antes do sol nascer, limpando e lustrando em preparao para receber monsieur Duverney em um pequeno jantar particular  noite.
        - No sei para que se do ao trabalho - eu disse a Jamie, deitada na cama com os olhos fechados, ouvindo o grande af no andar de baixo. Tudo que precisam 
fazer  tirar a poeira do tabuleiro de xadrez e deixar  too uma garrafa de conhaque. Ele no vai notar mais nada mesmo.
        Ele riu e inclinou-se para me dar um beijo de despedida.
        - Est bem assim;vou precisar de um bom jantar se quiser continuar ganhando dele. - Deu um tapinha no meu ombro, despedindo-se. -vou ao depsito, Sassenach, 
mas chegarei em casa a tempo de me vestir.
        Em busca de alguma coisa para fazer que me tirasse do caminho dos empregados, por fim decidi fazer com que um lacaio me conduzisse at a casa dos Rohan. 
Talvez Louise precisasse de um pouco de consolo, pensei, depois de sua discusso na noite anterior. Curiosidade vulgar, disse a mim mesma com convico, no tinha 
nada a ver com isso.
        Quando retornei no final da tarde, encontrei Jamie relaxado numa cadeira perto da janela do quarto com os ps apoiados em cima da mesa, o colarinho aberto 
e os cabelos desgrenhados, debruado sobre um mao de folhas rabiscadas. Ergueu os olhos ao som da porta fechando-se e a expresso absorta desfez-se num largo sorriso.
        - Sassenach! A est voc! - Colocou os ps no cho e atravessou o aposento para me abraar. Enterrou o rosto nos meus cabelos, aninhando-se, depois se afastou 
e espirrou. Espirrou outra vez e soltou-me para tatear em sua manga  procura de um leno que carregava ali, ao estilo militar.
        - Que cheiro  este, Sassenach? - perguntou, pressionando o leno de linho no nariz bem a tempo de abafar os resultados de outro espirro explosivo.
        Enfiei a mo no decote do vestido e retirei o pequeno sach do meio dos meus seios.
        - Jasmim, rosas, jacintos e lrio-do-vale... ambrosia-americana tambm, ao que parece - acrescentei, enquanto ele bufava e resfolegava nas profundezas avantajadas 
do leno. - Voc est bem? - Olhei ao redor em busca de algum cesto de lixo e me decidi por jogar o sach em uma caixa de papis de carta sobre a minha escrivaninha 
do outro lado do aposento.
        - Sim, tudo bem. E o aaa... aaaa....aaaTCHIM!
        - Sade! - Abri a janela de par em par e fiz sinal para que ele se aproximasse. Obedientemente, ele lanou a cabea e os ombros para fora da janela, na garoa 
da manh, inspirando lufadas de ar fresco, isento de jacinto.
        - Ah, assim est melhor - disse com alvio, tirando a cabea do chuvisco alguns instantes depois. Seus olhos arregalaram-se. - O que est fazendo agora, 
Sassenach?
        - Lavando-me - expliquei, lutando com os cordes nas costas do meu vestido. - Ou me preparando para isso, pelo menos. Estou coberta de leo de jacinto - 
expliquei, enquanto ele pestanejava. - Se eu no me lavar para tir-lo,  capaz de voc explodir.
        Ele enxugou o nariz pensativo e balanou a cabea, concordando.
        - Nisso voc tem razo, Sassenach. Quer que eu mande o criado trazer gua quente?
        - No, no se preocupe. Uma toalha mida deve retirar quase tudo - assegurei-lhe, desabotoando e desamarrando minhas roupas o mais rpido possvel. Ergui 
os braos para trs, a fim de juntar meus cabelos e fazer um coque. De repente, Jamie inclinou-se para frente e agarrou meu pulso, esticando meu brao para cima.
        - O que est fazendo? - perguntei, levando um susto.
        - O que voc andou fazendo, Sassenach? - perguntou. Olhava fixamente para minha axila.
        - Depilei - eu disse com orgulho. - Ou melhor, tirei com cera. Louise estava com sua servante aux petits soins, voc sabe, sua ajudante de embelezamento? 
Ela estava l hoje de manh e me depilou tambm.
        - Com cera? - Jamie olhou espantado para a vela no castial, junto ao jarro d'gua, depois de novo para mim. - Voc colocou cera nas axilas?
        - No esse tipo de cera - assegurei-lhe. - Cera de abelhas perfumada. A mulher aqueceu a cera, depois espalhou a cera morna na pele. Quando esfria,  s 
puxar - encolhi-me involuntariamente diante da lembrana -, e isso no  nenhum bicho-de-sete-cabeas.
        - No conheo nenhum bicho com sete cabeas - disse Jamie com ar severo. - Por que diabos haveria voc de fazer isso? - Olhou atentamente o local da operao, 
ainda segurando meu brao levantado no ar. - Isso no... doeu... credo! - Deixou meu brao cair e recuou rpido.
        - No doeu? - perguntou, o leno no nariz outra vez.
        - Bem, um pouco - admiti. - Mas valeu a pena, no acha? - perguntei, erguendo os dois braos como uma bailarina e girando de um lado para o outro. - Primeira 
vez que me senti completamente limpa em meses.
        - Valeu a pena? - ele exclamou, soando um tanto atordoado. - O que tem a ver com limpeza arrancar todos os plos de baixo dos braos?
        Um pouco tardiamente, percebi que nenhuma mulher escocesa que eu conheci empregava qualquer forma de depilao. Alm disso, era quase certo que Jamie nunca 
estivera em contato suficientemente ntimo com uma parisiense de alta-classe para saber que a maioria delas se depilava.
        - Bem - eu disse, de repente compreendendo a dificuldade que um antroplogo enfrenta ao tentar interpretar os costumes mais singulares de uma tribo primitiva. 
- Cheira muito menos - acrescentei.
        - E o que h de errado na maneira como voc cheira? - ele disse acaloradamente. - Ao menos, voc cheira como uma mulher, no como uma maldita flor de jardim. 
O que acha que eu sou, um homem ou uma abelha? Poderia se lavar, Sassenach, para que eu possa ficar a menos de dez passos de voc?
        Peguei uma pequena toalha como esponja e comecei a limpar o torso. Madame Laserre, a mulher encarregada dos cuidados de beleza de Louise, aplicara leo perfumado 
em todo o meu corpo; esperava que sasse com facilidade. Era desconcertante v-lo pairando ao meu redor fora do alcance do cheiro, fitando-me como um lobo acuando 
sua presa.
        Virei-me de costas para mergulhar a esponja na bacia e disse descontraidamente por cima do ombro:
        - Ha, e depilei as pernas tambm.
        Lancei um olhar furtivo por cima do ombro. O choque original transformava-se em uma expresso de total perplexidade.
        - Suas pernas no tinham cheiro nenhum - ele disse. - A menos que tenha andado com bosta de vaca at o joelho.
        Virei-me e levantei minhas saias at os joelhos, apontando o dedo do p para a frente a fim de exibir as curvas delicadas da minha perna.
        - Mas ficaram to mais bonitas - ressaltei. - Lisas e macias; no como as de um macaco peludo.
        Ele abaixou os olhos para os prprios joelhos penugentos, ofendido.
        - E eu sou um macaco?
        - Voc, no. Eu! - exclamei, ficando exasperada.
        - Minhas pernas so muito mais cabeludas do que as suas jamais sero!
        - Bem, elas devem ser assim; voc  homem!
        Ele inspirou como se fosse responder, depois soltou o ar outra vez, sacudindo a cabea e resmungando alguma coisa para si mesmo em galico. Atirou-se de 
volta na cadeira e recostou-se, observando-me atravs de olhos semicerrados e de vez em quando resmungando sozinho de novo. Resolvi no pedir uma traduo.
        Depois que a maior parte do meu banho estava realizada no que pode melhor ser descrito como um ambiente carregado, decidi tentar a reconciliao.
        - Poderia ter sido pior, sabe - eu disse, passando a esponja na parte de dentro da minha coxa. - Louise mandou remover todos os plos do seu corpo.
        Isso lhe causou um sobressalto que por sua vez o fez voltar ao ingls, ao menos temporariamente.
        - O qu? Ela removeu os plos da perereca? - ele disse, horrorizado a ponto de adotar uma vulgaridade que no lhe era prpria.
        - Hum-hum - respondi, satisfeita de que tal viso afastara suas atenes de minha prpria condio inquietantemente pelada. - Cada plo. Madame Laserre arrancou 
at mesmo os extraviados.
        - Nosso Senhor Jesus Cristo! - Ele fechou os olhos com fora, ou para evitar ou para melhor contemplar a perspectiva que eu descrevera.
        Evidentemente, a ltima hiptese era a verdadeira, porque ele abriu os olhos outra vez e olhou-me espantado, perguntando:
        - E agora ela est andando por a pelada como uma menina?
        - Ela diz que os homens acham ertico.
        213
        Suas sobrancelhas quase se encontraram com a linha dos cabelos, um trao interessante para quem tinha a fronte to classicamente alta.
        - Gostaria muito que voc parasse com esses resmungos - observei, pendurando a toalha no espaldar de uma cadeira para secar. - No consigo entender nem uma 
palavra do que diz.
        -  melhor que seja assim, Sassenach.
        
        
        
        
12 - L'HPITAL DS ANGES
        
        - Est bem - Jamie disse resignadamente durante o desjejum. Apontou uma colher para mim, avisando: - Pode ir, ento. Mas Murtagh a acompanhar, alm do lacaio; 
 uma vizinhana pobre ali perto da catedral.
        - Me acompanhar? - Sentei-me empertigada, empurrando para longe de mim a tigela de mingau que eu vinha examinando com pouco entusiasmo. -Jamie! Quer dizer 
que voc no se importa que eu visite L'Hpital ds Anges?
        - No sei se no me importo - disse, comendo uma colherada do seu prprio mingau metodicamente. - Mas acho que vou me importar muito mais se ele no for 
com voc. E se voc trabalhar no hospital, ao menos isso impedir que passe todo o seu tempo com Louise de Rohan. Imagino que haja coisas piores do que conviver 
com mendigos e criminosos - disse, com ar soturno. - Pelo menos, espero, no vai voltar do hospital com suas partes ntimas depenadas.
        - Farei todo o possvel - assegurei-lhe.
        Eu j vira muitas enfermeiras-chefe na minha poca, e algumas realmente excelentes, que haviam elevado um trabalho ao nvel de uma vocao. Com madre Hildegarde, 
o processo fora invertido, com resultados impressionantes.
        Hildegarde de Gascogne era a pessoa mais adequada que eu podia imaginar para ser responsvel por um lugar como L'Hpital ds Anges. Com quase um metro e 
oitenta de altura, sua figura ossuda e macilenta, embrulhada em metros de l preta, assomava acima das irms enfermeiras como um espantalho num cabo de vassoura, 
guardando uma plantao de abboras. Carregadores, pacientes, freiras, serventes, novias, visitantes, farmacuticos, todos eram arrebatados pela fora de sua presena, 
para serem arrumados em pilhas meticulosas, onde quer que madre Hildegarde decretasse.
        Com sua altura, alm de um rosto de uma feira to sublime a ponto de ser grotescamente belo, era bvio o motivo pelo qual ela abraara a vida religiosa 
- Cristo era o nico homem de quem ela podia esperar que retribusse seu amor.
        Sua voz era gutural e ressonante; com o seu sotaque nasalado de Gasconha, reverberava pelos corredores do hospital como o eco dos sinos da igreja ao lado. 
Pude ouvi-la algum tempo antes de v-la, a voz sonora aumentando de volume conforme ela descia o corredor em direo ao escritrio onde seis senhoras da corte e 
eu amontovamo-nos atrs de herr Gerstmann, como habitantes de uma ilha  espera da chegada de um furaco, comprimidos atrs de uma frgil barricada.
        Ela preencheu o vo da porta com um zumbido de asas de morcegos e abateu-se sobre herr Gerstmann com um grito de xtase, beijando-o sonoramente nas duas 
faces.
        - Mon cher ami! Que prazer inesperado. E melhor ainda pelo carter imprevisvel. O que o traz a mim?
        Endireitando-se, exibiu um amplo sorriso para o resto de ns. O sorriso permaneceu amplo enquanto herr Gerstmann explicava nossa misso, embora uma adivinha 
menos experiente do que eu poderia ter visto o enrijecimento dos msculos das faces que o transformavam de uma graa social em um ricto de necessidade.
        - Apreciamos muito seus pensamentos e sua generosidade, mesdames.
        - A voz gutural, sonora, continuou com um gracioso discurso de gratido. Enquanto isso, eu podia ver os olhos pequenos e inteligentes, fundos sob a fronte 
ossuda, indo e vindo apressadamente, decidindo a melhor forma de descartar-se daquele aborrecimento o mais rpido possvel, mas ainda assim extraindo o dinheiro 
de que aquelas piedosas senhoras pudessem estar dispostas a abrir mo em proveito de suas almas.
        Tendo chegado a uma concluso, bateu palmas energicamente. Uma freira baixa, da ordem geral de Cock-Robin, surgiu no vo da porta como um boneco de molas 
sado de uma caixa de surpresas.
        - Irm Angelique, tenha a bondade de conduzir estas senhoras ao dispensrio - ordenou. - D-lhes roupas adequadas e em seguida mostre-lhes a enfermaria. 
Elas podem ajudar com a distribuio de comida aos pacientes, se estiverem dispostas. - Um ligeiro esgar da boca fina e larga deixou evidente que madre Hildegarde 
no esperava que a piedosa inclinao das senhoras sobrevivesse  visita  enfermaria.
        Madre Hildegarde era uma sagaz juza da natureza humana. Trs das senhoras conseguiram ir at o fim da visita  primeira enfermaria, com seus casos de escrfula, 
sarna, eczema, fluxo e ftida piemia, antes de decidirem que suas inclinaes caridosas poderiam ser inteiramente realizadas com uma doao ao Hpital e voltarem 
voando ao dispensrio para tirar a Vestimenta de tecido rstico que haviam nos fornecido.
        No centro da enfermaria seguinte, um homem alto e desengonado, Vestindo uma sobrecasaca preta, realizava o que parecia ser uma hbil amputao de uma perna; 
particularmente hbil porque o paciente no estava sedado de nenhuma forma visvel e era contido no momento pelos esforos de dois robustos serventes e uma freira 
de compleio slida que estava sentada sobre o peito do paciente, suas saias amplas felizmente ocultando o rosto do homem.
        Uma das senhoras atrs de mim soltou um pequeno grito engasgado; quando olhei  minha volta, tudo que vi foram as retaguardas um tanto largas de duas das 
pretensas samaritanas, com os quadris entalados lado a lado no estreito vo da porta que levava ao dispensrio e  liberdade. Com um ltimo puxo desesperado e o 
barulho de seda rasgada, elas conseguiram passar e precipitaram-se pelo corredor escuro, quase derrubando um servente que vinha trazendo uma bandeja com uma pilha 
alta de lenis de linho e instrumentos cirrgicos.
        Olhei para o lado e achei graa de ver que Mary Hawkins ainda estava ali. Um pouco mais branca do que as toalhas cirrgicas de linho - que possuam um vergonhoso 
tom de cinza, verdade seja dita - e um pouco verde em volta das narinas, mas ainda ali.
        - Vitel Dpchez-vousl - lanou um chamado imperioso, dirigido talvez ao abalado servente, que apressadamente rearranjou sua bandeja e correu para o local 
onde o homem alto e sombrio estava parado, o serrote de ossos na mo, pronto para cortar um osso de coxa exposto. O servente inclinou-se para amarrar um segundo 
torniquete acima do lugar da operao, o serrote desceu com um som spero indescritvel e eu tive pena de Mary Hawkins, virando-a na direo contrria. Seu brao 
tremia sob minha mo e os lbios de penia estavam descorados e apertados como uma flor crestada pela geada.
        - Gostaria de ir embora? - perguntei educadamente. - Tenho certeza de que madre Hildegarde pode chamar uma carruagem para lev-la. Olhei por cima do ombro 
para a escurido vazia do corredor. - Receio que a condessa e madame Lambert j tenham partido.
        Mary engoliu em seco audivelmente, mas endureceu o maxilar j firme com determinao.
        - N-no - disse. - Se voc ficar, eu fico.
        Eu definitivamente pretendia ficar. A curiosidade e o mpeto de me imiscuir nas operaes do L'Hpital ds Anges eram fortes demais para compensar qualquer 
sentimento de piedade que eu pudesse nutrir pelas susceptibilidades de Mary Hawkins.
        A irm Angelique seguira bem adiante antes de perceber que ns havamos parado. Retornando, parou pacientemente  nossa espera, um leve sorriso no rosto 
rechonchudo, como se esperasse que ns tambm fssemos nos virar e sair correndo. Inclinei-me sobre um catre na altura do cho. Uma mulher muito magra estava deitada 
languidamente sob um nico cobertor, os olhos embotados vagando por ns sem interesse. No foi a mulher que atraiu minha ateno, mas o recipiente de vidro de forma 
estranha no cho, ao lado do catre.
        O recipiente estava cheio de um lquido amarelo at a borda - urina, sem dvida. Fiquei ligeiramente surpresa; sem testes qumicos, ou sequer papel de tornassol, 
que utilidade poderia ter uma amostra de urina? Entretanto, pensando nas diversas enfermidades para as quais testava-se a urina, tive uma idia.
        Peguei o recipiente com todo o cuidado, ignorando a exclamao de alarmado protesto da irm Angelique. Cheirei o lquido com cautela. De fato; parcialmente 
obscurecido por cidos vapores de amnia, o fluido tinha um cheiro doentiamente adocicado - mais ou menos como mel azedado. Hesitei, mas havia apenas uma maneira 
de me certificar. Com uma careta de nojo, enfiei a ponta de um dedo escrupulosamente no lquido e toquei-o de modo delicado em minha lngua.
        Mary, a meu lado, olhando tudo com os olhos esbugalhados, engasgou-se ligeiramente, mas a irm Angelique observava com sbito interesse. Coloquei a mo na 
testa da mulher; estava fresca - nenhuma febre que explicasse o definhamento.
        - Tem sede, madame? - perguntei  paciente. Eu j sabia a resposta antes mesmo que ela falasse, vendo a garrafa de gua vazia perto de sua cabea.
        - Sempre, madame - respondeu. - E sempre com fome, tambm. No entanto, nenhuma carne se acumula nos meus ossos, por mais que eu coma. - Ergueu um brao fino 
como um galhinho, exibindo o pulso ossudo, depois o deixou cair como se o esforo a deixasse exausta.
        Dei uns tapinhas delicados na mo esqulida e murmurei alguma coisa em despedida, meu entusiasmo por ter feito um diagnstico correto praticamente dissipado 
pelo conhecimento de que no havia cura possvel para diabetes melito nesta poca; a mulher diante de mim estava condenada.
        Desanimada, ergui-me para seguir a irm Angelique, que diminuiu seus passos apressados para caminhar ao meu lado.
        - Sabe do que ela sofre, madame? - a freira perguntou, curiosa. Apenas pela urina?
        - No somente por isso - respondi. - Mas, sim, eu sei. Ela tem - Droga! Como ser que chamavam isso atualmente? - Ela tem... hum, doena do acar. Ela no 
consegue se nutrir daquilo que come e sente uma sede terrvel. Conseqentemente, produz grandes quantidades de urina.
        A irm Angelique balanava a cabea, um olhar de intensa curiosidade estampado nas feies gorduchas.
        - E sabe dizer se ela vai se recuperar, madame?
        - No, no vai - respondi sem rodeios. - Ela j est em estado terminal. No deve durar nem mais um ms.
        - Ah. - As sobrancelhas claras arquearam-se e o olhar de curiosidade foi substitudo pelo de respeito. - Foi o que monsieur Parnelle disse.
        - E quem  ele? quando est na casa? - perguntei petulantemente. A rolia freira franziu a testa, confusa.
        - Bem, em seu prprio estabelecimento, acho que ele  fabricante de fundas para hrnia e joalheiro. No entanto, quando vem aqui, em geral, atua como "urinoscopista".
        Senti minhas prprias sobrancelhas erguerem-se.
        - "Urinoscopista?" - perguntei, incrdula. - Existe isso de verdade?
        - Oui, madame. E ele disse exatamente o que a senhora disse, sobre a pobre mulher que est definhando. Nunca ouvi falar de uma mulher que conhecesse a cincia 
da urinoscopia - disse a irm Angelique, fitando-me com franca admirao.
        - Bem, h mais coisas entre o cu e a terra do que sonha a v filosofia, irm - eu disse, afavelmente. Ela balanou a cabea com seriedade, fazendo-me sentir 
um pouco envergonhada do meu gracejo.
        -  verdade, madame. Poderia dar uma olhada no homem que est na ltima cama? Ele se queixa do fgado, eu acho.
        Continuamos de uma cama a outra, fazendo o circuito completo de todo o enorme salo. Vimos exemplos de doenas que eu s vira nos livros de medicina e todo 
tipo de ferimento traumtico, desde machucados na cabea infligidos em brigas de bbados at um carroceiro cujo peito fora esmagado por um barril de vinho que rolara 
da carroa.
        Parei junto a algumas camas, fazendo perguntas queles pacientes que pareciam em condies de responder. Eu podia ouvir Mary respirando pela boca atrs dos 
meus ombros, mas no verifiquei para ver se ela de fato estava prendendo o nariz.
        Ao final da visita, a irm Angelique virou-se para mim com um sorriso irnico.
        - E ento, madame? Ainda quer servir ao Senhor ajudando os desafortunados?
        Eu j estava enrolando as mangas do meu vestido.
        - Traga-me uma bacia de gua quente, irm, e um sabo.
        - Como foi a visita, Sassenach? - Jamie perguntou.
        - Terrvel! - respondi, irradiando contentamento.
        Ele ergueu uma das sobrancelhas, sorrindo para mim enquanto eu me esparramava no sof.
        - Ah, ento, divertiu-se, hein?
        - Ah, Jamie, foi to bom me sentir til outra vez! Limpei assoalho, dei mingau aos pacientes e, quando a irm Angelique no estava olhando, consegui trocar 
alguns curativos sujos e lancetar um abscesso.
        - Ah, timo - ele disse. - Lembrou-se de comer, em meio a todas essas frivolidades?
        - Ha, no, para dizer a verdade, no - respondi, sentindo-me culpada.
        - Por outro lado, tambm me esqueci de ficar enjoada. - Como se tivesse sido relembrada de um crime, as paredes de meu estmago contraram-se de sbito. 
Pressionei o punho cerrado sob meu esterno. - Talvez fosse bom comer alguma coisa.
        - Talvez fosse mesmo - ele concordou, um pouco severo, levando a mo ao sino.
        Ficou observando enquanto eu obedientemente comia torta de carne e queijo, descrevendo L'Hpital ds Anges e seus internos com entusistico detalhamento 
entre uma mordida e outra.
        - Algumas enfermarias esto superlotadas: dois ou trs numa cama, o que  terrvel, mas... no quer um pouco? - Parei para perguntar. - Est muito boa.
        Ele olhou o pedao de torta que eu estendia para ele.
        - Se acha que pode deixar de me contar sobre unhas dos ps gangrenadas tempo suficiente para que ela desa da minha garganta ao meu estmago, ento sim.
        Somente ento notei a lividez de suas faces e o leve aperto de suas narinas. Servi uma caneca de vinho e entreguei a ele antes de pegar meu prato outra vez.
        - E como foi o seu dia, querido? - perguntei.
        L'Hpital ds Anges tornou-se um refgio para mim. A maneira franca, direta e simples das freiras e pacientes era um maravilhoso refrigrio da contnua tagarelice 
de intrigas e mexericos das damas e cavalheiros da corte. Tambm era positivo o fato de que, sem o alvio de permitir que "meus msculos faciais relaxassem em suas 
expresses normais no hospital, meu rosto iria logo se congelar em uma expresso de permanente insipidez e afetao.
        Vendo que eu parecia saber o que estava fazendo, sem exigir nada delas alm de algumas ataduras e panos, as freiras rpido aceitaram a minha presena. E 
aps um choque inicial diante do meu sotaque e ttulo, os pacientes
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        tambm. O preconceito social  uma fora poderosa, mas no resiste  simples competncia quando  grande a demanda e pouca a oferta de capacidade e conhecimento.
        Madre Hildegarde, apesar de muito ocupada, reservou um pouco mais do seu tempo para fazer seu prprio juzo a meu respeito. No comeo, ela nunca falava comigo, 
alm de um simples: "Bonjour, madame", de passagem. Entretanto, eu com freqncia sentia o peso daqueles olhinhos pequenos e astutos penetrando em minhas costas 
enquanto eu trabalhava - quando me inclinava sobre a cama de um velho com herpes-zster ou espalhava ungento de alo nas bolhas de uma criana queimada num dos 
freqentes incndios domsticos que acometiam os bairros mais pobres da cidade.
        Ela nunca dava a impresso de estar com pressa, mas cobria uma grande distncia durante o dia, percorrendo as pedras cinza e planas das enfermarias do Hpital 
com uma passada que avanava um metro de cada vez, seu pequeno cachorro branco, Bouton, correndo em seus calcanhares para conseguir acompanh-la.
        Muito diferente dos fofos cachorrinhos de colo to populares entre as damas da corte, ele parecia vagamente o resultado de um cruzamento de poodle com bass, 
com plos desgrenhados e ondulados, cujas franjas agitavam-se em volta de uma barriga grande e de pernas atarracadas e arqueadas. As patas, com os dedos abertos 
como um leque e as unhas pretas, produziam um rudo seco e frentico nas pedras do assoalho, conforme ele trotava atrs de madre Hildegarde, o focinho pontudo quase 
tocando as pregas negras e deslizantes de seu hbito.
        - Isso  um cachorro? - perguntei a um dos serventes, surpresa, quando contemplei Bouton pela primeira vez, atravessando o Hpital nos calcanhares de sua 
dona.
        Ele fez uma pausa na sua tarefa de varrer o cho para olhar a cauda emplumada, cacheada, que desaparecia na enfermaria seguinte.
        - Bem - disse em dvida -, madre Hildegarde diz que  um cachorro. No serei eu quem vai dizer que no .
        Quando me tornei mais amiga das freiras, serventes e mdicos visitantes do Hpital, ouvi vrias outras opinies a respeito de Bouton, de tolerantes a supersticiosas. 
Ningum sabia ao certo onde madre Hildegarde o pegara, nem por qu. Ele ja era membro do hospital h vrios anos, com uma posio hierrquica - na opinio de madre 
Hildegarde, que era a nica que contava - bem superior  das irms enfermeiras e igual  da maioria dos mdicos e farmacuticos visitantes.
        Alguns desses ltimos olhavam-no com desconfiada averso, outros com alegre afabilidade. Um cirurgio referia-se a ele rotineiramente longe dos ouvidos da 
madre superiora - como o "nojento rato", outro como o "coelho fedido", e um gordo e baixo fabricante de fundas para hrnia cumprimentava-o abertamente como "monsieur 
Pano de Prato". As freiras consideravam-no algo entre uma mascote e um totem, enquanto o jovem padre da catedral ao lado, que fora mordido na perna quando veio administrar 
os sacramentos aos pacientes, confidenciou-me sua prpria opinio de que Bouton era um dos demnios menores, disfarado de cachorro para seus prprios fins malignos.
        Apesar do tom pouco lisonjeiro das observaes do padre, achei que ele talvez fosse quem mais perto chegara da verdade. Pois aps vrias semanas observando 
a dupla, eu chegara  concluso de que Bouton era na realidade um parente de madre Hildegarde.
        Ela conversava com ele muitas vezes, no no tom com que as pessoas em geral falam com os ces, mas como algum que discute questes importantes com um de 
seus pares. Quando ela parava ao lado de uma ou outra cama, Bouton geralmente pulava em cima do colcho, cheirando e focinhando o paciente espantado. Ento, sentava-se, 
normalmente sobre as pernas do paciente, latia uma vez e erguia os olhos inquisitivamente para a madre superiora, sacudindo a cauda sedosa e emplumada como se perguntasse 
a opinio dela sobre o diagnstico - a qual ela nunca negava.
        Embora eu estivesse curiosa a respeito desse comportamento, no tivera nenhuma oportunidade de observar mais de perto aquela estranha dupla at uma manh 
escura e chuvosa em maro. Eu estava ao lado da cama de um carroceiro de meia-idade, conversando informalmente com ele enquanto tentava descobrir o que diabos havia 
de errado com o sujeito.
        Fora um caso que chegara na semana anterior. Ele tivera a perna presa na roda da carroa quando apeou de modo descuidado antes de o veculo ter parado completamente. 
Era uma fratura mltipla, mas pouco complicada. Eu recoloquei o osso no lugar e o ferimento parecia estar se curando bem. O tecido ostentava um rosado saudvel, 
com uma boa granulao, nenhum mau cheiro, nenhum veio vermelho revelador, nenhum lugar extremamente dolorido, absolutamente nada que explicasse por que o sujeito 
ainda ardia em febre e produzia a urina escura e ftida de uma infeco persistente.
        - Bonjour, madame. - A voz gutural e intensa soou acima de mim e eu ergui os olhos para a figura imponente de madre Hildegarde. Algo passou zumbindo pelo 
meu cotovelo e Bouton aterrissou no colcho com um baque surdo que fez o paciente gemer baixinho.
        - O que acha? - perguntou madre Hildegarde. Eu no tinha a menor idia se ela estava se dirigindo a mim ou a Bouton, mas aceitei o benefcio da dvida e 
expliquei o que havia observado.
        - Ento, deve haver uma segunda fonte de infeco - conclu -, mas no consigo ach-la. Estou imaginando agora se ele no teria uma infeco interna que 
no est relacionada ao ferimento na perna. Uma leve apendicite ou uma infeco da bexiga, talvez, embora eu tambm no encontre nenhum ponto dolorido no abdmen.
        Madre Hildegarde balanou a cabea.
        - Uma possibilidade, sem dvida. Bouton! - O cachorro inclinou a cabea em direo  sua dona, que sacudiu o queixo alongado indicando o paciente. - A la 
bouche, Bouton - ordenou. Pisando com delicadeza, o cachorro enfiou o focinho redondo e negro que provavelmente era o responsvel por seu nome no rosto do carroceiro. 
Os olhos do indivduo, as plpebras pesadas de febre, arregalaram-se com a intruso, mas um rpido olhar  presena imponente de madre Hildegarde estancou qualquer 
queixa que ele pudesse estar pensando fazer.
        - Abra a boca - madre Hildegarde instruiu e tal era a sua fora de carter que ele obedeceu, embora seus lbios se contorcessem com a proximidade do focinho 
de Bouton. Beijar cachorro obviamente no constava de sua agenda de atividades desejveis.
        - No - disse madre Hildegarde pensativamente, observando Bouton. - No  isso. Procure em outro lugar, Bouton, mas com cuidado. Lembre-se de que ele tem 
a perna quebrada.
        Como se de fato tivesse entendido cada palavra, o cachorro comeou a cheirar o paciente curiosamente, enfiando o focinho em suas axilas, colocando as patas 
curtas em seu peito para investigar, focinhando delicadamente ao longo da virilha. Quando chegou  perna ferida, ele pisou com todo o cuidado sobre o membro antes 
de colocar o nariz na superfcie das ataduras.
        Retornou  rea da virilha - bem, onde mais, pensei com impacincia, afinal, ele  um co -, cutucou a parte de cima da coxa com o focinho, em seguida sentou-se 
e latiu uma vez, sacudindo o rabo triunfalmente.
        - Pronto, a est - disse madre Hildegarde, apontando para uma pequena crosta marrom logo abaixo da regio inguinal.
        - Mas isso j est quase curado - protestei. - No est infeccionado.
        - No? - A freira alta colocou a mo sobre a coxa do paciente e apertou com fora. Seus dedos vigorosos deixaram marcas na pele plida, pegajosa, e o carroceiro 
deu um berro como uma banshee.
        - Ah - ela exclamou, satisfeita, observando as profundas marcas deixadas pelos seus dedos. - Uma bolsa de putrefao.
        E era; a crosta soltara-se em um dos lados e uma exsudao espessa de pus amarelo revelou-se sob ela. Um pouco de explorao, com madre Hildegarde segurando 
o sujeito pela perna e pelo ombro, revelou o problema.
        Uma longa farpa de madeira, ao se soltar da roda estilhaada da carroa instalara-se fundo na coxa, de baixo para cima. Negligenciada por causa da entrada 
aparentemente insignificante do ferimento, passara despercebida Pelo prprio paciente, para quem a perna inteira era uma grande dor. Enquanto a minscula entrada 
da ferida cicatrizara bem, o ferimento mais profundo havia infeccionado e formado uma bolsa de pus em torno do elemento estranho, enterrado no tecido muscular, onde 
nenhum sintoma superficial era visvel - para os sentidos humanos, ao menos.
        Um pequeno trabalho com o bisturi para alargar a entrada do ferimento, uma rpida manobra com um par de frceps longos, um puxo forte e hbil - e eu exibi 
uma lasca de madeira de cerca de sete centmetros, coberta de sangue e secreo.
        - Nada mau, Bouton - eu disse, com um sinal de aprovao. Uma longa lngua cor-de-rosa estendeu-se alegremente e as narinas pretas fungaram em minha direo.
        - Sim, ela  boa nisso - disse madre Hildegarde e desta vez no havia dvida a qual de ns dois ela estava se referindo, j que Bouton era macho. Bouton 
inclinou-se para frente e fuou delicadamente minha mo, depois lambeu meus dedos uma vez no reconhecimento recproco de um colega de profisso. Contive a nsia 
de limpar a mo no vestido.
        - Surpreendente - eu disse, com sinceridade.
        - Sim - concordou madre Hildegarde, despreocupada, mas com um tom inconfundvel de orgulho. - Ele  muito bom em localizar tumores sob a pele tambm. E embora 
eu nem sempre saiba o que ele encontra nos odores do hlito e da urina, possui um certo tom de latido que indica sem sombra de erro a presena de um transtorno estomacal.
        Sob as circunstncias, eu no via razo para duvidar. Cumprimentei Bouton com uma inclinao da cabea e peguei um frasco de erva-de-sojoo em p para tratar 
a infeco.
        - Agradeo a sua assistncia, Bouton. Pode trabalhar comigo sempre que quiser.
        - Muito sensato de sua parte - disse madre Hildegarde, com um lampejo de dentes fortes. - Muitos dos mdicos e cirurgies que trabalham aqui so menos propensos 
a tirar proveito das habilidades dele.
        - Ha, bem... - Eu no queria depreciar a reputao de ningum, mas meu olhar a monsieur Voleru do outro lado da sala deve ter sido bem eloqente.
        Madre Hildegarde riu.
        - Bem, ns aceitamos o que Deus nos envia, embora de vez em quando eu me pergunte se Ele os manda para ns apenas para mant-los longe de problemas maiores 
em outro lugar. Ainda assim, a maioria de nossos mdicos  melhor do que nada, ainda que apenas de forma marginal.
        - e os dentes cintilaram outra vez, fazendo-me lembrar de um simptico cavalo de trao - Voc  muito melhor do que nada, madame.
        - Obrigada.
        - No entanto, andei pensando - continuou madre Hildegarde, observando-me enquanto eu aplicava o curativo com remdio -, por que voc visita apenas os pacientes 
com contuses ou ossos quebrados? Voc evita os que tm pstulas, tosses e febres, entretanto  mais comum que ls matresses cuidem desses casos. Acho que nunca 
vi uma mulher cirurgi antes. - Ls matresses eram as curandeiras sem licena, a maioria oriunda das provncias, que lidavam com ervas, poes e amuletos. Ls matresses 
sae-femme eram as parteiras, o topo da pirmide no que dizia respeito a curandeiras populares. Algumas eram dignas de mais respeito do que as profissionais licenciadas 
e de longe preferidas pelos pacientes das classes mais baixas, j que era mais provvel que fossem mais capazes e muito menos dispendiosas.
        No me surpreendi por ela ter notado minhas preferncias. H muito eu compreendera que bem pouco de tudo que se passava no Hpital escapava a madre Hildegarde.
        - No  falta de interesse - assegurei-lhe. -  que estou grvida, de modo que no posso me expor a nada contagioso, para o bem da criana. Ossos quebrados 
no se propagam por contgio.
        - s vezes, fico em dvida - disse madre Hildegarde, lanando um olhar para uma maca que acabava de chegar. - Estamos tendo uma praga deles esta semana. 
No, no v. - Fez sinal para que eu voltasse. - A irm Cecile cuidar disso. Ela a chamar se houver necessidade.
        Os pequenos olhos cinza da freira olharam-me com uma mistura de curiosidade e apreciao.
        - Ento, voc no s  uma senhora da sociedade como est grvida, mas seu marido no se ope a que venha aqui? Ele deve ser um homem extraordinrio.
        - Bem, ele  escocs - eu disse,  guisa de explicao, sem querer entrar na questo das objees de meu marido.
        - Ah, escocs. - Madre Hildegarde balanou a cabea em sinal de compreenso. - Certamente.
        A cama tremeu contra a minha coxa quando Bouton deu um salto para o cho e saiu correndo em direo  porta.
        - Ele sente o cheiro de um estranho - observou madre Hildegarde. Bouton ajuda tanto o porteiro quanto os mdicos. Receio que sem maior gratido pelos seus 
esforos.
        Os sons de latidos enfticos e uma voz aguda de pavor atravessou as portas duplas da entrada.
        - Ah,  o padre Balmain outra vez! Desgraado, ser que no aprende a ficar parado e deixar Bouton cheir-lo? - Madre Hildegarde voltou-se depressa para 
socorrer seu amigo, virando-se no ltimo instante para sorrir sedutoramente para mim. - Talvez eu o mande aqui para ajud-la com suas tarefas, madame, enquanto eu 
acalmo o padre Balmain. Embora certamente um homem santo, ele no sabe apreciar de verdade o trabalho de um artista.
        Caminhou a passos largos em direo  porta com seu jeito tranqilo, sem pressa, e eu, com uma ltima palavra ao carroceiro, voltei-me para a irm Cecile 
e o caso mais recente na maca.
        Jamie estava deitado no tapete da sala de estar quando cheguei em casa, com um menino sentado de pernas cruzadas no cho ao lado dele. Jamie segurava um 
bilboqu em uma das mos e com a outra tampava um dos olhos.
        - Claro que posso - dizia. - A qualquer dia, a qualquer hora. Observe.
        Colocando a mo sobre o olho, fixou o outro intensamente no bilboqu e deu um impulso no receptculo de marfim. A bola presa por um cordo saltou de seu 
encaixe com um movimento em arco e caiu, como se guiada por radar, voltando a aterrissar em seu encaixe com uma pancada certeira.
        - Viu? - disse, retirando a mo do olho. Sentou-se e entregou o brinquedo ao menino. - Tome, tente. - Riu para mim e enfiou a mo sob a minha saia, agarrando 
meu tornozelo envolto em meia de seda verde como forma de cumprimento.
        - Est se divertindo? - perguntei.
        - Ainda no - respondeu, dando um aperto no meu tornozelo. - Estava esperando por voc, Sassenach. - Os dedos longos e quentes em volta do meu tornozelo 
deslizaram mais para cima, tocando de brincadeira a curva da minha panturrilha, enquanto um par de lmpidos olhos azuis erguia-se para mim, com ar de absoluta inocncia. 
Seu rosto tinha uma listra de lama seca em um dos lados e havia manchas de sujeira na camisa e no kilt.
        -  mesmo? - perguntei, tentando libertar minha perna de sua mo sem fazer alarde. - Pensei que seu pequeno companheiro de jogo era toda a companhia de que 
precisava.
        O garoto, sem entender nada do ingls em que a conversa era conduzida,, ignorava-nos, atento  tarefa de tentar acertar o bilboqu com um dos olhos encoberto. 
Depois que as duas primeiras tentativas falharam, ele abriu o segundo olho e olhou fixamente para o brinquedo, como se o desafiasse a no funcionar. O segundo olho 
fechou-se outra vez, mas no completamente; uma pequena fenda permaneceu aberta, brilhando vigilante sob a franja espessa das pestanas escuras.
        Jamie estalou a lngua em sinal de desaprovao e o olho fechou-se apressadamente.
        - No, Fergus, nada de trapaas, por favor - disse. - O que  justo  justo. - O garoto evidentemente apreendeu o significado, ainda que no tenha entendido 
as palavras; riu timidamente, exibindo um par de dentes incisivos grandes, brancos, brilhantes e perfeitos como os de um esquilo.
        A mo de Jamie exerceu uma puxada invisvel, obrigando-me a chegar mais perto dele para evitar um tombo de cima dos meus saltos marroquinos.
        - Ah - ele disse. - Este Fergus aqui  um homem de muitos talentos e um bom companheiro para as horas ociosas em que a mulher de um homem o abandona e o 
deixa entregue  prpria sorte, para ir atrs de seus prprios interesses em meio s vicissitudes da cidade. - Os dedos longos curvaram-se com delicadeza na cavidade 
atrs do meu joelho, sugestivamente fazendo ccegas. - Mas ele no est qualificado como parceiro para a brincadeira que tenho em mente.
        - Fergus? - eu disse, examinando o garoto e tentando ignorar o que acontecia l embaixo. O menino devia ter nove ou dez anos, mas era pequeno para a idade 
e de ossos estreitos como um furo. Vestindo roupas velhas e limpas, muitos tamanhos maiores do que o dele, era tambm tipicamente francs, com a pele clara e amarelada 
e os olhos grandes e escuros de uma criana de rua de Paris.
        - Bem, o nome dele na verdade  Claudel, mas decidimos que no soava muito msculo, ento ele passar a se chamar Fergus.  um nome digno de um guerreiro.
        Captando o som de seu nome - ou nomes -, o garoto ergueu os olhos e riu timidamente para mim.
        - Esta  a madame - Jamie explicou ao menino, gesticulando em minha direo com a mo livre. - Pode cham-la de milady. Acho que ele no conseguiria dizer 
"Broch Tuarach" - acrescentou para mim - ou quanto a isso, nem mesmo Fraser.
        - "Mi lady est bem - eu disse, sorrindo. Contorci minha perna com mais fora, tentando me livrar do aperto semelhante ao de sanguessugas. - Ah!, por qu, 
se mal pergunto?
        - Por que o qu? Ah, por que Fergus, voc quer dizer?
        -  isso mesmo que quero dizer. - Eu no sabia ao certo at onde seu brao iria alcanar, mas a mo deslizava devagar pela parte de trs de minha coxa. -Jamie, 
tire a mo da agora mesmo!
        Os dedos voaram para o lado e habilmente soltaram a liga de fitas que segurava minha meia. Esta escorregou pela minha perna e amontoou-se em volta do meu 
tornozelo.
        - Animal! - Dei-lhe um chute, mas ele se esquivou, rindo.
        - Ah, animal, hein? De que tipo?
        - Um co vira-lata! - retruquei, tentando me curvar para puxar minha meia para cima sem cair dos saltos dos sapatos. Fergus, aps um breve e desinteressado 
olhar para ns, retomara suas tentativas com o bilboqu.
        - E quanto ao garoto - ele continuou alegremente -, Fergus agora trabalha para mim.
        - Para fazer o qu? - perguntei. - J temos um garoto que limpa as espadas e botas e um que cuida dos estbulos.
        Jamie balanou a cabea.
        - Sim,  verdade. Mas no temos um batedor de carteiras. Ou melhor, no tnhamos; agora, temos.
        Inspirei fundo e soltei o ar devagar.
        - Sei. Acho que seria tolice minha perguntar exatamente por que precisamos acrescentar um batedor de carteira  criadagem.
        - Para roubar cartas, Sassenach -Jamie respondeu calmamente.
        - Ah - eu disse, comeando a ver a luz.
        - No consigo extrair nada sensato de Sua Alteza. Quando est comigo, no faz outra coisa seno se lamentar sobre Louise de La Tour ou cerrar os dentes e 
blasfemar porque andaram discutindo outra vez. Em qualquer um dos casos, tudo que ele quer  se embebedar o mais rpido possvel. Mar est perdendo a pacincia com 
ele porque uma hora ele  arrogante, outra mal-humorado. E no consigo arrancar nada de Sheridan.
        O conde de Mar era o mais respeitvel jacobita escocs no exlio em Paris. Um homem cuja longa e ilustre juventude somente agora comeava a resvalar para 
a velhice, ele fora o principal partidrio do rei Jaime na fracassada revoluo de 1715 e seguira seu rei ao exlio aps a derrota em Neriffsmuir. Eu conhecera o 
conde e simpatizara com ele; jcom uma certa idade, era um fidalgo, de maneiras educadas e elegantes, com uma personalidade to ereta quanto sua espinha dorsal. 
Agora, fazia o melhor possvel - com pouca recompensa, ao que parecia - pelo filho de seu rei. Eu conhecera Thomas Sheridan, tambm; o tutor do prncipe - um senhor 
idoso que lidava com a correspondncia de Sua Alteza, traduzindo impacincia e ignorncia em francs e ingls elegantes.
        Sentei-me e puxei minha meia de volta para cima. Fergus, aparentemente imune  viso de pernas femininas, ignorou-me completamente, concentrando-se apenas 
no bilboqu.
        - Cartas, Sassenach - ele disse, - Eu preciso das cartas. Cartas de Roma, lacradas com o selo dos Stuart. Cartas da Frana, cartas da Inglaterra, cartas 
da Espanha. Podemos consegui-las tanto da casa do prncipe, Fergus pode ir comigo como pajem, ou provavelmente do mensageiro papal que as traz; isto seria ainda 
melhor, porque teramos a informao com antecedncia.
        "Ento, fizemos um trato - Jamie disse, balanando a cabea na direo de seu novo empregado. "Fergus far o melhor possvel para obter o que eu preciso 
e eu lhe darei roupas, casa e comida e trinta cus por ano. Se for pego quando estiver trabalhando para mim, farei todo o possvel para libert-lo. Se no for possvel, 
e ele perder uma das mos ou uma das orelhas, ento eu o manterei pelo resto da vida, j que ele no poder mais continuar com sua profisso. E se for enforcado, 
ento garanto que ele ter missas rezadas por sua alma durante o perodo de um ano. Acho que  justo, no?"
        Senti um frio percorrer minha espinha.
        - Meu Deus, Jamie - foi tudo que consegui dizer.
        Ele sacudiu a cabea e estendeu a mo para pegar o bilboqu.
        - No pea a Deus, Sassenach. Reze por So Dimas. O patrono dos ladres e traidores.
        Jamie pegou o bilboqu das mos do menino. Sacudiu o pulso com preciso e a bola de marfim ergueu-se numa parbola perfeita, recaindo em seu encaixe com 
uma pancada seca inconfundvel.
        - Sei - eu disse. Examinei o novo empregado com interesse enquanto ele pegava o brinquedo que Jamie lhe entregava e recomeava suas tentativas, os olhos 
brilhando em concentrao. - Onde voc o arrumou? - perguntei com curiosidade.
        - Encontrei-o num bordel.
        - Ah, claro - eu disse. - Sem dvida. - Examinei as manchas de poeira e lama em suas roupas. - Que voc estava visitando por alguma razo de fato excelente, 
no?
        - Ah, sim - ele disse. Endireitou-se, os braos em volta dos joelhos, rindo enquanto me observava ajeitar a liga. - Achei que voc ia preferir me encontrar 
em tal estabelecimento do que ser encontrado em uma viela escura com a cabea esmagada.
        Vi os olhos de Fergus fixarem-se em um ponto um pouco adiante do bilboqu, mais precisamente em uma travessa de bolos confeitados que estava sobre uma mesa 
junto  parede. Uma lngua pequena, rosada e pontuda lambeu o lbio inferior.
        - Acho que seu protegido estcom fome - eu disse. - Por que no lhe d alguma coisa para comer e depois pode me contar o que diabos aconteceu esta tarde.
        - Bem, eu estava a caminho das docas - ele comeou, obedientemente pondo-se de p -, e acabava de passar pela rue Eglantine, quando comecei a sentir uma 
sensao estranha s minhas costas.
        Jamie Fraser passara dois anos no exrcito da Frana, lutara e roubara com uma gangue de malfeitores escoceses e fora perseguido como um fora-da-lei pelos 
charcos e montanhas de sua terra natal. Tudo isso deixouo com uma sensibilidade extremamente aguada  sensao de estar sendo seguido.
        Ele no sabia dizer se fora o som de uma passada perto demais ou a viso de uma sombra que no deveria estar ali ou algo menos tangvel - o cheiro do mal 
no ar, talvez -, mas aprendera que o formigamento de advertncia entre os cabelos de seu pescoo era um sinal de perigo que no devia ser ignorado.
        Obedecendo prontamente aos ditames de suas vrtebras cervicais, ele virou para a esquerda em vez de para a direita na esquina seguinte, agachou-se e contornou 
a barraca de um vendedor de moluscos marinhos, passou entre uma carroa cheia de bolos cozidos no vapor e outra de abobrinhas frescas e entrou numa pequena salsicharia.
        Encostado na parede junto  porta, ele olhou para fora atravs de uma cortina de carcaas de pato penduradas. Dois homens entraram na rua menos de um segundo 
depois caminhando juntos, olhando rpido de um lado para outro.
        Todo trabalhador em Paris carregava consigo as marcas de seu ofcio e no foi preciso um faro muito apurado para detectar o cheiro de sal marinho naqueles 
dois. Se a pequena argola de ouro na orelha do homem mais baixo no fosse por si s uma perfeita denncia, o profundo tom bronzeado de seus rostos teria deixado 
claro que eram marinheiros de alto-mar.
        Acostumados s instalaes confinadas dos navios e tavernas de beira de cais, os homens do mar raramente caminhavam em linha reta. Aqueles dois deslizavam 
pela viela apinhada como enguias pelo meio de rochas, os olhos saltando velozes entre mendigos, criadas, donas-de-casa, comerciantes; lobos-do-mar avaliando uma 
possvel presa.
        - Deixei que tivessem passado bem longe da loja - Jamie explicou - e estava prestes a sair e seguir na direo contrria, quando vi outro deles na entrada 
do beco.
        Esse homem usava o mesmo uniforme dos outros dois; um longo cacho de cabelos em cada lado do rosto besuntados de leo, uma faca de Peixe ao lado do corpo 
e um ferro de marlim do tamanho do brao de um homem atravessado no cinto. Robusto e atarracado, o homem permaneceu parado na extremidade do beco, defendendo sua 
posio contra as ondas fustigantes de comrcio que fluam e refluam pela estreita passagem. Obviamente, fora deixado ali de guarda, enquanto seus companheiros 
investigavam mais adiante.
        - Ento fiquei pensando no que faria - Jamie disse, esfregando o nariz.
        - Eu estava bem seguro onde estava, mas no havia uma sada pelos fundos da loja e, assim que pisasse do lado de fora, eu seria visto. - Abaixou os olhos 
pensativamente, alisando o tecido vermelho de seu kiut em cima da coxa. Um enorme brbaro ruivo chamaria a ateno, por mais compacta que fosse a multido.
        - Ento, o que fez? - perguntei. Fergus, ignorando a conversa, enchia os bolsos metodicamente com bolos, parando para uma mordida apressada de vez em quando. 
Jamie percebeu meu olhar na direo do menino e deu de ombros.
        - Ele no costuma comer regularmente - disse. - Deixe-o.
        - Est bem - eu disse. - Mas, continue, o que voc fez?
        - Comprei uma salsicha - disse prontamente.
        Uma Dunedin, para ser preciso. Feita de carne de cervo, presunto e pato temperados e cozidos, recheada e secada ao sol, uma salsicha Dunedin media cinqenta 
centmetros de ponta a ponta e era to dura quanto um basto de carvalho envelhecido.
        - Eu no podia sair com a espada em punho - Jamie explicou -, mas no gostava da idia de passar pelo sujeito na viela sem ningum s minhas costas e de 
mos vazias.
        Segurando a Dunedin como uma arma e mantendo um olhar atento  multido que passava, Jamie caminhou audaciosamente pelo beco, em direo ao vigia na entrada.
        O homem encarou-ocom absoluta calma, no dando nenhum sinal de qualquer inteno maligna. Jamie poderia ter achado que sua premonio original estava errada, 
se no tivesse visto os olhos do vigia moverem-se rpido para algum ponto acima do ombro de Jamie. Obedecendo a seus instintos que o haviam mantido vivo at ento, 
ele lanou-se para a frente, derrubando o vigia e escorregando sobre seu rosto nas pedras imundas do calamento da rua.
        A multido dispersou-se diante dele com gritos de susto e ele rolou sobre si mesmo, colocando-se de p, bem a tempo de ver a faca que fora lanada, e por 
pouco no o atingira, estremecendo nas tbuas de uma barraca de fitas.
        - Se eu tivesse alguma dvida de que era a mim que eles queriam, ja no tinha mais - disse secamente.
        Continuara segurando a salsicha e agora achou uma utilidade para ela, golpeando com fora o rosto de um dos atacantes.
        - Acho que quebrei o nariz dele - disse pensativamente. - De qualquer modo, ele caiu para trs, e eu passei por ele e corri em disparada pela rue Pelletier.
        Os transeuntes na rua espalhavam-se diante dele como gansos, assustados com a viso de um escocs arremessando-se para frente com toda a fora, o kilt voando 
em volta dos seus joelhos em movimento. Ele no parou para olhar para trs; pelos gritos indignados dos passantes, ele sabia que os homens ainda estavam em seu encalo.
        Aquela parte da cidade raramente era patrulhada pela guarda do rei e a prpria multido oferecia pouca proteo alm de uma simples obstruo que pudesse 
atrasar seus perseguidores. No era provvel que algum interferisse em defesa de um estrangeiro.
        - No h nenhuma viela saindo da rue Pelletier. Eu precisava pelo menos chegar a algum lugar onde pudesse arrancar minha espada e ter uma parede s costas 
- Jamie explicou. - Assim, empurrava as portas conforme ia passando, at encontrar uma que se abriu.
        Arremessando-se em um corredor sombrio, passando por um porteiro perplexo e atravessando uma cortina, atirara-se no centro de um aposento grande, bem iluminado, 
estancando com um rangido no meio de um dos sales de madame Elise, um cheiro forte de perfume nas narinas.
        - Sei - eu disse, mordendo o lbio. - Eu, hum, espero que no tenha sacado sua espada l dentro.
        Jamie estreitou os olhos para mim, mas no se dignou a responder diretamente.
        - Deixo isso por sua conta, Sassenach - ele disse secamente -, imaginar o que  chegar sem ser esperado no meio de um bordel, de posse de uma enorme salsicha.
        Minha imaginao mostrou-se  altura dessa tarefa e eu desatei a rir.
        - Meu Deus, quisera ter visto essa cena! - eu disse.
        - Graas a Deus que no viu! - ele disse ardorosamente. Um rubor furioso brilhou nas mas do seu rosto.
        Ignorando observaes das fascinadas moradoras, Jamie abriu caminho desajeitadamente em meio ao que ele descreveu, com um estremecimento, como um "emaranhado 
de membros nus", at que ele viu Fergus junto a uma parede, olhando o intruso com os olhos arregalados de espanto.
        Apegando-se a essa inesperada manifestao de masculinidade, Jamie agarrou o garoto pelo ombro e implorou-lhe fervorosamente que lhe mostrasse a sada mais 
prxima, sem perda de tempo.
        - Eu podia ouvir um tumulto estourando no corredor e compreendi que estavam atrs de mim. Eu no queria ter que lutar pela minha vida com um monte de mulheres 
nuas se intrometendo no caminho.
        - Posso ver que a perspectiva devia ser assustadora - compreendi, esfregando meu lbio superior. - Mas obviamente ele o tirou dali.
        - Sim, ele no hesitou nem por um instante, o bravo menino. "Por aqui, monsieur!", ele disse, e subimos as escadas, atravessamos um quarto e samos por uma 
janela em cima do telhado e dali fomos embora. - Jamie lanou um olhar carinhoso a seu novo empregado.
        - Sabe - eu observei -, h algumas mulheres que no acreditariam em uma nica palavra de uma histria como essa.
        Os olhos de Jamie arregalaram-se de espanto.
        - No? Por que no?
        - Provavelmente - eu disse secamente -, porque no so casadas com voc. Fico satisfeita que voc tenha escapado com sua virtude intacta, mas por enquanto 
estou mais interessada nos homens que o perseguiram at l.
        - No tive muito tempo para pensar nisso na hora. E agora que tenho, ainda no sei dizer quem eram ou por que estavam atrs de mim.
        - Assalto, voc acha? - Os pagamentos em dinheiro do negcio de vinhos eram transportados entre o depsito de Fraser, a rue Tremoulins e o banco de Jared 
em corres, fortemente protegidos por guardas. Ainda assim, Jamie chamava muito a ateno entre as multides prximas das docas do rio e sem dvida sabia-se que era 
um rico comerciante estrangeiro, rico em comparao com a maioria dos cidados daquelas vizinhanas.
        Ele sacudiu a cabea, batendo na frente da camisa para remover torres de lama seca.
        - Poderia ser, eu imagino. Mas no tentaram me abordar; pretendiam simplesmente me matar.
        Seu tom de voz era bastante casual, mas senti um certo amolecimento nos joelhos e deixei-me afundar num sof. Umedeci os lbios, de repente secos.
        - Quem... quem voc acha...?
        Ele encolheu os ombros, enrugando a testa enquanto pegava um torro de acar da travessa e engolia-o lambendo os dedos.
        - O nico homem em que posso pensar que me ameaou  o conde de St. Germain. Mas no sei o que ele ganharia me matando.
        - Ele  concorrente de Jared nos negcios, voc mesmo disse.
        - Ah, sim. Mas o conde no tem interesse em vinhos alemes e no consigo imaginar ele se dando ao trabalho de mandar me matar apenas para arruinar o novo 
empreendimento de Jared fazendo-o voltar a Paris parece um pouco extremado - disse secamente -, mesmo para um homem com o temperamento do conde.
        - Bem, voc acha... - A idia deixou-me ligeiramente nauseada e eu engoli em seco duas vezes antes de prosseguir. - Voc acha que pode ter sido..- vingana? 
Porque o Patagnia teve que ser incendiado?
        Jamie sacudiu a cabea, desnorteado.
        - Suponho que sim, mas me parece muito tempo para esperar. E por que eu, por falar nisso? - acrescentou. - Foi voc quem o enfureceu, Sassenach. Por que 
no assassin-la, se era isso que ele queria?
        A sensao de nusea piorou.
        - Voc tem que ser to lgico assim, droga? - exclamei.
        Ele viu a expresso do meu rosto e acabou sorrindo, passando o brao ao meu redor para me consolar.
        - No, mo duinne. O conde tem um temperamento esquentado, mas no consigo v-lo se dando ao trabalho e  despesa de matar qualquer um de ns dois apenas 
por vingana. Se isso trouxesse seu navio de volta, ento sim, mas do jeito que , acho que ele s pensaria que o preo de trs assassinos de aluguel era jogar um 
bom dinheiro fora.
        Deu um tapinha no meu ombro e levantou-se.
        - No, espero que tenha sido apenas uma tentativa de assalto. No se preocupe com isso. De hoje em diante levarei Murtagh para as docas comigo, por segurana.
        Espreguiou-se e sacudiu o resto da lama esfarelada de seu kilt.
        - Estou decente para ir jantar? - perguntou, olhando criticamente para o peito. - J deve estar quase pronta.
        - O que est pronta?
        Ele abriu a porta e um cheiro condimentado, delicioso, entrou imediatamente, vindo da sala de jantar l embaixo.
        - Ora, a salsicha,  claro - ele disse, com um amplo sorriso por cima do ombro. - Voc no achou que eu iria desperdi-la, no ?
        
        
        
13 - TRAPAAS

        Trs punhados de folhas de brberis, em uma decoco, infuso por uma noite, despejada sobre meio punhado de helboro preto." Coloquei a lista de ingredientes 
sobre a mesa incrustada como se fosse ligeiramente pegajosa ao toque.
        - Consegui a receita com madame Rouleaux. Ela  a melhor das fazedoras-de-anjos, mas at ela diz que  perigoso. Louise, tem certeza de que quer fazer isto?
        Seu rosto redondo e rosado estava borrado e o polpudo lbio inferior tinha a tendncia de estremecer.
        - Que escolha eu tenho? - Ela pegou a receita da droga abortiva e fitou-acom fascinao e repulsa.
        - Helboro preto - disse, com um estremecimento. - S o nome j soa como algo maligno!
        - Bem,  uma droga muito forte - eu disse francamente. - Vai fazer voc sentir como se suas entranhas estivessem saindo. Mas o beb pode vir tambm. Nem 
sempre funciona. - Lembrei-me da advertncia de mestre Raymond:  perigoso esperar demais, e perguntei-me com quanto tempo de gravidez ela estaria. Certamente no 
mais do que umas seis semanas; ela me contou to logo suspeitou.
        Olhou para mim, espantada com os olhos vermelhos.
        - Voc j usou?
        - Por Deus, no! - Eu mesma me surpreendi com a veemncia de minha exclamao e respirei fundo.
        - No. Mas j vi mulheres que usaram no Hpital ds Anges. - Os aborteiros, os fazedores-de-anjos, em sua maioria atendem na privacidade dos lares, nos seus 
prprios ou de suas clientes. - Seus sucessos no eram os que acabavam no hospital. Coloquei a mo discretamente sobre meu prprio abdmen, como se quisesse proteger 
seu indefeso ocupante. Louise notou o gesto e encolheu-se no sof, enterrando o rosto nas mos.
        - Ah, queria estar morta! - lamentou-se. - Por que, por que no pude ter a mesma sorte que voc, carregando o filho de um marido que eu amasse? - Agarrou 
a prpria barriga rechonchudacom as duas mos, fitando-a como se esperasse que a criana fosse espreitar entre seus dedos.
        Tinha inmeras respostas a essa pergunta em particular, mas no achei que ela de verdade quisesse ouvir nenhuma delas. Respirei fundo e senteime a seu lado, 
dando uns tapinhas de consolo em seu ombro adamascado, sacudido pelo choro.
        - Louise - eu disse. - Voc quer a criana? Ela ergueu a cabea e fitou-me perplexa.
        - Mas  claro que quero! - exclamou. -  dele,  de Carlos! ... - Seu rosto contorceu-se e ela abaixou a cabea outra vez sobre as mos, entrelaadascom 
fora sobre o ventre. -  minha - murmurou. Aps um longo instante, ergueu o rosto banhado em lgrimas e com uma pattica tentativa de se recompor, assoou o nariz 
na longa manga do vestido.
        - Mas no adianta - ela disse. - Se eu no... - Olhou para a mistura sobre a mesa e engoliu em seco. - Ento Jules vai se divorciar de mim, vai me expulsar. 
Haveria um terrvel escndalo. Eu poderia ser excomungada! Nem mesmo Deus poderia me proteger.
        - Sim - eu disse. - Mas... - hesitei, depois deixei de lado a cautela. - H alguma chance de fazer Jules acreditar que o filho  dele? - perguntei de uma 
vez.
        Ela me olhou apalermada por um instante e tive vontade de sacudi-la.
        - No vejo como, a menos que... Oh! - Finalmente caiu em si e olhou para mim, horrorizada.
        - Quer dizer, dormircom Jules? Mas Carlos ficaria furioso!
        - Carlos - eu disse entre dentes - no est grvido!
        - Bem, mas ele ... quer dizer... eu no poderia! - Mas a expresso de horror estava desvanecendo, sendo aos poucos substituda pela crescente compreenso 
da possibilidade.
        Eu no queria pression-la; ainda assim, no via nenhuma razo para ela arriscar a prpria vida em considerao ao orgulho de Carlos Stuart.
        - Voc acha que Carlos iria querer que voc colocasse sua prpria vida em risco? - eu disse. - Alis, ele sabe a respeito da criana?
        Ela balanou a cabea afirmativamente, a boca meio aberta enquanto pensava, as mos ainda entrelaadas sobre a barriga.
        - Sim. Foi sobre isso que brigamos da ltima vez. - Fungou. - Ele estava furioso; disse que tudo era culpa minha, que eu devia ter esperado at ele retomar 
o trono de seu pai. Ento, um dia ele seria rei e poderia vir e me tirar de Jules. Ele fariacom que o papa anulasse meu casamento e seus filhos seriam os herdeiros 
da Inglaterra e da Esccia... - Ela sucumbiu outra vez, choramingando e lamuriando-se incoerentemente numa prega da saia.
        Revirei os olhos, exasperada.
        - Ah, pare com isso, Louise! - eu disse rispidamente. Ela levou um susto suficiente para faz-la parar de chorar, ao menos por um momento, e eu me aproveitei 
do intervalo para enfatizar meu ponto de vista.
        - Olhe - eu disse, do modo mais persuasivo possvel -, voc no acha que Carlos iria querer que voc sacrificasse o filho dele, no ? - Na verdade, eu achava 
que Carlos seria favorvel a qualquer medida que eliminasse a inconvenincia de seu prprio caminho, independentemente dos efeitos que isso pudesse ter sobre Louise 
ou sobre seu suposto rebento. Por outro lado, o prncipe realmente possua um acentuado veio romntico; talvez pudesse ser induzido a ver a situao como uma adversidade 
temporria comum a monarcas exilados. Obviamente, eu iria precisar da ajuda de Jamie. Fiz uma careta diante da idia do que ele pudesse dizer a respeito.
        - Bem... - Louise hesitava, desejando desesperadamente ser convencida. Senti uma momentnea compaixo por Jules, prncipe de Rohan, mas a viso de uma jovem 
criada, morrendo numa prolongada e ensangentada agonia em um colcho de palha aberto no corredor de pedra do Hpital ds Anges estava brutalmente clara em minha 
mente.
        Quase anoitecia quando deixei a casa dos Rohan, arrastando os passos. Louise, palpitando de nervosismo, estava em seu quarto de vestir, a criada penteando 
seus cabelos para cima e arrumando-a em seu vestido mais ousado antes de ela descer para um jantar ntimo com o marido. Sentia-me completamente exausta e esperava 
que Jamie no tivesse levado ningum para jantar em casa. Eu tambm precisava de um pouco de privacidade.
        Ele no levara ningum. Quando entrei no gabinete, ele estava sentado  escrivaninha, absorto em trs ou quatro folhas de papel densamente escritas.
        - Voc acha que  mais provvel que "o comerciante de peles" seja Lus da Frana ou seu ministro Duverney? - perguntou sem erguer os olhos.
        - Bem, querido, obrigada, e voc, como est? - eu disse.
        - Bem - respondeu distraidamente. Os tufos de cabelo do topo de sua cabea estavam todos em p; ele massageava o couro cabeludo vigorosamente enquanto eu 
o observava, o longo nariz enfiado no papel com uma expresso ameaadora.
        - Tenho certeza de que "o alfaiate de Vendme" deve ser monsieur Geyer - ele disse, percorrendo as linhas da carta com o dedo - e "nosso amigo mtuo" poderia 
ser o conde de Mar ou talvez o enviado papal. Acho que o conde, pelo resto da carta, mas o...
        - Que diabos  isso? - Olhei por cima de seu ombro e prendi a respirao quando vi a assinatura ao p da carta. Jaime Stuart, rei da Inglaterra e da Esccia 
pela graa de Deus.
        - Santo Deus! Ento, funcionou! - Girando nos calcanhares, avistei Fergus, sentado num banco diante da lareira, laboriosamente enchendo a boca com tortas 
e rrindo para ele. Ele retribuiu com um largo sorriso, as bochechas estufadas como as de um esquilo, abarrotadas de torta de castanhas.
        - Ns a pegamos do mensageiro papal - Jamie explicou, voltando  superfcie o suficiente para perceber que eu estava ali. - Fergus tirou-a da sacola enquanto 
ele jantava numa taverna. Ele vai passar a noite l, de modo que teremos que recoloc-la no lugar antes do amanhecer. Nenhuma dificuldade nisso, no , Fergus?
        O menino engoliu e sacudiu a cabea.
        - No, senhor. Ele dorme sozinho, no confia que companheiros de quarto no vo roubar o contedo de sua sacola. - Riu desdenhosamente.
        - A segunda janela da esquerda, acima dos estbulos. - Abanou a mo leve, os dedos geis e sujos pegando outra torta. - No  nada, senhor.
        Tive a sbita viso daquela mo fina contorcendo-se, presa sobre um cadafalso, com a lmina de um carrasco erguida acima do pulso estreito como um cabo de 
vassoura. Engoli em seco, forando para baixo uma sbita golfada do meu estmago. Fergus usava uma pequena medalha de cobre esverdeado em um cordo em volta do pescoo; 
a imagem de So Dismas, eu esperava.
        - Bem - eu disse, respirando fundo para me estabilizar -, o que tm a ver esses comerciantes de peles?
        No havia tempo para nenhuma inspeo vagarosa. Por fim, eu fiz uma cpia rpida da carta e o original foi cuidadosamente dobrado outra vez e seu selo original 
recolocado com a ajuda da lmina de uma faca aquecida na chama de uma vela.
        Observando a operao com ar crtico, Fergus sacudiu a cabea para Jamie.
        - O senhor tem o dom, milorde.  uma pena que uma de suas mos seja aleijada.
        Jamie olhou calmamente para sua mo direita. Na verdade, no estava danificada demais; dois dedos ligeiramente tortos, uma grossa cicatriz ao longo do dedo 
mdio. O nico dano maior fora no dedo anular, rigidamente esticado, a segunda junta to esmagada que a cicatrizao fundira dois ossos do dedo. A mo fora quebrada 
na priso de Wentworth, h menos de quatro meses, por Jack Randall.
        - No tem importncia - ele disse, sorrindo. Flexionou a mo e estalou os dedos de brincadeira para Fergus. - De qualquer jeito minhas enormes patas so 
grandes demais para eu viver de bater carteira. - Ele havia recuperado um impressionante grau de movimentos, pensei. Ele ainda carregava as macias bolas de pano 
que eu fizera para ele, apertando-as discretamente centenas de vezes por dia enquanto realizava seus afazeres. E se os ossos rejuntados o incomodavam, ele nunca 
se queixou.
        - Ento, v agora - ele disse a Fergus. - Venha me ver quando tiver voltado a salvo, para que eu saiba que no foi apanhado pela polcia ou pelo dono da 
taverna.
        Fergus torceu o nariz com desdm diante de tal idia, mas assentiu, enfiando a carta com cuidado dentro do seu casaco antes de desaparecer pela escada dos 
fundos para a noite que era tanto seu elemento natural quanto sua proteo.
        Jamie ficou olhando por um longo tempo na direo em que ele desapareceu, depois se voltou para mim. Na verdade, ele olhou de fato para mim pela primeira 
vez e suas sobrancelhas se ergueram repentinamente.
        - Valha-me Deus, Sassenach! - exclamou. - Voc est branca como minha camisa! Est bem?
        - Apenas com fome - respondi.
        Ele imediatamente mandou servir o jantar e comemos diante da lareira, enquanto eu lhe contava sobre Louise. Para minha surpresa, apesar de cerrar as sobrancelhas 
diante da situao e murmurar palavras pouco elogiosas em galico tanto a respeito de Louise quanto de Carlos Stuart, ele concordou com minha soluo para o problema.
        - Achei que voc iria ficar aborrecido - eu disse, pegando um bocado do suculento cassoulet com um pedao de po. O feijo quente, temperado com bacon, encheu-me 
de uma sensao de tranqilo bem-estar. Estava frio e escuro l fora, e barulhento com a ventania, mas estava quente e silencioso ali junto ao fogo com Jamie.
        - Ah, porque Louise de La Tour vai impingir um bastardo a seu marido? - Jamie franziu o cenho para seu prprio prato, passando o dedo pela borda para pegar 
o resto do caldo. - Bem, no sou muito a favor disso, Sassenach.  uma trapaa vergonhosa contra um homem, mas o que a pobre mulher poderia fazer? - Sacudiu a cabea, 
depois lanou um olhar para a escrivaninha do outro lado do aposento e sorriu ironicamente.
        - Alm disso, no cabe a mim bancar o moralista com o comportamento dos outros. Roubar cartas, espionar e tentar de um modo geral subverter um homem que 
minha famlia considera rei? No gostaria que algum me julgasse com base no que estou fazendo, Sassenach.
        - Voc tem uma razo muito boa para fazer o que est fazendo! - protestei.
        Ele deu de ombros. A luz do fogo tremeluzindo em seu rosto encovava suas faces e lanava sombras nas rbitas dos olhos. Fazia-o parecer mais velho do que 
era; s vezes eu me esquecia que ele ainda no tinha vinte e quatro anos.
        - Bem, sim. E Louise de La Tour tambm tem uma razo - ele disse. - Ela quer salvar uma vida, eu quero salvar dez mil. Isso me d o direito de arriscar a 
vida do pequeno Fergus, o negcio de Jared e voc? - Virou a cabea e sorriu para mim, a luz refletindo na ponta do nariz longo e reto, brilhando como safira no 
nico olho voltado para o fogo.
        - No, novou perder meu sono por causa da necessidade de abrir as cartas de outra pessoa - ele disse. - Pode ficar muito pior do que isso antes de acabarmos, 
Claire, e no posso dizer com antecedncia o que minha conscincia agentar;  melhor no coloc-la  prova cedo demais.
        No havia nada a ser dito quanto a isso; era tudo verdade. Estendi o brao e coloquei a mo em seu rosto. Ele colocou sua prpria mo sobre a minha, envolvendo-a 
por um instante, depois virou a cabea e docemente beijou minha palma.
        - Bem - ele disse, respirando fundo e voltando ao trabalho. - Agora que j jantamos, vamos dar uma olhada nesta carta?
        A carta estava codificada; isso era bvio. Para frustrar possveis interceptadores, Jamie explicou.
        - Quem iria querer interceptar a correspondncia de Sua Alteza? - perguntei. - Quero dizer, alm de ns.
        Jamie riu, achando graa de minha ingenuidade.
        - Quase todo mundo, Sassenach. Os espies de Lus, os espies de Duverney, os espies de Filipe da Espanha. Os senhores jacobitas e aqueles que acham que 
podero se tornar jacobitas se o vento soprar na direo certa. Comerciantes de informaes, que no se importam nem um pouco com quem possa morrer ou viver por 
causa disso. O prprio papa; o Santo Padre tem apoiado os Stuart no exlio h cinqenta anos e portanto imagino que fique de olho no que eles esto fazendo. - Tamborilou 
o dedo sobre a cpia que eu fizera da carta de Jaime a seu filho.
        - O selo nesta carta j foi removido talvez umas trs vezes antes de eu mesmo tir-lo - ele disse.
        - Compreendo - eu disse. - No  de admirar que Jaime codifique suas cartas. Acha que pode descobrir o que ele diz?
        Jamie pegou as folhas de papel, franzindo a testa.
        - No sei; alguma coisa, sim. Outras, no fao a menor idia. Mas que talvez eu consiga decifrar, se eu puder ver outras cartas enviadas pelo rei Jaime. 
Verei o que Fergus pode fazer por mim nesse caso. -
        Dobrou a cpia e guardou-a cuidadosamente na gaveta, trancando-a em seguida.
        - Voc no pode confiar em ningum, Sassenach - ele explicou, vendo meus olhos se arregalarem. - Podemos perfeitamente ter espies entre nossos empregados. 
- Deixou a pequena chave cair no bolso de seu casaco e estendeu o brao para mim.
        Peguei o castial com uma das mos e seu brao com a outra, e nos dirigimos para a escada. O resto da casa estava s escuras, os criados todos, exceto Fergus 
- dormindo virtuosamente. Senti um leve arrepio ao pensar que um ou mais daqueles silenciosos seres adormecidos acima e abaixo poderiam no ser quem aparentavam.
        - Isso no o deixa um pouco nervoso? - perguntei enquanto subamos as escadas. - Nunca poder confiar em ningum?
        Ele riu baixinho.
        - Bem, eu no diria ningum, Sassenach. H voc; e Murtagh; e minha irm Jenny e seu marido lan. Eu confiaria minha vida a vocs. O que j fiz, alis, mais 
de uma vez.
        Estremeci enquanto ele puxava as cortinas da enorme cama. O fogo fora abafado para a noite e o quarto comeava a ficar frio.
        - Quatro pessoas em quem voc pode confiar no parece muito - eu disse, desfazendo os cadaros do meu vestido.
        Ele tirou a camisa pela cabea e jogou-a sobre a cadeira. As cicatrizes em suas costas reluziram como prata na fraca claridade do cu noturno l fora.
        - Sim, bem - ele disse, de modo prtico. - So mais quatro do que Carlos Stuart possui.
        Havia um passarinho cantando do lado de fora, embora ainda faltasse muito tempo para o primeiro raio de luz da manh. Um tordo-dos-remdios, praticando seus 
trincos e gorjeios sem parar, empoleirado em uma calha em algum lugar na escura vizinhana.
        Mexendo-se sonolentamente, Jamie esfregou a face contra a pele macia da minha axila recm-depilada, depois virou a cabea e plantou um beijo macio na cavidade 
quente, provocando um pequeno e delicioso estremecimento pelo lado do meu corpo.
        - Mmm - ele murmurou, passando a mo de leve pelas minhas costelas. - Eu gosto quando voc fica assim toda arrepiada, Sassenach.
        - Assim? - eu disse, correndo as unhas da minha mo direita delicadamente sobre a pele de suas costas, o que na mesma hora causou uma onda de arrepio sob 
a provocao do toque dos meus dedos.
        - Ah.
        - Ah, viu s? - retruquei suavemente, continuando a provoc-lo.
        - Mmmm. - com um gemido de prazer, ele rolou de lado, envolvendo-me com seus braos quando o segui, comprazendo-me com o repentino contato de cada centmetro 
de toda a frente de nossos corpos nus da cabea aos ps. Ele estava quente como uma brasa, o seu calor abafado durante a noite, para reacender-se em chamas no frio 
escuro da madrugada.
        Seus lbios cerraram-se com delicadeza sobre um mamilo e eu mesma gemi, arqueando-me ligeiramente para encoraj-lo a tom-lo mais fundo em sua boca quente. 
Meus seios estavam ficando mais cheios e mais sensveis a cada dia; meus mamilos doam e formigavam s vezes sob os corpetes apertados dos meus vestidos, querendo 
ser sugados.
        - Vai me deixar fazer isso depois? - ele murmurou, com uma leve mordida. - Quando a criana chegar e seus seios ficarem cheios de leite? Voc vai me alimentar 
tambm, junto ao seu corao?
        Segurei sua cabea e acariciei-a, os dedos mergulhados nos cabelos macios como os de um beb que cresciam abundantemente na base de seu crnio.
        - Sempre - sussurrei.
        
        
        
        
14 - MEDITAES SOBRE A CARNE
        
        Fergus tornara-se um perito em sua profisso e quase todos os dias trazia uma nova seleo de cartas de Sua Alteza; s vezes, eu era pressionada a copiar 
tudo rpido antes da prxima expedio de Fergus, quando ele devolveria os itens subtrados, antes de roubar as novas cartas.
        Algumas eram novos comunicados codificados enviados pelo rei Jaime em Roma; Jamie separava as cpias dessas cartas para l-las mais tarde com vagar. A maior 
parte da correspondncia de Sua Alteza era incua - bilhetes de amigos na Itlia, um nmero crescente de contas dos comerciantes locais -, Carlos gostava de roupas 
vistosas e botas finas, bem como de conhaque - e um ou outro bilhete de Louise de La Tour. Esses eram bastante fceis de identificar; fora a caligrafia delicada 
e elegante que usava suas cartas pareciam rastros de um passarinho que tivesse andado sobre elas -, Louise invariavelmente saturava o papel com o perfume de jacinto 
que era sua marca registrada. Jamie recusava-se terminantemente a l-las.
        - No vou ler as cartas de amor do sujeito - disse com firmeza. - At mesmo um conspirador tem que ter algum escrpulo. - Espirrou e colocou a mais recente 
missiva de volta no bolso de Fergus. - Alm do mais acrescentou, de modo mais prtico -, Louise lhe conta tudo, de qualquer maneira.
        Isso era verdade; Louise tornara-se uma amiga ntima e passava quase tanto tempo na minha sala deestar quanto na sua prpria, torcendo as mos por causa 
de Carlos, depois se esquecendo dele no fascnio de discutir as maravilhas da gravidez - ela nunca teve enjos matinais, que Deus a livrasse! Apesar de ser cabea-de-vento, 
eu gostava muito dela; ainda assim, era um grande alvio escapar de sua companhia para ir ao L'Hpital ds Anges toda tarde.
        Embora fosse improvvel que Louise jamais botasse os ps no L'Hpital ds Anges, eu no ficava sem companhia quando ia l. Sem se deixar amedrontar pela 
primeira exposio ao L'Hpital, Mary Hawkins reuniu coragem para me acompanhar outra vez. E depois de novo. Enquanto mal podia obrigar-se a olhar direto para um 
ferimento ainda, era til para dar colheradas de mingau s pessoas e varrer o cho. Aparentemente, ela considerava essas atividades uma mudana bem-vinda tanto s 
reunies da corte quanto  vida na casa de seu tio.
        Embora muitas vezes ficasse chocada com alguns comportamentos que via na corte - no que visse muito, mas chocava-se facilmente -, ela no deixava transparecer 
nenhum desagrado ou horror em particular  vista do visconde Marigny, o que me levou a concluir que sua malfadada famlia ainda no encerrara as negociaes para 
o casamento - e portanto ainda no haviam lhe contado.
        Essa concluso nasceu um dia no final de abril, quando, a caminho do Hpital ds Anges, ela confidenciou-me, ruborizada, que estava apaixonada.
        - Ah, ele  to bonito! - disse, entusiasmada, a gagueira completamente esquecida. - E to... bem, to espiritual tambm.
        - Espiritual? - eu disse. - Hum, sim, que bom. - Particularmente, achei que essa qualidade em especial no seria a que encabearia a minha lista de atributos 
desejveis em um amante, mas os gostos diferem.
        - E quem  o felizardo? - brinquei, amavelmente. - Algum que eu conheo?
        O rubor intensificou-se.
        - No, acho que no. - Ergueu o rosto ento, os olhos cintilando. - Mas... ah, eu no devia estar lhe contando isso, mas no consigo me conter. Ele escreveu 
a meu pai. Ele est voltando para Paris semana que vem!
        -  mesmo? - Essa era uma notcia interessante. - Ouvi dizer que o conde de Palies est sendo esperado na corte semana que vem - eu disse. - O seu pretendido 
faz parte de sua comitiva?
        Mary pareceu horrorizada diante da sugesto.
        - Um francs! Ah, no, Claire; realmente, como eu poderia me casarcom um francs?
        - H alguma coisa errada com os franceses? - perguntei, um tanto surpresa com sua veemncia. - Afinal, voc fala francs. - Mas talvez esse fosse o problema; 
embora Mary falasse francs muito bem, sua timidez a fazia gaguejar ainda mais nessa lngua do que em ingls. Eu me deparara com dois garotos da cozinha no dia anterior, 
divertindo-se com imitaes Perversas de "la petite Anglaise maladroite".
        - Voc no sabe sobre os franceses? - ela sussurrou, os olhos arregalados e horrorizados. - Ah, mas claro, voc no poderia saber. Seu marido  to amvel 
e gentil... ele no, quer d-dizer, sei que ele n-no a perturba dessa forma... - Seu rosto estava coberto de um intenso vermelho do queixo  raiz dos cabelos e a 
gagueira estava a ponto de sufoc-la.
        - Quer dizer... - comecei, tentando pensar em algum modo delicado de faz-la se soltar sem envolver-me em especulaes sobre os hbitos dos franceses. Entretanto, 
considerando o que o sr. Hawkins me contara sobre o pai de Mary e seus planos para o seu casamento, achei que talvez eu devessse tentar esclarecer algumas noes 
que ela evidentemente apreendera dos mexericos dos sales e vestirios. Eu no queria que ela morresse de medo se realmente viesse a se casar com um francs.
        - O que eles f-fazem... na... na cama! - sussurroucom voz rouca.
        - Bem - eu disse de modo pragmtico - H tantas coisas que se pode fazer na cama com um homem, afinal. E como eu vejo um grande nmero de crianas pela cidade, 
presumo que at mesmo os franceses so bem versados nos mtodos ortodoxos.
        - Ah! Crianas... bem, sim,  claro - disse, vagamente, como se no visse muita ligao. - M-m-mas elas disseram - abaixou os olhos, envergonhada, e sua 
voz definhou ainda mais - q-q-que ele... a coisa de um francs, sabe...
        - Sim, eu sei - eu disse, tentando ser paciente. - At onde eu saiba, so iguais a de qualquer outro homem. Ingleses e escoceses so igualmente equipados.
        - Sim, mas eles, eles... c-c-colocam aquilo entre as p-p-pernas de uma senhora! Quero dizer, l dentro dela! - Tendo finalmente conseguido concluir essa 
informao aos trancos, ela respirou fundo, o que pareceu acalm-la, j que o vermelho escarlate de seu rosto recuou um pouco. Um ingls, ou mesmo um escocs... 
ah, eu no quis d-dizer isso dessa forma... - Levou a mo  boca, consternada. - Mas um homem decente como seu marido, certamente n-nunca pensaria em forar a esposa 
a suportar a-algo assim!
        Coloquei a mo sobre meu ventre ligeiramente inflado e olhei-a pensativamente. Comecei a entender por que a espiritualidade tinha uma posio to destacada 
no catlogo de virtudes masculinas de Mary Hawkins.
        - Mary - eu disse - acho que devemos ter uma conversinha.
        Eu ainda estava sorrindo comigo mesma quando entrei no salo principal do hospital, meu prprio vestido coberto com uma sobreveste do mesmo tecido rstico 
e resistente do hbito de uma novia.
        Muitos dos cirurgies, "urinoscopistas", especialistas em fraturas, clnicos e outros curandeiros doavam seu tempo e seus servios como caridade; outros 
vinham para aprender ou aprimorar suas habilidades. Os pacientes miserveis do Hpital ds Anges no estavam em posio de protestar por serem as vtimas de diferentes 
experincias mdicas.
        Fora as prprias freiras, o pessoal mdico mudava quase diariamente, dependendo de quem no tivesse pacientes que pagavam naquele dia ou que precisassem 
testar uma nova tcnica. Ainda assim, a maioria dos mdi" cos free-lance vinha o suficiente para eu aprender a reconhecer os mais assduos imediatamente. Um dos 
mais interessantes era o sujeito alto, que eu vira amputar uma perna na minha primeira visita ao hospital. Depois de perguntar, fiquei sabendo que seu nome era monsieur 
Forez. A princpio um especialista em colocar ossos no lugar, de vez em quando ele tentava os tipos mais complicados de amputao, particularmente quando um membro 
inteiro, em vez de uma junta, estava envolvido. As freiras e serventes pareciam ter um certo temor de monsieur Forez; nunca pilheriavam ou trocavam piadas grosseiras 
com ele, como faziam com a maioria dos outros voluntrios da assistncia mdica.
        Monsieur Forez estava trabalhando hoje. Aproximei-me devagar, para ver o que ele estava fazendo. O paciente, um jovem operrio, estava deitado, lvido e 
ofegante, num catre. Ele cara do andaime na catedral - sempre em construo - e quebrara um brao e uma perna. Eu podia ver que o brao no era nenhum desafio especial 
para um profissional em ossos - apenas uma simples fratura do rdio. A perna, no entanto, era outra histria; uma impressionante fratura composta dupla, envolvendo 
tanto o meio do fmur quanto a tbia. Fragmentos pontiagudos de ossos projetavam-se da pele tanto na coxa quanto na canela, e a carne lacerada estava azul com as 
contuses traumticas em quase todo o aspecto superior da perna.
        Eu no quis distrair a ateno do especialista em fraturas de seu caso, mas monsieur Forez parecia absorto em seus pensamentos, circundando devagar o paciente, 
movendo-se de lado para frente e para trs, como um urubu, cauteloso, com receio de que a vtima ainda no estivesse realmente morta. Ele de fato parecia um urubu, 
pensei, com aquele nariz proeminente como um bico, os cabelos lisos e negros que ele usava sem talco, penteados para trs, presos num rabicho ralo na nuca. Suas 
roupas, tambm, eram pretas e sombrias, embora de boa qualidade - evidentemente ele tinha um trabalho lucrativo fora do Hpital.
        Por fim decidindo o procedimento a seguir, monsieur Forez ergueu o queixo da mo e olhou em torno, em busca de um assistente. Seus olhos pousaram em mim 
e ele fez sinal para que eu me aproximasse. Eu estava vestida com uma roupa de linho rstico usada pelas novias e, perdido em sua concentrao, ele no notou que 
eu no usava a touca e o vu de uma irm enfermeira.
        - Venha c, ma soeur - ordenou, segurando o tornozelo do paciente. -
        Segure-o com firmeza bem atrs do calcanhar. No faa presso at que eu
        lhe diga, mas quando eu der o sinal, traga o p direto em sua direo. Puxe bem devagar, mascom fora.  necessrio uma fora considervel, compreende?
        - Compreendo. - Segurei o p como fui instruda, enquanto Monsieur Forez dirigia-se com seu passo lento e desengonado em direo  outra Ponta do catre, 
olhando contemplativamente a perna quebrada.
        - Tenho um estimulante aqui para ajudar - ele disse, tirando um pequeno frasco do bolso de seu casaco e colocando-o ao lado da cabea do paciente. - Ele 
contrai os vasos sangneos na superfcie da pele e conduz o sangue para dentro, onde pode ser mais til ao nosso jovem amigo. Assim falando, segurou o paciente 
pelos cabelos e introduziu o frasco na boca do rapaz, habilmente entornando o remdio pela garganta abaixo sem derramar uma gota para fora.
        - Ah - exclamou satisfeito quando o rapaz engoliu e respirou fundo. Isso vai ajudar. Agora, quanto  dor... sim, ser melhor deixar a perna dormente, de 
modo que ele fique menos inclinado a resistir aos nossos esforos conforme a ajeitarmos.
        Enfiou a mo no espaoso bolso outra vez, agora retirando um pequeno alfinete de metal de cerca de oito centmetros de comprimento, com uma ponta larga e 
chata. A mo ossuda, de juntas largas, tateou delicadamente a parte interna da coxa do paciente junto  virilha, seguindo a linha fina e azul de uma grande veia 
sob a pele. Os dedos hesitaram em sua explorao, pararam, apalparam num pequeno crculo, depois se decidiu por um ponto. Enfiando o dedo indicador na pele como 
se quisesse marcar o lugar, monsieur Forez levou a ponta do alfinete ao mesmo local. Outra rpida incurso no interior de seu bolso de surpresas produziu um pequeno 
martelo de metal, com o qual ele enfiou o alfinete direto dentro da pele com um nico golpe.
        A perna contorceu-se violentamente, depois pareceu relaxar at a total lassido. O vasoconstritor administrado anteriormente parecia de fato estar funcionando; 
a perda de sangue pelos diversos tecidos dilacerados se reduzira consideravelmente.
        -  impressionante! - exclamei. - O que fez?
        Monsieur Forez sorriu timidamente, um leve rubor colorindo as faces azuladas de prazer com a minha admirao.
        - Bem, nem sempre funciona to bem - admitiu modestamente. Tive sorte desta vez. - Apontou para o alfinete de metal, explicando: - H um grande feixe de 
terminais nervosos ali, irm, o que eu ouvi os anatomistas chamarem de plexus. Se tiver a felicidade de atingi-lo diretamente, pode entorpecer a maioria das sensaes 
na extremidade inferior. Empertigou-se abruptamente, percebendo que estava perdendo tempo em conversa que seria melhor empregado em ao.
        - Vamos, ma soeur - ordenou. - De volta a seu posto! A ao do estimulante no dura muito tempo. Temos que trabalhar agora, enquanto o sangramento est estancado.
        Quase flcida, a perna foi endireitada com facilidade, as pontas estilhaadas de osso recuando da pele. Seguindo as ordens de monsieur Forez segurei o homem 
pelo torso, enquanto ele manobrava o p e a parte inferior da perna, de modo que aplicssemos uma trao constante, enquanto os pequenos ajustes finais eram feitos.
        -  o bastante, irm. Agora, por favor, apenas segure o pcom firmeza por um instante. - Um grito convocou um servente com duas talas fortes e tiras de pano 
para atar. Em poucos instantes, a perna estava perfeitamente imobilizada e os curativos dos ferimentos abertos firmemente presos com ataduras.
        Monsieur Forez e eu trocamos um amplo sorriso de felicitaes por cima do corpo do paciente.
        - Um belo trabalho - elogiei, ajeitando para trs uma mecha de cabelos que se soltara durante nossos esforos. Vi o rosto de monsieur Forez mudar de repente, 
quando percebeu que eu no usava vu. Nesse exato instante, soou o badalar retumbante dos sinos anunciando as horas cannicas na igreja ao lado do hospital. Olhei 
boquiaberta para a janela alta no final da enfermaria, deixada sem vidro para permitir que os vapores insalubres pudessem dissipar-se. De fato, o oval de cu visvel 
ostentava o tom azul-escuro do incio da noite.
        - Desculpe-me - eu disse, comeando a me desvencilhar da veste sobreposta s minhas roupas. - Preciso ir imediatamente; meu marido vai ficar preocupado se 
eu for para casa to tarde. Fico muito contente de ter tido a oportunidade de auxili-lo, monsieur Forez. - O especialista em fraturas observou aquele ato de me 
despojar do traje das freiras com patente espanto.
        - Mas voc... bem, no, claro que no  uma freira, eu devia ter notado isso antes... mas voc... quem  voc? - perguntoucom curiosidade.
        - Meu nome  Fraser - respondi sucintamente. - Olhe, eu realmente preciso ir, ou meu marido...
        Ele empertigou-se em toda a sua altura desengonada e fez uma reverncia com profunda seriedade.
        - Eu consideraria um privilgio se me permitisse acompanh-la at sua casa, madame Fraser.
        - Oh... ora, obrigada - eu disse, sensibilizada com sua amabilidade. -
        Mas eu tenho um acompanhante - eu disse, olhando vagamente ao redor em busca de Fergus, que assumia a tarefa de Murtagh de escoltar-me, quando no precisava 
roubar alguma coisa. Ele estava l, apoiado no batente da porta, remexendo-se de impacincia. Imaginei quanto tempo ele estaria ali, as irms no permitiam a sua 
entrada no salo principal ou nas enfermarias, sempre insistindo para que ele me esperasse junto  porta.
        Monsieur Forez examinou meu acompanhante com ar de dvida, depois segurou-me com firmeza pelo cotovelo.
        - Eu a acompanharei at sua porta, madame - declarou. - Essa parte da cidade  perigosa demais  noite para que a senhora saia l fora com a proteo apenas 
de uma criana.
        Pude ver Fergus encher-se de indignao por ser chamado de criana e apressou-se a protestar, dizendo que era um excelente acompanhante, sempre tendo o cuidado 
de guiar-me pelas ruas mais seguras. Monsieur Forez no prestou ateno a nenhum de ns dois, meramente balanando a cabea de um modo majestoso para a irm Angelique, 
enquanto me conduzia atravs das enormes portas duplas do Hpital.
        Fergus corria junto aos meus calcanhares, puxando a manga do meu vestido.
        - Madame! - disse num sussurro ansioso. - Madame! Eu prometi ao patro que a levaria para casa em segurana todos os dias, que no permitiria que se associasse 
a pessoas indesejveis que...
        - Ah, aqui estamos. Madame, sente-se aqui. O seu menino pode ocupar o outro assento. - Ignorando a tagarelice de Fergus, monsieur Forez pegou-o no colo e 
atirou-o sem-cerimnias dentro da carruagem que o aguardava.
        Era uma carruagem pequena e aberta, mas elegantemente equipada, com bancos forrados de veludo azul-escuro e uma pequena cobertura para proteger os passageiros 
de repentinas inclemncias do tempo ou da gua suja jogada do alto das janelas. No havia nenhum braso ou outra decorao na porta do veculo; monsieur Forez no 
pertencia  nobreza - devia ser um burgus rico, pensei.
        Conversamos formalmente durante o trajeto, discutindo questes mdicas, enquanto Fergus permanecia emburrado no canto, olhando com raiva por baixo da cabeleira 
embaraada. Quando paramos na rue Tremoulins, ele saltou pela lateral, sem esperar que o cocheiro abrisse a porta, e disparou para dentro de casa. Fiquei olhando-o 
desaparecer, imaginando o que o afligia, depois virei para despedir-me de monsieur Forez.
        - No h de qu - assegurou-me gentilmente, em resposta aos meus profusos agradecimentos. - Sua residncia fica no caminho que eu fao para a minha prpria 
casa, de qualquer modo. E eu no poderia confiar a pessoa de uma senhora to encantadora s ruas de Paris a esta hora. Ajudou-me a descer da carruagem e abria a 
boca para dizer mais alguma coisa, quando o porto se abriu ruidosamente atrs de ns.
        Virei-me a tempo de ver a expresso de Jamie mudar de leve aborrecimento a espantada surpresa.
        - Ah! - exclamou. - Boa-noite, monsieur. - Fez uma reverncia para monsieur Forez. Ele retribuiu a saudao com grande solenidade.
        - Sua esposa conferiu-me o grande prazer de entreg-la a salvo  sua porta, milorde. Quanto  sua chegada tardia, peo-lhe que coloque a culpa por isso em 
meus prprios ombros; ela estava gentilmente ajudando-me num pequeno trabalho no Hpital ds Anges.
        - Foi o que imaginei - disse Jamie, resignado. - Afinal - acrescentou em ingls, erguendo uma das sobrancelhas para mim -, no se pode esperar que um simples 
marido exera a mesma atrao que um intestino inflamado ou uma mancha virulenta, no  verdade? - Mas o canto de sua boca contorceu-se e eu vi que ele no estava 
realmente aborrecido, apenas preocupado por eu no ter chegado em casa ainda; senti uma ponta de remorso por ter lhe causado preocupao.
        Inclinando-se mais uma vez para monsieur Forez, segurou-me pelo brao e conduziu-me apressadamente pelo porto.
        - Onde est Fergus? - perguntei, assim que o porto se fechou atrs de ns. Jamie riu.
        - Na cozinha, esperando o castigo, eu imagino.
        - Castigo? O que quer dizer? - perguntei. Ele soltou uma risada inesperada.
        - Bem - explicou -, eu estava sentado no gabinete, perguntando-me onde com os diabos voc estaria e a ponto de ir eu mesmo at o Hpital, quando a porta 
abriu-se com um safano e Fergus entrou como uma flecha, atirando-se no cho aos meus ps, suplicando-me para mat-lo ali mesmo.
        - Mat-lo? Por qu?
        - Bem, isso foi o que eu mesmo lhe perguntei, Sassenach. Achei que talvez voc e ele tivessem sido surpreendidos por ladres no caminho. H bandidos perigosos 
soltos pelas ruas, sabe, e eu achei que perd-la dessa forma seria a nica coisa que o faria se comportar daquele modo. Mas ele disse que voc estava no porto, 
de modo que eu sa s pressas para ver se voce estava bem, com Fergus nos meus calcanhares, tagarelando sobre trair minha confiana e no ser digno de me chamar 
de patro e suplicando-me Para espanc-lo at a morte. Achei meio difcil pensar ali no meio dos acontecimentos e ento lhe disse que cuidaria dele depois e mandei 
que ele fosse para a cozinha.
        - Minha nossa! - exclamei. - Ele realmente acha que traiu sua confiana s porque cheguei em casa um pouco tarde?
        Jamie olhou-me de esguelha.
        -  verdade. E alis traiu mesmo, deixando voc voltar na companhia de um estranho. Ele jura que teria se atirado na frente dos cavalos antes de deixar voc 
entrar na carruagem, mas voc - acrescentou enfaticamente - parecia estar em boas relaes de amizade com o sujeito.
        - Bem,  claro que estava - eu disse, indignada. - Eu o estava ajudando a acertar uma perna.
        - Muhm. - Essa linha de argumentao pareceu-lhe pouco convincente.
        - Ah, est bem - concordei relutantemente. - Talvez eu tenha sido um pouco imprudente. Mas ele de verdade parecia uma pessoa inteiramente respeitvel e eu 
estava com pressa de chegar em casa, sabia que voc devia estar preocupado. - Ainda assim, agora eu desejava ter prestado um pouco mais de ateno aos puxes de 
minha manga e aos resmungos desesperados de Fergus. Na ocasio, s estava preocupada em chegar em casa o mais depressa possvel. - Voc no vai bater nele, no ? 
- perguntei, alarmada. - Ele no teve nenhuma culpa, eu insisti em vir com monsieur Forez. Quer dizer, se algum merece uma surra, sou eu. ;
        Virando-se na direo da cozinha, Jamie arqueou uma sobrancelha ironicamente para mim.
        - Ah,  mesmo - concordou. - No entanto, tendo jurado me abster de tais atos, acho que vou ter que me contentar com Fergus.
        - Jamie! Voc no faria isso! - Parei repentinamente, puxando seu brao. - Jamie! Por favor! - Ento, vi o sorriso oculto no canto de sua boca e suspirei 
de alvio.
        - No - ele disse, deixando que o sorriso se tornasse visvel. - No pretendo mat-lo, nem mesmo dar-lhe uma surra. Mas acho que vou ter que dar-lhe um ou 
dois puxes de orelha para salvar sua honra - acrescentou. - Ele acha que cometeu um crime capital no seguindo minhas ordens para proteg-la. No posso deixar isso 
passar sem algum sinal de descontentamento oficial.
        Parou diante da porta que dava para a cozinha para fechar os punhos da camisa e amarrar o xale no pescoo.
        - Estou vestido decentemente? - perguntou, alisando os cabelos espessos e indisciplinados. - Talvez eu devesse ir buscar o casaco. No sei o que  adequado 
para administrar uma repreenso.
        - Voc est timo - eu disse, reprimindo um sorriso. - Bem severo.
        - Ah, isso  bom - ele disse, endireitando os ombros e apertando os lbios. - Espero no dar uma risada, no ia ficar nada bem - murmurou, empurrando a porta 
para a escada da cozinha.
        Mas o ambiente na cozinha estava longe de ser hilrio. Com a nossa entrada, a tagarelice de costume cessou imediatamente e houve uma corrida apressada do 
pessoal, aglomerando-se em um dos cantos. Todos ficaram imveis por um instante e viu-se um ligeiro movimento entre duas ajudantes da cozinha. Logo Fergus deu um 
passo  frente, colocando-se no espao aberto diante de ns.
        O rosto do menino estava lvido e escorrido de lgrimas, mas ele no chorava agora. Com grande dignidade, ele fez uma reverncia, primeiro para mim. depois 
para Jamie.
        - Madame, monsieur, estou envergonhado - ele disse, em voz baixa, mas clara. - No mereo estar a seu servio, mas ainda assim suplico-lhe que no me mande 
embora. - Sua voz aguda tremeu um pouco diante da idia e eu mordi o lbio. Fergus olhou para o lado, para a fileira de criados, como se buscasse apoio moral, e 
recebeu um sinal de encorajamento de Fernand, o cocheiro. Respirando fundo para reunir coragem, aprumou-se e dirigiu-se direto a Jamie.
        - Estou pronto para sofrer meu castigo agora, milorde - disse. Como se este tivesse sido o sinal, um dos lacaios deu um passo  frente do grupo imvel, conduziu 
o garoto para a mesa de madeira limpa e, passando para o outro lado, pegou as mos do menino, puxando-o at a metade da superfcie da mesa e segurando-o assim estendido.
        - Mas... - Jamie comeou, desconcertado com a rapidez dos acontecimentos. No conseguiu dizer mais nada antes de Magnus, o idoso mordomo, dar um passo solene 
para a frente e apresentar-lhe a cinta de couro utilizada para amolar as facas da cozinha, cerimoniosamente colocada sobre uma travessa de carne.
        - Ha... - Jamie balbuciou, olhando-me com ar desamparado.
        - Hum - eu disse, recuando um passo. Estreitando os olhos, ele agarrou minha mo, apertando-acom fora.
        - No, Sassenach - murmurou em ingls. - Se eu tenho que fazer isso, voc tem que assistir!
        Olhando desesperadamente de sua pretensa vtima para o instrumento de execuo apresentado, hesitou por mais um instante, depois desistiu.
        - Ah, que maldita situao! - sussurrou entre dentes em ingls, pegando a tira de couro oferecida por Magnus. Flexionou a cinta larga entre as mos, hesitante. 
Com oito centmetros de largura e seis milmetros de espessura, era uma arma extraordinria. Obviamente desejando estar em qualquer outro lugar, ele avanou para 
o corpo de Fergus, inclinado de barriga para baixo sobre a mesa.
        - Est bem, ento - disse, olhando furiosamente em torno da cozinha. - Dez chicotadas e no quero ouvir nem um pio. - Vrias criadas empalideceram visivelmente 
diante dessas palavras e agarraram-se umas s outras, mas fez-se um silncio absoluto no enorme aposento quando ele ergueu a tira de couro.
        O estalo resultante do impacto me deu um sobressalto e houve alguns gritinhos de alarme entre as ajudantes de cozinha, mas nenhum som de Fergus. O pequeno 
corpo estremeceu e Jamie cerrou os olhos por um instante, depois apertou os lbios e continuou a infligir o restante da pena cada golpe a espaos regulares. Senti-me 
tonta e discretamente limpei as mos midas de suor na saia. Ao mesmo tempo, senti uma incontrolvel vontade de rir diante da terrvel farsa da situao.
        Fergus suportou tudo em total silncio e quando Jamie terminou e deu um passo para trs, plido e suando, o pequeno corpo permaneceu to imvel que por um 
instante temi que ele tivesse morrido - de choque, se no por causa dos reais efeitos da surra. Mas em seguida um profundo estremecimento pareceu percorrer a frgil 
compleio fsica de Fergus. O menino deslizou para trs e ergueu-se rigidamente, afastando-se da mesa.
        Jamie lanou-se para frente para segur-lo pelo brao, ansiosamente alisando para trs os cabelos molhados de suor de sua testa.
        - Voc est bem, rapaz? - perguntou. - Meu Deus, Fergus, diga-me que est bem!
        O garoto tinha os lbios lvidos e os olhos do tamanho de dois pires, mas sorriu diante da evidente boa vontade por parte de seu patro, os dentes de coelho 
brilhando  luz do lampio.
        - Ah, sim, senhor - disse, ofegante. - Estou perdoado?
        - Nossa Senhora - Jamie murmurou, apertando o menino com fora contra o peito. - Sim, claro que est, seu bobalho. - Segurou o menino com o brao estendido 
e sacudiu-o levemente. - Nunca mais quero ter de fazer isso, ouviu?
        Fergus balanou a cabea, os olhos brilhando, depois se libertou da mo de Jamie e caiu de joelhos diante de mim.
        - A senhora tambm me perdoa, madame? - perguntou, unindo as mos formalmente diante de si e erguendo os olhos esperanosos, como um esquilo implorando por 
nozes.
        Pensei que eu iria desfalecer ali mesmo de tormento, mas reuni autocontrole suficiente para estender a mo para baixo e fazer o menino ficar de p.
        - No h nada a perdoar - disse-lhe com firmeza, o rosto queimando.- Voc  um garoto muito corajoso, Fergus. Bem... ha, por que voc no vai jantar um pouco 
agora?
        Diante disso, a atmosfera na cozinha desanuviou-se, como se todos tivessem dado um forte suspiro de alvio simultneo. Os outros criados empurraram-se para 
a frente, murmurando ao mesmo tempo palavras de preocupao e de congratulaes. Fergus foi ento levado s pressas para uma recepo de heri, enquanto eu e Jamie 
batamos em retirada apressadamente, de volta aos nossos aposentos no andar superior.
        - Ah, meu Deus -Jamie exclamou, deixando-se afundar numa poltrona como se estivesse completamente exausto. - Santo Cristo. Minha Nossa Senhora. Jesus, preciso 
de uma bebida. No toque a sineta! - exclamou, apavorado, embora eu no tivesse feito nenhum movimento em direo  corda da sineta. - Eu no suportaria encarar 
um dos empregados neste momento.
        Levantou-se e comeou a procurar no armrio.
        - Acho que tenho uma garrafa aqui.
        De fato, tinha uma garrafa de excelente usque envelhecido. Retirando a rolha com os dentes sem nenhuma cerimnia, reduziu o nvel da bebida em mais de dois 
centmetros, depois me passou a garrafa. Segui seu exemplo sem nenhuma hesitao.
        - Nossa Senhora - exclamei, quando recuperei flego suficiente para falar.
        - Pois  - ele disse, pegando a garrafa de volta e tomando outro gole. Colocando a garrafa na mesa, ele segurou a cabea, passando os dedos pelos cabelos, 
at ficarem em p, loucamente desgrenhados. Sorriu frouxamente. - Nunca me senti to tolo em toda a minha vida. Meu Deus, me senti um completo idiota!
        - Eu tambm - eu disse, revezando-me na garrafa. - Mais ainda do que voc, imagino. Afinal, foi tudo culpa minha. Jamie, lamento muito tudo isso, nunca imaginei...
        - Ah, no se preocupe. - Com a tenso da ltima meia hora aliviada, ele apertou meu ombro afetuosamente. - Voc no poderia adivinhar. Nem eu, por falar 
nisso - acrescentou pensativo. - Acho que ele pensou que eu iria mand-lo embora e ele iria ter que voltar s ruas... coitado. No  de admirar que ele se achou 
com sorte por tomar uma surra em vez de ser despedido.
        Estremeci levemente, lembrando-me das ruas que a carruagem de monsieur Forez percorrera. Mendigos cobertos de trapos e feridas se agarravam obstinadamente 
a seus territrios, dormindo no cho mesmo nas noites mais frias, com receio de que algum concorrente lhes roubasse uma esquina lucrativa. Crianas muito menores 
do que Fergus corriam pelo meio da multido nos mercados como ratos esfomeados, os olhos sempre atentos a qualquer migalha que casse, a qualquer bolso vulnervel. 
para aqueles fracos demais para trabalhar, feios demais para se venderem nos bordis ou simplesmente azarados demais - seria uma vida realmente curta e longe de 
qualquer alegria. No era de admirar que a perspectiva de Ser atirado do luxo de trs refeies por dia e roupas limpas de volta ao srdido bordel fora suficiente 
para fazer Fergus lanar-se numa crise de culpa desnecessria.
        - Creio que sim - eu disse. A essa altura, minha ingesto da bebida declinara de grandes tragos a pequenos e educados goles. Continuei bebericando comedidamente, 
depois devolvi a garrafa, notando de modo desligado, que estava abaixo da metade. - Ainda assim, espero que voc no o tenha machucado.
        - Bem, sem dvida ele vai ficar um pouco dolorido - disse, com forte sotaque escocs. Em geral quase imperceptvel, seu sotaque sempre ficava mais pronunciado 
quando bebia muito. Sacudiu a cabea, estreitando os olhos para a garrafa para verificar o nvel de bebida que restara. - Sabe Sassenach, que nunca at esta noite 
eu percebera o quanto deve ter sido difcil para o meu pai me bater? Sempre achei que eu  que ficava com a pior parte da histria. - Inclinou a cabea para trs 
e bebeu outra vez, depois colocou a garrafa na mesa e fitou o fogo com os olhos vidrados. Ser pai deve ser um pouco mais complicado do que eu pensava.vou ter que 
pensar sobre isso.
        - Bem, no pense demais - eu disse. - J teve motivo suficiente para beber.
        - Ah, no se preocupe - disse alegremente. - Tenho outra garrafa no armrio.



15 - ONDE A MSICA DESEMPENHA UM PAPEL
        
        Ficamos acordados at tarde com a segunda garrafa, lendo e relendo a ltima das cartas roubadas do chevalier de St. George - tambm conhecido como Sua Majestade, 
Jaime III - e as cartas ao prncipe Carlos de partidrios jacobitas.
        - Fergus pegou um pacote grande, destinado a Sua Alteza - Jamie explicou. - Havia muita coisa nele e no pudemos copiar tudo suficientemente rpido, de modo 
que guardei uma parte para voltar da prxima vez.
        - Veja - ele disse, extraindo uma folha da pilha e colocando-a no meu joelho -, a maioria das cartas est em cdigo, como esta: "Ouvi dizer que as perspectivas 
para tetrazes so muito favorveis este ano nas colinas acima de Salerno; os caadores desta regio devero ser bem-sucedidos." Isso  fcil;  uma referncia a 
Manzetti, o banqueiro italiano; ele  de Salerno. Descobri que Carlos andou jantando com ele e conseguiu tomar emprestado quinze mil livres. Tudo indica que o conselho 
de Jaime foi bom. Mas aqui... - Remexeu na pilha, retirando outra folha.
        - Olhe isto - Jamie disse, entregando-me uma folha coberta com seus garranchos inclinados.
        Espremi os olhos obedientemente para o papel, do qual eu s conseguia identificar algumas letras, ligadas a uma rede de setas e pontos de interrogao.
        - Que lngua  essa? - perguntei, examinando a folha. - Polons? A me de Carlos Stuart, a falecida Clementina Sobieski, era polonesa, afinal.
        - No, est em ingls - Jamie disse, rindo. - No consegue l-la?
        - Voc consegue?
        - Ah, sim - disse orgulhosamente. -  uma linguagem cifrada, Sassenach, e no muito complicada. Veja, tudo que voc precisa fazer  separar as letras em 
grupos de cinco, para comear, s que voc no conta as letras Q nem X. Os Xs significam intervalos entre as frases e os Qs foram apenas inseridos aqui e ali para 
tornar tudo mais confuso.
        - Se  o que diz... - retruquei, olhando da carta de aparncia extremamente confusa, que comeava com: "Mrti ocruti dlopro qahstmin...", para a folha nas 
mos de Jamie, com uma srie de grupos de cinco letras escritas em uma nica linha, letras isoladas, cuidadosamente registradas acima deles, uma de cada vez.
        - Uma letra  apenas substituda por outra, mas na mesma ordem. - Jamie explicava. - Portanto se voc tiver uma boa quantidade de texto para trabalhar, e 
puder adivinhar uma ou outra palavra, tudo que precisa fazer  traduzir de um alfabeto para o outro, est vendo? - Sacudiu uma longa tira de papel sob meu nariz, 
com dois alfabetos registrados um em cima do outro, ligeiramente deslocados.
        - Bem, mais ou menos - eu disse. - Mas imagino que voc tenha entendido, que  o mais importante. O que diz a carta?
        A expresso de vivo interesse com que Jamie acolhia todo tipo de quebra- cabea esmaeceu um pouco e ele deixou a folha de papel cair sobre seu joelho. Olhou 
para mim, o lbio inferior preso entre os dentes em introspeco.
        - Bem - disse -, isso  que  estranho. E no entanto no vejo como eu possa estar enganado. O tom das cartas de Jaime de um modo geral sugere um caminho, 
mas esta carta cifrada expressa abertamente as idias.
        Os olhos azuis fitaram os meus por baixo das espessas sobrancelhas ruivas.
        -Jaime quer que Carlos caia nas graas de Lus - disse devagar -, mas no est buscando apoio para uma invaso da Esccia. Jaime no tem nenhum interesse 
em buscar a retomada do trono.
        - O qu? - Arranquei o mao de cartas de suas mos, meus olhos febrilmente examinando o texto rabiscado.
        Jamie tinha razo; enquanto as cartas dos partidrios falavam esperanosamente da iminente restaurao dos Stuart, as cartas de Jaime a seu filho no mencionavam 
nada dissto, mas todas elas diziam respeito a Carlos causar uma boa impresso em Lus. At mesmo o emprstimo de Manzett de Salerno fora buscado visando possibilitar 
a Carlos viver com a aparncia de um cavalheiro em Paris; no para financiar nenhum objetivo militar.
        - Bem, estou achando que Jaime  um homenzinho muito astuto. - Jamie disse, batendo em uma das cartas. - Porque, veja bem, Sassenach, ele quase no possui 
nenhum dinheiro prprio; sua mulher era muito rica, mas tio Alex contou-me que ela deixou tudo para a igreja quando morreu. O papa  que vem mantendo Jaime e todo 
o seu squito. Afinal, ele  um monarca catlico e o papa  obrigado a patrocinar seus interesses contra aqueles do Eleitor de Hannover - disse referindo-se a Jorge 
II, rei da Inglaterra e da Irlanda, e pertencente  Casa Hannover, da Alemanha, direito a tomar parte na eleio de um novo imperador alemo.
        Ele entrelaou as mos em volta de um dos joelhos, fitando pensativamente a pilha de papis agora colocada entre ns no sof.
        - Filipe da Espanha e Lus, o Velho Rei, quero dizer, deram-lhe uma pequena quantidade de tropas e alguns navios, h trinta anos, com os quais deveria recuperar 
o trono. Mas tudo deu errado; o mau tempo naufragou alguns navios e o resto no tinha pilotos e acabou aportando no lugar errado. Tudo deu errado e, no fim, os franceses 
simplesmente zarparam de volta, sem que Jaime sequer tivesse colocado os ps em solo escocs. Assim, provavelmente, nos anos que se seguiram, ele tenha desistido 
de qualquer idia de voltar ao poder. Alm disso, ele tinha dois filhos chegando  idade adulta e nenhuma maneira de situ-los adequadamente na vida.
        "Ento, eu me pergunto, Sassenach: o que eu faria em tal situao? A resposta seria que eu tentaria ver se meu bom primo Lus, que afinal  o rei da Frana, 
poderia estabelecer meu filho numa boa colocao, dar-lhe uma posio militar, talvez, e homens para comandar. Um general da Frana no  uma posio nada ruim na 
vida "
        - Hum... - Balancei a cabea, pensando. - Sim, mas se eu fosse um homem muito esperto, eu no iria simplesmente at Lus suplicar, como um primo pobre Eu 
enviaria meu filho a Paris e tentaria fazercom que Lus se visse forado a aceit-lo na corte. E enquanto isso manteria a iluso de que eu estava ativamente buscando 
a restaurao da minha monarquia
        - Porque se Jaime admitir abertamente que os Stuart nunca governaro a Esccia outra vez - Jamie acrescentou em voz baixa -, ele no ter mais nenhum valor 
para Lus.
        E sem a possibilidade de uma invaso jacobita armada para conquistar os ingleses, Lus no teria nenhuma razo para dar a seu jovem primo Carlos nada alm 
do que a pequena penso que a decncia e a opinio pblica o forariam a oferecer.
        No era certo; as cartas que Jamie conseguira obter, algumas poucas de cada vez, s iam at janeiro ltimo, quando Carlos chegara  Frana E, expressa em 
cdigo, cifras e linguagem enigmtica de um modo geral, a Atuao estava longe de estar clara. Entretanto, tudo considerado, as evidencias realmente apontavam nessa 
direo.
        E se o palpite de Jamie quanto aos motivos de Carlos estivesse correto ento, nossa tarefa j estava cumprida; na verdade, ela jamais existira realmente.
        Repassando os acontecimentos da noite anterior, fiquei distrada e todo o dia seguinte, na reunio matinal de Mane d'Arbanville para um poeta hngaro, em 
uma visita a um herborista da vizinhana a fim de comprar um pouco de valeriana e rizoma de lrio florentino e durante minhas rondas no Hpital ds Anges.
        Finalmente, abandonei meu trabalho, com receio de acidentalmente machucar algum em minha distrao. Nem Murtagh nem Fergus haviam chegado ainda para me 
escoltar at em casa, assim tirei a veste usada sobre as roupas no hospital e sentei-me para esperar no escritrio vazio de madre Hildegarde, que ficava logo no 
vestbulo do Hpital.
        J estava ali h mais ou menos meia hora, ociosamente dobrando o tecido do meu vestido entre os dedos, quando ouvi o cachorro do lado de fora.
        O porteiro se ausentara, como quase sempre fazia. Sara para comprar comida, sem dvida, ou resolver uma pequena incumbncia para uma das freiras. Como sempre 
em sua ausncia, a guarda dos portais do Hpital ficava a cargo das patas - e dentes - competentes de Bouton.
        O primeiro latido de advertncia foi seguido de um rosnado baixo e surdo que avisava o intruso para permanecer onde estava, sob pena de imediato desmembramento. 
Levantei-me e enfiei a cabea para fora da porta do escritrio, para ver se o padre Balmain estava enfrentando o perigo do demnio outra vez, no desempenho de seus 
deveres sacramentais. Mas a figura delineada contra a enorme janela de vitrais do saguo de entrada no era o vulto magro do jovem padre. Era uma figura alta, cujo 
kilt em silhueta oscilou graciosamente em torno de suas pernas quando ele se afastou do pequeno animal de dentes arreganhados a seus ps.
        Jamie pestanejou, parado abruptamente pelo ataque. Protegendo os olhos do reflexo ofuscante da janela, espreitou as sombras do interior.
        - Ah, ol, cachorrinho - disse educadamente e deu um passo para a frente, os ns dos dedos estendidos para o animal. Bouton elevou o rosnado alguns decibis 
e ele recuou um passo.
        - Ah, ento  assim, no ? - Jamie disse. Fitou o cachorro com os olhos semicerrados. - Pense bem, meu rapaz - ele avisou, olhando-o para baixo do nariz 
longo e reto. - Sou muito maior do que voc. Eu no arriscaria nenhuma ao precipitada, se eu fosse voc.
        Bouton mudou ligeiramente de lugar, ainda fazendo um barulho como o de um Fokker a distncia.
        - E mais rpido, tambm - disse Jamie, simulando um salto para o lado. Os dentes de Bouton fecharam-se a poucos centmetros da perna e ele recuou apressado. 
Recostando-se contra a parede, cruzou os braos e balanou a cabea para o cachorro.
        - Bem, voc tem um bom argumento a, admito. Quando o assunto  dentes, voc tem vantagem sobre mim, sem dvida. - Bouton inclinou uma das orelhas, desconfiado 
com aquele discurso amigvel, mas voltou ao rosnado grave.
        Jamie cruzou um p sobre o outro, como algum disposto a passar o tempo ali indefinidamente. A luz multicolorida da janela banhava seu rosto de azul, fazendo-o 
parecer uma das frias esttuas de mrmore na catedral ao lado.
        - Certamente voc tem coisas mais importantes a fazer do que atormentar visitantes inocentes, no? - perguntou, em tom de conversa. - J ouvi falar de voc. 
 o famoso sujeito que fareja doenas, certo? Bem, por que esto desperdiando o seu talento em coisas tolas como guardar a porta, quando podia estar sendo muito 
mais til cheirando dedos com gota e traseiros pustulentos? Responda-me, por favor!
        Um latido agudo em reao ao seu ato de descruzar as pernas foi a nica resposta.
        Houve uma agitao de panos atrs de mim quando madre Hildegarde aproximou-se, vindo do interior do hospital.
        - O que ? - perguntou, vendo-me espreitando do canto. - Temos visitas?
        - Parece que Bouton tem uma diferena de opiniocom meu marido - eu disse.
        - Eu no tenho que aturar isso, sabe? - Jamie ameaava. Sorrateiramente, levava uma das mos ao broche que segurava seu xale de xadrez no ombro. - Um rpido 
lanamento do meu xale e eu o terei amarrado como um... ah, bonjour, madame! - disse, mudando rpido para o francs ao avistar madre Hildegarde.
        - Bonjour, monsieur Fraser. - Ela inclinou o vu graciosamente, mais Para esconder o largo sorriso em seu rosto do que para cumpriment-lo, pensei comigo 
mesma. - Vejo que j conhece Bouton. Est procurando sua esposa?
        Essa parecendo ser a minha deixa, sa de dentro do escritrio, colocando-me atrs dela. Meu devotado esposo olhou de Bouton para a Porta do escritrio, com 
certeza tirando concluses.
        - E exatamente h quanto tempo voc estava em p a, Sassenach? - Perguntou secamente.
        - Bastante tempo - eu disse, com a arrogante autoconfiana de algum que est nas boas graas de Bouton. - O que voc teria feito com ele, quando o tivesse 
enfaixado em seu xale?
        - Atir-lo pela janela e correr como um condenado - respondeu, com um rpido olhar de pavor diante da figura imponente de madre lldegarde. - Ela por acaso 
fala ingls?
        - No, felizmente para voc - respondi. Troquei para francs para fazer as apresentaes. - Ma mre, je vous presente mon mari, k seigneur de Broch Tuarach.
        - Milorde. - Madre Hildegarde j conseguira dominar seu senso de humor e cumprimentou-o com sua costumeira expresso de formidvel cordialidade. - Vamos 
sentir falta de sua mulher, mas se a requisitar,  claro que...
        - No vim por causa de minha mulher - Jamie interrompeu-a. - Eu vim v-la, ma mre.
        Sentado no escritrio de madre Hildegarde, Jamie colocou o feixe de papis que carregava na madeira lustrosa de sua escrivaninha. Bouton, mantendo um olhar 
cauteloso sobre o intruso, deitou-se aos ps de sua dona. Colocou o focinho sobre as patas, mas manteve as orelhas em p, o lbio levantado junto a um dente canino, 
para a eventualidade de ser chamado a estraalhar o visitante, membro a membro.
        Jamie estreitou os olhos para Bouton, explicitamente colocando os ps longe do focinho preto e irrequieto.
        - Herr Gerstmann recomendou-me que a consultasse, madre, a respeito destes documentos - ele disse, desenrolando o grosso feixe de papis e aplainando-os 
sob a palma das mos.
        Madre Hildegarde fitou Jamie por um instante, uma das grossas sobrancelhas erguidas inquisitivamente. Em seguida, voltou sua ateno para o mao de papis, 
com aquele jeito dos administradores de parecerem estar inteiramente concentrados na questo  sua frente, enquanto ainda mantm sua sensvel antena sintonizada 
para captar a menor vibrao de emergncia dos confins do Hpital.
        -  mesmo? - ela disse. O dedo rombudo percorreu de leve as linhas da pauta de msica, uma a uma, como se ouvisse as notas ao toc-las.com um estalido do 
dedo, a folha deslizou para o lado, expondo parcialmente a seguinte.
        - O que  que o senhor quer saber, monsieur Fraser? - ela perguntou.
        - No sei, madre. - Jamie inclinava-se para a frente, concentrado. Ele prprio tocou as linhas, passando o dedo de modo delicado nos borres onde a mo de 
quem escrevera havia descuidadamente roado na pauta antes de a tinta secar. - H alguma coisa estranha nesta msica, madre.
        A boca generosa da freira moveu-se ligeiramente no que parecia ser um sorriso.
        -  mesmo, monsieur Fraser? E entretanto, pelo que sei... por favor, no se ofenda... a msica para o senhor ... uma fechadura para a qual o senhor no 
tem a chave, no ?
        Jamie riu e uma freira que passava no corredor virou-se, surpresa com aqele som nos recessos do Hpital. Era um lugar barulhento, mas raramente se ouvia 
uma risada.
        -  uma descrio muito educada de minha incapacidade, madre. E absolutamente verdadeira. Se cantasse uma dessas peas - seu dedo, mais longo e mais delgado, 
mas quase do mesmo tamanho do dedo de madre Hildegarde, bateu no papel-pergaminho com um leve som sussurrante -, eu no saberia diferenci-la do Kyrie Eleison ou 
de "La Dame fait bien", exceto pela letra - acrescentou com um sorriso.
        Foi a vez de madre Hildegarde rir.
        - Ora, ora, monsieur Fraser - ela disse. - Bem, ao menos o senhor presta ateno s letras! - Ela segurou o feixe de papis nas mos e folheou-os com rapidez. 
Pude ver o ligeiro inflar de sua garganta acima da faixa apertada de sua touca enquanto ela lia, como se estivesse cantando silenciosamente para si mesma, e um p 
avantajado batendo de leve, como se marcasse o compasso.
        Jamie permaneceu sentado absolutamente quieto em seu banco, a mo perfeita dobrada sobre a aleijada em um dos joelhos, observando a freira. Os olhos azuis 
rasgados estavam fixamente concentrados e ele no prestava nenhuma ateno ao permanente barulho que vinha dos fundos do Hpital atrs dele. Pacientes berravam, 
serventes e freiras gritavam uns para os outros, familiares emitiam sons agudos de tristeza ou assombro e os rudos mais baixos de instrumentos metlicos ecoavam 
das pedras antigas do edifcio, mas nem Jamie nem madre Hildegarde se moveram.
        Finalmente, ela abaixou as folhas, espreitando-o por cima do mao. Seus olhos faiscavam e de repente parecia uma jovem.
        - Acho que tem razo! - disse. - No disponho de tempo agora para examin-las com cuidado - olhou na direo da porta, por um momento bloqueada pela figura 
de uma servente passando apressada com um grande saco de gaze -, mas h algo estranho aqui. - Bateu as folhas sobre a mesa, ajeitando-as numa pilha arrumada. -  
extraordinrio - comentou.
        - Seja como for, madre. Acredita que pode, com seu dom, discernir qual  esse padro em particular? Seria difcil; tenho razes para supor que seja um cdigo 
e que a linguagem da mensagem esteja em ingls, embora as letras das msicas estejam em alemo.
        Madre Hildegarde emitiu um pequeno murmrio de surpresa.
        - Ingls? Tem certeza?
        Jamie sacudiu a cabea.
        - No, no tenho certeza, mas acho que . Uma das razes  o pas de origem; as canes foram enviadas da Inglaterra.
        - Bem, monsieur - disse, arqueando uma das sobrancelhas. - Sua mulher fala ingls, certo? E imagino que estaria disposto a sacrificar sua companhia para 
que ela me auxilie na realizao desse trabalho para o senhor, no?
        Jamie olhou para ela, o ligeiro sorriso em seu rosto refletindo a expresso no rosto da madre superiora. Abaixou os olhos para os ps, onde os bigodes de 
Bouton estremeciam com o resqucio de um rosnado.
        -vou fazer um acordo com a senhora, madre - ele disse. - Se o seu cachorrinho no morder meu traseiro na sada, pode contar com a ajuda da minha mulher.
        Assim, naquela noite, em vez de retornar para casa, a residncia de Jared na rue Tremoulins, jantei com as irms do Couvent ds Anges em sua longa mesa de 
refeitrio e, em seguida, retirei-me para o trabalho noturno nos aposentos particulares de madre Hildegarde.
        O apartamento da madre superiora era composto de trs cmodos. O mais externo era mobiliado como uma sala de estar, com um considervel grau de sofisticao. 
Afinal, era ali onde recebia visitas oficiais. O segundo aposento foi uma espcie de choque para mim, simplesmente porque eu no esperava algo assim.  primeira 
vista, tive a impresso de que no havia nada no pequeno quarto alm de um grande cravo, feito de nogueira bem lustrada e decorado com pequenas flores pintadas  
mo despontando de uma trepadeira retorcida que percorria a caixa sonora acima das brilhantes teclas de marfim.
        Olhando com mais ateno, vi algumas outras peas de moblia pelo aposento, inclusive um conjunto de estantes de livros que cobria inteiramente uma das paredes, 
atulhada de obras de musicologia e manuscritos costurados  mo, muito semelhantes ao que madre Hildegarde agora colocava no suporte de partituras do cravo.
        Fez sinal para que eu me sentasse em uma cadeira diante de uma pequena escrivaninha encostada a uma das paredes.
        - Encontrar papel e tinta a, milady. Bem, vejamos o que esta pequena pea musical pode nos contar.
        A msica fora escrita em papel-pergaminho grosso, as linhas das pautas nitidamente desenhadas a rgua de um lado ao outro da pgina. As prprias notas, as 
claves, as pausas e os acidentes haviam sido desenhados com extremo cuidado. Aquela sem dvida era uma cpia final limpa, no um rascunho ou uma melodia apressadamente 
rabiscada. No alto da pgina via-se o ttulo: "Lied ds Landes." Uma cano da terra.
        - O ttulo, como v, sugere algo simples, como uma volkslied, uma cano popular - disse madre Hildegarde, apontando um dedo indicador longo e ossudo Para 
a pgina. - E, no entanto, a forma da composio  inteiramente diferente. Voc sabe ler msica? - A enorme mo direita, de ns dos dedos largos e unhas curtas, 
desceu sobre as teclas com um
        toque inacreditavelmente delicado.
        Inclinando-me por cima do ombro de madre Hildegarde, cantei as primeiras trs linhas da msica, fazendo o melhor possvelcom a minha pronncia alem. Ento, 
ela parou de tocar e virou-se para erguer os olhos para mim.
        - Essa  a melodia bsica. Depois, ela se repete em variaes, mas que variaes! Sabe, eu j vi algumas criaes que me lembram esta aqui. Por um velhinho 
alemo chamado Bach; ele me envia alguma coisa de vez em quando. - Agitou a mo negligentemente na direo de uma prateleira de manuscritos. - Ele as chama de "Invenes" 
e so realmente muito inteligentes, h variaes em duas ou trs linhas meldicas ao mesmo tempo. Isto - contraiu os lbios para a "Lied" diante de ns -  como 
uma imitao grosseira de uma de suas "Invenes". Na verdade, eu poderia jurar que... - Murmurando consigo mesma, empurrou o banco de nogueira para trs e dirigiu-se 
 prateleira, correndo o dedo rapidamente pelas fileiras de manuscritos.
        Encontrou o que procurava e retornou ao banco com trs peas musicais encadernadas.
        - Estas so as peas de Bach. So bastante velhas, h anos no as vejo. Ainda assim, tenho quase certeza... - Deixou-se cair em silncio, folheando depressa 
as pginas dos manuscritos de Bach sobre o joelho, uma de cada vez, de vez em quando olhando de novo para a "Lied" no cravo.
        - Ah! - Ela deixou escapar um grito de triunfo e mostrou-me uma das Peas de Bach. - Est vendo ali?
        O papel tinha o ttulo de "Goldberg Variations", numa caligrafia borrada, quase ilegvel. Toquei o papel com certa reverncia, engoli em seco e olhei de 
novo para a "Lied". Foi preciso apenas um instante de comparao para ver o que ela queria dizer.
        - Tem razo,  a mesma! - eu disse. - Uma nota diferente aqui e ali, mas teoricamente  a mesma do tema original da pea de Bach. Que estranho!
        - No ? - ela disse, em tom de grande satisfao. - Agora, por que e que um compositor annimo est roubando melodias e tratando-as de um modo to esquisito?
        Essa era sem dvida uma pergunta retrica e no me preocupei em responder, mas fiz eu mesma outra pergunta.
        - A msica de Bach est muito em voga atualmente, madre? - Eu certamente no ouvira nenhuma nos sales musicais que freqentava.
        - No - ela disse, sacudindo a cabea, enquanto examinava a msica - Herr Bach no  muito conhecido na Frana. Acho que ele teve uma certa popularidade 
na Alemanha e na ustria h quinze ou vinte anos, mas mesmo l sua msica no  muito executada em pblico. Receio que a msica dele no seja do tipo que perdure; 
inteligente, mas sem sentimento. Humph. Est vendo aqui? - O dedo indicador rombudo bateu em trs pontos, virando as pginas rpido.
        - Ele repetiu a mesma melodia, ou quase a mesma, mas mudou o tom a cada vez. Acho que talvez seja isso que atraia a ateno de seu marido;  bvio at mesmo 
para algum que no l msica, por causa da mudana de sinais, a note tonique.
        E era; cada mudana de tom era marcada por uma linha vertical dupla seguida de uma nova clave de sol e sinais indicando sustenidos e bemis.
        - Cinco mudanas de tom numa pea to pequena - ela disse, batendo na ltima de novo para dar nfase. - E mudanas que no fazem absolutamente nenhum sentido, 
em termos musicais. Olhe, a linha bsica  exatamente a mesma, entretanto passamos do tom de dois bemis, que  o si-bemol maior, para l-maior, com trs sustenidos. 
Mais peculiar ainda, agora ele vai para um sinal de dois sustenidos e, no entanto, usa o solsustenido acidental!
        - Muito estranho - eu disse. Adicionar um sol-sustenido acidental ao segmento em r-maior tinha o efeito de tornar a linha meldica idntica  do segmento 
em l-maior. Em outras palavras, no havia nenhuma razo plausvel para ter mudado a armadura da clave.
        - Eu no sei alemo - eu disse. - Pode ler a letra da msica, madre? Ela balanou a cabea, confirmando, as pregas de seu vu negro farfalhando com o movimento, 
os olhos pequenos fixos no manuscrito.
        - Que letra realmente execrvel! - murmurou para si mesma. - No que se espere uma grande poesia dos alemes em geral, mas realmente... ainda assim... - 
Interrompeu-se com uma sacudida do vu. - Devemos supor que se seu marido estiver correto em presumir que se trate de um tipo de cdigo, a mensagem est embutida 
nestas palavras. Elas podem, portanto, no ter grande significado em si mesmas.
        - O que diz? - perguntei.
        - "Minha pastora com seus carneiros passeia saltitante pelas colinas verdejantes" - ela leu. - Uma pssima construo gramatical, embora,  claro, em geral 
se tome muita liberdade na composio de canes, se o autor da letra fizer questo que os versos rimem, o que em geral acontece quando se trata de uma cano de 
amor.
        - Sabe muito a respeito de canes de amor? - perguntei com curiosidade. Madre Hildegarde estava cheia de surpresas esta noite.
        - Qualquer boa msica  na essncia uma cano de amor - ela respondeu de modo prosaico. - Mas quanto  sua pergunta, sim, j vi muitas. Quando eu era menina 
- exibiu seus grandes dentes brancos num sorriso, reconhecendo a dificuldade de imagin-la criana -, eu era uma espcie de prodgio. Eu podia tocar de memria qualquer 
coisa que ouvisse e escrevi minha primeira composio aos sete anos de idade. - Fez um gesto indicando o cravo, o luxuoso acabamento em verniz brilhando de lustre.
        - Minha famlia  rica; se eu fosse homem, sem dvida teria sido um msico. - Falou de maneira simples, sem nenhum trao de arrependimento.
        - Certamente poderia ter composto msica se tivesse se casado, no? - perguntei, curiosa.
        Madre Hildegarde abriu as mos, grotescas  luz do lampio. Eu vira aquelas mos arrancarem uma adaga presa no osso, guiarem uma junta deslocada de volta 
ao seu alinhamento, segurarem a cabea lambuzada de sangue de uma criana do meio das pernas da me. E eu vira aqueles dedos demorarem-se nas teclas de banocom 
a delicadeza de uma mariposa.
        - Bem - ela disse, aps um instante de contemplao -,  culpa de Santo Anselmo.
        - Ah, ?
        Ela riu diante de minha expresso, seu rosto sem atrativos totalmente transformado de sua severa fachada pblica.
        - Ah, sim. Meu padrinho, o Velho Rei Sol - acrescentou despreocupadamente -, me deu um livro sobre a vida dos santos no dia do prprio santo do meu aniversrio, 
quando fiz oito anos. Era um lindo livro - disse, nostalgicamente -, com pginas douradas e uma capa toda ornamentada a ouro; era mais uma obra de arte do que uma 
obra literria. Ainda assim, eu o li. E embora tenha gostado de todas as histrias, particularmente as dos mrtires, houve uma frase na histria de Santo Anselmo 
que pareceu provocar uma reao em minha alma.
        Ela cerrou os olhos e inclinou a cabea para trs, relembrando. Santo Anselmo era um homem de grande sabedoria e grande erudio, um Doutor da Igreja. Mas 
tambm um bispo, um homem que se Preocupava com seu rebanho e procurava atender s suas necessidades terrenas, assim como espirituais. A histria contava em detalhes 
todas as suas obras e depois encerravacom as seguintes palavras: "E ento ele morreu, ao fim de uma vida eminentemente til, e assim obteve sua coroa no paraso." 
- Parou, flexionando um pouco as mos nos joelhos. " Houve alguma coisa ali que exerceu uma forte atrao em mim. A vida eminentemente til." - Sorriu para mim. 
- Eu poderia pensar em epitfios muito piores do que esse, milady. - Espalmou as mos de repente e estremeceu, um gesto estranhamente gracioso.
        - Eu queria ser til - ela disse. Em seguida, descartando a conversa fiada, voltou-se de sbito para a msica no cravo outra vez.
        - Bem - disse. - Obviamente, a mudana nas armaduras da clave, a note tonique... isso  que  estranho. O que podemos deduzir da?
        Fiquei boquiaberta com uma pequena exclamao de surpresa Falando em francs como estvamos, eu no notara antes. Mas observando madre Hildegarde enquanto 
contava sua histria, eu estivera pensando em ingls e, quando olhei de novo para a msica, compreendi.
        - O que foi? - a freira perguntou. - Descobriu alguma coisa?
        - O tom! - eu disse, rindo. - Em francs, um tom musical  a note tonique, mas a palavra para um objeto que abre uma tranca... - apontei para o grande molhe 
de chaves, normalmente carregado em seu cinto, que madre Hildegarde colocara na prateleira quando entramos - chama-se passepartout, no ?
        - Sim - ela disse, olhando-me perplexa. A seguir, tocou na chave mestra. - Une passe-partout. Essa - ela disse, apontando para uma chave comum, com haste 
e dentes -  normalmente chamada de clef.
        - Uma clef. - exclamei, entusiasmada. - Perfeito! - Enfiei o dedo na folha de msica diante de ns. - Veja, ma mre, em ingls as palavras so as mesmas: 
"key" d o tom de uma pea musical e tambm quer dizer "chave", que abre fechaduras. Em francs, "clef" quer dizer "chave" de abrir e em ingls "clef" tambm quer 
dizer "clave" de msica. Ento o "tom" da msica tambm  a chave do cdigo. Jamie disse que achava que era um cdigo em ingls! Feito por um inglscom um senso 
de humor realmente diablico - acrescentei.
        com essa pequena descoberta, o cdigo tornou-se fcil de ser decifrado. Se quem o criara fora um ingls, a mensagem cifrada provavelmente estaria em ingls 
tambm, o que significava que as palavras em alemo eram fornecidas apenas como uma fonte de letras. E tendo visto os esforos anteriores de Jamie com alfabetos 
e troca de letras, foram necessrias apenas algumas tentativas para determinar o padro do cdigo.
        - Dois bemis significam que voc deve pegar cada segunda letra, partindo do incio do trecho musical - eu disse, rabiscando freneticamente os resultados. 
- E trs sustenidos significa pegar cada terceira letra, partindo do final do segmento. Suponho que ele tenha usado alemo tanto para dissimulao quanto pelo fato 
de ser uma lngua muito prolixa, onde so necessrias quase o dobro de palavras para dizer a mesma coisa em ingls.
        - Seu nariz est sujo de tinta - observou madre Hildegarde. Espreitou por cima do meu ombro. - Faz sentido?
        - Sim - eu disse, a boca repentinamente seca. - Sim, faz sentido. Decifrada, a mensagem era breve e simples. Tambm profundamente perturbadora.
        - "Os fiis sditos de Sua Majestade da Inglaterra aguardam sua restaurao legal. A quantia de cinqenta mil libras est  sua disposio. Como garantia 
de boa-f, esta somente ser paga pessoalmente,  chegada de Sua Alteza em solo ingls" - eu li. - E h uma letra sobrando, um S. No sei se  uma espcie de assinatura 
ou apenas algo que a pessoa que escreveu precisou para fazer a palavra em alemo ficar correta.
        - Hum... - Madre Hildegarde olhou com curiosidade para a mensagem rabiscada, depois para mim. - Voc j deve saber,  claro - ela disse, balanando a cabea 
-, mas pode assegurar a seu marido que vou manter isso em segredo.
        - Ele no teria pedido sua ajuda se no confiasse na senhora - protestei. As sobrancelhas grosseiras ergueram-se at a borda de sua touca de freira e ela 
bateu de leve, mas com firmeza, no papel rabiscado.
        - Se este for o tipo de atividade em que seu marido est empenhado, ele corre um srio risco em confiar em quem quer que seja. Assegure-lhe que fico sensibilizada 
com a honra - acrescentou secamente.
        - Farei isso - eu disse, sorrindo.
        - Ora, chre madame - ela disse, ao olhar para mim -, a senhora est muito plida! Eu mesma costumo ficar acordada at tarde da noite quando estou trabalhando 
em uma nova composio, de modo que no presto muita ateno  hora, mas j deve ser muito tarde para voc. - Ela olhou para a vela que marcava as horas queimando 
em cima da mesinha junto  porta.
        - Nossa! Est mesmo ficando tarde. Quer que eu chame a irm Madeleine para lev-la ao seu quarto?
        Jamie concordara, com alguma relutncia, com a sugesto de madre Hildegarde de que eu passasse a noite no Couvent ds Anges, para no ter que voltar para 
casa pelas ruas escuras da cidade tarde da noite.
        Sacudi a cabea. Estava cansada e minhas costas doam de ficar sentada no banco, mas no queria ir para a cama. De qualquer modo, as implicaes da mensagem 
musical eram perturbadoras demais para permitirem que eu conseguisse pegar no sono imediatamente.
        - Bem, ento, vamos fazer um pequeno lanche, em comemorao ao nosso feito.
        Madre Hildegarde levantou-se e dirigiu-se ao aposento externo, onde ouvi o toque de uma sineta. Pouco depois, uma das irms encarregadas de Servir  mesa 
chegou com uma bandeja com leite quente e pequenos bolos glaados, seguida de Bouton. A irm colocou um bolinho num pequeno prato de loua e depositou-o no cho 
diante dele como algo corriqueiro pondo ao lado uma tigela de leite.
        Enquanto tomava pequenos goles do meu prprio leite quente, madre Hildegarde tirou a fonte de nossos esforos do suporte de partituras do cravo, colocou-a 
sobre a escrivaninha e, em seu lugar, arrumou uma folha de papel solta contendo o manuscrito de uma msica.
        -vou tocar para voc - anunciou. - Ajudar a tranqilizar sua mente para o sono.
        A msica era suave e calmante, com uma melodia que alternava soprano e baixo num padro de agradvel complexidade, mas sem o mpeto de Bach.
        - Essa composio  sua? - perguntei, aproveitando a pausa, quando ela ergueu as mos  concluso da pea.
        Ela sacudiu a cabea sem se virar.
        - No.  de um amigo meu, Jean Philippe Rameau. Um bom terico, mas no compe com muita paixo.
        Devo ter cochilado, a msica aquietando meus sentidos, pois acordei de repente ao murmrio da voz de irm Madeleine ao meu ouvido e sua mo, firme e quente, 
no meu brao, ajudando-me a me erguer e conduzindo-me para meu quarto.
        Olhando para trs, pude ver a amplitude das costas vestidas de negro de madre Hildegarde e o movimento dos ombros vigorosos sob a cortina de seu vu enquanto 
tocava, alheia agora ao mundo alm do santurio de seu quarto. Nas tbuas do assoalho junto aos seus ps, estava Bouton, o focinho sobre as patas, o pequeno corpo 
deitado reto como a agulha de uma bssola.
        - Ento - Jamie disse -, as coisas foram um pouco alm de conversas, talvez.
        - Talvez? - repeti. - Uma oferta de cinqenta mil libras me parece bastante definitiva. - Cinqenta mil libras, pelos padres atuais, era a renda anual de 
um ducado de bom tamanho.
        Ele ergueu uma das sobrancelhas cinicamente diante do manuscrito musical que eu trouxera comigo do convento.
        - Ah, bem. Uma oferta como essa  bem segura, se est condicionada a Carlos ou Jaime colocarem o p na Inglaterra. Se Carlos estiver na Inglaterra, significa 
que conseguiu apoio suficiente de outros lugares para o levarem  Esccia, primeiro. No - disse, esfregando o queixo pensativo - o que  interessante a respeito 
desta oferta  que  o primeiro sinal definitivo que vemos de que os Stuart, ou um deles, ao menos, esto realmente se esforando para montar uma tentativa de restaurao 
de sua monarquia.
        - Um deles? - eu disse, percebendo a nfase. - Quer dizer que acha que Jaime no est metido nisso? - Olhei para a mensagem codificada com maior interesse 
ainda.
        - A mensagem veio para Carlos - Jamie relembrou-me - e veio da Inglaterra, no atravs de Roma. Fergus pegou-a de um mensageiro regular, num pacote com selos 
ingleses; no de um mensageiro papal. E tudo que vi nas cartas de Jaime... - Sacudiu a cabea, franzindo o cenho. No havia se barbeado ainda e a luz da manh capturava 
uma ou outra centelha de cobre entre os plos ruivos e espetados de sua barba.
        - O pacote j fora aberto; Carlos j viu este manuscrito. No havia nenhuma data, de modo que no sei h quanto tempo chegou para ele. Mas no h nenhuma 
referncia em qualquer das cartas de Jaime sobre qualquer pessoa que pudesse ser o compositor, muito menos sobre qualquer promessa definitiva de apoio da Inglaterra.
        Eu podia ver o rumo de seus pensamentos.
        - E Louise de La Tour estava tagarelando sobre como Carlos pretendia mandar anular seu casamento e tom-la como sua esposa, quando fosse rei. Ento voc 
acredita que Carlos no estava falando apenas da boca para fora para impression-la?
        - Talvez no - ele disse. Despejou gua da jarra do quarto dentro da bacia e lavou o rosto, preparando-se para fazer a barba.
        - Ento, acha possvel que Carlos esteja agindo por conta prpria? - eu disse, horrorizada e intrigada com a possibilidade. - Que Jaime tenha armado uma 
farsa, fingindo comear uma tentativa de restaurao, a fim de manter Lus impressionado com o valor potencial dos Stuart, mas...
        - Mas Carlos no est fingindo? - Jamie interrompeu. - Sim,  o que parece. Tem uma toalha a, Sassenach? - com os olhos bem apertados e o rosto pingando, 
tateava pela superfcie da mesa. Afastei o manuscrito para um local seguro e encontrei a toalha, dobrada ao p da cama.
        Ele examinou a lminacom ar crtico, concluiu que serviria e inclinou-se sobre minha penteadeira para se olhar no espelho enquanto aplicava sabo para a 
barba no rosto
        - Por que  incivilizado de minha parte tirar os plos das minhas pernas e axilas e no  para voc tirar os plos do rosto? - perguntei, vendo-o esticar 
o lbio superior sobre os dentes enquanto raspava sob o nariz com Movimentos curtos e delicados.
        - Mas  - respondeu, estreitando os olhos para si mesmo no espelho. - Mas coa como o diabo se eu no o fizer.
        - Alguma vez j deixou a barba crescer? - perguntei, curiosa.
        - No de propsito - respondeu, com um ligeiro sorriso, enquanto raspava uma das faces -, mas j tive barba uma ou outra vez, quando no tinha como faz-la, 
na poca que vivi como um fora-da-lei na Esccia. Quando chegou ao ponto de ter que escolher entre fazer a barba num riacho gelado com uma lmina cega ou me coar, 
escolhi a coceira.
        Ri, observando-o puxar a lmina ao longo do maxilar com um nico e longo movimento.
        - No consigo imagin-lo com uma barba longa e cheia. S o vi no estgio de barba curta e espetada.
        Sorriu com um dos cantos da boca, erguendo o outro, enquanto raspava sob a maa do rosto alta e proeminente deste lado.
        - Da prxima vez que formos convidados a Versalhes, Sassenach, pedirei para visitarmos o zoolgico real. Lus tem uma criatura l que um dos capites de 
seus navios lhe trouxe de Bornu, chamado orangotango. J viu um desses?
        - Sim - eu disse -, o zoolgico de Londres tinha um casal antes da guerra.
        - Ento sabe como eu fico de barba - disse, sorrindo para mim enquanto terminava com uma cuidadosa operao na curva do queixo. Desgrenhado e antiquado. 
Mais ou menos como o visconde Marigny acrescentou -, s que ruivo.
        Como se o nome o tivesse lembrado, retornou ao tpico principal da conversa, limpando os remanescentes de sabo do rosto com a toalha de linho.
        - Ento, acho que o que devemos fazer agora, Sassenach,  vigiar de perto os ingleses em Paris. - Pegou o manuscrito da cama e folheou as pginas pensativo. 
- Se algum est realmente disposto a dar um suporte nesta escala, acho que pode estar enviando um representante a Carlos. Se eu fosse arriscar cinqenta mil libras, 
gostaria de ver o que estaria comprando com meu dinheiro, voc no faria o mesmo?
        - Sim, faria - respondi. - E por falar em ingleses, Sua Alteza patrioticamente compra seu conhaque de voc e Jared ou ele por acaso patrocina os servios 
do sr. Silas Hawkins?
        - O sr. Silas Hawkins, que est to ansioso para saber qual  o clima poltico nas Highlands escocesas? - Jamie sacudiu a cabea para mim com admirao. 
- E eu que pensei que tinha casado com voc porque tinha um belo rosto e um traseiro gordo e bonito. E pensar que voc tambm tem crebro! - Agilmente se esquivou 
do tapa que mirei em sua orelha e riu para mim.
        - Eu no sei, Sassenach, mas vou descobrir antes do dia acabar.
        
        
16 - A NATUREZA DO ENXOFRE
        
        O prncipe Carlos realmente comprava seu conhaque do sr. Hawkins. Alm desta descoberta, entretanto, fizemos pouco progresso no decurso das quatro semanas 
seguintes. Tudo continuava mais ou menos como antes. Lus de Frana continuava a ignorar Carlos Stuart. Jamie continuava a administrar os negcios de vinho e a visitar 
o prncipe Carlos. Fergus continuava a roubar cartas. Louise, princesa de Rohan, apareceu em pblico de brao dado com seu marido, melanclica, mas desabrochando 
fisicamente. Eu continuava a vomitar pela manh, trabalhar no Hpital  tarde e sorrir graciosamente  mesa de jantar  noite.
        Dois eventos ocorreram, entretanto, que pareceram ser algum progresso em direo ao nosso objetivo. Carlos, entediado com o confinamento, comeou a convidar 
Jamie para ir s tavernas com ele  noite - em geral, sem a presena repressora e arbitrria de seu tutor, sr. Sheridan, que se professava velho demais para tais 
desvarios.
        - Meu Deus, o sujeito bebe como uma esponja! - Jamie exclamara, voltando de uma dessas incurses cheirando a vinho barato. Examinou uma grande mancha sobre 
o peito de sua camisa com ar crtico.
        -vou ter que mandar fazer uma camisa nova - disse.
        - Vale a pena - eu disse -, se ele lhe contar alguma coisa enquanto est bbado. De que ele fala?
        - Caadas e mulheres - Jamie disse sucintamente e recusou-se firmemente a entrar em detalhes. Ou a poltica no tinha o mesmo peso de Louise de La Tour na 
mente de Carlos ou ele era capaz de ser discreto, mesmo na ausncia de seu tutor, sr. Sheridan.
        O segundo acontecimento foi que monsieur Duverney, o ministro das Finanas, perdeu no xadrez para Jamie. No uma vez, mas repetidamente. como Jamie previra, 
o efeito de perder servia apenas para tornar monsieur Duverney mais determinado a ganhar. Em conseqncia, ramos com freqncia convidados a Versalhes, onde eu 
circulava, colecionava mexericos e evitava alcovas, enquanto Jamie jogava xadrez, em geral atraindo uma Multido de admiradores para observar, embora eu particularmente 
no considerasse o xadrez um esporte para espectadores.
        Jamie e o ministro das Finanas, um homem baixinho e rolio, de ombros cados, estavam debruados sobre um tabuleiro de xadrez, ambos aparentemente to concentrados 
no jogo a ponto de ficarem alheios ao que se passava ao seu redor, apesar do murmrio de vozes e do tilintar de copos logo acima de seus ombros.
        - Nunca vi algo to cansativo como o xadrez - murmurou uma das mulheres para outra. - E chamam a isso de diverso! Eu me divertiria mais vendo minha criada 
catando pulgas nos pajens negros. Ao menos, eles do uns gritinhos e umas risadinhas.
        - Eu no me importaria em fazer o rapaz ruivo dar uns gritinhos e umas risadinhas - disse sua companheira, sorrindo sedutoramente para Jamie, que erguera 
a cabea e olhava, abstrado, alm de monsieur Duverney. Sua companheira me avistou e cutucou a outra, uma loura sensual, nas costelas.
        Sorri de modo agradvel para ela, apreciando com certa maldade o profundo rubor que subiu de seu generoso decote, deixando sua pele coberta de manchas vermelhas. 
Quanto a Jamie, ela poderia ter enrascado seus dedos gorduchos em seus cabelos que ele no lhe daria a menor ateno, to absorto parecia estar.
        Perguntei-me exatamente o que ocupava os seus pensamentos. Com certeza, no era o jogo; o estilo de monsieur Duverney era um jogo obstinado de cauteloso 
posicionamento, mas ele usava as mesmas manobras repetidamente. Os dois dedos do meio da mo direita de Jamie moveram-se ligeiramente contra a coxa, um breve estremecimento 
de impacincia logo disfarada, e percebi que, no que quer que fosse que ele estivesse pensando, no era no jogo. Podia levar mais meia hora, mas ele tinha o rei 
de monsieur Duverney na palma da mo.
        O duque de Neve estava de p ao meu lado. Vi seus olhinhos escuros fixarem-se nos dedos de Jamie depois desviarem-se rpido. Parou pensativamente por um 
instante, examinando o tabuleiro, depois se afastou sorrateiro para aumentar sua aposta.
        Um criado de libr parou junto ao meu ombro e, de modo obsequioso, fez uma profunda mesura, oferecendo-me mais um copo de vinho. Recusei com um gesto da 
mo; j bebera o suficiente para sentir a cabea leve e os ps perigosamente distantes.
        Virando-me para procurar um lugar para me sentar, avistei o conde de St. Germain do outro lado do aposento. Talvez fosse para ele que Jamie estivera olhando. 
O conde, por sua vez, olhava para mim; na verdade, fitava-me com o olhar fixo e um sorriso no rosto. No era sua expresso normal e no lhe caa bem. Eu no me importava 
com isso nem um pouco para ser franca, mas inclinei-me o mais educadamente possvel em sua direo e em seguida enfiei-me no meio do grupo de mulheres, conversando 
sobre variados assuntos, mas tentando sempre que possvel conduzir a conversa na direo da Esccia e de seu rei exilado.
        De modo geral, as perspectivas de uma restaurao da monarquia dos Stuart no pareciam preocupar a aristocracia da Frana. Quando mencionava Carlos Stuart 
em uma ou outra ocasio, a reao costumeira era uma reviravolta dos olhos ou um dar de ombros, descartando o assunto. Apesar dos bons servios do conde de Mar e 
de outros jacobitas parisienses, Lus recusava-se obstinadamente a receber Carlos na corte. E um exilado sem dinheiro e sem as graas do rei no seria convidado 
pela sociedade para travar conhecimento com banqueiros ricos.
        - O rei no ficou particularmente satisfeito com o fato de o primo ter chegado  Frana sem buscar sua permisso - disse-me a condessa de Brabant quando 
abordei a questo. -J o ouviram dizer que, no que lhe diz respeito, a Inglaterra pode continuar protestante - confidenciou. - E se os ingleses queimarem no inferno 
com Jorge de Hannover, tanto melhor.
        - Fez um beicinho de compaixo; era uma pessoa de bom corao. - Sinto muito - ela disse. - Sei que isso pode ser uma decepo para voc e seu marido, mas 
realmente... - Encolheu os ombros.
        Pensei comigo mesma que poderamos acomodar esse tipo de decepo e sa ansiosamente  procura de mais rumores nessa linha, mas tive pouco sucesso naquela 
noite. Os jacobitas, pelo que pude apreender, eram um tdio.
        - Torre para o peo cinco da rainha - Jamie murmurou mais tarde naquela noite quando nos preparvamos para ir para a cama. Estvamos hospedados no palcio 
outra vez. Como o jogo de xadrez se estendera at bem depois da meia-noite e o ministro no quis saber de empreendermos a viagem de volta a Paris a tal hora, fomos 
acomodados em um pequeno appartement, este um ou dois nveis acima do primeiro, percebi. Possua uma cama com colcho de penas e uma janela que dava para o gramado 
e os jardins floridos ao sul.
        - Torres, hein? - eu disse, deslizando para a cama e esticando-me com um gemido. - Vai sonharcom xadrez esta noite?
        Jamie balanou a cabea afirmativamente, com um bocejo que fez os ossos de seu maxilar estalarem e os olhos lacrimejarem.
        - Sim, tenho certeza que vou. Espero que no se incomode, Sassenach, se eu enrocar durante o sono.
        Meus ps contorceram-se de pura alegria por no estarem presos em sapatos apertados e por estarem aliviados do meu peso crescente. Alm disso, a parte inferior 
da minha coluna emitia choques agudos de uma dor ligeiramente agradvel, conforme se reajustava  posio de repouso.
        - Voc pode ficar de cabea para baixo enquanto estiver dormindo, se quiser - eu disse, bocejando. - Nada me perturbar esta noite.
        Nunca estive to errada.
        Eu sonhava com o beb. Crescido, quase pronto para nascer, ele chutava e contorcia-se em minha barriga estufada. Minhas mos envolveram o volume, massageando 
a pele esticada, tentando acalmar o turbilho dentro de mim. Mas as contores continuaram e, na maneira sossegada dos sonhos, percebi que no era o beb, mas uma 
cobra que se retorcia em minha barriga. Dobrei o corpo, trazendo os joelhos para cima, enquanto lutava com a serpente, as mos tateando e golpeando, procurando a 
cabea da besta que se arremessava e empurrava sob minha pele. Senti a pele quente ao toque e meus intestinos contraam-se, transformando-se eles prprios em serpentes, 
mordendo e lanando-se de um lado para o outro conforme se entrelaavam.
        - Claire! Acorde! O que est acontecendo? - Seu chamado e as sacudidelas finalmente me acordaram para uma apreenso confusa do ambiente  minha volta. Eu 
estava na cama e era a mo de Jamie que estava em meu ombro e os lenis de linho sobre mim. Mas as cobras continuavam a se contorcer em minha barriga e eu gemi 
alto, o som assustando-me quase tanto quanto a Jamie.
        Ele arrancou as cobertas e virou-me sobre as costas, tentando puxar meus joelhos para baixo. Continuei teimosamente enrolada como uma bola, agarrando o estmago, 
tentando conter as dores agudas que me dilaceravam.
        Puxou a colcha novamente sobre mim e saiu correndo do quarto, mal parando para agarrar seu kilt de cima do banco.
        Eu no tinha condies de prestar ateno a mais nada alm do meu tumulto interior. Meus ouvidos tiniam e um suor frio banhava meu rosto.
        - Madame? Madame?
        Abri os olhos o suficiente para ver a criada designada para o nosso appartement, os olhos arregalados e os cabelos desgrenhados, curvada sobre a minha cama. 
Jamie, seminu e mais nervoso ainda, estava atrs dela. Fechei os olhos, gemendo, mas no antes de v-lo agarrar a criada pelos ombros, com fora suficiente para 
sacudir os cachos que haviam se soltado de sua touca de dormir.
        - Ela est perdendo a criana? Est?
        Parecia extremamente provvel. Contorcia-me na cama, gemendo, o corpo dobrado ainda com mais fora, como se quisesse proteger o fardo de dor que continha.
        Ouviu-se um crescente burburinho de vozes no quarto, a maioria feminina, e vrias mos me examinavam e apertavam. Ouvi uma voz masculina em meio aos murmrios; 
no era Jamie, algum francs.  ordem da voz, vrias mos agarraram-me pelos tornozelos e ombros e esticaram-me na cama.
        Algum enfiou a mo por baixo da minha camisola e examinou minha barriga. Abri os olhos, ofegante, e vi monsieur Flche, o mdico real, ajoelhado ao lado 
da cama, o cenho franzido em concentrao. Devia ter me sentido lisonjeada diante da generosidade do rei, mas no estava em condies de dar ateno ao fato. As 
caractersticas da dor pareciam estar mudando; embora crescesse em espasmos, era mais ou menos constante e, ainda assim, parecia estar se movendo, viajando de um 
ponto mais alto em meu abdmen para um ponto mais abaixo.
        - No  um aborto - monsieur Flche assegurava a Jamie, que pairava ansiosamente acima de seu ombro. - No h sangramento. - Vi uma das senhoras que acorreram 
fitando horrorizada as cicatrizes em suas costas. Ela agarrou uma companheira pela manga, chamando sua ateno para o que via.
        - Talvez uma inflamao da vescula - dizia monsieur Flche. - Ou um repentino ataque de fgado.
        - Idiota - eu disse, entre dentes.
        Monsieur Flche olhou de modo arrogante para mim abaixo de seu volumoso nariz, tardiamente acrescentando o pince-nez de aro de ouro para aumentar o efeito. 
Colocou a mo em minha fronte pegajosa, incidentalmente fechando meus olhos para que eu no pudesse olhar para ele.
        - Muito provavelmente o fgado - ele dizia a Jamie. - A presso da vescula causa este acmulo de humores biliares no sangue, que causa a dor e uma diarria 
temporria - acrescentou com grande autoridade, pressionando a mo com mais fora conforme eu me debatia de um lado para o outro. - Deve sofrer uma sangria imediatamente. 
Plato, a bacia!
        Consegui libertar uma das mos e, com um tapa, afastei a mo repressora da minha testa.
        - Afaste-se de mim, charlato miservel! Jamie! No deixe que toquem em mim com isso!
        Plato, o assistente de monsieur Flche, avanava para mim com lanceta e bacia, enquanto as mulheres ao fundo soltavam exclamaes e abanavam-se umas s 
outras, com receio de sucumbirem diante daquele drama.
        Jamie, lvido, olhava desamparadamente de mim para monsieur Flche e de novo para mim. Tomando uma sbita deciso, agarrou o desafortunado Plato e puxou-o 
para longe da cama, virou-o e empurrou-o para a Porta, a lanceta espetada no ar. As criadas e damas da corte recuavam aos gritinhos diante dele.
        - Monsieur! Monsieur l chevalied - reclamava o mdico. Encaixara a peruca profissionalmente na cabea quando fora chamado, mas no tivera tempo de se vestir 
e as mangas do seu camiso batiam como asas enquanto seguia Jamie pelo quarto, sacudindo os braos como um espantalho tresloucado.
        A dor voltou a aumentar, um torniquete apertando minhas entranhas, e eu arquejei e dobrei-me outra vez. Quando amainou um pouco, abri os olhos e vi uma das 
senhoras, os olhos vigilantes fixos em meu rosto. A expresso de quem chega  compreenso de um fato passou por suas feies e, ainda olhando para mim, inclinou-se 
para sussurrar alguma coisa no ouvido de uma de suas companheiras. Havia barulho demais no quarto para que eu pudesse ouvir, mas li seus lbios com clareza.
        - Veneno - ela disse.
        A dor mudou-se bruscamente para mais baixo com um sinistro gorgolejo interior e eu finalmente compreendi do que se tratava. No era um aborto. Nem apendicite, 
muito menos um ataque do fgado. Nem era exatamente veneno. Era cscara-sagrada.
        - Voc - eu disse, avanando ameaadoramente sobre mestre Raymond, agachado defensivamente atrs de sua mesa de trabalho, sob a gide protetora de seu crocodilo 
empalhado. - Voc! Verme desgraado, cara de sapo!
        - Eu, milady? No lhe fiz nenhum mal, fiz?
        - Fora me causar uma violenta diarria na presena de mais de trinta pessoas, me fazer pensar que estava tendo um aborto e quase matar meu marido de susto, 
absolutamente nenhum mal!
        - Ah, seu marido estava presente? - mestre Raymond pareceu nervoso.
        - Estava - garanti-lhe. Foi na verdade com considervel dificuldade que eu consegui impedir que Jamie fosse comigo  loja do boticrio e extrasse,  fora, 
a informao que mestre Raymond possua. Eu finalmente o persuadira a aguardar l fora na carruagem, enquanto eu falava com o proprietrio anfbio.
        - Ento, no foi apenas uma brincadeira de mau gosto? - perguntei, um pouco abalada. - Algum de verdade queria me envenenar e eu no estou morta simplesmente 
porque voc tem escrpulos?
        - Talvez meus escrpulos no sejam inteiramente responsveis por sua sobrevivncia. E  possvel que tenha sido uma brincadeira. Imagino que haja outros 
fornecedores de quem se pode comprar cscara-sagrada. Mas eu vendi essa substncia a duas pessoas no ltimo ms e nenhuma das duas precisava dela.
        - Sei. - Respirei fundo e limpei a perspirao da minha testa com a luva. Ento, tnhamos dois possveis envenenadores  solta; exatamente o que precisvamos.
        - Vai me dizer quem so? - perguntei direto. - Podem comprar de outra pessoa da prxima vez. Algum sem os seus escrpulos.
        Ele assentiu, a boca grande de sapo torcendo-se enquanto pensava.
        -  uma possibilidade, senhora. Quanto aos verdadeiros compradores, duvido que essa informao a auxilie. Eram empregados; obviamente agindo segundo ordens 
de um patro. Uma era a empregada da viscondessa de Rambeau; o outro, um homem que eu no reconheci.
        Tamborilei os dedos sobre o balco. A nica pessoa que me fizera ameaas fora o conde de St. Germain. Poderia ele ter contratado um empregado annimo para 
adquirir o que ele achava que era veneno e depois ele prprio colocado a substncia no meu copo? Tentando me recordar da recepo em Versalhes, achei bem possvel. 
Os copos de vinho haviam sido passados em bandejas pelos criados; embora o prprio conde no tivesse se aproximado a menos de um metro de mim, no teria sido um 
grande problema subornar um criado para me dar um determinado copo.
        Raymond olhava-me com curiosidade.
        - Eu lhe perguntaria, senhora, fez alguma coisa para antagonizar a viscondessa? Ela  uma mulher muito ciumenta; no seria a primeira vez que teria buscado 
a minha ajuda para se livrar de uma rival, embora felizmente seus cimes tenham vida curta. O visconde  mulherengo, sabe. H sempre uma nova rival para tirar seu 
pensamento da ltima.
        Sentei-me, sem ser convidada.
        - Rambeau? - eu disse, tentando ligar o nome a um rosto. Ento, as nvoas da memria se dissiparam, revelando um corpo vestido com estilo e um rosto redondo 
e sem graa, ambos profusamente salpicados de rap.
        - Rambeau! - exclamei. - Bem, sim, eu o conheci, mas tudo que fiz foi dar-lhe um tapa no rosto com meu leque quando ele mordeu os dedos dos meus ps.
        - Dependendo do estado de esprito, isso seria provocao suficiente para a viscondessa - observou mestre Raymond. - E se assim for, ento acredito que provavelmente 
a senhora esteja a salvo de novos ataques.
        - Obrigada - eu disse secamente. - E se no foi a viscondessa?
        O pequeno boticrio hesitou por um instante, os olhos apertados contra o claro do sol matinal que brilhava atravs das vidraas em losangos atrs de mim. 
Ento, tomou uma deciso, e voltou-se para a mesa de pedra onde seus alambiques ferviam, sacudindo a cabea para que eu o seguisse.
        - Acompanhe-me, por favor. Tenho algo para a senhora.
        Para minha surpresa, abaixou-se sob a mesa e desapareceu. Como ele no voltava, eu mesma me abaixei e espreitei embaixo da mesa. Uma camada de carvo em 
brasa brilhava na lareira, mas havia espao dos dois lados. E na parede embaixo da mesa, oculta nas sombras, havia o espao mais escuro de uma abertura.
        Apenas com uma pequena hesitao, segurei as beiradas da minha saia e fui gingando atrs dele por baixo da mesa.
        Do outro lado da parede, havia espao suficiente para se ficar em p, embora o cmodo fosse muito pequeno. A estrutura externa do prdio no revelava aquele 
espao.
        Duas das paredes do quarto oculto eram cobertas por uma prateleira semelhante a uma colmia, cada compartimento imaculadamente limpo e cada qual exibindo 
o crnio de um animal. O impacto das paredes foi suficiente para me fazer dar um passo para trs; todos os olhos vazios pareciam concentrados em mim, os dentes arreganhados 
em cintilantes boas-vindas.
        Pestanejei diversas vezes antes de conseguir localizar Raymond, agachado cautelosamente ao p deste ossurio como o aclito residente. Ele mantinha os braos 
erguidos nervosamente  sua frente, olhando-me como se esperasse que eu fosse gritar ou atirar-me sobre ele. Mas eu j tivera vises muito mais apavorantes do que 
uma simples fileira de ossos polidos e avancei calmamente para examin-los mais de perto.
        Ao que parecia, ele tinha tudo. Pequenos crnios de morcego, rato e vbora, os ossos transparentes, dentes pequeninos, espetados como pregos de ferocidade 
carnvora. Cavalos, dos imensos percherons,com macios maxilares semelhantes a cimitarras, parecendo eminentemente apropriados para derrubar pelotes de filisteus, 
at os crnios de macacos, to teimosamente resistentes em suas minsculas curvas quanto os dos enormes cavalos de trao.
        Exerciam uma certa atrao, to imveis e to belos, o osso no to frio quanto eu teria imaginado, mas estranhamente inerte, como se o calor h muito desaparecido 
pairasse no muito longe dali.
        Eu vira restos humanos tratadoscom muito menos reverncia; os crnios dos primeiros mrtires cristos empilhados em montes nas catacumbas, os ossos das pernas 
atirados em pilhas como se fizessem parte de um jogo de varetas.
        - Um urso? - perguntei, em voz baixa. Um grande crnio, este, os dentes caninos curvados para dilacerar, mas os molares estranhamente aplanados.
        - Sim, milady. - Vendo que eu no tinha medo, Raymond relaxouSua mo flutuou no ar, mas roando as curvas do crnio slido, compacto.
        - V os dentes? Um consumidor de peixe, de carne - um dedo pequeno traou a curva longa e maligna do canino, o serrilhado aplanado do molar -, mas um triturador 
de frutas silvestres, de larvas. Raramente passam fome, porque comem qualquer coisa.
        Virei-me devagar de um lado para o outro, admirando, tocando um ou outro, aqui e ali.
        - So lindos - eu disse. Falvamos em voz baixa, como se o som mais alto de nossas vozes pudesse acordar os silenciosos crnios adormecidos.
        - Sim. - Os dedos de Raymond tocavam-os como os meus, acariciando os longos ossos frontais, percorrendo o delicado arco escamoso da face. Eles guardam o 
carter do animal. Pode-se ver bem como ele era, apenas pelo que restou.
        Revirou um dos crnios menores nas mos, indicando as protuberncias na parte de baixo, como pequenos bales de paredes finas.
        - Veja, o canal do ouvido entra aqui, de modo que os sons ecoam dentro do crebro. Da a audio aguada dos ratos.
        - Tympanic bullae - eu disse, balanando a cabea.
        - Ah? Meu latim  bem fraco. Meus nomes para essas coisas so... meus mesmos.
        - Aqueles... - eu disse, apontando para cima. - Aqueles so especiais, no so?
        - Ah, sim, senhora. So lobos. Lobos muito antigos. - Pegou um dos crnios, manuseando-o com um cuidado reverente. O focinho era longo e candeo, com caninos 
pesados e largos dentes carnvoros. A crista sagital erguia-se dominante da parte de trs do crnio, testemunha dos pesados msculos do pescoo vigoroso que um dia 
o sustentou.
        No eram de um branco suave e opaco como os demais crnios. Estes eram manchados e raiados de marrom, exibindo um reflexo luzidio de muito polimento.
        - Estas feras no existem mais.
        - No existem mais? Esto extintas, voc quer dizer? - Toquei-o mais uma vez, fascinada. - Em que lugar da face da Terra voc os conseguiu?
        - No na face da Terra, mas sob ela. Vieram de um lamaal de turfa, enterrados muito abaixo da superfcie.
        Olhando de perto, eu podia ver as diferenas entre estes crnios e os mais recentes e mais brancos na parede oposta. Estes animais eram maiores do que os 
lobos comuns,com mandbulas que podiam quebrar os ossos das pernas de um alce em fuga ou rasgar a garganta de um cervo cado.
        Estremeci ligeiramente ao toque, lembrando-me do lobo que eu matara fora da priso de Wentworth e o resto da alcatia que me perseguiu na luz glacial do 
crepsculo, h menos de seis meses atrs.
        - No gosta de lobos? - Raymond perguntou. - No entanto, os ursos e as raposas no a perturbam? Tambm so caadores, comedores de carne.
        - Sim, mas no a minha - eu disse secamente, devolvendo-lhe o crnio antigo e escurecido pelo tempo. - Tenho muito mais simpatia pelo nosso amigo alce. - 
Dei umas pancadinhas no focinho alto e proeminente com certa afeio.
        - Simpatia? - Os olhos negros e gentis examinaram-me com curiosidade. -  uma emoo incomum para se sentir por um osso, milady.
        - Bem... sim - eu disse, ligeiramente envergonhada -, mas no parecem realmente apenas ossos, sabe. Quero dizer, voc pode saber alguma coisa a respeito 
de cada um deles e ter a noo de como era o animal, olhando para esses crnios. No so simplesmente objetos inanimados.
        A boca sem dentes de Raymond abriu-se num largo sorriso, como se eu inadvertidamente tivesse dito alguma coisa que o agradou, mas no fez nenhum comentrio.
        - Por que possui todos esses? - perguntei subitamente, percebendo de repente que prateleiras de crnios de animais dificilmente seriam os acessrios usuais 
da loja de um boticrio. Crocodilos empalhados, talvez, mas no toda aquela coleo.
        Ele deu de ombros, bem-humorado.
        - Bem, eles so uma espcie de companhia, enquanto trabalho. - Fez um gesto indicando uma bancada entulhada em um dos cantos. - E embora me falem de muitas 
coisas, no so barulhentos a ponto de atrair a ateno dos vizinhos. Venha c - ele disse, mudando bruscamente de assunto.
        - Tenho algo para voc.
        Segui-o at um armrio alto no lado oposto do aposento, imaginando o que seria.
        Ele no era um naturalista, certamente no era um cientista, da maneira como eu compreendia o termo. No mantinha anotaes, no fazia desenhos, nenhum registro 
que outros pudessem consultar e com os quais pudessem aprender. E entretanto, eu tinha a estranha convico de que ele queria muito me ensinar coisas que sabia - 
uma simpatia por ossos, talvez?
        O armrio era pintado com inmeros sinais estranhos, enroscados e espiralados, entre o que pareciam ser pentgonos e crculos; smbolos cabalsticos. Reconheci 
um ou dois, de alguns livros de referncias histricas de tio Lamb.
        - Interessa-se pela cabala? - perguntei, vendo os smbolos com certa diverso. Isso explicaria a sala de trabalho oculta. Embora houvesse um forte interesse 
em ocultismo entre alguns aristocratas e intelectuais franceses, era um interesse mantido absolutamente clandestino, por medo da coroa de espinhos da Igreja.
        Para minha surpresa, Raymond riu. Seus dedos rombudos, de unhas curtas, pressionaram aqui e ali na frente do armrio, tocando o centro de um smbolo, o prolongamento 
de outro.
        - Bem, no, milady. A maioria dos cabalistas tende a ser um tanto pattica, de modo que no busco sua companhia com freqncia. Mas os smbolos de fato mantm 
os curiosos longe do meu armrio. O que, se pensar bem, no  pouco para alguns rabiscos pintados. Portanto, talvez os cabalistas tenham razo ao afirmar que estes 
sinais tm poder, no acha?
        Sorriu para mim com uma expresso travessa, enquanto a porta do armrio abria-se de par em par. Pude ver que era, na realidade, um armrio duplo; se algum 
intrometido ignorasse o aviso dos smbolos e meramente abrisse a porta, sem dvida veria apenas o inofensivo contedo do armrio de um boticrio. Mas se a seqncia 
certa de trancas ocultas fosse pressionada, as prateleiras internas tambm se movimentavam para fora, revelando uma profunda cavidade por trs.
        Ele puxou uma das pequenas gavetas que enchiam a cavidade e esvaziou-a em sua mo. Remexendo no contedo, retirou uma nica e grande pedra branca de cristal 
e entregou-a a mim.
        - Para voc - disse. - Para proteo.
        - O qu? Magia? - perguntei cinicamente, virando o cristal de um lado para o outro na palma da mo.
        Raymond riu. Estendeu a mo acima da escrivaninha e deixou um punhado de pequenas pedras coloridas cair pelo meio dos dedos, indo bater no manchado mata-borro 
de feltro.
        - Acho que pode chamar assim. Com certeza posso cobrar mais por isso quando o fao. - A ponta de um dedo empurrou um cristal esverdeado da pilha de pedras 
coloridas.
        - No possuem mais, e sem dvida no menos, magia do que os crnios. Chame-as de ossos da terra. Guardam a essncia da matriz em que cresceram e, quaisquer 
que tenham sido os poderes que possuam, voc os poder encontrar aqui tambm. - Lanou um pequeno ndulo amarelo em minha direo.
        - Enxofre. Triture-ocom algumas outras substncias, encoste um fsforo e ele explodir. Plvora. Isso  mgica? Ou ser apenas a natureza do enxofre?
        - Acho que depende apenas de com quem voc est falando - obserVei, e seu rosto abriu-se num sorriso de satisfao.
        - Se um dia quiser deixar seu marido, senhora - disse com uma risadinha -, pode ter certeza de que no morrer de fome. Eu disse que voc era uma profissional, 
no disse?
        - Meu marido! - exclamei, empalidecendo. De repente, minha mente encontrou sentido nos barulhos abafados que vinham da loja distante. Ouviu-se uma pancada 
retumbante, como de um punho grande se abatendo com fora considervel sobre um balco e o retumbar profundo de uma voz inclinada a no sofrer nenhuma interferncia 
fez-se ouvir em meio  mistura de outras vozes.
        - Santo Deus! Me esqueci de Jamie!
        - Seu marido est aqui? - Os olhos de Raymond ficaram ainda mais esbugalhados do que o normal e, se j no fosse to plido, eu pensaria que tambm ficou 
lvido.
        - Eu o deixei l fora - expliquei, agachando-me para atravessar de novo a abertura secreta. - Deve ter se cansado de esperar.
        - Espere! - A mo de Raymond agarrou meu cotovelo, fazendo-me parar. Colocou a outra mo sobre a minha, a que segurava o cristal branco.
        - Esse cristal. Eu disse que era para sua proteo.
        - Sim, sim - eu disse com impacincia, ouvindo meu nome sendo gritado l fora com crescente volume. - O que ele faz, ento?
        -  sensvel a veneno, senhora. Mudar de cor na presena de vrios compostos nocivos.
        Isso me fez parar. Empertiguei-me e olhei-o direto nos olhos.
        - Veneno? - eu disse, devagar. - Ento...
        - Sim, senhora. Talvez ainda corra perigo. - O rosto de sapo de Raymond tinha uma expresso sombria. - No posso dizer ao certo, nem de que direo, porque 
no sei. Se eu descobrir, tenha certeza que lhe direi. - Seus olhos agitaram-se nervosamente na direo da entrada atravs da lareira. Uma srie ribombante de golpes 
soou na parede externa. Assegure a seu marido tambm, por favor, madona.
        - No se preocupe - eu lhe disse, agachando-me sob a verga baixa da lareira. - Jamie no morde... eu acho que no.
        - Eu no estava preocupado com os dentes dele, senhora. - Ouvi atrs de mim enquanto eu saa gingando por cima das cinzas da lareira.
        Jamie, no ato de erguer o punhho de sua adaga para bater outra vez nos lambris da parede, avistou-me emergindo da lareira e abaixou-o.
        - Ah, a est voc - observou serenamente. Inclinou a cabea para o lado, observando-me limpar fuligem e cinzas da barra do meu vestido, depois cerrou as 
sobrancelhas ao ver Raymond espreitando com cautela por baixo da mesa de secagem.
        - Ah, e ali est nosso pequeno sapo tambm. Ele tem alguma explicao, Sassenach, ou devo preg-lo l fora com o resto? - Sem tirar os olhos de Raymond, 
balanou a cabea em direo  parede da sala externa onde numerosos sapos e rs secos estavam pregados em uma longa faixa de feltro pendurada na parede.
        - No, no - eu disse apressadamente quando Raymond fez meno de se agachar de volta a seu santurio. - Ele me contou tudo. Na verdade, ele foi de grande 
ajuda.
        Com certa relutncia, Jamie guardou a adaga e estendeu a mo para ajudar Raymond a sair de seu esconderijo. Encolheu-se ligeiramente ao verjamie.
        - Este homem  seu marido, senhora? - perguntou, em tom de quem gostaria que a resposta fosse "no".
        - Sim,  claro - respondi. - Meu marido, James Fraser, senhor de Broch Tuarach - eu disse, abanando a mo em direo a Jamie, embora certamente no pudesse 
estar me referindo a mais ningum. Acenei na direo oposta. - Mestre Raymond.
        - Foi o que pensei - Jamie respondeu secamente. Fez uma mesura e estendeu a mo para Raymond, cuja cabea atingia alguns centmetros acima da cintura de 
Jamie. Raymond tocou depressa a mo estendida e empertigou-se com um puxo, sem poder reprimir um leve estremecimento. Fitei-o espantada.
        Jamie apenas ergueu uma das sobrancelhas, depois se inclinou para trs, apoiando-se na borda da mesa. Cruzou os braos sobre o peito.
        - Muito bem - disse. - O que aconteceu?
        Eu dei a maioria das explicaes, Raymond contribuindo apenas com monosslabos de confirmao de vez em quando. O pequeno boticrio parecia destitudo de 
toda a sua dissimulada astcia e encolheu-se em um banco perto do fogo, os ombros arqueados com prudncia. Somente quando terminei com uma explicao do cristal 
branco, e da presumvel necessidade de seus poderes,  que ele se mexeu e pareceu adquirir um pouco de vida novamente.
        -  verdade, milorde - garantiu a Jamie. - No sei, na realidade, se  sua esposa ou o senhor mesmo quem pode estar em perigo, ou talvez os dois juntos. 
No ouvi nada especfico, somente o nome "Fraser", ouvido em um lugar onde os nomes raramente so pronunciados com boas intenes.
        Jamie lanou-lhe um olhar penetrante.
        - Ah, ? E o senhor freqenta esses lugares, mestre Raymond? As pessoas de quem fala so seus parceiros?
        Raymond sorriu, um pouco palidamente.
        - Eu os descreveria melhor como concorrentes nos negcios, milorde.
        Jamie emitiu um rosnado.
        - Mmmm. Sim, bem, e qualquer um que tentar alguma coisa vai receber uma resposta  altura. - Tocou a adaga em seu cinto e endireitou-se.
        - Ainda assim, agradeo-lhe pelo aviso, mestre Raymond. - Fez uma mesura para o boticrio, mas no ofereceu a mo outra vez. - Quanto  outra - arqueou a 
sobrancelha em minha direo -, se minha mulher est disposta a perdoar seus atos, ento no cabe a mim dizer mais nada. A no ser aconselh-lo a entrar no seu pequeno 
buraco da prxima vez que a viscondessa entrar em sua loja. Vamos embora, Sassenach.
        Enquanto chocalhvamos na carruagem de volta  rue de Tremoulins, Jamie permaneceu em silncio, olhando fixamente para fora da janela, enquanto os dedos 
rgidos da mo direita tamborilavam na coxa.
        - Um lugar onde os nomes raramente so pronunciados com boas intenes - murmurou quando a carruagem virou na rue Gamboge. - Que  que isso pode significar?
        Lembrei-me dos sinais cabalsticos no armrio de Raymond e um pequeno calafrio arrepiou os plos do meu brao. Lembrei-me do mexerico de Marguerite sobre 
o conde de St. Germain e o aviso de madame de Ramage. Falei a Jamie sobre eles e o que Raymond dissera.
        - Pode ser que ele considere esses smbolos como pintura e decorao - conclu -, mas obviamente conhece pessoas que no pensam assim ou quem ser que ele 
est procurando manter longe de seu armrio?
        Jamie balanou a cabea.
        - Sim. Ouvi dizer alguma coisa, no muita, sobre essas atividades pela corte. No prestei nenhuma ateno na ocasio, achando que eram apenas bobagens, mas 
agora vou investigar mais um pouco. - Riu de repente e puxou-me para junto de si. - Vou mandar Murtagh seguir o conde de St. Germain. Isso dar ao conde um demnio 
de verdade para ele brincar.
        
        
        
17 - POSSESSO
        
        Murtagh foi devidamente instrudo para observar as idas e vindas do conde de St. Germain, mas alm de reportar que o conde recebia um nmero infindvel de 
pessoas em sua casa - de ambos os sexos e de todas as classes -, no detectou nada particularmente misterioso. No entanto, o conde realmente teve uma visita digna 
de nota: Carlos Stuart, que esteve l uma tarde, demorou-se uma hora e foi embora.
        Carlos comeara a requisitar a companhia de Jamie com mais freqncia em suas expedies pelas tavernas e submundo da cidade. Pessoalmente, eu achava que 
isso tinha mais a ver com a festa de Jules de La Tour de Rohan realizada para celebrar o anncio da gravidez de sua mulher do que com qualquer influncia sinistra 
do conde.
        Essas expedies s vezes estendiam-se at muito tarde da noite e eu me acostumei a ir para a cama sem Jamie, acordando quando ele se enfiava na cama ao 
meu lado, o corpo frio de andar pela neblina da noite e o cheiro de fumaa de tabaco e bebida alcolica impregnado em seus cabelos e em sua pele.
        - Ele est to desesperado com aquela mulher que eu acho que nem se lembra que  o herdeiro dos tronos da Inglaterra e da Esccia - Jamie disse, ao retornar 
de uma de suas incurses noturnas.
        - Nossa, ele deve estar mesmo muito perturbado - eu disse, sarcasticamente. - Esperemos que continue assim.
        Uma semana depois, entretanto, acordei com a luz cinza e fria do amanhecer para encontrar a cama ao meu lado ainda vazia, o cobertor estendido e arrumado.
        - Milorde Broch Tuarach est no gabinete? - Inclinei-me sobre o balastre de camisola, assustando Magnus, que atravessava o saguo trreo.
        talvez Jamie tivesse preferido dormir no sof no gabinete para no me perturbar.
        - No, milady - respondeu, erguendo os olhos para mim. - Vim destrancar a porta da frente e vi que no tinha sido trancada. Milorde no veio Para casa ontem 
 noite.
        Sentei-me pesadamente no primeiro degrau da escada. Eu devia estar com um aspecto assustador, porque o idoso mordomo praticamente correu escada acima at 
onde eu estava.
        - Madame - disse, ansiosamente esfregando uma das minhas mos. Madame, a senhora est bem?
        - J estive melhor, mas no tem importncia. Magnus, envie um dos lacaios at a casa do prncipe Carlos em Montmartre imediatamente. Mande-o ver se meu marido 
est l.
        - Imediatamente, milady. E tambm mandarei Marguerite vir aqui cuidar da senhora. - Virou-se e desceu as escadas apressado, os macios chinelos de feltro 
que ele usava para seus afazeres matinais fazendo um barulho suave e sussurrante no assoalho de madeira polida.
        - E Murtagh! - gritei para Magnus enquanto se afastava. - O parente do meu marido. Diga-lhe para vir aqui, por favor! - O primeiro pensamento que atravessou 
minha mente foi que talvez Jamie tivesse passado a noite no palacete de Carlos; o segundo, que alguma coisa tivesse lhe acontecido, quer por acidente ou pela ao 
deliberada de algum.
        - Onde ele est? - A voz dissonante de Murtagh soou no p da escada. Ele obviamente acabara de acordar; seu rosto estava marcado por algo sobre o qual ele 
havia dormido e havia fragmentos de palha nas dobras de sua camisa ordinria.
        - Como eu poderia saber? - retruquei. Murtagh sempre parecia suspeitar de todos por alguma coisa e ter sido bruscamente acordado no contribura para melhorar 
seu costumeiro mau humor. Ainda assim, sua presena era reconfortante; se houvesse alguma coisa desagradvel no horizonte, Murtagh era a pessoa certa para lidar 
com isso.
        - Ele saiu com o prncipe Carlos ontem  noite e no voltou.  tudo que sei. - Ergui-me com dificuldade e me apoiei no corrimo do balastre, alisando as 
dobras da minha camisola de seda. As lareiras tinham sido acesas, mas ainda no houvera tempo para aquecer a casa e eu tremia de frio.
        Murtagh esfregou a mo no rosto para ajud-lo a pensar.
        - Hum. Algum foi a Montmartre?
        - Sim.
        - Ento,vou esperar at voltarem com uma notcia. Se Jamie estiver l, muito bem. Se no estiver, talvez saibam quando ele se separou de Sua Alteza, e onde.
        - E se ambos tiverem desaparecido? E se o prncipe tambm no tiver voltado para casa? - perguntei. Se havia jacobitas em Paris, tambm havia aqueles que 
eram contrrios  restaurao da monarquia dos Stuart. Embora assassinar Carlos Stuart pudesse no garantir o fracasso de uma possvel revoluo escocesa - afinal, 
ele tinha um irmo mais novo, Henrique -, poderia contribuir para arrefecer o entusiasmo de Jaime por tal aventura, se ele tivesse algum, para comear.
        Lembrei-me vividamente da histria que Jamie me contara, do atentado contra a sua vida durante o qual ele conhecera Fergus. Assassinatos nas ruas estavam 
longe de ser algo incomum e havia gangues de rufies que saam  caa pelas ruas de Paris depois que escurecia.
        -  melhor voc mesma ir se vestir - Murtagh observou. - Posso ver sua pele arrepiada daqui.
        - Ah! Sim, acho que sim. - Olhei para meus braos; eu estivera abraando a mim mesma enquanto as suposies corriam pela minha mente, mas em vo; meus dentes 
comeavam a bater.
        - Madame! Assim a senhora vai pegar um resfriado! - Marguerite veio batendo os ps na escada e eu permiti que ela me mandasse de volta para o quarto, olhando 
para trs para ver Murtagh l embaixo, cautelosamente examinando a ponta de sua adaga antes de enfi-la de volta na bainha.
        - A senhora deveria estar na cama, madame! - Marguerite me repreendeu. - No  bom para a criana deixar-se resfriar assim.vou buscar uma panela de aquecer 
a cama agora mesmo. Onde est seu robe? Vista-o imediatamente, sim, isso mesmo... - Vesti o pesado robe de l por cima da fina camisola de seda, mas ignorei os conselhos 
de Marguerite para no abrir as janelas.
        A rua do lado de fora estava comeando a brilhar conforme o sol nascente iluminava as fachadas superiores das casas de pedra ao longo da rue de Tremoulins. 
Havia bastante atividade na rua, apesar de ser cedo; criadas e lacaios empenhados em esfregar escadas e polir os adornos de lato dos portes, vendedores de frutas, 
legumes e frutos do mar frescos em carrinhos de mo, anunciando suas mercadorias aos berros ao longo da rua, e as cozinheiras das manses despontando de suas portas 
nos pores como um bando de djins, convocados pelos gritos dos vendedores ambulantes. Uma carroa de entrega carregada de carvo percorria lentamente a rua, puxada 
por um cavalo velho que parecia preferir estar em seu estbulo. Mas nenhum sinal de Jamie.
        Finalmente, permiti que uma ansiosa Marguerite me persuadisse a voltar para a cama, para me aquecer, mas no consegui voltar a dormir. Cada som do andar 
trreo me sobressaltava, na esperana de que cada passo no calamento da rua seria seguido pela voz de Jamie no vestbulo embaixo. U rosto do conde de St. Germain 
insistia em se intrometer entre mim e o sono. nico entre a nobreza francesa, ele possua alguma ligao com Stuart. Estava, muito provavelmente, por trs do atentado 
anterior contra a vida de Jamie... e contra a minha. Era conhecido por suas associaes indesejveis. Seria possvel que tivesse mandado eliminar tanto Carlos Quanto 
Jamie? Se suas motivaes eram polticas ou pessoais no fazia a menor diferena, a essa altura.
        Quando finalmente ouviram-se passos l embaixo, eu estava to absorta em vises de Jamie jogado numa sarjeta com a garganta cortada que no percebi que ele 
estava em casa at a porta do quarto se abrir.
        - Jamie! - Sentei-me num salto com um grito de alegria.
        Ele sorriu para mim, depois deu um imenso bocejo, sem fazer nenhum esforo para cobrir a boca. Pude ver a uma boa distncia o interior de sua garganta e 
observeicom alvio que no estava cortada. Por outro lado, ele parecia exausto. Deitou-se ao meu lado na cama e se espreguiou, longa e sofridamente, em seguida 
relaxou com um gemido de satisfao.
        - O que aconteceu com voc? Ele abriu um olho injetado.
        - Preciso de um banho - disse, fechando-o outra vez. Inclinei-me sobre ele e cheirei delicadamente. Meu nariz detectou o habitual cheiro enfumaado de lugares 
fechados e l mida, enfatizando uma combinao realmente notvel de odores alcolicos - cerveja, vinho, usque e conhaque -, que combinavam com a variedade de manchas 
na camisa. E para complementar com uma nota dissonante na mistura, uma terrvel colnia barata, de uma pungncia particularmente penetrante e repugnante.
        - Precisa, mesmo - concordei. Arrastei-me para fora da cama e enfiando a cabea no corredor, gritei por Marguerite, a quem mandei trazer uma tina de banho 
e gua suficiente para ench-la. Como um presente de despedida do irmo Ambrose, eu possua vrias unidades de sabo refinado, feito com essncia de rosas, e pedi-lhe 
que fosse busc-los tambm.
        Enquanto a criada comeava a realizar a tediosa misso de trazer para cima as grandes canecas de cobre com gua para o banho, voltei minha ateno para o 
brutamontes na cama.
        Tirei seus sapatos e meias, depois abri a fivela de seu kilt, soltando-o. Suas mos voaram como um reflexo para o meio das pernas, mas meus olhos estavam 
focalizados em outro lugar.
        - O que aconteceu com voc? - eu insisti.
        Vrios arranhes longos marcavam suas coxas, verges vermelhos e inchados contra a pele clara. E no alto da parte de dentro de uma das pernas via-se o que 
no podia ser outra coisa seno uma mordida; as marcas dos dentes eram perfeitamente visveis.
        A empregada, despejando gua quente, lanou um olhar de interesse a evidncia e achou melhor contribuir com sua opinio para o delicado momento.
        - Un petit chien? - ela perguntou. Um cachorrinho? Ou outra coisaEmbora eu no fosse fluente no idioma da poca, eu aprendera que es petits chiens em geral 
andavam pelas ruas sobre duas pernas com as caras pintadas.
        - Fora - eu disse sucintamente em francs,com uma entonao de enfermeira-chefe. A criada pegou as canecas e deixou o aposento, fazendo beicinho. Voltei-me 
novamente para Jamie, que abriu um dos olhos e, depois de lanar um olhar para o meu rosto, fechou-o outra vez.
        - E ento? - perguntei.
        Em vez de responder, ele estremeceu. Aps um instante, sentou-se na cama e esfregou as mos no rosto, a barba espetada fazendo um barulho spero. Ergueu 
uma sobrancelha ruiva interrogativamente.
        - Suponho que uma jovem senhora de boa famlia como voc no estaria familiarizada com o significado alternativo para o termo soixanteneuf, estaria?
        - J ouvi a expresso - eu disse, cruzando os braos no peito e o olhando com certa desconfiana. - E posso perguntar exatamente onde voc encontrou esse 
interessante nmero especificamente?
        - Ele me foi sugerido,com certa nfase, como uma atividade desejvel por uma senhora que conheci ontem  noite.
        - Por acaso foi essa senhora que o mordeu na coxa? Olhou para baixo e esfregou a marca pensativamente.
        - Hum, no. Na verdade, no foi. Essa senhora parecia preocupada com nmeros mais baixos. Acho que ela disse que se contentava com o seis e o nove podia 
ser esquecido.
        - Jamie - eu disse, batendo o p compassadamente. - Onde voc esteve a noite toda?
        Com as mos em concha, ele pegou um bocado de gua da bacia e jogou-a no rosto, deixando os fios d'gua escorrerem entre os plos ruivoescuros de seu peito.
        - Hum... - ele disse, pestanejando e lanando gotculas de gua das pestanas espessas -, bem, deixe-me ver. Primeiro, jantamos em uma taverna- Encontramos 
Glengarry e Millefleurs l. - Monsieur Millefleurs era um banqueiro parisiense, enquanto Glengarry era um jovem jacobita, "e de um ramo do cl MacDonell. Sendo um 
visitante em Paris, e no residente, estava quase sempre na companhia de Carlos nos ltimos meses, segundo Jamie. - E depois do jantar, fomos  casa do duque di 
astellotti jogar cartas.
        - E depois? - perguntei.
        uma taverna, aparentemente. E depois outra taverna. E depois um estabelecimento que parecia compartilhar algumas das caractersticas da taverna, mas era 
embelezada com a adio de vrias senhoras de aparnciaa interessante e talentos ainda mais interessantes.
        - Talentos, hein? - eu disse,com uma olhada para a marca em sua perna.
        - Meu Deus, elas fizeram em pblico - ele disse,com um estremecimento diante da lembrana. - Duas delas, na mesa. Bem entre o lombo de carneiro e as batatas 
cozidas.com a gelia de marmelo.
        - Mon Dieu - disse a criada que acabara de retornar ao quarto, colocando no cho a caneca com mais gua para o banho o tempo suficiente para se benzer.
        - E voc fique quieta - eu disse, repreendendo-a. Voltei minha ateno de novo para meu marido. - E depois?
        Ento, aparentemente, a ao tornou-se um pouco mais geral, embora ainda realizada de maneira bastante pblica.com o devido respeito s sensibilidades de 
Marguerite, Jamie esperou at ela ter sado para uma nova rodada de gua e continuao do relatrio.
        - ...E ento Carllos levou a gorda de cabelos ruivos e a lourinha para um canto e...
        - E o que voc estava fazendo todo esse tempo? - interrompi a fascinante narrativa.
        - Observando - ele disse, surpreso. - No parecia decente, mas eu no tinha muita escolha, naquelas circunstncias.
        Eu andara remexendo na bolsa do seu kilt enquanto ele falava e agora retirei dali no s uma pequena carteira, como um largo anel de metal, decorado com 
um braso. Experimentei-o em um dedo,com curiosidade. Era muito maior do que qualquer anel normal e ficou pendurado como uma argola no pino do jogo de malhas.
        - A quem pertence isso aqui? - perguntei, exibindo o anel. - Parece o braso do duque di Castellotti, mas a quem quer que pertena, deve ter dedos no tamanho 
de salsicha?. - Castellotti era uma estiolada vagem italiana,com o rosto contrado de um homem com dispepsia crnica, no era de admirar, a julgar pela histria 
de Jamie. Gelia de marmelo, francamente!
        Ergui os olhos e me deparei com Jamie vermelho do umbigo  raiz dos cabelos.
        - Ha... - balbuciou, com um interesse exagerado em uma mancha de lama em um dos joelhos - isso no  usado no dedo de um homem.
        - Ento, o que... oh! - Olhei para o objeto circular com renovado interesse. - Minha Nossa Senhora. J tinha ouvido falar...
        - J? - disse Jamie, completamente escandalizado.
        - Mas nunca vi um. Serve em voc? - Estendi a mo para experimemtar. Num rpido reflexo, ele colocou as mos sobre suas partes privadas.
        Marguerite, chegando com mais gua, assegurou-lhe:
        - Ne vous enfates ps, monsieur J'en ai dj vu un - No se preocupe, monsieur; eu j vi um.
        Dividindo um olhar furioso entre mim e a criada, puxou uma coberta para cima do colo.
        - J foi bastante ruim ter passado a noite toda defendendo minha virtude - observou com certa aspereza -, sem que isso seja objeto de comentrios pela manh.
        - Defendendo sua virtude, hein? - Comecei a atirar o anel de uma mo para outra despreocupadamente, pegando-o com os dedos indicadores. - Foi um presente? 
- perguntei. - Ou um emprstimo?
        - Um presente. No faa isso, Sassenach - ele disse, com um sobressalto - Me traz lembranas.
        - Ah, sim - eu disse, observando-o. - Agora, quanto a essas lembranas...
        - No, eu... - protestou. - Certamente no acha que eu faria esse tipo de coisa, no ? Sou um homem casado!
        - Monsieur Mdlefleurs no  casado?
        - Ele no s  casado, como tem duas amantes - Jamie disse. - Mas ele  francs.  diferente.
        - O duque di Castellotti no  francs, ele  italiano. - Mas  um duque. Isso tambm  diferente.
        - Ah, , ? Imagino se a duquesa pensa assim.
        - Considerando algumas coisas que o duque alegou ter aprendido com a duquesa, eu imaginaria que sim. Esse banho no est pronto ainda?
        Segurando a colcha em volta do corpo, arrastou os ps da cama at a tina fumegante e entrou. Tirou a colcha e sentou-se depressa, mas no depressa o suficiente.
        - Enorme - disse a criada, benzendo-se.
        - C'est tous - eu disse, com determinao. - Mera bien. - Ela abaixou os olhos, ruborizou-se e saiu s pressas.
        Quando a porta fechou-se atrs da criada, Jamie relaxou na tina, alta nas costas para permitir que a pessoa se recostasse. O sentimento na poca parecia 
ser de que, uma vez que se teve o trabalho de encher a tina para um banho, era melhor aproveit-lo. O rosto com a barba espetada pareceu assumir uma expresso de 
bem-aventurana e deixou-se afundar gradualmente na gua fumegante, um fluxo de calor avermelhando sua pele. Seus olhos estavam fechados e uma fina camada de umidade 
brilhava nas mas do rosto largas e altas e cintilava nas cavidades das rbitas.
        - Sabo? - perguntou, esperanosamente, abrindo os olhos.
        - Sim, sem dvida - Peguei um deles e entreguei a ele, depois me sentei num banco ao lado da tina. Fiquei observando por algum tempo enquanto ele se esfregava 
meticulosamente, indo buscar uma toalhinha de banho e uma pedra-pomes,com a qual ele lixou escrupulosamente as solas dos ps e os cotovelos.
        - Jamie - eu disse por fim.
        - Sim?
        - No quero discutir os seus mtodos e concordamos que voc tivesse que ir a alguns extremos, mas... voc realmente teve que...
        - O que, Sassenach? - Ele parara de se lavar e me observava intensamente, a cabea inclinada para o lado.
        - Que... que... - Para meu aborrecimento, eu estava ficando to vermelha quanto ele, mas sem a desculpa da gua quente.
        Sua enorme mo ergueu-se escorrendo gua e pousou no meu brao. O calor mido queimou minha pele atravs do tecido fino da minha manga.
        - Sassenach, o que acha que andei fazendo?
        - Ha, bem - eu disse, tentando inutilmente manter os olhos afastados das marcas em sua perna. Ele riu, embora no parecesse estar realmente achando graa.
        - Ah, mulher de pouca f! - ele disse ironicamente. Afastei-me do alcance de seu brao.
        - Bem - eu disse -, quando o marido de uma pessoa volta para casa coberto de mordidas e arranhes e fedendo a perfume barato, admite que passou a noite numa 
casa obscena e...
        - E lhe diz francamente que passou a noite observando e no fazendo?
        - Voc no conseguiu essas marcas na perna observando! - retruquei rispidamente, cerrando os lbios em seguida. Senti-me como uma mulherzinha chata e ciumenta, 
e no gostei da sensao. Prometi a mim mesma agir com toda a calma; como uma mulher do mundo, dizendo a mim mesma que eu tinha absoluta confiana em Jamie e, s 
por segurana, que no se pode fazer omeletes sem quebrar os ovos. Ainda que alguma coisa tivesse de fato acontecido...
        Alisei o lugar mido em minha manga, sentindo o ar se esfriar atravs da seda refrescante. Esforcei-me para recuperar meu tom de voz calmo de antes.
        - Ou essas so as cicatrizes de um honroso combate, adquiridas ao defender sua virtude? - De qualquer forma, o tom de voz ameno no se materializou. Ouvindo 
a mim mesma, tinha que admitir que o tom geral da minha voz era na verdade totalmente perverso. Eu j estava deixando de me importar.
        No sendo nenhum tolo em interpretar tons de vozes, Jamie estreitou os olhos para mim e pareceu prestes a responder. Inspirou fundo, depois aparentemente 
pensou melhor no que pretendia dizer e soltou o ar outra vez.
        - Sim - disse com calma. Remexeu no fundo da banheira entre as pernas e finalmente trouxe para cima o sabo, uma bola rstica, branca e escorregadia. Estendeu-o 
para mim na palma da mo.
        - Pode me ajudar a lavar o cabelo? Sua Alteza vomitou em mim na carruagem no caminho de volta para casa e eu estou fedendo um pouco, considerando-se tudo 
o que houve.
        Hesitei por um instante, mas aceitei o ramo de oliveira, ao menos temporariamente.
        Eu podia sentir a curva slida de seu crnio sob os cabelos espessos e ensaboados, bem como o vergo da cicatriz que cortava a parte de trs de sua cabea. 
Enfiei meus polegares com firmeza nos msculos do pescoo e ele relaxou um pouco sob minhas mos.
        As bolhas de sabo escorreram pelas curvas molhadas e brilhantes de seus ombros e minhas mos as seguiram, espalhando a espuma escorregadia, de modo que 
meus dedos pareciam flutuar na superfcie da pele.
        Ele era grande, pensei. Tanto tempo perto dele, eu tendia a esquecer seu tamanho, at v-lo repentinamente a distncia, despontando entre homens menores, 
eu ficava de novo surpresa com sua graciosidade e com a beleza de seu corpo. Mas agora ele estava sentado com os joelhos quase tocando o queixo e os ombros preenchiam 
a tina de um lado ao outro. Inclinou-se um pouco para a frente para ajudar meus movimentos, expondo as hediondas cicatrizes em suas costas. Os vergalhes grossos 
e vermelhos do presente de Natal de Jack Randall destacavam-se sobre as finas linhas brancas dos aoites anteriores.
        Toquei as cicatrizes delicadamente, meu corao apertado diante da viso. Eu vira aqueles ferimentos quando estavam em carne viva, eu o vi levado s raias 
da loucura pela tortura e pelo abuso. Mas eu o curara e ele lutara com todas as foras de um corao corajoso para curar-se fsica e moralmente, para voltar para 
mim. Tomada de ternura, afastei as mechas de cabelos espalhadas pelo pescoo e abaixei-me para beijar sua nuca.
        Empertiguei-me bruscamente. Ele sentiu meu movimento e virou a cabea.
        - O que foi, Sassenach? - perguntou, a voz arrastada de sonolncia e contentamento.
        -- Absolutamente nada - eu disse, fitando as manchas roxas no lado do seu pescoo. As enfermeiras nas dependncias de Pembroke costumavam escond-lascom 
vistosas echarpes enroladas no pescoo na manh seguinte a seus encontros com soldados da base prxima. Eu sempre achei que as echarpes na verdade tinham o objetivo 
de alardear, em vez de esconder.
        - No, absolutamente nada - repeti, pegando a jarra d'gua na mesinha. Colocada junto  janela, estava gelada ao toque. Passei para trs de Jamie e virei-a 
sobre sua cabea.
        Levantei a saia de seda da minha camisola para evitar a repentina onda que transbordou pelas bordas da tina. Ele tremia de frio e tentava falar, mas ainda 
estava chocado demais para formar qualquer das palavras que eu podia ver ganhando fora em seus lbios. Eu fui mais rpida.
        - S observou, no ? - perguntei friamente. - Devo supor que no aproveitou nem um pouco, no , coitado!
        Ele enfiou-se de volta na tina com uma violncia que fez a gua derramar-se pelas bordas, batendo no assoalho de pedra, e virou-se para olhar para mim.
        - O que quer que eu diga? - perguntou. - Se eu quis fazer sexo com elas? Sim, eu quis! O bastante para fazer minhas bolas doerem por no fazer. E o bastante 
para me fazer sentir enjoado com a idia de tocar uma das vadias.
        Afastou bruscamente os cabelos encharcados dos olhos, fitando-me furioso.
        -  isso que queria saber? Est satisfeita agora?
        - Na verdade, no - respondi. Meu rosto estava afogueado e encostei a face contra a vidraa gelada da janela, as mos agarradas ao peitoril.
        - Aquele que olha para uma mulher com desejo em seu corao j cometeu adultriocom ela.  assim que voc v isso?
        -  como voc v?
        - No - ele respondeu secamente. - No vejo assim. E o que voc faria se eu tivesse dormido com uma prostituta, Sassenach? Me dava um tapa na cara? Me proibiria 
de entrar em seu quarto? Se afastaria da minha cama?
        Virei-me e olhei para ele.
        - Eu o mataria - disse entre dentes.
        As duas sobrancelhas ergueram-se ao mesmo tempo e sua boca entreabriu-se de incredulidade.
        - Me mataria? Meu Deus, se eu a encontrasse com outro homem, eu mataria ele. - Parou e um dos cantos de sua boca contorceu-se num trejeito.
        - Veja bem - ele disse -, eu no ficaria muito satisfeito com voc tampouco, mas ainda assim, seria ele quem eu mataria.
        - Tpico dos homens - eu disse. - Nunca entendem nada. Ele resfolegou com um humor amargo.
        -  assim, hein? Ento, no acredita em mim. Quer que eu lhe prove, Sassenach, que eu no me deitei com ningum nas ltimas horas? - Levantou-se, a gua 
caindo em cascatas pelas pernas longas. A luz da janela refletia os plos ruivo-dourados de seu corpo e o vapor elevava-se de sua pele em filetes. Ele parecia uma 
figura recm-moldada em ouro. Olhei rapidamennte para baixo.
        - Ah! - exclamei,com o mximo de desdm possvel de ser instilado em uma nica slaba.
        - gua quente - ele disse laconicamente, saindo da banheira. - No se preocupe, no vai demorar muito tempo.
        - Isso - eu disse,com delicada preciso -  o que voc pensa.
        Seu rosto ficou ainda mais ruborizado e as mos fecharam-se involuntariamente, cerrando os punhos.
        - No h como argumentar com voc, no ? - reclamou. - Santo Deus, eu passei a noite dilacerado entre repulsa e agonia, atormentado pelos meus companheiros 
por ser to maricas, depois chego em casa para ser atormentado por ser impuro! Mallaichte bs!
        Olhando desvairadamente ao redor, avistou suas roupas no cho perto da cama e estendeu-se para peg-las.
        - Ento, aqui est! - disse, tateando para pegar seu cinto. - Tome! Se sentir desejo  adultrio e voc me mataria por adultrio, ento  melhor fazer isso, 
no ? - Veio em minha direo segurando a adaga, uma pea de ao escuro de cerca de vinte e cinco centmetros de comprimento e a atirou para mim, o cabo primeiro. 
Endireitou os ombros, apresentando toda a extenso do seu peito e olhou-me desafiadoramente.
        - V em frente - insistiu. - No pretende cometer perjrio, espero. Sendo to sensvel  sua honra como esposa e tudo o mais, no ?
        Era uma verdadeira tentao. Meus punhos cerrados tremiam ao lado do corpo com a vontade de pegar a adaga e plant-la firmemente entre suas costelas. Somente 
a certeza de que, apesar de toda a sua dramatizao, ele no me deixaria esfaque-lo, impediu-me de tentar. J me sentia bastante ridcula sem ter que me humilhar 
ainda mais. Girei nos calcanhares e me afastei dele numa agitao de seda.
        Aps um instante, ouvi o barulho da adaga ao bater no assoalho.
        Permaneci em p, sem me mover,com os olhos fixos atravs da janela para o ptio l embaixo. Ouvi um leve farfalhar atrs de mim e olhei para os vagos reflexos 
na janela. Meu rosto aparecia na vidraa como um oval difuso numa aurola de cabelos castanhos amarfanhados pela noite de sono. A figura nua de Jamie movia-se obscuramente 
no vidro como algum visto dentro d'gua, procurando uma toalha.
        - A toalha est na prateleira de baixo da mesinha do jarro d'gua - eu disse, virando-me.
        - Obrigado. - Largou a camisa suja com a qual comeara cautelosamente a se secar e pegou a toalha, sem olhar para mim.
        Enxugou o rosto, depois pareceu tomar uma deciso. Abaixou a toalha e olhou direto para mim. Eu podia ver que ele lutava para controlar suas emoes e senti 
como se ainda estivesse olhando para as imagens refletidas na vidraa. O bom senso triunfou em ns dois simultaneamente.
        - Desculpe-me - dissemos em unssono. E rimos.
        A umidade em sua pele molhou a seda fina, mas no me importei. Minutos depois, ele balbuciou algo entre meus cabelos.
        - O qu?
        - Por pouco - ele repetiu, dando um passo atrs. - Foi por muito pouco, Sassenach, e isso me apavorou.
        Olhei para a adaga, esquecida no cho.
        - Apavorou? Nunca vi ningum menos apavorado em toda a minha vida. Voc sabia muito bem que eu no faria isso.
        - Ah, isso. - Riu. - No, no acho que voc me mataria, por mais que desejasse. - Ficou repentinamente srio. - No, foi que... bem, aquelas mulheres. O 
que eu senti com elas. Eu no as queria, de fato no...
        - Sim, eu sei - eu disse, abraando-o, mas ele no parou. Afastou-se de mim, parecendo perturbado.
        - Mas o... o desejo, suponho que se possa chamar assim... era... muito parecido com o que s vezes sinto por voc e isso... bem, no me parece direito.
        Virou-se, esfregando os cabelos com a toalha de linho, de modo que sua voz soou um pouco abafada.
        - Sempre achei que seria algo simples deitar-se com uma mulher disse suavemente. - E no entanto... eu quero cair no cho a seus ps e ador-la - largou a 
toalha e estendeu os braos, segurando-me pelos ombros -, e ainda assim quero for-la a ficar de joelhos diante de mim, segur-la com as minhas mos embaralhadas 
em seus cabelos, e sua boca a meu servio... e eu quero as duas coisas ao mesmo tempo, Sassenach. - Correu as mos para cima, enfiando-as nos meus cabelos, e segurou 
meu rosto entre elas, com fora.
        - Eu no me compreendo mais, Sassenach! Ou talvez compreenda. Soltou-me e virou-se de costas. Seu rosto j havia secado, mas ele pegou a toalha cada no 
cho e limpou a pele do maxilar, repetidamente. A barba espetada fazia um som leve e spero contra o linho fino. Sua voz ainda era baixa, quase inaudvel a alguns 
passos de distncia.
        - Me dei conta dessas coisas, quero dizer, o conhecimento delas, logo depois... depois de Wentworth. - Wentworth. Onde ele dera sua alma para salvar minha 
vida e sofrera as torturas dos condenados para recuper-la.
        - No comeo, achei que Jack Randall havia roubado uma parte de minha alma e depois compreendi que era pior do que isso. Tudo aquilo e meu e apenas meu desde 
o incio; ele s havia mostrado isso para mim e feito com que eu soubesse por mim mesmo. Foi isso que ele fez que no posso perdoar e que sua prpria alma apodrea 
por causa disso!
        Abaixou a toalha e olhou para mim, o rosto com um ar cansado pelas tenses da noite, mas os olhos brilhantes de ansiedade.
        - Claire. Sentir os ossos delicados do seu pescoo sob minhas mos e essa pele macia e fina de seus seios, de seus braos... Deus, voc  minha mulher, que 
eu venero e amo com todas as minhas foras, e ainda assim eu quero beij-la com tanta fora que machuque seus lbios macios e ver as marcas dos meus dedos na sua 
pele.
        Largou a toalha. Ergueu as mos e manteve-as no ar, trmulas, diante do rosto. Em seguida, lentamente, abaixou-as e descansou-as sobre minha cabea como 
se me abenoasse.
        - Quero segur-la como um gatinho dentro da minha camisa, mo duinne, e ainda assim quero abrir suas pernas e atirar-me sobre voc como um touro no cio. - 
Seus dedos contraram-se em meus cabelos. - Eu no me compreendo!
        Puxei minha cabea para trs, libertando-me de suas mos, e recuei um passo. O sangue parecia ter aflorado inteiramente  superfcie da minha pele e um calafrio 
percorreu meu corpo  rpida separao.
        - Acha que  diferente para mim? Acha que no sinto o mesmo? perguntei. - Que s vezes tenho vontade de mord-locom fora suficiente para sentir o gosto 
de seu sangue ou arranh-lo at voc gritar?
        Estendi a mo devagar para toc-lo. A pele de seu peito estava mida e quente. Somente a unha do meu dedo indicador tocou-o, logo abaixo do mamilo. De leve, 
mal roando em sua pele, fiz a unha subir e descer, circundar, vendo o minsculo boto de seu mamilo endurecer e erguer-se entre os plos ruivos e encaracolados 
de seu peito.
        A unha pressionou com um pouco mais de fora, deslizando para baixo, deixando uma leve marca vermelha na pele clara. Todo o meu corpo tremia, mas no me 
afastei.
        - As vezes, quero cavalg-lo como a um cavalo selvagem e finalmente dom-lo... sabia? Eu posso fazer isso, voc sabe que posso. Arrast-lo at o limite de 
suas foras e deix-lo exausto e ofegante. Posso arrast-lo at a beira do colapso e s vezes me delicio com isso, Jamie,  verdade! E no entanto, tantas vezes desejo 
- minha voz entrecortou-se repentinamente e tive que engolir com fora antes de continuar -, desejo... segurar sua cabea contra meu peito e embal-lo como uma criana 
e faz-lo dormir.
        Meus olhos estavam to cheios de lgrimas que no conseguia ver seu rosto com clareza; no podia ver se ele tambm chorava. Seus braos rodearam-me com fora 
e o calor mido de seu corpo envolveu-me como a aragem de uma mono.
        - Claire, voc me mata, com punhal ou sem ele - murmurou, o rosto enterrado em meus cabelos. Inclinou-se e pegou-me no colo, carregando-me para a cama. Caiu 
de joelhos, colocando-me sobre as cobertas amarfanhadas.
        - Voc vai se deitar comigo agora - ele disse serenamente. - E eu a usarei como eu quiser. E se quiser se vingar por isso, cobre sua vingana e ser bem-vinda, 
porque minha alma lhe pertence, com todos os seus cantos escuros.
        A pele de seus ombros estava quente com o calor do banho, mas ele tremia como se sentisse frio quando minhas mos deslizaram sobre eles at o pescoo e eu 
o puxei para mim.
        E quando finalmente conclu minha ltima vingana sobre ele, eu o embalei em meus braos, acariciando os cachos desgrenhados, ainda meio midos.
        - E s vezes - murmurei para ele -, eu quisera que fosse voc dentro de mim. Que eu pudesse guard-lo dentro de mim e mant-lo sempre seguro.
        Sua mo, grande e quente, ergueu-se devagar da cama e segurou a curva redonda do meu ventre, acariciando-o e protegendo-o.
        - Voc me tem dentro de voc, meu amor - ele disse. - Voc me tem.
        A primeira vez que senti foi quando estava deitada na cama na manh seguinte, vendo Jamie se vestir para sair para o trabalho. Uma ligeira sensao de estremecimento, 
ao mesmo tempo inteiramente familiar e nova. Jamie estava de costas para mim, enquanto se enfiava em sua camisa at os joelhos e esticava os braos, ajeitando as 
dobras do linho branco sobre a extenso dos ombros.
        Permaneci absolutamente imvel, aguardando,  espera que viesse outra vez. E veio, desta vez como uma srie de movimentos rpidos e infa" nitesimais, como 
a exploso de bolhas subindo  superfcie de um Hquid gaseificado.
        Lembrei-me subitamente da Coca-Cola; aquela estranha, escura borbulhante bebida americana. Eu a experimentara uma vez, quando jantava com um coronel americano, 
que a serviu como uma bebida fina - que era, em tempos de guerra. Vinha em garrafas de vidro grosso e esverdeado, acaneladas e afuniladas,com uma cintura alta, de 
modo que a garrafa possua a forma aproximada de um corpo feminino, arredondado logo abaixo do gargalo - ou pescoo - adelgaando-se na cintura e abaulando-se outra 
vez para baixo.
        Lembrei-me de como as milhes de minsculas borbulhas afluram rpido para o gargalo estreito quando a garrafa foi aberta, menores e mais delicadas do que 
as borbulhas do champanhe, explodindo alegremente no ar. Coloquei uma das mos muito delicadamente sobre meu abdmen, bem acima do tero. L estava. No havia nenhuma 
sensao da presena dele, ou dela, como eu achava que haveria, mas sem dvida havia a sensao de algum. Imaginei se talvez os bebs no tivessem gnero - fora 
as caractersticas fsicas - at o nascimento, quando o ato de expor-se ao mundo exterior os definiria para sempre como um ou outro.
        - Jamie - eu disse. Ele amarrava os cabelos para trs, reunindo-os num punhado espesso na base do pescoo e atando-o com um cadaro de couro.com a cabea 
inclinada na tarefa, ergueu os olhos para mim por baixo das sobrancelhas e sorriu.
        - Est acordada, hein? Ainda  cedo, mo duinne. Durma mais um pouco.
        Eu ia contar-lhe, mas algo me impediu. Ele ainda no podia senti-lo,  claro, ainda no. No que eu achasse que ele fosse se importar, mas havia alguma coisa 
a respeito dessa primeira percepo que me pareceu repentinamente particular; o segundo segredo compartilhado entre mim e meu filho - o primeiro sendo nosso conhecimento 
de sua existncia, o meu um conhecimento consciente, o do embrio apenas o fato de existir. O ato de compartilhar esse conhecimento nos ligava intimamente, como 
o sangue que circulava atravs de ns dois.
        - Quer que eu trance seus cabelos para voc? - perguntei. Quando ia as docas, s vezes me pedia para prender sua cabeleira ruiva numa trana apertada,  
prova dos ventos fortes no convs e no cais. Sempre brincava que iria mergulhar o rabo-de-cavalo em alcatro, como os marinheiros faziam, para resolver o problema 
de uma vez por todas. Sacudiu a cabea e estendeu a mo para pegar o kilt.
        - No,vou visitar Sua Alteza o prncipe Carlos hoje. E embora haja vento encanado em sua casa, acho que no soprar meus cabelos nos olhos. - - Sorriu para 
mim, vindo colocar-se ao lado de minha cama. Viu minha mo pousada sobre o ventre e colocou a sua levemente por cima.
        - Est se sentindo bem, Sassenach? O enjo melhorou?
        - Muito. - O enjo matinal havia de fato diminudo, embora ondas de nusea ainda me acometessem de vez em quando. Descobri que no podia suportar o cheiro 
de tripa frita com cebolas e tive que banir esse prato popular do cardpio dos empregados, j que o cheiro infiltrava-se da cozinha no subsolo como um fantasma pelas 
escadas acima, para atacar-me de surpresa quando eu abria a porta de minha sala de estar.
        - timo. - Ergueu minha mo e inclinou-se para beijar os ns dos meus dedos em despedida. - Volte a dormir, mo duinne - repetiu.
        Fechou a porta delicadamente ao sair, como se eu j estivesse dormindo, deixando-me entregue ao silncio do quarto ao amanhecer, com os rudos do lufa-lufa 
domstico seguramente mantidos do lado de fora pela pesada porta de carvalho.
        Quadrados de plida luz solar da janela de batente brilhavam na parede oposta. Seria um lindo dia, eu podia sentir, o ar de primavera esfuziante de calor 
e as flores das ameixeiras explodindo em rosa e branco, cheias de abelhas, nos jardins de Versalhes. Os cortesos ficariam ao ar livre hoje, desfrutando o bom tempo 
tanto quanto os vendedores ambulantes que empurravam suas mercadorias em carrinhos de mo pelas ruas.
        Eu tambm me regozijava, sozinha e ao mesmo tempo acompanhada, no meu tranqilo casulo de silncio e calor.
        - Ol - eu disse baixinho, uma das mos sobre as asas de borboleta que batiam dentro de mim.
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PARTE III - FALTA DE SORTE




18 - ESTUPRO EM PARIS
        
        Houve uma exploso no Arsenal Real, no comeo de maio. Soube mais tarde que um carregador descuidado descansara uma tocha no lugar errado e, um minuto depois, 
o maior sortimento de plvora e armas de fogo de Paris fora pelos ares com um estrondo que assustou os pombos da Notre Dame.
        Trabalhando no Hpital ds Anges, no ouvi a exploso propriamente dita, mas sem dvida notei os ecos. Embora o Hpital ficasse do outro lado da cidade em 
relao ao Arsenal, houve tantas vtimas da exploso que um bom nmero delas superlotou os outros hospitais e as demais foram levadas para ns, mutiladas, queimadas 
e gemendo na parte de trs de carroas ou em macas carregadas por amigos pelas ruas.
        J estava completamente escuro antes de a ltima vtima ser atendida e o ltimo corpo envolto em ataduras ser delicadamente colocado entre as fileiras de 
pacientes sujos e annimos do Hpital.
        Eu mandara Fergus para casa com a notcia de que chegaria tarde, quando vi a magnitude da tarefa que aguardava as irms do ds Anges. Ele voltara com Murtagh 
e os dois aguardavam nas escadas da entrada para nos escoltar at em casa.
        Mary e eu emergimos, exaustas, das portas duplas e encontramos Murtagh fazendo uma demonstrao da arte de atirar facas para Fergus.
        - Vamos, ande - ele dizia, de costas para ns. - O mais direto possvel, quando eu contar at trs. Um... dois... trs! - No "trs", Fergus lanou a enorme 
cebola branca que estava segurando, deixando-a bater e saltar no terreno irregular.
        Murtagh permaneceu relaxado, o brao virado para trs numa posio negligente, a adaga segurada pela ponta entre os dedos. Quando a cebola passou girando, 
seu pulso fez um nico movimento, rpido e certeiro.
        Nada mais se moveu, nada alm de uma sacudidela em seu kilt, mas a cebola saltou de lado, atravessada pela adaga, e caiu mortalmente ferida, rolando debilmente 
na terra a seus ps.
        - M-muito bem, Murtagh! - Mary gritou, sorrindo. Surpreso, Murtagh virou-se e eu pude ver o rubor subindo s suas faces magras  luz que atravessava as portas 
abertas atrs de ns.
        - Mmmuhm - ele disse.
        - Desculpe-nos por ter demorado tanto - eu disse. - Foi preciso tempo para que todos fossem medicados.
        - Ah, claro - o pequeno escocs respondeu laconicamente. Virou-se para Fergus. -  melhor encontrarmos uma carruagem, garoto.  tarde para as senhoras irem 
a p.
        - No h nenhuma aqui - Fergus disse, encolhendo os ombros. - H uma hora que subo e deso a rua. Toda carruagem da Cite foi para o Arsenal. Mas talvez a 
gente consiga alguma coisa na rue du Faubourg St Honor. - Apontou mais para baixo na rua, para uma brecha estreita e escura entre edifcios que denunciava a presena 
de uma passagem para a rua seguinte. -  rpido por ali.
        Aps uma pequena pausa com o cenho franzido para pensar, Murtagh concordou.
        - Est bem, garoto. Ento, vamos.
        Estava frio na viela e eu podia ver meu hlito em pequenas baforadas brancas, apesar da noite sem luar. Por mais escuro que ficasse em Paris, sempre havia 
luz em algum lugar; o claro de lampies e velas filtrava-se pelas persianas e frestas nas paredes das casas de madeira; e sempre havia poas de luz em torno das 
barracas dos vendedores de rua e espalhadas pelas pequenas lanternas de metal e de chifre que se balanavam da traseira de carroas e dos mastros das carruagens.
        A rua seguinte era de mercadores e aqui e ali os proprietrios das diversas casas comerciais haviam pendurado lampies de metal perfurado acima de suas portas 
e ptios de entrada das lojas. No satisfeitos em confiar na polcia para proteger suas propriedades, freqentemente vrios homens de negcios uniam-se e contratavam 
um vigia para tomar conta de seus edifcios  noite. Quando vi uma dessas figuras em frente  loja do fabricante de velas de navio, agachada nas sombras, em cima 
de uma pilha de lonas dobradas, balancei a cabea em resposta ao seu rspido: "Bonsoit, monsieur, mesdames."
        Quando passamos pela loja do fabricante de velas, no entanto, ouvi um grito repentino de alarme do vigia.
        - Monsieur! Madame!
        Murtagh girou nos calcanhares instantaneamente para enfrentar o desafio, a espada j silvando ao ser desembainhada. Mais lenta em meus reflexos, eu s estava 
parcialmente virada quando ele deu um passo  frente e meu olho avistou o tremular de um movimento no vo da porta atrs dele. O golpe pegou Murtagh pelas costas 
antes que eu pudesse gritar avisando-o e ele esparramou-se no cho de rosto para baixo, as pernas e braos frouxos e sem foras, a espada e a adaga voando de suas 
mos e batendo nas pedras com estrondo.
        Abaixei-me depressa para pegar a adaga quando ela passou perto dos meus ps, mas um par de mos segurou meus braos por trs.
        - Cuide do homem - ordenou uma voz atrs de mim. - Depressa! Debati-me nas mos de meu captor; suas mos desceram para meus pulsos e torceu-os bruscamente, 
fazendo-me gritar. Viu-se um movimento branco, fantasmagrico, na rua sombria, e o "vigia" curvou-se sobre o corpo de bruos de Murtagh, uma tira de pano branco 
nas mos.
        - Socorro! - gritei. - Deixe-o! Socorro! Bandidos! Assassinos! SOCORRO!
        - Fique quieta! - Um rpido sopapo no meu ouvido fez minha cabea girar por um instante. Quando meus olhos pararam de lacrimejar, pude divisar uma forma 
branca e longa como uma salsicha na sarjeta; Murtagh, enrolado e bem amarrado numa sacola de lona, das usadas para guardar vela. O falso vigia estava agachado sobre 
ele; levantou-se, sorrindo, e pude ver que ele estava mascarado, uma faixa de tecido escuro da testa ao lbio superior.
        Um filete de luz proveniente da loja do fabricante de velas recaiu sobre seu corpo quando ele se levantou. Apesar da noite fria, ele no usava mais do que 
uma camisa que momentaneamente lanou um reflexo verde-esmeralda com a passagem da luz. Calas at os joelhos, presas com fivelas, e o que surpreendentemente pareciam 
ser meias de seda e sapatos de couro, no os ps descalos ou tamancos que eu esperava. Portanto, no eram bandidos comuns.
        De relance, avistei Mary, para o lado. uma das figuras mascaradas segurava-a firmemente por trs, um brao preso com fora entre seu trax e abdmen, a outra 
revolvendo-se sob suas saias como um animal "itocando-se.
        O homem diante de mim colocou uma das mos de forma insinuante atrs da minha cabea e me puxou mais para perto. A mscara cobria seu rosto da testa ao lbio 
superior, deixando a boca livre por razes bvias, enfiou a lngua em minha boca,com um gosto forte de bebida e cebolas. Engasguei, mordi sua lngua e cuspi quando 
a removeu. Ele me deu uma Orte bofetada, derrubando-me de joelhos na sarjeta.
        Os sapatos com fivelas de prata de Mary chutavam perigosamente perto do meu nariz, enquanto o facnora que a segurava sem nenhuma cerimnia levantou suas 
saias at a cintura com um puxo. Ouviu-se o barulho de cetim rasgado e um grito agudo de cima quando seus dedos mergulharam entre suas coxas que se debatiam violentamente.
        - Uma virgem! Peguei uma virgem! - proferiu, exultante. Um dos homens fez uma reverncia debochada para Mary.
        - Mademoiselle, meus parabns! Seu marido ter motivo para nos agradecer em sua noite de npcias, j que no encontrar nenhuma incmoda obstruo impedindo 
seu prazer. Mas no somos egostas, no pedimos nenhum agradecimento pelo cumprimento de nossos deveres. A recompensa pelo servio  o prazer em si.
        Se eu precisasse de alguma coisa alm da meia de seda para me dizer que nossos atacantes no eram bandidos de rua, esse discurso - saudado com estrondosas 
risadas - teria sido suficiente. Colocar nomes nos rostos mascarados era outra histria.
        As mos que agarraram meu brao para me colocar de p eram bem manicuradas,com um pequeno sinal, uma pinta falsa usada para embelezamento, logo acima da 
forquilha do polegar. Lembrar-me-ei disso, pensei soturnamente. Se nos deixarem vivas depois, isso pode ser til.
        Outra pessoa agarrou meus braos por trs, puxando-os com tanta fora que eu gritei. A postura assim forada fez meus seios se sobressarem no colete decotado, 
como se estivessem sendo oferecidos numa bandeja.
        O homem que parecia a cargo das operaes usava uma camisa folgada de uma cor fraca, decorada com marcas escuras - bordados, talvez. Ela lhe dava uma silhueta 
imprecisa nas sombras, tornando difcil olh-lo mais cuidadosamente. Entretanto, quando se inclinou para frente e correu um dedo avaliador por cima dos meus seios, 
pude ver os cabelos escuros emplastrados de brilhantina grudados na cabea e sentir o cheiro forte do cosmtico. Possua orelhas grandes, melhores para segurar os 
cordes de sua mscara.
        - No se preocupem, mesdames - disse o da camisa com manchas escuras. - No queremos lhes causar mal algum. Pretendemos apenas lhes proporcionar um pouco 
de delicado exerccio, seus maridos ou noivos no precisam jamais saber, e depois ns as libertaremos.
        - Primeiramente, devem nos honrar com seus lbios doces, mesdames - anunciou, dando um passo para trs e puxando os laos de suas calas.
        - No esta da - protestou o de camisa verde. - Ela morde.
        - No se ela quiser conservar seus dentes - retrucou seu companheiro. - De joelhos, madame, por favor. - Empurrou meus ombros para baixo com fora, e eu 
dei um safano para trs, tropeando. Agarrou-me para impedir que eu fugisse e o capuz da minha capa caiu, libertando meus cabelos. Os grampos haviam se soltado 
na luta e meus cabelos caram nos ombros, mechas voando como estandartes no vento da noite, cegando-me conforme aoitavam meu rosto.
        Cambaleei para trs, afastando-me do meu agressor, sacudindo a cabea para livrar os olhos dos cabelos. A rua estava escura, mas eu podia ver algumas coisas 
na claridade fraca de lampies que atravessava as persianas vitrines das lojas ou na luminosidade da noite estrelada que clareava as sombras da rua.
        As fivelas de prata de Mary refletiam a luz, esperneando. Ela estava de costas, debatendo-se,com um dos homens em cima dela, xingando enquanto lutava para 
descer as calas e control-la ao mesmo tempo. Ouviu-se o barulho de tecido rasgado e suas ndegas brilharam, brancas, num facho de luz do porto de um ptio.
        Os braos de algum me agarraram pela cintura e me arrastaram para trs, tirando meus ps do cho. Raspei o salto do meu sapato por toda a extenso da canela 
de sua perna e ele deu um berro agudo de raiva.
        - Segure-a! - ordenou o da camisa com manchas escuras, saindo das sombras.
        - Segure-a voc! - Meu captor lanou-me sem a menor cerimnia nos braos do amigo e a luz do ptio brilhou nos meus olhos, cegando-me temporariamente.
        - Santa Me de Deus! - As mos que seguravam meus braos afrouxaram-se e eu libertei-me com um safano, a tempo de ver o de camisa com manchas escuras, a 
boca aberta em horrorizada surpresa sob a mscara. Recuou, afastando-se de mim, benzendo-se enquanto recuava.
        - In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti - balbuciava, repetindo o sinal-da-cruz sem parar. - La Dame Blanche!
        - La Dame Blanche! - O homem atrs de mim repetiu o grito como um eco, a voz aterrorizada.
        O de camisa com manchas escuras ainda recuava, agora fazendo sinais no ar que eram consideravelmente menos cristos do que o sinal-da-cruz, mas que presumivelmente 
tinham a mesma funo. Apontando o dedo indicador e o dedo mnimo para mim no antigo sinal de chifres contra o mal, ele desfilava ininterruptamente uma lista de 
autoridades espirituais, desde a Santssima Trindade a poderes em um nvel consideravelmente inferior, balbuciando os nomes em latim to depressa que as slabas 
se misturavam.
        Permaneci de p, parada no meio da rua, abalada e atordoada, at que um guincho terrvel, vindo do cho perto dos meus ps, me fez recobrar os sentidos. 
Ocupado demais com o que estava fazendo para prestar qualquer ateno a questes acima dele, o homem em cima de Mary emitiu um grito gutural de satisfao e comeou 
a mover os quadris ritmadamente ao acompanhamento dos gritos dilacerantes de Mary.
        Agindo puramente por instinto, dei um passo na direo deles, lancei uma perna para trs e chutei-o nas costelas com todas as minhas foras. O ar explodiu 
de seus pulmes com um perplexo "Uuuf!", e ele rolou para o lado.
        Um de seus amigos lanou-se para frente e agarrou-o pelo brao, gritando ansiosamente:
        - Levante-se! Levante-se!  La Dame Blanche! Corra!
        Ainda mergulhado no frenesi do estupro, o homem olhava estpidamente e tentava voltar para Mary, que se torcia e contorcia freneticamente, tentando libertar 
as dobras de suas saias do peso que a mantinha presa. Tanto o de camisa verde quanto o de camisa com manchas escuras puxavam o atacante de Mary pelos braos, at 
conseguirem coloc-lo de p. Suas calas rasgadas enrolavam-se em suas coxas, o pnis sujo de sangue tremendo entre as pontas soltas da camisa, numa nsia indiferente 
ao que se passava ao redor.
        O barulho de ps correndo e aproximando-se pareceu finalmente acord-lo de seu estupor. Os dois ajudantes, ouvindo o barulho dos passos, largaram as armas 
e fugiram precipitadamente, deixando-o entregue  prpria sorte. Com uma imprecao abafada, fugiu pelo beco mais prximo, saltando e mancando, enquanto tentava 
puxar as calas para a cintura.
        - Au secours! Au secours! Gendarmes! - Uma voz ofegante gritava pela viela, pedindo socorro, enquanto o dono da voz precipitava-se em nossa direo, tropeando 
em lixo e entulho no escuro. Eu dificilmente imaginaria que um ladro de rua ou outro patife qualquer estaria cambaleando por uma viela, gritando la gendarmes, embora 
em meu atual estado de choque quase nada pudesse me surpreender.
        No entanto, fiquei surpresa quando o vulto escuro que saiu da viela com as roupas esvoaando mostrou ser Alexander Randall, envolto numa capa preta e com 
um chapu de aba larga desabada.
        Olhou desesperadamente  volta do pequeno cul-de-sac, de Murtagh, parecendo um saco de lixo, para mim, paralisada e arquejante junto a uma parede, para a 
figura encolhida de Mary, quase invisvel no meio das sombras. Ficou imvel por um instante, desamparado, depois girou nos calcanhares e subiu no porto de ferro 
do qual nossos atacantes haviam emergido. De cima do porto, conseguiu alcanar o lampio suspenso do caibro acima.
        A luz foi um conforto; apesar do doloroso quadro que iluminava, ao menos bania as sombras furtivas que ameaavam se transformar em novos perigos a qualquer 
momento.
        Mary estava de joelhos, encolhida. A cabea enterrada nos braos, ela tremia, em total silncio. Um dos seus sapatos estava cado nas pedras do calamento, 
a fivela de prata reluzindo na luz oscilante do lampio.
        Como um pssaro de mau agouro, Alex precipitou-se a seu lado.
        - Senhorita Hawkins! Mary! Senhorita Hawkins! Est bem?
        De todas as perguntas idiotas! - exclamei com certa rispidez, enquanto ela gemia e se esquivava dele. -  claro que ela no est bem. Ela acaba de ser violentada. 
- Com um esforo considervel, arranquei-me da reconfortante parede s minhas costas e comecei a me dirigir a eles, observando com um distanciamento clnico que 
meus joelhos vacilavam.
        Eles cederam completamente no momento seguinte, quando uma figura imensa, parecendo um morcego, desceu num vo rasante  minha frente, aterrissando nas pedras 
com um slido baque.
        - Ora, ora, vejam s quem chegou! - eu disse, comeando a rir de uma maneira descontrolada. Um par de mos grandes agarrou-me pelos ombros e administrou-me 
uma sacudidela.
        - Fique quieta, Sassenach - Jamie disse, os olhos azuis com um brilho sombrio e perigoso  luz do lampio. Ele endireitou-se, as dobras de sua capa de veludo 
azul recaindo sobre seus ombros quando estendeu os braos na direo do telhado de onde saltara. Na ponta dos ps, ele conseguia tocar na borda do telhado.
        - Bem, agora, desa! - ele disse impacientemente, olhando para cima.
        - Coloque os ps para fora da beirada, sobre meus ombros, e poder deslizar para as minhas costas. -com um rudo spero de telhas soltas, uma pequena figura 
veio se contorcendo cautelosamente de costas, depois lanou-se sobre a figura alta como um macaco num galho.
        - Muito bem, Fergus. - Jamie deu uma palmadinha de agrado no ombro do menino e mesmo na luz turva pude ver o brilho de satisfao que iluminou seu rosto. 
Jamie examinou o cenrio com um olhar de estrategista e, murmurando uma palavra, enviou o garoto para a entrada da viela para vigiar a aproximao dos gendarmes. 
Tendo cuidado do essencial, agachou-se diante de mim outra vez.
        - Voc est bem, Sassenach? - perguntou.
        -  muita gentileza sua perguntar - eu disse educadamente. - Sim, obrigada. Mas ela no est to bem. - Acenei vagamente em direo a Mary. Ela ainda estava 
encolhida como uma bola, tremendo como uma gelatina, esquivando-se dos esforos desajeitados de Alex de afag-la.
        Jamie no lhe destinou mais do que um rpido olhar.
        - Estou vendo. Onde com os diabos est Murtagh?
        - L - respondi, apontando. - Ajude-me a levantar.
        Fui cambaleando at a sarjeta, onde o saco que continha Murtagh subia e descia como uma lagarta gigante, emitindo uma surpreendente mistura de imprecaes 
abafadas em trs lnguas.
        Jamie tirou sua adaga e,com o que pareceu uma desconsiderao insensvel com seu contedo, cortou o saco de uma ponta  outra. Murtagh saltou da abertura 
como um boneco de mola de sua caixa. Metade de seus cabelos negros e espetados foi emplastrada na cabea por algum lquido malcheiroso em que o saco descansara. 
O resto da cabeleira estava em p, emprestando um ar ainda mais feroz a um rosto j suficientemente belicoso por causa de um grande galo roxo na testa e um olho 
que escurecia rapidamente.
        - Quem me atingiu? - rosnou.
        - Bem, no fui eu -Jamie respondeu, erguendo uma das sobrancelhas - Venha, companheiro, no temos a noite toda.
        - Isso nunca vai funcionar - murmurei, enfiando alfinetes decorados com brilhantes aleatoriamente em meus cabelos. - Ela devia receber cuidados mdicos, 
para comear. Ela precisa de um mdico!
        - Ela tem um -Jamie ressaltou, erguendo o queixo e espreitando pelo nariz abaixo para o espelho, enquanto dava o n na echarpe de seda. -Voc. - Com a echarpe 
amarrada, pegou um pente e passou-o apressadamente pelas ondas ruivas e espessas de seus cabelos.
        - No h tempo para fazer trana - murmurou, segurando os cabelos num grosso rabo-de-cavalo na nuca enquanto vasculhava uma gaveta. -Tem um pedao de fita, 
Sassenach?
        - Deixe que eu amarro. - Posicionei-me agilmente atrs dele, dobrando para dentro as pontas do cabelo e amarrando o conjunto com uma fita verde. - Que noite 
para dar um jantar!
        E no era um jantar qualquer. O duque de Sandringham deveria ser o convidado de honra, com um pequeno, mas seleto grupo para receb-lo. Monsieur Duverney 
viria com seu filho mais velho, um proeminente banqueiro. Louise e Jules de La Tour tambm viriam, e os d'Arbanville. Apenas para tornar a festa mais interessante, 
o conde de St. Germain tambm fora convidado.
        - St. Germain! - eu exclamara, atnita, quando Jamie me contou na semana anterior. - Para qu?
        - Eu fao negcios com o sujeito - Jamie salientou. - Ele j esteve aqui para jantar, com Jared. Mas o que eu quero  ter a oportunidade de v-lo conversar 
com voc durante o jantar. Pelo que pude observar a respeito dele nos negcios, ele no consegue esconder seus pensamentos. -Pegou o cristal branco que mestre Raymond 
me dera e sopesou-o pensativamente na palma da mo.
        -  muito bonito - dissera na ocasio. - Vou mandar embuti-lo em ouro, para que voc possa us-lo ao pescoo. Brinque com ele durante o jantar at que algum 
lhe faa perguntas a respeito, Sassenach. Ento, diga para que serve e olhe para o rosto de St. Germain. Se foi ele quem lhe deu veneno em Versalhes, acho que veremos 
algum indcio em sua expresso.
        O que eu desejava no momento era paz, tranqilidade e uma privacidade total onde eu pudesse tremer como um coelho. O que eu tinha era um jantar com um duque 
que podia ser um jacobita ou um agente ingls, um conde que podia ser um envenenador e uma vtima de estupro escondida no andar de cima. Minhas mos tremiam tanto 
que eu no conseguia fechar o cordo de onde pendia o cristal em sua montagem; Jamie colocou-se atrs de mim e, com um rpido movimento do polegar, encaixou o fecho 
com um estalido.
        - Voc no tem nervos? - perguntei-lhe. Abriu um largo sorriso para mim no espelho e colocou as mos sobre o estmago.
        - Tenho, sim. Mas ele me ataca na barriga, no nas mos. Tem algum remdio para dor de barriga?
        - L. - Abanei a mo na direo da caixa de remdios sobre a mesa, deixada ali depois que mediquei Mary. - A garrafinha verde. Uma colher de sopa.
        Ignorando a colher, ele virou o frasco e tomou vrios goles. Abaixou o vidro e espreitou o lquido l dentro.
        - Credo, que gosto horrvel! J est pronta, Sassenach? Os convidados vo chegar dentro de poucos instantes.
        Mary estava escondida por enquanto num quarto de hspedes no segundo andar. Examinei-a com cuidado para ver se tinha algum ferimento, que pareciam limitados 
a contuses e choque, depois lhe administrei uma dose to grande de xarope de papoula quanto me pareceu vivel.
        Alex Randall resistira a todas as tentativas de Jamie de envi-lo para casa e, em vez disso, ficou tomando conta de Mary, com instrues rgidas para mandar 
me chamar se ela acordasse.
        - Como  que aquele idiota estava l? - perguntei, escarafunchando uma gaveta  procura de uma caixa de talco.
        - Eu lhe fiz essa pergunta - Jamie respondeu. - Parece que o pobre tolo est apaixonado por Mary Hawkins. Segue-a por toda parte da cidade, abatido como 
uma flor murcha porque sabe que ela dever se casar com Marigny.
        Deixei cair a caixa de talco.
        - E ele est apaixonado por ela? - disse num chiado, abanando a nuvem de partculas esvoaantes.
        -  o que ele diz e no vejo nenhuma razo para duvidar - Jamie disse, batendo vivamente no peito do meu vestido para retirar talco derramado.
        - Era de se imaginar. -  confuso de emoes conflitantes que me assolava, eu agora acrescentava compaixo por Alex Randall. Obviament ele no teria falado 
com Mary, achando que a devoo de um empobrecido secretrio no era nada comparada  riqueza e posio de um casamento com a Casa Gascogne. E agora o que deveria 
sentir, vendo-a submetida a um ataque brutal, praticamente debaixo do seu nariz?
        - Por que diabos ele no se declarou? Ela teria fugido com ele na mesma hora. - Porque o plido coadjutor ingls,  claro, devia ser o objeto "espiritual" 
da muda devoo de Mary.
        - Randall  um cavalheiro - Jamie respondeu, entregando-me uma pena e um pote de ruge.
        - Voc quer dizer  que ele  um perfeito boboca - eu disse impiedosamente.
        Jamie torceu o lbio.
        - Bem, talvez - concordou. - Tambm  pobre. No tem renda para sustentar uma esposa, caso sua famlia a expulse, o que certamente fariam, se ela fugisse 
com ele. E a sade dele  fraca; seria difcil encontrar outro emprego, porque o duque provavelmente o demitiria sem uma carta de referncia.
        -  capaz de um dos empregados a descobrir - eu disse, retornando a uma preocupao anterior, a fim de desviar o pensamento dessa ltima manifestao de 
tragdia.
        - No, no encontraro. Todos estaro ocupados servindo o jantar. E pela manh, ela j dever ter se recuperado o suficiente para voltar para a casa do tio. 
Mandei um recado - ele acrescentou - dizendo-lhe que ela ia passar a noite com uma amiga, j que era muito tarde. No queria que sassem  sua procura.
        - Sim, mas...
        - Sassenach. - Suas mos em meus braos me fizeram parar e ele olhou por cima do meu ombro para fitar meus olhos no espelho. - No podemos deixar que seja 
vista por ningum, at ela ser capaz de falar e agir normalmente. Se ficarem sabendo o que aconteceu a ela, sua reputao estar completamente arruinada.
        - Sua reputao! No  culpa dela ter sido estuprada! - Minha voz tremia ligeiramente e ele apertou as mos em meus braos.
        - No  direito, Sassenach, mas  assim que . Se souberem que ela j no  virgem, nenhum homem a aceitar. Ela cair em desgraa e viver como uma solteirona 
at o fim de seus dias.
        Sua mo segurou meu ombro, deixou-o e retornou para ajudar a recolocar um granpo nos meus cabelos, precariamente presos.
        -  tudo que podemos fazer por ela, Claire. - ele disse. - Evitar que a faam sofrer mais, cur-la da melhor forma que pudermos... e encontrar os porcos 
desgraados que fizeram isso. - Virou-se e tateou na minha caixa de jias,  procura do alfinete de sua echarpe de seda. - Santo Deus - acrescentou suavemente, falando 
para o forro de veludo verde -, acha que eu no sei o que isso  para ela? Ou para ele?
        Coloquei a mo sobre seus dedos que remexiam na caixa e apertei-os. Ele apertou os meus tambm, depois ergueu minha mo e beijou-a rapidamente.
        - Deus, Sassenach! Seus dedos esto frios como a neve. - Virou-me e olhou ansiosamente para meu rosto. - Voc est bem?
        O que quer que tenha visto em meu rosto o fez murmurar "Santo Deus" outra vez, cair de joelhos e puxar-me contra a frente de babados de sua camisa. Abandonei 
a pretensa coragem e agarrei-me a ele, enterrando o rosto no calor engomado de seu peito.
        - Ah, meu Deus, Jamie. Tive tanto medo. Tenho medo. Ah, meu Deus, queria que voc pudesse fazer amor comigo agora.
        Seu peito vibrou sob meu rosto com uma risada, mas ele me abraou com mais fora.
        - Acha que ajudaria?
        - Sim.
        De fato, eu achava que no me sentiria a salvo outra vez, enquanto no estivesse na segurana de nossa cama, com o silncio protetor da casa  nossa volta. 
Queria sentir a fora e o calor de Jamie me envolvendo e dentro de mim, reforando minha coragem com a alegria de nossa unio, apagando o horror de me sentir impotente 
e quase estuprada com a certeza da posse mtua.
        Ele segurou meu rosto entre as mos e beijou-me. Por um instante, o medo do futuro e o terror da noite se esvaram. Em seguida, ele se afastou e sorriu. 
Pude perceber sua prpria preocupao gravada nas linhas de seu rosto, mas no havia nada em seus olhos alm de um minsculo reflexo do meu rosto.
        - Esse j  por conta, ento - ele disse, suavemente.
        Havamos chegado ao segundo prato sem incidentes e eu comeava a relaxar um pouco, embora minha mo ainda tivesse a tendncia de tremer acima do consomm.
        - Que fascinante! - eu disse, em resposta a uma histria do jovem monsieur Duverney, a qual eu no estava ouvindo, meus ouvidos estando sintonizados para 
qualquer barulho suspeito l em cima. - Fale-me mais a respeito.
        Meus olhos encontraram-se com os de Magnus quando ele servia o conde de St. Germain, sentado  minha frente, e eu fiz-lhe um sinal de congratulaes da melhor 
maneira que pude com um bocado de peixe na boca. Bem treinado demais para sorrir em pblico, ele fez uma respeitosa e quase imperceptvel inclinao com a cabea 
e continuou seu servio. Minha mo dirigiu-se ao cristal ao meu pescoo e eu o toquei ostensivamente enquanto o conde, sem nenhum sinal de perturbao nas feies 
sombrias, atacava a truta com amndoas.
        Jamie e o Duverney mais velho mantinham uma conversa particular na outra ponta da mesa, a comida ignorada enquanto Jamie rabiscava nmeros com a mo esquerda 
em um pedao de papel com um pedao de giz. Xadrez ou negcios?, perguntava-me.
        Como convidado de honra, o duque sentava-se no meio da mesa. Apreciara os primeiros pratos com o prazer de um gourmand inato e agora mantinha uma conversa 
animada com madame d'Arbanville,  sua direita. Sendo o duque obviamente o mais proeminente ingls em Paris na poca, Jamie achara que valia a pena cultivar o relacionamento 
com ele, na esperana de descobrir qualquer boato que pudesse levar ao emissrio da mensagem musical a Carlos Stuart. Minha ateno, entretanto, invariavelmente 
vagava do duque para o cavalheiro sentado  sua frente - Silas Hawkins.
        Achei que eu poderia morrer ali mesmo e evitar quaisquer outros problemas, quando o duque atravessou a porta, gesticulando informalmente por cima do ombro 
e dizendo:
        - Sra. Fraser, conhece este aqui, o sr. Hawkins, no?
        Os olhos azuis, pequenos e alegres do duque depararam-se com os meus com uma expresso de ingnua confiana de que seus caprichos seriam acomodados. Eu no 
tive escolha seno sorrir e balanar a cabea, assentindo, e dizer a Magnus que colocasse mais um lugar  mesa. Jamie, avistando o sr. Hawkins ao atravessar a porta 
da sala de estar, deu a impresso de que estava precisando de outra dose de remdio para o estmago, mas recobrou-se o suficiente para estender a mo ao sr. Hawkins 
e encetar uma conversa sobre a qualidade das hospedarias na estrada para Calais.
        Lancei um olhar para o relgio sobre o consolo da lareira. Quanto tempo at todos eles terem ido embora? Contei mentalmente o nmero de pratos j servidos 
e os que faltavam. Quase na hora do prato doce. Depois salada e queijos. Conhaque e caf, porto para os homens, licores para as damas. Uma ou duas horas de estimulante 
conversa. No estimulante demais, Senhor, por favor, ou se demorariam at o amanhecer.
        Agora falavam da ameaa de gangues de rua. Abandonei o peixe e peguei um pozinho.
        - E ouvi dizer que alguns desses bandos de vagabundos no so compostos de gentalha como seria de esperar, mas de jovens da nobreza!
        O general d'Arbanville inflou os lbios diante da monstruosidade da idia.
        - Fazem isso para se divertir, uma brincadeira! Como se roubar cidados honestos e ultrajar as senhoras no passassem de uma briga de galos!
        - Que extraordinrio - exclamou o duque, com a indiferena de um homem que nunca ia a nenhum lugar sem uma escolta considervel. A bandeja de petiscos pairava 
junto a seu queixo e ele raspou meia dzia para seu prato.
        Jamie olhou para mim e ergueu-se da mesa.
        - Se me do licena, mesdames, monsieurs - disse com uma mesura -, tenho um Porto especial que eu gostaria que Sua Excelncia experimentasse. Vou buscar 
na adega.
        - Deve ser o Belle Rouge - disse Jules de La Tour, lambendo os lbios na expectativa. - Um verdadeiro deleite o aguarda, Excelncia. Nunca provei um vinho 
igual em nenhum outro lugar.
        - Ah, ? Bem, logo provar, monsieur le prince - interrompeu o conde de St. Germain. - Algo ainda melhor.
        - Certamente no h nada melhor do que o Belle Rouge! - exclamou o general d'Arbanville.
        - H, sim - declarou o conde, com um ar presunoso. - Descobri um novo Porto, feito e engarrafado na ilha de Gostos, ao largo da costa de Portugal. Uma cor 
exuberante como a dos rubis e um sabor que faz o Belle Rouge parecer gua colorida. Tenho um contrato para entrega da safra inteira em agosto.
        -  mesmo, monsieur le comtel - Silas Hawkins ergueu as sobrancelhas espessas e grisalhas em direo  nossa ponta da mesa. - Ento, o senhor encontrou um 
novo scio para investimentos? Eu havia entendido que seus prprios recursos estavam... esgotados, podemos dizer assim?, aps a triste destruio do Patagnia. - 
Pegou um acepipe de queijo da travessa e lanou-o delicadamente na boca.
        Os msculos dos maxilares do conde avolumaram-se e uma frieza repentina abateu-se sobre a nossa extremidade da mesa. Pelo olhar de esguelha do sr. Hawkins 
para mim e o leve sorriso que pairava furtivamente em sua boca ocupada em mastigar, era claro que ele sabia tudo sobre "meu papel na destruio do desafortunado 
Patagnia.
        Minha mo buscou novamente o cristal ao meu pescoo, mas o conde no olhou para mim. Um rubor violento erguera-se da sua echarpe de seda e rendas ao pescoo 
e ele olhou fixamente para o sr. Hawkins com evidente antipatia. Jamie tinha razo; no era um homem que soubesse esconder suas emoes.
        - Felizmente, monsieur - ele disse, dominando sua ira com esforo aparente -, eu realmente encontrei um scio disposto a investir nesse empreendimento. Um 
compatriota, na realidade, de nosso amvel anfitrio. - Balanou a cabea ironicamente em direo  porta, onde Jami acabara de surgir, seguido de Magnus, trazendo 
uma bela garrafa de Porto Belle Rouge.
        Hawkins parou de mastigar por um instante, a boca repulsivamente aberta com interesse.
        - Um escocs? Quem? No pensei que houvesse nenhum escocs no ramo dos vinhos em Paris alm da Casa Fraser.
        Um brilho inconfundvel de satisfao iluminou os olhos do conde quando olhou do sr. Hawkins para Jamie.
        - Suponho que seja discutvel se o investidor em questo poderia ser considerado escocs no momento; entretanto, ele  um compatriota do senhor de Broch 
Tuarach. Seu nome  Carlos Stuart.
        Essa notcia causou todo o impacto que o conde esperava. Silas Hawkins empertigou-se na cadeira com uma exclamao que o fez se engasgar com os remanescentes 
de comida em sua boca. Jamie, que estivera prestes a falar, fechou a boca e sentou-se, olhando o conde pensativa-mente. Jules de La Tour comeou a aspergir exclamaes 
e perdigotos e os dois d'Arbanville emitiram gritos de surpresa. At o duque tirou os olhos de seu prato e pestanejou para o conde com interesse.
        - Verdade? - disse. - Para mim, os Stuart eram pobres como ratos de igreja. Tem certeza de que ele no o est enganando?
        - No tenho nenhuma inteno de lanar calnias ou levantar suspeitas -Jules de La Tour deu sua contribuio -, mas  sabido na corte que os Stuart no possuem 
nenhum dinheiro.  verdade que vrios seguidores jacobitas tm buscado fundos ultimamente, mas sem sorte, pelo que ouvi.
        -  verdade - o jovem Duverney intrometeu-se na conversa, inclinando-se para a frente com interesse. - O prprio Carlos Stuart teve uma conversa particular 
com dois banqueiros das minhas relaes, mas ningum est disposto a adiantar-lhe nenhuma soma vultosa em suas atuais circunstncias.
        Lancei um olhar rpido a Jamie, que respondeu com um sinal quase imperceptvel da cabea. Essas eram boas notcias. Mas o que dizer da histria do conde 
sobre um investimento?
        -  verdade - ele disse belicosamente. - Sua Alteza conseguiu um emprstimo de quinze mil livres de um banco italiano e colocou toda a quantia  minha disposio, 
para ser usada na contratao de um navio e na compra de toda a produo engarrafada dos vinhedos de Gostos. Tenho a carta assinada bem aqui. - Deu uns tapinhas 
no peito de seu casaco com satisfao, depois se recostou na cadeira e olhou triunfalmente ao redor da mesa, parando emjamie.
        - Bem, milorde - disse, com um gesto indicando a garrafa de vinho sobre a toalha branca em frente a Jamie -, vai nos permitir provar o famoso vinho?
        - Sim,  claro - Jamie murmurou. Estendeu a mo mecanicamente para o primeiro copo.
        Louise, que permanecera comendo em silncio durante quase todo o jantar, notou o desconforto de Jamie. Sendo uma boa amiga, virou-se para mim no bvio esforo 
de mudar o rumo da conversa para um tema neutro.
        -  uma bela pedra essa que est usando ao pescoo, ma chre - disse, indicando o cristal. - Onde a conseguiu?
        - Ah, esta? - eu disse. - Bem, na verdade...
        Fui interrompida por um grito lancinante. Toda a conversa parou e seus frgeis ecos ressoaram nos cristais do candelabro acima.
        - Mon Dieu - disse o conde de St. Germain no silncio da sala. - O que...
        O grito repetiu-se e em seguida outra vez. O barulho derramou-se pela larga escadaria e invadiu o vestbulo.
        Os convidados, abandonando a mesa de jantar como um bando de codornas levantando vo, tambm invadiram o vestbulo, a tempo de ver Mary Hawkins, trajando 
apenas o que restara de sua combinao rasgada, surgir no alto das escadas. Ficou l parada, como se quisesse dar o mximo efeito  cena, a boca arreganhada, as 
mos espalmadas sobre o peito, onde o tecido rasgado exibia com absoluta clareza as contuses deixadas pelas mos que agarraram seus seios e braos.
        Suas pupilas reduziram-se a cabeas de alfinetes  luz dos candelabros, os olhos pareciam poas vazias onde se refletia o terror. Ela olhava para baixo, 
mas obviamente no via nem as escadas nem a multido boquiaberta de espectadores.
        - No! - gritou. - No! Solte-me! Por favor, eu imploro! NO ME machuque! - Cega pelo remdio como estava, aparentemente pressentiu algum movimento atrs 
de si, porque se virou e comeou a agitar os braos freneticamente, as mos em forma de garras atacando a figura de Alex Randall, que tentava inutilmente segur-la, 
para acalm-la. Infelizmente, vistas de baixo, suas tentativas mais pareciam as de um r rejeitado, disposto a continuar o ataque.
        - Norn de Dieu - explodiu o general d'Arbanville. - Racaille! Largue-a imediatamente! - O velho soldado deu um salto em direo  escada com uma agilidade 
que desmentia sua idade, a mo instintivamente levada  espada, a qual, felizmente, deixara junto  porta ao chegar.
        Atirei-me, e s minhas volumosas saias, apressadamente  frente do conde e do jovem Duverney, que mostrava sinais de seguir o general no resgate, mas nada 
pude fazer sobre o tio de Mary, Silas Hawkins. Os olhos saltando da cabea, o comerciante de vinhos ficou paralisado, perplexo por um instante, depois abaixou a 
cabea e arremeteu para a frente como um touro, forando sua passagem pelo meio dos espectadores.
        Olhei, desesperada, ao redor,  procura de Jamie. Localizei-o  margem do grupo. Nossos olhos se encontraram e eu ergui as sobrancelhas numa pergunta silenciosa; 
de qualquer modo, nada que eu dissesse poderia ser ouvido acima da algazarra no vestbulo, pontuada pelos gritos histricos de Mary no andar de cima.
        Jamie encolheu os ombros para mim, depois olhou  sua volta. Vi seus olhos focalizarem-se por um instante numa mesa de trs pernas junto  parede, apoiando 
um vaso alto de crisntemos. Ele olhou para cima, medindo a distncia, fechou os olhos rapidamente como se encomendasse a alma a Deus, depois se moveu com deciso.
        Ele pulou do cho para a mesa, agarrou o corrimo do balastre e saltou por cima dele, aterrissando na escada, alguns degraus  frente do general. Foi uma 
faanha to acrobtica que uma ou duas senhoras arquejaram, gritinhos de admirao mesclados a exclamaes de horror.
        As exclamaes avolumaram-se quando Jamie galgou os degraus remanescentes, interps-se entre Mary e Alex e, segurando o ltimo pelo ombro, mirou e aplicou-lhe 
um soco em cheio no maxilar.
        Alex, que estivera olhando fixamente para seu empregador abaixo boquiaberto de estupefao, dobrou-se devagar nos joelhos e desmoronou num montculo no cho, 
os olhos ainda arregalados, mas repentinamente vazios e perplexos como os de Mary.
        
        
        
19 - UM JURAMENTO  FEITO
        
        O relgio no consolo da lareira fazia um tiquetaque irritantemente alto. Era o nico som na casa, alm dos estalidos das tbuas e os baques surdos e distantes 
dos criados trabalhando at tarde nas cozinhas embaixo. Eu j tivera o meu quinho de barulho, suficiente por um bom tempo, e queria apenas silncio para recompor 
meus nervos esgotados. Abri a caixa do relgio e removi o contrapeso, parando o tiquetaque imediatamente.
        Sem dvida, aquele fora o jantar da temporada. As pessoas que no tiveram a sorte de estar presentes iriam alegar durante meses que estiveram, reforando 
sua alegao com fragmentos de mexericos contados e recontados e descries distorcidas.
        Eu finalmente conseguira pr as mos em Mary outra vez o tempo suficiente para forar uma nova dose de forte extrato de papoula por sua goela abaixo. Ela 
desmoronou numa lamentvel pilha de roupas sujas de sangue, deixando-me livre para voltar minha ateno para a discusso em andamento entre Jamie, o general e o 
sr. Hawkins. Alex teve o bom senso de permanecer desacordado, e arrumei seu corpo mole bem esticado ao lado do corpo de Mary no patamar, como dois peixes mortos. 
Pareciam Romeu e Julieta expostos em praa pblica como uma censura aos seus parentes, mas o sr. Hawkins no percebeu a semelhana.
        - Arruinada! - ele continuava a gritar, aos guinchos. - Voc arruinou a minha sobrinha! Agora o visconde jamais a aceitar! Maldito escocs imundo! Voc 
e sua meretriz! - Virou-se para mim. - Prostituta! Cafetina! Aliciando jovens inocentes em suas garras desprezveis para o prazer da escria corrupta! Voc... - 
Jamie, com uma espcie de clera h muito contida, colocou a mo no ombro do sr. Hawkins, virou-o e desfechou-lhe um soco, logo abaixo do polpudo maxilar. Depois, 
ficou parado, esfregando distraidamente os ns dos dedos doloridos, observando enquanto os olhos do corpulento comerciante de vinhos rolavam para cima. O sr. Hawkins 
caiu de costas contra os lambris e deslizou suavemente pela parede abaixo, at ficar sentado no cho.
        Jamie direcionou um frio olhar azul para o general d'Arbanville, que, ao observar a sorte do desfalecido, sabiamente abaixou a garrafa de vinho que andara 
brandindo e deu um passo para trs.
        - Ah, v em frente - instigou uma voz atrs do meu ombro. - Por que parar agora, Tuarach? Bata em todos os trs! Acabe logo com eles! - O general e Jamie 
concentraram um olhar de antipatia na garbosa figura atrs de mim.
        - V embora, St. Germain - Jamie disse. - Isso no  da sua conta. -Parecia cansado, mas ergueu a voz a fim de ser ouvido acima do tumulto abaixo. As costuras 
do ombro de seu casaco haviam se rompido e as pregas de sua camisa de linho apareciam brancas atravs dos rasges.
        Os lbios finos de St. Germain curvaram-se para cima num sorriso sedutor. Obviamente, o conde estava se divertindo como nunca.
        - No  da minha conta? Como podem tais acontecimentos no serem da conta de qualquer homem de esprito pblico? - Seu olhar divertido varreu o patamar, 
atulhado de corpos. - Afinal, se um hspede de Sua Majestade perverteu de tal forma o significado de hospitalidade a ponto de manter um bordel em sua casa, isso 
no ... No, no faa isso! - ele disse, quando Jamie deu um passo em sua direo. Uma lmina brilhou repentinamente em sua mo, surgindo como por um passe de mgica 
do punho de rendas e babados sobre seu pulso. Vi o lbio de Jamie curvar-se ligeiramente, e ele remexeu os ombros dentro dos restos de seu casaco, preparando-se 
para o combate.
        - Parem com isso imediatamente! - disse uma voz imperiosa. Os dois Duverney, o velho e o jovem, abriram caminho at o patamar j superlotado. O Duverney 
jovem virou-se e agitou os braos energicamente para a multido aglomerada nas escadas, suficientemente acovardada por sua expresso ameaadora para recuar um passo.
        - Voc - disse o Duverney velho, apontando para St. Germain. - Se tiver qualquer sentimento de esprito pblico, como sugere, prestar um servio til retirando 
algumas dessas pessoas daqui.
        St. Germain encarou o banqueiro, mas aps uns instantes, o nobre deu de ombros e a adaga desapareceu. St. Germain virou-se sem nenhum comentrio e comeou 
a descer as escadas, empurrando quem estivesse  sua frente e, aos berros, mandando-os ir embora.
        Apesar de suas exortaes e das de Gerard, o jovem Duverney, atrs dele, o grosso dos convidados s partiu, transbordando de escndalo, com a chegada da 
guarda do rei.
        O sr. Hawkins, j tendo a essa altura recobrado os sentidos, imediatamente apresentou uma acusao de seqestro e proxenetismo contra Jamie. Por um instante, 
eu realmente achei que Jamie fosse bater nele outra vez; seus msculos contraram-se sob o veludo azul-celeste, mas depois relaxaram quando ele pensou melhor.
        Aps uma quantidade considervel de explicaes e argumentos confusos, Jamie concordou em comparecer  sede da guarda na Bastilha, para - talvez - se explicar.
        Alex Randall, lvido, suando e obviamente sem fazer a menor idia do que estava acontecendo, tambm foi levado - o duque no esperou para ver o destino do 
seu secretrio, mas discretamente requisitou sua carruagem e partiu antes da chegada da guarda. Qualquer que fosse sua misso diplomtica, ver-se envolvido em um 
escndalo no iria ajudar nada. Mary Hawkins, ainda desacordada, foi levada para a casa do tio, enrolada em um cobertor.
        Eu estava prestes a ser includa na deteno quando Jamie recusou-se categoricamente a permitir, insistindo que eu estava numa condio delicada e no poderia 
em hiptese alguma ser levada a uma priso. Finalmente, vendo que Jamie estava mais do que disposto a comear a bater nas pessoas outra vez a fim de provar seu ponto 
de vista, o capito da guarda cedeu, sob a condio de que eu no deixasse a cidade. Embora a idia de fugir de Paris tivesse sua atrao, eu com certeza no poderia 
partir sem Jamie. Assim, dei minha parole d'honneur sem nenhuma reserva.
        Enquanto o grupo girava confusamente pelo vestbulo, acendendo lanternas e resgatando seus chapus e capas, vi Murtagh, uma expresso sombria no rosto contundido, 
pairando na periferia da multido desordenada. Obviamente, ele pretendia acompanhar Jamie, aonde quer que estivesse indo, e uma repentina sensao de alvio se apoderou 
de mim. Ao menos, meu marido no estaria sozinho.
        - No se preocupe, Sassenach. - Abraou-me rapidamente, sussurrando em meu ouvido. - Vou voltar logo. Se alguma coisa der errado... -Hesitou, depois disse 
com firmeza: - No ser necessrio, mas se precisar de uma amiga, procure Louise de La Tour.
        - Est bem. - No tive tempo para nada mais alm de um leve beijo antes de os guardas o cercarem.
        As portas da casa abriram-se de par em par e vi Jamie olhar para trs, avistar Murtagh e abrir a boca como se fosse dizer alguma coisa. Murtagh, colocando 
as mos no cinto da espada, olhou ferozmente e abriu seu caminho em direo a Jamie, quase arrastando o jovem Duverney para a rua. Uma batalha curta e silenciosa 
de vontades se seguiu, conduzida inteiramente por meio de olhares ferozes. Em seguida, Jamie deu de ombros e atirou as mos para o ar num gesto de resignao.
        Saiu para a rua, ignorando os guardas que o cercavam de todos os lados, mas parou ao ver uma pequena figura junto ao porto. Inclinou-se e disse alguma coisa, 
depois se endireitou, virou-se para a casa e me deu um sorriso, claramente visvel  luz do lampio. A seguir, com um sinal da cabea para o velho monsieur Duverney, 
entrou na carruagem que o aguardava e foi levado, com Murtagh agarrado  traseira do veculo.
        Fergus permaneceu parado na rua, olhando a carruagem se afastar, at se perder de vista. Ento, subindo as escadas com passos decididos, tomou-me pela mo 
e me conduziu para dentro.
        - Venha, milady - falou. - Milorde disse que devo cuidar da senhora at a sua volta.
        Fergus deslizou suavemente para dentro da sala, fechando a porta silenciosamente ao entrar.
        - Fiz a ronda por toda a casa, milady - sussurrou. - Tudo fechado. Apesar da preocupao, sorri diante do seu tom de voz, uma imitao to bvia de Jamie. 
Seu dolo havia lhe atribudo uma responsabilidade e ele claramente levava seus deveres a srio.
        Tendo me escoltado at a sala de estar, fora inspecionar a casa como Jamie fazia toda noite, verificando os trincos das janelas, as trancas das portas externas 
- que eu sabia que ele mal conseguiria levantar - e se em todos os foges e lareiras o fogo havia sido abafado. Ele tinha uma mancha de fuligem que se estendia da 
testa  ma do rosto de um lado, mas esfregara o olho com a mo cerrada em algum momento, de modo que seu olho piscava de um claro crculo branco, como um pequeno 
guaxinim.
        - Deveria ir descansar, milady - ele disse. - No se preocupe, eu estarei aqui.
        No ri, mas sorri para ele.
        - Eu no conseguiria dormir, Fergus. Vou ficar sentada aqui um pouco. Mas talvez voc deva ir para a cama; voc j teve uma noite muito longa. - Relutei 
em mand-lo se recolher, no querendo prejudicar sua nova dignidade como o homem da casa temporrio, mas ele estava evidentemente exausto. Os ombros pequenos e ossudos 
estavam cados e as olheiras sob seus olhos sobressaam-se, mais escuras at do que a camada de fuligem.
        Ele bocejou sem nenhum constrangimento, mas sacudiu a cabea.
        - No, milady. Vou ficar com a senhora... se a senhora no se importar - acrescentou depressa.
        - No me importo. - Na realidade, ele estava cansado demais tanto para falar quanto para ficar irrequieto como de costume e sua presena sonolenta na almofada 
era reconfortante, como a de um gato ou cachorro.
        Fiquei sentada, fitando as chamas fracas, tentando reunir um pouco de serenidade. Tentei evocar imagens de lagos serenos, clareiras na floresta, at mesmo 
a paz sombria da capela da abadia, mas nada parecia funcionar; a todas as imagens de paz sobrepunham-se as daquela noite: mos violentas, dentes brilhantes, saindo 
de uma escurido assustadora; o rosto lvido e transtornado de Mary, semelhante ao de Alex Randall; o lampejo de dio nos olhinhos midos do sr. Hawkins; a sbita 
desconfiana nos rostos do general e dos Duverney; a indisfarvel satisfao de St. Germain com o escndalo, tremeluzindo de malcia como as gotas de cristal dos 
candelabros. E por fim, o sorriso de Jamie, misto de confiana e incerteza, na luz oscilante das lanternas da carruagem.
        E se ele no voltasse? Essa era a pergunta que eu estava tentando calar, desde que o levaram. E se no conseguisse se livrar da acusao? E se o magistrado 
fosse um desses desconfiados de estrangeiros - bem, mais desconfiado do que o usual, emendei -, ele poderia facilmente ficar preso indefinidamente. Alm e acima 
do medo de que essa crise inesperada pudesse arruinar todo o cuidadoso trabalho das ltimas semanas, estava a imagem de Jamie em uma cela como aquela em que eu o 
encontrara em Wentworth. A luz da presente crise, a notcia de que Carlos Stuart estava investindo em vinho parecia trivial.
        Sozinha comigo mesma, eu tinha agora muito tempo para pensar, mas meus pensamentos no pareciam estar me levando a lugar algum. Quem ou o que era "La Dame 
Blanche"? Que espcie de "dama branca"? E por que a meno desse nome fez os atacantes fugirem?
        Repassando os acontecimentos subseqentes do jantar, lembrei-me dos comentrios do general sobre as gangues de criminosos que vagavam pelas ruas de Paris 
e como algumas delas incluam membros da nobreza. Isso era consistente com a fala e os trajes do lder dos homens que haviam atacado a mim e a Mary, embora seus 
comparsas tivessem uma aparncia bem mais grosseira. Tentei me lembrar se o sujeito me recordava algum que eu conhecesse, mas minha lembrana dele era indistinta, 
toldada pela escurido e pelo atordoamento do choque.
        Na forma geral, no era muito diferente do conde de St. Germain, embora com certeza a voz fosse outra. Entretanto, se o conde estivesse envolvido, evidentemente 
se daria ao trabalho de disfarar a voz assim como disfarou o rosto. Ao mesmo tempo, achava quase impossvel acreditar que o conde pudesse ter tomado parte num 
ataque como aquele e duas horas mais tarde sentar-se calmamente  minha frente  mesa de jantar" tomando sua sopa em pequenas colheradas.
        Corri os dedos pelos cabelos, frustrada. No havia nada a ser feito at de manh. Caso a manh chegasse e Jamie no, ento eu poderia comear a percorrer 
as casas de supostos conhecidos e supostos amigos, um dos quais poderia ter notcias ou ajuda a oferecer. Mas naquela hora da noite, eu estava de mos atadas; impossibilitada 
de me mover como uma liblula no mbar.
        Meus dedos enrolaram-se em um dos grampos de enfeite e eu o arranquei com impacincia. Enroscado nos meus cabelos, ele no se soltou.
        -Ai!
        - Deixe, milady. Eu tiro.
        Eu no o ouvira passar para trs de mim, mas senti os dedos pequenos e geis de Fergus em meus cabelos, desembaraando o pequeno ornamento. Colocou-o de 
lado e, em seguida, hesitante, perguntou:
        - Os outros tambm, milady?
        - Ah, obrigada, Fergus - eu disse, agradecida. - Se voc no se importar. Seus movimentos de batedor de carteiras eram leves e precisos, e os cachos espessos 
comearam a cair em volta do meu rosto, libertados de suas amarras. Pouco a pouco, minha respirao tornou-se mais regular, conforme meus cabelos se soltavam.
        - Est preocupada, milady? - perguntou a voz afvel e fina atrs de mim.
        - Estou - respondi, cansada demais para manter falsas aparncias.
        - Eu tambm - ele disse com simplicidade.
        O ltimo grampo tilintou sobre a mesa e eu me deixei arriar na poltrona, os olhos fechados. Ento, senti um toque de novo e percebi que ele escovava meus 
cabelos, delicadamente desfazendo os ns.
        - Permite, milady? - disse, sentindo quando contra o corpo de surpresa. - As senhoras costumavam dizer que isso as ajudava, se estivessem se sentindo preocupadas 
ou aborrecidas.
        Relaxei outra vez sob o toque tranqilizador.
        - Permito - eu disse. - Obrigada. - Aps alguns instantes, perguntei: - Que senhoras, Fergus?
        Houve um momento de hesitao, como o de uma aranha perturbada quando construa uma teia, e em seguida a delicada arrumao das mechas foi retomada.
        - No lugar onde eu costumava dormir, milady. Eu no podia sair por causa dos clientes, mas madame Elise me deixava dormir em um compartimento embaixo das 
escadas, se eu ficasse quieto. Depois que todos os homens j tinham ido embora, quase de manh, eu saa e s vezes as senhoras compartilhavam seu desjejum comigo. 
Eu as ajudava a amarrar os cadaros das roupas de baixo e elas diziam que eu era quem melhor fazia isso - acrescentou, com certo orgulho. - Depois, eu penteava seus 
cabelos, se elas quisessem.
        - Hum. - O suave sussurro da escova pelos meus cabelos era hipntico. Sem o relgio sobre o consolo da lareira, no havia marcao de horas, mas o silncio 
na rua significava que j era realmente muito tarde.
        - Como  que voc foi parar na casa de madame Elise, Fergus? - perguntei, mal reprimindo um bocejo.
        - Eu nasci l, milady - ele respondeu. Os movimentos da escova tornavam-se cada vez mais lentos e sua voz mais arrastada. - Eu costumava me perguntar qual 
delas era minha me, mas nunca descobri.
        O barulho da porta da sala de estar abrindo acordou-me. Jamie estava ali parado, os olhos injetados e o rosto lvido de cansao, mas sorrindo  primeira 
luz cinza da manh.
        - Tive medo de que voc no voltasse - eu disse, instantes depois, o rosto junto ao topo de sua cabea. Seus cabelos tinham o leve cheiro cido e passado 
de fumaa e sebo de velas, o casaco completara sua queda ao total descrdito, mas ele estava quente e slido e eu no estava disposta a ser crtica a respeito do 
cheiro da cabea que eu embalava junto ao peito.
        - Eu tambm - ele disse, a voz um pouco abafada, e pude sentir seu sorriso. Os braos ao redor de minha cintura apertaram e relaxaram, e ele sentou-se direito, 
afastando meus cabelos dos olhos.
        - Meu Deus, voc  to bonita - disse ternamente. - Despenteada e sem dormir, com os cachos dos cabelos caindo no rosto. Meu belo amor. Voc ficou sentada 
aqui a noite toda?
        - No fui a nica. - Fiz um gesto para o cho, onde Fergus dormia enrascado em cima do tapete, a cabea descansando em uma almofada junto aos meus ps. Remexeu-se 
em seu sono, a boca um pouco aberta, a pele rosada e os lbios cheios como o beb que ele quase era.
        Jamie colocou a mo suavemente sobre seu ombro.
        - Vamos, rapaz. Voc fez muito bem em tomar conta de sua patroa. -Pegou o menino no colo e encostou-o no ombro, resmungando e com os olhos sonolentos. - 
Voc  um bom homem, Fergus, e mereceu seu descanso. Vou lev-lo para sua cama. - Vi os olhos de Fergus arregalarem-se de surpresa e em seguida semicerrarem-se quando 
relaxou, balanando a cabea nos braos de Jamie.
        Eu j abrira as persianas e atiara o fogo quando Jamie retornou  sala de estar. Tirara o casaco arruinado, mas ainda usava o que restara dos finos trajes 
da noite.
        - Tome. - Entreguei-lhe um copo de vinho e ele bebeu-o de p, em trs goles, estremeceu, depois desmoronou no pequeno sof, estendendo o copo para mim.
        - Nem mais uma gota - eu disse - at que me conte o que est acontecendo. Voc no est na priso, ento imagino que tudo esteja bem, mas...
        - No est nada bem, Sassenach - ele interrompeu -, mas poderia estar pior.
        Depois de muita discusso - a maior parte sendo as reiteraes do sr. Hawkins de suas impresses originais -, o juiz-magistrado que fora retirado s pressas 
de sua cama aconchegante para presidir esta investigao improvisada decretou irritadamente que, j que Alex Randall era um dos acusados, ele no poderia ser considerado 
uma testemunha imparcial. Nem eu, como mulher e possvel cmplice do outro acusado. Murtagh ficara, segundo seu prprio testemunho, inconsciente durante o alegado 
ataque e a criana Claudel no era legalmente capaz de prestar depoimento.
        Obviamente, dissera monsieur lejuge, lanando um olhar furibundo ao capito da guarda, a nica pessoa capaz de fornecer a verdade da questo era Mary Hawkins, 
que estava, segundo todas as opinies, incapaz de faz-lo no momento. Portanto, todos os acusados deviam ser trancafiados na Bastilha at que mademoiselle Hawkins 
pudesse ser interrogada e certamente monsieur le capitaine poderia ter visto isso por si mesmo, no?
        - Ento, por que no esto trancados na Bastilha? - perguntei.
        - Monsieur Duverney, o pai, ofereceu-se para pagar minha fiana - Jamie respondeu, puxando-me para o sof, ao lado dele. - Ele ficou sentado, encolhido no 
canto como um ourio, durante toda a conversa fiada. Depois, quando o juiz tomou sua deciso, levantou-se e disse que, tendo tido a oportunidade de jogar xadrez 
comigo em vrias ocasies, no achava que eu tivesse um carter moral to dissoluto que pudesse ter conspirado para a perpetrao de um ato to depravado. - Parou 
e encolheu os ombros.
        - Bem, voc sabe como ele fala quando comea. A idia geral era a de que um homem que podia derrot-lo no xadrez seis vezes em sete no iria atrair jovens 
inocentes  sua casa para serem violadas.
        - Muito lgico - eu disse secamente. - O que ele de fato quis dizer, imagino,  que se o trancafiassem, voc no poderia mais jogar com ele.
        - Acho que sim - concordou. Espreguiou-se, bocejou e pestanejou para mim, sorrindo.
        - Mas estou em casa e, no momento, no me importo muito com a razo. Venha at aqui, Sassenach. - Segurando minha cintura com as duas mos, sentou-me no 
seu colo, passou os braos  minha volta e suspirou de prazer.
        - Tudo que quero fazer - murmurou em meu ouvido -  tirar essas roupas imundas e deitar-me a seu lado no tapete junto  lareira, dormir logo em seguida, 
com a cabea em seu ombro e ficar assim at amanh.
        - Um pouco inconveniente para os criados - observei. - Vo ter que varrer ao nosso redor.
        - Que se danem os criados - ele disse,  vontade. - Para que servem as portas?
        - Para baterem, evidentemente - eu disse, quando uma batida leve soou do lado de fora.
        Jamie parou por um instante, o nariz enterrado em meus cabelos, depois suspirou e ergueu a cabea, deslizando-me de seu colo para cima do sof.
        - Trinta segundos - prometeu-me em voz baixa. Em seguida, disse, em voz mais alta: - Entre!
        A porta abriu-se, e Murtagh entrou. Eu no prestara ateno em Murtagh em meio aos arrufos e confuses da noite anterior e agora pensei comigo mesma que 
sua aparncia no melhorara em nada.
        A falta de sono era to visvel quanto em Jamie; o nico olho aberto estava injetado e com olheiras. O outro escurecera, adquirindo a cor de uma banana podre, 
uma fenda de negro reluzente na pele inchada. O galo em sua testa agora atingira o apogeu; um ovo de ganso, roxo, logo acima da sobrancelha, com um corte feio nele.
        O pequeno escocs mal dissera uma palavra desde que fora libertado do saco na noite anterior. Fora uma curta investigao sobre o paradeiro de suas armas 
- recolhidas por Fergus que, numa busca  sua maneira de um cozinho rat-terrier, encontrara tanto a adaga quanto a sgian dhu atrs de um monte de lixo -, mantivera 
um silncio sombrio durante todas as exigncias de nossa fuga, guardando a retaguarda enquanto corramos a p pelas vielas escuras de Paris. E assim que chegamos 
em casa, um olhar penetrante de seu olho em funcionamento fora suficiente para reprimir qualquer pergunta indesejvel dos criados da cozinha.
        Imagino que ele tenha dito alguma coisa no cornmissariat de police, ainda que apenas para testemunhar a favor do bom carter de seu patro - embora eu me 
perguntasse quanta credibilidade eu atribuiria a Murtagh, se eu fosse um juiz francs. Mas agora ele estava silencioso como as grgulas da Notre Dame, com as quais 
ele tinha grande semelhana.
        No entanto, embora sua aparncia fosse deplorvel, nunca parecia faltar dignidade a Murtagh, como agora. As costas empertigadas como uma vara, ele avanou 
pelo carpete e ajoelhou-se formalmente diante de Jamie, que olhava atnito para aquele comportamento.
        O magro e musculoso homenzinho tirou a adaga do cinto, sem floreios, mas com uma boa dose de deliberao, e estendeu-a para Jamie, o cabo primeiro. O rosto 
ossudo, sulcado, estava sem expresso, mas o olho roxo descansava resolutamente sobre o rosto de Jamie.
        - Eu o desapontei - disse o homenzinho tranqilamente. - E eu lhe peo, como meu senhor, que tire minha vida agora, para que eu no tenha que continuar vivendo 
com essa vergonha.
        Jamie aprumou-se devagar e eu senti que afastava seu prprio cansao ao fitar seu servidor. Permaneceu absolutamente imvel por um instante, as mos pousadas 
nos joelhos. Em seguida, estendeu o brao e colocou uma das mos suavemente sobre o galo roxo na cabea de Murtagh.
        - No h nenhuma vergonha em cair durante uma batalha, mo caraidh - disse em voz baixa. - O maior dos guerreiros pode ser vencido.
        Mas o homenzinho sacudiu a cabea teimosamente, o olho roxo sem piscar.
        - No - disse. - No ca durante uma batalha. Voc depositou sua confiana em mim; para tomar conta de sua prpria senhora e de seu filho ainda no nascido, 
alm da jovem inglesa. E eu dei  tarefa to pouca ateno que no tive nenhuma chance de revidar um golpe quando o perigo surgiu. Para dizer a verdade, nem vi a 
mo que me derrubou. - Nesse momento, ele realmente piscou, uma nica vez.
        - A traio... -Jamie comeou.
        - E agora veja o resultado - Murtagh interrompeu. Eu nunca o ouvira falar tantas palavras em seqncia em todo o tempo em que o conheci.
        - A sua reputao manchada, sua mulher atacada e a menina... - A linha fina de sua boca apertou-se por um instante e sua garganta fibrosa meneou-se quando 
ele engoliu em seco. - S por ela, a mais profunda tristeza me sufoca.
        - Sim -Jamie disse em voz baixa, balanando a cabea. - Sim, eu sei, companheiro. Eu tambm me sinto assim. - Tocou o peito por um instante, sobre o corao. 
Os dois homens pareciam sozinhos ali, as cabeas a poucos centmetros de distncia quando Jamie inclinou-se em direo a Murtagh. Com as mos cruzadas no colo, no 
me movi nem falei; no era assunto meu.
        - Mas eu no sou seu senhor, companheiro - Jamie continuou, em tom mais firme. - Voc no me fez nenhum juramento e eu no tenho nenhum poder sobre voc.
        - Sim, tem. - A voz de Murtagh tambm era firme e o cabo da adaga no tremeu nem uma vez.
        - Mas...
        - Eu lhe fiz um juramento, Jamie Fraser, quando voc no tinha mais do que uma semana e era um belo menino no colo de sua me.
        Pude sentir o nfimo incio de perplexidade quando os olhos de Jamie se arregalaram.
        - Eu me ajoelhei aos ps de Ellen como me ajoelho agora aos seus ps
        - o pequeno escocs continuou, o queixo fino empinado. - E jurei a ela, em nome do Pai, do Filho e do Esprito Santo, que sempre o seguiria, para estar a 
seu servio e vigiar sua retaguarda, quando se tornasse um homem e precisasse desses servios. - A voz rouca amenizou-se e a plpebra desceu sobre o olho cansado.
        - Sim, rapaz. Eu me importo com voc como se fosse meu prprio filho. Mas eu o decepcionei.
        - Isso voc no fez e jamais poderia fazer. - As mos de Jamie descansaram nos ombros de Murtagh, apertando-os com firmeza. - No, eu no vou tirar sua vida, 
porque eu ainda preciso muito de voc. Mas vou exigir que faa um juramento e que seja fiel a ele.
        Houve um longo momento de hesitao e a cabea de cabelos negros e espetados balanou imperceptivelmente.
        A voz de Jamie abaixou-se ainda mais, mas no era um sussurro. Mantendo os trs dedos mdios de sua mo direita estendidos, colocou-os sobre o punho da adaga, 
na juno do cabo com a haste.
        - Eu o encarrego, ento, por seu juramento a mim e sua palavra  minha me: encontre os homens. Cace-os e, quando encontr-los, eu o encarrego de vingar 
a honra de minha mulher e o sangue da virtude de Mary.
        Parou por um instante, depois tirou a mo da arma. Murtagh ergueu-a, segurando-a em p, pela lmina. Percebendo minha presena pela primeira vez, saudou-me 
com um movimento da cabea e disse:
        - Como o senhor de Broch Tuarach falou, senhora, eu o farei. Colocarei a vingana a seus ps.
        Umedeci meus lbios ressecados, sem saber o que dizer. No entanto, nenhuma resposta parecia necessria. Levou a adaga aos lbios e beijou-a, depois empertigou-se 
com deciso e enfiou-a na bainha.
        
        
        
20 - LA DAME BLANCHE
        
        O alvorecer se transformara em dia claro quando acabamos de nos vestir e o desjejum j estava sendo trazido da cozinha pelas escadas.
        - O que eu quero saber - eu disse, servindo o chocolate -  quem afinal  La Dame Blanche?
        - La Dame Blanche? - Magnus, inclinando-se por cima do meu ombro com uma cestinha de pes quentes, sobressaltou-se de tal forma que um pozinho caiu da cesta. 
Peguei-o com preciso e virei-me para olhar para o mordomo, que parecia um pouco abalado.
        - Sim, isso mesmo - eu disse. -J ouviu falar dessa expresso, Magnus?
        - Ora, sim, milady - o velho criado respondeu. - La Dame Blanche  une sorcire.
        - Uma feiticeira? - perguntei, incrdula.
        Magnus deu de ombros, ajeitando o guardanapo em volta dos pezinhos com cuidado excessivo para no olhar direto para mim.
        - A senhora branca - ele murmurou. -  chamada de bruxa, feiticeira. E no entanto ela pode ver o mago de um homem e pode transformar sua alma em cinzas, 
se encontrar ali algum mal. - Sacudiu a cabea de leve, virou-se e saiu apressado arrastando os ps em direo  cozinha. Vi seu cotovelo mexer-se e compreendi que 
ele estava fazendo o sinal-da-cruz enquanto se afastava.
        - Minha Nossa Senhora - eu disse, virando-me para Jamie. - Voc ja tinha ouvido falar em La Dame Blanche?
        - Hein? Ah, oh, sim. Eu... ouvi algumas histrias. - Os olhos de Jamie esconderam-se atrs de longas pestanas ruivas enquanto ele enterrava o nariz na xcara 
de chocolate, mas o rubor em suas faces era forte demais para ser atribudo ao calor do vapor que a bebida desprendia.
        Reclinei-me na minha cadeira, cruzei os braos e olhei para ele com os olhos apertados.
        - Ah, j ouviu falar, hein? - eu disse. - Voc ficaria surpreso em saber que os homens que nos atacaram ontem  noite referiram-se a mim como La Dame Blanche?
        -  mesmo? - Ergueu os olhos rapidamente diante disso, surpreso.
        - Viram-me de repente sob a luz, gritaram La Dame Blanche e em seguida saram correndo como se eu tivesse a peste.
        Jamie respirou fundo e deixou o ar escapar lentamente. A cor vermelha estava esmaecendo de seu rosto, deixando-o plido como o prato de porcelana branca 
diante dele.
        - Deus do cu! - exclamou, em parte para si mesmo. - Deus... do... cu!
        Inclinei-me sobre a mesa e peguei a xcara de sua mo.
        - Poderia me dizer exatamente o que voc sabe sobre La Dame Blanche? - sugeri amavelmente.
        - Bem... - hesitou, depois me olhou timidamente. -  s que... eu disse a Glengarry que voc era La Dame Blanche.
        - Voc disse a Glengarry o qu? - Engasguei-me com um pedao de po. Jamie deu uns tapinhas nas minhas costas para me ajudar.
        - Bem, foi por causa de Glengarry e Castellotti - disse, defensivamente. - Quero dizer, jogar cartas e dados  uma coisa, mas eles no pararam por a. E 
acharam muito engraado que eu quisesse ser fiel  minha mulher. Disseram... bem, disseram vrias coisas e eu... eu fiquei cansado daquilo. - Desviou o olhar, as 
pontas das orelhas ardendo.
        - Hum - eu disse, tomando um gole de ch. Tendo ouvido a lngua de Castellotti em ao, podia imaginar o tipo de brincadeiras impiedosas que Jamie sofrer.
        Ele esvaziou a prpria xcara de um gole s, depois se ocupou em ench-la novamente com toda a ateno, mantendo os olhos fixos no bule para evitar os meus. 
- Mas eu tambm no podia simplesmente me levantar e ir embora, no  mesmo? - perguntou. - Tinha que permanecer com Sua Alteza durante a noite toda e no seria 
nada bom que ele ficasse achando que eu era um maricas.
        - Ento, voc lhes disse que eu era La Dame Blanche - eu disse, tentando com todas as foras manter minha voz livre de qualquer indcio de risada. - E se 
voc se metesse a engraadinho com mulheres naquela noite, eu dessecaria suas partes privadas.
        - H, bem...
        - Meu Deus, eles acreditaram? - Podia sentir meu prprio rosto ficando to quente e vermelho quanto o de Jamie, com o esforo para conseguir me controlar.
        - Eu fui muito convincente - ele disse, um dos cantos da boca comeando a se contorcer. - Fiz todos eles jurarem segredo pela vida de suas mes.
        - E quanto vocs tinham bebido antes disso?
        Desisti do esforo e explodi numa gargalhada.
        - Ah, Jamie - eu disse. - Querido! - Inclinei-me sobre a mesa e beijei sua bochecha furiosamente vermelha.
        - Bem - ele disse, sem jeito, passando manteiga num pedao de po. -No consegui pensar em nada melhor. E eles de fato pararam de atirar prostitutas nos 
meus braos.
        - timo - eu disse. Peguei o pedao de po de sua mo, acrescentei mel e o devolvi a ele.
        - No tenho do que me queixar - observei. -J que alm de proteger sua virtude, parece que isso impediu que eu fosse estuprada.
        - Graas a Deus. - Largou o po sobre a mesa e agarrou minha mo. - Meu Deus, se alguma coisa tivesse lhe acontecido, Sassenach, eu...
        - Sim - eu o interrompi -, mas se os homens que nos atacaram sabiam que eu deveria ser La Dame Blanche...
        - Sim, Sassenach. - Balanou a cabea para mim. - No pode ter sido nem Glengarry nem Castellotti, pois estavam comigo na casa onde Fergus foi me buscar 
quando vocs foram atacados. Mas deve ter sido algum a quem eles contaram a histria.
        No pude reprimir um ligeiro estremecimento  lembrana da mscara branca e da voz zombeteira por trs.
        Com um suspiro, ele soltou minha mo.
        - O que significa, suponho, que  melhor eu fazer uma visita a Glengarry e descobrir exatamente a quantas pessoas ele anda contando as histrias da minha 
vida de casado. - Passou a mo pelos cabelos, exasperado. - E depois devo visitar Sua Alteza e descobrir o que ele pretende com esse arranjo com o conde de St. Germain.
        - Suponho que sim - eu disse pensativamente -, embora conhecendo Glengarry, ele provavelmente j contou para metade de Paris a essa altura. Eu mesma tenho 
algumas visitas a fazer esta tarde.
        - Ah, ? E quem voc vai visitar, Sassenach? - ele perguntou, olhando-me atentamente. Respirei fundo, preparando-me para a provao que me aguardava.
        - Primeiro, mestre Raymond. Depois, Mary Hawkins.
        - Lavanda, talvez? - Raymond ficou na ponta dos ps para pegar uma botija da prateleira. - No para aplicar, mas o aroma  tranqilizante; acalma os nervos.
        - Bem, isso depende dos nervos de quem estamos falando - eu disse, lembrando-me da reao de Jamie ao cheiro de lavanda. Era o perfume qualquer coisa, exceto 
calmante. - Neste caso, entretanto, deve ajudar. Mal no faz, de qualquer forma.
        - Mal no faz - ele repetiu pensativamente. - Um princpio muito sensato.
        - Essa  a primeira parte do Juramento de Hipcrates, sabe - eu disse, observando-o enquanto remexia em suas gavetas e caixas. - O juramento que um mdico 
faz. "Em primeiro lugar, no fazer nenhum mal."
        - Ah, ? E a senhora mesma fez esse juramento, madona? - Os olhos brilhantes de anfbio piscaram para mim acima da beira do balco alto.
        Eu me vi ruborizando sob aquele olhar penetrante.
        - H, bem, no. Na verdade, no. No sou realmente uma mdica. Ainda no. - Eu no saberia explicar o que me fez acrescentar essa ltima informao.
        - No? Entretanto, est buscando consertar aquilo que um "verdadeiro" mdico jamais tentaria, sabendo que a virgindade perdida no  recupervel. - Sua ironia 
era evidente.
        - Ah, no ? - respondi secamente. Fergus havia me contado, com um pouco de encorajamento de minha parte, muita coisa sobre as "senhoras" na casa de madame 
Elise. - E quanto a essa histria de uma bexiga de leitozinho cheia de sangue de galinha, hein? Ou vai alegar que coisas como essa esto no mbito da competncia 
de um boticrio, mas no no de um mdico?
        Ele no possua sobrancelha, mas a testa espessa erguia-se ligeiramente quando ele estava se divertindo.
        - E quem  prejudicado com isso, madona? Certamente no o vendedor. Nem o comprador, tampouco.  provvel que ele obtenha mais prazer pelo seu dinheiro do 
que o comprador do artigo genuno. Nem mesmo o hmen  prejudicado! Sem dvida, um esforo muito moral e hipocrtico, que qualquer mdico ter prazer em ajudar, 
no acha?
        Eu ri.
        - E tenho a impresso de que voc conhece mais de um que o faz? -eu disse. - Vou levar a questo  prxima reunio do Conselho de Medicina. Enquanto isso, 
na falta de milagres manufaturados, o que podemos fazer no presente caso?
        - Humm. - Abriu um quadrado de gaze sobre o balco e despejou um punhado de folhas secas finamente modas no centro. Um cheiro forte, penetrante e agradvel, 
elevou-se do montculo verde-acinzentado.
        - Isso  confrei sarraceno - ele disse, dobrando a gaze com habilidade em um minsculo quadrado com as pontas enfiadas para dentro. - Bom para acalmar peles 
irritadas, pequenas laceraes e partes privadas machucadas.
        - Sim, de fato - eu disse, um pouco asperamente. - Como infuso ou decoco?
        - Infuso. Morna, provavelmente, nas circunstncias. - Voltou-se para outra prateleira e retirou uma das grandes botijas brancas de porcelana pintada. Nessa, 
estava escrito CHELIDONIUM.
        - Para induo do sono - explicou. Sua boca sem lbios esticou-se nos cantos. - Acho que talvez seja melhor evitar o uso dos derivados do pio de papoula; 
esta paciente em particular parece ter uma reao imprevisvel a essa substncia.
        - J soube do que aconteceu, no? - eu disse, resignadamente. Eu no podia esperar que fosse diferente. Eu sabia muito bem que a informao era uma das mercadorias 
mais preciosas que ele vendia; em conseqncia, a pequena loja era um nexo para mexericos de dezenas de fontes, de vendedores ambulantes a cavalheiros da Alcova 
Real.
        - De trs fontes diferentes - Raymond explicou. Olhou para fora da janela, esticando o pescoo para ver o enorme horloge pendurado na parede do prdio perto 
da esquina. - E ainda nem so duas horas. Acredito que ainda vou ouvir vrias outras verses dos acontecimentos antes do pr-do-sol. - A boca larga, desdentada, 
abriu-se com uma risadinha. - Gostei particularmente da verso de que seu marido desafiou o general d'Arbanville para um duelo na rua, enquanto voc, de modo mais 
pragmtico, ofereceu a monsieur le comte o desfrute do corpo inconsciente da jovem, se ele desistisse de chamar a guarda real.
        - Mmuhm - eu disse, soando conscientemente como uma escocesa. - Tem algum interesse em particular em saber o que realmente aconteceu?
        O tnico de Glaucium flavum, de uma cor mbar clara  luz do sol da tarde, cintilava ao ser despejado em um pequeno frasco.
        - A verdade  sempre til, madona - ele respondeu, os olhos fixos no delgado fio lquido. - Tem o valor de uma raridade, sabia? - Colocou a botija de porcelana 
sobre o balco com um pequeno baque. - Assim, vale um bom preo em troca - acrescentou.
        O dinheiro para os remdios que eu comprara estava em cima do balco, as moedas brilhando ao sol. Estreitei os olhos em sua direo, mas ele apenas sorriu 
docemente, como se nunca tivesse ouvido falar de pernas de r na manteiga de alho.
        O horloge l fora bateu as duas horas. Calculei a distncia at a casa dos Hawkins na rue Malory. No mais do que meia hora, se eu conseguisse uma carruagem. 
Tempo de sobra.
        - Nesse caso - eu disse -, podemos passar ao seu aposento particular por um instante?
        - E foi isso que aconteceu - eu disse, tomando um longo gole de conhaque. Os vapores na sala de trabalho eram quase to fortes quanto os que emanavam do 
meu copo e eu podia sentir minha cabea expandindo-se sob sua influncia, mais ou menos como um grande e alegre balo vermelho. - No prenderam Jamie, mas ainda 
estamos sob suspeita. Imagino que isso no dure muito, no acha?
        Raymond sacudiu a cabea. Uma corrente de ar agitou o crocodilo acima de nossas cabeas e ele levantou-se para fechar a janela.
        - No. S um aborrecimento, nada mais. Monsieur Hawkins tem dinheiro e amigos, e obviamente ele est transtornado, mas ainda assim. Obviamente a senhora 
e seu marido no so culpados de nada alm de excesso de bondade, ao tentar manter em segredo a infelicidade da jovem. - Tomou um grande gole de seu prprio copo. 
- E essa  sua principal preocupao no momento,  claro. A jovem?
        Balancei a cabea.
        - Uma das preocupaes. No h nada que eu possa fazer a respeito de sua reputao a essa altura. Tudo que posso fazer  tentar ajud-la a se recuperar.
        Um olho preto irnico espreitou por cima da taa de metal que ele segurava.
        - A maioria dos mdicos que conheo diria: "Tudo que posso fazer  ajud-la a se recuperar." Vai ajud-la a se recuperar?  interessante que perceba a diferena. 
Achei que perceberia.
        Coloquei o copo sobre a mesa, sentindo que j bebera o suficiente. O calor irradiava de minhas faces e eu tinha a ntida sensao de que a ponta do meu nariz 
estava vermelha.
        - J lhe disse que no sou uma mdica de verdade. - Cerrei os olhos por um momento, resolvi que ainda no veria tudo de cabea para baixo e os abri novamente. 
- Alm do mais, eu... h, j lidei com um caso de estupro antes. No h muito que possa ser feito, externamente. Talvez apenas no haja muito que possa ser feito 
e ponto final - acrescentei. Mudei de idia e peguei meu copo outra vez.
        - Talvez no - Raymond concordou. - Mas se algum  capaz de alcanar o mago do paciente, certamente esse algum seria La Dame Blanche.
        Devolvi o copo  mesa, olhando-o perplexa. Minha boca estava inconvenientemente aberta e eu a fechei. Pensamentos, suspeitas e conclunhados de conjecturas. 
Para fugir desse trfego temporariamente, agarrei-me  outra ponta do seu comentrio, a fim de ganhar tempo para pensar.
        - mago do paciente?
        Ele enfiou a mo em uma jarra aberta sobre a mesa, retirou dali uma pitada de um p branco e colocou-o na taa. A cor mbar do conhaqn imediatamente tornou-se 
da cor de sangue e comeou a ferver.
        - Sangue do drago - ele observou, indicando naturalmente o lquido borbulhante. - S funciona num vasilhame recoberto de prata. Estraga a vasilha,  claro, 
mas  extremamente eficaz, nas circunstncias adequadas
        Fiz um rudo baixo, gorgolejante.
        - Ah, o mago do paciente - ele disse, como se tivesse se recordado de algo de que havamos falado h muitos dias. - Sim, claro. Toda cura  feita essencialmente 
alcanando-se... como podemos denominar isso? A alma? A essncia? Digamos, o mago. Atingindo-se o mago do paciente, do qual ele prprio pode se curar. Certamente, 
j viu isso, madona. Os casos to graves, pessoas to doentes, que obviamente morreriam, mas no morrem. Ou aqueles que sofrem de algo to simples que certamente 
deveriam se recuperar, com o cuidado adequado. Mas eles escapolem, apesar de tudo que se faa por eles.
        - Todos que se ocupam de doentes j viram casos assim - respondi cautelosamente.
        - Sim - ele concordou. - E o orgulho do mdico sendo o que , em geral ele culpa a si mesmo pelos que morrem e se felicita pelo triunfo de sua habilidade 
pelos que vivem. Mas La Dame Blanche v a essncia de um homem e transforma isso em cura... ou em morte. Assim, um malfeitor teme com razo encar-la. - Pegou a 
taa, ergueu-a num brinde a mim e tomou todo o lquido borbulhante. A bebida deixou uma mancha ligeiramente rsea em seus lbios.
        - Obrigada - agradeci, secamente. - Acho que sim. Ento, no foi apenas a credulidade de Glengarry?
        Raymond deu de ombros, satisfeito consigo mesmo.
        - A inspirao foi de seu marido - ele disse modestamente. - E na verdade uma excelente idia. Mas,  claro, embora seu marido tenha o respeito dos homens 
por seus prprios dons naturais, ele no seria considerado uma autoridade em manifestaes sobrenaturais.
        - Voc,  claro, seria.
        Os ombros pesados ergueram-se ligeiramente sob o robe de veludo cinza. Havia diversos buracos pequenos em uma das mangas, chamuscados nas bordas, como se 
vrios pedacinhos de brasa a tivessem queimado-
        - Voc tem sido vista em minha loja - ele ressaltou. - Seu passado  mistrio. Como seu marido observou, minha prpria reputao  um pouco suspeita. Eu 
realmente transito em determinados... crculos, digamos assim - a boca desprovida de lbios abriu-se num sorriso -, onde uma especulao quanto  sua verdadeira 
identidade pode ser levada com excessiva seriedade. E sabe como as pessoas falam... - acrescentou com um ar de desaprovao to cndido que me fez desatar numa risada. 
Ele colocou a taa sobre a mesa e inclinou-se para frente.
        - Disse que a sade de mademoiselle Hawlkins era uma de suas preocupaes. Tem outras?
        - Tenho. - Tomei um pequeno gole de conhaque. - Imagino que oua falar de tudo que acontece em Paris, no ?
        Ele sorriu, os olhos negros penetrantes e cordiais.
        - Ah, sim, madona. O que quer saber?
        - Ouviu alguma coisa sobre Carlos Stuart? Sabe quem ele , por falar nisso?
        Isso o surpreendeu; ergueu ligeiramente a testa. Em seguida, pegou uma pequena garrafa de vidro da mesa  sua frente, rolando-a pensativa-mente entre as 
palmas das mos.
        - Sim - ele disse. - O pai dele , ou deveria ser, o rei da Esccia, no ?
        - Bem, isso depende de sua perspectiva - eu disse, reprimindo um pequeno arroto. - Ele  o rei da Esccia no exlio ou o pretendente ao trono, mas isso no 
me preocupa. O que eu quero saber ... Carlos Stuart est fazendo alguma coisa que pudesse levar uma pessoa a pensar que ele esteja planejando uma invaso armada 
da Esccia ou da Inglaterra?
        Ele soltou uma sonora gargalhada.
        - Santo Deus, a senhora  uma mulher muito incomum. Faz alguma idia de como essa franqueza  rara?
        - Sim - admiti -, mas no h nada que eu realmente possa fazer. No sou boa em ficar dando voltas. - Estendi o brao e peguei a garrafa dele. - afinal, j 
ouviu alguma coisa?
        Ele olhou instintivamente para a meia-porta, mas a balconista estava Ocupada em misturar perfumes para uma cliente loquaz.
        - Pouca coisa, apenas uma meno informal em uma carta de um amigo. Mas a resposta  sem sombra de dvida sim.
        Pude ver que hesitava em definir o quanto devia me contar. Mantive Os olhos na garrafa em minhas mos, para lhe dar tempo de decidir. O contedo da garrafa 
rolava com uma agradvel sensao conforme o Pequeno frasco revirava nas minhas palmas. Era estranhamente pesada para seu tamanho e dava uma sensao fluida, estranha 
e densa ao tato, como se...
        -  mercrio - disse mestre Raymond, respondendo  minha pergunta no formulada. Aparentemente, qualquer que tenha sido a leitura de mente que andara fazendo, 
ele decidira a meu favor, pois pegou a garrafa de volta, despejou-a numa cintilante poa prateada sobre a mesa diante de ns e recostou-se na cadeira para me contar 
o que sabia.
        - Um dos agentes de Sua Alteza andou fazendo indagaes na Holanda - ele disse. - Um homem chamado O'Brien, um inepto em todos os sentidos. Como pode um 
agente secreto que bebe demais?
        - Todos ao redor de Carlos Stuart bebem demais - eu disse. - O que O'Brien estava fazendo?
        - Ele queria negociar um carregamento de espadas de folha larga. Duas mil espadas, a serem compradas na Espanha e enviadas atravs da Holanda, de modo a 
ocultar o lugar de origem.
        - Por que ele faria isso? - perguntei. No sabia ao certo se eu era naturalmente tola ou estava meramente bbada de conhaque, mas me parecia uma misso sem 
sentido, at mesmo para Carlos Stuart.
        Raymond deu de ombros, empurrando a poa de mercrio com o dedo indicador rombudo.
        - Pode-se apenas imaginar, madona. O rei espanhol  primo do rei da Esccia, no ? Assim como do nosso bom rei Lus, certo?
        - Sim, mas...
        - Pode ser que ele esteja disposto a ajudar a causa dos Stuart, mas no abertamente, certo?
        A nvoa do conhaque comeava a retirar-se de meu crebro.
        - Pode ser.
        Raymond bateu o dedo bruscamente para baixo, fazendo a poa de mercrio estremecer e dividir-se em vrios e pequenos glbulos redondos, que danavam loucamente 
sobre o tampo da mesa.
        - Ouve-se dizer por a - ele disse suavemente, os olhos ainda pregados nas gotculas de mercrio - que o rei Lus acolhe um duque ingls em Versalhes. Ouve-se 
dizer tambm que o duque est l em busca de alguns acordos de comrcio. Mas, por outro lado,  raro ouvir tudo, madona.
        Olhei fixamente para as ondulantes gotas de mercrio, encaixando todas aquelas informaes. Jamie, tambm, ouvira o boato de que a misso de Sandringham 
dizia respeito a mais do que acordos de comrcio. E se a visita do duque na verdade tivesse a ver com as possibilidades de um acordo entre Frana e Inglaterra, talvez 
com relao ao futuro de Bruxelas? E se Lus estivesse negociando secretamente com a Inglaterra para obter apoio para a invaso de Bruxelas, o que Filipe de Espanha 
estaria inclinado a fazer se abordado por um primo pobre com o poder de desviar os ingleses completamente de qualquer ateno a empreendimentos arriscados no estrangeiro?
        - Trs primos Bourbon - Raymond murmurou consigo mesmo. Comeou a empurrar uma gotcula em direo  outra; conforme as gotculas se tocavam, fundiam-se, 
criando uma nica gota brilhante, como um passe de mgica. Seu dedo continuou a empurrar cada gotcula e a gota nica foi crescendo. - Um s sangue. Mas um s interesse?
        Seu dedo golpeou para baixo outra vez e fragmentos brilhantes espalharam-se pela mesa em todas as direes.
        - Acho que no, milady - Raymond disse calmamente.
        - Sei - eu disse, com um profundo suspiro. - E o que acha da nova parceria de Carlos Stuart com o conde de St. Germain?
        O largo sorriso de anfbio tornou-se ainda maior.
        - Ouvi dizer que Sua Alteza tem ido freqentemente s docas nos ltimos tempos, para conversar com seu novo scio,  claro. E ele olha os navios ancorados, 
to esguios e velozes, to... caros. A Esccia, de fato, fica do outro lado da gua, no ?
        - Sim, de fato - eu disse. Um raio de luz atingiu o mercrio com um claro, atraindo minha ateno para o sol cada vez mais baixo no horizonte. Eu precisava 
ir embora.
        - Obrigada - eu disse. - Voc me avisa se souber de alguma coisa? Ele inclinou a cabea macia graciosamente, os cabelos oscilantes da cor do mercrio ao 
sol, em seguida ergueu-a bruscamente.
        - Ah! No toque no mercrio, madona! - avisou-me quando estendi a mo para uma gota que rolara na direo da ponta da mesa onde eu estava. - Associa-se imediatamente 
a qualquer metal em que se encoste. - Estendeu o brao e com cuidado empurrou a minscula pelota em sua direo. - No vai querer estragar seus lindos anis.
        - Est bem - eu disse. - Bem, admito que voc tem sido til at agora. Ningum tentou me envenenar ultimamente. No creio que voc e Jamie vo mandar me 
queimar por bruxaria na praa da Bastilha, no ? - Falei descontraidamente, mas minhas lembranas do buraco dos ladres e do julgamento em Cranesmuir ainda estavam 
vvidas.
        - Seguramente que no - ele disse, dignamente. - Ningum foi queimado por bruxaria em Paris em... ah, vinte anos, pelo menos. Est perfeitamente a salvo. 
Desde que no mate ningum - acrescentou.
        - Farei todo o possvel - eu disse, levantando-me para ir embora.
        Fergus encontrou uma carruagem para mim sem maiores dificuldades e passei a curta viagem at a casa dos Hawkins meditando sobre os ltimos desdobramentos. 
Achei que Raymond havia realmente me prestado um servio ao espalhar a incrvel histria original de Jamie a seus clientes mais supersticiosos, embora a idia de 
ter meu nome associado a sesses espritas ou missas negras me deixasse com uma certa apreenso.
        Tambm me ocorreu que, pressionada pelo tempo e acossada por especulaes de reis, espadas e navios, no tive tempo de perguntar ao mestre Raymond onde o 
conde de St. Germain entrava em sua prpria esfera de influncia - se, de fato, entrava em algum lugar.
        A opinio pblica parecia colocar o conde firmemente no centro dosl misteriosos "crculos" aos quais Raymond se referira. Mas como participante - ou como 
adversrio? E as ondulaes desses crculos se espalhariam at o quarto do rei? Dizia-se que Lus interessava-se por astrologia; poderia haver alguma conexo, atravs 
dos obscuros canais da cabala e da feitiaria, entre Lus, o conde e Carlos Stuart?
        Sacudi a cabea com impacincia, para livr-la dos vapores do conhaque e de perguntas sem sentido. A nica coisa que se podia dar como certa era o fato de 
que ele entrara numa perigosa sociedade com Carlos Stuart e isso j era preocupao suficiente para o momento.
        A residncia dos Hawkins na rue Malory era uma casa de trs andares, slida e de aparncia respeitvel. Entretanto, a conturbao interior era evidente at 
para o observador casual. O dia estava quente, mas todas as persianas estavam completamente cerradas contra qualquer intruso de olhos curiosos. Os degraus no tinham 
sido esfregados de manh e as marcas de ps sujos manchavam a pedra branca. Nenhum sinal de uma cozinheira ou empregada na frente da casa para comprar carne fresca 
ou trocar mexericos com os vendedores de rua. Era uma casa preparada contra um desastre iminente.
        Sentindo-me como o arauto do fim dos tempos, apesar do meu vestido amarelo relativamente alegre, mandei Fergus subir os degraus e bater na porta por mim. 
Houve uma troca de palavras entre Fergus e quem quer que tivesse aberto a porta, mas um dos melhores traos de carter de Fergus era sua incapacidade de aceitar 
um "no" como resposta. Pouco depois, vi-me frente a frente com uma mulher que parecia ser a dona da casa e, portanto, a sra. Hawkins, tia de Mary.
        Fui forada a tirar minhas prprias concluses, j que a mulher parecia transtornada demais para me ajudar com qualquer tipo de informao tangvel, como 
seu nome, por exemplo.
        - Mas no podemos receber ningum! - ela exclamava sem parar, olhando furtivamente por cima do ombro, como se esperasse que a forma volumosa do sr. Hawkins 
se materializasse de repente atrs dela, repreendendo-a. - Ns estamos... Ns temos... Quer dizer...
        - No vim visitar voc - eu disse com firmeza. - Quero ver sua sobrinha, Mary.
        O nome pareceu lan-la em novos paroxismos de alarme.
        - Ela... mas... Mary? No! Ela est... ela no est passando bem!
        - Suponho que no esteja mesmo - eu disse pacientemente. Ergui minha cesta para que ela a visse. - Eu lhe trouxe alguns remdios.
        - Ah! Mas... mas... ela... voc... voc no ...?
        - Havers, mulher - disse Fergus em seu melhor sotaque escocs. Ele via esse espetculo de insanidade com desaprovao. - A empregada diz que a moa est 
l em cima em seu quarto.
        - timo - eu disse. - V  frente, Fergus. - Sem esperar por mais nenhum encorajamento, ele agachou-se, passando por baixo do brao estendido que barrava 
nosso caminho, e desapareceu nas profundezas sombrias da casa. A sra. Hawkins virou-se para ele com um grito incoerente, o que permitiu que eu passasse por ela.
        Havia uma criada de guarda do lado de fora da porta de Mary, uma mulher robusta e decidida com um avental de listras, mas ela no ofereceu nenhuma resistncia 
diante da minha declarao de que pretendia entrar. Ela sacudiu a cabea tristemente.
        - No consigo ajud-la em nada, madame. Talvez a senhora tenha mais sorte.
        Suas palavras no eram nada promissoras, mas no havia muita escolha. Ao menos, no era provvel que eu causasse algum mal. Ajeitei meu vestido e abri a 
porta.
        Foi como entrar numa caverna. As janelas estavam cobertas com pesadas cortinas de veludo marrom, completamente cerradas contra a luz do dia, e qualquer luz 
que se infiltrasse por alguma fenda era imediatamente extinta na camada de fumaa suspensa no ar, proveniente da lareira.
        Respirei fundo e soltei o ar no mesmo instante, tossindo. No houve nenhum movimento da figura na cama; uma forma pateticamente pequena e curvada, sob uma 
coberta de penas de ganso. Sem dvida, o efeito da droga j havia se dissipado a essa altura e ela no podia estar dormindo, depois de toda a algazarra no corredor. 
Provavelmente, fingindo, para o caso de ser sua tia, que tivesse voltado com novas arengas incoerentes. Em seu lugar, eu faria o mesmo.
        Virei-me e fechei a porta com firmeza na cara deplorvel da sra. Hawkins, depois me aproximei da cama.
        - Sou eu - eu disse. - Por que no sai da de baixo, antes que fique sufocada?
        - Claire! Ah, Claire! Graas a Deus! Pensei que n-nunca mais a veria outra vez! Meu tio disse que voc estava na priso! Disse que-que voc...
        - Calma! - Consegui soltar-me de suas mos e for-la para trs o suficiente para dar uma olhada em seu rosto. Estava afogueada, suada e descabelada por 
se esconder sob as cobertas, mas fora isso parecia bem. Os olhos castanhos estavam arregalados e brilhantes, sem nenhum sinal de intoxicao por pio e, embora parecesse 
nervosa e assustada, aparentemente uma noite de sono, associada  resistncia prpria da juventude, haviam sanado a maior parte de seus ferimentos fsicos. Os outros 
 que me preocupavam
        - No, no estou presa - eu disse, tentando estancar suas perguntas ansiosas. - Obviamente no, embora no seja por falta de empenho por parte de seu tio.
        - M-mas eu disse a ele - ela comeou, depois gaguejou e abaixou os olhos - ...Pelo menos eu t-t-tentei dizer-lhe, mas ele... eu...
        - No se preocupe com isso - tranqilizei-a. - Ele estava to transtornado que no ouviria nada que voc dissesse. De qualquer modo, no faz diferena. O 
que importa  voc. Como est se sentindo? - Afastei os espessos cabelos escuros de sua testa e olhei-a minuciosamente.
        - Estou bem - ela respondeu, engolindo em seco. - Eu... sangrei um pouco, mas parou. - A pele clara de suas faces ficou ainda mais vermelha, mas ela no 
abaixou os olhos. - Eu... est... dolorido. Isso passa?
        - Sim, passa - eu disse delicadamente. - Trouxe algumas ervas para voc. Devem ser preparadas em gua quente e, conforme a infuso esfriar, voc pode aplic-la 
com um pano, ou sentar-se numa tina, se houver uma  mo. Isso ajudar. - Peguei os saquinhos de ervas da minha bolsa e coloquei-os sobre a mesinha-de-cabeceira.
        Ela balanou a cabea, mordendo o lbio. Obviamente, havia mais alguma coisa que ela queria dizer, sua timidez natural lutando com sua necessidade de confidncia.
        - O que ? - perguntei, da forma mais pragmtica possvel.
        - Eu vou ter um beb? - deixou escapar num flego s, erguendo os olhos apreensivamente. - Voc disse...
        - No - respondi, com a voz mais firme que consegui. - No vai. Ele no pde... terminar.
        Nas pregas da minha saia, cruzei os dedos, esperando fervorosamente que eu estivesse certa. As chances eram muito pequenas, mas essas excentricidades aconteciam. 
Ainda assim, no havia razo para assust-la ainda mais com uma fraca possibilidade. O pensamento deixou-me ligeiramente tonta e enjoada. Poderia tal acidente ser 
a possvel resposta ao enigma da existncia de Frank? Afastei a preocupao da mente; um ms de espera iria confirmar ou dissipar a idia.
        - Est quente como um forno aqui dentro - eu disse, abrindo os laos na minha garganta para respirar melhor. - E enfumaado como a entrada do, inferno, como 
meu velho tio costumava dizer. - Sem saber o que lhe dizer em seguida, levantei-me e andei pelo aposento, afastando cortinas e abrindo janelas.
        - Tia Helen disse que eu no devo deixar ningum me ver - Mary disse, ajoelhando-se na cama enquanto me observava. - Ela diz que estou d-desonrada e que 
as pessoas vo ficar apontando para mim na rua se eu sair.
        -  bem provvel, os abutres. - Terminei de arejar o quarto e voltei para ela. - Isso no significa que voc precise se enterrar viva e sufocar-se por causa 
disso. - Sentei-me a seu lado e reclinei-me em minha cadeira, sentindo o ar fresco soprar pelos meus cabelos enquanto varria a fumaa do quarto.
        Ela ficou em silncio por um longo tempo, brincando com as trouxinhas de ervas sobre a mesinha. Finalmente, ergueu os olhos para mim, sorrindo corajosamente, 
embora seu lbio inferior tremesse um pouco.
        - Ao menos no vou ter que me casar com o visconde. Meu tio disse que ele agora jamais me aceitar.
        - No, acho que no.
        Ela balanou a cabea, olhando para o quadrado de gaze enrolada em seu joelho. Seus dedos remexeram tanto o cordo do saquinho que uma das pontas se soltou 
e alguns farelos de vara-de-ouro caram sobre a coberta.
        - Eu... costumava pensar sobre isso; o que voc me contou, sobre como um h-homem... - Parou e engoliu em seco e eu vi uma lgrima solitria cair sobre a 
gaze. - Acho que no suportaria que o visconde fizesse isso comigo. A-agora isso j aconteceu... e n-ningum pode desfazer o acontecido e eu nunca mais terei que 
f-fazer isso outra vez... e... e... ah, Claire, Alex nunca mais falar comigo! Nunca mais o verei, nunca mais!
        Deixou-se cair em meus braos, chorando histericamente e espalhando as ervas. Aconcheguei-a em meu ombro, dando uns tapinhas nas costas, murmurando palavras 
tranqilizadoras, embora tambm tenha derramado algumas lgrimas que caram sem serem notadas no brilho escuro de seus cabelos.
        - Voc o ver outra vez - murmurei. - Claro que ver. No vai fazer diferena para ele.  um bom homem.
        Mas eu sabia que faria diferena. Eu vira a angstia no rosto de Alex  noite passada e na ocasio achei que se tratava da mesma compaixo desarvorada pelo 
sofrimento que eu vira em Jamie e Murtagh. Mas desde que eu soube do amor professado de Alex Randall por Mary, comPreendi o quanto sua dor era muito mais profunda 
- e seu temor.
        Ele parecia um bom homem. Mas tambm era pobre e jovem, com uma sade frgel, e com pouca chance de progresso. Tudo o que tinha dependia inteiramente da 
boa vontade do duque de Sandringham. E eu tinha poucas esperanas de que o duque visse com benevolncia a idia da unio de seu secretrio com uma jovem desonrada 
e arruinada, que agora no tinha nem ligaes sociais nem um dote em seu favor.
        E se Alex conseguisse encontrar a coragem de se casar com ela apesar de tudo - que chances teriam, sem dinheiro, expulsos da sociedade educada e com o hediondo 
fato do estupro ofuscando o conhecimento um do outro? No havia nada que eu pudesse fazer alm de abra-la e chorar com ela pelo que fora perdido.
        J anoitecia quando a deixei, as primeiras estrelas surgindo em pequenos pontos brilhantes acima dos canos das chamins. Em meu bolso, levava uma carta escrita 
por Mary, adequadamente assinada por testemunhas, contendo seu depoimento sobre os acontecimentos da noite anterior. Uma vez entregue s autoridades competentes, 
deveramos ao menos no ter mais problemas com a lei. Ainda bem; havia muitos problemas nos aguardando em outros setores.
        Atenta, desta vez, ao perigo, no fiz nenhuma objeo  oferta contrariada da sra. Hawkins para que eu e Fergus fssemos levados em casa pela carruagem da 
famlia.
        Atirei meu chapu sobre a mesa de jogo no vestbulo, observando a grande quantidade de recados e delicados ramalhetes que transbordavam da bandeja sobre 
ela. Aparentemente, ainda no ramos prias, embora as notcias do escndalo j devessem ter se espalhado h muito tempo pelas camadas sociais de Paris.
        Com um gesto vago, descartei as perguntas ansiosas dos criados e subi as escadas para o quarto, tirando descuidadamente minhas roupas externas ao longo do 
caminho. Sentia-me esgotada demais para me preocupar com o que quer que fosse.
        Mas quando abri a porta do quarto e vi Jamie, recostado numa poltrona junto  lareira, minha apatia foi imediatamente suplantada por uma onda de ternura. 
Seus olhos estavam fechados e seus cabelos espetados em todas as direes, um indcio seguro de turbulncia mental. Mas ele abriu os olhos com o leve rudo de minha 
chegada e sorriu para mim, os olhos claros e azuis  luz clida do candelabro.
        - Est tudo bem - foi tudo que ele murmurou para mim, tomando-me em seus braos. - Voc est em casa. - Ficamos em silncio, enquanto despamos um ao outro 
e finalmente nos isolamos do mundo, cada qual encontrando um santurio silencioso e desejado nos braos um do outro.
        
        
        
21 - RESSURREIO FORA DE HORA
        
        Minha mente ainda estava em banqueiros quando nosso coche parou em frente  residncia alugada do duque na rue St. Anne. Era uma casa grande e bonita, com 
um caminho de entrada longo e curvo, ladeado de lamos e extensos gramados. Um homem rico, o duque.
        - Voc supe que foi o emprstimo que Carlos obteve de Manzetti que ele est investindo com St. Germain? - perguntei.
        - Deve ser - Jamie respondeu. Calou as luvas de pele de porco adequadas a uma visita formal, fazendo uma ligeira careta enquanto alisava o couro apertado 
sobre o dedo anular rgido de sua mo direita. - O dinheiro que seu pai acha que ele est gastando para se manter em Paris.
        - Ento, na verdade, Carlos est tentando levantar dinheiro para um exrcito - eu disse, sentindo uma admirao relutante por Carlos Stuart. O coche parou 
e o lacaio desceu para abrir a porta.
        - Bem, ele ao menos est tentando levantar dinheiro - Jamie corrigiu, segurando minha mo para me ajudar a descer. - Pelo que sei, ele quer dinheiro para 
fugir com Louise de La Tour e seu filho bastardo.
        Sacudi a cabea.
        - Acho que no. No pelo que mestre Raymond me contou ontem. Alm do mais, Louise diz que no o v desde que ela e Jules... bem...
        Jamie deu uma risadinha irnica.
        - Ao menos, ela possui algum senso de honra.
        - No sei se  esse o motivo - observei, tomando seu brao enquanto subamos os degraus at a porta. - Disse que Carlos ficou to furioso por ela dormir 
com o marido que saiu violentamente pela porta afora e desde ento ela no o viu mais. Ele lhe escreve cartas apaixonadas de vez em quando, jurando que a levar 
e tambm a criana junto com ele assim que obtiver seu lugar de direito no mundo, mas ela no permite que ele v v-la; ela tem muito medo de que Jules descubra 
a verdade.
        Jamie emitiu um som escocs de desaprovao.
        - Meu Deus, ser que nenhum homem est a salvo de ser corneado? Toquei levemente seu brao.
        - Provavelmente alguns mais do que outros.
        - Voc acha? - ele disse, mas sorriu para mim.
        A porta abriu-se de par em par, revelando um mordomo baixo, redon do como um barril, careca, com um uniforme impecvel e imensa dignidade.
        - Milorde - ele disse, fazendo uma mesura para Jamie - e milady. Os senhores so esperados. Por favor, entrem.
        O duque era o encantamento em pessoa ao nos receber na sala de visitas principal.
        - Bobagem, bobagem - ele disse, descartando as desculpas de Jamie pelos contratempos do jantar. - Os franceses so muito melodramticos. Fazem uma tempestade 
em copo d'gua por qualquer coisa. Agora, vamos examinar todas essas fascinantes proposies. E talvez sua adorvel esposa gostaria de... hum, divertir-se com a 
leitura de um... hein? - Agitou o brao num gesto largo em direo  parede, deixando em aberto a questo se eu deveria me distrair olhando os diversos e enormes 
quadros, a estante bem provida de livros ou as vrias caixas de vidro que guardavam a coleo de caixas de rap do duque.
        - Obrigada - murmurei, com um sorriso sedutor, e deixei os olhos vagarem pela parede, fingindo estar absorvida em um grande Boucher, apresentando a viso 
de costas de um nu de uma mulher sobejamente bem-dotada, sentada em uma rocha numa regio deserta. Se este era um reflexo do gosto corrente em anatomia feminina, 
no era de admirar que Jamie parecesse ter meu traseiro em to alta conta.
        - Ah! - exclamei. - Para que roupas de enchimento, hein?
        - Hein? - Jamie e o duque, surpreso, ergueram os olhos do portflio de papis de investimentos que constitua a razo ostensiva de nossa visita.
        - No se preocupem comigo - eu disse, abanando a mo graciosamente. - S estou apreciando a arte.
        - Sinto-me profundamente gratificado, milady - disse o duque educadamente, submergindo nos documentos outra vez. Enquanto isso, Jamie iniciava a tediosa 
e difcil tarefa, verdadeiro objetivo de nossa visita, de extrair discretamente informaes que o duque estivesse disposto a compartilhar conosco sobre suas prprias 
simpatias, ou antipatias, em relao  causa Stuart.
        Eu tambm tinha a minha prpria agenda para esta visita. A medida que os homens ficavam cada vez mais imersos em suas discusses, fui afastando-me em direo 
 porta, fingindo examinar as prateleiras de livros. Assim que o horizonte estivesse limpo, eu pretendia escapar para o corredor e tentar achar Alex Randall. Eu 
j fizera tudo que me era possvel para reparar o mal causado a Mary Hawkins; qualquer outra iniciativa teria que Partir dele. Sob as regras da etiqueta social, 
ele no podia visit-la na casa de seu tio, nem ela podia entrar em contato com ele. Mas eu poderia facilmente criar uma oportunidade para eles se encontrarem na 
rue Tremoulins.
        A conversa atrs de mim reduzira-se a um murmrio confidencial. Enfiei a cabea no corredor, mas no vi nenhum lacaio por perto. Ainda assim, deveria haver 
algum no muito longe dali; uma casa daquele tamanho possui dezenas de empregados. Sendo to grande, eu iria precisar de instrues para localizar Alexander Randall. 
Escolhi uma direo qualquer e caminhei ao longo do corredor, procurando um criado a quem perguntar.
        Vi um ligeiro movimento no final do corredor e chamei. Quem quer que fosse no respondeu, mas ouvi um furtivo arrastar de ps nas tbuas enceradas.
        Parecia um comportamento curioso para um empregado. Parei no final do corredor e olhei ao redor. Outro corredor estendia-se  direita daquele onde eu estava, 
alinhado de um lado por portas, do outro por longas janelas que se abriam para o caminho de entrada e os jardins. A maioria das portas estava trancada, mas a mais 
prxima de mim estava ligeiramente aberta.
        Movendo-me em silncio, aproximei-me e coloquei o ouvido junto aos lambris. No ouvindo nada, segurei a maaneta e audaciosamente abri a porta.
        - O que, em nome de Deus, voc est fazendo aqui?
        - Ah, voc me assustou! Minha Nossa Senhora, pensei que i-iria morrer. - Mary Hawkins pressionou ambas as mos contra o corpete do seu vestido. Seu rosto 
estava lvido e seus olhos fundos e arregalados de terror.
        - No vai, no - eu disse. - A menos que seu tio descubra que est aqui; ento, provavelmente a matar. Ou ele sabe?
        Ela sacudiu a cabea.
        - No. N-no contei a ningum. Tomei uma carruagem pblica.
        - Por que, em nome de Deus?
        Ela olhou ao redor como um coelho assustado  procura de um buraco para se esconder, mas no encontrando nenhum, empertigou-se e retesou o maxilar.
        - Eu tinha que encontrar Alex. Eu tinha que f-falar com ele. Ver se ele... se ele... - Ela contorcia as mos e eu podia ver o esforo que lhe custava proferir 
as palavras.
        - No tem importncia - eu disse, resignada. - Eu compreendo. Mas o seu tio no entender. Nem o duque. Sua Excelncia tambm no sabe que est aqui?
        Ela sacudiu a cabea, muda.
        - Muito bem - eu disse, pensando. - A primeira coisa que precisamos fazer ...
        - Madame? Posso ajud-la?
        Mary sobressaltou-se como uma lebre e eu senti meu prprio corao saltar desconfortavelmente para o fundo da minha garganta. Malditos lacaios; nunca estavam 
no lugar certo na hora certa.
        No havia nada a fazer agora, exceto enfrentar a situao. Virei-me para o lacaio, que estava parado, rgido como uma vareta de arma de fogo na soleira da 
porta, com um ar digno e desconfiado.
        - Sim - respondi, com tanta arrogncia quanto consegui reunir assim de repente. - Poderia, por favor, avisar o sr. Alexander Randall de que ele tem visitas?
        - Lamento no poder faz-lo, madame - disse o lacaio, com distanciada formalidade.
        - E por que no? - perguntei.
        - Porque, madame - ele respondeu -, o sr. Alexander Randall j no trabalha para Sua Excelncia. Ele foi demitido. - O lacaio olhou para Mary, depois abaixou 
o nariz dois centmetros e endireitou-se o suficiente para dizer: - Creio que monsieur Randall tomou um navio de volta para a Inglaterra.
        - No! Ele no pode ter ido embora, no pode!
        Mary arremessou-se para a porta e quase colidiu com Jamie, que entrava. Ela estancou com um grito sufocado e ele fitou-a perplexo.
        - O que... - comeou a dizer, depois me viu atrs dela. - Ah, voc est a, Sassenach. Arranjei uma desculpa para vir procur-la. Sua Excelncia acaba de 
me dizer que Alex Randall...
        - Eu sei - interrompi. - Foi embora.
        - No! - Mary gemeu. - No! - Lanou-se para a porta e j a atravessara antes que nenhum de ns dois pudesse det-la, os saltos dos sapatos soando no parque 
encerado.
        - Que menina tola! - Arranquei meus prprios sapatos com pontaps, segurei as saias e sa zunindo atrs dela. Apenas de meias, eu era muito mais rpida do 
que ela em seus sapatos de saltos altos. Talvez pudesse alcan-la antes que colidisse com algum e fosse apanhada, com o escndalo concomitante que iria envolver.
        Segui o movimento de suas saias que desapareciam na curva do corredor. O cho ali era acarpetado; se eu no corresse, poderia perd-la na interseo, incapaz 
de ouvir, pelo barulho dos seus ps, o caminho que teria tomado. Abaixei a cabea, arremessei-me pela ltima curva e bati de frente com um homem que vinha na direo 
contrria
        Ele soltou um "Uuuuf." espantado quando o atingi em cheio no estmago e segurou-me pelos braos para se manter de p enquanto oscilvamos e cambalevamos 
juntos.
        - Desculpe-me - comecei, sem ar. - Pensei que voc tivesse...  Jesus Roosevelt Cristo! Maldio!
        Minha impresso inicial - de que eu havia encontrado Alexander Randall - no durou mais do que a frao de segundo necessria para ver os olhos acima daquela 
boca finamente cinzelada. A boca era muito parecida com a de Alex, exceto pelas linhas profundas a seu redor. Mas aqueles olhos frios s poderiam pertencer a um 
nico homem.
        O choque foi to grande que por um instante tudo pareceu paradoxalmente normal; tive um impulso de pedir desculpas, despach-lo com um tapinha e continuar 
minha perseguio, deixando-o esquecido no corredor, como apenas um encontro fortuito. Minhas glndulas supra-renais apressaram-se a dar um jeito nessa impresso, 
descarregando uma dose to forte de adrenalina na minha corrente sangnea que meu corao se contraiu como um punho cerrado.
        Ele prprio recuperava seu flego agora, junto com seu autocontrole momentaneamente estilhaado.
        - Sinto-me inclinado a concordar com seus sentimentos, madame, ainda que no precisamente com seu modo de expresso. - Ainda segurando-me pelos cotovelos, 
afastou-me um pouco, estreitando os olhos para ver melhor meu rosto no corredor sombreado. Vi o choque do reconhecimento empalidecer suas feies quando meu rosto 
recaiu sob a luz.
        - Santo Deus,  voc! - ele exclamou.
        - Pensei que estivesse morto! - eu disse, puxando meus braos, tentando me livrar das mos de ferro de Jonathan Randall.
        Ele soltou um dos braos, a fim de esfregar o estmago, analisando-me friamente. As feies delgadas, de traos finos, estavam bronzeadas e saudveis; no 
davam nenhum sinal exterior de terem sido pisoteadas cinco meses atrs por trinta bestas de um quarto de tonelada. Nem sequer a marca de um casco em sua testa.
        - Novamente, madame, vejo-me compartilhando seus sentimentos. Eu estava sob uma interpretao errnea muito semelhante em relao ao seu estado de sade. 
Provavelmente voc  uma bruxa. Afinal de contas, o que voc fez? Transformou-se num lobo? - A desconfiada averso estampada em seu rosto misturava-se a um toque 
de temor supersticioso. Afinal, quando voc joga algum no meio de um bando de lobos em uma fria noite de inverno, espera que a pessoa coopere sendo devorada imediatamente. 
O suor de minhas prprias mos e o batimento semelhante a um tambor do meu corao eram testemunhas do efeito perturbador de ver algum que voc considerava seguramente 
morto surgir de repente  frente. Imaginei que ele devia estar se sentindo um pouco nervoso tambm.
        - Voc gostaria muito de saber, no? - A necessidade de irrit-lo e perturbar aquela calma glacial, foi a primeira emoo que veio  tona da massa efervescente 
de sentimentos que explodiram dentro de mim  vista de seu rosto. Seus dedos apertaram meu brao com mais fora e seus lbios reduziram-se a uma linha. Podia ver 
sua mente trabalhando, comeando a descartar possibilidades.
        - Se no era o seu, de quem era o corpo que os homens de sir Fletcher tiraram da masmorra? - perguntei, tentando tirar vantagem de qualquer abalo em seu 
autocontrole. Uma testemunha descrevera para mim a retirada de "um boneco de trapos, encharcado de sangue", provavelmente Randall, da cena do estouro da boiada que 
encobrira a fuga de Jamie daquela mesma masmorra.
        Randall sorriu, sem muito humor. Se ele estava to abalado quanto eu. no demonstrava. Sua respirao estava apenas um pouco mais rpida do que o normal 
e as linhas em torno da boca e dos olhos mais fundas do que eu me lembrava, mas ele no estava ofegando como um peixe fora d'gua. Eu estava. Inspirei o mximo de 
oxignio que meus pulmes permitiam e tentei respirar pelo nariz.
        - Era meu ordenana, Marley. Mas se voc no est respondendo s minhas perguntas, por que eu deveria responder s suas? - Olhou-me de cima a baixo, avaliando 
cuidadosamente minha aparncia: vestido de seda, ornamentos nos cabelos, jias e ps calados de meias.
        - Casou-se com um francs? - perguntou. - Eu sempre achei que voc fosse uma espi francesa. Quero crer que seu novo marido a mantm em melhores condies 
do que...
        As palavras morreram em sua garganta quando ele ergueu os olhos para ver a fonte dos passos que haviam acabado de entrar no corredor atrs de mim. Se eu 
quisesse perturb-lo, essa vontade agora estaria plenamente satisfeita. Nenhum Hamlet no palco jamais reagira  apario de um fantasma com terror mais convincente 
do que eu vi estampado naquele rosto aristocrtico. Os dedos que ainda agarravam meu brao penetraram mais fundo em minha carne e eu senti o impacto do choque que 
o percorreu como uma descarga eltrica.
        Eu sabia o que ele estava vendo atrs de mim e tive medo de me virar. Fez-se um profundo silncio no corredor; at o farfalhar dos galhos do cipreste contra 
as vidraas pareciam fazer parte da quietude, como o silncio estrondoso das ondas no fundo do mar. Muito lentamente, desvencilhei-me de sua mo, que caiu inerte 
ao lado de seu corpo. No havia nenhum rudo atrs de mim, embora eu pudesse ouvir vozes comearem a se elevar da sala ao fim do corredor. Rezei para que a porta 
continuasse fechada e tentei desesperadamente me lembrar como Jamie estava armado.
        Minha mente ficou vazia, depois se incendiou com a viso reconfortante de sua pequena espada, pendurada de seu cinto em um gancho no armrio, o sol brilhando 
em seu cabo esmaltado. Mas ele ainda tinha sua adaga,  claro, e a pequena faca que habitualmente carregava na meia. Na verdade, eu tinha absoluta certeza de que, 
numa situao de emergncia, At consideraria as mos nuas perfeitamente adequadas. Na minha atual situao, espremida entre os dois... Engoli em seco e virei-me 
devagar.
        Ele estava parado absolutamente imvel. a no mais do que um metro atrs de mim. Um dos altos postigos das janelas abriu-se perto dele e as sombras escuras 
das agulhas dos ciprestes ondularam sobre ele como gua sobre uma rocha submersa. Ele tambm no demonstrou mais expresso do que uma rocha. O que quer que vivesse 
atrs daqueles olhos estava oculto; estavam abertos e vazios como vidraas, como se a alma que espelhavam j tivesse voado para longe h muito tempo.
        Ele no falou, mas aps um instante, estendeu a mo para mim. Ela flutuou aberta no ar e eu finalmente reuni a presena de esprito para segur-la. Estava 
fria e dura e eu me agarrei a ela como a uma tbua de salvao.
        Ele me puxou para junto de si, pegou meu brao e me virou, tudo sem falar ou mudar de expresso. Quando alcanvamos a esquina do corredor, Randall falou 
atrs de ns.
        - Jamie - ele disse. A voz era rouca de choque e tinha um tom entre incredulidade e splica.
        Jamie parou e virou-se para encar-lo. O rosto de Randall estava branco como o de um fantasma, com uma pequena mancha vermelha em cada ma do rosto. Ele 
retirara a peruca, que agarrava nas mos, e o suor emplastrava os belos cabelos escuros nas tmporas.
        - No. - A voz que soou acima de mim era suave, quase sem expresso. Erguendo os olhos, pude ver que o rosto ainda se igualava  voz, mas uma pulsao rpida, 
febril, pulsava em seu pescoo e a pequena cicatriz triangular acima de seu colarinho ardia, vermelha, de fria.
        - Chamo-me formalmente lorde Broch Tuarach - disse a suave voz escocesa acima de mim. - E alm das exigncias da formalidade, voc nunca mais falar comigo, 
at que implore por sua vida na ponta de minha espada. Ento, poder usar meu nome, porque ser a ltima palavra que dir.
        Com uma repentina violncia, girou nos calcanhares e seu exuberante xale de xadrez esvoaou num movimento amplo, bloqueando minha viso de Randall quando 
dobramos a esquina do corredor.
        A carruagem ainda aguardava junto ao porto. Com medo de olhar para Jamie, subi e me absorvi na tarefa de enfiar as pregas de seda amarela em torno de minhas 
pernas. O clique da porta da carruagem ao se fechar, me fez erguer os olhos bruscamente, mas antes que eu pudesse alcanar a maaneta, a carruagem disparou com um 
salto que me atirou de volta no banco.
        Debatendo-me e praguejando, consegui colocar-me de joelhos aos trancos e espreitei pela janela de trs. Ele desaparecera. Nada se mexia no caminho alm das 
sombras oscilantes de ciprestes e lamos.
        Bati freneticamente no teto da carruagem, mas o cocheiro apenas gritava para os cavalos, instigando-os a correr ainda mais. Havia pouco trfego quela hora 
e ns avanamos pelas ruas estreitas como se o prprio diabo estivesse em nosso encalo.
        Quando paramos na rue Tremoulins, eu saltei do coche, ao mesmo tempo em pnico e furiosa.
        - Por que no parou? - perguntei ao cocheiro. Ele encolheu os ombros, impassvel na segurana de seu poleiro.
        - O patro ordenou que eu a trouxesse para casa o mais rpido possvel, madame. - Pegou o chicote e tocou-o de leve no lombo do cavalo.
        - Espere! - gritei. - Quero voltar! - Mas ele apenas enfiou a cabea nos ombros como uma tartaruga, fingindo no me ouvir, enquanto o coche afastava-se ruidosamente.
        Fumegando de impotncia, voltei-me para a porta, onde a pequena figura de Fergus surgiu, as sobrancelhas finas erguidas inquisitivamente diante do meu aparecimento.
        - Onde est Murtagh? - perguntei rispidamente. O pequeno escocs era a nica pessoa que eu acreditava que podia ser capaz, primeiro, de encontrar Jamie e, 
segundo, de impedi-lo.
        - No sei, madame. Talvez l embaixo. - O menino fez um movimento com a cabea na direo da rue Gamboge, onde havia vrias tavernas, que iam, em matria 
de respeitabilidade, de um local onde uma senhora em viagem pudesse jantar com seu marido aos antros perto do rio, onde at mesmo um homem armado hesitaria em entrar 
sozinho.
        Coloquei a mo no ombro de Fergus, tanto para me apoiar como para exort-lo.
        - Corra e encontre-o, Fergus. O mais rpido que puder!
        Alarmado com o tom de minha voz, ele saltou do degrau e desapareceu, antes que eu pudesse acrescentar: "Tome cuidado!" Ainda assim, ele conhecia os submundos 
de Paris muito melhor do que eu; ningum estava mais acostumado a se esgueirar pelo meio de uma multido numa taverna do que um ex-batedor de carteiras. Ao menos, 
eu esperava que ele fosse um ex-batedor de carteiras.
        Mas eu s podia me preocupar com uma coisa de cada vez e vises de Fergus sendo capturado e enforcado por suas atividades recuaram diante da viso que as 
ltimas palavras de Jamie a Randall evocaram.
        Com certeza, com certeza, ele no voltou para a casa do duque, no ? no, assegurei a mim mesma. No carregava sua espada. O que quer que estivesse sentindo 
- e minha alma se mortificava dentro de mim ao imaginar o que ele estava sentindo -, ele no ia agir precipitadamente. Eu j o vira lutando antes, a mente trabalhando 
com uma calma glacial, distanciada das emoes que pudessem toldar seu raciocnio. E para isto, acima de tudo, ele seguramente se apegaria s formalidades. Buscaria 
as prescries rgidas, as frmulas para reparao da honra, como um refgio - algo ao qual se agarrar contra as correntezas que o arrastavam, as ondas gigantescas 
de sede de sangue e vingana.
        Parei no corredor, mecanicamente tirando a capa e fazendo uma pausa diante do espelho para ajeitar o cabelo. Pense, Beauchamp, dizia silenciosamente ao meu 
lvido reflexo. Se ele vai travar um duelo, qual a primeira coisa de que ir precisar?
        Uma espada? No, no poderia ser. A prpria espada dele estava no andar de cima, pendurada dentro do armrio. Embora pudesse facilmente pedir uma emprestada, 
no podia imagin-lo partindo para o mais importante duelo de sua vida armado com qualquer outra espada que no a sua. Seu tio, Dougal MacKenzie, dera-lhe de presente 
quando ele completou dezessete anos, acompanhou seu treinamento no uso da arma, ensinou-lhe os truques e as vantagens de um espadachim canhoto, tudo com aquela espada. 
Dougal o fizera praticar, mo esquerda contra mo esquerda, durante horas a fio, at, como ele me contou, sentir a extenso de metal espanhol ganhar vida, uma extenso 
de seu brao, o cabo soldado  palma de sua mo. Jamie dissera que se sentia nu sem ela. E essa no era uma luta Para a qual pudesse ir nu.
        No, se fosse precisar da espada imediatamente, ele teria vindo para casa busc-la. Passei a mo impacientemente pelos cabelos, tentando pensar. Droga, qual 
era o protocolo para um duelo? Antes de chegar s espadas? O que acontecia? Um desafio,  claro. As palavras de Jamie no corredor teriam esse significado? Eu tinha 
a vaga idia de pessoas sendo esbofeteadas no rosto com luvas, mas no fazia a menor idia se esse era mesmo o costume, ou apenas um artefato de memria, nascido 
da imaginao de Um cineasta.
        Ento, lembrei-me. Primeiro, o desafio. Em seguida, um lugar tinha que ser arranjado - um lugar adequado, circunspecto, com pouca possibilidade de ser notado 
pela polcia ou pela guarda do rei. E para entregar o desafio, arranjar o lugar, era necessrio um ajudante. Ah. Ento, era isso que ele fora fazer; encontrar seu 
ajudante. Murtagh. Mesmo que Jamie encontrasse Murtagh antes de Fergus, ainda haveria as formalidades a serem providenciadas. Comecei a respirar um pouco melhor, 
embora meu corao ainda batesse acelerado e meus cadaros ainda parecessem muito apertados. No havia nenhum empregado por perto; desatei os cadaros e inspirei 
fundo, expandindo os pulmes.
        - No sabia que tinha o hbito de se despir nos corredores, ou eu teria permanecido na sala de visitas - disse uma voz escocesa e irnica atrs de mim.
        Girei nos calcanhares, o corao saltando at a garganta, o suficiente para me sufocar. O homem parado na soleira da porta da sala de visitas, os braos 
abertos, segurando informalmente os batentes, era grande, quase do tamanho de Jamie, empertigado, com a mesma graa de movimentos, o mesmo ar de frio autocontrole. 
Mas os cabelos eram escuros e os olhos fundos de um verde enevoado. Dougal MacKenzie, aparecendo repentinamente em minha casa, como se chamado pelo meu pensamento. 
Por falai no diabo...
        - O que, em nome de Deus, voc est fazendo aqui? - O choque de v-lo estava arrefecendo, embora meu corao ainda batesse com fora. Eu no comera nada 
desde o desjejum e uma sbita onda de tontura percorreu o meu corpo. Ele deu um passo  frente e segurou-me pelo brao, puxando-me para uma cadeira.
        - Sente-se, menina - ele disse. -  por causa do seu estado, ao que parece.
        - Muito observador - eu disse. Pontos negros flutuavam nos cantos da minha viso e lampejos pequenos e brilhantes danavam diante dos meus olhos. - Com licena 
- eu disse educadamente e coloquei a cabea entre os joelhos.
        Jamie. Frank. Randall. Dougal. Os rostos revezavam-se em minha mente, os nomes pareciam retinir em meus ouvidos. As palmas de minhas mos suavam e eu as 
pressionei sob os braos, abraando-me para tentar parar os tremores do choque. Jamie no iria enfrentar Randall imediatamente; isso era o mais importante. Havia 
um pouco de tempo, durante o qual eu poderia refletir, realizar aes preventivas. Mas que aes? Deixando meu subconsciente lutando com esta pergunta, forcei minha 
respirao a reduzir o ritmo e voltei a minha ateno para questes mais prementes.
        - Vou repetir - eu disse, endireitando-me e alisando meus cabelos para trs. - O que voc est fazendo aqui? As sobrancelhas escuras ergueram-se.
        - E eu preciso de uma razo para visitar um parente?
        Eu ainda podia sentir o gosto de blis no fundo da minha garganta, mas minhas mos, ao menos, haviam parado de tremer.
        - Nas circunstncias, sim - eu disse. Empertiguei-me, ignorando pomposamente meus cadaros desatados, e estendi a mo para a garrafa de conhaque. Antecipando-se 
a mim, Dougal pegou uma taa da bandeja e serviu uma colher de ch. Em seguida, depois de um olhar investigador para mim, duplicou a dose.
        - Obrigada - eu disse, secamente, aceitando a taa.
        - Circunstncias, hein? E quais circunstncias seriam essas? - Sem esperar por resposta ou permisso, calmamente serviu outra taa para si mesmo e ergueu-a 
num brinde informal. - A Sua Majestade.
        Senti minha boca torcer-se num sorriso enviesado.
        - Rei Jaime, suponho? - Tomei um pequeno gole da minha bebida e senti os vapores quentes e aromticos cauterizarem as membranas atrs dos meus olhos. - E 
o fato de voc estar em Paris significa que converteu Colum ao seu modo de pensar? - Afinal, enquanto Dougal MacKenzie pudesse ser um jacobita, era seu irmo Colum 
quem liderava os MacKenzie de Leoch como chefe. As pernas aleijadas e deformadas por uma doena incapacitante, Colum j no liderava seu cl nas batalhas; era Dougal 
o comandante de guerra. Mas embora Dougal pudesse liderar os homens nos combates, era Colum quem detinha o poder de dizer se a batalha ocorreria.
        Dougal ignorou minha pergunta e, aps esvaziar sua taa, imediatamente serviu-se de outra dose. Desta vez, saboreou o primeiro gole, fazendo a bebida girar 
visivelmente na boca e lambendo uma gota final dos lbios ao engolir.
        - Nada mau - disse. - Levarei um pouco para Colum. Ele precisa de algo um pouco mais forte do que vinho, para ajud-lo a dormir  noite.
        Essa era na verdade uma resposta oblqua  minha pergunta. A condio de Colum estava, portanto, se deteriorando. Sempre sentindo dores por causa da doena 
que corroa seu corpo, Colum tomava um vinho forte a noite, a fim de ajud-lo a dormir. Agora, precisava de conhaque puro. Perguntava-me quanto tempo levaria at 
ele ter que recorrer ao pio para obter algum alvio. Porque, quando o fizesse, seria o fim de seu domnio como chefe do cl. Privado das condies fsicas, ele 
ainda comandava pela fora absoluta de seu carter. Mas se a fora da mente de Colum se perdesse para a dor e as drogas, o cl teria um novo lder - Dougal.
        Fitei-o por cima da borda do meu copo. Ele devolveu meu olhar sem nenhum sinal de vexao, um leve sorriso na boca larga dos MacKenzie. Seu rosto era muito 
semelhante ao do irmo - e do sobrinho -, de traos fortes e ousados, com mas do rosto altas e largas, e um nariz reto e longo como a lmina de uma faca.
        Tendo feito o juramento aos dezoito anos de apoiar a liderana de seu irmo, ele cumprira a promessa durante quase trinta anos. E continuaria a mant-la, 
eu sabia, at o dia em que Colum morresse ou no mais pudesse comandar o cl. Mas, nesse dia, o manto de chefe cairia sobre seus ombros e os homens do cl MacKenzie 
o seguiriam aonde quer que ele fosse - atrs da bandeira da Esccia e do estandarte do rei Jaime, na vanguarda do prncipe Carlos Stuart.
        - Circunstncias? - eu disse, voltando  sua pergunta anterior. - Bem, suponho que no se pode considerar de bom gosto visitar um homem a quem deixou como 
morto e cuja mulher tentou seduzir.
        Sendo Dougal MacKenzie, ele riu. Eu no sabia exatamente o que seria necessrio para desconcertar aquele homem, mas eu certamente esperava estar l para 
ver quando isso acontecesse.
        - Seduo? - ele disse, os lbios num trejeito divertido. - Eu lhe ofereci casamento.
        - Ofereceu-se para me estuprar, se me recordo - retorqui. Ele havia, de fato, me proposto casamento,  fora, depois de se negar a me ajudar a resgatar Jamie 
da priso de Wentworth no inverno anterior. Embora seu principal motivo fosse apoderar-se de Lallybroch, a propriedade de Jamie - que passaria a me pertencer com 
a morte de Jamie -, no ficara nem um pouco avesso  idia das compensaes secundrias do casamento, como desfrutar regularmente do meu corpo.
        - Quanto a deixar Jamie na priso - ele continuou, ignorando-me como sempre -, no parecia haver nenhuma maneira de tir-lo de l e nenhum sentido em arriscar 
bons homens numa tentativa v. Ele seria o primeiro a compreender isso. E era meu dever como seu parente oferecer minha proteo  sua mulher, se ele morresse. Eu 
era o pai adotivo do rapaz, no? - Inclinou a cabea para trs e esvaziou a taa.
        Tomei um grande gole da minha prpria bebida e engoli rpido para no engasgar. O conhaque foi queimando minha garganta e meu esfago, com o mesmo calor 
que subia ao meu rosto. Ele tinha razo; Jamie no o culpara por sua relutncia em invadir a priso de Wentworth - no esperava tampouco que eu o fizesse. E foi 
apenas por um milagre que fui bem-sucedida. No entanto, embora eu tivesse contado a Jamie, rapidamente, sobre a inteno de Dougal de se casar comigo, no tentei 
transmitir os aspectos carnais dessa inteno. Afinal, eu no esperava ver Dougal MacKenzie nunca mais.
        Eu sabia, por experincia prvia, que ele era um homem acostumado a agarrar as oportunidades; com Jamie prestes a ser enforcado, ele nem sequer esperara 
pela execuo da sentena para tentar garantir a mim e  minha propriedade prestes a ser herdada. Se - no, corrigi a mim mesma, quando - Colum morresse ou se tornasse 
incapacitado, Dougal ficaria no comando total do cl MacKenzie no espao de uma semana. E se Carlos Stuart encontrasse o apoio que estava procurando, Dougal estaria 
l. Afinal, ele tinha experincia em ser um poder atrs do trono.
        Inclinei a taa, meditando. Colum tinha interesses comerciais na Frana; vinho e madeira, principalmente. Esse, sem dvida, era o pretexto da visita de Dougal 
a Paris, poderia at ser sua principal razo ostensiva. Mas ele certamente tinha outras razes. E a presena na cidade do prncipe Carlos Eduardo Stuart era sem 
dvida uma delas.
        Um ponto a favor de Dougal MacKenzie era que um encontro com ele estimulava os processos mentais, pela absoluta necessidade de tentar descobrir o que ele 
realmente pretendia em um determinado momento. Sob a inspirao de sua presena e uma boa dose de conhaque portugus, meu subconsciente estava se agitando com o 
nascimento de uma idia.
        - Bem, seja como for, estou satisfeita com sua presena aqui agora - eu disse, recolocando minha taa vazia na bandeja.
        - Est? - As espessas sobrancelhas escuras ergueram-se, incrdulas.
        - Sim. - Levantei-me e abanei a mo, indicando o saguo de entrada. - Pegue meu manto enquanto eu amarro meus cadaros. Preciso que me acompanhe ao commissariat 
de police.
        Vendo seu queixo cair, senti a primeira e minscula ponta de esperana. Se eu conseguira pegar Dougal MacKenzie de surpresa, certamente conseguiria evitar 
um duelo.
        - Poderia me dizer o que acha que est fazendo? - Dougal perguntou, enquanto o coche sacolejava em torno do Cirque du Mireille, evitando por pouco uma carruagem 
de quatro cavalos e uma carroa cheia de abobrinhas que vinham na direo contrria.
        - No - eu disse laconicamente -, mas suponho que terei de faz-lo. Sabia que Jack Randall ainda est vivo?
        - No ouvi dizer que estivesse morto - Dougal respondeu sensatamente.
        Isso me desconcertou por um instante. Mas  claro que ele tinha razo. Nos achamos que que Randall estivesse morto somente porque sir Marcus MacRannoch confundira 
o corpo pisoteado do ordenana de Randall com o prprio oficial, durante o resgate de Jamie da priso de Wentworth. Obviamente, nenhuma notcia da morte de Randall 
teria chegado s Highlands, j que isso no ocorrera. Tentei reunir os meus pensamentos dispersos.
        - Ele no est morto - eu disse. - Mas est em Paris.
        - Em Paris? - Isso atraiu sua ateno; as sobrancelhas ergueram-se e em seguida, seus olhos arregalaram-se com o pensamento seguinte.
        - Onde est Jamie? - perguntou incisivamente.
        Fiquei satisfeita de ver que ele entendera o ponto principal. Embora ele no soubesse o que se passara entre Jamie e Randall na priso de Wentworth - ningum 
jamais saberia, a no ser Jamie, Randall e, at certo ponto, eu -, sabia mais do que o suficiente sobre as aes prvias de Randall, para compreender exatamente 
qual seria o primeiro impulso de Jamie ao encontrar o sujeito ali, longe do santurio da Inglaterra.
        - No sei - eu disse, olhando pela janela. Passvamos por Les Halles e o cheiro de peixe invadia nossas narinas. Tirei um leno perfumado e cobri o nariz 
e a boca. O cheiro forte e penetrante de essncia de gualtria com que eu perfumara o leno no era suficiente para abafar o mau cheiro exalado por uma dzia de 
bancas de venda de enguias, mas j ajudava um pouco. Falei atravs das dobras do linho aromatizado.
        - Encontramos Randall inesperadamente na casa do duque de Sandringham hoje. Jamie me mandou para casa no coche e desde ento no o vi mais.
        Dougal ignorava tanto o mau cheiro quanto os gritos rouquenhos das vendedoras de peixe apregoando suas mercadorias. Franziu a testa para mim.
        - Ele sem dvida pretende matar o sujeito, no?
        Sacudi a cabea, explicando meu raciocnio em relao  espada.
        - No posso deixar que um duelo acontea - eu disse, abaixando o leno para poder falar com mais clareza. - No vou permitir!
        Dougal balanou a cabea distraidamente.
        - Sim, seria muito perigoso. No que o rapaz no possa derrotar Randall facilmente... eu o treinei, voc sabe - acrescentou com certa presuno -, mas a 
pena por duelar...
        - Voc entendeu logo - eu disse.
        - Muito bem - ele disse devagar. - Mas por que a polcia? No pretende mandar prender o rapaz antes de mais nada, pretende? Seu prprio marido?
        - No Jamie - eu disse. - Randall.
        - Ah, ? E como pretende fazer isso?
        - Uma amiga e eu fomos... atacadas na rua h algumas noites - eu disse engolindo em seco diante da lembrana. - Os homens estavam mascarados; no sei dizer 
quem eram. Mas um deles tinha a mesma altura e compleio fsica de Jonathan Randall. Pretendo dizer que encontrei Randall em uma casa hoje e o reconheci como um 
dos homens que nos atacaram.
        As sobrancelhas de Dougal deram um salto para cima e depois se uniram. Seu olhar frio tremeluziu sobre mim. De repente, surgiu uma nova especulao em sua 
apreciao do caso.
        - Cus, voc tem o sangue-frio do prprio diabo. Foi um assalto? - ele perguntou suavemente. Contra minha vontade, pude sentir a raiva subindo ao meu rosto.
        - No - eu disse, entre dentes cerrados.
        - Ah. - Ele recostou-se nas almofadas do coche, ainda olhando para mim. - Mas voc no foi machucada, no ?
        Desviei o olhar, fitando a rua que passava, mas pude sentir seus olhos, espreitando a gola do meu vestido, descendo pela curva dos meus quadris.
        - Eu, no - respondi. - Mas minha amiga...
        - Compreendo. - Ficou em silncio por um instante, depois disse pensativamente. - J ouviu falar em "Les Disciples"?
        Virei-me bruscamente para ele. Ele reclinou-se no canto como um gato encolhendo-se, observando-me com os olhos apertados contra o sol.
        - No. Quem so? - perguntei.
        Ele encolheu os ombros e endireitou-se, olhando alm de mim, para os edifcios do Quai des Orvres que se aproximava, pairando cinzentos e sombrios acima 
do brilho do Sena.
        - Uma espcie de... sociedade. Rapazes de famlia, com interesse em coisas... doentias, digamos assim.
        - Compreendo - eu disse. - E exatamente o que voc sabe sobre Les Disciples?
        - S o que ouvi dizer em uma taverna na Cite - ele disse. - Que a sociedade exige muito de seus membros e o preo da iniciao  alto... para alguns padres.
        - E qual seria? - Desafiei-o com meu olhar. Ele sorriu um pouco sombriamente antes de responder.
        - A virgindade de uma moa, por exemplo. Os mamilos de uma mulher casada. - Lanou um rpido olhar ao meu peito. - Sua amiga  virgem, no ? Ou era?
        Senti ondas de frio e de calor se alternarem pelo meu corpo. Limpei o rosto com o leno e enfiei-o no bolso do meu manto. Tive que tentar duas vezes, pois 
minha mo tremia.
        - Era. O que mais ouviu? Sabe quem est envolvido com Les Disciples? - Dougal sacudiu a cabea. Havia alguns fios prateados nos cabelos castanho-avermelhados 
das tmporas, refletindo a luz da tarde.
        - S boatos. O visconde de Busca, o filho mais novo dos Charmisse talvez. O conde de St. Germain. Ei! Est se sentindo mal, menina?
        Inclinou-se para frente, parecendo consternado, olhando-me atentamente.
        - Estou bem - eu disse, respirando profundamente pelo nariz. -Perfeitamente bem. - Tirei o leno do bolso para enxugar o suor frio da testa.
        "No queremos lhes causar nenhum mal, mesdames." A voz irnica ecoou no fundo da minha mente. O homem de camisa verde era moreno, de altura mediana, esbelto 
e de ombros estreitos. Se essa descrio servia para Jonathan Randall, tambm servia para o conde de St. Germain. Mas eu no teria reconhecido sua voz? Seria possvel 
um homem normal sentar-se  minha frente no jantar, comendo musse de salmo e conversando educadamente, h pouco menos de duas horas aps o incidente na rue du Faubourg 
St. Honor?
        Considerando-se logicamente, entretanto, por que no? Eu mesma fizera isso, afinal. E eu no tinha nenhuma razo em particular para supor que o conde fosse 
um homem normal - pelos meus padres -, se os boatos fossem verdadeiros.
        O coche estava parando e no havia mais tempo para contemplaes. Estaria eu a ponto de assegurar que o homem responsvel pelo estupro de Mary ficasse em 
liberdade, enquanto tambm assegurava a proteo do inimigo mais odiado de Jamie? Respirei fundo, com um estremecimento. No tenho muita escolha, pensei. A vida 
estava acima de tudo; a justia teria simplesmente que esperar a sua vez.
        O cocheiro havia descido e estendia a mo para a maaneta. Mordi o lbio e olhei para Dougal MacKenzie. Ele enfrentou meu olhar com uma ligeira contrao 
dos ombros. O que eu queria dele?
        - Voc confirmar minha histria? - perguntei bruscamente.
        Ele ergueu os olhos para a imponente estrutura do Quai des Orfvres. A brilhante luz da tarde resplandecia atravs da porta aberta.
        - Tem certeza? - ele perguntou.
        - Tenho. - Minha boca estava seca.
        Ele deslizou do assento e estendeu a mo para mim.
        - Ento, vamos rezar para ns dois no acabarmos numa cela.
        Uma hora depois, samos para a rua vazia do comissariat de police. Eu enviara o coche para casa, com receio de que algum que nos conhecesse pudesse v-lo 
parado do lado de fora do Quai des Orfvres. Dougal ofereceu-me o brao e eu o tomei por necessidade. O terreno ali era lamacento e as pedras do calamento da rua 
tornavam um risco andar de chinelas de salto alto.
        - Les Disciples - eu disse, conforme caminhvamos devagar ao longo das margens do Sena, em direo s torres de Notre Dame. - Acha mesmo que o conde de St. 
Germain pode ter sido um dos homens que... nos atacou na rue du Faubourg St. Honor? - Eu estava comeando a tremer, em reao aos acontecimentos, e de cansao e 
de fome; no comera nada desde o desjejum e a falta j se fazia sentir. Apenas o sangue-frio me mantivera em p durante a conversa com a polcia. Agora, a necessidade 
de pensar estava passando e, com ela, a capacidade de faz-lo.
        O brao de Dougal era rgido sob minha mo, mas eu no podia erguer os olhos para ele; precisava concentrar toda a minha ateno nos ps para no escorregar. 
Entrramos na rue Elise e o calamento da rua estava brilhante, molhado e emporcalhado de toda espcie de imundcie. Um carregador arrastando um caixote parou em 
nosso caminho para limpar a garganta e escarrar ruidosamente na rua a meus ps. O catarro esverdeado grudou na curva de uma pedra, finalmente deslizando para flutuar 
indo-lentemente sobre a superfcie de uma pequena poa de lama que se formara no buraco onde faltava uma pedra do calamento.
        - Muhm. - Dougal olhava para baixo e para cima da rua,  procura de uma carruagem, a testa enrugada, imerso em seus pensamentos. - No sei dizer; j ouvi 
coisas piores a respeito desse homem, mas no tive a honra de conhec-lo. - Olhou para mim.
        - Voc se saiu bem at agora - ele disse. - Jack Randall ser trazido para a Bastilha em menos de uma hora. Mas tero que solt-lo mais cedo ou mais tarde 
e eu no apostaria na possibilidade de a raiva de Jamie esfriar nesse meio-tempo. Quer que eu fale com ele, convena-o a no fazer nenhuma bobagem?
        - No! Pelo amor de Deus, fique fora disso! - Ouviu-se o trovejar das rodas de uma carruagem nas pedras do calamento, mas minha voz elevou-se o suficiente 
para fazer as sobrancelhas de Dougal erguerem-se de surpresa.
        - Est bem, ento - disse, obedientemente. - Vou deixar a seu cargo a tarefa de convenc-lo.  teimoso como uma pedra... mas suponho que voc tenha seus 
mtodos, no? - Isso foi dito com um olhar de esguelha e um sorriso afetado e intencional.
        - Darei um jeito. - Eu daria. Teria que dar. Porque tudo que eu dissera a Dougal era verdadeiro. Tudo verdadeiro. E, no entanto, to distante da verdade. 
Porque eu mandaria a causa de Carlos Stuart e seu pai para o inferno com todo o prazer, sacrificaria qualquer esperana de impedir seu mergulho naquela louca empreitada, 
at arriscaria a possibilidade de priso de Jamie, pela cura da brecha que a ressurreio de Randall abrira na mente de Jamie. Eu o ajudaria a matar Randall e sentiria 
apenas alegria em faz-lo, exceto por um nico fator. A nica considerao suficientemente forte para sobrepujar o orgulho de Jamie, ultrapassar a importncia do 
seu senso de masculinidade, a importncia da paz ameaada de sua alma. Frank.
        Essa era a nica idia que me dera foras para atravessar o dia, que me sustentara at muito depois de ter ultrapassado o ponto de colapso. Durante meses, 
achei que Randall estivesse morto e sem filhos, e temi pela vida de Frank. Mas durante esses mesmos meses, senti-me confortada pela presena da aliana lisa de ouro 
no dedo anular da minha mo esquerda.
        Sendo a gmea da aliana de prata de Jamie em minha mo direita, ela era um talism nas horas sombrias da noite, quando as dvidas sobrevinham nos calcanhares 
dos sonhos. Se eu ainda usava sua aliana, ento o homem que a dera a mim iria viver. Repetira isso a mim mesma milhares de vezes. No importava que eu no soubesse 
como um homem morto sem descendentes poderia gerar uma linha de descendncia que levava a Frank; a aliana estava l e Frank viveria.
        Agora eu sabia por que a aliana ainda brilhava em minha mo, o metal frio como meu prprio dedo enregelado. Randall estava vivo, ainda podia se casar, ainda 
podia gerar o filho que transmitiria a vida at Frank. A menos que Jamie o matasse primeiro.
        Eu tomara todas as medidas possveis at o momento, mas o fato com que me deparara no corredor da casa do duque permanecia. O preo da vida de Frank era 
a alma de Jamie e como eu poderia escolher entre elas?
        Um fiacre, uma espcie de txi puxado a cavalo, que vinha em nossa direo, ignorando o chamado de Dougal, passou por ns a toda a brida, sem parar, as rodas 
girando to perto de ns a ponto de respingar lama nas meias de seda de Dougal e na barra do meu vestido.
        Renunciando a uma saraivada de explosivo galico, Dougal brandiu o punho cerrado na direo do coche que se afastava.
        - Bem, e agora? - perguntou retoricamente.
        A bolha de cuspe com catarro flutuava na poa a meus ps, refletindo uma luz cinza. Senti a viscosidade fria da secreo em minha lngua. Estendi a mo e 
agarrei o brao de Dougal, rgido e liso como um galho de pltano. Rgido, mas parecia oscilar, como numa vertigem, lanando-me acima da gua imunda, fedendo a peixe, 
fria e brilhante, que nos cercava. Pontos negros flutuaram diante dos meus olhos.
        - Agora - eu disse -. eu vou vomitar.
        J era quase noite quando retornei  rue Tremoulins. Meus joelhos tremiam e era um esforo colocar um p adiante do outro nas escadas. Dirigi-me direto para 
o quarto para tirar meu manto, imaginando se Jamie j teria voltado.
        J voltara. Parei, petrificada, na soleira da porta, inspecionando o quarto. Minha caixa de remdios estava aberta sobre a mesa. A tesoura que eu usava para 
cortar ataduras jazia semi-aberta sobre a penteadeira. Era um objeto sofisticado, que me fora dado por um fabricante de facas que s vezes trabalhava no UHpital 
des Anges; os cabos eram dourados, trabalhados na forma de cabeas de cegonhas, com os longos bicos formando as lminas de prata da tesoura. Ela brilhava sob os 
raios do sol poente, em meio a uma nuvem de fios de seda vermelho-dourada.
        Dei vrios passos em direo  penteadeira e os fios sedosos, brilhantes, ergueram-se com o deslocamento de ar causado pelos meus movimentos e deslizaram 
pelo tampo do mvel.
        - Santa Me de Deus! - exclamei, num flego s. Ele estivera ali, sem dvida, e agora j se fora. Assim como sua espada.
        Os cabelos permaneciam em mechas espessas, brilhantes, onde haviam cado, espalhando a desordem sobre a penteadeira, o banquinho e o assoalho. Peguei um 
cacho tosado de cima da penteadeira e fiquei segurando-o, sentindo os cabelos do tufo macio e sedoso separarem-se entre meus dedos como os fios de seda para bordar. 
Senti um pnico frio que comeou em algum lugar entre minhas omoplatas e desceu pela minha espinha dorsal. Lembrei-me de Jamie, sentado na fonte atrs da casa dos 
Rohan, contando-me como lutara seu primeiro duelo em Paris.
        "A tira de couro que prendia meus cabelos se soltou e o vento os jogou sobre meu rosto, de modo que eu mal conseguia ver o que estava fazendo."
        No quis correr esse risco outra vez. Vendo a prova que ele deixara para trs, sentindo o tufo de cabelos em minha mo, macio e ainda cheio de vida, eu podia 
imaginar a fria deliberao com que ele fizera aquilo; o corte das lminas de metal contra seu crnio conforme ele eliminava tudo que pudesse obscurecer sua viso. 
Nada iria se interpor entre ele e o assassinato de Jonathan Randall.
        Nada, exceto eu. Ainda segurando o tufo de cabelos, dirigi-me  janela e fiquei olhando para fora, como se esperasse v-lo na rua. Mas a rue Tremoulins estava 
silenciosa, nada se movia alm das sombras oscilantes dos lamos junto aos portes e o pequeno movimento de um criado, parado ao porto de uma casa  esquerda, conversando 
com um vigia que sacudia seu cachimbo para enfatizar seu argumento.
        A casa zumbia tranqilamente ao meu redor, com os preparativos do jantar ocorrendo no subsolo. Nenhum convidado era esperado esta noite de modo que a azfama 
de costume estava reduzida; comamos de maneira simples quando estvamos sozinhos.
        Sentei-me na cama e fechei os olhos, entrelaando as mos sobre meu ventre cada vez mais volumoso, o tufo de cabelos agarrado com fora como se eu pudesse 
manter Jamie a salvo se no o soltasse.
        Eu teria agido a tempo? Teria a polcia encontrado Jack Randall antes de Jamie? E se tivessem chegado ao mesmo tempo ou simplesmente a tempo de encontrar 
Jamie desafiando Randall para um duelo formal? Esfreguei o cacho de cabelos entre o polegar e o indicador, espalhando as pontas cortadas como um pequeno leque castanho-avermelhado 
e mbar. Bem, se assim tiver sido, ao menos ambos estaro a salvo. Na priso, talvez, mas essa era uma considerao menos importante em comparao a outros perigos.
        E se Jamie tivesse encontrado Randall primeiro? Olhei para fora; a luz do dia desaparecia rapidamente. Os duelos eram tradicionalmente realizados no alvorecer, 
mas no sei se Jamie teria esperado at de manh. Podiam estar enfrentando-se neste exato momento, em algum lugar isolado, onde a coliso de ao e o grito do ferimento 
mortal no atrairiam nenhuma ateno.
        Porque certamente seria uma luta mortal. O que havia entre esses dois homens somente seria resolvido com a morte. E de quem seria essa morte? De Jamie? Ou 
de Randall - e com a morte dele, a de Frank tambm? Jamie, provavelmente, era um espadachim melhor, mas como desafiado, Randall poderia escolher as armas. E o sucesso 
com pistolas estava menos na habilidade do atirador do que em sua sorte; somente as melhores pistolas possuam uma mira certeira e mesmo essas eram propensas a no 
atingir o alvo ou outros acidentes. Tive a sbita viso de Jamie, inerte e silencioso na relva, o sangue jorrando de uma rbita vazia, e o cheiro de plvora forte 
entre os aromas da primavera no Bois de Boulogne.
        - O que diabos est fazendo, Claire?
        Ergui a cabea abruptamente, com tanta fora que mordi a lngua. Seus dois olhos estavam nas respectivas rbitas e em sua posio correta, fitando-me de 
cada lado do nariz afilado. Eu nunca o vira com o cabelo cortado to rente. Fazia-o parecer um estranho, os ossos fortes do rosto ntidos sob a pele e o topo de 
seu crnio visvel sob o cabelo espesso e curto,  escovinha.
        - O que estou fazendo? - repeti. Engoli, tentando umedecer minha boca seca. - O que estou fazendo? Estou sentada aqui com uma mecha do seu cabelo na mo, 
imaginando se voc est morto ou no!  isso que estou fazendo!
        - No estou morto. - Atravessou o quarto at o armrio e o abriu. Usava sua espada, mas havia trocado de roupa desde a nossa visita  casa de Sandringham; 
agora, estava vestido com seu casaco velho, o que lhe permitia liberdade de movimentos com os braos.
        - Sim, notei - eu disse. - Muito atencioso de sua parte vir me contar.
        - Vim buscar minhas roupas. - Tirou duas camisas e seu manto comprido de dentro do armrio e colocou-os sobre um banco, enquanto se dirigia  cmoda para 
remexer nas gavetas, recolhendo roupas de baixo.
        - Suas roupas? Mas afinal de contas aonde voc vai? - No sabia o que esperar ao v-lo, mas certamente no esperara por isso.
        - Para uma hospedaria. - Olhou para mim, depois aparentemente concluiu que eu merecia mais do que uma explicao de trs palavras. Virou-se e encarou-me, 
os olhos azuis e opacos como lazulita.
        - Quando a mandei para casa no coche, caminhei durante algum tempo, at conseguir recuperar o autocontrole. Ento, vim para casa para pegar minha espada 
e retornei  casa do duque para apresentar a Randall um desafio formal. O mordomo disse-me que Randall tinha sido detido pela polcia.
        Seu olhar demorou-se sobre mim, distante como as profundezas do oceano. Engoli em seco outra vez.
        - Fui  Bastilha. Disseram-me que voc entrara com uma acusao contra Randall, dizendo que ele atacara voc e Mary Hawkins na outra noite. Por que, Claire?
        Minhas mos tremiam e eu soltei o tufo de cabelos que estava segurando. Sua coeso perturbada pelo manuseio, ele se desintegrou e os belos fios ruivos espalharam-se, 
soltos, pelo meu colo.
        - Jamie - eu disse, e minha voz tambm tremia. - Jamie, voc no pode matar Jack Randall.
        Um dos cantos de sua boca contorceu-se, apenas ligeiramente.
        - No sei se devo ficar enternecido com sua preocupao pela minha segurana ou ofendido por sua falta de confiana em mim. Mas, em qualquer dos dois casos, 
voc no precisa se preocupar. Eu posso mat-lo. Facilmente. - A ltima palavra foi proferida em voz baixa, com um tom subjacente que misturava veneno e satisfao.
        - No  isso que eu quero dizer! Jamie...
        - Felizmente - ele continuou, como se no estivesse me ouvindo -, Randall pode provar que estava na casa do duque durante toda a noite do estupro. Assim 
que a polcia terminar de interrogar os convidados que estavam presentes e ficarem convencidos de que Randall  inocente, ao menos dessa acusao, ele ser liberado. 
Vou ficar na hospedaria at ele ser libertado. Ento, eu o encontrarei. - Seus olhos estavam fixos no armrio.
        Mas obviamente ele estava vendo algo diferente. - Ele estar  minha espera - disse num sussurro.
        Enfiou as camisas e roupas de baixo em uma bolsa de viagem e pendurou o manto no brao. Virava-se para atravessar a porta quando eu dei um salto da cama 
e o segurei pela manga.
        - Jamie! Pelo amor de Deus, Jamie, oua-me! Voc no pode matar Jack Randall porque eu no vou deixar!
        Olhou-me fixamente, com absoluta perplexidade.
        - Por causa de Frank - eu disse. Soltei sua manga e recuei um passo.
        - Frank - ele repetiu, sacudindo a cabea ligeiramente como se quisesse clarear os ouvidos de um zumbido. - Frank.
        - Sim - eu disse. - Se matar Jack Randall agora, ento Frank... ele no existir. Ele no nascer. Jamie, no pode matar um homem inocente!
        Seu rosto, normalmente de um bronze claro e avermelhado, desbotara para um branco manchado enquanto eu falava. Em seguida, o vermelho comeou a elevar-se 
outra vez, queimando as pontas das orelhas e incendiando suas faces.
        - Um homem inocente?
        - Frank  um homem inocente! No me importo com Jack Randall...
        - Bem, eu me importo! - Agarrou a bolsa e caminhou a passos largos e pesados em direo  porta, o manto ondeando-se sobre seu brao. - Por Deus, Claire! 
Voc tentaria me impedir de realizar minha vingana contra o homem que me fez de prostituta para ele? Que me forou a ficar de joelhos e me obrigou a chupar seu 
pnis, sujo do meu prprio sangue? Meu Deus, Claire! - Escancarou a porta com um safano e j estava no corredor quando eu o alcancei.
        J escurecera, mas os criados haviam acendido as velas e o corredor resplandecia com uma luz clida e suave. Segurei-o pelo brao e puxei-o.
        -Jamie! Por favor!
        Ele sacudiu o brao impacientemente, livrando-se de mim. Eu estava quase chorando, mas contive as lgrimas. Peguei a bolsa de viagem e arranquei-a de sua 
mo.
        - Por favor, Jamie! Espere s um ano! O filho de Randall ser concebido em dezembro. Depois disso, no tem mais importncia. Mas, por favor, por mim, Jamie, 
espere at l!
        Os candelabros sobre a mesa debruada de dourado lanavam sua sombra, enorme e bruxuleante, contra a parede mais distante. Ele olhou fixamente para ela, os 
punhos cerrados, como se estivesse se defrontando com um gigante, impassvel e ameaador, que se erguia acima dele.
        - Sim - murmurou, como se falasse consigo mesmo -, sou um grande sujeito. Grande e forte. Posso agentar muita coisa. Sim, eu posso
        - Eu posso agentar muita coisa! Mas s porque eu posso, significa que devo? Eu tenho que suportar as fraquezas de todo mundo? No posso ter as minhas prprias?
        Comeou a andar de um lado para o outro no corredor, a sombra Seguindo-o num silencioso frenesi.
        - Voc no pode pedir isso a mim! Voc, voc, entre todas as pessoas! Voc, que sabe o que... o que... - Engasgou-se, ficou sem fala de raiva.
        Esmurrava a parede de pedra da passagem repetidamente enquanto andava, golpeando a lateral do punho cerrado cruelmente na parede de calcrio. A pedra absorvia 
cada pancada com uma violncia silenciosa.
        Voltou e parou  minha frente, respirando pesadamente. Fiquei parada, imvel, com medo de me mexer ou de falar. Ele balanou a cabea uma ou duas vezes, 
rapidamente, como se estivesse tomando uma deciso, depois sacou a adaga da bainha com um zunido e segurou-a diante do meu nariz. Com visvel esforo, falou calmamente:
        - Voc pode escolher, Claire. Ou ele ou eu. - As chamas das velas danavam no metal polido enquanto ele girava a lmina lentamente. - No posso viver enquanto 
ele estiver vivo. Se no quer que eu o mate, ento me mate voc mesma, agora! - Agarrou minha mo e forou meus dedos em volta do cabo da adaga. Rasgando o jab 
de renda, deixou a garganta  mostra e puxou minha mo violentamente para cima, os dedos em volta dos meus, segurando-os com firmeza.
        Puxei meu brao para trs com todas as minhas foras, mas ele forou a ponta da lmina contra a cavidade macia, acima da clavcula, logo abaixo da cicatriz 
lvida que a prpria faca de Randall deixara ali anos antes.
        - Jamie! Pare com isso! Pare agora mesmo! - Desci a outra mo violentamente sobre seu pulso, fazendo sua mo afrouxar o suficiente para eu livrar meus dedos 
com um puxo. A adaga bateu ruidosamente no cho, saltando das pedras at uma silenciosa aterrissagem na extremidade de um tapete Aubusson. Com aquela clareza de 
viso para pequenos detalhes que aflige os mais terrveis momentos da vida, vi que a lmina jazia perfeitamente atravessada sobre a haste curvilnea de um cacho 
de gordas uvas verdes, como se estivesse prestes a cort-la, soltando as uvas da trama e as fazendo rolar aos nossos ps.
        Ele ficou paralisado diante de mim, o rosto lvido como o marfim, os olhos chamejando. Agarrei seu brao, rgido como madeira sob meus dedos.
        - Por favor, acredite-me, por favor. Eu no faria isso se houvesse qualquer outro modo. - Inspirei, uma respirao profunda e trmula, para acalmar a pulsao 
desenfreada sob minhas costelas.
        - Voc me deve sua vida, Jamie. No uma, mas duas vezes. Salvei-o de ser enforcado em Wentworth e quando teve febre na abadia. Voc me deve
        Fitou-me por um longo instante antes de responder. Quando o fez sua voz estava calma outra vez, com um tom de amargura.
        - Compreendo. E voc vai cobrar o pagamento dessa dvida agora? -Seus olhos ardiam com o azul profundo e claro que queima no ncleo de uma chama.
        - Eu tenho que fazer isso! No consigo cham-lo  razo de nenhuma outra forma!
        - Razo. Ah, razo. No, no posso dizer que razo seja algo que eu consiga ver no momento. - Entrelaou as mos atrs das costas, segurando os dedos rgidos 
da mo direita com os dedos curvados da mo esquerda. Afastou-se lentamente de mim, pelo corredor interminvel, a cabea baixa.
        As paredes do corredor eram cobertas por uma fileira de quadros de cada lado, alguns iluminados de baixo para cima por uma tocheira ou candelabros, outros 
de cima para baixo por castiais dourados presos  parede; alguns, menos favorecidos, escondiam-se na escurido entre uma fonte de luz e outra. Jamie caminhou devagar 
entre eles, erguendo os olhos de vez em quando, como se conversasse com a galeria de figuras de peruca e rostos pintados.
        O corredor cobria toda a extenso do segundo andar, acarpetado, ostentando tapearias nas paredes, e com enormes janelas de vitrais em cada ponta. Ele caminhou 
at o outro extremo, depois, dando a volta com a preciso de um soldado numa parada militar, percorreu todo o caminho de volta, sempre num passo lento e formal. 
Para cima e para baixo, para cima e para baixo, sem parar.
        Minhas pernas tremiam. Deixei-me cair numa poltrona perto do final da passagem. Uma vez um dos onipresentes criados aproximou-se obse-quiosamente para perguntar 
se madame gostaria de um pouco de vinho ou talvez de biscoitos? Dispensei-o com um aceno da mo da forma mais educada que consegui, e esperei.
        Finalmente, ele se aproximou e parou diante de mim, os ps plantados, bem afastados, em sapatos de fivelas de prata, as mos ainda entrelaadas s costas. 
Esperou que eu erguesse os olhos para ele antes de falar. Seu rosto estava circunspecto, sem nenhum trejeito de agitao que o trasse, embora as linhas perto dos 
olhos estivessem fundas com o esforo.
        - Um ano, ento - foi tudo que ele disse. Virou-se imediatamente e j estava a alguns metros de distncia quando consegui sair da funda poltrona de veludo 
verde. Eu mal havia conseguido ficar de p quando ele de repente deu meia-volta e passou de novo por mim, alcanou a enorme janela de vitrais com trs passadas e 
estilhaou-a com a mo direita.
        A janela era composta de milhares de minsculos vidros coloridos, fixados com tiras de chumbo derretido. Embora a janela inteira, uma cena mitolgica do 
Julgamento de Paris, tivesse estremecido em sua armao, as molduras de chumbo mantiveram a maioria dos vidros intacta; apesar do estrondo e dos tinidos, somente 
um buraco debruado de estilhaos pontu-dos, aos ps de Afrodite, dava passagem ao ameno ar de primavera.
        Jamie ficou parado por um instante, apertando as duas mos com fora contra a regio do estmago. Uma mancha vermelho-escura comeou a se espalhar pelo punho 
da camisa, enfeitado de babados de renda como uma camisola nupcial. Passou apressadamente por mim mais uma vez quando eu me aproximava dele e afastou-se a passos 
largos, sem falar comigo.
        Desabei novamente na poltrona, com tanta fora que levantei uma pequena nuvem de poeira do estofamento. Fiquei ali, lnguida, os olhos fechados, sentindo 
a brisa fria da noite me banhar. Meus cabelos estavam midos nas tmporas e eu podia sentir minha pulsao, rpida como a de um pssaro, na base da minha garganta.
        Ele me perdoaria algum dia? Meu corao apertou-se como um punho cerrado  lembrana do conhecimento da traio em seus olhos. "Como pode pedir isso de mim!", 
ele dissera. "Voc, voc que sabe..." Sim, eu sabia, e achei que o fato de saber iria me afastar de Jamie, como eu fora afastada de Frank.
        Mas quer Jamie pudesse me perdoar ou no, eu jamais me perdoaria se condenasse um homem inocente - e um homem que um dia eu amara.
        - Os pecados dos pais - murmurei comigo mesma. - Os pecados dos pais no devem ser infligidos aos filhos.
        - Madame?
        Com um sobressalto, abri os olhos, deparando-me com uma camareira igualmente espantada, dando um passo para trs. Coloquei a mo sobre meu corao acelerado, 
arfando.
        - Madame, est se sentindo mal? Devo ir chamar...
        - No - eu disse, com a voz mais firme que consegui. - Estou perfeitamente bem. Quero ficar sentada aqui por um instante. Por favor, deixe-me.
        A jovem parecia mesmo ansiosa para ir embora dali.
        - Oui, madame! - ela disse, desaparecendo pelo corredor. Permaneci sentada, fitando com o olhar vazio uma cena de amor em um jardim, uma pintura pendurada 
na parede oposta. Sentindo um frio repentino, enrolei-me no meu manto, que no tivera tempo de tirar, e fechei os olhos outra vez.
        Passava da meia-noite quando finalmente fui para nosso quarto de dormir. Jamie estava l, sentado diante de uma mesinha, aparentemente observando um par 
de insetos de asas transparentes adejando perigosamente em volta da nica vela que iluminava o quarto. Deixei minha capa cair no cho e caminhei para ele.
        - No me toque - ele disse. - V para a cama. - Falou quase distraida-mente, mas eu parei onde estava.
        - Mas sua mo... - comecei a dizer.
        - No tem importncia. V para a cama - ele repetiu.
        Os ns dos dedos de sua mo direita estavam manchados e o punho de sua camisa estava duro de sangue seco, mas eu no ousaria toc-lo agora, ainda que tivesse 
uma faca enterrada na barriga. Deixei-o fitando a dana da morte dos insetos e fui para a cama.
        Acordei quase ao alvorecer, com a primeira luz do dia esboando os contornos dos mveis no quarto. Pelas portas duplas que davam para a ante-sala, pude ver 
Jamie como eu o deixara, ainda sentado  mesa. A vela j se extinguira, os insetos haviam desaparecido e ele permanecia sentado com a cabea nas mos, os dedos enfiados 
nos cabelos grosseiramente cortados. A luz roubava todas as cores do aposento, at mesmo os cabelos curtos espetados para cima como pequenas chamas entre seus dedos 
estavam apagados, com a cor de cinzas.
        Sa da cama silenciosamente, fria na fina camisola bordada. Ele no se virou quando me aproximei por trs, mas ele sabia que eu estava l. Quando toquei 
em sua mo, ele deixou-a deslizar para a mesa e deixou a cabea cair para trs, at recostar-se logo abaixo dos meus seios. Suspirou profundamente quando comecei 
a friccion-la, e senti a tenso comear a abandon-lo. Minhas mos continuaram a trabalhar pelo pescoo e pelos ombros, sentindo o frio de seus msculos sob o linho 
fino. Finalmente, dei a volta e fiquei diante dele. Ele estendeu os braos e envolveu-me pela cintura, puxando-me para ele e enterrando a cabea em minha camisola, 
logo acima do volume de nosso filho por nascer.
        - Estou com frio - eu disse finalmente, num sussurro. - Quer vir me aquecer?
        Aps um instante, ele assentiu, e colocou-se de p, cambaleando cegamente. Conduzi-o para a cama, tirei suas roupas enquanto ele permanecia sentado sem oferecer 
resistncia e aconcheguei-o sob as cobertas. Deitei-me na curva de seu brao, meu corpo bem junto ao seu, at o frio de sua pele desaparecer e ficarmos confortavelmente 
instalados num bolso de suave calor.
        Experimentalmente, coloquei a mo em seu peito, acariciando-o de um lado para o outro, at que seu mamilo enrijeceu-se, um minsculo ndulo de desejo. Ele 
colocou a mo sobre a minha, fazendo-a parar. Tive medo de que fosse me afastar, e ele o fez, mas somente para que pudesse virar-se para mim.
        A luz estava ficando mais forte e ele passou um longo tempo apenas fitando meu rosto, acariciando-o da fronte ao queixo, correndo o polegar pela linha de 
minha garganta e ao longo da clavcula.
        - Meu Deus, eu realmente a amo - ele murmurou, como se falasse consigo mesmo. Beijou-me, impedindo-me de corresponder, e acariciando um dos meus seios com 
a mo direita aleijada, preparou-se para possuir-me.
        - Mas sua mo... - comecei a dizer, pela segunda vez naquela noite.
        - No tem importncia - ele disse, tambm pela segunda vez naquela noite.
        
        
        
PARTE IV

SCANDALE



22 - O HARAS REAL
        
        O coche sacolejava devagar por um trecho particularmente esburacado da estrada, deixada naquele estado pelas geadas do inverno e pelas fortes chuvas da primavera. 
Fora um ano chuvoso; at mesmo agora, no comeo do vero, havia umidade, poas d'gua sob os luxuriantes arbustos de framboesas e amoras que ladeavam o caminho.
        Jamie sentava-se a meu lado no banco estofado e estreito que formava um dos assentos do coche. Fergus esparramara-se no canto do outro banco, adormecido, 
e o movimento do veculo fazia sua cabea balanar como a cabea de um boneco mecnico com uma mola no lugar do pescoo. O ar no interior do coche estava quente 
e a poeira entrava pelas janelas em pequenos jorros dourados sempre que passvamos por um trecho de terra seca.
        Havamos conversado vagamente no comeo sobre a paisagem rural ao nosso redor, sobre os estbulos reais em Argentan, para onde nos dirigamos, sobre os boatos 
e mexericos que compunham o cardpio dirio das conversas na corte e nos crculos comerciais. Devo ter dormido tambm, embalada pelo ritmo do coche e pelo calor 
do dia, mas os contornos alterados do meu corpo tornavam desconfortvel permanecer sentada numa nica posio e minhas costas doam com os solavancos. O beb estava 
cada vez mais ativo tambm, e as pequenas agitaes dos primeiros movimentos haviam se transformado em cotoveladas e empurres bem definidos; agradveis a seu prprio 
modo, mas incmodos.
        - Talvez voc devesse ter permanecido em casa, Sassenach - Jamie disse, franzindo ligeiramente a testa ao me ver remexendo-me e ajustando minha posio a 
todo instante.
        - Estou bem - eu disse com um sorriso. - Apenas irrequieta. E seria uma pena perder tudo isso. - Fiz um gesto largo em direo  janela do coche, indicando 
a ampla extenso dos campos, brilhando verdes como esmeraldas entre as fileiras de lamos, retos e escuros, que formavam uma barreira contra o vento. Empoeirado 
ou no, o ar puro do campo era fresco e inebriante, depois dos cheiros abafados e ftidos da cidade e dos odores medicinais de L'Hpital des Anges.
        Lus concordara, como um gesto de cautelosa boa vontade em relao s tentativas de dilogo da diplomacia inglesa, em permitir que o duque de
        Sandringham comprasse quatro guas reprodutoras Percheron do haras real em Argentan, para melhorar o pedigree do pequeno rebanho de cavalos de trao que 
Sua Excelncia criava na Inglaterra. Sua Excelncia, portanto estava visitando Argentan hoje e convidara Jamie para acompanh-lo, a fim de aconselh-lo na escolha 
das guas. O convite fora feito durante uma festa e, uma coisa levando a outra, a visita acabara se transformando numa excurso de piquenique em grande escala, envolvendo 
quatro carruagens e vrias damas e cavalheiros da corte.
        -  um bom sinal, no acha? - perguntei, lanando um olhar cauteloso para ter certeza de que nossos acompanhantes estavam realmente adormecidos. - Quero 
dizer, o fato de Lus dar permisso ao duque para comprar cavalos. Se est indicando atravs de gestos como esse uma disposio favorvel em relao aos ingleses, 
ento provavelmente no est inclinado a demonstrar simpatia por Jaime Stuart, ao menos no ostensivamente.
        Jamie sacudiu a cabea. Ele se recusava terminantemente a usar peruca e a forma ousada e desguarnecida de sua cabea tosada provocara grande alvoroo na 
corte. Tinha suas vantagens no momento presente; embora uma leve transpirao brilhasse na ponte de seu nariz reto e longo, ele no estava nem de longe to lnguido 
quanto eu.
        - No, agora estou certo de que Lus no quer ter nada a ver com os Stuart, pelo menos no que diz respeito a qualquer iniciativa para a restaurao da monarquia. 
Monsieur Duverney assegura-me que o conselho se ope completamente a isso; embora Lus possa em algum momento ceder a presses do papa para que conceda a Carlos 
uma pequena penso, ele no est disposto a levar os Stuart a nenhum tipo de proeminncia na Frana, com Jorge da Inglaterra olhando por cima do seu ombro. - Ele 
usava seu xale de tart hoje, preso junto ao ombro por um broche - uma bela pea que sua irm lhe enviara da Esccia, no formato de dois veados correndo, os corpos 
inclinados de tal forma que se uniam num crculo, as cabeas e as caudas se tocando. Puxou uma prega do xale e enxugou o rosto.
        - Acho que conversei com todos os principais banqueiros de Paris nos ltimos meses e esto unidos numa falta total de interesse. - Sorriu ironicamente. - 
No h tanta abundncia de dinheiro que algum queira apoiar uma proposta to arriscada como a restaurao dos Stuart.
        - E isso - eu disse, alongando as costas com um gemido - nos deixa a Espanha.
        Ele balanou a cabea, concordando.
        -  verdade. E Dougal MacKenzie. - Olhou-me com um ar presun-oso e eu empertiguei-me no banco, intrigada.
        - Teve notcias dele? - Apesar de uma cautela inicial, Dougal aceitara Jamie como um dedicado companheiro jacobita e a colheita habitual de cartas codificadas 
foi aumentada com uma srie de comunicaes discretas enviadas por Dougal da Espanha, destinadas a serem lidas por Jamie e encaminhadas a Carlos Stuart.
        - Tive, sim. - Pude notar por sua expresso que eram boas notcias. E realmente eram, mas no para os Stuart.
        - Filipe recusou-se a dar qualquer assistncia aos Stuart - Jamie disse. - Ele recebeu uma notificao do gabinete do papa, voc sabe; ele deve manter-se 
afastado de toda questo do trono escocs.
        - E sabemos por qu? - A ltima interceptao de um mensageiro papal revelara vrias cartas, mas como eram todas endereadas a Jaime ou Carlos Stuart, podiam 
perfeitamente no conter nenhuma referncia s conversas de Sua Santidade com a Espanha.
        - Dougal acha que sabe. - Jamie riu. - Ele est muito decepcionado. Disse que foi mantido em banho-maria em Toledo durante quase um ms e depois mandado 
embora com nada alm de uma vaga promessa de ajuda "em algum momento do futuro, Deo volente". - Sua voz grave imitou com perfeio uma entonao piedosa e no pude 
deixar de rir.
        - Benedito quer evitar atritos entre a Espanha e a Frana; no quer ver Filipe e Lus desperdiando dinheiro, para o qual ele tem uma destinao melhor, 
sabe - acrescentou cinicamente. - No fica bem para um papa dizer isso, mas Benedito tem suas dvidas se um rei catlico ainda conseguiria manter a Inglaterra unida. 
A Esccia tem tido seus lderes catlicos entre os cls das Highlands, mas j faz algum tempo desde que a Inglaterra teve um rei catlico.  provvel que ainda se 
passe muito tempo at que tenham outro, Deo volente - acrescentou rindo.
        Coou a cabea, despenteando os cabelos curtos vermelho-dourados acima das tmporas.
        - A situao parece bastante sombria para os Stuart, Sassenach, e isso  uma boa notcia. No, no haver nenhuma ajuda dos monarcas Bourbon. A nica coisa 
que me preocupa agora  esse investimento que Carlos Stuart fez com o conde de St. Germain.
        - Ento, voc no acha que se trata apenas de um investimento?
        - Bem, na verdade,  - disse, franzindo o cenho -, mas parece que h mais alguma coisa por trs. Ouvi uns rumores, sabe?
        Embora as famlias de banqueiros de Paris no estivessem inclinadas a levar o Jovem Pretendente ao trono da Esccia a srio, essa situao poderia mudar 
facilmente, se Carlos Stuart subitamente tivesse dinheiro para investir.
        - Sua Alteza me disse que tem conversado com os Gobelin - Jamie disse. - St. Germain os apresentou; caso contrrio, no teriam lhe dado nenhuma ateno. 
O velho Gobelin o considera um perdulrio e um tolo, e um dos filhos de Gobelin tambm. O outro, entretanto, diz que vai esperar para ver; se Carlos for bem-sucedido 
em sua arriscada iniciativa, ento talvez ele possa colocar outras oportunidades em seu caminho.
        - Isso no  nada bom - observei. Jamie sacudiu a cabea.
        - No. Dinheiro atrai dinheiro. Se ele for bem-sucedido em um ou dois grandes empreendimentos, os banqueiros vo comear a lhe dar ouvidos. O sujeito no 
 muito inteligente - disse, com um sorriso enviesado -, mas  muito sedutor pessoalmente; pode persuadir as pessoas, mesmo contra a voz da razo. Mesmo assim, ele 
no far nenhum progresso sem um pequeno capital em seu nome. Mas ele o ter, se esse investimento for bem-sucedido.
        - Humm. - Mudei de posio outra vez, contorcendo os dedos dos ps em sua quente priso de couro. Os sapatos eram confortveis quando foram feitos para mim, 
mas meus ps comeavam a inchar um pouco e minhas meias de seda estavam midas de suor. - H alguma coisa que possamos fazer a respeito?
        Jamie encolheu os ombros, com um sorriso enviesado.
        - Rezar pelo mau tempo ao largo das costas de Portugal, eu acho. Alm do naufrgio do navio, no vejo muito jeito de a empresa fracassar, verdade seja dita. 
St. Germain j tem contratos para a venda do carregamento inteiro. Tanto ele quanto Carlos Stuart devem triplicar o dinheiro investido.
        Estremeci levemente  meno do conde. No pude deixar de me lembrar das especulaes de Dougal. Eu no contara a Jamie sobre a visita de Dougal, nem sobre 
suas especulaes quanto s atividades noturnas do conde. No gostava de guardar segredos para ele, mas Dougal exigira meu silncio como seu preo por me ajudar 
na questo de Jonathan Randall e eu no tive escolha seno concordar.
        Jamie sorriu para mim e estendeu a mo.
        - Pensarei em alguma coisa, Sassenach. Por enquanto, d-me seus ps. Quando Jenny estava grvida, ela gostava que eu massageasse seus ps.
        No discuti, tirando meus ps de dentro dos sapatos quentes e colocando-os em seu colo com um suspiro de alvio, conforme o ar que entrava pelas janelas 
esfriava a seda mida sobre meus dedos.
        Suas mos eram grandes e seus dedos ao mesmo tempo fortes e delicados. Esfregou os ns dos dedos pelo arco do meu p e eu reclinei-me no assento com um gemido 
de prazer. Rodamos em silncio por vrios minutos, enquanto eu relaxava, entrando num estado de abenoado alheamento.
        Com a cabea inclinada sobre meus dedos envoltos em seda verde, Jamie observou descontrado:
        - No era realmente uma dvida, sabe?
        - O que no era? - Entorpecida pelo calor do sol e pela massagem nos ps, no fazia a menor idia do que ele estava falando.
        Sem parar de massagear, ergueu os olhos para mim. Sua expresso era sria, embora o vestgio de um sorriso iluminasse seus olhos.
        - Voc disse que eu lhe devia uma vida, Sassenach, porque voc salvara a minha. - Segurou um dedo e sacudiu-o. - Mas eu estive pensando e no tenho certeza 
que isso seja verdade. Parece-me que estamos quites, se considerarmos tudo.
        - O que quer dizer com estarmos qtes? - Tentei libertar meu p, mas ele segurou-o com firmeza.
        - Se voc salvou minha vida, e realmente salvou, eu tambm salvei a sua e no mesmo nmero de ocasies. Eu a salvei de Jack Randall em Fort William, voc 
se lembra, e eu a arranquei da multido enfurecida em Cranesmuir, no foi?
        - Sim - respondi cautelosamente. No fazia a menor idia de onde ele queria chegar, mas ele no estava apenas mantendo uma conversa. - Sou grata por isso, 
 claro.
        Ele emitiu um pequeno som escocs, no fundo da garganta, dispensando o agradecimento.
        - No  uma questo de gratido, Sassenach, da sua parte ou da minha. O que estou dizendo  apenas que tambm no  uma questo de obrigao. - O sorriso 
desaparecera de seus olhos e ele estava completamente srio.
        - Eu no lhe dei a vida de Randall em troca da minha, no seria uma troca justa, para comear. Feche a boca, Sassenach - disse, de modo prtico - ou vai 
engolir uma mosca. - Havia, de fato, vrios insetos presentes; trs estavam pousados na frente da camisa de Fergus, sem se perturbarem com o constante sobe e desce.
        - Por que concordou, ento? - Parei de lutar e ele envolveu meus ps com as duas mos, esfregando os polegares lentamente sobre as curvas dos meus calcanhares.
        - Bem, no foi por nenhuma das razes que voc tentava me fazer ver. Quanto a Frank - ele disse -, bem,  verdade que eu tomei sua mulher e sinto pena dele 
por isso, s vezes mais do que em outras - acrescentou, com um trejeito insolente de uma das sobrancelhas. - No entanto, seria diferente se ele fosse meu rival aqui? 
Voc teve livre escolha entre ns dois e escolheu a mim, apesar de luxos como banhos quentes ter pesado a favor dele. Uuuf! - Liberei um dos ps com um safano e 
enfiei-o em suas costelas. Ele endireitou-se e agarrou-o, a tempo de me impedir de repetir o golpe.
        - Est arrependida da escolha?
        - Ainda no - eu disse, lutando para recuperar meu p. - Mas posso me arrepender a qualquer momento. Continue falando.
        - Muito bem, ento. Eu no podia entender por que o fato de voc ter me escolhido dava a Frank Randall o direito de uma considerao especial. Alm do mais 
- disse francamente -, devo admitir que fiquei com um pouco de cime do sujeito.
        Chutei-o com meu outro p, mirando mais embaixo. Ele segurou este p antes que atingisse o alvo, torcendo habilmente meu tornozelo.
        - Quanto a dever-lhe sua vida, em princpios gerais - continuou, ignorando minhas tentativas de escapar -, esse  um argumento que o irmo Anselmo na abadia 
poderia responder melhor do que eu. Certamente, eu no mataria um homem inocente a sangue-frio. Mas eu j matei homens numa batalha, e isso seria diferente?
        Lembrei-me do soldado e do garoto na neve que eu matara em nossa fuga de Wentworth. Eu j no me atormentava com essas lembranas, mas sabia que elas jamais 
me deixariam.
        Ele sacudiu a cabea.
        - No, voc pode levantar muitos argumentos bons sobre isso, mas no final das contas, tais escolhas resumem-se a uma s: voc mata quando tem que matar e 
voc vive com isso depois. Lembro-me do rosto de todos os homens que matei e sempre me lembrarei. Mas o fato permanece, eu estou vivo e eles no, e essa  a minha 
nica justificativa, quer seja certa ou errada.
        - Mas isso no  verdade neste caso - ressaltei. -  um caso de matar ou ser morto.
        Ele sacudiu a cabea, desalojando uma mosca que se assentara em seu cabelo.
        - Nisso voc est errada, Sassenach. O que existe entre Jack Randall e mim s ser resolvido quando um de ns morrer, e talvez nem mesmo assim. H outras 
maneiras de matar sem ser com uma faca ou uma arma de fogo e h coisas piores do que a morte fsica. - Seu tom de voz abrandou-se. - Em Ste. Anne, voc me arrancou 
de mais de uma forma de morte, mo duinne, e nunca pense que eu no sei disso. - Sacudiu a cabea. - Talvez, afinal de contas, eu lhe deva mais do que voc me deve.
        Soltou meus ps e reposicionou suas longas pernas.
        - E isso me leva a considerar sua conscincia, bem como a minha. Afinal, voc no fazia a menor idia do que iria acontecer quando fez sua escolha e uma 
coisa  abandonar um homem e outra  conden-lo  morte.
        Eu no estava gostando nem um pouco daquela maneira de descrever minhas aes, mas no podia me esquivar dos fatos. Eu havia, de fato, abandonado Frank e 
embora pudesse no me arrepender da escolha que fizera, ainda assim eu lamentava e sempre lamentaria a necessidade de faz-lo. As palavras seguintes de Jamie ecoaram 
meus pensamentos de forma assustadora.
        Ele continuou:
        - Se voc soubesse que isso poderia significar, digamos, a morte de Frank, talvez tivesse feito uma escolha diferente. Considerando-se que voc realmente 
me escolheu, eu tenho o direito de tornar os seus atos ainda mais conseqentes do que voc imaginara?
        Absorto nessa argumentao, no se dera conta do seu efeito sobre mim. Vendo a expresso do meu rosto agora, parou repentinamente, observando-me em silncio, 
enquanto seguamos aos solavancos pela paisagem rural.
        - No vejo como possa ser um pecado para voc ter feito o que fez, Claire - ele disse, finalmente, estendendo o brao para repousar a mo sobre meu p revestido 
de seda verde. - Sou seu marido por lei, tanto quanto ele era... ou ser. Voc nem sabe se poderia ter voltado para ele; mo duinne, voc podia ter ido ainda mais 
para trs no tempo, ou ido mais para a frente, para uma poca inteiramente diferente. Voc agiu como achou que devia e ningum pode fazer melhor do que isso. - Ergueu 
os olhos e a expresso de seu olhar penetrou em minha alma.
        - Sou suficientemente honesto para dizer que no me importo com o que possa ser certo ou errado, desde que voc esteja aqui comigo, Claire. - Ele disse, 
com ternura. - Se foi um pecado para voc ter me escolhido... ento vou ao prprio diabo, agradecer por ter tentado voc. - Ergueu meu p e beijou delicadamente 
a ponta do dedo.
        Coloquei a mo em sua cabea; os cabelos curtos espetavam, mas eram macios, como os espinhos de um ourio muito novo.
        - No acho que tenha sido errado - eu disse ternamente. - Mas se foi... ento irei ao diabo com voc, Jamie Fraser.
        Ele fechou os olhos e abaixou a cabea sobre meus ps. Segurou-os com tanta fora que eu podia sentir os longos e delgados metatarsos pressionados uns contra 
os outros; mesmo assim, no retirei os ps. Enfiei os dedos em seus cabelos e puxei-os delicadamente.
        - Ento, por que, Jamie? Por que resolveu deixar Jack Randall viver? Ele ainda segurava meu p, mas abriu os olhos e sorriu para mim.
        - Bem, pensei em muitas coisas, Sassenach, enquanto andava de um lado para o outro naquela noite. Primeiro, achei que voc iria sofrer, se eu realmente matasse 
o canalha. Eu faria, ou no faria, muitas coisas para poup-la de sofrimentos, Sassenach, mas at onde contrabalanar sua conscincia com minha honra?
        - No. - Sacudiu a cabea outra vez, descartando mais um argumento. - Cada um de ns pode ser responsvel por seus prprios atos e sua prpria conscincia. 
O que quer que eu faa no pode ser tributado a voc, independentemente de quais sejam as conseqncias. - Pestanejou os olhos lacrimejando com o vento carregado 
de poeira, e passou a mo pelos cabelos numa tentativa v de alisar as pontas desgrenhadas. Cortados curtos, eles formavam um tufo de pontas espetadas no alto da 
cabea, parecendo um leque rebelde.
        - Por que, ento? - perguntei, inclinando-me para a frente. - Voc me disse s as mos, o que resta?
        Ele hesitou por um instante, mas em seguida olhou-me direto nos olhos.
        - Por causa de Carlos Stuart, Sassenach. At agora, conseguimos impedir todas as grandes somas de dinheiro, mas com esse investimento... bem, ele ainda pode 
conseguir liderar um exrcito na Esccia. E se isso acontecer... bem, voc sabe melhor do que eu o que pode vir a acontecer, Sassenach.
        Eu sabia, e o pensamento enregelou-me. No pude deixar de recordar a descrio de um historiador sobre o destino dos habitantes das Highlands em Culloden 
- "os mortos jaziam uns sobre os outros, encharcados da chuva e do seu prprio sangue".
        Os escoceses, mal administrados e famintos, mas ferozes at o fim, seriam destrudos em uma meia hora decisiva. Foram amontoados uns sobre os outros e abandonados, 
sangrando numa fria chuva de abril, a causa que haviam alimentado por cem anos morta junto com eles.
        Jamie estendeu o brao e segurou minhas mos.
        - Acho que no vai acontecer, Claire; penso que conseguiremos impedi-lo. E se no conseguirmos, ainda assim no acredito que alguma coisa venha a me acontecer. 
Mas se acontecer... - Parecia extremamente ansioso agora, falando em voz baixa e ardente. - Se acontecer, quero que haja um lugar para voc; quero que haja algum 
para quem voc possa ir se eu... no estiver mais l para cuidar de voc. Se no puder ser eu, ento quero que seja um homem que a ame. - Apertou meus dedos com 
mais fora; eu podia sentir as duas alianas penetrando em minha carne e sentir a ansiedade em suas mos.
        - Claire, voc sabe o que me custa fazer isso por voc: poupar a vida de Randall. Prometa-me que, se o momento chegar, voc voltar para Frank. - Seus olhos 
inspecionaram meu rosto, azul-escuros como o cu na janela s suas costas. -J tentei mand-la de volta duas vezes antes. E agradeo a Deus por voc no ter ido. 
Mas, se houver uma terceira vez, prometa-me que voltar para ele, para Frank. Porque  por isso que poupei a vida de Jack Randall por um ano, por voc. Prometa-me, 
Claire.
        - Allez! Allezl Montezl - O cocheiro gritou de cima do seu banco, encorajando os cavalos a subir uma ladeira. Estvamos quase chegando.
        - Est bem - eu disse finalmente. - Eu prometo.
        Os estbulos de Argentan eram limpos e arejados, cheirando a vero e cavalos. Em uma baia aberta, Jamie circundou uma gua Percheron, encantado como uma 
mutuca.
        - Ooh, que rapariga bonita voc ! Venha c, benzinho, deixe-me ver esse belo e gordo traseiro. Muhm, sim, que beleza!
        - Quisera que meu marido falasse assim comigo - comentou a duquesa de Neve, provocando risadinhas das outras senhoras do grupo, que permaneciam de p na 
palha do corredor central, observando.
        - Talvez ele o fizesse, madame, se a sua prpria viso de costas oferecesse tal estmulo. Mas, por outro lado, talvez seu marido no compartilhe a apreciao 
de milorde Broch Tuarach por um traseiro bem torneado. -O conde de St. Germain deixou os olhos percorrerem meu corpo com uma pitada de desdenhosa ironia. Tentei 
imaginar aqueles olhos negros brilhando pelas fendas de uma mscara e pude reconhec-los muito bem. Infelizmente, os babados de renda do punho de sua camisa iam 
alm dos ns dos dedos de suas mos; eu no podia ver a forquilha entre seu polegar e o indicador.
        Ouvindo a conversa paralela, Jamie apoiou-se muito  vontade nas largas ancas da gua, somente a cabea, os ombros e os braos  mostra, acima do corpo volumoso 
da Percheron.
        - Milorde Broch Tuarach aprecia a beleza onde possa ser encontrada, monsieur le comte; mulher ou animal. No entanto, ao contrrio de alguns que eu poderia 
citar, sou capaz de diferenciar uma da outra. - Riu maliciosamente para St. Germain, depois deu uns tapinhas de despedida no pescoo da gua quando o bando comeou 
a se dispersar, rindo.
        Jamie tomou meu brao para me conduzir ao estbulo seguinte, seguido mais lentamente pelo resto do grupo.
        - Ah - ele disse, inalando a mistura de cheiros de feno, cavalos, arreios e estrume como se fosse incenso. - Eu realmente sinto falta do cheiro de um estbulo. 
E o campo me deixa saudoso da Esccia.
        - No se parece muito com a Esccia - eu disse, estreitando os olhos contra o sol ofuscante quando emergimos da obscuridade do estbulo.
        - No, mas  o campo - ele disse -,  limpo,  verde e no h nenhuma fumaa no ar ou esgoto embaixo dos seus ps. A menos que conte excremento de cavalo, 
o que eu no fao.
        O sol do comeo do vero brilhava nos telhados de Argentan, urrii cidadezinha aninhada entre colinas verdejantes e suavemente ondeadas. o haras real ficava 
logo na periferia da vila, com construes muito mais slidas do que as casas dos sditos do rei ali perto. Os celeiros e estbulos eram de pedra lavrada, assoalhos 
de pedra e telhados de ardsia. Eram mantidos numa condio de limpeza que ultrapassava em muito a de L'Hpital des Anges.
        Um sonoro zumbido veio de trs de um estbulo e Jamie parou bruscamente, bem a tempo de evitar um choque com Fergus, que surgiu diante de ns como se tivesse 
sido atirado por um estilingue, perseguido nos calcanhares por dois jovens cavalarios, ambos bem maiores do que ele. Uma mancha verde de excremento fresco do lado 
do rosto de um deles dava uma pista da causa da altercao.
        Com considervel presena de esprito, Fergus deu meia-volta, passou como uma flecha pelo meio de seus perseguidores e zuniu para dentro do grupo, onde se 
refugiou atrs da fortaleza dos quadris revestidos de kilt de Jamie. Vendo sua presa assim protegida, seus perseguidores olharam aterrorizados para a falange de 
homens e mulheres da corte que vinha em sua direo, trocaram um olhar de.deciso e, simultaneamente, viraram-se e fugiram.
        Vendo-os bater em retirada, Fergus esticou o pescoo de trs de minha saia e gritou alguma coisa em francs chulo, o que prontamente lhe angariou um tabefe 
na orelha por parte de Jamie.
        - Saia j daqui - ele disse rispidamente. - E pelo amor de Deus, no atire bosta de cavalo em gente maior do que voc. Agora, v e fique longe de confuso. 
- Completou o conselho com uma saudvel palmada no traseiro de calas curtas, o que fez Fergus sair cambaleando na direo oposta quela tomada pelos seus atacantes 
anteriores.
        Eu ficara em dvida quanto  convenincia de levar Fergus conosco nesta excurso, mas a maioria das mulheres estava levando pajens em sua companhia, para 
prestar-lhes pequenos servios e carregar as cestas de comidas e outras parafernlias consideradas essenciais para um passeio de um dia. E Jamie quis mostrar um 
pouco do campo ao garoto, achando que ele merecia um dia de folga. Tudo muito justo, exceto que Fergus, que nunca estivera fora de Paris em toda a sua vida, ficara 
exaltado demais com o ar, a luz e os belos e enormes animais bem debaixo do seu nariz. Assim, tresloucado de nervosismo e agitao, no parara de se meter em confuso 
desde a nossa chegada.
        - S Deus sabe o que ele far em seguida - eu disse, sombriamente, vendo a figura de Fergus se afastar. - Vai pr fogo em um dos montes de feno.
        Jamie permaneceu impassvel diante da idia.
        - Ele vai ficar bem. Todos os garotos se metem em guerra de coc.
        -  mesmo? - Virei-me, examinando St. Germain, imaculado em linho branco, sarja branca e seda branca, inclinando-se cortesmente para ouvir a duquesa, conforme 
ela caminhava com afetao pelo ptio coberto de palha.
        - Talvez voc tenha se metido - eu disse. - No ele. Nem o bispo, tampouco, no creio.
        Eu me perguntava se aquela excurso fora uma boa idia, ao menos da minha parte. Jamie estava em seu elemento, com os gigantes Percheron e o duque estava 
visivelmente impressionado com ele, o que era timo. Por outro lado, minhas costas doam terrivelmente da viagem de coche e meus ps estavam quentes e inchados, 
pressionados e doloridos contra o couro apertado dos meus sapatos.
        Jamie olhou para mim e sorriu, apertando minha mo pousada em seu brao.
        - No vai demorar muito mais, Sassenach. O guia quer nos mostrar o local onde os cavalos reproduzem e depois voc e as outras senhoras podero ir se sentar 
para comer, enquanto os homens ficam por l fazendo piadas grosseiras sobre o tamanho do pnis um do outro.
        - Esse  o efeito geral da observao de cavalos procriando? - perguntei, fascinada.
        - Bem, nos homens ; no sei qual o efeito nas mulheres. Mantenha os ouvidos atentos e talvez depois voc possa me contar.
        Havia de fato um ar de excitao reprimida entre os membros do grupo conforme nos aglomeramos nas instalaes um tanto apertadas de um estbulo de reproduo. 
De pedra, como as outras construes, esta no era dividida em baias de ambos os lados de uma passagem central, mas possua um pequeno curral delimitado por uma 
cerca baixa, com boxes individuais de cada lado e uma espcie de corredor estreito ao longo da parte de trs. Desse corredor, saam diversos portes que podiam ser 
abertos ou fechados para controlar os movimentos de um cavalo.
        O prdio em si era claro e arejado, graas a enormes janelas sem vidraas, abertas em cada uma das extremidades, dando vista para um cercado gramado. Eu 
podia ver vrias das enormes guas Percheron pastando junto  cerca; uma ou duas pareciam irrequietas, ensaiando um galope chocalhante, depois retornando a um trote 
ou marcha, sacudindo as cabeas e as crinas com um relincho alto e estridente. Uma vez, quando isso aconteceu, ouviu-se um grito alto e nasal de um dos boxes no 
final da cabana e o painel divisrio sacudiu-se com o baque surdo de um poderoso coice de seu ocupante.
        - Se voc encontrar algum que saiba fazer outra coisa alm de enfia lo no primeiro buraco que aparece, diga-me. Eu estaria interessada em ver o que mais 
pode ser feito com algo assim.
        - Ao menos, voc tem um que est interessado - interrompeu a duquesa de Neve. Lanou um olhar de repulsa para o marido, reunido com os outros homens perto 
de um dos cercados, observando uma gua arreada sendo treinada.
        - Hoje no, querida - ela imitou os tons sonoros e fanhosos de seu marido com perfeio. - Estou fatigado. - Colocou a mo na testa e revirou os olhos para 
cima. - A presso dos negcios  to desgastante. -Encorajada pelas risadas, ela continuou a imitao, agora arregalando os olhos de horror e cruzando as mos protetoramente 
sobre o colo. - O que, de novo? Voc no sabe que gastar a essncia masculina gratuitamente  um convite  doena? J no basta que suas exigncias tenham me desgastado 
a ponto de me transformar num sabugo pequeno, Mathilde? Quer que eu tenha um ataque?
        As mulheres gargalhavam e dobravam-se de rir, alto o suficiente para atrair a ateno do bispo, que acenou para ns e sorriu indulgentemente, provocando 
novas ondas de risos.
        - Bem, ao menos ele no est gastando toda a sua essncia masculina em bordis, ou em outro lugar - disse madame Prudhomme, com um eloqente olhar de compaixo 
 condessa de St. Germain.
        - No - disse Mathilde, melancolicamente. - Ele o guarda como se fosse ouro. - At parece que est em falta, do jeito que ele... ah, Excelncia! Aceita um 
copo de vinho? - Sorriu encantadoramente para o duque, que se aproximara silencioso por trs. Ficou parado, sorrindo para as mulheres, uma das sobrancelhas louras 
ligeiramente arqueadas. Se tinha ouvido o assunto de nossa conversa, no demonstrou.
        Sentando-se a meu lado na toalha, Sua Excelncia entabulou uma conversa amena e divertida com as senhoras, a voz estranhamente aguda no fazendo nenhum contraste 
com as vozes femininas. Embora ele parecesse prestar muita ateno  conversa, notei que seus olhos desviavam-se periodicamente para o pequeno aglomerado de homens 
junto  cerca do curral. O exuberante kilt de Jamie destacava-se, mesmo em meio aos suntuosos veludos bem talhados e s sedas forradas.
        Senti certa hesitao em voltar a me encontrar com o duque. Afinal, nossa ltima visita terminara com a priso de Jonathan Randall, sob a minha acusao 
de tentativa de estupro. Mas o duque era todo gentileza e civilidade neste passeio, sem nenhuma meno a nenhum dos dois irmos Randal. Nem houve nenhuma meno 
pblica da priso. Quaisquer que fossem as atividades diplomticas do duque, pareciam estar num nvel suficientemente alto para merecer a chancela real de silncio.
        De um modo geral, recebi com prazer a presena do duque em nosso piquenique. Para comear, sua presena impedia que as mulheres me perguntassem - como algumas 
almas mais ousadas faziam de vez em quando nas festas - se era verdade o que os escoceses usavam por baixo do kilt. Considerando-se a disposio de esprito do presente 
grupo, no creio que minha resposta usual - "Ah, o de sempre" - seria suficiente.
        - Seu marido tem um timo olho para cavalos - o duque observou para mim, livre por um instante, quando a duquesa de Neve, do outro lado dele, inclinou-se 
sobre a toalha para conversar com madame Prudhomme. - Ele me disse que tanto seu pai quanto seu tio mantm uma pequena mas excelente criao de cavalos nas Highlands.
        - Sim,  verdade. - Tomei um pequeno gole do meu vinho. - Mas o senhor visitou Colum MacKenzie no Castelo Leoch; certamente viu o estbulo por si mesmo. 
- De fato, eu conhecera o duque em Leoch no ano anterior, embora o encontro tenha sido breve; ele partiu numa expedio de caa pouco antes de eu ser presa por bruxaria. 
Eu tinha certeza de que ele devia ter tido conhecimento do fato, mas, se assim fosse, no dava nenhum sinal disso.
        - Sem dvida. - Os olhos azuis, pequenos e astutos, do duque dardejaram para a esquerda, depois para a direita, para ver se estava sendo observado, depois 
passou a falar em ingls. - Na poca, seu marido me informou que ele no morava em suas prprias terras, por causa de uma infeliz, e errnea, acusao de assassinato 
apresentada contra ele pela coroa inglesa. Eu me pergunto, milady, se a incriminao ainda persiste?
        - Sua cabea ainda est a prmio - eu disse sem rodeios.
        A expresso do duque de educado interesse no se alterou. Estendeu a mo e pegou uma das pequenas salsichas na bandeja.
        - Essa no  uma questo irremedivel - disse serenamente. - Depois de meu encontro com seu marido em Leoch, fiz algumas investigaes... ah, adequadamente 
discretas, asseguro-lhe, minha cara senhora. E creio que a questo possa ser resolvida sem maiores dificuldades, com uma palavra no ouvido certo, das fontes certas.
        Interessante. Inicialmente, Jamie contara ao duque de Sandringham sobre a acusao que pesava contra ele por sugesto de Colum MacKenzie, na esperana de 
que o duque pudesse ser persuadido a intervir a seu favor. Como Jamie de fato no havia cometido o crime em questo, no podia haver provas contra ele; era bem possvel 
que o duque, uma voz poderosa entre os nobres da Inglaterra, pudesse de fato conseguir que as acusaes fossem retiradas.
        - Por qu? - perguntei. - O que deseja em troca?
        As sobrancelhas louras e grossas ergueram-se subitamente e ele sorriu exibindo dentes pequenos, brancos e regulares.
        - Nossa, voc  bem direta, no? No poderia ser simplesmente porque aprecio a opinio abalizada e a assistncia de seu marido na seleo de cavalos e gostaria 
de v-lo restaurado a uma posio onde essa habilidade possa de novo ser exercida lucrativamente?
        - Poderia, mas no  - eu disse. Percebi o olhar penetrante de madame Prudhomme sobre ns e sorri amavelmente para ele. - Por qu?
        Ele jogou a salsicha inteira na boca e mastigou-a devagar, o rosto redondo e afvel refletindo nada alm do prazer em desfrutar o dia e a refeio. Por fim, 
engoliu e limpou delicadamente a boca com um dos guardanapos de linho.
        - Bem - disse -, apenas como hiptese, se me compreende... Assenti e ele continuou.
        - Apenas como hiptese, ento, talvez possamos supor que a recente amizade de seu marido com... um certo personagem recm-chegado de Roma? Ah, vejo que me 
compreende. Sim. Suponhamos que essa amizade tenha se tornado uma questo de certa forma preocupante para alguns grupos que prefeririam que esse personagem retornasse 
pacificamente a Roma, ou que se estabelecesse na Frana, embora Roma fosse melhor, mais seguro, compreende?
        - Compreendo. - Eu tambm peguei uma salsicha. Eram muito condimentadas e pequenas baforadas de alho penetravam pelas minhas narinas a cada mordida. - E 
esses grupos vem essa amizade com seriedade suficiente para oferecerem a retirada das acusaes contra meu marido em troca do trmino desse relacionamento? Novamente, 
por qu? Meu marido no  ningum de grande importncia.
        - No momento, no - o duque concordou -, mas pode ser no futuro. Ele possui ligaes com vrios interesses poderosos entre as famlias de banqueiros na Frana 
e mais ainda entre os comerciantes. Tambm  recebido na corte e tem algum acesso aos ouvidos de Lus. Em resumo, se ele no momento no possui o poder de arregimentar 
somas substanciais de dinheiro e influncia,  provvel que o faa em breve. Ele tambm  membro no de um, mas de dois dos mais poderosos cls das Highlands. E 
os grupos que desejam que o personagem em questo retorne a Roma guardam um medo no despropositado de que essa influncia possa ser exercida em direes no desejveis. 
Seria muito melhor se seu marido puder retornar, uma vez restaurada sua reputao, para suas terras na Esccia, no acha?
        -  uma idia - eu disse. Era tambm um suborno, e dos mais atraentes. Cortar toda a conexo com Carlos Stuart e ficar livre para retornar para a Esccia 
e a Lallybroch, sem o risco de ser enforcado. A remoo de um partidrio possivelmente preocupante dos Stuart, sem nenhuma despesa para a coroa, tambm era uma proposta 
atraente do ponto de vista ingls.
        Olhei com ateno para o duque, tentando descobrir onde exatamente ele se encaixava no quadro geral. Ostensivamente um enviado de Jorge II eleitor de Hannover 
e rei - desde que Jaime Stuart permanecesse em Roma - da Inglaterra, ele podia muito bem ter um duplo propsito em sua visita  Frana. Envolver-se com Lus na delicada 
troca de civilidade e ameaas que constitua a diplomacia e ao mesmo tempo esmagar o espectro de uma nova revoluo jacobita. Vrias pessoas do crculo habitual 
de Carlos haviam desaparecido ultimamente, alegando a necessidade urgente de cuidar de negcios no exterior. Subornados ou intimidados?, perguntava-me.
        A expresso afvel do duque no dava nenhuma pista de seus pensamentos. Empurrou a peruca para trs de uma fronte comeando a ficar calva e coou a cabea 
sem nenhum acanhamento.
        - Pense nisso, minha querida - insistiu. - E depois que tiver pensado, fale com seu marido.
        - Por que o senhor mesmo no fala com ele?
        Deu de ombros e pegou mais salsichas, trs desta vez.
        - Sei que os homens s vezes so mais receptivos a uma palavra vinda de dentro de casa, de algum em quem confiam, do que quilo que podem entender como 
presso de uma fonte externa. - Sorriu. - H a questo do orgulho a ser considerada; tem que ser tratada com delicadeza. E para um tratamento delicado... bem, sempre 
se ouve falar do "toque feminino", no  verdade?
        No tive tempo de responder a isso quando se ouviu um grito vindo do estbulo principal, fazendo todas as cabeas virarem-se bruscamente naquela direo.
        Um cavalo vinha em nossa direo pelo estreito caminho entre o estbulo principal e o galpo longo e aberto que abrigava a forja. Um potro Percheron, bem 
novo, no mais de dois ou trs anos, a julgar pelas manchas nos flancos. Mesmo os Percherons novos so grandes e o potro parecia imenso,  medida que trotava para 
a frente e para trs, a cauda aoitando de um lado para o outro. Obviamente, o potro ainda no fora domado;
        Os ombros macios contorciam-se no esforo para desalojar a pequena figura montada em seu pescoo, as duas mos enterradas com fora na crina espessa e negra.
        - Droga,  Fergus!
        AS mulheres, perturbadas pelo grito, j haviam se levantado e observavam a cena com interesse.
        Eu no percebera que os homens haviam se juntado a ns at uma mulher dizer:
        - Mas parece muito perigoso! Certamente o menino vai se machucar se cair!
        - Bem, se ele no se machucar ao cair, cuidarei disso pessoalmente assim que colocar as mos no moleque - disse uma voz furiosa atrs de mim. Virei-me e 
vi Jamie espreitando por cima de minha cabea para o cavalo que se aproximava depressa.
        - Voc no deveria tir-lo de l? - perguntei. Ele sacudiu a cabea.
        - No, deixe o cavalo cuidar disso.
        De fato, o cavalo parecia mais desnorteado do que assustado com o estranho peso em seu dorso. O corpo cinza malhado contorcia-se e estremecia como se atormentado 
por enxames de moscas e o potro sacudia a cabea, confuso, como se imaginasse o que estaria acontecendo.
        Quanto a Fergus, tinha as pernas esticadas quase em ngulo reto sobre o dorso largo do Percheron; claramente, ele s estava preso ao cavalo pelas mos que 
agarravam a crina. Assim, ele teria conseguido deslizar ou ao menos jogar-se do cavalo sem se ferir, se as vtimas da guerra de excremento no tivessem resolvido 
colocar em prtica um plano para cobrar sua vingana.
        Dois ou trs cavalarios seguiam o cavalo a uma distncia cautelosa, bloqueando a parte de trs do caminho. Um outro conseguira correr a frente e abrir o 
porto de um cercado vazio, prximo ao local onde estvamos. O porto ficava entre o grupo de visitantes em seu piquenique e o final do caminho entre os prdios; 
obviamente, a inteno era conduzir o cavalo com calma para dentro do cercado, onde poderia pisotear Fergus ou no, mas ao menos ele prprio estaria a salvo de fugir 
ou machucar-se.
        Antes que isso pudesse ser feito, entretanto, uma figura gil enfiou a cabea pela pequena janela de um palheiro no sto de um dos prdios, bem acima do 
caminho. Os espectadores estavam atentos ao cavalo, ningum viu, exceto eu. O garoto no palheiro observou, retirou-se e reapareceu quase imediatamente, segurando 
um grande feixe de feno. Escolhendo o momento mais propcio, deixou-o cair quando Fergus e o cavalo passavam direto abaixo.
        O efeito foi o mesmo de uma bomba. Houve uma exploso de feno onde antes estava Fergus e o potro soltou um relincho de pnico, contraiu a parte traseira 
e disparou como um vencedor do Derby, dirigindo-se em linha reta para o aglomerado de cortesos, que se espalharam aos quatro ventos, guinchando como gansos.
        Jamie atirara-se sobre mim, empurrando-me para fora do caminho e derrubando-me. Levantou-se de cima da minha figura deitada de costas, praguejando fluentemente 
em galico. Sem parar para perguntar como eu estava, saiu correndo na direo tomada por Fergus.
        O cavalo dava coices e contorcia-se, completamente assustado. Agitando com violncia as patas dianteiras, mantinha a distncia um pequeno bando de cavalarios 
e rapazes das estrebarias, todos logo perdendo a calma profissional diante da idia de que um dos preciosos cavalos do rei pudesse se machucar diante de seus prprios 
olhos.
        Por algum milagre de teimosia ou medo, Fergus continuava montado, as pernas magricelas chocalhando enquanto ele resvalava e quicava no dorso do animal. Todos 
os cavalarios gritavam-lhe para que se soltasse, mas ele ignorava o conselho, os olhos fechados com fora e agarrado aos dois punhados de plos da crina como a 
uma corda de salvamento. Um dos cavalarios carregava um forcado; brandia-o ameaadoramente no ar, causando um grito agudo de horror de madame Montresor, que obviamente 
achava que ele pretendia espetar a criana.
        O berro no acalmou os nervos do potro de nenhuma forma visvel. Ele esperneava e sacudia-se, recuando e afastando-se das pessoas que agora comeavam a rode-lo. 
Embora eu no achasse que o cavalario de fato pretendesse espetar Fergus para empurr-lo para fora do cavalo, havia o perigo real de que a criana fosse pisoteada 
ao cair - e eu no via como ele iria evitar esse destino por muito mais tempo. O cavalo arremeteu de repente para um pequeno grupo de rvores prximo ao curral, 
procurando abrigar-se da multido ou talvez achando que o pesadelo em suas costas poderia ser arrancado com um galho.
        Ao passar embaixo dos primeiros galhos, vi de relance um tart vermelho em meio ao verde da vegetao e, em seguida, viu-se um lampejo vermelho quando Jamie 
lanou-se de uma rvore. Seu corpo atingiu o potro de lado e ele caiu ao cho numa confuso de xadrez e pernas nuas que teria revelado a um observador sagaz que 
aquele escocs em particular no estava usando nada sob seu kilt.
        Os cortesos correram para o local em bloco, concentrando-se em torno do senhor de Brotuarach, cado ao cho, enquanto os cavalarios perseguiam o cavalo 
que j desaparecia do outro lado das rvores.
        Jamie ficou deitado de costas sob as faias, o rosto de um tom branco-esverdeado cadavrico, os olhos arregalados e a boca escancarada. Os dois braos envolviam 
Fergus num abrao apertado e o menino agarrava-se ao seu peito como uma sanguessuga. Jamie pestanejou para mim quando corri at ele e fez um dbil esforo para sorrir. 
Os fracos assobios que saam da sua boca aberta transformaram-se numa respirao curta e ofegante e eu fiquei Aliviada: ele ficara apenas sem ar.
        Percebendo por fim que no estava mais em movimento, Fergus levantou a cabea cautelosamente. Em seguida, sentou-se ereto bruscamente na barriga de seu patro 
e disse com entusiasmo:
        - Isso foi divertido, milorde! Podemos fazer de novo?
        Jamie distendera um msculo na coxa durante o resgate de Fergus em Argentan e mancava quando chegamos a Paris. Mandou Fergus - sem seqelas da aventura ou 
da repreenso que recebeu depois -  cozinha para buscar seu jantar e deixou-se cair numa poltrona junto  lareira, esfregando a perna inchada.
        - Di muito? - perguntei.
        - Um pouco. Mas s preciso manter a perna em repouso. - Levantou-se e espreguiou-se, os braos longos quase alcanando as vigas de carvalho escurecidas 
acima do consolo da lareira. - Aquele coche  apertado; eu preferia ter viajado a cavalo.
        - Humm. Eu tambm. - Esfreguei a base da minha coluna, dolorida com o esforo da viagem. A dor parecia pressionar para baixo minha plvis at as pernas, 
as juntas se soltando com a gravidez, imaginei.
        Passei a mo de forma exploratria sobre a perna de Jamie, depois indiquei a chaise longue.
        - Venha deitar-se aqui, de lado. Tenho um ungento timo que posso esfregar em sua perna; vai melhorar um pouco a dor.
        - Bem, se no se importa. - Levantou-se com a perna rgida e deitou-se sobre o lado esquerdo, o kilt erguido acima dos joelhos.
        Abri minha caixa de remdios e vasculhei as caixinhas e frascos. Agrimnia, olmo vermelho, tiritana... ah, l estava ele. Tirei um pequeno pote de vidro 
azul que monsieur Forez havia me dado e desarrolhei a tampa. Cheirei o contedo cautelosamente; as pomadas tornavam-se ranosas com facilidade, mas esta parecia 
ter uma boa proporo de sal misturado para preservao. Possua um agradvel cheiro de fruta madura e uma bela cor - o exuberante branco-amarelado de nata fresca.
        Tirei uma colherada da pomada e espalhei-a pelo longo msculo da coxa, levantando o kilt de Jamie acima da cintura para manter a regio livre. Sua perna 
estava quente; no se tratava do calor de uma infeco, apenas o calor normal de um corpo masculino jovem, tonificado por exerccios e a incandescente pulsao da 
sade. Massageei o creme delicadamente na pele, sentindo o inchao do msculo rgido, explorando as tenses do quadrceps e do tendo da perna. Jamie deu um pequeno 
grunhido quando massageei com mais fora.
        - Sim, um pouco, mas no pare - ele respondeu. - Parece que est me fazendo muito bem. - Deu uma risadinha. - Eu no admitiria para ningum alm de voc, 
Sassenach, mas foi muito divertido. H meses no via tanta ao.
        - Fico contente que tenha se divertido - eu disse secamente, pegando mais um pouco da pomada. - Eu mesma passei horas interessantes. - Sem parar a massagem, 
falei-lhe da oferta de Sandringham.
        Ele soltou um resmungo em resposta, encolhendo-se ligeiramente quando atingi um ponto mais sensvel.
        - Ento Colum tinha razo quando achava que o sujeito talvez pudesse ajudar na questo das acusaes contra mim.
        - Parece que sim. Suponho que a pergunta seja: voc quer aceitar a oferta dele? - Tentei no prender a respirao enquanto esperava a resposta. Para comear, 
eu sabia qual seria; os Fraser como famlia eram conhecidos pela teimosia e, apesar de sua me ter sido uma MacKenzie, James era um Fraser por completo. Tendo decidido 
que iria impedir Carlos Stuart, era improvvel que abandonasse seus esforos nesse sentido. Ainda assim, era uma isca tentadora, tanto para mim quanto para ele. 
Poder voltar para a Esccia, para sua casa; viver em paz.
        Mas havia outro problema,  claro. Se realmente voltssemos, deixando que os planos de Carlos Stuart seguissem seu curso para o futuro que eu conhecia, qualquer 
paz na Esccia teria de verdade uma vida curta.
        Jamie fez um muxoxo, aparentemente seguira minha prpria linha de raciocnio.
        - Bem, vou lhe dizer, Sassenach. Se eu achasse que Carlos Stuart pudesse ser bem-sucedido, pudesse livrar a Esccia do domnio ingls, eu lhe daria minhas 
terras, minha liberdade e a minha prpria vida para ajud-lo. embora no passe de um tolo,  um tolo real, e bastante cavalheiresco, eu acho. - Suspirou.
        - Mas eu conheo o sujeito e j conversei com ele... e com todos os Jacobitas que lutaram com seu pai. E considerando-se o que voc me disse que acontecer 
se chegarmos a uma revolta outra vez... no creio que eu tenha outra escolha seno permanecer aqui, Sassenach. Depois que ele for impedido, ento poder haver uma 
chance de voltar... ou talvez no. Mas, por enquanto, devo agradecer e declinar a proposta de Sua Excelncia.
        Dei uns tapinhas em sua perna, delicadamente.
        - Foi o que achei que voc diria.
        Ele sorriu para mim, depois olhou para o creme esbranquiado que cobria meus dedos.
        - Que negcio  esse?
        - Um creme que monsieur Forez me deu. No disse como se chama. No creio que contenha nenhum ingrediente ativo, mas  um creme bem gorduroso.
        O corpo sob minhas mos enrijeceu-se e Jamie olhou por cima do ombro para o pote azul.
        - Monsieur Forez o deu para voc? - ele perguntou, inquieto.
        - Sim - respondi, surpresa. - Qual o problema? - Ele havia afastado minhas mos lambuzadas de creme e, atirando as pernas para fora da chaise longue, procurava 
uma toalha.
        - Esse pote tem uma flor-de-lis na tampa, Sassenach? - ele perguntou, limpando o ungento da perna.
        - Tem, sim - respondi. - Jamie, o que h de errado com esta pomada? - A expresso em seu rosto era extremamente peculiar; oscilava entre espanto e divertimento.
        - Ah, no diria que haja alguma coisa errada com ela, Sassenach - respondeu finalmente. Tendo esfregado a perna com tanta fora que deixou os plos encaracolados 
e ruivo-dourados brilhando sobre a pele vermelha, descartou a toalha e olhou pensativamente para o pote.
        - Monsieur Forez deve t-la em grande considerao, Sassenach - disse. - Isso  um produto caro.
        - Mas...
        - No  que eu no tenha gostado - apressou-se a me assegurar. -  que como eu mesmo quase me tornei um ingrediente, me d uma sensao estranha.
        - Jamie! - Senti minha voz elevando-se. - Que negcio  esse? Agarrei a toalha, limpando apressadamente as minhas mos cobertas da pomada.
        - Gordura liberada por homens enforcados - ele respondeu relutantemente.
        - E-e-en... - No consegui sequer pronunciar a palavra e tentei outra vez. - Quer dizer... - Meus braos ficaram arrepiados, os plos finos parecendo agulhas 
numa almofada.
        - Isso mesmo. Gordura de criminosos enforcados. - Falou animadamente, recuperando a calma to rpido quanto eu perdia a minha. - Dizem que  muito bom para 
reumatismo e doenas das juntas.
        Lembrei-me da maneira absolutamente limpa e arrumada com que monsieur Forez juntava os resultados de suas operaes no Hpital ds Anges e a estranha expresso 
no rosto de Jamie quando ele viu o alto cirurgio acompanhar-me at em casa. Meus joelhos estavam fracos e eu sentia meu estmago dar voltas como uma panqueca.
        -Jamie! Quem  o maldito monsieur Forez? - Eu estava quase gritando.
        Ele definitivamente estava se divertindo com a situao.
        - Ele  o executor pblico de enforcamentos do Quinto Distrito, Sassenach. Pensei que soubesse.
        Jame retornou molhado e com frio dos estbulos, onde fora esfregar-se. As ablues necessrias sendo numa escala maior do que a tina no quarto poderia proporcionar.
        - No se preocupe, saiu tudo - assegurou-me, tirando a camisa e enfiando-se nu sob as cobertas. Sua pele estava spera, arrepiada de frio, e ele estremeceu 
ligeiramente ao tomar-me nos braos.
        - O que foi, Sassenach? Eu no estou com aquele cheiro ainda, estou? - ele perguntou, enquanto eu me mantinha encolhida e imvel sob os cobertores, envolvendo 
o corpo com meus prprios braos.
        - No - eu disse. - Estou com medo. Jamie, estou sangrando.
        - Santo Deus - ele disse num sussurro. Pude sentir o repentino tremor de medo que percorreu seu corpo s minhas palavras, idntico ao que percorrera o meu. 
Apertou-me contra si, alisando meus cabelos e acariciando minhas costas, mas ns dois sentamos a terrvel sensao de impotncia diante do desastre fsico que torna 
inteis suas aes. Apesar de ser to forte, ele no podia me proteger; por mais vontade que tivesse, no podia ajudar. Pela primeira vez, eu no estava a salvo 
em seus braos e o conhecimento desse fato nos aterrorizava.
        - Voc acha - ele comeou, depois se interrompeu e engoliu em seco. Pude sentir o tremor percorrer sua garganta e ouvir o som do medo ao ser deglutido. - 
 grave, Sassenach? Voc sabe?
        - No - eu disse. Abracei-o com mais fora, tentando encontrar um porto seguro. - No sei. No  um sangramento forte; pelo menos, ainda no.
        A vela ainda estava acesa. Olhou-me, a expresso sombria de preocupao.
        - Quer que eu v buscar algum para voc, Claire? Uma parteira, uma das mulheres do Hpital?
        Sacudi a cabea e umedeci meus lbios secos.
        - No. Eu no... eu no acho que haja alguma coisa que se possa fazer.
        Era a ltima coisa que eu queria dizer; mais do que tudo, queria que pudssemos encontrar algum que soubesse como fazer tudo voltar ao normal. Mas lembrei-me 
do incio do meu estgio em enfermagem, os poucos dias que passei na enfermaria obsttrica e as palavras de um dos mdicos, dando de ombros ao deixar a cabeceira 
de uma paciente que sofrera um aborto espontneo. "No h realmente nada que se possa fazer", ele dissera. "Se vo perder uma criana, em geral perdem mesmo independentemente 
do que voc faa. Repouso  a nica recomendao possvel e s vezes nem isso adianta."
        - Pode no ser nada - eu disse, tentando nos animar. - No  incomum as mulheres terem leves sangramentos s vezes, durante a gravidez. No era incomum nos 
primeiros trs meses. Eu j estava com mais de cinco meses e isso no era de modo algum habitual. Entretanto, havia inmeras causas de sangramento possveis e nem 
todas eram graves.
        - Pode ser que esteja tudo bem - eu disse. Coloquei a mo sobre o ventre, pressionando delicadamente, e senti uma resposta imediata do ocupante, um empurro 
preguioso, de quem est se espreguiando, que no mesmo instante me fez sentir melhor. Senti uma onda de esfuziante gratido que fez as lgrimas brotarem em meus 
olhos.
        - Sassenach, o que posso fazer? - Jamie sussurrou. Passou o brao ao meu redor e sua mo repousou sobre a minha, segurando meu abdmen ameaado.
        Coloquei a outra mo sobre a dele e fiquei segurando-a no lugar.
        - Apenas reze - eu disse. - Reze por ns, Jamie.
        
23 - OS PLANOS MAIS BEM ARQUITETADOS DE RATOS E HOMENS...
        
        Pela manh, o sangramento havia parado. Levantei-me com muito cuidado, mas tudo continuou bem. Ainda assim, era bvio que chegara a hora de parar de trabalhar 
no Hpital ds Anges e eu enviei Fergus com um bilhete de explicao e desculpas a madre Hildegarde. Ele retornou com suas preces e bons votos, alm de uma garrafa 
de um elixir marrom muito apreciado - segundo o bilhete que a acompanhava - por ls matresses sage-femme para a preveno de aborto. Depois da pomada de monsieur 
Forez, eu estava mais do que desconfiada de qualquer remdio que eu mesma no tivesse preparado, mas depois de cheirar com toda a cautela a substncia, convenci-me 
de que ao menos os ingredientes eram puramente botnicos.
        Aps uma considervel hesitao, tomei uma colherada. O lquido era amargo e deixava um gosto ruim na boca, mas o simples ato de fazer alguma coisa - mesmo 
algo que eu achava que seria intil - j me fez sentir melhor. Agora, eu passava a maior parte de cada dia deitada na chaise longue em meu quarto, lendo, cochilando, 
costurando ou simplesmente fitando o espao vazio com as mos sobre a barriga.
        Isto , quando estava sozinha. Quando estava em casa, Jamie passava a maior parte do tempo comigo, conversando sobre os negcios do dia ou discutindo as 
cartas jacobitas mais recentes. O rei Jaime, aparentemente, fora informado sobre o investimento do filho em vinho do Porto e aprovou entusiasticamente a iniciativa 
como "... um plano muito slido, que tenho certeza significar um grande passo em proporcionar-lhe os meios Para se estabelecer na Frana da maneira como eu gostaria 
de v-lo estabelecido".
        - Ento, Jaime acha que o dinheiro destina-se meramente a estabelecer Carlos como um cavalheiro e dar-lhe alguma posio aqui - eu disse.
        Voc acha que  possvel que ele s tenha isso em mente? Louise esteve aqui hoje  tarde; ela disse que Carlos foi v-la semana passada, que insistiu em 
v-la, embora no comeo ela tivesse se recusado a receb-lo. Ela disse que ele estava muito entusiasmado e orgulhoso de alguma coisa, mas no quis lhe revelar do 
que se tratava. Continuou apenas a insinuar misteriosamente sobre algo grandioso que ele estava prestes a fazer. "Uma grande aventura" foram as palavras dele, segundo 
ela. Isso no parece um simples investimento em vinhos, no ?
        - No, no parece. - A expresso de Jamie anuviou-se.
        - Humm - eu disse. - Bem, considerando tudo, parece uma boa aposta que Carlos no est pretendendo apenas estabelecer-se com os lucros de sua iniciativa 
e tornar-se um prspero comerciante de Paris.
        - Se eu fosse um jogador, apostaria minha ltima camisa nisso - Jamie disse. - A pergunta agora : como podemos det-lo?
        Uma resposta surgiu alguns dias mais tarde, aps muita discusso e sugestes inteis. Murtagh estava conosco no quarto, tendo trazido vrios rolos de tecido 
das docas para mim.
        - Disseram que houve uma erupo de bexiga em Portugal - ele observou, soltando as peas de seda trabalhada na cama como se fosse um fardo de tecido grosseiro 
de juta, usado. - Hoje de manh chegou de Lisboa um navio carregado de ferro e o capito do porto passou o pente fino no navio, ele e mais trs assistentes. Mas 
no encontraram nada. Vendo a garrafa de conhaque sobre a minha mesa, encheu metade de um copo grande, de p, e bebeu-o como gua, em goles grandes e saudveis. 
Observei a operao boquiaberta, somente desviada do espetculo pela exclamao de Jamie.
        - Bexiga?
        - Sim - Murtagh disse, entre um gole e outro. - Varola. - Ergueu o copo outra vez e retomou seu sistemtico refrigrio.
        - Varola - Jamie murmurou para si mesmo. - Varola.
        Aos poucos, sua expresso carrancuda desanuviou-se e a ruga vertical entre as sobrancelhas desapareceu. Um olhar profundamente contemplativo assomou ao seu 
rosto e ele recostou-se na poltrona, as mos entrelaadas atrs da nuca, olhando fixamente para Murtagh. O esboo de um sorriso torceu sua boca larga.
        Murtagh observou essa atitude com uma resignao consideravelmente ctica. Esvaziou o copo e sentou-se impassivelmente em seu banco, enquanto Jamie ficava 
de p num salto e comeava a andar em crculos em volta do escocs, assobiando pelo meio dos dentes, sem entoar nenhuma msica.
        - Pelo que vejo, voc tem uma idia, no? - perguntei.
        - Ah, sim - ele disse, comeando a rir baixinho consigo mesmo. - Ah" sim, isso eu tenho.
        Voltou-se para mim, os olhos iluminados de travessura e inspirao.
        - Tem alguma coisa em sua caixa de remdios que causasse febre numa pessoa? Ou lhe desse um desarranjo? Ou manchas pelo corpo?
        - Bem, sim - respondi devagar, pensando. - Tenho alecrim. Ou pimenta-vermelha. E cscara-sagrada,  claro, para diarria. Por qu?
        Ele olhou para Murtagh, rindo abertamente, depois, entusiasmado com sua idia, soltou uma gargalhada e despenteou os cabelos de seu parente, de modo que 
ficaram em p como espiges pretos. Murtagh olhou-o furioso, exibindo uma forte semelhana com o macaco de estimao de Louise.
        - Ouam - Jamie disse, inclinando-se para ns de modo conspiratrio.
        - E se o navio do conde de St. Germain voltasse de Portugal com varola a bordo?
        Olhei-o perplexa.
        - Voc perdeu o juzo? - perguntei educadamente. - E se voltasse assim?
        - Se voltasse assim - Murtagh interrompeu -, eles perderiam a carga. Seria queimada ou jogada no porto, por lei. - Um brilho de interesse surgiu nos olhinhos 
negros. - E como pretende fazer isso, rapaz?
        A euforia de Jamie arrefeceu um pouco, embora a luz em seus olhos permanecesse.
        - Bem - admitiu -, ainda no pensei em todos os detalhes, mas para comear...
        Foram necessrios vrios dias de discusso e pesquisa para refinar o plano, mas enfim ficou definido. Cscara-sagrada para causar diarria fora rejeitada 
por ter uma ao debilitante demais. Entretanto, encontrei alguns bons substitutos entre as ervas que mestre Raymond me dera.
        Murtagh, equipado com uma pequena bolsa cheia de essncia de alecrim, extrato de urtiga e raiz de garana, partiria no fim de semana para Lisboa, onde iria 
se infiltrar entre os marujos nas tavernas, descobrir qual o navio fretado pelo conde de St. Germain e dar um jeito de viajar nele, enquanto mandaria de volta a 
informao do nome do navio e da data de Partida para Paris.
        - No, isso  comum - Jamie disse, em resposta  minha pergunta sobre a possibilidade de o capito achar seu comportamento estranho. -
        Quase todos os navios de carga transportam alguns passageiros; quantos conseguirem espremer entre os conveses. E Murtagh ter dinheiro suficiente para fazer 
dele um acrscimo bem-vindo, nem que tenham que lhe dar a cabine do capito. - Sacudiu o dedo indicador advertindo Murtagh.
        - E alugue uma cabine, entendeu? No importa quanto custe; vai precisar de privacidade para tomar as ervas e no queremos correr o risco de algum v-lo, 
se voc no tiver nada alm de uma rede pendurada no fundo do navio. - Examinou seu padrinho com um ar crtico. - Tem um casaco decente? Se subir a bordo parecendo 
um mendigo,  provvel que o joguem no porto antes de descobrirem o que carrega na bolsa.
        - Mmuhm - Murtagh disse. O pequeno escocs em geral pouco contribua para a discusso, mas o pouco que dizia sempre era pertinente e convincente. - E quando 
 que eu tomo o remdio? - perguntou.
        Retirei do bolso a folha de papel onde havia escrito as instrues e dosagens.
        - Duas colheres de sopa da garana rosa...  esse aqui... - bati no pequeno frasco de vidro branco, cheio de um lquido rosa-escuro -, a serem tomadas quatro 
horas antes do momento que planeja demonstrar seus sintomas. Tome outra colher de sopa a cada duas horas aps a primeira dose. No sabemos por quanto tempo ter 
que manter essa dosagem.
        Entreguei-lhe o segundo frasco, este de vidro verde cheio de uma soluo preto-arroxeada.
        - Isto  essncia concentrada de folhas de alecrim. Essa age mais rpido. Tome um quarto do frasco meia hora antes da hora de se apresentar; deve comear 
a ficar vermelho em meia hora. O efeito passa logo, de modo que vai ter que tomar mais quando puder agir sem ser notado. Peguei outra garrafinha, menor, da caixa 
de remdios. - E quando estiver com bastante "febre", pode esfregar o sumo de urtiga nos braos e no rosto, para provocar bolhas. Quer guardar essas instrues?
        Sacudiu a cabea resolutamente.
        - No, eu me lembrarei. H mais risco em ser encontrado com o papel do que em esquecer quanto tomar. - Virou-se para Jamie. - E voc encontrar o navio em 
Orvieto, rapaz?
        Jamie balanou a cabea, confirmando.
        - Sim. com certeza ele vai atracar l; todos os transportadores de vinho o fazem, para pegar gua potvel. Se por acaso ele no o fizer, ento... - Encolheu 
os ombros. - Alugarei um barco e tentarei alcan-lo. Desde que eu suba a bordo antes de o navio chegar a L Havre, tudo deve dar certo, mas ser melhor se pudermos 
executar o plano enquanto ainda estivermos perto da costa da Espanha. No pretendo ficar mais tempo ao mar do que o necessrio. - Apontou com o queixo para a garrafa 
na mo de Murtagh.
        -  melhor esperar para tomar esse negcio depois que me vir subir a bordo. Sem testemunhas, o capito pode seguir o caminho mais fcil e simplesmente jog-lo 
pela popa  noite.
        Murtagh grunhiu.
        - Sim, eles podem tentar. - Tocou o punho de sua adaga, dando
        Jamie franziu a testa.
        - No se esquea do seu papel. Para todos os efeitos, voc deve estar com varola. com sorte, tero medo de tocar em voc, mas, s por garantia espere at 
eu estar ao alcance do seu chamado e estaremos seguros em alto-mar.
        - Mmuhm.
        Olhei de um para o outro. Embora fosse um plano rebuscado, era provvel que funcionasse. Se o capito do navio pudesse ser convencido de que um de seus passageiros 
estava infectado com varola, no iria, em hiptese alguma, levar seu navio para o porto de L Havre, onde as restries sanitrias francesas exigiriam sua destruio. 
E, diante da necessidade de voltar com sua carga para Lisboa e perder todo o lucro da viagem, ou perder duas semanas em Orvieto enquanto a notcia era enviada a 
Paris, ele poderia muito bem, em vez disso, consentir na venda da carga para o rico comerciante escocs que acabara de subir a bordo.
        A personificao de uma vtima de varola era o papel crucial nesse fazde-conta. Jamie se oferecera para servir de cobaia no teste das ervas e haviam funcionado 
magnificamente nele. Sua pele clara ficara vermelhoescura em poucos minutos e o extrato de urtiga provocou bolhas imediatas que podiam ser facilmente tomadas por 
varola por um mdico de bordo ou um capito em pnico. E se restasse alguma dvida, a urina tingida de garana dava uma iluso absolutamente perfeita de um homem 
urinando sangue porque a varola atacou seus rins.
        - Santo Deus! - Jamie exclamara, assustado apesar de saber a verdade com a primeira demonstrao da eficcia da erva.
        - Ah, excelente! - eu dissera, espreitando por cima de seu ombro para o urinol de porcelana branca e seu contedo vermelho-vivo. - Melhor do que eu esperava.
        - Ah, ? Quanto tempo leva para desaparecer? - Jamie perguntara, olhando para baixo com certo nervosismo.
        - Algumas horas, eu acho - eu lhe disse. - Por qu? D uma sensao estranha?
        - No exatamente estranha - ele disse, esfregando. - Coa um pouco.
        - Isso no  a erva - Murtagh interps, srio. -  apenas a condio natural de um rapaz de sua idade. Jamie riu para seu padrinho.
        - Ainda se lembra dessa poca distante, hein?
        - Antes de voc ter nascido ou pensado em nascer, rapaz - Murtagh dissera, sacudindo a cabea.
        O pequeno escocs guardou os frascos na bolsa do seu kilt, embrulhando cada um metodicamente num pedao de couro fino e macio para que no virassem..
        - Enviarei notcias sobre o navio e sua largada assim que puder. E encontro com voc na costa da Espanha dentro de um ms. Ter o dinheiro antes disso?
        Jamie balanou a cabea afirmativamente.
        - Ah, sim. At o final da semana que vem, eu acho. - Os negcios de Jared haviam prosperado sob a administrao de Jamie, mas as reservas em dinheiro vivo 
no eram suficientes para a compra de uma carga inteira de porto, embora ainda atendessem aos outros compromissos da Casa Fraser. Entretanto, os jogos de xadrez 
haviam dado frutos em mais de um aspecto e o jovem monsieur Duverney, um proeminente banqueiro, garantira de bom grado um considervel emprstimo para o amigo de 
seu pai.
        -  uma pena que no possamos trazer essa carga para Paris - Jamie observara durante o planejamento -, mas St. Germain com toda a certeza descobriria a trama. 
Acho que seria melhor vender a carga por meio de um corretor na Espanha, conheo um homem certo para isso em Bilbao. Os lucros sero bem menores do que seriam em 
Paris, e os impostos mais altos, mas no se pode ter tudo, no ?
        - Para mim, basta que possamos pagar o emprstimo de Duverney. - Eu disse. - E por falar em emprstimos, o que o signore Manzetti far a respeito do dinheiro 
que emprestou a Carlos Stuart?
        - Vai se lamentar, eu acho - disse Jamie alegremente. - E, em seguida arruinar a reputao dos Stuart junto a todos os banqueiros do continente.
        - Parece um pouco injusto com o pobre e velho Manzetti - observei.
        - Sim, mas no se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos, como minha velha av dizia.
        - Voc no teve uma velha av - ressaltei.
        - No - ele admitiu -, mas se tivesse tido, isso  o que ela diria. Deixou de lado a brincadeira, por um instante. - Tambm no  muito justo com os Stuart. 
Na verdade, se qualquer um dos senhores jacobitas vier a saber o que andei fazendo, acho que consideraro isso traio e estaro certos. - Esfregou a mo na fronte 
e sacudiu a cabea, e eu pude ver a terrvel seriedade que seu ar brincalho escondia.
        - No h outro jeito, Sassenach. Se voc estiver certa - e apostei minha vida nisso at agora - trata-se de uma escolha entre as aspiraes de Carlos Stuart 
e as vidas de muitos escoceses. No tenho nenhum amor pelo rei Jorge, logo eu, com um preo pela minha cabea?, mas no vejo como eu poderia agir de outro modo.
        Franziu o cenho, passando a mo pelos cabelos, como sempre fazia quando estava pensando ou preocupado.
        - Se houvesse uma chance de Carlos ser bem-sucedido... sim, seria diferente. Arriscar-se por uma causa honrosa. Mas sua histria diz que
        Ele no ser vitorioso, e devo dizer, por tudo que conheo de Carlos
        Stuart,  bem provvel que voc tenha razo.  meu povo e minha famlia que esto em risco e se o preo de suas vidas for o ouro de um banqueiro, bem, no 
parece um sacrifcio maior do que o da minha prpria honra.
        Ele encolheu os ombros num desespero irnico.
        - Agora eu passei de roubar a correspondncia de Sua Alteza a roubo de banco e pirataria em alto-mar. E tudo indica que nada disso pode ser evitado.
        Permaneceu em silncio por um instante, olhando fixamente para as mos, entrelaadas com fora sobre a escrivaninha. Depois, virou a cabea para mim e sorriu.
        - Sempre quis ser pirata quando era pequeno - disse. - Pena que no possa usar um sabre.
        Fiquei deitada na cama, a cabea e os ombros apoiados em travesseiros, as mos levemente unidas sobre meu estmago, pensando. Desde o primeiro alarme, quase 
no houve sangramento e eu me sentia bem. Ainda assim, qualquer tipo de sangramento neste estgio era motivo de preocupao. Perguntei a mim mesma o que aconteceria 
se surgisse uma emergncia enquanto Jamie estivesse na Espanha, mas pouco adiantava me preocupar. Ele tinha que ir; j havia muito em jogo naquele carregamento de 
vinho para que qualquer preocupao particular pudesse se intrometer. E se tudo corresse bem, ele estaria de volta bem antes de o beb nascer.
        Nas atuais circunstncias, quaisquer preocupaes pessoais teriam que ser postas de lado, havendo perigo ou no. Carlos, incapaz de conter seu prprio entusiasmo, 
confidenciara a Jamie que ele em breve encomendaria dois navios - talvez mais - e pedira sua opinio sobre projeto de casco e Contagem de canhes no convs. As cartas 
mais recentes de seu pai, provenientes de Roma, deixavam transparecer um leve tom de questionamento- com o faro agudo dos Bourbon para a poltica, Jaime Stuart sentira 
o cheiro de traio, mas obviamente ainda no fora informado dos planos de Seu filho. Jamie, atolado em cartas decodificadas, achava provvel que Filipe da Espanha 
ainda no houvesse mencionado as iniciativas de Carlos ou o interesse do papa, mas Jaime Stuart tambm tinha seus espies.
        Aps algum tempo, percebi uma ligeira mudana na atitude de Jamie. Olhando para ele, vi que, embora continuasse a segurar um livro aberto sobre os joelhos, 
ele parara de virar as pginas - ou mesmo de olhar para elas. Em vez disso, seus olhos estavam fixos em mim; ou, para ser mais especfica, onde meu robe se abria, 
bem abaixo do que o decoro recomendaria, embora o decoro no me parea necessrio quando se est na cama com o marido.
        Seu olhar estava abstrado, azul-escuro de desejo, e compreendi que embora no fosse socialmente exigido, o decoro na cama com o prprio marido podia ser 
ao menos prova de considerao, naquelas circunstncias Havia alternativas,  claro.
        Vendo que eu o fitava, Jamie enrubesceu levemente e retornou depressa a um exagerado interesse em seu livro. Virei de lado e coloquei a mo em sua coxa.
        - Livro interessante? - perguntei, acariciando-o preguiosamente.
        - Muhm. Ah, sim. - O rubor intensificou-se, mas ele no tirou os olhos da pgina.
        Rindo comigo mesma, enfiei a mo embaixo das cobertas. Ele deixou o livro cair.
        - Sassenach! - ele disse. - Voc sabe que no pode...
        - Eu sei - disse -, mas voc pode. Ou melhor, eu posso, por voc. Ele retirou minha mo com firmeza e devolveu-a para mim.
        - No, Sassenach. No seria certo.
        - No? - eu disse, surpresa. - Por que no?
        Ele contorceu-se desconfortavelmente, evitando meus olhos.
        - Bem, eu... eu no me sentiria bem, Sassenach. Ter o meu prazer, sem poder lhe dar... bem, acho que no seria certo, s isso.
        Desatei a rir, deitando a cabea em sua coxa. - Jamie, voc  gentil demais!
        - No sou gentil - disse, indignado. - Mas tambm no sou to egosta... Claire, pare com isso!
        - Planejava esperar ainda vrios meses? - perguntei, sem parar.
        - Eu poderia - ele disse, com toda a dignidade possvel nas circunstncias. - Esperei vin-vin-te e dois anos e posso...
        - No, no pode - eu disse, afastando as cobertas e admirando a forma to claramente visvel sob seu camisolo de dormir. Toquei-o e ele move se levemente, 
ansioso sob minha mo. - O que quer que Deus tenha planejado para voc ser, Jamie Fraser, no era um monge.
        com firmeza, ergui sua roupa de dormir.
        - Mas... - ele comeou a protestar.
        - Dois contra um - eu disse, inclinando-me para baixo. - Voc perde
        Jamie trabalhou com afinco nos dias seguintes, preparando o negcio de vinhos para caminhar sozinho durante sua ausncia. Ainda assim, quase todos os dias 
arranjava tempo para vir sentar-se ao meu lado por alguns instantes depois do almoo. E foi assim que ele estava comigo quando um visitante foi anunciado. As visitas 
no eram incomuns; Louise vinha quase todos os dias, para conversar sobre gravidez ou lamentar seu amor perdido - embora eu particularmente achasse que ela apreciava 
Carlos muito mais como o objeto de uma nobre renncia do que realmente como amante. Ela prometera me trazer alguns doces turcos e, de certa forma, eu esperava seu 
rosto rechonchudo e rosado espreitar pela porta.
        Para minha surpresa, entretanto, o visitante era monsieur Forez. O prprio Magnus o conduziu  minha sala de estar, pegando seu chapu e sua capa com uma 
reverncia quase supersticiosa.
        Jamie pareceu surpreso com a visita, mas levantou-se para cumprimentar o oficial dos enforcamentos educadamente e oferecer-lhe uma bebida.
        - Como regra geral, no bebo nada alcolico - monsieur Forez disse com um sorriso. - Mas eu no insultaria a hospitalidade de minha estimada colega. - Inclinou-se 
numa mesura cerimoniosa na direo da chaise longue onde eu estava reclinada. - A senhora est bem, no , madame Fraser?
        - Sim - respondi cautelosamente. - Obrigada. - Perguntava-me a que devamos a honra da visita, pois embora monsieur Forez desfrutasse de considervel prestgio 
e uma boa riqueza em retribuio por seus servios oficiais, no creio que seu emprego lhe angariasse muitos convites para jantar. Perguntei-me de repente se homens 
com o cargo dele teriam alguma vida social.
        Ele atravessou o aposento e colocou um pequeno pacote a meu lado na chaise, como um abutre paternalmente trazendo para casa o jantar dos filhotes. Tendo 
em mente a gordura de homens enforcados, peguei o Pacote com cuidado e pesei-o em minha mo; leve para o tamanho e com um ligeiro cheiro adstringente.
        - Uma pequena lembrana de madre Hildegarde - ele explicou. - pelo que sei,  um remdio muito apreciado por ls matresses sage-femme. Ela escreveu as instrues 
de uso tambm. - Retirou do bolso interno do Casaco um bilhete dobrado e selado e entregou-o a mim.
        Cheirei o pacote. Folhas de framboesa e saxfraga; mais alguma outra substncia que eu no sabia identificar. Esperava que madre Hildegarde tambm tivesse 
includo uma lista dos ingredientes.
        - Por favor, agradea a madre Hildegarde por mim - eu disse. - E como vo todos no Hpital? - Eu sentia muita falta do meu trabalho l, bem como das freiras 
e da estranha diversidade de praticantes de medicina.
        Conversamos por algum tempo sobre o Hpital e seu quadro de pessoal, com a contribuio de um ou outro comentrio de Jamie, que de um modo geral, apenas 
ouvia com um sorriso educado, ou quando o assunto da conversa voltava-se para os aspectos clnicos, enterrava o nariz em seu copo de vinho.
        - Que pena - eu disse, pesarosa, quando monsieur Forez terminou de descrever o conserto de uma omoplata esfacelada. - Nunca vi isso ser feito. Sinto muita 
falta do trabalho cirrgico.
        - Sim, eu tambm sentirei - monsieur Forez disse, balanando a cabea e tomando um pequeno gole de seu vinho. Seu copo ainda estava acima do meio; aparentemente, 
ele no estava brincando sobre sua absteno de bebidas alcolicas.
        - Est indo embora de Paris? - Jamie perguntou com alguma surpresa. Monsieur Forez encolheu os ombros, as pregas de seu longo casaco farfalhando como penas.
        - S por algum tempo - ele disse. - De qualquer forma, estarei fora por uns dois meses, pelo menos. Na realidade, madame - inclinou a cabea para mim outra 
vez -, esse  o principal motivo de minha visita hoje.
        -  mesmo?
        - Sim. vou para a Inglaterra, sabe, e ocorreu-me que, se o desejar, ser uma questo de extrema simplicidade para mim levar qualquer mensagem que deseje. 
Quer dizer, caso haja algum com quem queira se comunicar - acrescentou, com sua preciso costumeira.
        Relanceei os olhos para Jamie, cujo semblante alterara-se repentinamente, de uma expresso franca de interesse educado para aquela mscara amavelmente sorridente 
que escondia todo tipo de pensamento. Um estranho no teria notado a diferena, mas eu notei.
        - No - eu disse, hesitante. - No tenho amigos nem parentes na Inglaterra; receio no ter absolutamente nenhuma conexo l, desde que eu... fiquei viva. 
- Senti a pontada de costume com esta referncia a Frank, mas a reprimi.
        Se isso pareceu estranho a monsieur Forez, ele no demonstrou. Apenas balanou a cabea e colocou o copo de vinho pela metade sobre a mesa.
        - Compreendo.  muita sorte sua ter amigos aqui, ento. - Sua voz parecia conter uma espcie de aviso, mas ele no olhou para mim quando se inclinou para 
endireitar a meia antes de se levantar. - Bem, eu virei visit-la ao retornar e espero encontr-la em boa sade.
        - O que o leva  Inglaterra, monsieur? - Jamie perguntou diretamente. Monsieur Forez voltou-se para ele com um leve sorriso. Inclinou a cabea para o lado, 
os olhos brilhantes, e surpreendi-me mais uma vez com sua semelhana a um pssaro grande. No um urubu no momento, mas uma ave de rapina.
        - E o que levaria um homem da minha profisso a viajar,
        - Fui contratado para executar meus deveres.
        - Uma ocasio importante, imagino - disse Jamie. - Para justificar a convocao de um homem de sua habilidade, quero dizer. - Seus olhos estavam alertas, 
embora sua expresso no revelasse mais do que um educado interesse.
        Os olhos de monsieur Forez tornaram-se mais brilhantes. Ele ps-se de p devagar, olhando para Jamie, sentado perto da janela.
        -  verdade, monsieur Fraser - ele disse afavelmente. - Pois trata-se de uma questo de habilidade, no tenha dvida. Estrangular um homem at a morte na 
ponta de uma corda... pah! Qualquer um pode fazer isso. Mas quebrar um pescoo de forma limpa, com uma queda nica e rpida, requer alguns clculos em termos de 
peso e queda, e uma certa prtica na maneira de colocar a corda, tambm. Mas percorrer a linha entre esses dois mtodos, executar adequadamente a sentena da morte 
de um traidor... isso requer de fato uma grande habilidade.
        Senti a boca seca repentinamente e peguei meu prprio copo.
        - A morte de um traidor? - eu disse, achando que no queria mesmo ouvir a resposta.
        - Enforcar, extrair e esquartejar - Jamie disse sucintamente. -  isso que quer dizer,  claro, no , monsieur Forez?
        O carrasco balanou a cabea, confirmando. Jamie levantou-se, parecendo faz-lo contra sua vontade, encarando o visitante emaciado e vestido de negro. Eram 
quase da mesma altura e podiam se olhar direto nos olhos sem dificuldade. Monsieur Forez deu um passo em direo a Jamie, a expresso repentinamente absorta, como 
se estivesse prestes a fazer a demonstrao de algum procedimento mdico.
        - Ah, sim - ele disse. - Essa  a morte do traidor. Primeiro, o sujeito deve ser enforcado, como diz, mas com um bom clculo, de modo que o pescoo no seja 
quebrado nem a traquia esmagada. A asfixia no  o resultado desejado, compreende.
        - Ah, compreendo. - A voz de Jamie era afvel, quase com um tom de ironia, e eu olhei para ele estupefata.
        -  mesmo, monsieur?
        Monsieur Forez sorriu debilmente, mas continuou sem esperar por resposta.
        - Trata-se, portanto, de uma questo de decidir o momento certo. Voc julga pelos olhos. O rosto escurece com o sangue quase imediatamente, mais rpido ainda 
se a pessoa for de compleio clara, e conforme a asfixia prossegue, a lngua  forada para fora da boca. Isso  o que encanta as multides,  claro, assim como 
os olhos saltados. Mas observam-se sinais vermelhos nos cantos dos olhos, assim que os pequenos vasos sangneos explodem. Quando isso acontece,  preciso dar imediatamente 
o sinal para que a corda seja cortada e o indivduo arriado. Um assistente de confiana  indispensvel, compreende - virou-se parcialmente, para me incluir na conversa 
macabra, e eu balancei a cabea, me esforando para parecer natural.
        - Ento - continuou, voltando-se novamente para Jamie -,  preciso administrar logo um estimulante, para reavivar o sujeito enquanto a camisa  removida. 
 preciso insistir para que a pessoa use uma camisa com abertura na frente; em geral  difcil tir-la pela cabea. - Um dedo fino e longo estendeu-se, apontando 
para o boto do meio da camisa de Jamie, mas sem tocar o linho recm-engomado.
        - Imagino que sim - Jamie disse.
        Monsieur Forez recolheu o dedo, balanando a cabea em aprovao a essa evidncia de compreenso.
        - Isso mesmo. O assistente j ter acendido a fogueira com antecedncia;  uma tarefa considerada abaixo da dignidade do verdugo. Chega, ento, a hora da 
faca.
        Fez-se um silncio mortal no aposento. O rosto de Jamie continuava impenetrvel, mas uma fina camada de suor brilhava na lateral do seu pescoo.
        -  aqui que  necessrio o mximo de habilidade - monsieur Forez explicou, erguendo um dedo de advertncia. -  preciso trabalhar rpido, para que o indivduo 
no morra antes de voc ter terminado. Misturar uma dose que contrai os vasos sangneos com o estimulante lhe dar alguns momentos de folga, mas no muitos.
        Avistando um abridor de cartas de prata sobre a mesa, atravessou o aposento e pegou-o. Segurou-o com a mo envolvendo o cabo, o dedo indicador apoiado em 
cima da lmina, apontada para baixo, para a nogueira lustrosa do tampo da mesa.
        - Bem ali - disse, quase sonhadoramente. - Bem na base do esterno. E rapidamente at o topo da juno das virilhas. Na maioria dos casos, pode-se ver o osso 
com facilidade. De novo - e o abridor de cartas cintilou para um lado e depois para o outro, rpido e delicado como o vo em ziguezague de um beija-flor -, seguindo 
os arcos das costelas. No se deve cortar fundo, pois no se quer furar o saco que contm as entranhas. Ainda assim.  preciso atravessar a pele, a gordura, o msculo, 
tudo com um s golpe. Isso - ele disse com satisfao, fitando seu prprio reflexo no tampo da mesa -  talento artstico.
        Colocou a faca delicadamente na mesa e voltou-se para Jamie, com um estremecimento de satisfao.
        - Depois disso,  uma questo de velocidade e de certa destreza. Se voc foi preciso em seus mtodos, sero poucas as dificuldades. As entranhas ficam seladas 
dentro de uma membrana, sabe, como um saco. Se voc no o cortou por acidente,  uma questo simples, precisando apenas de um pouco de fora para enfiar as mos 
sob a camada muscular e puxar a massa inteira. Um pequeno corte no estmago e no nus - olhou com desprezo para o abridor de cartas - e as entranhas podem ser lanadas 
ao fogo.
        "Bem", ergueu um dedo de advertncia, "se voc tiver sido rpido e delicado em seu trabalho, ter agora um momento de folga, pois, note bem, at ento nenhum 
grande vaso sangneo ter sido cortado."
        Senti uma sensao de desmaio, embora estivesse sentada, e tenho certeza de que meu rosto estava to lvido quanto o de Jamie. Apesar de muito plido, ele 
sorriu, como se estivesse entretendo um convidado.
        - De modo que a... pessoa... possa viver um pouco mais?
        - Mais oui, monsieur. - Os brilhantes olhos negros do carrasco percorreram a poderosa compleio corporal de Jamie, assimilando a largura dos ombros e as 
pernas musculosas. - Os efeitos de tal choque so imprevisveis, mas tenho visto um homem forte viver mais de um quarto de hora nesse estado.
        - Imagino que parea um tempo bem mais longo para o sujeito - Jamie disse secamente.
        Monsieur Forez pareceu no ouvir essa observao, pegando o abridor de cartas outra vez e sacudindo-o enquanto falava.
        - Ento, conforme a morte se aproxima, voc precisa enfiar a mo na cavidade do corpo e agarrar o corao. Mais uma vez,  necessria uma grande habilidade. 
O corao se retrai, sabe, sem o apoio das vsceras e geralmente est bem acima do lugar normal. Alm disso,  muito escorregadio. - Limpou uma das mos na aba de 
seu casaco numa pantomima. Mas a principal dificuldade est em cortar os grandes vasos sangneos acima muito rpido, de modo que o rgo possa ser retirado enquanto 
ainda est batendo.  preciso agradar a multido - ele explicou. - Faz muita diferena em termos de remunerao. Quanto ao resto... - encolheu o ombro magro com 
desdm. - Mera carnificina. Uma vez que a vida foi extinta, no h mais necessidade de habilidades especiais.
        - No, imagino que no - eu disse debilmente.
        - Como a senhora est plida, madame! J os detive tempo demais com essa conversa tediosa! - exclamou. Ele tomou a minha mo e tive que resistir ao mpeto 
de arranc-la de volta. Sua prpria mo era fria, mas o calor de seus lbios quando os roou de leve na minha foi to inesperado que apertei os meus dedos de surpresa. 
Ele deu um leve, quase imperceptvel, aperto em minha mo e voltou-se para fazer uma mesura formal para Jamie.
        - Devo me retirar, monsieur Fraser. Espero encontr-lo e  sua encantadora esposa outra vez... em circunstncias to agradveis como as que desfrutamos hoje. 
- Os dois homens entreolharam-se por um segundo. Em seguida, monsieur Forez pareceu se lembrar do abridor de carta que ele ainda segurava em uma das mos. com uma 
exclamao de surpresa estendeu-o na palma da mo. Jamie arqueou uma das sobrancelhas e pegou a faca delicadamente pela ponta.
        - Bon voyage, monsieur Forez - ele disse. - E obrigado - sua boca torceu-se ironicamente - por sua visita muito instrutiva.
        Ele insistiu em acompanhar nosso visitante at a porta. Sozinha, levantei-me e dirigi-me  janela, onde permaneci, praticando exerccios respiratrios at 
a carruagem azul-marinho desaparecer na esquina da rue Gamboge.
        A porta abriu-se atrs de mim e Jamie entrou. Ainda segurava o abridor de cartas. Atravessou o aposento deliberadamente at a enorme jarra cor-de-rosa que 
ficava perto da lareira e deixou o abridor de cartas cair no fundo da jarra com um barulho estridente.
        - Bem, no que diz respeito a avisos - ele disse -, esse foi muito eficaz. Estremeci ligeiramente.
        - Foi mesmo, no?
        - Quem voc acha que o enviou? - Jamie perguntou. - Madre Hildegarde?
        - Acredito que sim. Ela me avisou, quando decodificamos a msica. Disse que o que voc estava fazendo era perigoso. - No percebi o quanto era perigoso, 
at a visita do carrasco. Eu j no sofria de enjo matinal ha algum tempo, mas senti meu estmago revirar-se.
        - Se qualquer um dos senhores jacobitas vier a saber o que andei fazendo, acho que consideraro isso traio. E que medidas tomariam, se viessem a descobrir?
        Para todos os efeitos externos, Jamie era um partidrio jacobita declarado; sob esse disfarce, ele visitava Carlos, recebia o conde Marischal para jantar 
e freqentava a corte. E at agora ele fora muito habilidoso, nos jogos de xadrez, nas visitas s tavernas e nas suas festas, em minar a causa Stuart, ao mesmo tempo 
externamente parecendo apoi-la. Alm de ns dois, somente Murtagh sabia que pretendamos frustrar a revolta dos Stuart e nem mesmo ele sabia por qu, apenas aceitando 
a palavra de seu patro. A dissimulao era necessria, enquanto estivssemos operando na Frana. Mas o mesmo disfarce marcaria Jamie como traidor, se ele um dia 
pusesse os ps em solo britnico.
        Eu sabia disso,  claro, mas em minha ignorncia havia pouca diferena entre ser enforcado como um fora-da-lei e executado como um traidor. A visita de monsieur 
Forez dera um jeito nessa ingenuidade.
        - Voc est muito calmo em relao a isso - eu disse. Meu prprio corao ainda batia descompassadamente e as palmas de minhas mos estavam frias, mas suadas. 
Enxuguei-as na camisola e enfiei-as entre os joelhos para aquec-las.
        Jamie estremeceu ligeiramente e deu um sorriso enviesado para mim.
        - Bem, h muitas maneiras desagradveis de morrer, Sassenach. E se me couber uma delas, no vou gostar muito. Mas a pergunta : eu estaria com tanto medo 
da possibilidade que pararia tudo que estou fazendo para evit-la? - Sentou-se na chaise ao meu lado e segurou uma de minhas mos entre as suas. Suas palmas estavam 
quentes e seu corpo slido junto ao meu era reconfortante.
        - Pensei nisso por algum tempo, Sassenach, naquelas semanas na abadia enquanto me recuperava. E de novo, quando vim para Paris. E outra vez, quando conheci 
Carlos Stuart. - Sacudiu a cabea, inclinada sobre nossas mos unidas.
        - Sim, eu posso me ver num cadafalso. Eu vi a forca em Wentworth. Eu lhe contei isso?
        - No. No contou.
        Ele balanou a cabea, os olhos distantes na lembrana.
        - Eles nos conduziram ao ptio; aqueles de ns que estavam na cela dos condenados. E nos fizeram formar fileiras no ptio de pedras, para ver a execuo. 
Enforcaram seis homens naquele dia, homens que eu conhecia. Vi cada um deles subir os degraus - eram doze degraus - e ficar parado, as mos amarradas s costas, 
olhando para baixo, para o ptio, enquanto colocavam a corda em volta do seu pescoo. E me perguntei como eu conseguiria subir aqueles degraus quando chegasse a 
minha vez. Eu iria chorar e rezar, como John Sutter, ou iria ficar empertigado, como William MacLeod, e sorrir para um amigo no ptio l embaixo?
        Sacudiu a cabea repentinamente, como um cachorro enxugando-se, e sorriu para mim de forma um pouco assustadora.
        - De qualquer modo, monsieur Forez no me disse nada em que eu j ano houvesse pensado. Mas  tarde demais, mo duinne. - Colocou a mo sobre a minha. - 
Sim, tenho medo. Mas, se eu no voltaria atrs pela oportunidade de ir para casa em liberdade, no o farei por medo. No, mo duinne.  tarde demais.
        
        
        
24 - BOIS DE BOULOGNE
        
        A visita de monsieur Forez mostrou ser apenas a primeira de uma srie de acontecimentos extraordinrios.
        - H um sujeito italiano l embaixo, madame - Magnus informoume. - Recusou-se a me dar seu nome. - Havia uma expresso contrariada na boca do mordomo; imaginei 
que se o visitante no quis dar seu nome, fora mais do que propenso a dar ao mordomo vrias outras palavras.
        Isso, associado  designao "sujeito italiano", foi o suficiente para me dar uma pista da identidade do visitante. Assim, foi relativamente com pouca surpresa 
que entrei na sala de estar e encontrei Carlos Stuart em p junto  janela.
        Ele girou nos calcanhares quando entrei, o chapu nas mos. Obviamente, ficou surpreso ao ver a mim; a boca abriu-se por um segundo, depois ele recuperou 
a compostura e fez uma breve e rpida reverncia para me cumprimentar.
        - Milorde Broch Tuarach no est em casa? - perguntou. Suas sobrancelhas uniram-se de insatisfao.
        - No, no est - eu disse. - Aceita um refresco, Alteza?
        Olhou com interesse ao redor da sala de estar ricamente mobiliada, mas sacudiu a cabea. Pelo que eu soubesse, ele s havia estado na casa uma vez antes, 
quando veio por cima dos telhados de seu rendezvous com Louise. Nem ele nem Jamie acharam apropriado que ele fosse convidado para os jantares aqui; sem o reconhecimento 
oficial de Lus, a nobreza francesa o desprezava.
        - No. Obrigado, madame Fraser. No vou me demorar; meu criado est  minha espera l fora e  um longo trajeto at o lugar onde moro. Queria apenas fazer 
um pedido a meu amigo James.
        - Ha... bem, tenho certeza de que meu marido teria prazer em atender Vossa Alteza, se ele puder - respondi cautelosamente, imaginando qual seria o favor. 
Um emprstimo, talvez; as informaes colhidas por Fergus recentemente incluam um nmero considervel de cartas impacientes de alfaiates, fabricantes de botas e 
outros credores.
        Carlos sorriu, a expresso alterando-se para uma doura surpreendente.
        - Eu sei; no posso dizer-lhe, madame, o quanto estimo a devoo e os servios de seu marido; a viso de seu rosto leal aquece meu corao na solido do 
meu atual ambiente.
        - Oh? - exclamei.
        - O que eu peo no  algo difcil - assegurou-me. -  que eu fiz um pequeno investimento; um carregamento de vinho do Porto engarrafado.
        -  mesmo? - eu disse. - Que interessante. - Murtagh partira para Lisboa naquela manh, frascos de extrato de urtiga e de garana na bolsa do kilt.
        -  um pequeno favor - Carlos abanou a mo nobre, desdenhando o investimento de cada centavo que conseguira tomar emprestado. - Mas eu queria que meu amigo 
James realizasse a tarefa de desfazer-se da carga, assim que ela chegar. No  apropriado, sabe - e, nesse ponto, ele endireitou os ombros e levantou o nariz apenas 
um pouquinho, quase inconscientemente -, para uma pessoa como eu ser vista envolvida com comrcio.
        - Sim, compreendo perfeitamente, Alteza - eu disse, mordendo o lbio. Perguntei-me se ele havia expressado esse ponto de vista a seu scio nos negcios, 
St. Germain, que, sem dvida, considerava o jovem pretendente ao trono escocs uma pessoa de menor importncia do que qualquer um dos nobres franceses, que se envolviam 
em "comrcio" de corpo e alma, sempre que a oportunidade de lucro se oferecia.
        - Vossa Alteza est sozinho nesse empreendimento? - perguntei inocentemente.
        Ele franziu ligeiramente a testa.
        - No, eu tenho um scio; mas ele  francs. Eu preferia confiar os rendimentos da minha iniciativa nas mos de um compatriota. Alm do mais - acrescentou 
pensativamente -, ouvi dizer que meu caro James  um comerciante muito astuto e capaz; talvez ele consiga aumentar o valor do meu investimento por meio de uma venda 
judiciosa.
        Imaginei que quem quer que tivesse lhe falado da capacidade de Jamie no se preocupara em acrescentar a informao de que provavelmente no havia nenhum 
outro comerciante de vinho em Paris com quem St. Germain menos simpatizasse. Ainda assim, se tudo funcionasse como planejado, isso no teria importncia. E se no 
funcionasse, provavelmente St. Germain resolveria todos os nossos problemas estrangulando Carlos Stuart, quando descobrisse que este ltimo contratara a entrega 
da metade de seu exclusivo Porto Gostos a seu mais odiado concorrente.
        - Tenho certeza de que meu marido far todo o possvel para dispor a mercadoria de Vossa Alteza com o mximo de benefcio para todos os envolvidos - eu disse, 
falando a mais pura verdade.
        Sua Alteza agradeceu-me educadamente, como convinha a um prncipe, aceitando o servio de um sdito leal. Fez uma mesura, beijou minha mo com grande formalidade 
e partiu com infindveis protestos de gratido a Jamie. Magnus, no parecendo nem um pouco impressionado com a visita real, fechou a porta s suas costas.
        Nesse dia, Jamie s voltou para casa quando eu j havia adormecido, mas contei-lhe durante o desjejum sobre a visita de Carlos e sobre seu pedido.
        - Meu Deus, ser que Sua Alteza vai contar ao conde? - ele disse. Aps ter garantido a sade de seus intestinos dando cabo do seu mingau rapidamente, continuou 
com um desjejum francs de pezinhos com manteiga e chocolate fumegante. Um largo sorriso atravessava seu rosto enquanto contemplava a reao do conde, tomando pequenos 
goles do chocolate
        - Ser que  crime de lse-majest surrar um prncipe exilado? Porque se no for, espero que Sua Alteza tenha Sheridan ou Balhaldy perto dele quando St. 
Germain souber disso.
        Novas especulaes ao longo dessa linha foram abreviadas pelo barulho repentino de vozes no corredor. Um instante depois, Magnus surgiu  porta trazendo 
um bilhete na bandeja de prata.
        - Com licena, milorde - ele disse, com uma reverncia. - O mensageiro que trouxe este bilhete insistiu para que lhe fosse entregue imediatamente.
        Com as sobrancelhas erguidas, Jamie pegou o bilhete da bandeja, abriu-o e leu-o.
        - Ah, droga! - disse, contrariado.
        - O que foi? - perguntei. - No  notcia de Murtagh to depressa, ? Ele sacudiu a cabea.
        - No.  do contramestre do depsito.
        - Problema nas docas?
        Uma estranha mistura de emoes era visvel no rosto de Jamie; a impacincia lutando com o divertimento.
        - Bem, no exatamente. O sujeito se meteu numa confuso num bordel, ao que parece. Humildemente me pede perdo - indicou com ironia o bilhete -, mas espera 
que eu possa ir l lhe dar uma ajuda. Em outras palavras - traduziu, embolando o guardanapo ao se levantar -, eu poderia pagar a conta?
        - E poderia? - perguntei, achando graa.
        Ele riu com sarcasmo e sacudiu as migalhas do colo.
        - Acho que vou ter que pagar, a menos que eu queira supervisionar o depsito eu mesmo... e no tenho tempo para isso. - Franziu o cenho, enquanto repassava 
mentalmente as tarefas do dia. Era uma funo que podia levar algum tempo e havia outros pedidos de mercadorias sobre sua mesa, capites de navios aguardando nas 
docas e barris esperando no depsito.
        -  melhor levar Fergus comigo para entregar recados - disse, resignado. - Talvez ele possa ir a Montmartre com uma carta, caso eu no tenha tempo.
        - Coraes bondosos valem mais do que coroas - eu disse a Jamie enquanto ele estava parado junto  escrivaninha, folheando mlancolicamente a impressionante 
pilha de documentos que o aguardava.
        - Ah,  mesmo? - ele disse. - E de quem  esta opinio?
        - Alfred, lorde Tennyson, eu creio. Acho que ele ainda no nasceu, nas  um poeta. Tio Lamb possua um livro de famosos poetas ingleses. Havia um pouco de 
Burns l tambm, lembro-me,  um escocs - expliquei. -Ele disse: "Liberdade e usque andam juntos."
        Jamie riu ironicamente.
        - No sei dizer se ele  um poeta, mas ao menos  escocs. - Sorriu e inclinou-se para beijar-me na testa. - Estarei em casa para o almoo, mo duine. Cuide-se.
        Terminei meu prprio desjejum e economicamente acabei com a torrada de Jamie tambm, depois fui gingando para o andar de cima, para meu cochilo matinal. 
Eu tivera pequenos episdios de sangramento desde o primeiro alarme, embora nada alm de uma ou duas ndoas, e absolutamente nada por vrias semanas. Ainda assim, 
mantinha-me de repouso, na cama ou na chaise, a maior parte do tempo. S me aventurava no salo embaixo para receber visitantes ou na sala de jantar para fazer as 
refeies com Jamie. Quando desci para o almoo, entretanto, vi a mesa posta para uma pessoa.
        - Milorde ainda no voltou? - perguntei, surpresa. O idoso mordomo sacudiu a cabea.
        - No, milady.
        - Bem, imagino que logo estar aqui; mande deixar comida para ele, quando chegar.
        Eu estava faminta demais para esperar por Jamie; os enjos tendiam a retornar se eu passasse muito tempo sem comer.
        Aps o almoo, deitei-me para repousar outra vez. As relaes conjugais estando temporariamente suspensas, no havia muito o que fazer na cama, alm de ler 
ou dormir, o que significava que eu fazia muito de ambos. Dormir de barriga para baixo era impossvel, de costas era desconfortvel, j que fazia o beb contorcer-se. 
Conseqentemente, eu me deitava de lado, dobrando-me em volta do meu crescente abdmen como um camaro de coquetel em volta de uma alcaparra. Eu quase nunca dormia 
profundamente, mas tendia a cochilar, deixando minha mente vagar para os movimentos errticos e delicados da criana.
        Em algum lugar dos meus sonhos, achei que sentia Jamie perto de mim, mas quando abri os olhos o quarto estava vazio. Fechei os olhos de novo, embalada como 
se eu, tambm, flutuasse sem peso num mar com temperatura do sangue.
        Finalmente, no fim da tarde, fui acordada com uma delicada batida na porta do quarto.
        - Entre! - eu disse, piscando quando acordei. Era o mordomo Magnus, desculpando-se e anunciando mais visitas.
        -  a princesa de Rohan, madame - disse. - A princesa queria esperar at que a senhora acordasse, mas quando madame d'Arbanville tambm chegou, achei que 
talvez...
        - Tudo bem, Magnus - eu disse, sentando-me com dificuldade e colocando os ps para fora da cama. - vou descer.
        Eu gostava de receber visitas. No ltimo ms, havamos parado de realizar jantares e festas e eu sentia falta da agitao e das conversas, por mais tolas 
que fossem. Louise vinha com freqncia, regalando-me com os ltimos mexericos da corte, mas j fazia algum tempo que eu no via Marie d'Arbanville. Perguntei-me 
o que a traria aqui hoje.
        Eu estava suficientemente desajeitada para descer a escada devagar, o meu peso fazendo os degraus rangerem sob a sola dos meus ps a cada passo. A porta 
de almofadas da sala de visitas estava fechada, mas ouvi claramente uma voz em seu interior.
        - Voc acha que ela j sabe?
        A pergunta, feita no tom de voz baixo que pressagia os mexericos mais escandalosos, chegou a mim quando eu estava prestes a entrar na sala. Ao invs disso, 
parei na soleira, fora do alcance de viso.
        Fora Marie d'Arbanville quem falara. Bem-vinda em todo lugar por causa da posio de seu idoso marido, e muito afeita  vida social at para os padres franceses, 
Marie ouvia tudo que valia a pena ser ouvido nos crculos de Paris.
        - J sabe do qu? - A resposta foi de Louise; sua voz alta, sonora, possua a perfeita autoconfiana da aristocrata inata, que no se importava com quem 
pudesse ouvir o que dizia.
        - Ah, voc ainda no sabe! - Marie agarrou-se  oportunidade como uma gatinha, encantada por achar um novo ratinho para brincar. - Meu Deus!  claro, eu 
mesma s soube uma hora atrs.
        E veio correndo at aqui para me contar tudo, pensei. O que quer que fosse. Achei que eu tinha uma chance melhor de ouvir a verso no expurgada de minha 
posio no corredor.
        - Trata-se de milorde Broch Tuarach - Marie disse. Eu no precisava v-la para imagin-la inclinando-se para frente, os olhos verdes correndo de um lado 
para o outro, saltando de prazer com as novidades. - Hoje de manh, ele desafiou um ingls para um duelo, por causa de uma prostituta.
        - O qu? - O grito de surpresa de Louise abafou minha prpria respirao sufocada. Agarrei-me a uma mesinha, pontos negros flutuando diante dos meus olhos 
enquanto o mundo parecia desaparecer sob meus ps.
        - Ah, sim! - Mare dizia. - Jacques Vincennes estava l; contou tudo a meu marido! Foi naquele bordel perto do mercado de peixes. Imagine ir a um bordel a 
esta hora da manh! Os homens so to estranhos. De qualquer forma, Jacques estava tomando um drinque com madame Elise, a dona do lugar, quando de repente ouviu-se 
um grito pavoroso no andar de cima e todo tipo de gritos e pancadas.
        Parou para recuperar o flego - e para dar um efeito dramtico - e eu ouvi o som de lquido sendo servido.
        - Assim, Jacques,  claro, correu para as escadas... bem, de qualquer forma, isso  o que ele diz; acho que, na verdade, ele se escondeu atrs do sof, ele 
 um grande covarde... e depois de mais gritos e pancadaria, ouviu-se um barulho terrvel e um oficial ingls foi empurrado escada abaixo, seminu, sem peruca, cambaleando 
e batendo contra as paredes E quem aparece no alto das escadas, parecendo o vingador de Deus, se no nosso pettt James!
        - No! E eu teria jurado que ele seria o ltimo... mas continue! O que aconteceu depois?
        Uma xcara tilintou suavemente contra um pires e, em seguida, ouviu-se a voz de Mare, livre das modulaes da discrio pela absoluta empolgao.
        - Bem... o sujeito chegou ao p da escada sem cair, por algum milagre, e ele virou-se instantaneamente e olhou para lorde Tuarach. Jacques diz que o sujeito 
estava controlado demais para algum que acabara de ser chutado escada abaixo com as calas abertas. Ele sorriu, no um verdadeiro sorriso, sabe, mas daquele tipo 
asqueroso, e disse: "No h necessidade de violncia, Fraser. Voc podia ter esperado a sua vez, no ? Pensei que ja tivesse o suficiente em casa. Mas alguns homens 
s tm prazer quando Pagam por ele."
        Louise emitiu alguns rudos de espanto.
        - Que horror! O canaille! Mas, claro, no se pode censurar milorde Tuarach. - Pude ouvir a tenso em sua voz conforme a amizade lutava com a necessidade 
de falar da vida alheia. Como era de se esperar, a bisbilhotice venceu.
        - Milorde Tuarach no pode desfrutar os favores de sua mulher no momento; ela est grvida e a gravidez  perigosa. Ento,  claro, ele foi aliviar suas 
necessidades em um bordel. Que homem agiria de outra forma? Mas continue, Mare! O que aconteceu depois?
        - Bem. - Marie inspirou fundo antes de atingir o ponto alto da histria. - Milorde Tuarach desceu as escadas correndo, agarrou o ingls pela garganta e sacudiu-o 
como um rato!
        - Non! Ce nest ps vrai!
        - Ah, sim! Foram necessrios trs criados da madame para segur-lo. Um homem to grande e maravilhoso, no? com um ar to feroz!
        - Sim, mas e depois?
        - Ah... bem, Jacques disse que o ingls ficou arquejando por uns instantes, depois se endireitou e disse para milorde Tuarach: "J  a segunda vez que voc 
quase me mata, Fraser. Um dia desses vai acabar conseguindo." Ento milorde Tuarach praguejou naquela terrvel lngua escocesa, que eu no entendo uma palavra, livrou-se 
dos homens que o seguravam, deu um tapa no rosto do ingls com a mo sem luva - Louise sufocou um gritinho diante do insulto - e disse: "Amanh, o nascer do sol 
o ver morto!" Em seguida, virou as costas e subiu as escadas correndo. O ingls foi embora. John disse que ele estava lvido! No  de admirar! Imagine!
        Eu imaginava muito bem.
        - A senhora est bem, madame? - A voz ansiosa de Magnus abafou as subseqentes exclamaes de Louise. Estendi a mo, tateando, e ele agarrou-a imediatamente, 
colocando a outra sob o meu cotovelo para apoiar-me.
        - No. No estou bem. Por favor... podia dizer isso s senhoras? - Fiz um gesto fraco indicando a sala de visitas.
        - Claro, madame. Logo em seguida, mas deixe-me lev-la a seu quarto primeiro. Por aqui, chre madame... - Conduziu-me pelas escadas, murmurando palavras 
de conforto enquanto me amparava. Acompanhou-me at a chaise do quarto, onde me deixou, prometendo enviar uma criada imediatamente para me assistir.
        No esperei pela ajuda; depois do choque inicial, eu conseguia me movimentar bem. Levantei-me e atravessei o quarto at onde estava minha pequena caixa de 
remdios, sobre a penteadeira. Eu no sentia que ia desmaiar agora, mas havia um frasco de amnia na caixa que eu queria ter a mo, s por garantia.
        Levantei a tampa e parei, imvel, olhando fixamente para a caixa. Por um instante, minha mente recusou-se a registrar o que meus olhos viam, uma folha de 
papel branco dobrada, desveladamente colocada entre as garrafinhas multicores. Notei, um pouco abstraidamente, que meus dedos tremiam quando peguei o papel; foram 
necessrias vrias tentativas para abri-lo.
        Sinto muito. As palavras eram arrojadas e pretas, as letras cuidadosamente alinhadas no centro do papel, um "J" solitrio desenhado com igual esmero. E abaixo 
delas, mais duas palavras, essas rabiscadas de modo apressado como um postscript de desespero: Eu preciso!
        - Voc precisa - murmurei comigo e, ento, meus joelhos dobraram-
        Deitada no cho, com as almofadas de madeira trabalhada no teto oscilando indistintamente acima, vi-me pensando que at ento eu sempre achara que a tendncia 
das mulheres do sculo XVIII de desmaiarem devia-se a espartilhos muito apertados; agora, eu achava que devia-se  idiotice dos homens da poca.
        Ouviu-se um grito de horror de algum lugar prximo; em seguida, mos obsequiosas ergueram-me e eu senti a maciez do colcho estofado de l sob meu corpo 
e panos frios na minha testa e nos meus pulsos, cheirando a vinagre.
        Logo recobrei os poucos sentidos que me restavam, mas no me sentia nem um pouco inclinada a falar. Assegurei s criadas que estava realmente bem, mandei 
que se retirassem e fiquei deitada de costas, apoiada nos travesseiros, tentando pensar.
        Erajack Randall,  claro, e Jamie fora mat-lo. Esse era o nico pensamento ntido no redemoinho de horror e especulao que enchia minha mente. Mas por 
qu? O que poderia t-lo levado a quebrar a promessa que me fizera?
        Tentando considerar com toda a cautela os acontecimentos que Marie relatara - apesar de virem em terceira mo -, achei que devia haver algo mais alm do 
simples choque de um encontro inesperado. Eu conhecia o capito, conhecia-o bem melhor do que gostaria. E se havia alguma coisa da qual eu tinha certeza,  que ele 
no estaria comprando os servios usuais de um bordel - o simples prazer com uma mulher no fazia parte de sua natureza. O que ele gostava - precisava - era de dor, 
medo e humilhao.
        Essas mercadorias,  claro, tambm podiam ser compradas, ainda que a um preo mais alto. Eu j vira o suficiente, em meu trabalho no Hpital ds Anges, para 
saber que havia ls putains cujo principal artigo de comrcio no estava entre as pernas, mas em ossos fortes, cobertos com uma pele clara e frgil que ficava imediatamente 
contundida e mostrava marcas de chicotadas e surras.
        E se Jamie, a prpria pele marcada de cicatrizes deixadas pela ao dele, tivesse se deparado com o capito, divertindo-se de maneira semelhante com uma 
das mulheres do estabelecimento - isso, eu achava, Poderia t-lo levado alm de qualquer promessa ou restrio. Havia uma Pequena marca no lado esquerdo de seu peito, 
logo abaixo do mamilo; uma minscula cicatriz de pele esbranquiada e esgarada, de onde ele cortara de sua pele a marca registrada de Jonathan Randall, feita com 
seu anel de sinete em brasa. A fria que o levara a preferir sofrer mutilao a carregar aquela marca obscena poderia facilmente vir  tona outra vez, para destruir 
seu algoz - e sua infeliz descendncia.
        - Frank - eu disse, e minha mo curvou-se involuntariamente sobre o ouro de minha aliana de casamento. - Ah, meu Deus. Frank. - para Jamie, Frank no passava 
de um fantasma, a remota possibilidade de um refgio para mim, no caso improvvel de necessidade. Para mim, Frank era o homem com quem eu vivera, com quem compartilhara 
minha cama e meu corpo... e a quem abandonara, por fim, para ficar com Jamie Fraser
        - No posso - murmurei para o vazio do quarto, para o pequeno companheiro que se espreguiava e contorcia-se preguiosamente dentro de mim, sem se deixar 
perturbar com minha prpria agonia. - No posso deix-lo fazer isso!
        A luz da tarde havia esmaecido e se transformado nas sombras cinzentas do anoitecer e o quarto parecia repleto de todo o desespero do fim do mundo. Amanh, 
o nascer do sol o ver morto! No havia esperana de encontrar Jamie esta noite. Eu sabia que ele no retornaria  rue Tremoulins; ele no teria deixado aquele bilhete 
se pretendesse voltar. Ele jamais conseguiria ficar deitado ao meu lado a noite inteira, sabendo o que pretendia fazer pela manh. No, ele certamente buscara refgio 
em alguma hospedaria ou taverna, para ali se preparar, sozinho consigo mesmo, para a execuo da justia que prometera.
        Eu achava que sabia qual seria o local do confronto. com a lembrana de seu primeiro duelo vivida na mente, Jamie tosara o cabelo para se preparar. A lembrana 
lhe viria novamente, eu tinha certeza, quando da escolha de um local para defrontar-se com o inimigo. O Bois de Boulogne, perto do caminho dos Sete Santos. O bosque 
era um lugar popular para duelos ilcitos, sua vegetao densa abrigando os participantes, dificultando sua descoberta. Amanh, uma de suas clareiras sombrias veria 
o encontro de Jamie Fraser e Jack Randall. E eu permaneci deitada na cama, sem me preocupar em trocar de roupa ou me cobrir, as mos cruzadas em cima da barriga. 
Vi o crepsculo transformar-se em escurido e soube que no conseguiria dormir naquela noite. Reconfortei-me como pude com os leves movimentos de meu oculto habitante, 
o eco das palavras de Jamie soando em meus ouvidos. Amanh, o nascer do sol o ver morto!
        O Bois de Boulogne era uma pequena regio de floresta praticamente virgem, empoleirada de modo inadequado na periferia de Paris. Dizia-se que lobos, bem 
como raposas e texugos ainda podiam ser encontrados espreitando em suas profundezas, mas essas histrias no desencorajavam os casais de amantes que namoravam sob 
a copa das rvores na relva do solo da floresta. Era uma fuga do barulho e da sujeira da cidade e somente sua localizao impedia que se transformasse num ptio 
de lazer para a nobreza. Assim, era patrocinado em grande parte por aqueles que residiam nas proximidades, que encontravam um momento de descanso  sombra dos enormes 
carvalhos e dos plidos vidoeiros do bosque, e por aqueles de mais longe que buscavam privacidade.
        Era um bosque pequeno, mas ainda assim grande demais para percorrer a p,  cata de uma clareira suficientemente ampla para abrigar um par de duelistas. 
Comeara a chover durante a noite e a aurora surgira relutantemente, sombria e turva, atravs de um cu carregado de nuvens escuras. A floresta sussurrava consigo 
mesma, o dbil tamborilar da chuva na folhagem misturando-se ao ruge-ruge amortecido do roar de folhas e galhos. A carruagem parou na estrada que atravessava o 
Bois, perto do ltimo aglomerado de construes caindo aos pedaos. Eu dissera ao cocheiro o que fazer; ele desceu do seu banco, amarrou os cavalos e desapareceu 
entre os prdios. As pessoas que moravam perto do bosque sabiam o que acontecia por l. No podia haver muitos lugares apropriados para um duelo; os existentes deviam 
ser conhecidos.
        Recostei-me e enrolei melhor o pesado manto ao meu redor, tremendo no frio do comeo da manh. Sentia-me muito mal, de cansao pela noite sem dormir e do 
peso de chumbo que o medo e a dor colocavam na boca do meu estmago. Subjacente a tudo, havia uma raiva efervescente que eu tentava afastar, com receio que interferisse 
na tarefa que eu tinha diante de mim.
        Mas ela continuava a se insinuar de volta, fervilhando sempre que eu abaixava a guarda, como agora. Como ele pde fazer isso?, minha mente continuava a ruminar, 
numa raiva fria. Eu no deveria estar ali; deveria estar em casa, descansando tranqilamente ao lado de Jamie. No devia ter que vir atrs dele, impedi-lo, lutando 
contra a raiva e a doena. Uma dor incmoda, provocada pela viagem de coche, latejava na base da minha espinha dorsal. Sim, ele devia estar muito zangado; eu podia 
entender isso.
        Mas era a vida de um homem que estava em jogo, pelo amor de Deus!
        Como podia esse maldito orgulho ser mais importante do que isso? E deixar-me, sem nem uma palavra de explicao! Deixar que eu descobrisse pelos mexericos 
de vizinhos o que acontecera.
        - Voc me prometeu, Jamie, droga, voc me prometeu - murmurei, entre dentes. O bosque estava silencioso, orvalhado e imerso em neblina. Eles j teriam chegado? 
J estariam ali? Eu teria errado o lugar?
        O cocheiro reapareceu, acompanhado de um rapaz, talvez de uns catorze anos, que subiu agilmente para a bolia, sentou-se ao lado do cocheiro e sacudiu a 
mo, gesticulando para a frente e para a esquerda com um rpido estalo do chicote e outro da lngua, o cocheiro instigou os cavalos a um trote lento. Ns samos 
da estrada e entramos nas sombras do bosque que comeava a despertar.
        Paramos duas vezes, esperando enquanto o rapaz descia e lanava-se mato a dentro, toda vez ressurgindo em poucos instantes, sacudindo a cabea em sinal negativo. 
Na terceira vez, ele voltou apressado, a empolgao to evidente em seu rosto que eu j havia aberto a porta da carruagem antes que ele pudesse se aproximar o suficiente 
para gritar para o cocheiro.
        Eu j tinha o dinheiro na mo; enfiei-o em sua mo, ao mesmo tempo agarrando-o pela manga e dizendo:
        - Mostre-me onde ! Depressa, depressa!
        Mal notei os galhos entrelaados que atravessavam o caminho, nem a repentina umidade que encharcava minhas roupas conforme eu roava por eles. O solo era 
acolchoado de folhas mortas, e nem meus sapatos nem os do meu guia faziam qualquer rudo enquanto eu seguia a sombra de sua camisa rasgada e molhada em alguns lugares.
        Eu os ouvi antes de v-los; j haviam comeado. O barulho de metal contra metal era abafado pelos arbustos, mas ainda assim muito claro. Nenhum pssaro cantava 
na aurora mida, mas a voz mortal da luta ressoava em meus ouvidos.
        Era uma clareira larga, nas profundezas do Bois, mas acessvel por uma trilha e pela estrada. Suficientemente larga para acomodar os movimentos com os ps 
necessrios a um duelo srio. Haviam despido os casacos e estavam apenas de camisa, lutando na chuva, o tecido molhado grudando no corpo, revelando os contornos 
do ombro e da espinha dorsal.
        Jamie dissera que ele sabia lutar melhor; podia ser, mas Jonathan Randall tambm no era um espadachim medocre. Ele contorcia-se e esquivava-se, flexvel 
como uma cobra, a espada golpeando como uma presa de serpente de prata. Jamie era igualmente rpido, com uma graa surpreendente para um homem to alto, os ps leves 
e ligeiros, as mos farmes. Fiquei observando, grudada ao solo, com medo de gritar e desviar a ateno de Jamie. Eles giravam num crculo estreito de ataque e defesa, 
os ps tocando de leve o solo como uma dana sobre a grama.
        Permaneci imvel, observando. Eu viera no fim da noite para encontr-los, para impedi-los. Embora os tivesse encontrado, agora eu no podia intervir, por 
medo de causar uma interrupo fatal. Tudo que eu podia fazer era esperar, para ver qual dos meus dois homens morreria.
        Randall brandia sua lmina no alto e na posio certa para desviar-se do ataque, mas no foi rpido o suficiente para aparar a selvageria do golpe. que enviou 
sua espada pelos ares. Abri a boca para gritar. Eu pretendia chamar o nome de Jamie, faz-lo parar agora, naquele momento de misericrdia entre o desarme do adversrio 
e o golpe mortal que deveria ser desferido em seguida. De fato, eu gritei, mas o som emergiu fraco e estrangulado.  medida que permaneci ali, observando, a dor 
nas minhas costas intensificou-se, apertando como uma garra. Nesse instante, senti uma ruptura repentina em algum lugar, como se a garra tivesse arrancado e soltado 
o que segurava.
        Tateei loucamente e agarrei um galho prximo. Vi o rosto de Jamie, impvido numa espcie de calma exultao, e compreendi que ele no podia ouvir nada atravs 
da nvoa de violncia que o envolvia. Ele no veria nada exceto seu objetivo, at que a luta terminasse. Randall, recuando diante da lmina inexorvel, escorregou 
na grama molhada e caiu. Arqueou as costas, tentando se levantar, mas a grama estava escorregadia. O tecido do leno ao seu pescoo estava rasgado e sua cabea atirada 
para trs, os cabelos escuros encharcados pela chuva, a garganta exposta como a de um lobo pedindo clemncia Mas a vingana no conhece a misericrdia e no foi 
a garganta exposta que a lmina descendente buscou.
        Atravs de uma nvoa cada vez mais escura, vi a espada de Jamie descer, graciosa e mortal, fria como a morte. A ponta tocou a cintura das calas de pele 
de veado, perfurou-a e veio cortando para baixo numa toro violenta que escureceu o castanho-claro com um repentino fluxo de sangue vermelho-escuro.
        O sangue era umjorro quente descendo pelas minhas coxas e o frio na minha pele movia-se para dentro, em direo  base de minha espinha dorsal. O osso onde 
minha plvis unia-se s minhas costas estava se quebrando, eu podia sentir a tenso conforme cada onda de dor me engolfava, a descarga de um raio queimando pela 
minha coluna para explodir e arder na base de meus quadris, um raio de destruio, deixando campos queimados e enegrecidos em seu rastro.
        Meu corpo, assim como meus sentidos, parecia se esfacelar. No via nada, mas no sabia dizer se meus olhos estavam fechados ou abertos, tudo estava girando, 
escurecendo, manchado de vez em quando pelos padres em movimento que voc v  noite quando  criana, quando pressiona os punhos fechados contra as plpebras cerradas.
        As gotas de chuva batiam em meu rosto, na minha garganta, nos meusombros. Cada gota pesada caa, fria, depois se dissolvia em um minsculo crrego morno, 
percorrendo minha pele enregelada. A sensao era bem distinta, separada da agonia de violentas contores que avanavam e recuavam, mais abaixo. Tentei concentrar 
minha mente nas gotas da chuva, forar minha ateno a se desviar da voz distante e fraca no centro do meu crebro, aquela que dizia, como se fizesse anotaes num 
boletim clnico:
         "Voc est tendo uma hemorragia,  claro. Provavelmente, houve ruptura de placenta, a julgar pela quantidade de sangue. Em geral,  fatal. A perda de sangue 
acarreta o entorpecimento das mos e dos ps, e o escurecimento da viso. Dizem que a audio  o ltimo sentido a se apagar. Parece que isso  verdade."
        Se a audio era o ltimo dos meus sentidos a permanecer ou no, eu ainda podia ouvir. E o que ouvia eram vozes, muito agitadas, algumas pedindo calma, todas 
falando em francs. Havia uma palavra que eu podia ouvir e entender - meu prprio nome, gritado incessantemente, mas a uma grande distncia.
        - Claire! Claire!
        -Jamie - tentei dizer, mas meus lbios estavam rgidos e entorpecidos de frio. Eu era incapaz de qualquer tipo de movimento. A comoo ao meu redor estava 
se estabelecendo num nvel mais equilibrado; algum tinha chegado e, ao menos, estava disposto a agir como se eles soubessem o que fazer.
        Talvez soubessem. O forro ensopado da minha saia foi delicadamente levantado do meio de minhas coxas e um grosso chumao de pano macio colocado com firmeza 
em seu lugar. Mos obsequiosas viraram-me sobre meu lado esquerdo e puxaram meus joelhos para cima, em direo ao meu peito.
        - Levem-na para o Hpital - sugeriu uma voz perto do meu ouvido.
        - Ela no vai viver at chegar l - disse outra, com pessimismo. -  melhor esperar alguns minutos e depois mandar buscar o rabeco.
        - No - insistiu outra voz. - O sangramento est diminuindo; ela pode viver. Alm do mais, eu a conheo; j a vi no Hpital ds Anges. Levem-na para madre 
Hildegarde.
        Reuni todas as foras que tinha e consegui murmurar:
        - Madre.
        Em seguida, desisti de lutar e deixei que a escurido me envolvesse.
        
        
        
25 - RAYMOND, O HEREGE
        
        O teto alto, abobadado, acima de mim, era apoiado por ogivas, aqueles arcos arquitetnicos do sculo XIV que se erguem do topo de pilares e cortam-se na 
parte superior.
        Minha cama estava colocada sob uma dessas abbadas gticas, com cortinas de gaze puxadas ao redor para maior privacidade. No entanto, o ponto central da 
ogiva no ficava direto acima de mim; minha cama fora deslocada para um dos lados. Isso me incomodava sempre que eu olhava para cima; ficava querendo mover a cama 
pela fora do pensamento, como se o fato de estar bem centralizada sob o teto pudesse me ajudar a centrarme dentro de mim mesma.
        Se  que eu ainda possua um centro. Meu corpo estava dolorido e sensvel, como se eu tivesse levado uma surra. Minhas juntas doam e pareciam frouxas, como 
dentes amolecidos pelo escorbuto. Vrios cobertores grossos me cobriam, mas nada podiam fazer alm de aprisionar o calor e eu no tinha nenhum. O frio da aurora 
chuvosa impregnara meus ossos.
        Todos esses sintomas fsicos eu notava objetivamente, como se pertencessem a outra pessoa; fora isso, no sentia nada. O centro lgico, pequeno e frio do 
meu crebro ainda estava l, mas o invlucro de sentimentos atravs do qual suas manifestaes em geral eram filtradas desaparecera; morto, ou paralisado, ou simplesmente 
desaparecido. Eu no sabia nem me importava. Estava no Hpital ds Anges havia cinco dias.
        Os dedos longos de madre Hildegarde examinavam com inexorvel delicadeza pelo algodo da camisola que eu usava, investigavam as profundezas do meu ventre, 
buscando as bordas rgidas de um tero contrado. Mas a carne estava tenra e macia como uma fruta madura sob seus dedos. Pestanejei quando seus dedos mergulharam 
mais fundo e ela franziu a testa, murmurando alguma coisa baixinho que se parecia a uma prece.
        Captei um nome entre os murmrios e perguntei:
        - Raymond? Conhece mestre Raymond? - No podia imaginar um Par mais improvvel do que essa freira amedrontadora e o pequeno gnomo da caverna de crnios.
        As sobrancelhas espessas de madre Hildegarde ergueram-se abruptamente
        - Mestre Raymond, voc diz? Aquele charlato herege? Que Dieu nous en garde! - Que Deus nos proteja.
        - Oh. Pensei t-la ouvido dizer "Raymond".
        - Ah. - Os dedos retornaram ao seu trabalho, investigando minha virilha em busca de nguas, gnglios linfticos aumentados, que indicariam infeco. Eles 
estavam l, eu sabia; eu mesma os tateara, movendo minhas mos numa agitada agonia sobre meu corpo vazio. Podia sentir a febre, uma dor e um frio no fundo dos ossos, 
que iria queimar como brasa quando atingisse a superfcie da minha pele.
        - Estava invocando a ajuda de St. Raymond Nonnatus - madre Hildegarde explicou, torcendo um pano em gua fria. -  de valor inestimvel na assistncia a 
mulheres grvidas.
        - Que eu j no sou. - Notei, de forma longnqua, a breve pontada de dor que fez suas sobrancelhas se franzirem; desapareceu quase imediatamente enquanto 
se ocupava em enxugar minha testa, passar gua fria depressa pelas minhas faces e pelas dobras midas, quentes, do meu pescoo.
        Estremeci de repente ao toque da gua fria e ela parou imediatamente, colocando a mo em minha testa para avaliar a febre.
        - St. Raymond no costuma ser seletivo - ela disse, distraidamente, mas com um ar de reprovao. - Eu mesma aceito ajuda de onde ela vier; uma atitude que 
eu lhe recomendaria.
        - Mmm. - Fechei os olhos, recolhendo-me ao paraso de um nevoeiro cinza. Agora parecia haver luzes fracas no nevoeiro, breves lampejos como a disperso de 
relmpagos difusos num horizonte de vero.
        Ouvi o tilintar de contas de rosrio de azeviche quando madre Hildegarde endireitou-se e a voz suave de uma das freiras no vo da porta, chamando-a para 
mais uma das infindveis emergncias do dia. Ela j havia quase alcanado a porta quando uma idia lhe ocorreu. Girou nos calcanhares com um rudo sussurrante das 
saias pesadas, apontando para o p da minha cama com um dedo autoritrio.
        - Bouton! - ela disse. - Au pied, reste!
        O cachorro, to decidido quanto sua dona, girou agilmente no meio do passo e saltou para o p da cama. Uma vez ali, levou um instante para ajeitar as cobertas 
com as patas e girou trs vezes no sentido anti-horrio, como se tirasse os maus fluidos do seu lugar de descanso. Em seguida, deitou-se aos meus ps, descansando 
o focinho sobre as patas com um profundo suspiro.
        Satisfeita, madre Hildegarde murmurou:
        - Que Dieu vous bnsse, mon enfant. Tendo se despedido, desapareceu.
        - Que Dieu vous bnsse, mon enfant. Tendo se despedido, desapareceu.
        Atravs da nvoa cada vez mais densa e do glido entorpecimento que me envolvia, agradeci vagamente seu gesto. Sem nenhuma criana para embalar nos braos, 
ela me deu seu prprio e melhor substituto.
        Aquele peso peludo sobre meus ps era de fato um pequeno conforto fsico. Bouton permanecia quieto e imvel como os cachorros aos ps dos reis esculpidos 
nas tampas de seus tmulos em St. Denis, o seu calor contrapondo-se ao frio de mrmore dos meus ps, sua presena um consolo maior do que a solido ou a companhia 
dos humanos, j que no exigia nada de mim. Nada era precisamente o que eu sentia e tudo que eu tinha para dar.
        Bouton soltou um pequeno e estalado peido de cachorro e pegou no sono. Puxei as cobertas sobre o nariz e tentei fazer o mesmo.
        Por fim, adormeci. E sonhei. Sonhos febris de cansao e desolao, de uma tarefa impossvel, incessantemente empreendida. De um esforo doloroso e interminvel, 
realizado num lugar rido e pedregoso. De um nevoeiro cinza e denso, atravs do qual a derrota perseguia-me como um demnio na neblina.
        Acordei, abruptamente, e descobri que Bouton se fora, mas eu no estava sozinha.
        A linha de contorno do couro cabeludo de Raymond estava completamente nivelada, uma linha reta que atravessava a fronte larga como se tivesse sido desenhada 
com uma rgua. Ele usava os cabelos espessos, grisalhos, penteados para trs e cados sobre os ombros, de modo que a cabea macia projetava-se como um bloco de 
pedra, eclipsando completamente o resto do rosto. Pairava acima de mim agora, olhando para meus olhos febris como a lpide de um tmulo.
        As rugas e sulcos de seu rosto moviam-se ligeiramente conforme ele conversava com as freiras. Pensei comigo mesma que se pareciam a letras, escritas logo 
abaixo da superfcie da laje tumular, tentando escavar seu caminho para o exterior, a fim de que o nome do morto pudesse ser lido. Estava convencida de que, dentro 
de mais alguns instantes, meu nome se tornaria legvel na laje branca e, nesse momento, eu morreria de verdade. Arqueei as costas e gritei.
        - Ora, est vendo s? Ela no o quer aqui, criatura velha e nojenta, est perturbando seu descanso. V embora agora mesmo! - Madre Hildegarde agarrou Raymond 
autoritariamente pelo brao, arrastando-o para longe da Cama. Ele resistia, fincado como um gnomo de pedra num gramado, mas a irm Celeste acrescentou seus esforos 
nada desprezveis aos de madre Iudegarde e as duas o iaram completamente do cho e o carregaram dali. O tamanco caiu de um p que chutava freneticamente enquanto 
ele era levado
        O tamanco ficou onde cara, de lado, exatamente no meio de uma das lajes bem esfregadas do assoalho. com a intensa fixao da febre, eu era incapaz de desviar 
os olhos do objeto. Tracei inmeras vezes a curva incrivelmente lisa da borda usada, a cada vez arrancando meu olhar fixo da escurido impenetrvel de seu interior. 
Se eu me deixasse entrar naquele negrume, minha alma seria sugada para dentro do caos. Enquanto meus olhos repousavam sobre o tamanco, pude ouvir novamente os sons 
da passagem do tempo atravs do crculo de pedras e estendi os braos, agarrando-me histericamente  borda da cama acolchoada,  cata de um ancoradouro onde pudesse 
me amparar contra a confuso.
        De repente, um brao surgiu do meio das cortinas e a mo vermelha de uma criada apossou-se do calado e desapareceu. Privada de um foco, minha mente confusa 
pelo calor da febre girou pelos sulcos das lajes do assoalho por alguns instantes; em seguida, apaziguada pela regularidade geomtrica, voltou-se para dentro e oscilou 
em direo ao sono como um pio perdendo o impulso.
        Mas no havia tranqilidade em meus sonhos e eu fui tropeando, exausta, pelos labirintos de figuras que se repetiam, interminveis crculos e espirais. 
Foi com uma sensao de profundo alvio que eu vi finalmente as irregularidades de um rosto humano.
        E sem dvida tratava-se de um rosto irregular, contrado numa carranca feroz como estava, os lbios franzidos num pedido suplicante. Foi somente quando senti 
a presso da mo sobre minha boca que percebi que j no estava dormindo.
        A boca larga e sem lbios da grgula pairava junto ao meu ouvido.
        - Silncio, ma chre! Se me encontrarem aqui outra vez, estou perdido.
        - Os olhos grandes e escuros arremessavam-se de um lado para o outro, a espreita de qualquer movimento das cortinas. Balancei a cabea devagar e ele relaxou 
a boca, os dedos deixando para trs um leve sopro de amnia e enxofre. Ele encontrara em algum lugar, ou roubara, pensei obscuramente, o hbito cinza e rasgado de 
um frade para cobrir o veludo sujo de sua roupa de farmacutico e as profundezas do capuz ocultavam tanto os reveladores cabelos prateados quanto aquela testa monstruosa.
        Os delrios da febre cederam ligeiramente, afastados pelos resqucios de curiosidade que me restavam. Eu estava fraca demais para dizer mais do que "O que...", 
quando ele colocou outra vez o dedo sobre meus lbios e lanou para trs o lenol que me cobria.
        Observei com certo espanto enquanto ele rapidamente desfazia os laos de minha camisola e a abria at a cintura. Seus movimentos eram geis e profissionais, 
sem o menor sinal de depravao. No que eu pudesse imaginar que algum fosse capaz de tentar violar uma carcaa devastada pela febre como a minha, particularmente 
no ao alcance dos ouvidos de madre Hildegarde. Ainda assim...
        Observei com remota fascinao quando ele colocou as mos em concha sobre meus seios. Eram grandes e quase quadradas, os dedos todos de um tamanho s, com 
polegares extraordinariamente longos e flexveis, que curvavam-se em torno dos meus seios com surpreendente delicadeza. Observando-as, tive a lembrana vvida e 
inesperada de Marian Jenkinson, uma jovem com quem recebi treinamento no Pembroke Hospital, dizendo s colegas extasiadas dos alojamentos das enfermeiras que o tamanho 
e a forma dos polegares de um homem eram uma indicao segura da qualidade de seu apndice mais ntimo.
        -  verdade, eu juro - Marian declarava, sacudindo para trs seus cabelos louros com grande dramaticidade. Mas quando pressionada para citar exemplos, ela 
apenas dava risadinhas, revirando os olhos na direo do tenente Hanley, que se parecia muito com um gorila, a despeito dos polegares opostos, e de tamanho considervel.
        Os grandes polegares pressionavam meus seios delicadamente, mas com firmeza, e pude sentir meus mamilos inchados intumescerem-se contra as palmas duras, 
frias em comparao  minha prpria pele aquecida.
        - Jamie - eu disse, e um calafrio percorreu meu corpo.
        - Silncio, madona - disse Raymond. Sua voz era baixa, gentil, mas de certa forma meditativa e distante, como se no estivesse prestando nenhuma ateno 
a mim, apesar do que estava fazendo.
        O calafrio voltou; era como se o calor passasse de mim para ele, mas suas mos no esquentavam. Seus dedos continuavam frios e eu sentia arrepios e tremia 
conforme a febre recuava e flua, escoando-se dos meus ossos.
        A luz da tarde era turva atravs da gaze espessa das cortinas ao redor de minha cama e as mos de Raymond eram escuras sobre a pele branca dos meus seios. 
Entretanto, as sombras entre os dedos grossos, encardidos, no eram negras. Eram... azuis, pensei.
        Fechei os olhos, olhando para o redemoinho de padres multicoloridos que imediatamente surgiram por trs de minhas plpebras. Quando os abri novamente, era 
como se parte da cor tivesse ficado para trs, recobrindo as mos de Raymond.
        A medida que a febre recuava, deixando minha mente mais clara, eu Pisquei, tentando levantar a cabea para ver melhor. Raymond pressionou com um pouco mais 
de fora, instando-me a ficar deitada, e eu deixei minha cabea cair no travesseiro, espreitando de esguelha por cima do meu Peito.
        Eu no estava imaginando aquilo, afinal - ou estava? Embora as mos de Raymond no estivessem se movendo, uma luz colorida, fraca e tremeluzente, parecia 
se mover por cima delas, lanando uma claridade rosada azul-clara sobre minha prpria pele branca.
        Meus seios estavam aquecidos agora, mas aquecidos com o calor prprio e natural da sade, no com a corrosiva queimao da febre. A corrente de ar vinda 
pela entrada em arco aberta encontrou um caminho atravs das cortinas e levantou os cabelos midos das minhas tmporas, mas nesse momento eu no senti mais calafrios.
        A cabea de Raymond estava abaixada, o rosto oculto pelo capuz do traje que tomara emprestado. Aps o que me pareceu um longo tempo, ele deslocou as mos 
dos meus seios, movendo-as muito devagar pelos meus braos, parando e apertando delicadamente nas juntas do ombro e do cotovelo, pulsos e dedos. A dor e o desconforto 
diminuram e eu achei ter vislumbrado uma dbil linha azul dentro do meu brao, o fantasma reluzente do osso.
        Sempre tocando, sem pressa, levou suas mos para trs, sobre a curva rasa da minha clavcula, e para baixo, pelo meridiano do meu corpo, espalmando as mos 
sobre minhas costelas.
        O mais estranho de tudo isso  que eu no estava nem um pouco assustada. Parecia algo infinitamente natural e meu corpo torturado relaxou agradecidamente 
na forma rgida de suas mos, desfazendo-se e se recompondo como cera moldvel. Apenas as linhas do meu esqueleto permaneciam firmes.
        Uma estranha sensao de calor emanava agora daquelas mos grandes, quadradas, de operrio. Moviam-se com meticulosa lentido pelo meu corpo e eu podia sentir 
as minsculas mortes das bactrias que habitavam meu sangue, pequenas exploses conforme cada centelha de infeco desaparecia. Eu podia sentir cada rgo interno, 
completo e tridimensional, bem como v-lo, como se tivesse assentado sobre uma mesa, diante de mim. L o estmago de paredes ocas, aqui a solidez lobulada do meu 
fgado e cada volta dos meus intestinos, enrolados para um lado, para o outro e sobre si mesmos, perfeitamente acomodados na teia brilhante de sua membrana, o mesentrio. 
O calor incandescia e irradiava-se dentro de cada rgo, iluminando-o como um pequeno sol dentro de mim, depois morrendo e seguindo em frente.
        Raymond parou, as mos pressionadas lado a lado em minha barriga inchada. Achei que tivesse franzido a testa, mas era difcil ter certeza. A cabea encapuzada 
virou-se, ouvindo, mas os barulhos usuais do hospital continuaram a distncia, sem nenhum rudo de passos vindo em nossa direo.
        Arfei e me mexi involuntariamente, quando uma das mos moveu-se mais para baixo e fechou-se em concha entre minhas pernas. Um aumento de presso da outra 
mo avisou-me para fazer silncio e os dedos rombuudos encontraram seu caminho dentro de mim.
        Fechei os olhos e esperei, sentindo minhas paredes internas ajustarem-se quela estranha intruso, a inflamao cedendo pouco a pouco, conforme ele tateava 
com delicadeza cada vez mais fundo.
        Por fim, ele tocou o centro da minha perda e um espasmo de dor contraiu as paredes pesadas do meu tero inflamado. Respirei fundo com um pequeno gemido, 
depois cerrei os lbios quando ele sacudiu a cabea.
        A outra mo desceu e pousou confortavelmente sobre minha barriga enquanto os dedos investigadores da outra tocavam meu tero. Ento, ele ficou imvel, segurando 
a origem da minha dor entre as duas mos, como se fosse uma esfera de cristal, pesada e frgil.
        - Agora - ele disse em voz baixa. - Chame-o. Chame o homem ruivo. Chame-o.
        A presso de seus dedos internamente e da palma externamente se intensificou e eu pressionei as pernas contra a cama, lutando contra ela. Mas no me restava 
nenhuma fora para resistir e a presso inexorvel continuou, rachando a esfera de cristal, libertando o caos dentro de mim.
        Minha mente encheu-se de imagens, piores do que a agonia dos sonhos febris, porque mais reais. As sensaes de dor, perda e medo devastavam-me e o cheiro 
poeirento de morte e cal branca encheu minhas narinas. Arremessando-me de um lado para o outro nos padres errticos da minha mente em busca de ajuda, ouvi a voz 
ainda murmurando, pacientemente, mas com firmeza:
        - Chame-o.
        E eu busquei minha ncora.
        - Jamie! JAMIE!
        Um raio de calor atravessou minha barriga, de uma das mos para a outra, como uma flecha atravessando o centro da bacia dos meus ossos. A presso foi relaxada, 
libertou-se e a leveza da harmonia inundou-me.
        A estrutura da cama estremeceu quando ele agachou-se sob ela, bem a tempo.
        - Milady! Voc est bem? - A irm Angelique enfiou-se pelas cortinas, o rosto redondo contrado de preocupao sob sua touca de freira. A preocupao em 
seus olhos estava sublinhada de resignao; as irms sabiam que eu morreria logo, se aquela parecia ser minha ltima luta pela vida, ela estava preparada para convocar 
o padre.
        Sua mo spera e pequena pousou rapidamente sobre o meu rosto, moveu-se depressa para minha testa, depois de volta. O lenol ainda estava emaranhado em volta 
de minhas coxas e minha camisola continuava aberta. Suas mos deslizaram por dentro da camisola, em direo s axilas, a onde permaneceram por um instante, antes 
de se recolherem.
        - Deus seja louvado! - ela gritou, os olhos marejando-se de lgrimas
        - A febre passou! - Ela inclinou-se para mais perto, espreitando, assustada para ter certeza de que o desaparecimento da febre no se devia ao fato de que 
eu estava morta. Sorri debilmente para ela.
        - Eu estou bem - eu disse. - Diga  madre.
        Ela assentiu ansiosamente e, parando apenas o suficiente para puxar o lenol sobre mim, deixou o aposento apressada. Mal as cortinas se fecharam atrs dela 
e Raymond emergiu de baixo da cama.
        - Tenho que ir - ele disse. Colocou a mo sobre a minha cabea. Fique bem, madona.
        Apesar de extremamente fraca, ergui-me, agarrando seu brao. Deslizei a mo pela extenso do msculo rgido, buscando, mas no encontrando. A maciez da pele 
era imaculada, limpa e lisa at o alto do ombro. Fitou-me espantado.
        - O que est fazendo, madona?
        - Nada. - Deixei-me afundar na cama outra vez, decepcionada. Eu estava fraca demais e muito aturdida para ter cuidado com minhas palavras.
        - Eu queria ver se voc tinha uma cicatriz de vacina.
        - Vacina? - Treinada como eu j estava em ler rostos a essa altura, eu teria percebido o menor movimento de compreenso, por mais fugaz que fosse. Mas no 
houve nenhum.
        - Por que ainda me chama de madona? - perguntei. Minhas mos repousaram na pequena concavidade do meu ventre, delicadamente, como se no quisessem perturbar 
o dilacerante vazio.
        Ele pareceu um pouco surpreso.
        - Ah. Eu no a chamei de madona porque estivesse grvida, milady.
        - Por que, ento? - Eu no esperava realmente que ele respondesse, mas ele o fez. Apesar de cansados e exauridos como ambos estvamos, era como se estivssemos 
suspensos juntos em um lugar onde no existissem nem tempo nem conseqncias; no havia lugar seno para a verdade entre ns.
        Ele suspirou.
        - Todo mundo possui uma cor ao seu redor - ele disse com simplicidade. - Envolvendo-a completamente, como uma nuvem. A sua  azul, madona. Como o manto da 
Virgem. Como o meu prprio.
        A cortina de gaze esvoaou e ele desapareceu.
        
        
        
26 - FONTAINEBLEAU
        
        Durante vrios dias, eu dormi. Se era uma parte necessria do processo de recuperao fsica ou uma teimosa fuga da realidade, no sei. No entanto, eu acordava 
apenas para ingerir algum alimento com relutncia, caindo em seguida num estupor de esquecimento, como se o peso pequeno e morno da sopa em meu estmago fosse uma 
ncora que me puxava para as profundezas do sono.
        Alguns dias mais tarde, acordei com o barulho de vozes insistentes junto ao meu ouvido e o toque de mos erguendo-me da cama. Os braos que me seguravam 
eram fortes e masculinos e, por um instante, sentime flutuar de alegria. Ento, despertei por completo, lutando debilmente contra uma onda de tabaco e vinho barato, 
para me ver carregada por Hugo, o enorme lacaio de Louise de La Tour.
        - Coloque-me no cho! - eu disse, debatendo-me frouxamente. Ele pareceu espantado com a repentina ressurreio de um morto e quase me deixou cair, mas uma 
voz alta e autoritria fez ambos pararem.
        - Claire, minha querida amiga! No tenha medo, ma chre, est tudo bem. Estou levando voc para Fontainebleau. Ar puro e boa comida,  disso que voc precisa. 
E repouso, voc precisa de repouso...
        Pisquei contra a claridade da luz, como um recm-nascido. O rosto de Louise, redondo, rosado e ansioso, flutuava por perto como um querubim numa nuvem. Madre 
Hildegarde estava parada atrs dela, alta e severa como o anjo s portas do den, a iluso celestial aumentada pelo fato de ambas estarem diante de uma janela de 
vitrais coloridos no vestbulo do
        - Sim - ela disse, a voz grave tornando a mais simples das palavras mais enftica do que todo o gorjeio de Louise. - Ser bom para voc. Au revoir, "minha 
querida.
        E com isso, fui levada pela escada do hospital e enfiada a contragosto na carruagem de Louise, sem foras nem vontade de protestar.
        Os solavancos da carruagem sobre os buracos e valas mantiveram-me cordada durante a viagem a Fontainebleau. Isso e a ininterrupta conversa de Louise, destinada 
a me tranqilizar. No comeo, fiz um esforo confuso de responder, mas logo percebi que ela no requeria respostas e, na verdade, falava mais facilmente sem elas.
        436
        Aps dias na abbada fria e cinza do Hpital, sentia-me como uma mmia que acabavam de desenrolar e me retra da agresso de tanta luz e cor. Para lidar 
com a situao, achei mais fcil recolher-me um pouco e deixar a enxurrada passar por mim sem tentar distinguir seus elementos
        Essa estratgia funcionou at alcanarmos um pequeno bosque nas proximidades de Fontainebleau. Os troncos dos carvalhos eram escuros e grossos, com copas 
baixas e espraiadas que sombreavam o solo embaixo com manchas claras e escuras em movimento, de modo que todo o bosque parecia tremeluzir ao vento. Eu admirava vagamente 
o efeito quando notei que parte do que eu presumira ser troncos de rvores estava realmente se movendo, balanando devagar de um lado para o outro.
        - Louise! - Minha exclamao e o aperto de minha mo em seu brao interromperam sua tagarelice.
        Ela inclinou-se pesadamente sobre mim para ver o que eu estava olhando, depois se atirou para o lado da carruagem e enfiou a cabea pela janela, gritando 
para o cocheiro.
        Deslizamos numa nuvem de poeira at pararmos por completo, bem em frente ao bosque. Havia trs pessoas, dois homens e uma mulher. A voz aguda e agitada de 
Louise continuou, admoestando e questionando, pontuada pelas tentativas do cocheiro de explicar ou de pedir desculpas, mas eu no prestei nenhuma ateno.
        Apesar da oscilao e do leve esvoaar de suas roupas, estavam muito quietos, mais inertes do que as rvores de onde pendiam. Os rostos estavam enegrecidos 
pela asfixia; monsieur Forez no teria de maneira alguma aprovado, pensei, atravs da nvoa do choque. Uma execuo eficaz, apesar de amadorstica. O vento mudou 
de direo e um mau cheiro leve e gasoso nos atingiu.
        Louise soltou um gritinho esganiado e bateu com fora na borda da janela num frenesi de indignao. A carruagem recomeou a andar com um solavanco que a 
arremessou para trs no assento.
        - Merde! - ela disse, abanando enfaticamente o rosto afogueado. - Que idiotice, parar bem aqui! Que imprudncia! O choque dessa viso  ruim para o beb, 
tenho certeza, e voc, minha pobre querida... ah, meu Deus, Claire, coitada! Sinto muito, no quis faz-la lembrar... me perdoe, que falta de tato...
        Felizmente sua agitao diante da possibilidade de ter me transtornado a fez se esquecer de seu prprio nervosismo  vista dos corpos, mas era muito cansativo 
tentar conter suas desculpas. Finalmente, por desespero, voltei ao assunto dos enforcados.
        - Quem so? - O desvio da conversa funcionou; ela pestanejou e, lembrando-se do choque ao seu systme, retirou um frasco de soluo de amonaco e inalou-o 
to profundamente que espirrou em reflexo.
        - Hugue... Atchim! Huguenotes - conseguiu dizer, resfolegando e espirrando. - Hereges protestantes.  o que diz o cocheiro.
        - Eles os enforcam? Ainda? - Por alguma razo, eu achava que perseguies religiosas como essas eram uma relquia do passado.
        - Bem, comumente no apenas por serem protestantes, embora isso j seja suficiente - Louise respondeu, fungando. Enxugou delicadamente o nariz com um lencinho 
bordado, examinou o resultado criticamente, depois reaplicou o leno ao nariz e assoou-o com um ronco gratificante.
        - Ah, assim est melhor. - Ela enfiou o leno de volta no bolso e recostou-se no banco com um suspiro. - Agora, estou refeita. Que choque! Se precisam enforc-los, 
tudo bem, mas tm que fazer isso em plena via pblica, onde as senhoras ficam expostas a tal nojeira? Voc sentiu o cheiro? Uffl Estas terras so do conde Medard, 
vou lhe enviar uma carta bem malcriada a respeito disso, vamos ver se no vou.
        - Mas por que enforcaram essas pessoas? - perguntei, interrompendo de modo brutal, que era a nica maneira possvel de manter uma conversa com Louise.
        - Ah, bruxaria, provavelmente. Havia uma mulher, voc viu. Quando h mulheres envolvidas, em geral se trata de bruxaria. Se forem apenas homens, na maioria 
das vezes  s por heresia e por pregao para sublevar os nimos, mas as mulheres no pregam. Viu as terrveis roupas escuras que ela vestia? Que horror!  to 
deprimente usar roupas escuras o tempo todo; que tipo de religio faria seus seguidores usar sempre roupas to sem graa? Obviamente,  obra do diabo, qualquer um 
pode ver isso. Eles tm medo das mulheres, isso  que , assim eles...
        Fechei os olhos e recostei-me no assento. Esperava que no estivssemos muito longe da casa de campo de Louise.
        Alm do macaco, de quem ela se recusava a se separar, a casa de campo de Louise continha inmeras outras decoraes de gosto duvidoso. Em arjs, os gostos 
de seu marido e de seu pai tinham que ser consultados e os aposentos da casa de l eram, em conseqncia disso, suntuosamente decorados, mas em tonalidades suaves. 
Mas Jules raramente vinha  casa de Campo, sempre ocupado demais na cidade, e assim o gosto de Louise podia ter livre curso.
        - Este  o meu brinquedo mais novo; no  um encanto? - ela arrulhou, passando a mo afetuosamente pela madeira escura e esculpida de Uma casinha que se 
projetava estranhamente da parede, ao lado de um castial de bronze no formato de Eurdice.
        - Parece um relgio cuco - eu disse, incrdula.
        - Voc j tinha visto um desses? Eu achava que no havia nenhum igual a ele em Paris! - Louise fez um ligeiro beicinho diante da idia de que seu brinquedo 
pudesse no ser nico, mas iluminou-se quando girou os ponteiros do relgio para a hora seguinte. Deu uns passos para trs radiante de orgulho quando o minsculo 
pssaro meteu a cabea para fora e emitiu diversos trinados em seqncia.
        - No  uma preciosidade? - Tocou de leve a cabea do pssaro enquanto ele desaparecia de novo em seu esconderijo. - Berta, a governanta daqui comprou-o 
para mim; seu irmo o trouxe da Sua. O que quer que se queira dizer da Sua, eles so timos escultores de madeira, no?
        Quis responder no, mas em vez disso apenas murmurei algo que educadamente expressasse admirao. A mente de gafanhoto de Louise saltou agilmente para um 
novo tpico, talvez desencadeado por lembranas de criados suos.
        - Sabe, Claire - ela disse, com um toque de reprovao -, voc realmente devia ir  missa na capela toda manh.
        - Por qu?
        Ela sacudiu a cabea na direo do vo da porta, por onde uma das criadas passava com uma bandeja.
        - Eu particularmente no ligo a mnima, mas os criados... as pessoas so muito supersticiosas aqui no campo, sabe. E um dos lacaios da casa de Paris cometeu 
a asneira de contar  cozinheira tudo sobre aquela histria tola de voc ser LA Dame Blanche. Eu disse a eles que tudo isso  bobagem,  claro, e ameacei demitir 
qualquer um que eu pegasse espalhando tal boato, mas... bem, seria melhor se voc fosse  missa. Ou ao menos rezasse em voz alta de vez em quando, de modo que a 
ouvissem.
        Descrente como eu era, achei que a missa diria na capela da casa seria ir um pouco longe demais, mas vagamente achando graa, concordei em fazer o possvel 
para acalmar os temores dos criados; em conseqncia, Louise e eu passamos a hora seguinte lendo salmos em voz alta uma para a outra e recitando preces em unssono 
- em voz bem alta. Eu no fazia menor idia do efeito que essa encenao poderia ter sobre os criados, mas pelo menos cansou-me o suficiente para eu subir ao meu 
quarto para um cochilo e dormir sem sonhar at a manh seguinte.
        Eu sempre tinha dificuldades em dormir, provavelmente porque meu estado quando estava desperta no era muito diferente de um sono nervoso e superficial. 
Ficava deitada, acordada,  noite, fitando o teto de gesso branco com seus ornamentos de frutas e flores. Erguia-se acima de mim como um vulto turvo e cinza na escurido, 
a personificao da depresso que tornava minha mente nebulosa durante o dia. Quando realmente fechava os olhos  noite, eu sonhava. No conseguia bloquear os sonhos 
com a nvoa cinzenta. Eles vinham em cores vvidas para me atacar na escurido. Assim, eu raramente dormia.
        No recebi notcias de Jamie - nem sobre ele. Se era culpa ou ofensa que o impediu de ir me ver no Hpital, eu no sabia. Mas ele no fora l, nem viera 
a Fontainebleau. A essa altura, era provvel que j tivesse partido para Orvieto.
        s vezes, eu me via imaginando quando - ou se - eu o veria outra vez e o que diramos um ao outro, se dissssemos alguma coisa. Entretanto, na maior parte 
do tempo, eu preferia no pensar nisso, deixando os dias virem e irem, um de cada vez, evitando pensamentos a respeito do futuro ou do passado, apenas vivendo o 
presente.
        Privado de seu dolo, Fergus definhou. Eu sempre o via da minha janela, sentado desconsoladamente sob um arbusto de espinheiro no jardim, abraando os joelhos 
e olhando para a estrada que levava a Paris. Finalmente, reuni nimo para ir l fora falar com ele, arrastando-me pesadamente pelas escadas e pelo caminho do jardim.
        - No pode arranjar alguma coisa para fazer, Fergus? - perguntei-lhe.
        - Certamente um dos cavalarios gostaria de uma ajuda extra, ou algo assim.
        - Sim, milady - ele concordou com desconfiana. Coou distraidamente as ndegas. Observei seu comportamento com profunda suspeita.
        - Fergus - eu disse, cruzando os braos -, voc est com piolho? Ele recolheu a mo bruscamente, como se tivesse sido queimado.
        - Ah, no, milady!
        Puxei-o, obrigando-o a ficar de p, cheirei delicadamente nos arredores de sua figura e coloquei um dedo por dentro do seu colarinho, o suficiente para ver 
o anel de sujeira em volta do seu pescoo.
        - Banho - eu disse sucintamente.
        - No! - com um puxo, ele se desvencilhou, mas eu o agarrei pelo ombro. Fiquei surpresa com sua veemncia; embora no fosse mais chegado a um banho do que 
a mdia dos parisienses - que consideravam a perspectiva de imerso com uma repugnncia prxima ao horror -, ainda assim eu no conseguia conciliar a criana quase 
sempre obediente que eu conhecia  pequena fria que de repente se contorcia e se debatia sob a minha mo.
        Ouviu-se um barulho de tecido rasgando-se e ele se libertou, arremessando-se entre os arbustos de amoras silvestres como um coelho perseguido por uma doninha. 
Houve um farfalhar de folhas e um arranhar de pedras e ele desapareceu por cima do muro, dirigindo-se para as construes externas nos fundos da propriedade.
        Abri caminho pelo emaranhado de construes raquticas situada atrs do castelo, xingando em voz baixa enquanto me desviava de poas de lama e montes de 
sujeira. De repente, ouvi um zumbido agudo e plangente e uma nuvem de moscas ergueu-se de um montculo a alguns passos  minha frente, os corpos azuis, cintilantes 
sob a luz do sol.
        Eu no estava suficientemente perto para t-las espantado; devia ter havido algum movimento vindo do vo escuro da porta ao lado do monte de estrco.
        - Ah-ah! - exclamei em voz alta. - Peguei-o, moleque imundo! Saia da agora mesmo!
        Ningum emergiu, mas houve um movimento audvel dentro do barraco e eu achei ter vislumbrado alguma coisa branca no interior escuro. Prendendo o nariz, 
passei por cima do monte de excremento e entrei no galpo.
        Houve dois gritos sufocados de horror; o meu, ao contemplar algo que parecia o Selvagem de Bornu achatado contra a parede dos fundos, e o dele, ao me ver.
        A luz do sol filtrava-se pelas fendas entre as tbuas, propiciando luz suficiente para que nos vssemos com clareza, desde que meus olhos se adaptassem  
relativa obscuridade. Ele no era, afinal, to assustador quanto pensei no primeiro instante, mas tambm no era muito melhor. Sua barba estava to imunda e emaranhada 
quanto seus cabelos, caindo abaixo dos ombros sobre uma camisa to esfarrapada quanto a de qualquer mendigo. Estava descalo e se o termo sans-culottes ainda no 
era de uso comum, no era por falta de um exemplar.
        No tive medo dele, porque ele obviamente estava com medo de mim. Pressionava-se contra a parede como se tentasse passar atravs dela por osmose.
        - Tudo bem - eu disse, tentando tranqiliz-lo. - No vou machuc-lo. Em vez de se acalmar, empertigou-se bruscamente, enfiou a mo dentro da camisa e retirou 
um crucifixo de madeira pendurado numa tira de couro. Estendeu-a  sua frente, em minha direo, e comeou a rezar, numa voz trmula de terror.
        - Ah, droga - eu disse, contrariada. - Outro, no! - Respirei fundo. Pater-Noster-qui-es-in-coeliset-in-terra... - Seus olhos esbugalharam-se e e continuou 
segurando o crucifixo, mas ao menos parou de rezar em resposta ao meu desempenho.
        - ...Amm! - terminei com um suspiro. Estendi as duas mos e balancei-as diante de seu rosto. - Est vendo? Nem uma palavra de trs para a a frente, nem 
um nico quotidianus da nobis hodie fora do lugar, certo? Nem sequer tinha os dedos cruzados. Portanto, no posso ser uma bruxa, no ?
        O homem abaixou o crucifixo devagar e ficou parado, arfando, diante de mim.
        - Uma bruxa? - disse. Sua expresso era a de quem achava que eu  que era louca, o que achei um pouco estpido nas circunstncias.
        - No achou que eu fosse uma bruxa? - perguntei, comeando a me sentir um pouco tola.
        Algo que se assemelhava a um sorriso surgiu e desapareceu outra vez entre os ns de sua barba.
        - No, madame - ele respondeu. - Estou acostumado a que as pessoas digam isso de mim.
        - Ah, ? - Observei-o atentamente. Alm dos trapos e da sujeira, o sujeito estava obviamente passando fome; os pulsos que se projetavam dos punhos da camisa 
eram finos como os de uma criana. Ao mesmo tempo, seu francs era harmonioso e educado, ainda que apresentasse um estranho sotaque.
        - Se voc for um bruxo - eu disse -, no est sendo bem-sucedido na funo. Quem, afinal,  voc?
        Diante disso, o medo retornou aos seus olhos. Olhou de um lado para o outro, procurando uma maneira de fugir, mas o barraco era uma construo slida, embora 
velha, sem nenhuma outra entrada alm daquela onde eu estava. Finalmente, requisitando alguma oculta reserva de coragem, ele aprumou-se, empertigando-se em toda 
a sua altura - cerca de dez centmetros abaixo da minha - e, com grande dignidade, disse:
        - Sou o reverendo Walter Laurent, de Genebra.
        - Voc  um padre? - Fiquei estupefata. No podia imaginar o que teria feito um padre, suo ou no, chegar quele estado.
        O padre Laurent parecia to horrorizado quanto eu.
        - Um padre? - ele repetiu. - Um papista? Nunca!
        De repente, a verdade se abateu sobre mim.
        - Um huguenote! - eu disse. -  isso. Voc  um protestante, no ?
        Lembrei-me dos corpos que eu vira pendurados na floresta. Isso, pensei, explicava muita coisa.
        Seus lbios tremeram, mas ele os pressionou com fora por um instante, antes de abri-los para responder.
        - Sim, madame. Sou um pastor; tenho pregado nesta regio h um ms. - Umedeceu os lbios ligeiro, observando-me. - Desculpe-me, madame... a senhora no  
francesa, ?
        - Sou inglesa - eu disse e, repentinamente, ele relaxou, como se algum tivesse tirado toda a rigidez de sua espinha dorsal.
        - Deus do cu, Pai Todo-poderoso - ele disse, em tom de orao - Ento, tambm  protestante?
        - No, sou catlica - respondi. - Mas no sou nem um pouco fantica a respeito - acrescentei apressadamente, vendo o olhar de espanto saltar de volta aos 
olhos castanho-claros. - No se preocupe, no contarei a ningum que voc est aqui. Suponho que tenha vindo tentar roubar alguma coisa para comer, no? - perguntei, 
com simpatia.
        - Roubar  pecado! - ele disse, horrorizado. - No, madame. Mas... Cerrou os lbios, porm o olhar em direo ao castelo o denunciou.
        - Ento, um dos criados lhe traz comida - eu disse. - Assim deixa que roubem por voc. Mas, suponho, depois voc pode absolv-lo do pecado, de modo que tudo 
funciona bem.  um pouco fino esse gelo moral em que voc se apia, no? - eu disse, censurando-o. - Por outro lado, no 
        da minha conta, certo?
        Uma luz de esperana brilhou em seus olhos.
        - Quer dizer... no vai mandar me prender, madame?
        - No, claro que no. Eu tenho uma espcie de afinidade com fugitivos da lei, por eu mesma ter chegado perto de ser queimada numa fogueira. - Eu no sabia 
bem por que estava sendo to tagarela; o alvio de encontrar algum que parecia inteligente, eu acho. Louise era meiga, dedicada e bondosa, mas tinha exatamente 
tanto crebro quanto o relgio cuco de sua sala de estar. Pensando no relgio suo, compreendi de repente quem deveriam ser os paroquianos secretos do pastor Laurent.
        - Olhe - eu disse -, se quer continuar aqui, vou at o castelo e digo a Berta ou Maurice onde voc est.
        O pobre homem era s pele e osso, e olhos. Tudo que ele pensava se refletia naquelas rbitas castanhas, grandes e bondosas. No momento, ele estava obviamente 
pensando que quem quer que tivesse tentado me queimar na fogueira estava no caminho certo.
        - Ouvi falar - ele comeou devagar, estendendo a mo para agarrar o crucifixo de novo - de uma inglesa de Paris chamada La Dame Blanch. Uma parceira de Raymond, 
o Herege.
        Suspirei.
        - Sou eu mesma. Mas no sou parceira de mestre Raymond. Apenas uma amiga. - Vendo-o estreitar os olhos desconfiadamente em minha direo, inspirei fundo 
outra vez. - Pater Noster...
        - No, no, madame, por favor. - Para minha surpresa, ele abaixara o crucifixo e sorria.
        - Eu tambm conheo mestre Raymond, que encontrei em Genebra. L ele era um renomado mdico e farmacutico. Agora, ah!, receio que ele tenha se voltado para 
objetivos mais obscuros, embora,  claro, nada tenha sido provado.
        - Provado? Sobre o qu? E que histria  essa sobre Raymond, o Herege?
        - No soube? - As sobrancelhas finas ergueram-se acima dos olhos castanhos. - Ah. Ento, no est associada s... atividades de mestre Raymond. - Ele relaxou-se 
perceptivelmente.
        "Atividade" parecia uma descrio muito pobre para o modo como mestre Raymond me curara, ento sacudi a cabea.
        - No, mas gostaria que me contasse. Ah, mas eu no deveria estar aqui conversando; devo ir e mandar Berta trazer comida.
        Abanou a mo, com alguma dignidade.
        - No  urgente, madame. Os apetites do corpo no tm nenhuma importncia quando comparados aos apetites da alma. E catlica ou no, a senhora tem sido bondosa 
comigo. Se no est associada s atividades de ocultismo de mestre Raymond, ento  bom que seja avisada a tempo.
        E ignorando a sujeira e as tbuas lascadas do assoalho, ele dobrou as pernas e sentou-se recostado  parede do barraco, gentilmente gesticulando para que 
eu tambm me sentasse. Intrigada, deixei-me cair diante dele, dobrando para cima as pontas da minha saia para impedir que arrastassem no estrco.
        - J ouviu falar de um homem chamado du Carrefours, madame? - o Pastor perguntou. - No? Bem, seu nome  bem conhecido em Paris, asseguro-lhe, mas seria 
melhor no pronunci-lo. Esse homem foi o organizador e o lder de um crculo de vcio e depravao inominveis, em uma associao s prticas de ocultismo mais 
degradantes. No posso nem lhe contar algumas das cerimnias que eram realizadas em segredo entre a reza. E chamam a mim de bruxo! - murmurou, quase  meia-voz.
        Levantou um dedo ossudo, como se quisesse evitar minha objeo aPenas esboada.
        - Tenho conscincia, madame, do tipo de mexerico comumente espalhado, sem correlao com a verdade dos fatos. Quem poderia saber disso melhor do que ns? 
Mas as atividades de du Carrefours e seus seguidores so do conhecimento de todos, porque ele foi julgado por elas, encarcerado e finalmente queimado na praa da 
Bastilha como castigo por seus crimes. Lembrei-me da leve observao de Raymond: "Ningum foi queimado por bruxaria em Paris em... ah, vinte anos, pelo menos." Estremeci, 
apesar da temperatura-amena.
        - E voc diz que mestre Raymond estava associado a esse du Carre fours?
        O pastor franziu a testa, coando distraidamente a barba emaranhada. Ele provavelmente tinha piolhos e pulgas, pensei, tentando recuar ceptivelmente.
        - Bem,  difcil dizer. Ningum sabe de onde mestre Raymond veio. Ele fala vrias lnguas, todas sem sotaque perceptvel. Um homem muito misterioso, mestre 
Raymond, mas... eu poderia jurar em nome de Deus., um bom homem.
        Sorri para ele.
        - Eu tambm acho.
        Ele balanou a cabea, sorrindo, mas ficou srio outra vez ao retomar a histria.
        -  verdade, madame. No entanto, ele se correspondia com du Carrefours de Genebra; sei disso porque ele prprio me disse. Ele fornecia diversas substncias 
a pedido de du Carrefours: plantas, elixires e pele seca de animais. At mesmo uma espcie de peixe, algo muito assustador e peculiar, que ele me disse ter vindo 
das mais escuras profundezas do mar; uma coisa horrvel, s dentes, quase sem carne, mas com as mais terrveis e pequenas... luzes... como minsculas lanternas, 
sob os olhos.
        -  mesmo? - eu disse, fascinada.
        O pastor Laurent encolheu os ombros.
        - Tudo isso pode ser perfeitamente inocente,  claro, apenas uma questo de negcios. Mas ele desapareceu de Genebra ao mesmo tempo em que du Carrefours 
tornou-se suspeito pela primeira vez... e a poucas semanas da execuo de du Carrefours, comecei a ouvir histrias de que mestre Raymond estabelecera seus negcios 
em Paris e que assumira vrias das atividades clandestinas de du Carrefours tambm.
        - Hum - eu disse. Eu estava pensando no aposento oculto de Raymond e no armrio pintado com sinais cabalsticos. Para manter afastados aqueles que acreditavam 
neles. - Mais alguma coisa?
        As sobrancelhas do reverendo Laurent arquearam-se para o cu.
        - No, madame - ele disse, um pouco frouxamente. - Nada mais que seja do meu conhecimento.
        - Bem, eu mesma no sou dada a esse tipo de coisa - assegurei-lhe-
        - Ah, ? timo - ele disse, hesitante. Permaneceu sentado por um momento, como tomando alguma deciso, depois inclinou a cabea educadamente em minha direo.
        - Desculpe-me pela intruso, madame. Berta e Maurice contaram-me a respeito de sua perda. Sinto muito, madame.
        - Obrigada - eu disse, fitando as faixas de luz do sol sobre o assoalho.
        Fez-se um novo silncio, depois o pastor Laurent disse delicadamente:
        - E seu marido, madame? Ele no est aqui com a senhora?
        - No - respondi, mantendo os olhos fixos no cho. As moscas l iluminavam-se momentaneamente, depois, no encontrando alimento, voavam para fora. - No sei 
onde ele est.
        No pretendia dizer mais nada, mas algo me fez erguer a cabea e olhar para o pregador maltrapilho.
        - Ele importava-se mais com sua honra do que comigo, com seu filho ou com um homem inocente - eu disse amargamente. - No me importa onde quer que ele esteja; 
nunca mais quero v-lo.
        Parei bruscamente, abalada. At ento, no havia colocado esses sentimentos em palavras, nem para mim mesma. Mas era verdade. Houve muita confiana entre 
ns dois e Jamie trara essa confiana, por causa de vingana. Eu compreendia; eu vira a fora da fria que o movera e sabia que no podia ser negada para sempre. 
Mas eu pedira a trgua de alguns meses, que ele me concedera. No entanto, depois, incapaz de esperar, quebrara sua promessa e, ao faz-lo, sacrificara tudo que existia 
entre mim e ele. No apenas isso: colocara em risco a misso em que nos empenhramos. Eu podia compreender, mas no podia perdoar.
        O pastor Laurent colocou a mo sobre a minha. Estava encardida, com crostas de sujeira, e suas unhas quebradas e pretas nas pontas, mas no recuei. Esperei 
comentrios superficiais ou um sermo, mas ele tambm no falou; continuou apenas segurando minha mo, delicadamente, por um longo tempo, enquanto o sol mudava de 
posio pelo assoalho e as moscas sobrevoavam nossas cabeas com um zumbido lento e grave.
        -  melhor voc ir - ele disse por fim, soltando minha mo. - Sentiro a sua falta.
        - Creio que sim. - Respirei fundo, sentindo-me mais firme, se no melhor. Enfiei a mo no bolso do meu vestido; eu carregava uma pequena bolsa comigo.
        Hesitei, no querendo ofend-lo. Afinal, para ele eu era uma herege, aimda que no uma bruxa.
        - Permita-me que lhe d algum dinheiro? - perguntei cautelosamente.
        Ele pensou por um instante, depois sorriu, os olhos castanho-claros reluzentes.
        - Com uma condio, madame. Se permitir que eu reze pela senhora.
        - Est feito o trato - eu disse, entregando-lhe a bolsa.
        
        
        
27 - UMA AUDINCIA com SUA MAJESTADE
        
        A medida que os dias transcorriam em Fontainebleau, eu gradativamente recuperei minha fora fsica, embora minha mente continuasse a vagar, meus pensamentos 
esquivando-se de qualquer tipo de lembrana ou ao.
        Houve poucas visitas; a casa de campo era um refgio, onde a vida social frentica de Paris parecia mais um dos sonhos agitados que me assombravam. Fiquei 
surpresa, portanto, quando uma criada veio me chamar para atender um visitante na sala de estar. O pensamento de que poderia ser Jamie atravessou minha mente e senti 
uma onda de tontura e enjo. Entretanto, logo o bom senso se restabeleceu; Jamie j deveria ter partido para a Espanha; no havia nenhuma possibilidade de ele retornar 
antes do final de agosto. E quando ele retornasse?
        No conseguia pensar nisso. Afastei a idia para o fundo de minha mente, mas minhas mos tremiam quando atava os cadaros do meu vestido para descer.
        Para minha grande surpresa, o "visitante" era Magnus, o mordomo da casa de Jared em Paris.
        - Perdo, madame - ele disse, fazendo uma reverncia profunda ao me ver. - Eu no queria tomar a liberdade... mas no sabia se talvez a questo fosse de 
grande importncia... e com o patro ausente... - Digno em sua prpria esfera de influncia, o idoso mordomo estava bastante descomposto por estar to longe de seu 
ambiente. Levei algum tempo para extrair uma histria coerente, mas finalmente um bilhete foi apresentado, dobrado e selado, endereado a mim.
        - A caligrafia  de monsieur Murtagh - Magnus disse, num tom de contrafeita reverncia. Isso explicava sua hesitao, pensei. Os criados da casa em Paris 
viam Murtagh com uma espcie de horror respeitoso, que fora exagerado pelos relatos dos acontecimentos na rue du Faubourg Honor.
        Chegara a Paris h duas semanas, Magnus explicou. Sem saber o que fazer com o bilhete, os criados se reuniram e confabularam, mas finalmente ele decidira 
que deveria ser trazido ao meu conhecimento.
        - O patro estando ausente - ele repetiu. Desta vez, prestei ateno ao que ele estava dizendo.
        - Ausente? - eu disse. O bilhete estava amassado e manchado da viagem, leve como uma folha em minha mo. - Quer dizer, Jamie partiu antes de o bilhete chegar? 
- Eu no conseguia entender; aquela devia ser a carta de Murtagh dando o nome e a data de largada do navio que levaria o vinho do Porto de Carlos Stuart de Lisboa. 
Jamie no poderia ter partido para a Espanha antes de receber essa informao.
        Para verificar se meu raciocnio estava correto, quebrei o selo e abri o bilhete. Estava endereado a mim, porque Jamie achou que assim haveria menos possibilidade 
de a correspondncia ser interceptada. De Lisboa, com data de quase um ms antes, a carta no trazia nenhuma assinatura, mas no era necessria.
        "O Scalamandre parte de Lisboa no dia 18 de julho", era tudo que o bilhete dizia. Fiquei surpresa ao ver como a caligrafia de Murtagh era pequena e bem desenhada; 
de certa forma, eu esperava uns garranchos disformes.
        Ergui os olhos do papel e deparei-me com Magnus e Louise trocando um olhar muito estranho.
        - O que foi? - perguntei abruptamente. - Onde est Jamie? - Eu havia atribudo sua ausncia de LHpital ds Anges aps o aborto  culpa que sentira ao saber 
que sua atitude impensada matara nosso filho, matara Frank e quase me custara a vida. Naquele momento, no me importei; no queria v-lo, tampouco. Agora, comecei 
a pensar em outra explicao, mais sinistra, para a sua ausncia.
        Foi Louise quem finalmente falou, endireitando os ombros rechonchudos para a tarefa.
        - Ele est na Bastilha - ela disse, inspirando fundo. - Por ter duelado. Senti os joelhos fraquejarem e sentei-me na superfcie disponvel mais prxima.
        - Por que no me contou? - No sabia ao certo o que sentia com a notcia; choque ou horror... medo? Ou uma pequena sensao de satisfao?
        - Eu... eu no queria preocup-la, chrie - Louise gaguejou, confusa com o meu evidente nervosismo. - Voc estava to fraca... e, afinal, no avia nada que 
pudesse fazer. E, depois, voc tambm no perguntou - ela Assaltou.
        - Mas o que... como... de quanto tempo  a sentena? - perguntei, qualquer que tivesse sido minha emoo inicial, foi sobrepujada por uma sensao repentina 
de urgncia. O bilhete de Murtagh chegara  rue remoulins h duas semanas. Jamie deveria ter partido ao receb-lo, mas no o fizera.
        Louise chamava criados e mandava que trouxessem vinho, sais de amnia e penas queimadas, tudo de uma vez; eu devia estar com uma aparncia terrvel.
        -  uma transgresso  ordem do rei - ela disse, fazendo uma pausa em seu alvoroo. - Permanecer na priso  disposio do rei.
        - Jesus H. Roosevelt Cristo - murmurei, desejando ter algo mais enftico para dizer.
        -  uma sorte que le petit Jamie no tenha matado seu adversrio. - Louise apressou-se a acrescentar. - Nesse caso, a pena teria sido muito mais... iiich! 
- Ela torceu as saias listradas para o lado bem a tempo de evitar a cascata de chocolate e biscoitos quando eu derrubei o lanche que chegava. A bandeja retiniu no 
assoalho sem que ningum lhe desse ateno, enquanto eu olhava fixamente para Louise. Minhas mos agarravam-se com fora s minhas costelas, a direita protetoramente 
curvada sobre a aliana de ouro em minha mo esquerda. O metal fino parecia queimar em minha pele.
        - Ento, ele no est morto? - perguntei, como se estivesse num sonho. - O capito Randall... est vivo?
        - Ora, sim - ela disse, espreitando-me com curiosidade. - No sabia? Est gravemente ferido, mas dizem que est se recuperando. Voc est bem, Claire? Voc 
parece... - Mas o resto do que ela dizia perdeu-se no ronco que tomou conta dos meus ouvidos.
        - Voc fez muita coisa, cedo demais - Louise disse severamente, afastando as cortinas. - Eu a avisei, no foi?
        - Acho que sim - eu disse. Sentei-me e atirei as pernas para fora da cama, verificando cautelosamente se no havia nenhum sinal residual de desfalecimento. 
A cabea no girava, no havia zumbido nos ouvidos nem viso dupla ou tendncia a cair no cho. Os sinais vitais estavam bons.
        - Preciso do meu vestido amarelo e depois poderia mandar vir a carruagem, Louise? - perguntei.
        Louise olhou-me horrorizada.
        - Voc no est pretendendo sair, no ? De jeito nenhum! Monsieur Clouseau j vem atend-la! Mandei um mensageiro ir busc-lo agora mesmo!
        A notcia de que monsieur Clouseau, um proeminente mdico da sociedade, estava vindo de Paris para me examinar teria sido motivo suficiente para eu me colocar 
de p, se precisasse de motivo.
        Faltavam dez dias para 18 de julho. com um cavalo rpido, bom tempo e total descaso pelo conforto fsico, a viagem de Paris a Orvieto podia ser feita em 
seis. Isso me deixava quatro dias para conseguir tirar Jamie da Bastilha. No havia tempo a perder com monsieur Clouseau.
        - Humm - eu disse, olhando ao redor do quarto, pensativamente. Bem, de qualquer forma, chame a criada para me vestir. No quero que monsieur Clouseau me 
encontre de camisola.
        Embora ela ainda parecesse desconfiada, aquilo lhe pareceu plausvel; a maioria das mulheres da corte se ergueria do leito de morte para estarem bem-vestidas 
para a ocasio.
        - Tudo bem - concordou, virando-se para sair. - Mas permanea na cama at Ivonne chegar, ouviu?
        O vestido amarelo era um dos melhores que eu possua, uma pea solta, larga, feito no estilo sacque que estava em voga, com uma gola ampla e enrolada, mangas 
cheias e um fechamento com contas na frente. Empoada, penteada, de meias e perfumada por fim, examinei o par de sapatos que Ivonne havia trazido. Virei a cabea 
de um lado para o outro, franzindo a testa de forma avaliadora.
        - Humm, no - disse finalmente. - Acho que no. vou usar aqueles outros, de saltos, de pele marroquina vermelha. - Ivonne olhou para meu vestido com ar de 
dvida, como se mentalmente avaliasse o efeito de pele marroquina vermelha com seda moir amarela, mas obedientemente virou-se para vasculhar o fundo do enorme armrio.
        Andando silenciosamente na ponta dos ps por trs dela em meus ps calados de meias de seda, empurrei-a de cabea para dentro do armrio e bati a porta 
sobre a massa que gritava e se debatia embaixo da pilha de vestidos cados l dentro. Girando a chave na porta, coloquei-a com todo o cuidado no bolso, mentalmente 
me congratulando. Belo trabalho, Beauchamp, pensei. Toda essa intriga poltica est lhe ensinando coisas que jamais imaginaram na escola de enfermagem, sem dvida.
        - No se preocupe - eu disse ao armrio, em tom tranqilizador. - Logo vir algum para tir-la da. E voc poder dizer a La Princesse que nao me deixou 
ir a lugar algum.
        Um gemido desesperado de dentro do armrio pareceu mencionar o nome de monsieur Clouseau.
        - Diga-lhe para dar uma olhada no macaco - falei por cima do ombro. - Ele est com sarna.
        O sucesso de meu encontro com Ivonne alegrou meu humor. Uma vez escondida na carruagem, sacolejando de volta a Paris, entretanto, meu stado de esprito abateu-se 
consideravelmente.
        Embora j no estivesse com tanta raiva de Jamie, eu ainda no queria v-lo. Meus sentimentos pareciam um turbilho e eu no tinha nenhuma inteno de examin-los 
minuciosamente; era muito doloroso. O sofrimento estava l, junto com uma horrvel sensao de fracasso e, acima de tudo, o sentimento de traio; dele e minha. 
Ele jamais deveria ter ido a Bois de Boulogne; eu jamais deveria ter ido atrs dele.
        Mas ns dois agimos como nossas naturezas e nossos sentimentos ditaram e juntos havamos - talvez - causado a morte de nosso filho. No tinha nenhuma vontade 
de me encontrar com meu parceiro no crime, muito menos expor meu sofrimento para ele, comparar minha culpa com a dele. Eu fugia de qualquer coisa que me lembrasse 
aquela manh mida no Bois; certamente, fugia de qualquer lembrana de Jamie, como eu o vira pela ltima vez, erguendo-se do corpo de sua vtima, o rosto reluzente 
com a vingana que logo iria reclamar sua prpria famlia.
        Eu no podia pensar nisso nem mesmo de passagem, sem um terrvel aperto no estmago, que trazia de volta o fantasma da dor do trabalho de parto prematuro. 
Pressionei meus punhos cerrados contra o veludo azul do banco da carruagem, erguendo-me para aliviar a presso imaginria nas minhas costas.
        Virei-me para olhar pela janela, esperando me distrair, mas a paisagem passava cegamente enquanto minha mente retornava espontaneamente para minha viagem. 
Quaisquer que fossem meus sentimentos em relao a Jamie, se iramos voltar a nos ver, o que poderamos ser, ou no ser, um para o outro - permanecia o fato de que 
ele estava na priso. E eu achava que sabia o que a priso significava para ele, com as lembranas de Wentworth que ele carregava; as mos ansiosas que o apalpavam 
em sonhos, as paredes de pedra que ele socava em seu sono.
        Mais importante ainda, havia a questo de Carlos e do navio de Portugal; o emprstimo de monsieur Duverney, e Murtagh, prestes a tomar o navio em Lisboa 
para um encontro ao largo de Orvieto. Os riscos eram altos demais para que eu pudesse permitir que minhas prprias emoes aflorassem. Pela segurana dos cls escoceses 
e das prprias Highlands, pela famlia de Jamie e dos arrendatrios de Lallybroch, pelos milhares que morreriam em Culloden e em seus desdobramentos - o plano tinha 
que ser tentado. E para isso, era preciso que Jamie estivesse livre; no era algo que eu pudesse fazer sozinha.
        No, no havia a menor dvida. Eu teria que fazer o que fosse s para solt-lo da Bastilha.
        E exatamente o que eu poderia fazer?
        Observei os mendigos arrastarem-se e gesticularem em direo  janela, quando entramos na rue du Faubourg St. Honor. Quando em dvida, pensei, procure a 
assistncia de uma Autoridade Superior. Bati no painel ao lado do banco do cocheiro. Ele deslizou para trs com um rangido e o rosto de bigodes do cocheiro de Louise 
espreitou-me.
        -  Madame?  esquerda - eu disse. - Para UHpital ds Anges.
        Madre Hildegarde estava pensativa, batendo seus dedos rombudos em uma partitura de msica, como se tamborilasse uma seqncia particularmente difcil. Ela 
sentava-se  mesa de mosaico em seu gabinete particular em frente a herr Gerstmann, convocado para uma reunio urgente conosco.
        - Bem, sim - disse herr Gerstmann, em dvida. - Sim, acredito que posso arranjar uma audincia particular com Sua Majestade, mas... tem certeza de que seu 
marido... hum... - O mestre de msica parecia estar com uma dificuldade fora do comum de se expressar, o que me fez suspeitar que fazer uma petio ao rei pela soltura 
de Jamie podia ser um pouco mais complicado do que eu pensara. Madre Hildegarde confirmou essa suspeita com sua prpria reao.
        - Johannes! - exclamou, to agitada a ponto de abandonar a maneira formal de tratar as pessoas que lhe era peculiar. - Ela no pode fazer isso! Afinal, madame 
Fraser no  uma das damas da corte. Ela  uma pessoa de virtude!
        - Ha, obrigada - eu disse educadamente. - Se no se importa, entretanto... o que, precisamente, minha virtude tem a ver com minha visita ao rei para pedir-lhe 
que liberte Jamie?
        A freira e o mestre de canto trocaram olhares em que o horror diante de minha ingenuidade misturava-se a uma relutncia geral de dar explicaes. Finalmente, 
madre Hildegarde, a mais corajosa dos dois, enfrentou a situao.
        - Se for sozinha pedir tal favor ao rei, ele esperar dormir com voc - disse sem rodeios. Depois de toda a dificuldade em me contar, eu no me surpreendi, 
mas olhei para herr Gerstmann em busca de confirmao, que ele e deu na forma de um balano relutante da cabea.
        - Sua Majestade  suscetvel a pedidos de senhoras de um certo encanto pessoal - disse delicadamente, com um repentino interesse em um dos objetos de decorao 
sobre a mesa.
        - Mas h um preo para tais pedidos - acrescentou madre Hildegarde, sem tanta delicadeza. - A maioria dos cortesos fica muito satisfeita quando suas esposas 
conseguem receber o favor do rei; os ganhos para eles valem o sacrifcio da virtude de suas mulheres. - A boca larga curvou-se com desdm diante do pensamento, depois 
se endireitou em sua linha irnica e assustadora de costume.
        - Mas seu marido - ela disse - no me parece ser do tipo que se preste ao papel de corno complacente. - As sobrancelhas grossas e arqueadas colocaram o ponto 
de interrogao no final da frase e eu sacudi a cabea em resposta.
        - com certeza, no. - Na realidade, essa era flagrantemente uma maneira muito branda de colocar a questo. Se "complacente" no era a ltima palavra que 
vinha  mente ao se pensar em Jamie Fraser, sem dvida situava-se bem perto do final da lista. Tentei imaginar exatamente o que Jamie pensaria, diria ou faria se 
soubesse que eu havia dormido com outro homem, at e inclusive o rei da Frana.
        O pensamento me fez lembrar a confiana que existira entre ns dois, desde o dia em que nos casamos, e um repentino sentimento de desolao apoderou-se de 
mim. Fechei os olhos por um instante, lutando contra a indisposio, mas a perspectiva tinha que ser encarada.
        - Bem - eu disse, respirando fundo -, existe alguma outra forma? Madre Hildegarde franziu o cenho, olhando para herr Gerstmann com expresso carrancuda, 
como se esperasse que ele apresentasse a resposta. No entanto, o pequeno mestre de msica encolheu os ombros, franzindo a testa por sua vez tambm.
        - Se houvesse algum amigo mtuo de alguma importncia, que pudesse interceder pelo seu marido junto a Sua Majestade? - ele sugeriu.
        - No  provvel. - Eu mesma j havia examinado todas essas alternativas, na carruagem de Fontainebleau, e fora forada a concluir que no havia ningum 
plausvel a quem eu pudesse pedir para assumir tal funo de embaixador. Devido  natureza escandalosa e ilegal do duelo, porque, naturalmente, Marie d'Arbanville 
espalhara o mexerico por toda Paris, nenhum francs do nosso crculo de conhecimentos poderia se interessar pela questo. Monsieur Duverney, que concordara em me 
receber, fora gentil, mas rechaara a idia. Espere, fora seu conselho. Dentro de alguns meses, quando o escndalo tivesse arrefecido um pouco, ento seria possvel 
abordar Sua Majestade. Mas agora...
        Igualmente, o duque de Sandringham, to afeito s delicadas particularidades da diplomacia que despedira seu secretrio particular pela simples suposio 
de envolvimento em escndalo, no estava em posio de fazer uma petio a Lus por um favor dessa natureza.
        Abaixei os olhos, fitando o tampo incrustado da mesa, mal enxergando as curvas complexas do esmalte que se precipitavam em abstraes de geometria e cor. 
Meu dedo indicador traou os volteios e espirais diante de mim, fornecendo uma ncora precria para meus pensamentos desenfreados. Se era realmente necessrio para 
que Jamie fosse libertado da priso, a fim de evitar a invaso jacobita da Esccia, tudo indicava que eu teria que conseguir solt-lo, qualquer que fosse o mtodo, 
e quaisquer que fossem suas conseqncias..
        Finalmente, ergui a cabea, fitando diretamente nos olhos do mestre de msica.
        - vou ter que fazer isso - eu disse, num sussurro. - No h outro modo.
        Fez-se um momento de silncio. Em seguida, herr Gerstmann olhou para madre Hildegarde.
        - Ela vai ficar aqui - madre Hildegarde declarou com firmeza. Mande avisar o dia e a hora da audincia, Johannes, quando tiver arranjado tudo.
        Virou-se para mim.
        - Afinal, se voc est realmente decidida a seguir esse caminho, minha querida amiga... - Seus lbios cerraram-se numa linha fina, depois se abriram para 
dizer: - Pode ser um pecado ajud-la a cometer uma imoralidade. Ainda assim, eu o farei. Sei que as suas razes lhe parecem boas, quaisquer que sejam. E talvez o 
pecado seja contrabalanado pela graa de sua amizade.
        - Ah, madre. - Achei que iria chorar se dissesse mais alguma coisa, assim contentei-me em simplesmente apertar a mo grande e spera de trabalho que descansava 
em meu ombro. Tive uma vontade sbita de lanarme em seus braos e enterrar o rosto no reconfortante peito de sarja preta, mas sua mo deixou meu ombro e buscou 
o longo rosrio de azeviche que retinia entre as pregas de sua saia quando ela andava.
        - Rezarei por voc - ela disse, com um arremedo trmulo de sorriso no rosto menos duramente esculpido. Sua expresso mudou repentinamente para uma profunda 
considerao. - Embora eu me pergunte acrescentou pensativa - exatamente quem seria o santo padroeiro a ser invocado nestas circunstncias?
        Maria Madalena foi o nome que me veio  mente quando ergui as mos acima da cabea numa simulao de prece, para permitir que a pequena estrutura de vime 
das anquinhas deslizasse pelos meus ombros e se assentasse em meus quadris. Ou Mata Hari, mas eu tinha absoluta certeza de que ela jamais integraria o calendrio 
de santos. Quanto a isso, eu nao tinha certeza a respeito de Madalena, mas uma prostituta regenerada Parecia a mais provvel entre as figuras celestiais a compreender 
a aventura que estava sendo empreendida.
        Refleti que o Convento dos Anjos provavelmente nunca vira um hbito como aquele. Embora as postulantes prestes a fazerem seus votos finais fossem esplendidamente 
vestidas como noivas de Cristo, seda vermelha e p-de-arroz provavelmente no faziam parte das cerimnias.
        Muito simblico, pensei, enquanto as suntuosas dobras do tecido vermelho vivo deslizavam pelo meu rosto virado para cima. Branco para pureza e vermelho... 
para o que quer que fosse. A irm Minrve, uma freira nova, de uma nobre famlia rica, fora indicada para me ajudar em minha toalete. com considervel habilidade 
e segurana, ela penteou e enfeitou meus cabelos, ajeitando a menor ponta de pluma de avestruz adornada de prolas minsculas. Penteou minhas sobrancelhas cuidadosamente 
escurecendo-as com pequenos pentes de grafite e pintou meus lbios com uma pena mergulhada num pote de ruge. A sensao do ruge em meus lbios era de um formigamento 
insuportvel, acentuando minha tendncia a desatar em risadinhas incontrolveis. No por hilaridade, mas histeria.
        A irm Minrve estendeu o brao para pegar o espelho de mo. Eu a impedi com um gesto; no queria olhar-me nos olhos. Respirei fundo e fiz um sinal com a 
cabea.
        - Estou pronta - eu disse. - Mande trazer a carruagem.
        Eu nunca estivera naquela parte do palcio antes. Na realidade, depois das inmeras voltas e retornos pelos corredores de espelhos iluminados  vela, eu 
j no sabia ao certo quantas havia de mim, quanto mais para onde qualquer uma delas se dirigia.
        O discreto e annimo Cavalheiro da Alcova conduziu-me a um pequeno aposento com portas almofadadas. Bateu uma vez, depois fez uma mesura para mim, girou 
nos calcanhares e partiu sem esperar uma resposta. A porta abriu-se para dentro e eu entrei.
        O rei ainda estava vestido. O fato arrefeceu meus batimentos cardacos, reduzindo-os a um nvel tolervel, e eu parei de me sentir como se fosse vomitar 
a qualquer momento.
        No sei bem o que eu estava esperando, mas a realidade era levemente reconfortante. Ele estava vestido informalmente, de calas e camisa, com um robe de 
seda marrom sobre os ombros por causa do frio. Sua Majestade sorriu e me fez levantar colocando a mo sob meu brao. A palma de sua mo era quente - no subconsciente, 
eu esperava que o toque de sua mo fosse pegajoso - e eu devolvi o sorriso, da melhor forma possvel.
        A tentativa no deve ter sido muito bem-sucedida, porque ele deu uns tapinhas em meu brao afetuosamente e disse:
        - No tenha medo de mim, chre madame. Eu no mordo.
        - No - eu disse. - Claro que no.
        Ele estava muito mais tranqilo do que eu. Bem, claro que est, pensei comigo mesma, ele faz isso o tempo todo. Respirei fundo e tentei relaxar.
        - Aceita um pouco de vinho, madame? - ele perguntou. Estvamos sozinhos, no havia criados, mas o vinho j fora servido em duas taas sobre a mesa, reluzentes 
como rubis  luz das velas. O aposento era bem ornamentado, mas muito pequeno e, fora a mesa e um par de cadeiras com encosto oval, continha apenas uma chaise longue 
de veludo verde, magnificamente estofada. Tentei evitar olhar em sua direo enquanto pegava minha taa de vinho, com um murmrio de agradecimento.
        - Sente-se, por favor. - Lus deixou-se cair em uma das cadeiras, indicando-me a outra. - Agora, por favor - disse, sorrindo para mim -, diga-me o que  
que eu posso fazer por voc.
        - M-meu marido - comecei, gaguejando com um pouco de nervosismo. - Ele est na Bastilha.
        - Claro - o rei murmurou. - Por duelar. Eu me lembro. - Tomou minha mo livre na sua, os dedos pousados levemente no meu pulso. - O que gostaria que eu fizesse, 
chre madame? Sabe que  uma ofensa grave, seu marido infringiu meu prprio decreto. - Um dos dedos acariciou a parte interna do meu pulso, enviando pequenas sensaes 
de ccega pelo meu brao.
        - S-sim, eu compreendo. Mas ele foi... provocado. - Tive uma idia.
        - O senhor sabe que ele  escocs; os homens desse pas ficam - tentei pensar em um bom sinnimo para "loucos de raiva" - muito furiosos em questes que 
envolvam sua honra.
        Lus concordou, balanando a cabea, mas mantendo-a abaixada, aparentemente absorto com a mo que segurava. Pude ver o leve brilho oleoso de sua pele e sentir 
seu perfume. Violetas. Um cheiro doce e forte, mas no o suficiente para mascarar o prprio odor cido de sua virilidade.
        Ele esvaziou sua taa em dois grandes goles e livrou-se dela, para poder segurar minha mo entre as suas. Um dedo de unha curta traou as linhas da minha 
aliana de casamento, com seus elos entrelaados e suas flores de cardo.
         bem verdade - ele disse, puxando minha mo mais para perto, como se quisesse examinar minha aliana. -  bem verdade, madame. Entretanto...
        - Eu ficaria... muito agradecida, Majestade - interrompi. Ele ergueu a Cabea e meus olhos encontraram os dele, escuros e interrogativos. Meu corao parecia 
um martelo mecnico. - Muito... agradecida.
        Ele tinha lbios finos e dentes ruins; eu podia sentir seu mau hlito, mistura de cebola e cries. Tentei prender minha prpria respirao, mas isso no 
poderia ser mais do que um expediente temporrio.
        - Bem... - ele disse devagar, como se estivesse refletindo sobre o assunto - Eu mesmo estaria inclinado ao perdo, madame...
        Soltei a respirao com uma arfada curta e seus dedos apertaram-se sobre os meus num sinal de advertncia.
        - Mas, sabe, h complicaes.
        -  mesmo? - eu disse, fracamente.
        Ele balanou a cabea, os olhos fixos em meu rosto. Seus dedos vagavam delicadamente sobre as costas de minha mo, traando as veias.
        - O ingls que teve o infortnio de ter ofendido milorde Broch Tuarach - ele disse. - Ele estava a servio de... um certo homem, um nobre ingls de alguma 
importncia.
        Sandringham. Meu corao deu um salto  meno, embora indireta, do duque.
        - Esse nobre est empenhado em... digamos, certas negociaes que lhe do direito  considerao? - Os lbios finos sorriram, enfatizando a proa imperiosa 
de seu nariz acima. - E este nobre se interessou pela questo do duelo entre seu marido e o capito ingls Randall. Receio que ele tenha sido muito enftico em exigir 
que seu marido sofra a penalidade total de sua indiscrio, madame.
        Maldito barril de gordura, pensei. Claro - j que Jamie recusara o suborno de um perdo, que maneira melhor de impedir que ele "se envolvesse" nos assuntos 
dos Stuart do que garantir que Jamie fosse mantido preso na Bastilha pelos prximos anos? Seguro, discreto e barato; um mtodo destinado a atrair o duque.
        Por outro lado, Lus ainda respirava pesadamente sobre minha mo, o que considerei um sinal de que nem tudo estava necessariamente perdido. Se ele no ia 
atender meu pedido, no devia esperar que eu fosse para a cama com ele - ou, se esperasse, ia ter uma grande surpresa.
        Reuni as foras para nova tentativa.
        - E Vossa Majestade aceita ordens de ingleses? - perguntei com ousadia. Os olhos de Lus arregalaram-se por um momento com o choque. A seguir, ele riu ironicamente, 
percebendo a minha inteno. Ainda assim, eu tocara em um ponto sensvel; vi o pequeno espasmo dos seus ombros enquanto reassentava sua convico de poder como um 
manto invisvel.
        - No, madame, no aceito - ele disse, com certa aridez. - No entanto, eu levo em considerao... vrios fatores. - As plpebras pesadas penderam sobre os 
seus olhos por um momento, mas continuou a segurar a minha mo.
        - Ouvi dizer que seu marido se interessa pelos negcios do meu primo - ele disse.
        - Vossa Majestade est bem informada - eu disse educadamente. - Mas j que  assim, deve saber que meu marido no apoia a restaurao dos Stuart ao trono 
da Esccia. - Rezei para que fosse isso o que ele desejava ouvir.
        Aparentemente, era; ele sorriu, levou minha mo aos lbios e beijoua de forma breve.
        - Ah? Eu ouvi... histrias conflitantes sobre seu marido.
        Respirei fundo e resisti ao impulso de retirar a minha mo com um safano.
        - Bem,  uma questo de negcios - eu disse, tentando soar o mais descontrada possvel. - O primo de meu marido, Jared Fraser,  um jacobita confesso; Jamie, 
meu marido, no pode sair por a revelando publicamente seus verdadeiros pontos de vista, quando ele tem uma sociedade com Jared. - Vendo a dvida comear a desaparecer 
de seu rosto, apresseime a continuar. - Pergunte a monsieur Duverney - sugeri. - Ele est bem familiarizado com as verdadeiras preferncias de meu marido.
        - J perguntei. - Lus fez uma longa pausa, observando seus prprios dedos, escuros, grossos e curtos, traando delicados crculos nas costas de minha mo.
        - To plidas - ele murmurou. - To finas. Acho que poderia ver o sangue fluindo sob a pele.
        Em seguida, soltou minha mo e permaneceu sentado, observando-me. Sou extremamente hbil em ler fisionomias, mas a de Lus era absolutamente impenetrvel 
no momento. Lembrei-me de repente que ele era rei desde os cinco anos de idade; a habilidade de esconder seus pensamentos fazia parte dele como seu nariz Bourbon 
ou os olhos negros e sonolentos.
        Esse pensamento trouxe outro em seu rastro, com um calafrio que me atingiu com toda a fora na boca do estmago. Ele era o rei. Os cidados de Paris s iriam 
se rebelar dali a mais de quarenta anos; at l, seu poder dentro da Frana seria absoluto. Ele podia libertar Jamie com uma nica palavra - ou mat-lo. Podia fazer 
o que quisesse comigo; no havia a quem recorrer. Um sinal de sua cabea e os cofres da Frana poderiam fazer jorrar o ouro que lanaria Carlos Stuart, atirando-o 
como um raio mortal que atravessaria o corao da Esccia.
        Ele era o rei. Faria o que bem entendesse. E eu observei seus olhos escuros, turvos em pensamento, e esperei, tremendo, para ver qual seria a vontade real.
        - Diga-me, ma chre madame - ele disse finalmente, saindo de sua introspeco. - Se eu fosse lhe conceder seu pedido, libertar seu marido... ele parou, considerando.
        - Sim?
        - Ele teria que deixar a Frana - Lus disse, uma das grossas sobrancelhas erguida em advertncia. - Essa seria uma condio para sua soltura.
        - Compreendo. - Meu corao batia com tanta fora que quase abafou suas palavras. Jamie deixar a Frana era, afinal, exatamente o objetivo.
        - Mas, ele est exilado da Esccia...
        - Acho que isso pode ser arranjado.
        Hesitei, mas no parecia haver muita escolha seno concordar em nome de Jamie.
        - Est bem.
        - timo. - O rei balanou a cabea, satisfeito. Em seguida, seus olhos retornaram para mim, pousaram em meu rosto, desceram pelo meu pescoo, meus seios, 
meu corpo. - Eu lhe pediria um pequeno servio em retribuio, madame - ele disse suavemente.
        Nossos olhos se encontraram por um segundo. Em seguida, abaixei a cabea.
        - Estou inteiramente  disposio de Vossa Majestade - eu disse.
        - Ah. - Ele se levantou e tirou o robe, jogando-o descuidadamente no encosto de sua cadeira de braos. Sorriu e estendeu a mo para mim. - Trs bien, ma 
chre. Ento, venha comigo.
        Fechei os olhos rapidamente, tentando fazer meus joelhos funcionarem. Voc j foi casada duas vezes, pelo amor de Deus, pensei comigo mesma. Pare de fazer 
tanta confuso por causa disso.
        Ergui-me e segurei sua mo. Para minha surpresa, ele no se voltou para a chaise de veludo, mas conduziu-me para a porta no outro lado do aposento.
        Tive um instante de fria clareza quando ele soltou minha mo para abrir a porta.
        Maldito seja,Jamie Fraser, pensei. Que voc queime no inferno!
        Fiquei parada, imvel, na soleira da porta, piscando. Minhas ponderaes sobre o protocolo real para se despir desfez-se em puro assombro.
        O aposento estava s escuras, iluminado apenas por vrias e minsculas lamparinas, reunidas em grupos de cinco, em nichos nas paredes do quarto. O aposento 
em si era redondo, assim como a enorme mesa em seu centro, a madeira escura brilhando com reflexos pontilhados. Havia pessoas sentadas  mesa, no mais do que vultos 
escuros e curvados contra escurido do aposento.
        Houve um murmrio  minha entrada, rapidamente silenciado ao verem o rei. Quando meus olhos se acostumaram  escurido, percebi com uma sensao de choque 
que as pessoas sentadas ao redor da mesa usava capuz; o homem mais prximo virou-se para mim e vislumbrei um leve brilho de olhos atravs de buracos no veludo. Parecia 
uma conveno de carrascos.
        Aparentemente, eu era a convidada de honra. Perguntei-me, muito nervosa por um instante o que exatamente seria esperado de mim. Pelas insinuaes de Raymond, 
e de Marguerite, eu tinha vises em meus pesadelos de cerimnias de ocultismo envolvendo sacrifcio de crianas, estupro cerimonial e ritos satnicos de um modo 
geral. Entretanto,  muito raro que o sobrenatural se materialize de acordo com os sonhos e eu esperava que esta ocasio no fosse nenhuma exceo.
        - Ouvimos falar de sua enorme habilidade, madame, e de sua... reputao. - Lus sorriu, mas havia um tom de cautela em seus olhos quando olhou para mim, 
como se no soubesse o que esperar de mim. Ficaramos muito gratos, madame, se nos concedesse os benefcios de tal habilidade esta noite.
        Balancei a cabea, assentindo. Muito gratos, hein? Bem, isso vinha a calhar; queria que ele ficasse grato a mim. Mas o que ele estava esperando que eu fizesse? 
Um criado colocou uma enorme vela de cera sobre a mesa e acendeu-a, lanando uma poa de luz suave sobre a madeira lustrada. A vela era decorada com smbolos como 
aqueles que eu vira no quarto secreto de mestre Raymond.
        - Regardez, madame. - A mo do rei estava sob meu cotovelo, direcionando minha ateno para alm da mesa. Agora que a vela estava acesa, pude ver as duas 
figuras que estavam paradas, de p, silenciosamente, entre as sombras trmulas. Levei um susto com a viso e a mo do rei apertou meu brao.
        O conde de St. Germain e mestre Raymond estavam l parados, lado a lado, separados por uma distncia de aproximadamente dois metros. Raymond no deu nenhum 
sinal de ter me reconhecido, permanecendo imvel e em silncio, com o olhar fixo e desviado para o lado, com aqueles olhos negros sem pupila de um sapo em um poo 
sem fundo.
        O conde me viu e seus olhos arregalaram-se, incrdulos; em seguida, franziu o cenho para mim. Estava vestido em seus melhores trajes, todo de branco, como 
sempre; um casaco de cetim branco engomado sobre um colete e calas de seda creme. Uma fileira de prolas minsculas ornamentava os punhos e as lapelas, brilhando 
 luz da vela. Excluindo-se o esplendor da vestimenta, o conde parecia um pouco desgastado, pensei - o rosto estava abatido de tenso e o lao da echarpe de seda 
em seu pescoo estava Parcialmente desfeito, a gola escura de suor.
        Raymond, ao contrrio, parecia calmo como um peixe no gelo, impassvel, com as duas mos enfiadas nas mangas do seu encardido robe de veludo de costume, 
o rosto achatado e largo numa expresso plcida e inescrutvel.
        - Estes dois homens so acusados, madame - disse Lus, indicando Raymond e o conde com um gesto da mo -, de feitiaria, de bruxaria, de perverso da busca 
legtima pelo conhecimento em uma explorao das artes ocultas. - Sua voz era fria e implacvel. - Tais prticas floresceram durante o reinado de meu av; mas no 
permitiremos tais prticas malignas em nosso reino.
        O rei estalou os dedos para uma das figuras encapuzadas, que estava sentada  mesa com caneta e tinta, diante de um mao de folhas de papel.
        - Leia as acusaes, por favor - ele disse.
        O homem encapuzado levantou-se obedientemente e comeou a ler um dos documentos: acusaes de bestialidade e sacrifcio odiosos, de derramamento do sangue 
de inocentes, de profanao do rito mais sagrado da missa pelo ultraje  hstia, da realizao de ritos profanos no altar de Deus
        - tive uma rpida viso do que o ato de cura que Raymond realizara em mim no Hpital ds Anges deveria parecer e me senti profundamente grata por ningum 
t-lo descoberto.
        Ouvi o nome "du Carrefours" ser mencionado e engoli uma repentina onda de blis. O que o pastor Laurent dissera? O bruxo du Carrefours fora queimado em Paris, 
h apenas vinte anos, sob as mesmas acusaes que eu ouvia agora:
        - ...A invocao de demnios e poderes das trevas, a provocao de doena e morte em troca de pagamento - coloquei a mo sobre o estmago, lembrando-me vividamente 
da cscara-sagrada -, a maldio de membros da corte, o defloramento de virgens - lancei um rpido olhar para o conde, mas seu rosto parecia de pedra, os lbios 
pressionados com fora enquanto ouvia.
        Raymond permanecia absolutamente imvel, os cabelos prateados roando os ombros, como se ouvisse algo to inconseqente quanto o canto de um melro na mata. 
Eu vira os smbolos cabalsticos em seu armrio, mas no podia conciliar o homem que eu conhecia - o envenenador piedoso, o farmacutico prtico - com a lista de 
vilanias que estava sendo lida.
        Finalmente, o indiciamento terminou. O homem encapuzado olhou para o rei e, a um sinal, sentou-se outra vez.
        - Foi feita uma investigao completa - o rei disse, voltando-se para mim. - Provas foram apresentadas e os depoimentos de muitas testemunhas tomados. Parece 
claro - voltou-se com um olhar frio para os dois magos acusados - que ambos fizeram investigaes nos escritos de antigos filsofos e empregaram as artes da profecia, 
usando o clculo dos movimentos dos corpos celestes. Ainda assim... - Deu de ombros. - Em si mesmo, isso no  um crime. Pelo que me deram a entender - olhou para 
um homem corpulento e encapuzado, que eu suspeitava tratar-se do bispo de Paris -, isso no est necessariamente em desacordo com os ensinamentos da Igreja; at 
mesmo o abenoado Santo Agostinho era conhecido por suas investigaes dos mistrios da astrologia.
        Recordei-me vagamente que Santo Agostinho havia de fato estudado astrologia e havia, com certo desdm, descartado esse conhecimento como um monte de baboseiras. 
Ainda assim, eu duvidava que Lus tivesse lido Confisses, de Santo Agostinho, e essa linha de argumentao era sem dvida boa para algum acusado de feitiaria; 
observar estrelas parecia algo bastante inofensivo, em comparao a sacrifcio de crianas e orgias inominveis.
        Eu comeava a imaginar, com considervel apreenso, exatamente o que eu estava fazendo naquela assemblia. Teria algum, afinal de contas, visto mestre Raymond 
comigo no Hpital?
        - No temos nada contra o uso adequado do conhecimento nem contra a busca do saber - o rei continuou em voz pausada. - H muito a ser aprendido nos escritos 
dos filsofos antigos, se forem abordados com a devida cautela e humildade de esprito. Mas  verdade que, embora esses escritos possam ter muito valor, o mal tambm 
pode ser a descoberto e a busca absoluta pela sabedoria ser pervertida no desejo de poder e riqueza... os valores mundanos.
        Olhou de um para o outro dos dois feiticeiros acusados mais uma vez, obviamente tirando concluses quanto a quem seria o mais inclinado a esse tipo de perverso. 
O conde ainda suava, manchas de suor escurecendo a seda branca de seu casaco.
        - No, Majestade! - ele disse, sacudindo para trs os cabelos negros e fixando os olhos flamejantes em mestre Raymond. -  verdade que h foras das trevas 
atuando na regio... a vileza da qual se fala caminha entre ns! Mas tal malignidade no habita o peito de seu sdito mais leal. - E ele bateu no prprio peito, 
para o caso de no termos entendido bem. - No, Majestade! Para a perverso do conhecimento e o uso de artes proibidas, Vossa Majestade deve procurar fora de sua 
prpria corte! - Ele no acusou mestre Raymond claramente, mas a direo de seu olhar penetrante era bvia
        O rei manteve-se inabalvel diante dessa exploso.
        - Tais abominaes floresceram durante o reinado de meu av - ele
        disse sem se alterar - Ns as extirpamos onde quer que fossem encontradas; destrumos a ameaa desse mal onde pudesse existir em nosso reino. Feiticeiros, 
bruxos, aqueles que pervertem os ensinamentos da Igreja... monsieurs, no permitiremos que essas perverses surjam novamente.
        O rei bateu de leve as mos abertas em cima da mesa e empertigou-se. Ainda olhando fixamente para Raymond e o conde, estendeu a mo em minha direo.
        - Ns trouxemos aqui uma testemunha - declarou - Um juiz infalvel da verdade, da pureza do corao.
        Produzi um pequeno rudo balbuciante, que fez o rei voltar-se para mim.
        - Uma Dama Branca - ele disse em voz baixa. - La Dame Blanche no pode mentir; ela v o corao e a alma de um homem, e pode transformar essa verdade para 
o bem... ou para a destruio.
        A atmosfera irreal que pairava sobre a noite desapareceu como por encanto. A leve sensao de tontura provocada pelo vinho desapareceu e de repente fiquei 
absolutamente sbria. Abri a boca, em seguida fechei-a, percebendo que no havia nada que eu pudesse dizer.
        O pavor comeou a descer pela minha espinha dorsal e enrolou-se como uma cobra em minha barriga quando o rei fez seus arranjos. Dois pentagramas foram desenhados 
no assoalho, dentro de cada um dos quais deveria ficar um bruxo. Cada qual iria, ento, dar seu testemunho sobre suas prprias atividades e motivos. E a Dama Branca 
julgaria a verdade do que fora dito.
        - Valha-me Deus! - eu disse, a meia-voz.
        - Monsieur l comte? - O rei indicou o primeiro pentagrama, desenhado a giz sobre o carpete. Somente um rei trataria um Aubusson genuno com to arrogante 
indiferena.
        O conde caminhou rente a mim ao dirigir-se ao seu lugar. Ao passar, ouvi num sussurro quase inaudvel:
        - Cuidado, madame. Eu no trabalho sozinho.
        Assumiu seu lugar e virou-se de frente para mim com uma mesura irnica, aparentemente calmo.
        A implicao era bastante clara; se eu o condenasse, seus subordinados surgiriam prontamente para decepar meus mamilos e incendiar o depsito de Jared. Umedeci 
meus lbios secos, amaldioando Lus. Por que ele no quis apenas meu corpo?
        Raymond pisou descontraidamente em seu prprio espao delimitado a giz e cumprimentou-me cordialmente com um sinal da cabea. Nenhuma indicao ou sugesto 
naqueles olhos negros e redondos para me servir de guia.
        Eu no fazia a menor idia do que deveria vir em seguida. O rei indicou com um gesto que eu me posicionasse  sua frente, entre os dois pentagramas. Os homens 
encapuzados levantaram-se e perfilaram-se atrs do rei; um grupo ameaador e sem rosto.
        Fez-se um silncio absoluto. A fumaa da vela pairava como uma mortalha junto ao teto ornamentado a ouro, alguns filetes deixando-se levar pelas lnguidas 
correntes de ar. Todos os olhos concentravam-se em mim. Finalmente, por desespero, voltei-me para o conde e balancei a cabea.
        - Pode comear, monsieur le comte - eu disse.
        Ele sorriu - ao menos, presumi que aquele ricto pretendia ser um sorriso - e comeou, partindo de uma explicao da fundao da Cabala e prosseguindo com 
uma exegese sobre as vinte e trs letras do alfabeto hebraico e o profundo simbolismo de tudo aquilo. Soava completamente erudito, completamente incuo e terrivelmente 
maante. O rei bocejou, sem se dar ao trabalho de cobrir a boca.
        Enquanto isso, eu repassava alternativas em minha mente. Este homem havia me ameaado e me atacado, e atentara contra a vida de Jamie - fosse por questes 
polticas ou pessoais, no fazia muita diferena. Ele fora com toda a probabilidade o chefe da gangue de estupradores que armou uma cilada para mim e Mary. Alm 
de tudo isso, e dos rumores que eu ouvira sobre suas outras atividades, ele era uma grande ameaa para o sucesso de nossa tentativa de frustrar os planos de Carlos 
Stuart. Eu iria deixar que ele se safasse dessa? Deixar que continuasse a exercer sua influncia junto ao rei em nome dos Stuart? Deixar que continuasse a vagar 
pelas ruas escuras de Paris com um bando de molestadores mascarados?
        Eu podia ver meus mamilos, eretos de medo, projetando-se ousadamente contra a seda do meu vestido. Mas empertiguei-me e fitei-o com um olhar fulminante mesmo 
assim.
        - Espere um minuto - eu disse. - Tudo que disse at agora  verdadeiro, monsieur Le comte, mas vejo uma sombra atrs de suas palavras.
        O conde ficou boquiaberto. Lus, repentinamente interessado, parou de se apoiar negligentemente sobre a mesa e endireitou-se. Fechei os olhos e coloquei 
os dedos sobre as plpebras, como se olhasse para dentro.
        - Vejo um nome em sua mente, monsieur l comte - eu disse. Minha voz soava ofegante e estrangulada de medo, mas no havia nada que eu pudesse fazer. Deixei 
cair as mos e olhei-o diretamente nos olhos. - Ls Disciples du Mal - eu disse. - O que tem a ver com Ls Disciples, monsieur l comte'?
        Ele realmente no sabia disfarar suas emoes. Seus olhos saltaram e seu rosto ficou lvido. Senti um fluxo pequeno e cruel de satisfao sob o medo.
        O nome de Ls Disciples du Mal tambm era familiar ao rei; os olhos escuros e sonolentos estreitaram-se repentinamente, transformando-se em duas fendas.
        O conde podia ser um charlato e um patife, mas no era um covarde. Reunindo suas foras, fitou-me furiosamente e atirou a cabea para trs.
        - Esta mulher mente - ele disse, soando to definitivo quanto o fizera ao informar  audincia que a letra alef simbolizava a fonte do sangue de Cristo. 
- Ela no  uma verdadeira Dama Branca, mas uma serva de Sat! Associada a seu mestre, o famoso feiticeiro, aprendiz de du Carrefours!
        Ele apontou dramaticamente para Raymond, que pareceu ligeiramente surpreso.
        Um dos homens encapuzados fez o sinal-da-cruz e eu ouvi o sussurro quase inaudvel de uma breve prece entre as sombras.
        - Posso provar o que digo - o conde declarou, sem deixar que alguma outra pessoa tomasse a palavra. Enfiou a mo no peito do casaco. Lembreime da adaga que 
ele tirara da manga na noite do jantar e retesei o corpo para me esquivar. Mas no foi uma faca que ele apresentou. - A Bblia Sagrada diz: "Eles podero lidar com 
serpentes sem sofrer nenhum dano"
        - ele bradou. - "E por esses sinais vocs conhecero os servos do verdadeiro Deus!"
        Achei que devia ser uma pequena serpente do gnero pton. Tinha quase um metro de comprimento, a pele lisa e brilhante em marrons e dourados, sinuosa e escorregadia 
como uma corda untada com leo, com um par de desconcertantes olhos dourados.
        Ouviu-se um coro de respirao sufocada  apario do animal e dois dos juizes encapuzados deram um rpido passo para trs. O prprio Lus ficou mais do 
que ligeiramente assustado e olhou apressado ao seu redor  procura de seu guarda-costas, parado junto  porta do aposento com os olhos esbugalhados.
        A cobra fez um ou dois movimentos rpidos com a lngua, experimentando o ar. Aparentemente decidindo que a mistura de cera de vela e incenso no era comestvel, 
virou-se e fez uma tentativa de se enfiar de novo no bolso quente de onde fora bruscamente retirada. O conde segurou-a habilmente atrs da cabea e empurrou-a em 
minha direo.
        - Esto vendo? - disse triunfalmente. - A mulher encolhe-se de medo! Ela  uma bruxa!
        Na verdade, comparada a um dos juizes, que se refugiara junto  parede mais distante, eu era um monumento de bravura e coragem, mas devo admitir que eu dera 
um passo para trs involuntariamente quando a serpente apareceu. Agora, dei um passo para frente outra vez, com a inteno de tir-la de perto de mim. Afinal, a 
maldita serpente no era venenosa. Talvez vssemos o quanto ela era inofensiva se eu a enrolasse em volta de seu pescoo.
        Antes que eu pudesse alcan-lo, entretanto, mestre Raymond falou atrs de mim. com toda aquela comoo, eu praticamente o havia esquecido.
        - Isso no  tudo que a Bblia diz, monsieur l comte - Raymond observou. Ele no ergueu a voz e o largo rosto de anfbio estava suave como um pudim. Ainda 
assim, o zumbido de vozes parou e o rei voltou-se para ouvir.
        - Sim, monsieur? - ele disse.
        Raymond balanou a cabea num reconhecimento educado por ter a palavra e enfiou as duas mos dentro do seu roupo. De um bolso ele retirou um frasco, do 
outro uma pequena xcara.
        - "Eles podero lidar com serpentes sem sofrer nenhum dano" - ele citou - "e se tomarem qualquer veneno mortal, no morrero." Estendeu a xcara na palma 
da mo, o revestimento interno prateado brilhando  luz da vela. O frasco foi posicionado acima da xcara, pronto para despejar.
        - J que tanto milady Broch Tuarach e eu mesmo fomos acusados Raymond disse, com um rpido olhar para mim -, sugiro que ns trs faamos este teste. Tenho 
sua permisso, Vossa Majestade?
        Lus parecia um pouco confuso com o rpido progresso dos acontecimentos, mas assentiu com um movimento de cabea. Um fio fino de um lquido mbar caiu na 
xcara e imediatamente tornou-se vermelho e comeou a borbulhar, como se o contedo da xcara estivesse fervendo.
        - Sangue de drago - Raymond disse informativamente, agitando a xcara. - Inteiramente incuo aos puros de corao. - Exibiu um sorriso desdentado, encorajador, 
e me deu a xcara.
        No parecia haver muito a fazer a no ser beb-lo. O sangue de drago parecia ser algum tipo de bicarbonato de sdio; tinha o gosto de conhaque com sal de 
frutas. Tomei dois ou trs goles de bom tamanho e devolvi a xcara.
        com a devida cerimnia, Raymond tambm bebeu. Abaixou a xcara, exibindo os lbios tingidos de rosa e voltou-se para o rei.
        - Posso pedir a La Dame Blanche para dar a xcara a monsieur l comte? - ele disse. Mostrou com um gesto os riscos de giz a seus ps, para indicar que ele 
no podia pisar fora da proteo do pentagrama.
        A um sinal de cabea do rei, peguei a xcara e me voltei mecanicamente em direo ao conde. Talvez uns dois metros de carpete para atravessar. Dei o primeiro 
passo, depois outro, os joelhos tremendo mais violentamente do que haviam tremido antes, na pequena ante-sala, sozinha com o rei.
        A Dama Branca v a verdadeira natureza de um homem. Eu via? Eu realmente sabia alguma coisa a respeito de qualquer um dos dois, Raymond ou o conde?
        Eu poderia ter impedido aquele desfecho? Fiz essa pergunta a mim mesma centenas de vezes, milhares de vezes - mais tarde. Eu poderia ter agido de outra forma?
        Lembrei-me de meus pensamentos errantes ao conhecer Carlos Stuart; como seria conveniente para todos se ele morresse. Mas uma pessoa no pode matar um homem 
por suas crenas, ainda que o exerccio dessas crenas signifique a morte de inocentes - ou pode?
        Eu no sabia. Eu no sabia se o conde era culpado, eu no sabia se Raymond era inocente. Eu no sabia se a busca de uma causa nobre justificava o uso de 
meios desonrosos. Eu no sabia quanto valia uma vida - ou mil. Eu no sabia o preo verdadeiro da vingana.
        Eu no sabia que a xcara que eu segurava em minhas mos era a morte. O cristal branco continuava pendurado em meu pescoo, seu peso um lembrete de veneno. 
Eu no vira Raymond acrescentar nada ao contedo da xcara; ningum o fizera, eu tinha certeza. Mas eu no precisava mergulhar o cristal no lquido cor de sangue 
para saber o que ele agora continha.
        O conde leu esse conhecimento em meu rosto; La Dame Blanche no mente. Ele hesitou, olhando para a xcara borbulhante.
        - Beba, monsieur - disse o rei. Os olhos escuros estavam velados mais uma vez, indecifrveis. - Ou tem medo?
        O conde pode ter muitas coisas a seu descrdito, mas a covardia no era uma delas. Seu rosto estava plido e resoluto, mas ele olhou direto nos olhos do 
rei, com um leve sorriso.
        - No, Majestade - ele disse.
        Pegou a xcara da minha mo e a esvaziou, os olhos fixos nos meus. Mantiveram-se em meu rosto, olhando-me fixamente, mesmo enquanto ficavam vidrados com 
o conhecimento da morte. A Dama Branca pode transformar a natureza de um homem para o bem ou para a destruio.
        O corpo do conde bateu no cho, contorcendo-se, e um coro de gritos e berros ergueu-se dos observadores encapuzados, abafando qualquer som que ele pudesse 
ter emitido. Seus calcanhares tamborilaram por um instante, silenciosos no tapete florido. Seu corpo arqueou-se, depois se abateu, languidamente. A serpente, completamente 
decepcionada, libertou-se das dobras desordenadas de cetim branco e fugiu, deslizando ligeiro em direo ao santurio dos ps de Lus.
        Foi um pandemnio.
        
        
        
28 - A CHEGADA DA LUZ
        
        Voltei de Paris para a casa de Louise em Fontainebleau. No queria ir para a rue Tremoulins - ou qualquer outro lugar onde Jamie pudesse me encontrar. Ele 
no teria muito tempo para me procurar; teria que partir para a Espanha praticamente assim que fosse solto, ou correr o risco de ver seu plano fracassar.
        Louise, como boa amiga que era, perdoou meu subterfgio e -justia lhe seja feita - absteve-se de perguntar aonde eu fora ou o que fizera. Eu quase no falava 
com ningum, permanecendo em meu quarto a maior parte do tempo, comendo pouco e fitando os putti gorduchos e nus que decoravam o teto branco. A pura necessidade 
da viagem a Paris me animara por algum tempo, mas agora no havia mais nada que eu tivesse que fazer, nenhuma rotina diria para me encorajar. Sem leme, comecei 
a me deixar levar pela corrente,  deriva outra vez.
        Ainda assim, s vezes eu fazia um esforo. Estimulada por Louise, descia para um jantar social ou acompanhava-a quando recebia uma amiga para um ch. E tentava 
prestar ateno a Fergus, a nica pessoa no mundo por quem eu ainda tinha alguma noo de responsabilidade.
        Assim, quando ouvi sua voz numa discusso do outro lado de uma das construes anexas enquanto obedientemente fazia minha caminhada vespertina, senti-me 
obrigada a ir ver qual era o problema.
        Ele estava cara a cara com um dos rapazes do estbulo, um garoto maior do que ele, de ombros largos e expresso furiosa.
        - Cale a boca, sapo ignorante - dizia o rapaz. - No sabe o que est falando!
        - Sei mais do que voc... voc, filho de uma me que se acasalou com um porco! - Fergus colocou dois dedos nas narinas, empurrou o nariz para cima e ficou 
danando para frente e para trs, gritando: "Oinc, oinc!", sem parar.
        O moo do estbulo, que realmente tinha uma tromba notoriamente arrebitada, no perdeu tempo com conversa e avanou agitando os dois punhos cerrados. Em 
poucos segundos, os dois rolavam no cho lamacento, berrando como gatos e rasgando a roupa um do outro.
        Enquanto eu ainda ponderava se devia ou no interferir, o rapaz rolou Para cima de Fergus. agarrou seu pescoo com as duas mos e comeou a bater sua cabea 
no cho. Por um lado, eu achava que Fergus provocara a situao. Por outro, seu rosto estava ficando escuro, arroxeado, e eu tinha algumas reservas em v-lo estrangulado 
na flor da idade. com certa dose de deliberao, aproximei-me por trs dos dois briges.
        O rapaz estava montado sobre o corpo de Fergus, estrangulando-o, e o traseiro de suas calas estava bem esticado diante de mim. Lancei o p para trs e dei 
um chute certeiro com minha bota na costura de suas calas. Precariamente equilibrado, ele caiu para frente com um grito de surpresa, em cima do corpo de sua vtima. 
Ele rolou para o lado e ps-se de p, os punhos cerrados. Ao me ver, saiu correndo sem dizer nenhuma palavra.
        - Voc acha que isso  brincadeira? - perguntei. Puxei Fergus, que arfava e balbuciava confusamente, colocando-o de p, e comecei a bater suas roupas, retirando 
a maior parte dos grumos de lama e restos de palha.
        - Olha s isso - eu disse acusadoramente. - Voc no s rasgou sua camisa, mas as calas tambm. Vamos ter que pedir a Berta para remendlas. - Virei-o e 
segurei o pedao rasgado do tecido. Aparentemente o rapaz do estbulo o agarrara pelo cs das calas e puxara para baixo, rasgando-as pela costura lateral; o tecido 
rstico de algodo pendia de seus quadris magros, mal encobrindo uma das ndegas.
        Parei de falar repentinamente e fixei os olhos. No foi a desonrosa viso da pele nua que deteve minha ateno, mas uma pequena marca vermelha sobre ela. 
Do tamanho de uma moeda pequena, era escura, arroxeada, de uma queimadura recente que acabara de cicatrizar. Incrdula, toquei-a, fazendo Fergus dar um salto, alarmado. 
As bordas da marca formavam uma cicatriz funda; o que quer que tivesse feito aquilo, havia penetrado na carne. Agarrei o menino pelo brao para impedir que fugisse 
correndo e me inclinei para examinar a marca mais de perto.
        A uma distncia de quinze centmetros, o formato da marca era claro; era uma figura oval, ostentando em seu interior umas formas imprecisas do que deveriam 
ser letras.
        - Quem lhe fez isso, Fergus? - perguntei. Minha voz soou estranha a meus prprios ouvidos; excepcionalmente calma e distanciada.
        Fergus puxou o brao com fora, tentando desvencilhar-se de mim, mas eu segurei-o com firmeza.
        - Quem, Fergus? - insisti, sacudindo-o levemente.
        - No  nada, madame; eu me machuquei descendo da cerca. Foi s uma lasca de madeira. - Seus olhos grandes e negros iam de um lado para o outro, buscando 
um refgio.
        - Isso no foi causado por uma lasca de madeira. Sei o que , Fergus. Mas quero saber quem fez isso. - Eu j vira algo semelhante uma nica vez antes, e 
o ferimento ainda muito recente, enquanto este j tivera algum tempo para cicatrizar. Mas uma marca a ferro em brasa  inconfundvel.
        Vendo que eu falava a srio, ele parou de se debater. Umedeceu os lbios, hesitando, mas seus ombros caram e compreendi que agora eu saberia a verdade.
        - Foi... um ingls, milady. com um anel.
        - Quando?
        - H muito tempo, madame! Em maio.
        Respirei fundo, calculando. Trs meses. Trs meses atrs, quando Jamie sara de casa para ir ao bordel,  procura do contramestre do seu depsito. Na companhia 
de Fergus. Trs meses desde que Jamie encontrara Jack Randall no estabelecimento de madame Elise e viu algo que anulou e invalidou todas as promessas, que forjou 
nele a determinao de matar Jack Randall. Trs meses desde que ele partira - para no mais voltar.
        Foi preciso uma boa dose de pacincia, complementada por um aperto firme do brao de Fergus, mas finalmente consegui extrair a histria dele.
        Quando chegaram ao estabelecimento de madame Elise, Jamie disse a Fergus para esperar por ele enquanto ia ao andar de cima fazer alguns acertos financeiros. 
Julgando por experincia anterior que aquilo poderia levar algum tempo, Fergus dirigiu-se ao salo principal, onde vrias raparigas que ele conhecia "descansavam", 
conversando e ajeitando os cabelos umas das outras,  espera dos clientes.
        - Os negcios s vezes so lentos de manh - ele explicou-me. - Mas s teras e sextas-feiras, os pescadores sobem o Sena para vender a pesca de manh no 
mercado. Ento, tm algum dinheiro e os negcios de madame Elise vo bem, de modo que ls jeunes filies tm que estar prontas logo depois do desjejum.
        Quase todas as "garotas" eram na verdade as mais antigas moradoras do estabelecimento; os pescadores no eram considerados clientes de classe e assim eram 
destinados, automaticamente, s prostitutas menos requisitadas. No entanto, entre elas, estava a maioria das antigas amigas de Fergus e ele passou um agradvel quarto 
de hora no salo, como o centro das atenes e brincadeiras. Alguns clientes madrugadores apareceram, fizeram sua escolha e partiram para os quartos em cima - a 
casa de madame Elise orgulhava-se de ter quatro andares estreitos -, sem perturbar a conversa das mulheres que permaneciam no trreo.
        - Ento, o ingls entrou, com madame Elise. - Fergus parou e engoliu em seco, o pomo-de-ado protuberante subindo e descendo nervosamente na garganta esqueltica.
        Era bvio para Fergus, que j vira homens em todo estado de embriaguez e excitamento, que o capito tivera uma noite e tanto. Estava afogueado,e desarrumado, 
e seus olhos estavam injetados. Ignorando as tentativas de madame Elise de gui-lo para uma das prostitutas, ele se desvencilhou e vagou pelo aposento, examinando 
friamente a mercadoria em exposio. Ento, seus olhos recaram sobre Fergus.
        - Ele disse: "Voc. Venha comigo." E me pegou pelo brao. Fiquei onde estava, madame. Eu disse a ele que meu patro estava l em cima e que eu no podia, 
mas ele no quis ouvir. Madame Elise sussurrou no meu ouvido que eu deveria ir com ele e que ela dividiria o dinheiro comigo depois. - Fergus estremeceu e olhou-me 
com ar desolado. - Eu sabia que aqueles que gostavam de garotos em geral no levavam muito tempo; achei que ele j teria terminado muito antes de milorde estar pronto 
para ir embora.
        - Santo Deus! - exclamei. Meus dedos relaxaram o aperto em seu brao e deslizaram nervosamente pela manga da camisa. - Quer dizer... Fergus, voc j havia 
feito isso antes?
        Ele parecia querer chorar. Eu tambm.
        - No muito, madame - ele disse, quase como uma splica para que eu compreendesse. - H casas onde esta  a especialidade e geralmente os homens que gostam 
disso vo l. Mas s vezes um cliente me via e se agradava de mim... - Seu nariz comeava a escorrer e ele o limpou com as costas da mo.
        Remexi meu bolso  procura de um leno e o dei para ele. Ele comeou a choramingar ao recordar aquela manh de sexta-feira.
        - Ele era muito maior do que eu pensara. Perguntei a ele se eu podia fazer com a boca, mas ele... mas ele queria...
        Puxei-o para mim e pressionei sua cabea com fora contra meu ombro, abafando sua voz no tecido do meu vestido. As frgeis omoplatas de seus ombros pareciam 
as asas de um pssaro sob minhas mos.
        - No me conte mais nada - eu disse. - No. Est tudo bem, Fergus. Eu no estou zangada. Mas no me conte mais nada.
        Foi uma ordem intil; ele no conseguia parar de falar, aps tantos dias de silncio e medo.
        - Mas foi tudo minha culpa, madame! - ele irrompeu, afastando-se de mim. Seus lbios tremiam e as lgrimas afloraram a seus olhos. - Eu devia ter ficado 
quieto; no devia ter gritado! Mas no consegui e milorde ouviu e... e ele irrompeu no quarto... e... ah, madame, eu no devia, mas fiquei to feliz de v-lo, eu 
corri para ele. Ele me colocou atrs dele e deu um soco no rosto do ingls. Ento, o ingls levantou do cho com o banquinho na mo e o atirou e eu fiquei com tanto 
medo... sa correndo do quarto e me escondi no armrio no final do corredor. Ento, foi tanta gritaria e barulho, depois um estrondo terrvel e mais gritaria. Depois, 
tudo parou e logo milorde abriu a porta do armrio e me tirou l de dentro. Ele tinha minhas roupas e ele mesmo me vestiu, porque eu no conseguia abotoar Os botes... 
meus dedos tremiam.
        Agarrou minha saia com as duas mos, a necessidade de me fazer acreditar nele crispando seu rosto numa mscara simiesca de sofrimento.
        -  minha culpa, madame, mas eu no sabia! Eu no sabia que ele iria lutar com o ingls. E agora milorde foi embora e nunca mais vai voltar e tudo por minha 
culpa!
        Gemendo agora, caiu aos meus ps com o rosto para baixo. Chorava to alto que acho que no me ouvia quando me inclinei para ergu-lo, mas assim mesmo eu 
disse:
        - No  culpa sua, Fergus. Tambm no  culpa minha. Mas voc tem razo: ele foi embora.
        Aps a revelao de Fergus, mergulhei numa apatia ainda mais profunda. A nuvem cinza que me cercava desde o aborto pareceu envolver-me ainda mais densamente, 
enfaixando-me em ataduras que obscureciam a luz do mais brilhante dos dias. Os sons pareciam alcanar-me fracamente, como o tilintar distante de uma bia atravs 
da neblina do mar.
        Louise estava parada diante de mim, franzindo o cenho de preocupao enquanto me olhava de cima.
        - Voc est magra demais - ralhou. - E branca como um prato de tripas. Ivonne disse que voc no comeu nada de manh de novo!
        No me lembrava mais da ltima vez em que sentira fome. No parecia importante. Muito antes do Bois de Boulogne, muito antes de minha viagem a Paris. Fixei 
o olhar no consolo da lareira e deixei-me levar pelos floreios da madeira esculpida em estilo rococ. A voz de Louise continuava sem cessar, mas eu no prestei ateno; 
era apenas um rudo no aposento, como o farfalhar de um galho de rvore contra a parede de pedra do castelo ou o zumbido de moscas atradas pelo cheiro do meu desjejum 
descartado.
        Observei uma delas, levantando-se dos ovos num movimento sbito quando Louise bateu palmas. Continuou a zumbir em crculos pequenos e irritantes antes de 
assentar-se de novo sobre o lugar onde se alimentava. O rudo de passos apressados surgiu atrs de mim, ouviu-se uma ordem incisiva de Louise, um submisso "Oui, 
madame" e o som de um batedor de moscas conforme a criada tratava de remov-las, uma a uma. Ela jogava cada minsculo cadver preto dentro do bolso, pinando-o da 
mesa e limpando a sujeira deixada pelo golpe com uma ponta do avental.
        Louise inclinou-se, enfiando o rosto repentinamente no meu campo de viso.
        - Posso ver todos os ossos do seu rosto! Se no vai comer, ao menos v l fora um pouco! - disse impacientemente. - A chuva parou. Venha, vamos ver se restaram 
algumas uvas moscatel no vinhedo. Talvez voc coma algumas.
        Dentro ou fora de casa era praticamente o mesmo para mim; a nvoa cinzenta, entorpecente e anestesiante, continuava comigo, tornando os contornos imprecisos 
e fazendo cada lugar parecer igual a outro. Mas parecia ser importante para Louise, de modo que me levantei obedientemente para acompanh-la.
        Perto do porto do jardim, entretanto, ela foi surpreendida pela cozinheira, com uma lista de perguntas e reclamaes sobre o menu do jantar. Haveria convidados, 
com o objetivo de me distrair, e a agitao dos preparativos estava causando pequenas exploses de discrdia domstica a manh inteira.
        Louise emitiu um suspiro martirizado, depois deu uns tapinhas nas minhas costas.
        - V voc - ela disse, estimulando-me a seguir em direo ao porto. - Mandarei um lacaio com seu manto.
        Era um dia frio para agosto porque a chuva cara durante toda a noite. Havia poas nos caminhos de cascalhos e os pingos d'gua que caam das rvores encharcadas 
eram quase to incessantes quanto a prpria chuva.
        O cu ainda estava cinzento, mas perdera o tom carregado das nuvens saturadas de gua. Cruzei os braos segurando meus cotovelos; parecia que o sol sairia 
em breve, mas ainda fazia frio suficiente para ser necessrio usar um manto.
        Quando ouvi passos atrs de mim no caminho, virei-me e vi Franois, o segundo lacaio, mas ele no carregava nada. Pareceu estranhamente hesitante, olhando 
como se quisesse se certificar de que eu era mesmo a pessoa que ele estava procurando.
        - Madame - disse -, h uma visita para a senhora.
        Suspirei interiormente, no queria me dar ao trabalho de ser socivel com ningum.
        - Diga-lhes que estou indisposta, por favor - eu disse, virando-me para continuar meu passeio. - E depois que tiverem ido embora, traga-me meu manto.
        - Mas, madame - ele disse atrs de mim -,  l seigneur Broch Tuarach, seu marido.
        Espantada, girei nos calcanhares para olhar para a casa. Era verdade; eu podia ver a figura alta de Jamie, j dobrando a esquina da manso. Virei-me, fingindo 
no t-lo visto, e me afastei em direo ao vinhedo. O mato era fechado ali; talvez eu pudesse me esconder.
        - Claire! - Era intil fingir; ele tambm me vira e vinha pelo caminho em minha direo. Andei mais rpido, mas eu no podia competir com aquelas pernas 
compridas. J estava arquejante antes de cobrir metade da distncia at o vinhedo e tive que diminuir a marcha; eu no estava em condies fsicas para um exerccio 
extenuante.
        - Claire! Espere!
        Virei-me parcialmente; ele ja estava quase me alcanando. O embotamento cinza e suave que me rodeava estremeceu e senti uma espcie de pnico paralisante 
 idia de que a presena dele pudesse arrancar de mim aquele torpor em que eu vivia. Se isso acontecesse, eu morreria, pensei, como uma larva de inseto escavada 
do solo e atirada sobre uma rocha para encarquilhar e secar, nua e indefesa ao sol.
        - No! - eu disse. - No quero falar com voc. V embora. - Ele hesitou por um instante e eu me virei e comecei a andar rapidamente pelo atalho, em direo 
ao vinhedo. Ouvi seus passos no cascalho do caminho atrs de mim, mas continuei de costas e apressei ainda mais o passo, quase correndo.
        Quando parei para me agachar sob as vinhas, ele deu um salto para a frente e agarrou-me pelo pulso. Tentei me libertar, mas ele me segurou com firmeza.
        - Claire! - ele repetiu. Debati-me, mas mantive o rosto virado. Se eu no olhasse para ele, poderia fingir que ele no estava ali. Podia continuar a salvo.
        Ele soltou meu pulso, mas agarrou-me pelos ombros, de modo que tive que erguer a cabea para manter o equilbrio. Seu rosto estava bronzeado e magro, com 
linhas duras e fundas em torno dos lbios, e seus olhos estavam escuros de sofrimento.
        - Claire - ele disse mais suavemente, agora que podia me ver olhando para ele. - Claire... era meu filho tambm.
        - Sim, era, e voc o matou! - Arranquei-me violentamente de suas mos, lanando-me atravs do arco estreito. Em seguida, parei, arfando como um co apavorado. 
Eu no percebera que o arco conduzia a uma minscula construo coberta de videiras. Paredes de trelia rodeavam-me por todos os lados; eu fora capturada numa armadilha. 
A luz s minhas costas enfraqueceu-se quando seu corpo bloqueou a passagem em arco.
        - No me toque. - Recuei, fitando o cho. V embora!, pensei freneticamente. Por favor, pelo amor de Deus, deixe-me em paz! Eu podia sentir meu invlucro 
cinzento sendo inexoravelmente removido e filetes brilhantes de sofrimento atravessarem meu corpo como raios perfurando nuvens.
        Ele parou, a alguns passos de distncia. Cambaleei s cegas em direo  parede de trelia e em parte ca, em parte me sentei em um banco de madeira. Fechei 
os olhos e fiquei sentada, tremendo. Embora no estivesse mais chovendo, havia um vento mido e frio que atravessava a trelia e resfriava meu pescoo.
        Ele no se aproximou. Podia senti-lo, l parado, olhando para mim. Podia ouvir sua respirao entrecortada.
        - Claire - ele disse outra vez, com algo que parecia desespero em sua voz -, Claire, voc no v... Claire, voc precisa falar comigo! Pelo amor de Deus, 
Claire, eu nem sei se era menino ou menina!
        Permaneci sentada, paralisada, as mos agarrando-se  madeira spera do banco. Aps um instante, ouviu-se um barulho pesado, de triturao dos cascalhos 
no cho  minha frente. Abri uma fenda dos olhos e vi que ele se sentara, exatamente como estava, nos cascalhos molhados aos meus ps. Sentara-se com a cabea abaixada 
e a chuva havia deixado lantejoulas em seus cabelos escuros da umidade.
        - Vai me fazer suplicar? - ele perguntou.
        - Era uma menina - eu disse aps um instante. Minha voz soou esquisita; rouca e spera. - Madre Hildegarde a batizou. Faith. F. Faith Fraser. Madre Hildegarde 
tem um senso de humor muito estranho.
        A cabea baixa no se moveu. Aps alguns instantes, ele disse a meiavoz:
        - Voc viu a criana?
        Meus olhos estavam completamente abertos agora. Fitei meus joelhos, onde gotas d'gua das vinhas atrs de mim criavam pontos molhados na seda.
        - Sim. A mitresse sage-femme disse que eu devia, assim fizeram-me vla. - Podia ouvir na lembrana o tom prtico, baixo, da voz de madame Bonheur, a mais 
antiga e respeitada das parteiras que trabalhavam como voluntrias no Hpital ds Anges.
        - D-lhe a criana;  sempre melhor se elas a vem. Assim, no ficam imaginando coisas.
        Ento, eu no imaginava. Eu me lembrava.
        - Ela era perfeita - eu disse baixinho, como se falasse comigo mesma. - To pequenina. Eu podia segurar sua cabea na palma da minha mo. Suas orelhas destacavam-se 
s um pouquinho da cabea... e eu podia ver a luz brilhar atravs delas.
        A luz tambm brilhara atravs de sua pele, radiante na forma redonda das bochechas e das ndegas, com o brilho prprio das prolas; serena e fria, com o 
estranho toque do mundo aqutico ainda sobre ela.
        - Madre Hildegarde enrolou-a em cetim branco - eu disse, os olhos abaixados para meus punhos cerrados no colo. - Seus olhos estavam fechados.
        Ela ainda no tinha pestanas, mas seus olhos eram puxados. Eu disse que eram como os seus, mas elas disseram que os olhos de todos os bebs so assim.
        Dez dedos nos ps e nas mos. No tinha unhas, mas o brilho de minsculas articulaes, rtulas e ossos era como o brilho de opalas, os ossos da prpria 
terra. Lembre-se, homem, tu s p...
        Lembrava-me dos rudos distantes do prprio hospital, onde a vida ainda continuava e o murmrio amortecido de madre Hildegarde e madame Bonheur, mais perto, 
falando do padre que rezaria uma missa especial, a pedido de madre Hildegarde. Lembrei-me da expresso de calma avaliao nos olhos de madame Bonheur quando ela 
se virou para avaliar meu estado, vendo minha fraqueza. Talvez ela tambm tenha visto a claridade que revela a febre que se aproxima; ela voltou-se novamente para 
madre Hildegarde e sua voz tornou-se ainda mais baixa - talvez sugerindo que esperassem; talvez houvesse dois funerais.
        E ao p voltars.
        Mas eu ressurgira dos mortos. Somente a posse do meu corpo por Jamie fora forte o suficiente para me trazer de volta dessa barreira final, e mestre Raymond 
compreendera isso. Eu sabia que somente o prprio Jamie poderia me arrastar de volta pelo resto do caminho, at o mundo dos vivos. Foi por isso que eu fugi dele, 
fiz todo o possvel para mant-lo longe, para ter certeza de que ele jamais voltaria a se aproximar de mim. Eu no tinha nenhuma vontade de voltar, nenhuma vontade 
de sentir outra vez. No queria conhecer o amor, apenas para v-lo arrancado de mim novamente.
        Mas era tarde demais. Eu sabia disso, mesmo enquanto lutava para manter a mortalha cinza ao meu redor. Lutar apenas apressava a sua dissoluo; era como 
agarrar-se a frangalhos de nuvem, que se esvaam em nvoa fria entre meus dedos. Eu podia sentir a luz vindo em minha direo, ofuscante e abrasadora.
        Ele se levantara, estava de p, olhando-me do alto. Sua sombra recaa sobre meus joelhos; sem dvida, isso significava que a nuvem se desfizera; uma sombra 
no se forma sem luz.
        - Claire - ele sussurrou. - Por favor. Deixe-me confort-la.
        - Confortar-me? - eu disse. - E como vai fazer isso? Pode me dar minha filha de volta?
        Ele caiu de joelhos diante de mim, mas eu mantive a cabea abaixada, fitando minhas mos viradas para cima, vazias, no meu colo. Senti seu movimento quando 
estendeu a mo para me tocar, hesitou, retirou-a, estendeu-a novamente.
        - No - ele disse, a voz quase inaudvel. - No, no posso fazer isso Mas... com a graa de Deus... eu poderia lhe dar outra?
        Sua mo pairou sobre a minha, to perto que senti o calor de sua pele. Senti outras coisas tambm: a dor que ele mantinha sob rdeas curtas, a raiva e o 
medo que o sufocavam, e a coragem que o fazia falar apesar de tudo. Reuni minha prpria coragem, uma dbil substituta para a mortalha cinza e espessa. Ento, tomei 
sua mo e ergui a cabea, e olhei de frente para o sol.
        Permanecemos sentados, as mos entrelaadas e apertadas sobre o banco, imveis, pelo que pareceram horas, com a brisa mida e fria sussurrando nossos pensamentos 
nas folhas das videiras acima. Gotas d'gua espalhavam-se sobre ns com a passagem do vento, chorando a perda e a separao.
        - Voc est gelada - Jamie murmurou finalmente e passou uma aba do seu manto ao meu redor, trazendo com ela o calor de sua pele. Aproximeime dele devagar 
sob seu abrigo, tremendo ainda mais por causa da surpreendente solidez, o sbito calor de seu corpo, do que pelo frio.
        Coloquei a mo em seu peito, hesitante, como se toc-lo pudesse queimar-me com a verdade, e assim ficamos sentados por mais um longo tempo, deixando as folhas 
das videiras falarem por ns.
        - Jamie - eu disse finalmente, a meia-voz. - Ah, Jamie. Onde voc estava?
        Seus braos endureceram-se ao meu redor, mas demorou a responder.
        - Achei que voc estivesse morta, mo duinne - ele disse, to baixo que eu mal podia ouvi-lo acima do farfalhar do vinhedo.
        - Eu a vi l, no cho, no fim. Deus, voc estava to branca e suas saias encharcadas de sangue... Tentei aproximar-me de voc, Claire, assim que eu vi... 
eu corri para voc, mas foi ento que a guarda me segurou.
        Engoliu em seco; podia sentir o tremor percorr-lo de cima a baixo, pela longa curva de sua espinha dorsal.
        - Eu lutei com eles... lutei e, sim, supliquei... mas se recusaram a permanecer ali e me levaram com eles. Colocaram-me numa cela e deixaram-me l... achando 
que voc estava morta, Claire; sabendo que eu a havia matado.
        O leve tremor continuou e eu percebi que ele chorava, embora no visse seu rosto acima do meu. Por quanto tempo ele ficara sentado sozinho numa cela da Bastilha, 
sozinho exceto pelo cheiro de sangue e pela casca oca da vingana?
        - Est tudo bem - eu disse, pressionando minha mo com mais fora contra seu peito, como se quisesse acalmar os batimentos acelerados de seu corao. - Jamie, 
est tudo bem. No... no foi culpa sua.
        - Tentei socar a cabea na parede, apenas para parar de pensar - ele disse, quase num sussurro. - Ento, me amarraram, mos e ps. No dia seguinte, de Rohan 
me encontrou e me disse que voc estava viva, embora talvez no por muito tempo.
        Ficou em silncio, mas eu podia sentir a dor que o dilacerava, aguda como lanas de cristal de gelo.
        - Claire - ele murmurou finalmente. - Eu sinto muito.
        Eu sinto muito. As palavras eram as mesmas do bilhete que ele me deixara, antes do mundo desmoronar. Mas agora eu as compreendia.
        - Eu sei - eu disse. - Jamie, eu sei. Fergus me contou. Sei por que voc teve que ir.
        Respirou ruidosamente, uma respirao funda e entrecortada.
        - Sim, bem... - ele disse, e parou.
        Deixei minha mo cair sobre sua coxa; frias e molhadas da chuva, suas calas de montar eram speras sob a palma de minha mo.
        - Eles lhe disseram... quando o deixaram partir... por que voc foi libertado? - Tentei manter a minha prpria respirao regular, mas no consegui.
        Os msculos de sua coxa retesaram-se sob minha mo, mas sua voz estava mais controlada agora.
        - No - ele disse. - Apenas que foi... para satisfao de Sua Majestade. - A palavra "satisfao" foi apenas ligeiramente enfatizada, dita com uma ferocidade 
delicada que deixava bastante claro que ele de fato sabia quais haviam sido os meios de sua soltura, quer os carcereiros tivessem lhe contado ou no.
        Mordi com fora o lbio inferior, tentando decidir o que dizer-lhe agora.
        - Foi madre Hildegarde - ele continuou, a voz firme. - Fui imediatamente ao Hpital ds Anges,  sua procura. E encontrei madre Hildegarde e o pequeno bilhete 
que voc deixara para mim. Ela... me contou.
        - Sim - eu disse, engolindo em seco. - Fui ver o rei...
        - Eu sei! - Sua mo apertou a minha com fora e pelo som de sua respirao, eu sabia que seus dentes estavam cerrados.
        - Mas Jamie... quando eu fui...
        - Cristo! - ele disse, endireitando-se subitamente e virando o rosto para mim. - Voc no sabe o que eu... Claire. - Fechou os olhos por um instante e respirou 
fundo. - Cavalguei at Orvieto, vendo a cena; vendo as mos dele na sua pele branca, os lbios em seu pescoo, seu... seu pnis... eu vi isso no lever... vi aquela 
coisa imunda, maldita, deslizando... Meu Deus, Claire! Fiquei sentado na priso pensando que voc estava morta e depois cavalguei para a Espanha pedindo a Deus que 
estivesse!
        Os ns dos dedos da mo que segurava a minha estavam brancos e eu podia sentir os pequenos ossos de meus dedos estalarem sob o aperto de sua mo.
        Retirei minha mo com um arranco.
        - Jamie, oua-me!
        - No! - ele disse. - No, eu no quero ouvir...
        - Oua, droga!
        Houve bastante fora em minha voz para faz-lo calar-se por um instante e, enquanto estava mudo, comecei a contar-lhe rapidamente a histria da sala do rei; 
os homens encapuzados e o aposento s escuras, o combate entre os feiticeiros e a morte do conde de St. Germain.
        Enquanto eu falava, a cor desapareceu de suas faces batidas pelo vento e sua expresso suavizou-se da angstia e da fria para a perplexidade, e gradualmente 
para a impressionada compreenso.
        - Meu Deus - disse com um suspiro finalmente. -  Santo Deus!
        - Voc no sabia o que estava desencadeando com aquela histria tola, no ? - Sentia-me exausta, mas consegui esboar um sorriso. - Ento... ento o conde... 
est tudo bem, Jamie. Ele... est morto.
        Ele no disse nada em resposta, mas puxou-me delicadamente para ele, de modo que minha testa repousou em seu ombro e minhas lgrimas encharcaram o tecido 
de sua camisa. Aps um instante, no entanto, endireitei-me e fitei-o, limpando o rosto.
        - Jamie! O carregamento de Porto, o investimento de Carlos Stuart! Se o conde est morto...
        Ele sacudiu a cabea, sorrindo debilmente.
        - No, mo duinne. Est a salvo. Senti uma onda de alvio.
        - Ah, graas a Deus. Ento, voc conseguiu? Os remdios fizeram efeito em Murtagh?
        - Bem, no - ele disse, o sorriso alargando-se -, mas fizeram em mim. - Aliviada ao mesmo tempo do medo e da raiva, senti-me zonza, com vertigem. O cheiro 
das uvas varridas pela chuva era forte e adocicado e foi um abenoado alvio apoiar-me contra ele, sentindo o seu calor como um conforto, no como uma ameaa, enquanto 
ouvia a histria de pirataria a respeito do vinho do Porto.
        - H homens que nasceram para o mar, Sassenach - ele comeou - Mas receio que eu no seja um deles.
        - Eu Sei - eu disse. - Ficou mareado?
        - Raramente estive mais enjoado - assegurou-me ironicamente.
        O mar ao largo de Orvieto estava agitado e dentro de uma hora tornou-se claro para Jamie que ele no conseguiria levar a cabo a sua parte do plano original.
        - De qualquer modo, eu no conseguia fazer nada alm de ficar deitado em minha rede, gemendo - ele disse, dando de ombros -, de modo que parecia que eu estava 
com varola, tambm.
        Ele e Murtagh apressadamente trocaram os papis e, depois de vinte e quatro horas ao largo da costa da Espanha, o mestre do Scalamandre, descobriu para seu 
horror que a praga se espalhara no convs inferior.
        Jamie coou o pescoo pensativamente, como se ainda sentisse os efeitos do extrato de urtiga.
        - Pensaram em me atirar ao mar pela murada quando descobriram - ele disse -, e devo afirmar que me pareceu uma tima idia. - Lanou-me um sorriso enviesado. 
- J teve enjo do mar, ao mesmo tempo em que estava coberta de erupes de urtiga, Sassenach?
        - No, graas a Deus. - Estremeci diante do pensamento. - Murtagh os impediu?
        - Ah, sim. Murtagh  muito convincente. Ele dormiu atravessado na soleira da porta com a mo na adaga, at chegarmos a salvo ao porto de Bilbao.
        Como previsto, o capito do Scalamandre, diante da escolha nada lucrativa entre prosseguir at L Havre e ver sua carga confiscada ou retornar para a Espanha 
e aguardar enquanto a notcia era enviada a Paris, ele agarrou-se  oportunidade de se livrar de sua carga de Porto, passando-a a um novo comprador que o acaso colocara 
em seu caminho.
        - No que ele no tenha barganhado - Jamie observou, coando o brao. - Ele passou metade de um dia regateando e eu morrendo na rede, urinando sangue e vomitando 
at as tripas!
        Mas o negcio fora fechado, tanto o Porto quanto a vtima de varola descarregados s pressas em Bilbao e - fora uma persistente tendncia a urinar vermelho 
- a recuperao de Jamie fora rpida.
        - Vendemos o vinho para um intermedirio l em Bilbao - ele disse. - Enviei Murtagh imediatamente a Paris, para pagar o emprstimo de monsieur Duverney e 
depois... vim para c.
        Abaixou os olhos para as prprias mos, paradas serenamente em seu colo.
        - No conseguia decidir - ele disse baixinho. - Vir ou no vir. Caminhei, para dar a mim mesmo tempo para pensar. Fiz todo o trajeto de Paris a Fontainebleau 
a p. E quase metade do caminho de volta. Voltei meia dzia de vezes, me achando um assassino e um tolo, sem saber se deveria me matar ou matar voc...
        Suspirou e olhou para mim, os olhos escuros com os reflexos das folhas agitadas.
        - Eu tinha que vir - ele disse simplesmente.
        Eu no disse nada, mas coloquei minha mo sobre a sua e sentei-me a seu lado. Uvas cadas entulhavam o cho sob as vinhas, o cheiro penetrante de sua fermentao 
prometendo o esquecimento produzido pelo vinho.
        O sol, semi-encoberto pelas nuvens, estava se pondo e um claro dourado delineou a silhueta da figura respeitosa de Hugo, surgindo negra  entrada do vinhedo.
        - com licena, madame - ele disse. - Minha senhora deseja saber se o seigneur ficar para o jantar.
        Olhei para Jamie. Ele continuou sentado, imvel,  espera, o sol que atravessava as folhas das videiras produzindo reflexos em seus cabelos como as listras 
de um tigre, as sombras recaindo sobre seu rosto.
        - Acho melhor voc ficar - eu disse. - Est terrivelmente magro. Ele me olhou de cima a baixo com um leve sorriso.
        - Voc tambm, Sassenach. - Levantou-se e me ofereceu o brao. Tomei seu brao e entramos juntos para o jantar, deixando as folhas das parreiras entregues 
 sua conversa muda.
        Deitei-me ao lado de Jamie, bem junto a ele, sua mo pousada em minha coxa enquanto dormia. Eu olhava fixamente para cima, para a escurido do quarto, ouvindo 
sua respirao tranqila, eu mesma respirando o aroma refrescante do ar noturno, com um toque de cheiro de glicnia.
        O colapso do conde de St. Germain marcara o final da noite, no que dizia respeito a todos os envolvidos, exceto a Lus. Quando o grupo preparou-se para partir, 
sussurrando agitadamente entre si, Lus tomou meu brao e conduziu-me pela mesma porta estreita pela qual eu entrara. bom com palavras quando necessrio, ele no 
precisava de nenhuma agora.
        Fui conduzida  chaise de veludo verde, deitada de costas e minhas saias delicadamente erguidas antes que eu pudesse dizer alguma coisa. Ele no me beijou; 
ele no me desejava. Esse era o ritual de reclamao do pagamento acordado. Lus era um negociador astuto e no era de esquecer uma dvida que achasse que lhe era 
devida, quer o pagamento tivesse valor para ele ou no. E talvez tivesse, afinal; havia mais do que uma leve indicao de temerosa excitao em seus preparativos 
- quem seno um rei ousaria tomar nos braos La Dame Blanche?
        Eu estava fechada e seca, despreparada. Impaciente, ele pegou da mesa um frasco de leo perfumado a rosas e massageou-o brevemente entre minhas pernas. Permaneci 
imvel, sem emitir nenhum som, enquanto o dedo apressadamente explorador retrocedeu, substitudo imediatamente por um membro um pouco maior e - "sofri"  a palavra 
errada, no houve nem dor nem humilhao envolvidas; era uma transao - eu esperei, ento, durante os rpidos movimentos; em seguida, ele j estava de p, o rosto 
afogueado de excitao, as mos tateando desajeitadamente para fechar as calas sobre o pequeno volume que guardavam. Ele no iria arriscar a possibilidade de um 
filho bastardo, semi-real, semimgico; no com madame de La Tourelle pronta - muito mais do que eu, assim esperava - e aguardando em seus prprios aposentos ao final 
do corredor.
        Eu dera o que fora implicitamente prometido; agora ele podia concordar honrosamente com meu pedido, achando que no perdera nada de seus direitos. Quanto 
a mim, respondi  sua mesura corts com a minha prpria, tirei meu cotovelo de sua mo depois que ele galantemente me conduziu at a porta e deixei a sala de audincia 
apenas alguns minutos depois de ter entrado, com a confirmao do rei de que a ordem para libertao de Jamie seria dada pela manh.
        O Cavalheiro da Alcova estava de p no vestbulo, esperando. Fez uma mesura para mim, eu correspondi, depois o segui pelo Salo dos Espelhos, sentindo minhas 
coxas escorregadias de leo conforme roavam uma na outra e, nas narinas, o forte perfume de rosas entre minhas pernas.
        Ouvindo o porto do palcio fechar-se atrs de mim, cerrei os olhos e pensei em que jamais veria Jamie outra vez. E se por acaso o visse, iria esfregar seu 
nariz no cheiro de rosas, at que sua alma adoecesse e morresse.
        Mas agora, em vez disso, eu segurava sua mo em minha coxa, ouvindo sua respirao, profunda e regular na escurido, ao meu lado. E deixei que a porta se 
fechasse para sempre sobre a audincia com Sua Majestade.
        
        
        
29 - AGARRAR A URTIGA
        
        Esccia. - Suspirei, pensando nos rios frios, pardos, e nos pinheiros escuros de Lallybroch, a propriedade de Jamie. - Podemos realmente voltar para casa?
        - Acho que  o que teremos que fazer - ele respondeu ironicamente. - O perdo do rei diz que eu deixe a Frana at meados de setembro ou serei levado de 
volta para a Bastilha. Provavelmente, Sua Majestade tambm arrumou um perdo da Coroa Inglesa, de modo que no serei enforcado assim que descer do navio em Inverness.
        - Creio que podamos ir para Roma, ou para a Alemanha - sugeri. Eu no queria nada alm de voltar para casa em Lallybroch e me recuperar na paz silenciosa 
das Highlands escocesas. Meu corao desfalecia  idia de cortes reais e intrigas, da presso permanente de perigo e insegurana. Mas se Jamie achasse que devamos...
        Ele sacudiu a cabea, os cabelos ruivos caindo no rosto enquanto se inclinava para calar as meias.
        - No,  a Esccia ou a Bastilha - ele disse. - Nossa passagem j est reservada, s para garantir. - Endireitou-se e afastou os cabelos dos olhos com um 
sorriso enviesado. - Imagino que o duque de Sandringham e, provavelmente, o rei Jorge querem me ver seguro em casa, onde podem ficar de olho em mim. No espionando 
em Roma ou levantando fundos na Alemanha. A concesso de trs semanas, imagino,  uma cortesia a Jared, dando-lhe tempo suficiente para voltar para casa antes de 
minha partida.
        Eu estava sentada no peitoril da janela do meu quarto, olhando para fora, para o revolto mar verde das florestas de Fontainebleau. O ar lnguido e quente 
de vero parecia nos oprimir, drenando todas as nossas energias.
        - No posso dizer que no esteja feliz. - Suspirei, pressionando o rosto contra a vidraa em busca de um momento de frescor. O legado da chuva fria do dia 
anterior era um mormao envolvente, que fazia os cabelos e as roupas grudarem-se  pele, midos e pegajosos. - Mas voc acha que  seguro? Quero dizer, ser que 
Carlos ir desistir, agora que o conde esta morto e o dinheiro de Manzetti perdido?
        Jamie franziu a testa, esfregando a mo ao longo do maxilar para avaliar o crescimento da barba.
        - Gostaria de saber se ele recebeu alguma carta de Roma nas ltimas duas semanas - ele disse - e, se tiver recebido, o que ela continha. Mas, sim, acho que 
conseguimos. Nenhum banqueiro na Europa adiantar sequer um centavo a nenhum dos Stuart, isso  certo. Filipe da Espanha tem outras coisas com que se preocupar e 
Lus... - Encolheu os ombros, a boca contorcendo-se ironicamente. - Entre monsieur Duverney e o duque de Sandringham, eu diria que as expectativas de Carlos nessa 
direo so quase nulas. Devo fazer a barba, voc acha?
        - No por minha causa - eu disse. A intimidade informal da pergunta me deixou subitamente tmida. Havamos compartilhado uma cama na noite anterior, mas 
ambos estvamos exaustos e a delicada teia tecida entre ns no vinhedo parecera frgil demais para suportar o estresse de tentar fazer amor. Eu passara a noite numa 
terrvel conscincia de sua aconchegante proximidade, mas pensei que eu devia, dadas as circunstncias, deixar a ele a iniciativa.
        Agora, vislumbrei a brincadeira da luz em seus ombros quando ele se virou para pegar a camisa e o desejo de toc-lo se apoderou de mim; sentilo, liso, rgido 
e ansioso contra meu corpo outra vez.
        Sua cabea despontou pela gola da camisa e seus olhos depararam-se com os meus, subitamente e desarmados. Ele parou por um instante, olhando-me, mas sem 
falar. Os sons matinais do castelo eram claramente audveis, fora da bolha de silncio que nos envolvia; o alvoroo dos criados, a voz fina e aguda de Louise, erguida 
em algum tipo de altercao.
        Aqui no, os olhos de Jamie disseram. No no meio de tanta gente.
        Abaixou os olhos, abotoando a camisa cuidadosamente.
        - Louise mantm cavalos para cavalgar? - ele perguntou, sem desviar os olhos da tarefa. - H alguns penhascos a alguns quilmetros daqui. Achei que talvez 
pudssemos cavalgar at l... o ar deve estar mais fresco.
        - Acho que sim - respondi. - vou perguntar a ela.
        Chegamos aos penhascos pouco antes de meio-dia. No eram propriamente penhascos, porm mais arestas e colunas de pedra calcria, Projetando-se da relva amarelada 
das colinas ao redor, como as runas de uma antiga cidade. As pontas claras apresentavam fendas e fissuras causadas Pelo passar do tempo e pelas condies atmosfricas, 
salpicadas de milhares de minsculas e estranhas plantas, que encontravam um apoio para se fincarem no menor resqucio de solo erodido.
        Deixamos os cavalos na relva e subimos a p at uma prateleira ampla e Plana de pedra calcria coberta com tufos de grama selvagem. logo abaixo do aglomerado 
de rochas mais elevado. Havia pouca sombra dos arbustos ralos, mas naquela altura era possvel sentir uma leve brisa.
        - Nossa, como est calor! - Jamie disse. Abriu a fivela do seu kilt, que caiu em torno de seus ps e comeou a se desvencilhar da camisa.
        - O que est fazendo, Jamie? - eu disse, rindo.
        - Tirando a roupa - ele respondeu, pragmaticamente. - Por que no faz o mesmo, Sassenach? Est mais suada do que eu e no h ningum aqui para ver.
        Aps um instante de hesitao, fiz o que ele sugeria. Era um local inteiramente isolado; muito rochoso e duro para ovelhas, a chance de at mesmo um rebanho 
extraviado subir at ali era muito remota. E sozinhos, nus, longe de Louise e suas levas de criados inoportunos... Jamie estendeu seu xale axadrezado no solo spero 
enquanto eu despia minhas roupas grudadas de suor.
        Espreguiou-se languidamente e deitou-se, os braos atrs da cabea, completamente alheio a formigas curiosas, pedrinhas esparsas e toquinhos espinhosos 
da vegetao.
        - Voc deve ter um couro de bode - observei. - Como pode deitar assim no cho descoberto?
        Nua como ele, estendi-me mais confortavelmente nas dobras grossas do xale que ele atenciosamente estendera para mim.
        Ele encolheu os ombros, os olhos fechados contra o calor do sol da tarde. A luz banhava-o de dourado na cavidade onde ele se deitara, fazendo-o brilhar em 
tons vermelho-dourados, contra o fundo escuro da grama selvagem sob ele.
        - Est bom para mim - ele disse confortavelmente, e caiu em silncio. O som de sua respirao estava prximo o suficiente para alcanar-me acima do fraco 
lamento da brisa que cruzava os cumes rochosos acima de ns.
        Virei-me de barriga para baixo e descansei o queixo sobre os braos cruzados, observando-o. Ele era largo nos ombros e estreito nos quadris, com ancas e 
coxas longas e vigorosas, com leves depresses formadas por msculos rijos mesmo quando estava relaxado. A brisa morna e suave agitava os tufos ainda midos dos 
plos macios, cor de canela, em suas axilas, e despenteava os cabelos de ouro e cobre que esvoaavam delicadamente sobre seus pulsos, onde seguravam sua cabea. 
A leve brisa era bem-vinda, porque eu ainda podia sentir o sol do outono quente em meus ombros e panturrilhas.
        - Eu o amo - eu disse baixinho, no para que ele ouvisse, mas apenas pelo simples prazer de diz-lo.
        Mas ele ouviu, porque o esboo de um sorriso torceu o canto de sua boca. Aps um instante, ele rolou sobre a barriga para o xale, ao meu lado.
        Algumas lminas da grama agarravam-se s suas costas e ndegas. Afastei um pouco uma delas e sua pele estremeceu ligeiramente sob o toque dos meus dedos.
        Inclinei-me para beijar seu ombro, desfrutando o aroma quente de seus msculos e o gosto ligeiramente salgado de sua pele.
        Entretanto, em vez de me beijar tambm, ele afastou-se um pouco e ficou me observando, apoiado sobre um cotovelo. Havia algo em sua expresso que eu no 
compreendia e que me deixou ligeiramente inquieta.
        - Um centavo pelos seus pensamentos - eu disse, correndo o dedo pelo sulco fundo de sua espinha dorsal. Ele deslocou-se apenas o suficiente para ficar fora 
do meu alcance e respirou fundo.
        - Bem, eu estava imaginando... - ele comeou, depois parou. Olhava para baixo, brincando com uma florzinha que despontava da grama.
        - Imaginando o qu?
        - Como foi... com Lus.
        Achei que meu corao havia parado por um instante. Senti que todo o sangue fugira do meu rosto, porque podia sentir o entorpecimento dos meus lbios ao 
tentar pronunciar as palavras.
        - Como... foi?
        Ele ergueu os olhos, fazendo apenas uma tentativa superficial de um sorriso enviesado.
        - Bem - ele disse. - Ele  um rei. Imagina-se que seja... diferente, de algum modo. Sabe... especial, talvez?
        O sorriso se esvara e o rosto ficara to lvido quanto o meu. Abaixou os olhos outra vez, evitando meu olhar fixo e chocado.
        - Acho que tudo o que eu estava imaginando - ele murmurou -, ele era... era... era diferente de mim? - Vi-o morder o lbio como se desejasse que as palavras 
no tivessem sido ditas, mas j era tarde demais para isso.
        - Como voc ficou sabendo? - perguntei. Sentia-me zonza e exposta, virei-me de barriga para baixo, pressionando meu corpo com fora sobre a relva curta.
        Ele sacudiu a cabea, os dentes ainda apertados sobre o lbio inferior, quando finalmente o soltou, uma marca funda e vermelha surgiu onde ele Mordera o 
lbio.
        - Claire - ele disse, num sussurro. - Ah, Claire. Voc se entregou completamente a mim desde a primeira vez e no me negou nada. Nunca. Eu lhe pedi honestidade, 
eu lhe disse na ocasio que voc no sabe mentir. Quando eu a tocava... - Sua mo moveu-se e segurou minha ndega, e eu recuei sob o toque inesperado.
        - H quanto tempo eu a amo? - ele perguntou, muito serenamente. - Um ano? Desde o instante em que a vi. E amei seu corpo quantas vezes... quinhentas vezes 
ou mais? - Tocou-me, ento, com um dedo, suavemente, como a pata de uma mariposa, traando a linha do brao e do ombro descendo pelas minhas costelas, at eu estremecer 
ao toque e rolar sobre meu corpo, afastando-me e encarando-o.
        - Voc nunca recuou ao toque das minhas mos - ele disse, os olhos atentos ao caminho que seu dedo percorrera, mergulhando para seguir a curva do meu seio. 
- Nem mesmo da primeira vez, quando poderia ter se retrado e eu no ficaria surpreso se o tivesse feito. Mas voc no o fez. Voc se deu completamente para mim 
desde a primeira vez; no me negou nenhuma parte de voc.
        "Mas agora...", ele disse, retirando a mo. "Achei no comeo que era apenas pelo fato de ter perdido a criana. E talvez estivesse assustada, tmida em relao 
a mim, ou sentindo-se estranha, aps tanto tempo separados. Mas depois compreendi que no era isso."
        Fez-se, ento, um longo silncio. Eu podia sentir as fortes e dolorosas batidas do meu corao contra o solo frio e ouvir a conversa do vento nos pinheiros 
abaixo. Pequenos pssaros chamavam, distantes. Quisera ser um deles. Ou, pelo menos, estar longe dali.
        - Por qu? - ele perguntou, em voz baixa. - Por que mentir para mim? Quando eu vim procur-la achando que eu sabia de qualquer forma?
        Abaixei os olhos, fitando as mos, entrelaadas sob meu queixo, e engoli em seco.
        - Se... - comecei, engolindo outra vez. - Se eu dissesse a voc que eu deixara Lus... voc teria perguntado sobre isso. Achei que voc no poderia esquecer... 
talvez pudesse perdoar, mas jamais esqueceria, e isso estaria para sempre entre ns. - Engoli em seco novamente, com fora. Minhas mos estavam frias apesar do calor 
e eu sentia uma bola de gelo no estmago. Mas se eu estava lhe contando a verdade agora, deveria cont-la por inteiro.
        - Se voc perguntasse... e voc perguntou, Jamie, voc perguntou! Eu teria que conversar sobre isso, reviver tudo outra vez e eu temia... - Minha voz se 
perdeu, incapaz de prosseguir, mas ele no pretendia me libertar.
        - Temia o qu? - instigou-me.
        Virei um pouco a cabea, sem fit-lo, mas o suficiente para ver sua silhueta escura contra a luz, assomando atravs da cortina brilhante de sl dos meus 
cabelos.
        - Eu receava que lhe contaria por que eu fiz o que fiz - eu disse serenamente. - Jamie... foi preciso, para libert-lo da Bastilha. Eu teria feito pior, 
se necessrio. Mas... depois.... eu de certa forma desejei que lhe contasse, que voc descobrisse. Eu estava com tanta raiva, Jamie... pelo duelo, pelo beb. E porque 
voc me forara a fazer isso... a ir procurar LUS. Eu queria fazer alguma coisa que o afastasse, certificar-me de que nunca mais o veria. Eu fiz isso... em parte... 
porque eu queria.mago-lo murmurei.
        Um msculo contraiu-se no canto de sua boca, mas ele continuou olhando para baixo, fitando as mos entrelaadas. O abismo entre ns, to perigosamente ligado 
por uma ponte, abriu-se incomensuravelmente, intransponvel mais uma vez.
        - Sim. Bem, voc conseguiu.
        Sua boca fechou-se numa linha fina e ele no disse mais nada durante algum tempo. Finalmente, virou a cabea e olhou direto para mim. Eu gostaria de ter 
evitado seus olhos, mas no pude.
        - Claire - ele disse suavemente. - O que voc sentiu... quando entreguei meu corpo a Jack Randall? Quando deixei que ele me possusse, em Wentworth?
        Um pequeno choque percorreu meu corpo, do couro cabeludo  ponta dos ps. Era a ltima pergunta que eu esperava ouvir.
        Abri e fechei a boca vrias vezes antes de encontrar uma resposta.
        - Eu... no sei - disse debilmente. - No havia pensado nisso. Raiva,  claro. Eu estava furiosa, ultrajada. E enojada. E com medo por voc. E... com pena 
de voc.
        - Sentiu cimes? Quando lhe contei sobre isso mais tarde... que ele despertara o meu desejo, embora eu no quisesse?
        Respirei fundo, sentindo a grama espetar meus seios.
        - No. Ao menos, acho que no; no pensei assim na ocasio. Afinal, no foi como se tivesse... tivesse sido por sua vontade. - Mordi o lbio, olhando para 
baixo. Sua voz soou baixa e prtica junto ao meu ombro.
        - No acho que voc queria deitar-se com Lus... queria?
        - No!
        - Sim, bem - ele disse. Colocou os dois polegares juntos, um de cada lado de uma lmina da relva e concentrou-se em arranc-la pela raiz. - Eu estava com 
raiva, tambm. E enojado e triste. - A lmina de grama saiu de sua bainha com um minsculo guincho.
        - Quando foi comigo - ele continuou, quase sussurrando -, achei que voc no iria conseguir suportar sequer a idia de tudo aquilo, e eu no a teria culpado 
por isso. Eu sabia que voc devia se afastar de mim e tentei mand-la embora, para que eu no tivesse que ver a dor e a repulsa em seu rosto. - Fechou os olhos e 
ergueu a lmina de grama entre os polegares, roando-a levemente nos lbios.
        - Mas voc se recusou a ir, voc me aconchegou em seu peito e consolou-me. Em vez de ir embora, voc me curou. Voc me amava, apesar de tudo - Respirou fundo, 
uma respirao entrecortada, e virou a cabea para mim outra vez. Seus olhos estavam marejados de lgrimas, mas nenhuma lgrima escapou para deslizar pelo seu rosto.
        - Achei que, talvez, eu pudesse fazer o mesmo por voc, como voc fez por mim. E foi por isso que finalmente vim a Fontainebleau.
        Pestanejou uma vez, com fora, e seus olhos limparam-se.
        - Ento, quando voc me disse que nada acontecera... por um instante, acreditei em voc, porque era o que eu tanto desejava. Mas depois... compreendi, Claire. 
Eu no podia esconder isso de mim mesmo e sabia que voc havia mentido para mim. Achei que voc no acreditou que eu pudesse am-la ou... que voc realmente o tivesse 
desejado, e estivesse com medo de me revelar isso.
        Largou a grama e sua cabea pendeu para a frente, descansando sobre os ns dos dedos.
        - Voc disse que queria me magoar. Bem, a idia de voc deitada com o rei doeu mais do que a marca a fogo no meu peito ou o corte do aoite nas minhas costas 
nuas. Mas saber que voc no confiava que eu pudesse am-la  como acordar do lao da forca para sentir a faca afundando na minha barriga para extirpar minhas entranhas. 
Claire... - Sua boca abriu-se silenciosamente, depois fechou-se com fora por um instante, at ele encontrar foras para prosseguir.
        - No sei se a ferida  mortal, mas Claire... eu sinto o sangue fugir do meu corao quando olho para voc.
        O silncio entre ns cresceu e aprofundou-se. O pequeno zumbido de um inseto chamando das rochas vibrou no ar.
        Jamie estava imvel como uma rocha, o rosto inexpressivo enquanto fitava o cho abaixo. Eu no podia suportar aquele rosto sem expresso e a idia do que 
podia estar oculto por trs. Eu tivera uma amostra de sua fria desesperadora no vinhedo e meu corao crispou-se  idia daquele dio, dominado a um custo to assustador 
e agora mantido sob um controle frreo que continha no s a raiva, mas a confiana e a alegria.
        Busquei desesperadamente uma forma de quebrar o silncio que nos separava; algum gesto que restaurasse a confiana perdida entre ns. Jamie sentou-se direito, 
os braos envolvendo os joelhos com fora, e virou-se, fitando o tranqilo vale distante.
        Melhor a violncia, pensei, do que o silncio. Estendi a mo por cima do abismo que nos separava e a coloquei em seu brao. Estava quente do sol, vivo ao 
toque.
        - Jamie - murmurei. - Por favor.
        Sua cabea voltou-se lentamente para mim. Seu rosto ainda parecia calmo, embora os olhos de gato se estreitassem ainda mais enquanto me olhava em silncio. 
Ele estendeu a mo finalmente e agarrou-me pelo pulso.
        - Quer que eu bata em voc, ento? - perguntou em voz baixa. Apertou meu pulso com fora, de modo que inconscientemente puxei minha mo, tentando livrar-me 
dele. Ele tambm me puxou, arrastando-me pela grama spera, puxando meu corpo contra o seu.
        Senti-me tremer, a pele dos braos arrepiada, mas consegui falar.
        - Sim - eu disse.
        Sua expresso era impenetrvel. Ainda fitando-me nos olhos, ele estendeu a mo livre, tateando pelas rochas at tocar uma moita de urtiga. Prendeu a respirao 
quando seus dedos tocaram as hastes espinhosas, mas seu maxilar cerrou-se com fora; fechou a mo e arrancou a planta pela raiz.
        - Os camponeses da Gasconha batem numa mulher infiel com urtigas - ele disse. Abaixou o molhe de folhas pontiagudas e roou as pontas das flores no meu seio. 
Arfei com a repentina ferroada e uma mancha avermelhada surgiu em minha pele como num passe de mgica.
        - Quer que eu faa isso? - ele perguntou. - Devo castig-la dessa forma?
        - Se voc... se voc quiser. - Meus lbios tremiam tanto que eu mal conseguia pronunciar as palavras. Alguns torres de terra das razes das urtigas haviam 
cado entre meus seios; um deles rolou pela curva das minhas costelas, deslocado pelas batidas do meu corao, imaginei. O vergo em meu peito queimava como fogo. 
Fechei os olhos, imaginando vvida e exatamente como seria ser surrada com um molhe de urtigas.
        De repente, a mo que apertava meu pulso como um torno relaxou. Abri os olhos e deparei-me com Jamie sentado de pernas cruzadas diante de mim, as plantas 
atiradas para o lado e esparramadas pelo cho. Tinha um sorriso leve e desolado nos lbios.
        - Eu bati em voc uma vez por justia, Sassenach, e voc ameaou me estripar com minha prpria adaga. Agora voc me pede para aoit-la com urtigas? - Sacudiu 
a cabea devagar, pensando, e sua mo, como se movida por vontade prpria, segurou meu rosto. - Meu orgulho vale tanto assim para voc?
        - Sim! Sim, vale! - Tambm me sentei ereta e agarrei-o pelos ombros, surpreendendo a ns dois ao beij-lo com fora e impetuosidade.
        Senti seu sobressalto inicial e, em seguida, ele me puxou para si, abraando-me com fora, a boca correspondendo  minha. Em seguida, deitou-me no cho, 
seu peso imobilizando-me sob ele. Seus ombros escureceram o cu luminoso acima de ns e suas mos seguraram meus braos junto ao corpo, mantendo-me prisioneira.
        - Est bem - ele sussurrou. Olhou dentro dos meus olhos, desafiando-me a fechar os meus, forando-me a enfrentar seu olhar. - Est bem. Se voc quer, devo 
puni-la. - Moveu os quadris contra mim, num comando imperioso, e eu senti minhas pernas abrirem-se para ele, meus portes escancarados para receb-lo com xtase.
        - Nunca - sussurrou-me. - Nunca! Nunca nenhum outro, somente eu! Olhe para mim! Diga! Olhe para mim, Claire! - Penetrou-me, com fora, e eu gemi e teria 
virado a cabea, mas ele segurou meu rosto entre as mos forando-me a encar-lo, ver sua boca doce e larga contorcida de dor.
        - Nunca - disse, mais brandamente -, porque voc  minha. Minha mulher, meu corao, minha alma. - O peso de seu corpo mantinha-me imvel, como se houvesse 
uma rocha sobre meu peito, mas a frico de nossa pele fazia com que eu me atirasse contra ele, desejando mais. E mais.
        - Meu corpo - ele disse, arquejando enquanto me dava o que eu buscava. Eu investia contra ele como se desejasse escapar, minhas costas arqueando-se como 
um arco, pressionando-me contra seu corpo. Ele deitou-se por inteiro sobre mim, mal se mexendo, de modo que nossa conexo mais ntima parecesse pouco mais unida 
do que a juno de nossas peles.
        Eu sentia a grama spera e espinhosa sob mim, a pungncia de hastes pontiagudas esmagadas, como o cheiro do homem que me possua. Meus seios estavam achatados 
sob ele e senti os plos de seu peito excitando minha pele conforme nossos corpos se esfregavam, para frente e para trs. Contorci-me, incitando-o  violncia, sentindo 
o volume de suas pernas  medida que ele me pressionava.
        - Nunca - sussurrou para mim, o rosto a apenas alguns centmetros do meu.
        - Nunca - eu disse, e virei a cabea, fechando os olhos, para fugir  intensidade de seu olhar.
        Uma presso delicada, inexorvel, virou minha cabea para encar-lo outra vez, enquanto os movimentos rtmicos, mais suaves, continuavam.
        - No, minha Sassenach - ele disse a meia-voz. - Abra os olhos. Olhe para mim. Porque essa  a sua punio, como  a minha. Veja o que voc fez comigo, como 
eu sei o que fiz a voc. Olhe para mim.
        E eu olhei, aprisionada, presa a ele. Olhei, enquanto ele deixava cair a ltima de suas mscaras e me revelava as profundezas de seu prprio ser e os ferimentos 
de sua alma. Eu teria chorado pela sua dor, e pela minha, se pudesse. Mas seus olhos mantinham os meus presos, abertos e sem lgrimas, sem limites como o mar. Seu 
corpo manteve o meu cativo, guiando-me  frente de sua fora, como o vento do oeste nas velas de um navio.
        E eu viajei para dentro dele, como ele para dentro de mim, de modo que, quando as ltimas e pequenas tormentas do amor comearam a me sacudir, ele gritou, 
e cavalgamos as ondas juntos como um nico corpo, e nos vimos nos olhos um do outro.
        O sol da tarde estava quente nas pedras calcrias brancas, lanando sombras profundas nas fendas e depresses. Achei finalmente o que estava procurando, 
brotando de um sulco estreito em uma enorme rocha, num desafio alegre  falta de solo. Quebrei um talo de alo de uma moita, rasguei a folha carnuda e espalhei o 
gel verde e fresco nos verges na palma da mo de Jamie.
        - Melhor? - perguntei.
        - Muito. - Jamie flexionou a mo, rindo. - Nossa, essas urtigas ardem!
        -  verdade. - Puxei o decote do meu corpete e passei um pouco do sumo de alo no meu seio com um movimento cuidadoso. O frescor da planta trouxe alvio 
imediato.
        - Estou contente por voc no ter aceito minha oferta - eu disse ironicamente, com um olhar rpido para uma moita prxima de viosas urtigas.
        Ele riu e deu um tapinha no meu traseiro com a mo boa.
        - Bem, foi por pouco, Sassenach. No deveria me tentar dessa forma.
        - Em seguida, ficando srio, inclinou-se e beijou-me delicadamente.
        - No, mo duinne. Eu jurei para voc uma vez e eu estava falando srio. Jamais levantarei a mo para voc com raiva, jamais. Afinal - acrescentou em voz 
baixa, desviando o rosto -, eu a fiz sofrer muito.
        Contra-me com a dor da lembrana, mas eu tambm lhe devia justia.
        -Jamie - eu disse, os lbios tremendo um pouco. - O... beb. No foi culpa sua. Eu senti como se tivesse sido, mas no foi. Eu acho... eu acho que teria 
acontecido de qualquer modo, quer voc tivesse lutado com Jack Randall ou no.
        -  mesmo? Ah... bem. - Seu brao era quente e reconfortante ao meu redor e ele pressionou minha cabea contra a curva de seu ombro. Me alivia um pouco ouvi-la 
dizer isso. Mas eu me referia mais a Frank do que  criana. Acha que pode me perdoar por isso? - Os olhos azuis estavam perturbados quando se abaixaram para me 
fitar.
        - Frank? - Senti um choque de surpresa. - Mas... no h nada a perdoar. - Ento, um pensamento me ocorreu; talvez ele na verdade no soubesse que Jack Randall 
ainda estava vivo, afinal, ele fora detido logo aps o duelo. Mas se ele no sabia... respirei fundo. Ele iria ter que descobrir de Qualquer modo; talvez fosse melhor 
que soubesse por mim.
        - Voc no matou Jack Randall, Jamie - eu disse.
        Para meu espanto, ele no pareceu chocado ou surpreso. Sacudiu a cabea, o sol da tarde acendendo fagulhas de seus cabelos. Embora ainda curtos demais para 
serem amarrados na nuca, haviam crescido consideravelmente na priso e ele precisava afast-los dos olhos constantemente.
        - Eu sei disso, Sassenach - ele disse.
        - Sabe? Mas... o que... - Eu estava desnorteada.
        - Voc... no soube? - ele perguntou, hesitante.
        Uma sensao de frio subiu pelos meus braos, apesar do calor do sol.
        - Soube do qu?
        Ele mordeu o lbio inferior, olhando-me com relutncia. Finalmente, respirou fundo e soltou a respirao com um suspiro.
        - No, eu no o matei. Mas eu o feri.
        - Sim, Louise disse que voc o feriu gravemente. Mas disse que ele estava se recuperando. - De repente, vi outra vez, na memria, aquela ltima cena no Bois 
de Boulogne; a ltima viso que tive antes de a escurido tomar conta de mim. A ponta afiada da espada de Jamie cortando a pele de veado manchada da chuva. A repentina 
mancha vermelha que escureceu o tecido... e o ngulo da lmina, brilhando com a fora que a guiava para baixo.
        - Jamie! - eu disse, os olhos arregalando-se de horror. - Voc no... Jamie, o que voc fez!
        Ele abaixou os olhos, esfregando a palma da mo que ardia na lateral do seu kilt. Ele sacudiu a cabea, admirado consigo mesmo.
        - Fui um grande idiota, Sassenach. Eu no poderia me considerar um homem se o deixasse sair impune pelo que havia feito ao menino. No entanto... o tempo 
todo, eu ficava pensando comigo mesmo: "Voc no pode matar o sujeito, voc prometeu. Voc no pode mat-lo." - Sorriu debilmente, sem humor, olhando para baixo, 
para as marcas na palma de sua mo.
        - Minha mente fervia como um pote de mingau no fogo, mas eu me agarrava a este pensamento: "Voc no pode mat-lo." E no o matei. Mas eu estava meio enlouquecido 
com a fria do combate e o sangue latejava em meus ouvidos... e no parei nem um instante para me lembrar por que eu no devia mat-lo, alm do fato de que eu prometera 
a voc. E quando o tive ali no cho diante de mim, com as lembranas de Wentworth e de Fergus, e a lmina viva em minhas mos... - Ele parou bruscamente.
        Senti o sangue fugir de minha cabea e deixei-me cair pesadamente numa salincia da rocha.
        - Jamie - eu disse. Ele encolheu os ombros, num gesto de desamparo.
        - Bem, Sassenach - ele continuou, ainda evitando meu olhar. - Tudo que posso dizer  que  um lugar terrvel para sofrer um ferimento.
        - Santo Deus. - Permaneci sentada, imvel, perplexa com aquela revelao. Jamie sentou-se silenciosamente ao meu lado, analisando os dorsos largos de suas 
mos. Ainda havia uma pequena marca rosada na mo direita. Jack Randall a perfurara com um prego, em Wentworth.
        - Voc me odeia por isso, Claire? - Sua voz era baixa, quase suplicante. Sacudi a cabea, os olhos cerrados.
        - No. - Eu os abri e vi seu rosto junto ao meu, a testa franzida de preocupao. - No sei exatamente o qu pensar no momento, Jamie. Realmente, no sei. 
Mas eu no o odeio. - Coloquei minha mo sobre a sua e apertei-a delicadamente. - Apenas... deixe-me ficar sozinha por um instante, est bem?
        Novamente vestida em minhas roupas agora secas, espalmei as mos sobre as coxas. Uma de prata e uma de ouro. Minhas duas alianas de casamento ainda estavam 
l e eu no fazia a menor idia do que isso significava.
        Jack Randall jamais geraria uma criana. Jamie parecia ter certeza disso e eu no estava inclinada a question-lo. No entanto, eu ainda usava a aliana de 
Frank, eu ainda me lembrava do homem que fora meu primeiro marido, podia evocar quando quisesse lembranas e idias de quem ele fora, o que faria. Como era possvel, 
ento, que ele no fosse existir?
        Sacudi a cabea, atirando para trs das orelhas os cachos secos pelo vento. Eu no sabia. Provavelmente, jamais saberia. Mas se uma pessoa podia ou no alterar 
o futuro - e tudo indicava que ns o fizramos - eu tinha certeza de que no podia mudar o passado imediato. O que fora feito estava feito e nada do que eu pudesse 
fazer agora alteraria esse fato. Jack Randall no geraria nenhum filho.
        Uma pedra rolou pela encosta atrs de mim, saltando e provocando pequenos deslizamentos de cascalhos. Virei-me e olhei para cima, para o local que Jamie, 
novamente vestido, estava explorando.
        O deslizamento de pedras acima era recente. Superfcies brancas e novas surgiam onde a pedra calcria marrom e manchada pelo tempo havia se fendido e apenas 
uma planta muito mida conseguira se firmar naquele monte de pedras desmoronadas, ao contrrio da vegetao densa que cobria o resto da vertente da colina.
        Jamie avanava cuidadosamente para um dos lados, absorto em descobrir apoios para as mos em meio s reentrncias da rocha. Eu o vi avanar Devagar pela 
borda de uma rocha enorme, abraando a pedra, e o rudo quase inaudvel de sua adaga raspando o calcrio chegou at mim pelo ar parado e silencioso da tarde.
        Depois ele desapareceu. Esperando que ele desse a volta e reaparecesse do outro lado da rocha, aguardei, aproveitando o sol sobre meus Ombros. Mas ele no 
voltou ao meu campo de viso e, aps alguns minutos, comecei a ficar preocupada. Ele podia ter escorregado e cado ou batido com a cabea na pedra.
        Levei o que me pareceram sculos para desatar os cordes das minhas botas de salto outra vez e ele ainda no havia retornado. Amarrei as pontas das minhas 
saias e comecei a subir a encosta, os ps descalos cautelosos nas pedras quentes e speras.
        - Jamie!
        - Aqui, Sassenach. - Ele falou atrs de mim, surpreendendo-me, e eu quase perdi o equilbrio. Ele segurou-me pelo brao e iou-me para um pequeno espao 
plano entre as pedras pontiagudas
        Virou-me para o muro de calcrio, oxidado pela ao da gua, e manchado por fumaa. E mais alguma coisa.
        - Olhe - ele disse, sem pressa.
        Olhei para onde ele apontava, acima e ao longo da superfcie lisa da parede da caverna, e soltei uma exclamao de assombro.
        Bestas pintadas galopavam ao longo da face da rocha acima de mim, os cascos chutando o ar conforme saltavam em direo  luz acima. Eram bises e cervos, 
agrupados no vo, as caudas erguidas, alm de uma fileira de pssaros delicados, as asas abertas enquanto sobrevoavam a investida dos animais presos  terra.
        Perdida na contemplao dos dorsos macios que abriam caminho na rocha, no dei pela ausncia de Jamie, at ouvi-lo me chamar.
        - Sassenach! Venha at aqui! - Havia algo estranho em sua voz e eu apressei-me ao seu encontro. Jamie estava parado  entrada de uma pequena caverna lateral, 
olhando para baixo.
        Eles estavam deitados em uma plataforma da rocha, como se tivessem buscado abrigo do vento que perseguia os bises
        Havia dois, deitados juntos na terra batida do cho da caverna Encerrados no ar seco da cavidade na rocha, os ossos haviam resistido, embora a carne h muito 
j tivesse se transformado em p. Um pequeno remanescente de pele marrom endurecida agarrava-se  curva de um dos crnios, uma mecha de cabelos desbotada pelo tempo 
para um tom avermelhado esvoaou suavemente no deslocamento de ar provocado pela nossa presena.
        - Meu Deus - eu disse, baixinho, como se minha voz pudesse perturb-los. Aproximei-me de Jamie e sua mo envolveu minha cintura.
        - Voc acha... eles foram... assassinados aqui? Um sacrifcio, talvez.
        Jamie sacudiu a cabea, fitando pensativamente o pequeno monte de ossos delicados e quebradios.
        - No - ele disse. Ele tambm falava em voz baixa, como se estivesse no santurio de uma igreja. Virou-se e ergueu a mo para a parede atrs de ns, onde 
os cervos saltavam e as garas planavam no ar, para um lugar alm da pedra.
        - No - ele repetiu. - O povo que desenhou esses animais... eles no agiam assim. - Voltou-se ento novamente para os dois esqueletos, entrelaados aos nossos 
ps. Agachou-se sobre eles, traando a linha dos ossos delicadamente com o dedo, com cuidado para no tocar a superfcie de marfim.
        - Veja como esto deitados - ele disse. - Eles no caram aqui e ningum estendeu seus corpos. Eles mesmos se deitaram. - Sua mo planou ao longo dos ossos 
dos braos do esqueleto maior, uma sombra escura como uma enorme mariposa voando sobre a pilha de costelas.
        - Os braos dele estavam ao redor dela - ele disse. - Ele colocou as coxas atrs das dela e abraou-a bem junto ao seu corpo e a sua cabea est descansando 
sobre o ombro dela.
        Sua mo passou algumas vezes por cima dos ossos, esclarecendo, indicando, revestindo-os outra vez com a carne da imaginao para que pudesse v-los como 
haviam sido, abraados pela ltima vez, para sempre. Os pequenos ossos dos dedos haviam se soltado, mas um vestgio de cartilagem ainda unia os metacarpos das mos. 
As minsculas falanges se sobrepunham; haviam entrelaado as mos em sua ltima espera.
        Jamie levantara-se e inspecionava o interior da caverna, o sol do final de tarde pintando as paredes com respingos rubros e ocres.
        - L. - Ele apontava para um local perto da entrada da caverna. As rochas ali eram marrons pela ao do tempo e da poeira, mas no eram oxidadas pela gua 
e pela eroso, como as do fundo da caverna.
        - A entrada j foi aqui, outrora - ele disse. - Certo dia, as rochas desmoronaram e fecharam este lugar. - Virou-se e colocou a mo na protuberncia rochosa 
que protegera os amantes da luz.
        - Eles devem ter andado pela caverna tateando, de mos dadas - eu disse. - Buscando uma sada, na poeira e no escuro.
        - Sim. - Ele encostou a testa contra a pedra, os olhos fechados. - A luz desaparecera e faltava-lhes o ar. Ento, deitaram-se no escuro para morrer. - As 
lgrimas desenharam trilhas molhadas pela poeira de suas faces. Passei a mo sob meus prprios olhos e segurei sua mo, cuidadosamente entrelaando nossos dedos.
        Ele voltou-se para mim, em silncio, e o ar escapou de seus pulmes quando ele me puxou com fora contra seu peito. Nossas mos buscaram um ao outro, tateando 
 luz mortia do sol poente, ansiosas pelo toque do Calor da pele, pelo reconforto da carne, pela dureza do osso invisvel sob a Pele que nos fazia lembrar de como 
a vida  curta.
        
        
        
PARTE V - DE VOLTA AO LAR



30 - LALLYBROCH
        
        Chamava-se Broch Tuarach, por causa do antigo cilindro de pedra, construdo h algumas centenas de anos antes, que se projetava da encosta da colina atrs 
da manso. As pessoas que viviam na propriedade chamavam-na de "Lallybroch". At ento, pelo que entendi, isso significava "torre preguiosa", que fazia tanto sentido 
quanto aplicar o termo "torre de frente para o norte" a uma estrutura cilndrica.
        - Como algo redondo pode estar virado para o norte? - perguntei enquanto descamos lentamente uma longa encosta de urzes e granito, conduzindo os cavalos 
em fila nica pelo caminho estreito e sinuoso que os veados vermelhos haviam aberto na vegetao rasteira. - Ela no possui uma frente.
        - Ela tem uma porta - Jamie esclareceu. - A porta d para o norte. Ele firmou os ps no solo quando a descida tornou-se mais ngreme, assoviando entre os 
dentes num sinal para o cavalo que vinha puxando. O traseiro musculoso  minha frente contraiu-se repentinamente, enquanto a marcha cautelosa mudava para um passo 
mido e experimental, cada pata deslizando alguns centmetros na terra mida antes que outro passo fosse arriscado. Os cavalos, comprados em Inverness, eram animais 
bonitos, de bom tamanho. Os vigorosos e pequenos pneis das Highlands teriam se sado bem melhor na encosta ngreme, mas estes cavalos, todas guas, eram destinados 
 reproduo, e no ao trabalho.
        - Muito bem - eu disse, saltando cautelosamente por cima de um minsculo riacho que atravessava o caminho dos veados. - Est certo. Mas e quanto a "Lallybroch"? 
Por que  uma torre preguiosa?
        -  um pouco inclinada - Jamie respondeu. Eu podia ver a parte de trs de sua cabea, curvada na concentrao de onde colocava o p, alguns anis dos cabelos 
ruivo-dourados erguendo-se do topo da cabea na brisa da tarde que soprava encosta acima. - No d para ver direito da casa, mas se ficar no lado oeste, ver que 
ela se inclina um pouco para o norte. E se olhar por uma das brechas no andar acima da porta, no conseguir ver a parede embaixo por causa da inclinao.
        - Bem, suponho que ningum tivesse ouvido falar em fio de prumo no sculo XIII - observei. -  incrvel que ainda esteja de p.
        - Ah, j caiu algumas vezes - Jamie disse, levantando um pouco a voz conforme o vento se intensificava. - O pessoal que morava l simplesmente colocou-a 
de volta de novo; talvez seja por isso que est inclinada.
        - Estou vendo! Estou vendo a torre! - A voz de Fergus, aguda de empolgao, guinchou atrs de mim. Ele tivera permisso para continuar montado, j que seu 
peso desprezvel dificilmente causaria qualquer dificuldade ao cavalo, mesmo pisando mal. Olhando para trs, pude v-lo ajoelhado na sela, saltando para cima e para 
baixo de animao. Seu cavalo, uma gua baia paciente e bem-humorada, resmungou com um ronco, mas gentilmente se absteve de jog-lo para fora no meio das urzes. 
Desde a sua aventura com o potro Percheron em Argentan, Fergus no perdia nenhuma oportunidade de subir num cavalo e Jamie, achando graa e compreensivo com outro 
amante de cavalos, fazia suas vontades, levandoo atrs de sua prpria sela quando cavalgava pelas ruas de Paris, permitindo que de vez em quando ele montasse sozinho 
em um dos cavalos da carruagem de Jared, criaturas grandes e slidas que meramente agitavam as orelhas, intrigadas com os chutes e gritos de Fergus.
        Protegi os olhos, olhando na direo para onde ele apontava. Ele tinha razo; de sua localizao privilegiada mais acima, ele avistara a forma escura da 
velha torre de pedra, empoleirada em sua colina. A moderna manso abaixo era mais difcil de ser vista; era construda de pedras caiadas e o sol refletia de suas 
paredes como das terras ao redor. Localizada em uma depresso nos campos ondulantes de cevada, ainda estava parcialmente oculta de nossa vista por uma fileira de 
rvores que formavam um quebravento na base de um dos campos.
        Vi a cabea de Jamie erguer-se e fixar-se ao ver a casa da fazenda de Lallybroch l embaixo. Permaneceu absolutamente imvel por um instante, sem falar, 
mas vi seus ombros erguerem-se e endireitarem-se. O vento levantou seus cabelos e as pregas de seu kilt, como se ele fosse erguer-se no ar, alegre como uma pipa.
        Fez-me lembrar da maneira como as velas dos navios se enchiam, dobrando o promontrio e tomando as rotas de comrcio ao deixarem o porto de L Havre. Eu 
ficara parada na ponta do cais, observando o tumulto e o vaivm de navegao e comrcio. As gaivotas mergulhavam e gritavam entre os mastros, suas vozes rouquenhas 
como os gritos dos marinheiros.
        Jared Munro Fraser colocou-se a meu lado, observando calmamente o fluxo de riquezas provenientes do mar que passava por ns, algumas pertencentes a ele. 
Era um dos seus navios, o Portia, que nos levaria para a Esccia. Jamie contara-me que todos os navios de Jared recebiam o nome de suas amantes, as figuras em madeira 
levadas  proa dos barcos esculpidas  semelhana das senhoras em questo. Estreitei os olhos contra o vento para ver melhor a proa do navio, tentando decidir se 
Jamie estava brincando comigo. Se no estava, conclu, Jared preferia suas mulheres bem-dotadas.
        - Sentirei falta de vocs dois - Jared disse, pela quarta vez em meia hora. Ele parecia realmente pesaroso, at mesmo seu nariz divertido menos arrebitado 
e otimista do que o habitual. A viagem  Alemanha fora um sucesso; ele exibia um grande diamante no lao da echarpe de seda ao seu pescoo, e o casaco que usava 
era de um suntuoso veludo verde-garrafa com botes de prata.
        - Ah, bem - ele disse, sacudindo a cabea. - Embora eu bem que gostaria de manter o garoto comigo, no posso negar-lhe a alegria da volta ao lar. Talvez 
eu v visit-los um dia, minha querida; j faz muito tempo que pisei em solo escocs.
        - Ns tambm sentiremos sua falta - eu lhe disse, sinceramente. Havia outras pessoas de quem eu sentiria falta: Louise, madre Hildegarde, herr Gerstmann. 
Mestre Raymond, acima de tudo. Entretanto, eu aguardava ansiosamente a volta  Esccia, a Lallybroch. No tinha nenhuma vontade de voltar a Paris e havia pessoas 
l que eu certamente no tinha nenhum desejo de rever, Lus de Frana, por exemplo.
        Carlos Stuart, para dar outro exemplo. Uma cuidadosa investigao entre os jacobitas em Paris confirmara a impresso inicial de Jamie; a pequena exploso 
de otimismo desencadeada pelo que Carlos se vangloriava de ser seu "grande empreendimento" esvara-se e, embora os leais partidrios do rei Jaime se mantivessem 
fiis a seu soberano, no parecia haver nenhuma chance de que essa fleumtica lealdade de teimosa resistncia levasse  ao.
        Assim que Carlos fizesse as pazes com seu prprio exlio, pensei. O nosso terminara. Estvamos voltando para casa.
        - A bagagem j est a bordo - disse uma voz escocesa grave junto ao meu ouvido. - O comandante do navio disse para embarcarem agora, vamos partir com a mar.
        Jared voltou-se para Murtagh, depois olhou para a direita e para a esquerda ao longo do cais.
        - E onde est o garoto? - perguntou.
        Murtagh fez um sinal com a cabea indicando o final do per.
        - L na taverna. Enchendo a cara.
        Eu me perguntara exatamente como Jamie planejava enfrentar a travessia do Canal. Ele dera uma olhada no cu vermelho da aurora, com nuvens cada vez mais 
carregadas, ameaando tempestades mais tarde. Depois pedira licena a Jared e desaparecera. Olhando na direo indicada por Murtagh, vi Fergus, sentado numa pilha 
junto  entrada de um bar obviamente bancando o sentinela.
        Jared, que primeiro exibira descrena e depois hilaridade ao ser informado da deficincia do sobrinho, abriu um largo sorriso diante da informao.
        - Ah,  mesmo? - disse. - Bem, espero que ele tenha deixado o ltimo copo at irmos busc-lo. Vai ser terrvel carreg-lo pela prancha de embarque acima, 
se ele j tiver bebido alm da conta.
        - Por que ele fez isso? - perguntei a Murtagh, um pouco exasperada.
        - Eu disse a ele que tenho um pouco de ludano para ele. - Bati na bolsinha de seda que eu carregava. - Iria derrub-lo bem mais rpido.
        Murtagh piscou uma nica vez.
        - Sim. Ele disse que, se ia ter uma dor de cabea, era melhor que fosse com uma ressaca. E o usque tem um gosto muito melhor do que esse negcio preto asqueroso 
que voc tem a. - Balanou a cabea indicando minha bolsinha, depois se virou para Jared. - Vamos l, ento, se pretende me ajudar com ele.
        Na cabine da frente do Portia, sentei-me na cama estreita do capito, observando o movimento regular de subida e descida da linha da costa cada vez mais 
distante, a cabea do meu marido embalada em meus joelhos.
        Um dos olhos abriu uma fresta e ergueu o olhar para mim. Afastei carinhosamente os cabelos midos e pesados de sua fronte. O cheiro de cerveja e usque pairava 
ao seu redor como um perfume.
        - Voc vai se sentir como se estivesse no inferno quando acordar na Esccia - eu lhe disse.
        O outro olho se abriu e observou as ondas de luz danantes, refletidas no teto de vigas de madeira. Em seguida, os olhos fixaram-se em mim, lagos profundos 
de lmpido azul.
        - Entre o inferno agora e o inferno mais tarde, Sassenach - ele disse, a fala arrastada, calculada e precisa -, prefiro mais tarde, sem dvida. - Seus olhos 
fecharam-se. Ele arrotou baixinho, uma vez, e o corpo longo relaxou, confortavelmente embalado pelo mar.
        Os cavalos pareciam to ansiosos quanto ns; pressentindo a proximidade de estbulos e comida, comearam a apressar um pouco o passo, as cabeas empinadas 
e as orelhas erguidas para a frente, na expectativa.
        Eu estava justo pensando que eu mesma gostaria de um banho e de alguma coisa para comer, quando meu cavalo, um pouco  frente, fincou as patas no cho e 
foi deslizando at parar completamente, os cascos enterrados at o machinho na terra vermelha. A gua sacudiu a cabea violentamente de um lado para o outro, resfolegando 
e relinchando.
        - Ei, moa, qual  o problema? Uma abelha entrou no seu focinho? - Jamie desceu do seu prprio cavalo e apressou-se a segurar as rdeas da gua cinza. Sentindo 
o dorso largo estremecer e contorcer-se sob mim, eu tambm apeei.
        - O que ser que h com ela? - Olhei curiosamente para o animal, que puxava a cabea para trs para livrar as rdeas das mos de Jamie, sacudindo a crina, 
os olhos assustados. Os outros cavalos, como que infectados pelo seu nervosismo, comearam a bater as patas no cho e se moveram tambm.
        Jamie olhou rapidamente por cima dos ombros para a estrada vazia.
        - Ela est vendo alguma coisa.
        Fergus ergueu-se em seus estribos e protegeu os olhos da luz, olhando por cima do dorso da gua. Abaixando a mo, virou-se para mim e encolheu os ombros.
        Eu encolhi os ombros tambm, em resposta. No parecia haver nada para causar a inquietao da gua - a estrada e os campos estavam vazios em todas as direes, 
as pontas dos gros amadurecendo e secando ao sol do final do vero. O grupo de rvores mais prximo ficava a mais de cem metros de distncia, alm de um pequeno 
monte de pedras que devia ser o remanescente de uma chamin desmoronada. Lobos eram muito raros numa regio descampada como aquela e certamente nenhuma raposa ou 
texugo iria perturbar um cavalo a essa distncia.
        Desistindo da tentativa de fazer a gua prosseguir, Jamie conduziu-a num semicrculo; ela obedeceu de bom grado, de volta na direo de onde viramos.
        Ele fez um sinal a Murtagh para que tirasse os outros cavalos da estrada, depois montou na gua e, inclinando-se para frente, uma das mos agarrada  crina 
do animal, instigou-a a prosseguir devagar, falando ao seu ouvido em voz baixa. Ela prosseguiu com hesitao, mas sem resistncia, at atingir o local de sua parada 
anterior. Ali, estancou outra vez e ficou parada, tremendo, e nada conseguia persuadi-la a dar um passo  frente.
        - Est bem, ento - Jamie disse, resignado. - Faa como achar melhor. - virou a cabea do cavalo e conduziu-o para dentro da plantao, as pontas amarelas 
dos gros roando os plos hirsutos de sua barriga. Ns os Seguimos lentamente, os cavalos inclinando o pescoo de vez em quando Para abocanhar um bocado de gros 
aqui e ali, conforme prosseguamos Pelo meio da vegetao.
        Quando circundamos um pequeno afloramento de granito logo abaixo do topo da colina, ouvi um breve latido de advertncia bem  frente.
        Samos na estrada e nos deparamos com um co pastor branco e preto de guarda, a cabea empinada e o rabo levantado enquanto nos vigiava com desconfiana.
        Ele emitiu outro latido curto e outro co, igualmente branco e preto, emergiu repentinamente de um aglomerado de amieiros, seguido mais lentamente por uma 
figura alta e esbelta enrolada num xale marrom de caa.
        - Ian!
        - Jamie!
        Jamie atirou as rdeas da gua para mim e foi ao encontro de seu cunhado no meio da estrada, onde os dois homens agarraram-se com fora pelos ombros, rindo 
e batendo nas costas um do outro. Livres de suspeitas, os dois ces pulavam alegremente ao nosso redor, os rabos balanando, saltando para o lado de vez em quando 
para cheirar as pernas dos cavalos.
        - No espervamos vocs antes de amanh - Ian dizia, o rosto longo e sem atrativos radiante de alegria.
        - Pegamos um bom vento a favor na travessia - Jamie explicou. - Ou ao menos Claire diz que pegamos; eu mesmo no estava em condies de prestar muita ateno. 
- Lanou um olhar para mim, rindo, e Ian veio apertar minha mo.
        - Cunhada - ele disse, num cumprimento formal. Depois, sorriu, o calor do sorriso iluminando os meigos olhos castanhos. - Claire. -Impulsivamente, beijou 
meus dedos e eu apertei sua mo.
        - Jenny est ficando maluca de tanto limpar e cozinhar - ele disse, ainda sorrindo para mim. - Vo ter sorte se tiverem uma cama para dormir esta noite; 
ela colocou todos os colches para fora, para serem batidos.
        - Depois de trs noites nos urzais, eu no me importaria de dormir no cho - assegurei-lhe. - Jenny e as crianas esto bem?
        - Ah, sim. Est grvida de novo - acrescentou. -  para fevereiro.
        - De novo? - Jamie e eu falamos juntos, e um rubor intenso tomou conta das faces de Ian.
        - Meu Deus, homem, a pequena Maggie no tem nem um ano de idade - Jamie disse, arqueando uma das sobrancelhas com ar de censura. -No sabe se conter?
        - Eu? - Ian exclamou, indignado. - Acha que eu tive alguma coisa ver com isso?
        - Bem, se no teve, eu imagino que estaria interessado em saber quem teve - Jamie disse, o canto da boca contorcendo-se.
        O rubor transformou-se num rosa intenso, contrastando admiravel-mente com os cabelos lisos e castanhos de Ian.
        - Sabe muito bem o que quero dizer - ele retorquiu. - Dormi na cama sobressalente com o pequeno Jamie durante dois meses, mas depois Jenny...
        - Ah, est dizendo que minha irm  uma devassa, ?
        - Estou dizendo que ela  teimosa como o irmo quando se trata de obter o que quer - Ian disse. Ele fingiu cair para um lado, voltou agilmente  posio 
inicial e deu um golpe na boca do estmago de Jamie, que se dobrou, rindo.
        - Ainda bem que voltei para casa, ento - ele disse. - Vou ajud-lo a mant-la sob controle.
        - Ah, ? - Ian disse com ceticismo. - Vou chamar todos os moradores para observarem.
        - Perdeu uma parte do rebanho? -Jamie mudou de assunto com um gesto que abrangeu os cachorros e a longa bengala de pastor de Ian, cada na terra da estrada.
        - Quinze ovelhas e um reprodutor - Ian disse, balanando a cabea. -O prprio rebanho de merinos de Jenny, que ela cria por causa da l especial. O reprodutor 
 um filho-da-me; quebrou o porto. Achei que pudessem estar aqui em cima no meio dos gros, mas nenhum sinal deles.
        - Ns no vimos nenhum mais acima - eu disse.
        - Ah, eles no iriam para l - Ian disse, descartando a possibilidade com um gesto da mo. - Nenhum dos animais ultrapassa a cabana.
        - Cabana? - Fergus, ficando impaciente com a troca de amenidades, cutucara sua montaria e a alinhara com a minha. - No vi nenhuma cabana, milorde. S um 
monte de pedras.
        -  tudo que restou da cabana de MacNab, garoto - Ian disse. Estreitou os olhos para Fergus, a silhueta recortada contra o sol do final de tarde. - E fique 
avisado de se manter bem longe de l voc mesmo.
        Os cabelos da minha nuca eriaram-se, apesar do calor do dia. Ronald MacNab era o arrendatrio que trara Jamie aos homens da guarda h um ano, o homem que 
morrera por sua traio apenas um dia depois de ser descoberto. Morrera, eu me lembrava, entre as cinzas de sua casa, incendiada pelos homens de Lallybroch. A pilha 
de pedras de chamin, to inocente quando passamos por ela h poucos instantes, agora adquirira o aspecto soturno de um tmulo. Engoli em seco, forando para baixo 
o gosto amargo que subiu ao fundo de minha garganta.
        - MacNab? - Jamie disse a meia-voz. Sua expresso tornou-se imediatamente alerta. - Ronnie MacNab?
        Eu contara a Jamie sobre a traio de MacNab e sobre sua morte, mas no dissera como ele fora punido. Ian balanou a cabea.
        - Sim. Ele morreu l, na noite em que os ingleses o levaram, Jamie. O telhado de palha deve ter pegado fogo com alguma fasca e ele devia estar bbado demais 
para fugir a tempo. - Fitou Jamie direto nos olhos, a expresso sria, sem nenhum ar de troa.
        - Ah. E a mulher e o filho? - O olhar de Jamie era igual ao de Ian; frio e impenetrvel.
        - Esto bem. Mary MacNab  ajudante de cozinha na casa e Rabbie trabalha nos estbulos. - Ian olhou involuntariamente por cima do ombro na direo da cabana 
arruinada. - Mary vem aqui de vez em quando;  a nica daqui que vai l.
        - Ela gostava dele, ento? - Jamie virara-se para olhar na direo da cabana, de modo que seu rosto estava escondido de mim, mas havia tenso na linha de 
contorno de suas costas.
        Ian deu de ombros.
        - Creio que no. Ronnie era um bbado, e violento tambm; nem mesmo sua velha me conseguia lidar com ele. No, acho que Mary sente que  seu dever rezar 
pela alma dele... ainda que no lhe adiante nada - acrescentou.
        - Ah. - Jamie parou por um instante como se estivesse pensando, depois atirou as rdeas por cima do pescoo de seu cavalo e virou-se para subir a colina.
        - Jamie - eu disse, mas ele ja estava andando de volta pela estrada, em direo  pequena clareira ao lado do bosque. Entreguei as rdeas que eu estava segurando 
a um Fergus surpreso.
        - Fique aqui com os cavalos - eu disse. - Tenho que ir com ele. - Ian fez meno de me acompanhar, mas Murtagh o impediu com um sinal negativo da cabea, 
e eu prossegui sozinha, seguindo Jamie por cima do topo da colina.
        Ele tinha o passo longo e incansvel de um andarilho e j havia chegado  pequena clareira antes que eu o alcanasse. Ficou parado na borda do que fora a 
parede externa. O formato quadrado do cho de terra batida da cabana mal podia ser visto, a nova vegetao que o cobria mais rala do que a cevada prxima, mais verde 
e selvagem  sombra das rvores.
        Haviam restado poucos vestgios do incndio; alguns pedaos de madeira carbonizada projetavam-se do capim prximo do cho de pedra da lareira que agora jazia 
aberta, plana e exposta como uma lpide. Com cuidado para no pisar dentro do permetro das paredes extintas, Jamie comeou a caminhar em volta da clareira. Deu 
trs voltas ao redor da pedra da lareira, andando sempre no sentido anti-horrio, para a esquerda, para a esquerda e para a esquerda outra vez, para despistar qualquer 
mal que pudesse segui-lo.
        Fiquei parada de lado, observando-o. Aquele era um confronto particular, mas no podia deixar que ele o enfrentasse sozinho e, embora no olhasse para mim, 
eu sabia que estava feliz com a minha presena.
        Finalmente, ele parou junto  pilha de pedras desmoronadas. Estendendo o brao, colocou a mo cuidadosamente sobre ela e fechou os olhos por um momento, 
como se rezasse. Em seguida, inclinando-se, pegou uma pedra do tamanho de seu punho fechado e colocou-a escrupulosamente sobre a pilha, como se ela fosse subjugar 
a alma desassossegada do fantasma. Fez o sinal-da-cruz, virou-se e caminhou em minha direo, com um passo firme e pausado.
        - No olhe para trs - ele disse em voz baixa, segurando-me pelo brao enquanto virvamos em direo  estrada.
        No olhei.
        Jamie, Fergus e Murtagh seguiram com Ian e os cachorros em busca dos carneiros, deixando-me encarregada de seguir sozinha para a casa, conduzindo a fileira 
de cavalos. Eu estava longe de ser uma perfeita condutora de cavalos, mas achei que poderia faz-lo por uns oitocentos metros, desde que nada surgisse inesperadamente 
 minha frente.
        Esta era uma volta ao lar muito diferente da primeira vez que viemos juntos a Lallybroch; na ocasio, ramos fugitivos, ns dois. Eu do futuro, Jamie do 
passado. Nossa estada ali fora feliz, mas tnue e insegura; sempre havia a possibilidade de sermos descobertos, de Jamie ser preso. Agora, graas  interveno do 
duque de Sandringham, Jamie voltara para tomar posse do que era seu por direito, e eu, meu lugar de direito a seu lado como esposa.
        Naquela ocasio, chegramos de surpresa, desalinhados, causando uma violenta ruptura na rotina domstica. Desta vez, viemos anunciados, com a devida cerimnia, 
trazendo presentes da Frana. Embora eu tivesse certeza de que a nossa recepo seria cordial, eu me perguntava como Ian e a irm de Jamie, Jenny, encarariam nossa 
volta definitiva. Afinal, eles viviam como o senhor e a senhora da propriedade h vrios anos, desde a morte do pai de Jamie, e os eventos desastrosos que o lanaram 
numa vida de exlio e  margem da lei.
        Ultrapassei o topo da ltima colina sem nenhum incidente e a manso e seus anexos surgiram abaixo de mim, os telhados de ardsia escurecendo conforme os 
primeiros rolos de nuvens carregadas de chuva se aproximavam.
        De repente, minha gua disparou, e eu com ela, tentando manter as rdeas seguras enquanto ela saltava e se precipitava, assustada.
        No que eu pudesse culp-la; do canto da casa emergiram dois objetos enormes e fofos, rolando pelo cho como gordas nuvens.
        - Pare com isso! - eu gritava. - Ooo! - Agora todos os cavalos puxavam e davam guinadas, prestes a debandarem num estouro. Bela volta ao lar, pensei, se 
eu deixasse todo o novo bando procriador de Jamie quebrar as pernas de uma s vez.
        Uma das nuvens ergueu-se ligeiramente, depois se achatou no cho, e Jenny Fraser Murray, livre da carga do colcho de penas que estivera carregando, correu 
para a estrada, os cachos escuros voando.
        Sem um momento de hesitao, deu um salto, agarrou a brida do animal mais prximo e puxou-a com fora para baixo.
        - Ooo! - ela disse. O cavalo, obviamente reconhecendo a voz da autoridade, realmente se acalmou. Com um pequeno esforo, os demais cavalos tambm foram 
acalmados e, quando por fim pude descer de minha sela, j tnhamos a companhia de outra mulher e de um menino de nove ou dez anos, que deu uma ajuda experiente com 
os animais restantes.
        Reconheci Rabbie MacNab e deduzi que a mulher devia ser sua me, Mary. O alvoroo e a movimentao de cavalos, fardos e colches impediu muita conversa, 
mas eu e Jenny tivemos tempo para um rpido abrao de cumprimento. Ela cheirava a canela e mel, e ao suor limpo do esforo, com um suave toque de cheiro de nenm, 
esse odor paradoxal composto de leite cuspido, fezes moles e da absoluta limpeza de pele nova, lisa e macia.
        Mantivemo-nos unidas por um instante, abraando-nos com fora, lembrando do nosso ltimo abrao, quando nos separamos  beira de um bosque escuro, no meio 
da noite - eu para ir  procura de Jamie, ela para voltar para uma filha recm-nascida.
        - Como vai a pequena Maggie? - perguntei, quando finalmente nos separamos. Jenny fez uma careta, contrariedade misturada a orgulho.
        - Est comeando a andar e  o terror da casa. - Olhou para a estrada vazia. - Encontraram-se com Ian?
        - Sim. Jamie, Murtagh e Fergus foram com ele procurar os carneiros.
        - Melhor eles do que ns - ela disse, com um gesto rpido em direo ao cu. - Vai chover daqui a pouco. Deixe Rabbie levar os cavalos para o estbulo e 
voc me ajude com os colches ou todos ns vamos dormir no molhado esta noite.
        Seguiu-se um frenesi de atividade, mas quando a chuva chegou, Jenny e eu estvamos confortavelmente abrigadas na sala de visitas, abrindo os embrulhos que 
trouxramos da Frana. Ao mesmo tempo, admirvamos o tamanho e a precocidade de Maggie, uma menina viva e alegre de uns dez meses, com olhos redondos e azuis e uma 
penugem ruiva na cabea, e seu irmo mais velho, o pequeno Jamie, um robusto menino de quase quatro anos. O que estava para chegar no passava de um minsculo volume 
sob o avental de sua me, mas vi sua mo repousar ternamente ali de vez em quando e senti uma pontada de dor.
        - Voc mencionou Fergus - Jenny disse, enquanto conversvamos. -Quem ?
        - Ah, Fergus? Ele ... bem, ele ... - hesitei, sem ter muita certeza como deveria descrever Fergus. As perspectivas de um batedor de carteiras de conseguir 
emprego numa fazenda pareciam limitadas. -  do Jamie - eu disse finalmente.
        - Ah, ? Bem, suponho que ele possa dormir no estbulo - disse Jenny, resignada. - E por falar em Jamie - olhou para a janela, onde a chuva caa torrencialmente 
-, espero que achem esses carneiros logo. Tenho um bom jantar planejado e no quero v-lo requentado.
        De fato, a noite havia cado e Mary MacNab arrumara a mesa antes de os homens chegarem. Observei-a em seu trabalho; uma mulher pequena, de ossos delicados, 
cabelos castanho-escuros e uma expresso ligeiramente preocupada que se desfez num sorriso quando Rabbie retornou dos estbu-los e entrou na cozinha, faminto, perguntando 
a que horas seria o jantar.
        - Quando os homens voltarem, mo luaidh - ela disse. - Voc sabe disso. V se lavar, para estar pronto quando chegarem.
        Quando os homens finalmente apareceram, pareciam muito mais necessitados de um banho do que Rabbie. Encharcados da chuva, enxovalhados e enlameados at os 
joelhos, vieram se arrastando at a sala. Ian desenrolou o xale molhado que envolvia seus ombros e pendurou-o no guarda-fogo da lareira, onde ficou pingando e soltando 
vapor no calor da fogueira. Fergus, exausto pela sua brusca introduo  vida na fazenda, simplesmente sentou-se onde estava e ficou olhando estupidamente para o 
cho entre suas pernas.
        Jenny ergueu os olhos para o irmo que no via h quase um ano. Examinando-o dos cabelos encharcados para os ps cheios de lama, apontou para a porta.
        - Fora, e tire essas botas - disse com firmeza. - E se esteve nos campos altos, lembre-se de urinar no batente da porta quando entrar de novo.  como impedimos 
um fantasma de entrar na casa - explicou-me em tom mais baixo, com um rpido olhar para a porta pela qual Mary MacNab desaparecera para trazer o jantar.
        Jamie, arriado numa poltrona, abriu um dos olhos e lanou um olhar aZul-escuro a sua irm.
        - Chego  Esccia quase morto com a travessia, cavalgo por quatro dias pelas montanhas para chegar at aqui e, quando chego, no posso nem entrar em casa 
para tomar um gole e molhar minha garganta seca; em vez disso, tenho que sair por a na lama, caando ovelhas perdidas. E quando finalmente chego aqui, voc quer 
me mandar para a noite l fora para mijar na soleira da porta. Pah! - Fechou o olho outra vez, cruzou as mos sob o estmago e afundou-se ainda mais na poltrona, 
numa atitude estudada de teimosa insubordinao.
        - Jamie, queridinho - sua irm disse docemente. - Voc quer seu jantar ou devo d-lo aos cachorros?
        Ele permaneceu imvel por um longo instante, os olhos cerrados. Depois, com um suspiro sibilante de resignao, levantou-se arduamente. Com um movimento 
mal-humorado do ombro, chamou Ian e os dois viraram-se, seguindo Murtagh, que j estava do lado de fora da porta. Ao passar, Jamie estendeu o longo brao para baixo, 
iou Fergus colocando-o de p e arrastou o garoto sonolentamente.
        - Bem-vindo ao lar - Jamie disse, de modo impertinente. Com um ltimo e melanclico olhar para o fogo e o usque, saiu andando pesadamente para dentro da 
noite mais uma vez.
        
        
        
31 - A VISITA DO CORREIO
        
        Aps esse nefasto retorno ao lar, as coisas melhoraram rapidamente. Lallybroch absorveu Jamie imediatamente, como se ele nunca tivesse ido embora, e eu me 
vi arrastada sem nenhum esforo para a corrente da vida na fazenda. Era um outono instvel, com chuvas freqentes, mas tambm com dias limpos e luminosos, que faziam 
o sangue cantar. O lugar fervilhava de vida, todos apressando-se com as colheitas e os preparativos que tinham que ser feitos para a chegada do inverno.
        Lallybroch era um lugar remoto, at mesmo para uma fazenda das Highlands. Nenhuma estrada importante levava at l, mas o correio ainda assim chegava at 
ns por mensageiro, que atravessava os precipcios e as encostas cobertas de urzes, uma conexo com o mundo l fora. Era um mundo que s vezes parecia irreal na 
lembrana, como se eu nunca tivesse danado entre os espelhos de Versalhes. Mas as cartas trouxeram a Frana de volta e, lendo-as, eu podia ver os lamos ao longo 
da rue Tremoulins ou ouvir o badalar ressonante do sino da catedral, acima do Hpital des Anges.
        O beb de Louise nasceu bem; um menino. Suas cartas, abundantes em exclamaes e sublinhados, transbordavam de descries deslumbradas do angelical Henri. 
De seu pai, suposto ou real, no havia meno.
        A carta de Carlos Stuart, que chegou um ms depois, no fazia nenhuma meno  criana, mas segundo Jamie, era ainda mais incoerente do que o habitual, efervescente 
com planos vagos e grandiosidades.
        O conde de Mar escreveu de modo sbrio e circunspecto, mas sua contrariedade geral com Carlos era bvia. O prncipe no estava se comportando. Era rude e 
autoritrio com seus mais leais seguidores, ignorava aqueles que poderiam ajud-lo, insultava quem no devia, falava demais e - lendo nas entrelinhas - bebia demais. 
Considerando-se a atitude da epoca em relao  ingesto de bebidas alcolicas por parte dos cavalheiros, achei que o comportamento de Carlos devia ter sido espetacular, 
para gerar tal comentrio. Suponho que o nascimento de seu filho no havia, na realidade, passado despercebido.
        Madre Hildegarde escrevia de vez em quando, bilhetes curtos, informativos, espremidos entre os poucos minutos que podiam ser roubados da programao diria. 
Todas as suas cartas terminavam com as mesmas palavras: "Bouton tambm envia lembranas."
        Mestre Raymond no escrevia, mas de vez em quando chegava um pacote endereado a mim, sem assinatura ou identificao, mas contendo coisas estranhas: ervas 
raras e pequenos cristais facetados; uma coleo de pedras, todas do tamanho da unha do dedo mindinho de Jamie, lisas e em forma de discos. Cada uma ostentava uma 
minscula figura esculpida em um dos lados, algumas com letras acima, outras no verso. E havia os ossos - o dedo de um urso, com a garra grande e curva ainda presa; 
as vrtebras completas de uma pequena cobra, articuladas e amarradas em uma tira de couro, de modo que a fileira toda se flexionava como se estivesse viva; um sortimento 
de dentes, de uma fileira de pequenas peas redondas, como cavilhas, que Jamie disse que pertenciam a uma foca, passando por dentes de veado, pontiagudos como uma 
foice, com grandes coroas, at algo com a aparncia suspeita de um molar humano.
        De vez em quando, eu carregava algumas das pedras lisas e esculpidas no bolso, apreciando a sensao de segur-las entre meus dedos. Eram antigas; isso eu 
sabia. No mnimo, da poca dos romanos; talvez at anteriores. E pelo aspecto de algumas das criaturas esculpidas sobre elas, quem quer que as tivesse lavrado queria 
que fossem mgicas. Se eram como as ervas -com alguma virtude real - ou apenas um smbolo, como os sinais da Cabala, eu no sabia. Mas pareciam benignas e as guardei 
comigo.
        Embora eu gostasse da rotina das tarefas domsticas dirias, o que eu mais gostava era das longas caminhadas s diversas cabanas da propriedade. Eu sempre 
levava comigo uma grande cesta quando saa nessas visitas, com um variado sortimento de produtos, desde pequenos agrados para as crianas aos remdios mais comumente 
necessrios. Estes eram requisitados com freqncia, pois a pobreza e a falta de higiene tornavam as doenas comuns e no havia nenhum mdico ao norte de Fort William 
ou ao sul de Inverness.
        Algumas indisposies eu podia tratar prontamente, como gengivas sangrando e erupes da pele caractersticas do escorbuto leve. Outras enfermidades estavam 
alm do meu poder de cura.
        Coloquei a mo na cabea de Rabbie MacNab. Os cabelos desgrenhados estavam midos nas tmporas, mas o maxilar jazia aberto, relaxado e frouxo, e a pulsao 
em seu pescoo batia devagar.
        - Ele est bem agora - eu disse. Sua me podia ver isso tanto quanto eu; ele deitava-se esparramado, no abandono tranqilo do sono, as faces rosadas com 
o calor do fogo prximo. Ainda assim, ela permanecia tensa e alerta, pairando acima da cama at eu falar. No entanto, depois que eu confirmei o que seus prprios 
olhos haviam notado, ela mostrou-se disposta a acreditar; seus ombros encolhidos arquearam-se sob o xale.
        - Graas  Santa Me de Deus - Mary MacNab murmurou, fazendo o sinal-da-cruz rapidamente - e  senhora, milady.
        - Eu no fiz nada - protestei. Isso era literalmente verdade; o nico servio que consegui prestar ao jovem Rabbie foi fazer com que sua me o deixasse em 
paz. Fora preciso, na realidade, uma certa dose de insistncia para desencorajar seus esforos de servir-lhe farelo misturado com sangue de galo, sacudir penas queimadas 
sob seu nariz ou aspergir gua fria sobre ele - nenhum desses cuidados especiais sendo de alguma utilidade para algum que sofria de ataques epilpticos. Quando 
cheguei, sua me falava sem parar, lamentando sua incapacidade de administrar o mais eficaz dos remdios: gua da fonte bebida do crnio de um suicida.
        - Fico muito assustada quando ele tem esses acessos - Mary MacNab disse, fitando melancolicamente a cama onde seu filho dormia. - Da ltima vez, eu trouxe 
o padre MacMurtry at aqui e ele rezou por muito tempo e salpicou gua benta sobre o menino para afastar os demnios. Mas agora eles voltaram. - Ela apertou as mos 
unidas, como se quisesse tocar em seu filho, mas no conseguisse faz-lo.
        - No so demnios - eu disse. -  apenas uma doena e, na verdade, no  das mais graves.
        - Sim, milady, se a senhora o diz - ela murmurou, no querendo me contradizer, mas obviamente sem acreditar.
        - Ele vai ficar bom. - Tentei reanimar a mulher, sem criar esperanas que no poderiam se realizar. - Ele sempre se recupera desses acessos, no e? - Os 
ataques haviam comeado h dois anos - provavelmente conseqncia de contuses na cabea das surras administradas por seu pai, pensei, e embora essas crises repentinas 
no fossem freqentes, eram inegavelmente aterradoras para sua me quando ocorriam.
        Ela balanou a cabea com relutncia, claramente no convencida.
        - Sim... embora ele bata com a cabea de maneira assustadora de vez em quando, debatendo-se como ele faz.
        - Sim,  um perigo - eu disse, pacientemente. - Se ele fizer isso outra Vez, apenas afaste-o de qualquer coisa dura e deixe-o sozinho. Sei que a impresso 
 horrvel, mas na verdade ele vai ficar bem. Apenas deixe que o acesso siga seu curso e, quando tiver terminado, coloque-o na cama e deixe-o dormir. - Eu sabia 
que palavras eram de valor limitado, por mais verdadeiras que fossem. Era necessrio algo mais concreto para convenc-la.
        Quando me virei para ir embora, ouvi um pequeno clique no fundo do bolso da minha saia e tive uma inspirao repentina. Enfiando a mo no bolso, retirei 
dois ou trs dos pequenos e lisos amuletos que Raymond me enviara. Escolhi o branco leitoso - calcednia, talvez - com a minscula figura de um homem atormentado, 
contorcendo-se, esculpida em um dos lados. Ento,  para isso que servem, pensei.
        - Costure isso no bolso dele - eu disse, colocando o minsculo amuleto cerimoniosamente na mo da mulher. - Isso o proteger dos... dos demnios. - Limpei 
a garganta. - No precisar se preocupar com ele ento, ainda que tenha outro acesso; ele sair bem da crise.
        Sa dali sentindo-me ao mesmo tempo extremamente tola e bastante satisfeita, em meio a uma vida profuso de agradecimentos aliviados. Eu no sabia se eu 
estava ficando uma mdica melhor ou meramente uma charlat com mais prtica. Ainda assim, se eu no podia fazer muito por Rabbie, eu podia ajudar sua me - ou ao 
menos deixar que ela ajudasse a si prpria. A cura vem dos curados; no dos mdicos. Isso Raymond havia me ensinado.
        Depois disso, deixei a casa, para prosseguir com meus afazeres do dia, visitando duas das cabanas situadas na extremidade oeste da fazenda. Tudo estava bem 
na casa dos Kirby e na dos Weston Fraser, e logo eu j estava no caminho de volta para casa. No alto de uma encosta, sentei-me sob uma enorme faia para descansar 
por um instante antes da longa caminhada de volta. O sol j estava baixo no cu, mas ainda no chegara  fileira de pinheiros que cobria a cadeia de montanhas no 
lado oeste de Lallybroch. Era fim de tarde e o mundo resplandecia com as cores do final do outono.
        As folhas cadas da faia eram frias e escorregadias sob meus ps, mas ainda restavam muitas folhas, amareladas e crispadas, na rvore acima. Recostei-me 
no tronco de casca lisa e fechei os olhos, diminuindo o intenso claro dos campos de cevada madura para um brilho vermelho-escuro por trs de minhas plpebras.
        Os cmodos confinados e sufocantes das cabanas dos arrendatrios haviam me dado dor de cabea. Com a cabea recostada no tronco liso da rvore, comecei a 
respirar devagar e profundamente, deixando o ar fresco e puro encher meus pulmes, comeando o que eu sempre considerava uma "volta para o interior".
        Essa era minha prpria e imperfeita tentativa de reproduzir a sensao do processo que mestre Raymond me mostrara no Hpital des Anges; uma evocao da aparncia 
e da sensao de cada parte de mim mesma, imaginando exatamente como eram e como funcionavam os diversos rgos e sistemas quando trabalhando em perfeita harmonia.
        Fiquei sentada em silncio, as mos soltas sobre o colo, ouvindo o batimento do meu corao. Batendo aceleradamente com o esforo da subida, reduziu o compasso 
rapidamente para uma freqncia de repouso. A brisa de outono levantava as mechas de cabelos da minha nuca e refrescava minhas faces afogueadas.
        Fiquei sentada, os olhos fechados, e tracei o caminho do meu sangue, das cmaras secretas, de paredes espessas, do meu corao, roxo-azulado pela artria 
pulmonar, avermelhando-se rapidamente conforme os alvolos dos pulmes despejavam sua carga de oxignio. Em seguida, para fora, prorrompendo-se num jorro pelo arco 
da aorta e, irrompendo numa corrida, para cima, para baixo, para dentro e para fora, atravs de cartidas, renais, subclavianas. At os menores vasos capilares, 
florescendo sob a superfcie da pele, tracei o caminho de meu sangue pelos sistemas do meu corpo, lembrando-me do sentimento de perfeio, de sade. De paz.
        Fiquei sentada, imvel, respirando lentamente, sentindo-me lnguida e pesada, como se tivesse acabado de sair do ato de amor. Minha pele parecia fina, meus 
lbios ligeiramente inchados e a presso das minhas roupas era como o toque das mos de Jamie. No fora por uma escolha aleatria que eu invocara seu nome para me 
curar. Se era sade da mente ou do corpo, seu amor era necessrio para mim como o ar ou o sangue. Minha mente buscou-o, dormindo ou acordada, e ao encontr-lo, apaziguou-se. 
Meu corpo floresceu e resplandeceu, e ao alcanar a plenitude da vida, ansiou pelo corpo dele.
        A dor de cabea desaparecera. Permaneci sentada por mais algum tempo, respirando devagar. Em seguida, levantei-me e desci a colina em direo  casa.
        Na verdade, eu nunca tivera um lar. rf aos cinco, vivera a vida de um acadmico errante com meu tio Lamb pelos treze anos seguintes. Em tendas numa plancie 
poeirenta, em cavernas nas montanhas, nas cmaras adornadas e saqueadas de uma pirmide vazia, Quentin Lambert Beauchamp, M.S., Ph.D., F.R.A.S. etc. erguera a srie 
de acampamentos temporrios em que ele fazia o trabalho arqueolgico que o tornaria famoso muito antes que um acidente de carro acabasse com a vida de seu irmo 
e me lanasse em sua vida. No sendo do tipo que hesita sobre detalhes insignificantes como uma sobrinha rf, tio Lamb prontamente me matriculou num internato.
        No sendo do tipo que aceita os caprichos do destino sem lutar, recusei-me terminantemente a ir para l. E, reconhecendo em mim algo que ele prprio possua 
de sobra, tio Lamb deu de ombros e, num piscar de olhos, tirou-me para sempre do mundo de ordem e rotina, de contas de aritmtica, lenis limpos e banhos dirios, 
para segui-lo numa vida errante.
        A vida nmade continuara com Frank, embora com uma mudana do trabalho de campo para o trabalho em universidades, j que as escavaes de um historiador 
em geral so feitas entre paredes. Assim, quando a guerra explodiu em 1939, para mim foi uma ruptura menor do que para a maioria das pessoas.
        Eu me mudara de nosso ltimo apartamento alugado para as acomodaes das enfermeiras iniciantes no Pembroke Hospital e, de l, para uma base militar na Frana 
e, depois, de novo para Pembroke antes do fim da guerra. Em seguida, aqueles poucos meses com Frank, antes de virmos para a Esccia, procurando encontrar um ao outro 
novamente. Apenas para nos perdermos um do outro definitivamente, quando entrei no crculo de pedras, atravessei a loucura e sa do outro lado, no passado que era 
agora o meu presente.
        Era estranho, portanto, e de certa forma maravilhoso, acordar no quarto do andar superior de Lallybroch, ao lado de Jamie, e perceber, enquanto observava 
a luz da aurora tocar seu rosto adormecido, que ele nascera naquela cama. Todos os rudos da casa, do rangido da escada dos fundos sob o p de uma arrumadeira madrugadora, 
ao tamborilar da chuva nas telhas de ardsia, eram sons que ele ouvira mil vezes antes; tantas vezes que j no os ouvia mais. Eu, sim.
        Sua me, Ellen, plantara a roseira que florescia tardiamente junto  porta. Seu perfume intenso e inebriante ainda flutuava pelas paredes da casa at a janela 
do quarto de dormir. Era como se ela prpria entrasse no quarto, para toc-lo de leve ao passar. Para me tocar, tambm, dando-me as boas-vindas.
        Alm da casa propriamente dita, estendia-se Lallybroch; campos, celeiros, o vilarejo e os stios dos arrendatrios. Ele pescara no riacho que descia dos 
montes, subira nos carvalhos e nos elevados larcios, almoara junto ao fogo de cada cabana. Era sua terra.
        Mas ele, tambm, convivera com rupturas e mudanas. Priso e fuga como fora-da-lei; a vida sem razes de um soldado mercenrio. Nova deteno, encarceramento 
e tortura, e a fuga para o exlio to recentemente terminado. Mas vivera em um nico lugar durante os primeiros catorze anos de sua vida. E mesmo com essa idade, 
quando fora enviado, como era de costume, para ser criado por dois anos pelo irmo de sua me, Dougal MacKenzie, isso era parte integrante da vida esperada por um 
homem que iria retornar para viver para sempre em suas terras, cuidar de seus moradores e da propriedade, fazer parte de um organismo maior. O seu destino era a 
permanncia.
        Mas houve aquele perodo de ausncia e a experincia de vida alm dos limites de Lallybroch, alm at mesmo das costas rochosas da Esccia.
        Jamie falara com reis, aprendera leis e comrcio, experimentara a aventura, a violncia e a magia. Uma vez ultrapassadas as fronteiras do lar, o destino 
seria suficiente para prend-lo? Eu duvidava.
        Conforme eu descia a encosta da colina, eu o vi l embaixo, colocando pedras no lugar, enquanto consertava uma fenda em um dique construdo apenas com pedras 
e que ladeava um dos campos menores. Perto dele no cho, viam-se dois coelhos, perfeitamente eviscerados, mas cujas peles ainda no haviam sido removidas.
        - "O marinheiro est de volta ao lar, de volta do mar, e o caador de volta da colina" - eu disse, citando R. L. Stevenson, e sorrindo para ele ao me aproximar.
        Ele tambm sorriu para mim, limpou o suor da testa, depois fingiu estremecer.
        - No mencione o mar perto de mim, Sassenach. Vi dois garotos fazendo um pedao de madeira navegar no lago do moinho hoje de manh e quase vomitei o caf 
da manh s de olhar.
        Eu ri.
        - No tem nenhuma vontade de voltar para a Frana, ento?
        - Meu Deus, no. Nem mesmo pelo conhaque. - Ergueu uma ltima pedra para cima da parede e ajeitou-a no lugar. - Est voltando para casa?
        - Sim. Quer que eu leve os coelhos?
        Ele sacudiu a cabea, depois se inclinou para peg-los.
        - No precisa; eu tambm vou voltar. Ian precisa de uma ajuda com o novo poro de armazenamento para as batatas.
        A primeira safra de batata j plantada em Lallybroch estaria pronta para a colheita em poucos dias e - de acordo com minha orientao temerosa e inexperiente 
- um pequeno poro estava sendo escavado para armazen-las. Eu tinha sentimentos distintamente misturados sempre que olhava para a plantao de batatas. De um lado, 
sentia um considervel orgulho das plantas folhosas e esparramadas que cobriam o campo. De outro, sentia um pnico absoluto  idia de que sessenta famlias deveriam 
depender do que jazia sob aquelas folhas para se sustentarem durante o inverno. Foi seguindo um conselho meu - dado apressadamente h um ano - que um primoroso campo 
de cevada fora plantado com batata, um produto agrcola at ento desconhecido nas Highlands.
        Eu sabia que, com o tempo, a batata se tornaria um produto bsico de sobrevivncia nas Highlands, menos suscetvel a intempries do que as safras de aveia 
e cevada. Saber disso por meio de um pargrafo lido em um livro de geografia h muito tempo estava bem longe de deliberadamente assumir a responsabilidade pelas 
vidas das pessoas que se alimentariam daquela colheita.
        Perguntei-me se correr riscos por outras pessoas se tornava mais fcil com a prtica. Jamie o fazia rotineiramente, gerenciando os negcios da propriedade 
e dos arrendatrios como se tivesse nascido para isso. Mas,  claro, ele realmente nascera para isso.
        - O poro j est quase pronto? - perguntei.
        - Ah, sim. Ian j mandou construir as portas e o buraco j est praticamente escavado. O problema  s que h um pouco de terra fofa no fundo e sua perna 
de pau fica presa quando ele pisa l. - Embora Ian se locomovesse muito bem com a pea de madeira que usava como substituta para sua perna direita abaixo do joelho, 
havia dificuldades ocasionais como essa.
        Jamie olhou pensativamente para cima da colina atrs de ns.
        - Precisamos que o poro fique pronto e coberto esta noite; vai chover de novo antes de amanhecer.
        Voltei-me para olhar na mesma direo em que ele olhava. No havia nada na encosta da colina alm de grama e urzes, algumas rvores e os afloramentos de 
granito que projetavam ondulaes rochosas pelo meio do mato.
        - Como  que voc pode saber disso?
        Ele sorriu, apontando com o queixo para cima da colina.
        - Est vendo aquele pequeno carvalho? E o freixo ao lado? Olhei para as rvores, desconcertada.
        - Sim. O que  que tm?
        - As folhas, Sassenach. Est vendo como as duas rvores parecem mais claras do que o normal? Quando h umidade no ar, as folhas de um carvalho ou de um freixo 
viram-se, de modo que voc v o lado de baixo. A rvore inteira fica vrios tons mais clara.
        - Suponho que sim - concordei, com desconfiana. - Se voc souber qual a cor normal da rvore.
        Jamie riu e segurou meu brao.
        - Posso no ter ouvido para msica, Sassenach, mas tenho olhos. E eu j vi aquelas rvores talvez umas dez mil vezes, sob todas as condies do tempo.
        Era uma distncia razovel do campo at a casa da fazenda e caminhamos em silncio durante a maior parte do tempo, apreciando o breve calor do sol da tarde 
em nossas costas. Senti o cheiro do ar e pensei que Jamie provavelmente tinha razo sobre a chegada da chuva; todos os aromas normais do outono pareciam intensificados, 
das pungentes resinas dos pinheiros ao cheiro empoeirado de gros maduros. Imaginei que eu mesma devia estar aprendendo; entrando em sintonia com os ritmos, vises 
e cheiros de Lallybroch. Talvez com o passar do tempo, eu viesse a conhec-los to bem quanto Jamie. Apertei seu brao levemente e senti a presso de sua mo na 
minha em resposta.
        - Sente falta da Frana, Sassenach? - ele perguntou subitamente.
        - No - respondi, surpresa. - Por qu? Ele deu de ombros, sem olhar para mim.
        - Bem,  que eu estive pensando, vendo voc descendo a colina com a cesta no brao, como voc estava bonita com o sol nos seus cabelos castanhos. Achei que 
voc parecia ter nascido ali, como uma das plantas, como se sempre tivesse feito parte daqui. Ento, pensei de repente que, para voc, Lallybroch deve ser um lugar 
pequeno e pobre. No h uma vida grandiosa, como h na Frana; nem sequer um trabalho interessante, como voc tinha no Hpital. - Olhou para mim timidamente.
        - Suponho que fiquei preocupado que voc pudesse ficar cansada disso aqui... com o tempo.
        Parei antes de responder, embora no fosse algo em que eu ainda no tivesse pensado.
        - Com o tempo - eu disse cuidadosamente. -Jamie, j vi muita coisa em minha vida e j estive em muitos lugares. De onde eu venho... havia coisas l das quais 
eu sinto falta s vezes. Gostaria de viajar num nibus londrino outra vez ou pegar o telefone e conversar com algum distante. Gostaria de girar a torneira e ter 
gua quente, e no ter que carreg-la do poo e esquent-la num caldeiro. Eu gostaria de tudo isso, mas eu no preciso disso. Quanto a uma vida grandiosa, eu no 
a queria nem quando a tinha. Usar roupas bonitas  muito bom, mas se mexericos, maquinaes, preocupaes, festas bobas e regrinhas fteis de etiqueta tiverem que 
vir junto... no. Prefiro viver de camisolo e dizer o que penso.
        Ele riu e eu apertei seu brao outra vez.
        - Quanto ao trabalho... h muito trabalho para mim aqui. - Olhei para a cesta de ervas no meu brao. - Posso ser til. E se sinto falta de madre Hildegarde, 
ou de minhas outras amigas... bem, no  to imediato quanto o telefone, mas sempre h as cartas.
        Parei, segurando seu brao, e ergui os olhos para ele. O sol declinava no horizonte e a luz dourava um lado de seu rosto, colocando os ossos fortes em relevo.
        - Jamie... s quero estar onde voc estiver. Nada mais.
        Ele ficou parado por um instante, depois se inclinou para frente e beijou-me delicadamente na testa.
        - Engraado - eu disse, quando chegamos ao topo da ltima colina que levava at a casa. - Eu estive pensando as mesmas coisas a seu respeito.
        Se voc seria feliz aqui, aps tudo que fez na Frana. - Ele sorriu, com certa melancolia, e olhou para a casa, os trs andares de pedra pintadas de branco 
brilhando em tons dourados e marrom-avermelhados.
        - Bem, este  o meu lar, Sassenach.  a minha casa. Toquei seu brao delicadamente.
        ; - E voc nasceu para isso, no ?
        Ele respirou fundo e estendeu o brao para descansar a mo na cerca de madeira que separava este campo mais baixo do terreno ao redor da casa.
        - Bem, na verdade, eu no nasci para isso, Sassenach. Por direito, o senhor destas terras devia ser Willie. Se ele estivesse vivo, imagino que eu seria um 
soldado... ou talvez um mercador, como Jared.
        Willie, o irmo mais velho de Jamie, morrera de varola aos onze anos, deixando seu irmo menor, ento com seis anos de idade, como herdeiro de Lallybroch.
        Ele fez um gesto estranho com os ombros, como se buscasse amenizar a presso de sua camisa sobre as costas. Era algo que sempre fazia quando se sentia inseguro 
ou embaraado; h meses no o via fazer esse gesto.
        - Mas Willie morreu. E ento eu sou o senhor das terras. - Olhou para mim, um pouco timidamente, depois enfiou a mo na bolsa de pele de texugo que acompanhava 
seu kilt e retirou alguma coisa dali. Uma pequena serpente de cerejeira que Willie esculpira para ele como presente de aniversrio estava em sua mo, a cabea virada, 
como se estivesse surpresa de ver a prpria cauda.
        Jamie acariciou a pequena cobra ternamente; a madeira estava lustrosa e lisa dos anos de manuseio, as curvas do corpo brilhando como escamas  luz do crepsculo.
        - s vezes, converso mentalmente com Willie - Jamie disse. Virou a serpente na palma da mo. - Se voc tivesse vivido, irmo, se fosse o senhor das terras 
como era seu destino, teria feito o que eu fiz? Ou teria encontrado um modo melhor? - Olhou para mim, ligeiramente ruborizado. - Isso lhe parece tolice?
        - No. - Toquei a cabea lisa da cobra com a ponta do dedo. Ouviu-se um grito alto e claro de um peito-amarelo vindo de um campo distante, fino como cristal 
no ar do incio da noite.
        - Eu fao o mesmo - eu disse suavemente, aps um instante. - Com tio Lamb. E com meus pais. Especialmente minha me. E-eu no pensava nela com freqncia 
quando eu era pequena, apenas s vezes sonhava com algum terno e caloroso, com uma bela voz. Mas quando eu estava doente, depois de... Faith, s vezes imaginava 
que ela estava l. Comigo. - Uma repentina onda de dor e pesar tomou conta de mim, lembranas de perdas recentes e antigas.
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        Jamie tocou meu rosto ternamente, limpando a lgrima que se formara no canto de um dos olhos, mas que no rolara.
        - Acho que s vezes os mortos pensam em ns com carinho, como pensamos neles - disse  meia-voz. - Vamos, Sassenach. Vamos caminhar um pouco; ainda falta 
bastante tempo para o jantar.
        Prendeu meu brao ao seu, bem junto ao corpo, e seguimos ao longo da cerca, caminhando lentamente, o capim seco roando em minhas saias.
        - Entendo o que quer dizer, Sassenach -Jamie disse. - As vezes, ouo a voz do meu pai, no celeiro ou no campo. Em geral, quando nem sequer estou pensando 
nele. Mas de repente viro a cabea, como se tivesse acabado de ouvir sua voz do lado de fora, rindo com um dos colonos, ou atrs de mim, acalmando um cavalo.
        Riu e fez um sinal com a cabea na direo de um canto do pasto  nossa frente.
        -  de admirar que eu nunca o tenha ouvido aqui, mas nunca ouvi. Era um local sem nada de extraordinrio, um porto de ripas de madeira na cerca de pedra 
paralela  estrada.
        -  mesmo? O que ele costumava dizer aqui?
        - Geralmente era: "Se acabou de falar, Jamie, vire-se e abaixe-se." Rimos, parando e nos apoiando no muro de pedras. Inclinei-me um pouco mais, examinando 
a madeira do porto.
        - Ento, era aqui que voc apanhava de seu pai? No vejo nenhuma marca de dentes - eu disse.
        - No, no era to grave assim - ele disse, rindo. Passou a mo afetuosamente ao longo do parapeito gasto e acinzentado do porto.
        - Ns costumvamos ficar com farpas em nossos dedos, s vezes, Ian e eu. amos para casa depois e a sra. Crook ou Jenny os retirava para ns, ralhando com 
a gente o tempo todo.
        Olhou para a manso, onde todas as janelas do primeiro andar brilhavam iluminadas contra a noite que se avizinhava. Formas escuras passavam rapidamente pelas 
janelas; sombras pequenas, ligeiras, nas janelas da cozinha, onde a sra. Crook e as criadas preparavam o jantar. Um vulto maior, alto e delgado como o parapeito 
da cerca, surgiu em uma das janelas da sala de estar. Ian ficou ali parado por um instante, sua figura em silhueta contra a luz, como se tivesse sido chamado pelas 
reminiscncias de Jamie. Em Seguida, cerrou as cortinas e a janela turvou-se para uma claridade mais suave, encoberta.
        - Eu sempre estava feliz quando Ian estava comigo -Jamie disse, ainda olhando para a casa. - Quero dizer, quando ramos flagrados em alguma traquinagem e 
apanhvamos por causa disso.
        - A desgraa gosta de companhia? - eu disse, sorrindo.
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        - Um pouco. Eu no me sentia to travesso quando havia ns dois para compartilhar a culpa. Mas era principalmente porque eu sempre podia contar com ele para 
fazer muito barulho.
        - O que, berrar, voc quer dizer?
        - Sim. Ele sempre gritava e continuava berrando horrivelmente, e eu sabia que ele faria isso, de modo que no me sentia to envergonhado dos meus prprios 
gritos, se eu tivesse que chorar. - J estava escuro demais para que eu pudesse ver seu rosto, mas ainda pude ver o trejeito com os ombros que ele fazia quando estava 
envergonhado ou sem jeito.
        - Eu sempre tentava no chorar,  claro, mas nem sempre conseguia. Se meu pai achava que valia a pena me dar uma surra, ele achava que devia fazer um bom 
trabalho. E o pai de Ian tinha um brao direito que mais parecia uma tora.
        - Sabe - eu disse, olhando para a casa -, eu nunca pensei particularmente nisso antes, mas por que seu pai lhe dava as surras aqui, Jamie? Certamente, h 
muito espao na casa... ou no celeiro.
        Jamie ficou em silncio por um instante, depois deu de ombros outra vez.
        - Nunca perguntei. Mas imagino que seja algo como o rei da Frana.
        - O rei da Frana? - A aparente falta de lgica me desconcertou um pouco.
        - Sim. Eu no sei - ele disse secamente - exatamente como  tomar banho, se vestir e fazer suas necessidades em pblico, mas posso lhe garantir que  uma 
experincia muito humilhante ter que ficar l e explicar a um dos colonos de seu pai exatamente o que voc fez para merecer ficar com o traseiro escaldado.
        - Imagino que deva ser - eu disse, a compaixo misturada  vontade incontrolvel de rir. - Porque voc um dia iria ser o patro, quer dizer? Era por isso 
que ele o surrava aqui?
        - Creio que sim. Os colonos iriam saber que eu entendia o que era justia... ao menos, do lado de quem recebe a punio.
        
        
        
32 - CAMPO DOS SONHOS
        
        O campo fora arado da maneira habitual, com montculos altos de terra amontoada e sulcos profundos entre eles. Os montculos erguiam-se  altura dos joelhos, 
de modo que um homem caminhando dentro de um dos sulcos podia espalhar as sementes facilmente ao longo do topo do montculo a seu lado. Projetados para o plantio 
de cevada ou aveia, no viram motivo para modific-los para a plantao de batatas.
        - A recomendao era "colinas" - Ian disse, espreitando a extenso dos campos de batatas -, mas achei que os montculos serviriam. O objetivo das colinas 
parecia ser impedir que as plantas apodrecessem com excesso de gua e um campo antigo com montculos altos parecia fazer o mesmo.
        - Faz sentido - Jamie concordou. - Os ps de batata nos topos parecem estar exuberantes, de qualquer forma. Mas o sujeito diz como se sabe quando j est 
na hora de desencavar as batatas?
        Encarregado de plantar batatas numa terra onde nunca se vira uma batata, Ian trabalhara com mtodo e lgica, mandando um enviado a Edimburgo para comprar 
tanto as sementes quanto um livro sobre o plantio. No devido tempo, o livro intitulado Tratado cientfico sobre mtodos de cultivo, de sr Walter O'Bannion Reilly, 
apareceu, com uma pequena seo sobre a plantao de batatas como atualmente praticada na Irlanda.
        Ian carregava esse grosso volume sob o brao - Jenny contara-me que ele no ia ao campo de batatas sem ele, por medo de que alguma questo complicada de 
filosofia ou tcnica lhe ocorresse quando estivesse l - e agora abriu-o, segurando-o com o brao enquanto remexia na bolsa do Seu kilt para pegar os culos que 
usava para ler. Os culos haviam pertencido a seu falecido pai; eram pequenos crculos de vidro, presos em aros de metal e normalmente usados na ponta do nariz, 
que o faziam parecer uma Jovem e sria cegonha.
        - "A colheita da safra deve ser feita simultaneamente ao aparecimento do primeiro ganso de inverno" - ele leu, depois ergueu os olhos, estreitando-os acusadoramente 
por cima dos culos para a plantao de batatas, como se esperasse que um ganso esticasse a cabea entre os sulcos e montculos.
        - Ganso de inverno? - Jamie espreitou o livro por cima do ombro de Ian, a testa franzida. - A que espcie de ganso ele est se referindo? Gansos cinzentos? 
Mas voc os v o ano todo. Isso no pode estar certo.
        Ian deu de ombros.
        - Talvez na Irlanda voc s os veja no inverno. Ou talvez ele esteja se referindo a algum tipo de ganso irlands e no de gansos cinzentos.
        Jamie fez um muxoxo.
        - Bem, isso no adianta nada para ns. Ele diz alguma coisa til?
        Ian correu o dedo pelas linhas impressas, movendo os lbios silenciosamente. A essa altura, j havamos reunido um bom nmero de camponeses, todos fascinados 
por essa novidade na agricultura.
        - No se desencava as batatas em tempo de chuva, com o solo molhado - Ian nos informou, produzindo um muxoxo ainda mais enftico em Jamie.
        - Humm - Ian murmurou consigo mesmo. - Apodrecimento da batata, pragas da batata. Ns no temos nenhum bicho de batata, suponho que isso seja uma sorte. 
Ps de batata... hum, no, isso  apenas o que fazer quando o p seca. Ressecamento das batatas... no saberemos se temos isso enquanto no virmos as batatas. Sementes 
de batatas, armazenagem de batatas...
        Impaciente, Jamie afastou-se de Ian, as mos nos quadris.
        - Cultivo cientfico, hein? - exclamou. Fitou, irado, a plantao folhosa e verde-escura. - Suponho que seja cientfico demais para explicar como sabemos 
se as malditas batatas esto prontas para serem comidas!
        Fergus, sempre nos calcanhares de Jamie, ergueu os olhos de uma lagarta, avanando devagar e tortuosamente ao longo de seu dedo indicador.
        - Por que voc simplesmente no desencava uma e v? - ele perguntou. Jamie olhou fixamente para Fergus por um instante. Sua boca abriu-se, mas nenhum som 
emergiu. Fechou a boca, deu uns tapinhas delicadamente na cabea de Fergus e foi buscar um forcado do seu lugar, apoiado a cerca.
        Os colonos, todos homens que haviam ajudado a plantar e cuidar da plantao sob a orientao de Ian - assistidos por sir Walter -, aglomeraram-se em volta 
para ver o resultado de seu trabalho.
        Jamie escolheu uma rama grande e viosa na borda do campo e posicionou o forcado com todo o cuidado junto s suas razes. Visivelmente prendendo a respirao, 
colocou o p sobre a parte de cima do forcado e empurrou. Os dentes do garfo deslizaram lentamente para dentro do solo mido e marrom.
        Eu mesma prendia a respirao. Havia muito mais em jogo com essa experincia do que a reputao de sir Walter O'Bannion Reilly. Ou, quanto a isso, a minha 
prpria.
        Jamie e Ian haviam confirmado que a safra de cevada deste ano fora menor do que o normal, embora ainda suficiente para as necessidades dos habitantes de 
Lallybroch. No entanto, mais um ano ruim iria exaurir as magras reservas de gros. Para uma propriedade das Highlands, Lallybroch era prspera; mas isso podia ser 
dito apenas em comparao com outras fazendas das Highlands. O cultivo bem-sucedido de batatas poderia fazer realmente a diferena entre a fome e a fartura para 
a gente de Lallybroch pelos prximos dois anos.
        O salto da bota de Jamie pressionou para baixo e ele inclinou o corpo sobre o cabo do forcado. A terra esboroou-se e rachou em torno da rama e, com um pop 
repentino, o p de batata ergueu-se e a terra revelou sua generosidade.
        Um "Ah!" coletivo ergueu-se dos espectadores  vista dos numerosos glbulos marrons agarrados s razes da planta arrancada. Tanto Ian quanto eu camos de 
joelhos na terra, remexendo o solo fofo  cata de batatas arrancadas da rama.
        - Deu certo! - Ian repetia sem parar enquanto tirava uma batata atrs da outra do solo. - Olhem s para isso! Esto vendo o tamanho?
        - Sim, olhe essa aqui! - exclamei, encantada, brandindo uma batata do tamanho de meus dois punhos unidos.
        Por fim, tivemos o produto de nossa amostra colocado em um cesto; talvez umas dez batatas de bom tamanho, aproximadamente vinte e cinco espcimes comparveis 
a um punho cerrado e numerosas batatas pequenas, do tamanho de bolas de golfe.
        - O que acha? - Jamie examinou nossa coleo com um ar interrogativo. - Devemos deixar o resto, para que as pequenas cresam mais? Ou tir-las agora, antes 
que o frio chegue?
        Ian tateou absortamente  procura dos culos, depois se lembrou de que sir Walter estava distante, junto  cerca, e abandonou o esforo. Sacudiu a cabea.
        - No, acho que assim est certo - ele disse. - O livro diz que se deve guardar as menores como sementes para o prximo ano. Vamos precisar de muitas delas. 
- Deu-me um largo sorriso de satisfao e alvio, uma mecha de cabelos castanhos, lisos e abundantes, caindo na testa. Um dos lados do rosto estava sujo de terra.
        Uma das mulheres dos colonos inclinava-se sobre o cesto, examinando o contedo. Esticou um dedo experimentalmente e cutucou uma das batatas.
        - Voc diz que se pode com-las? - Franziu as sobrancelhas com ar ctico. - No vejo como seria possvel pass-las no moedor para fazer po ou mingau.
        - Bem, acho que no so modas, sra. Murray - Jamie explicou educadamente.
        - Ah, no? - A mulher estreitou os olhos para o cesto, criticamente. -Bem, ento o que se faz com elas?
        - Bem, voc... -Jamie comeou e, em seguida, parou. Ocorreu-me, como sem dvida ocorrera a ele tambm, que embora ns tivssemos comido batatas na Frana, 
ele nunca vira algum prepar-las. Disfarcei um sorriso quando ele olhou desalentado para a batata coberta de crostas de terra que segurava na mo. Ian tambm a 
fitou, desconcertado; aparentemente, sir Walter nada disse sobre o assunto da preparao da batata para o consumo.
        - Voc assa na brasa. - Mais uma vez, Fergus veio em nosso auxlio, enfiando a cabea por baixo do brao de Jamie. Estalou os lbios ao ver as batatas. - 
Coloca sobre as brasas do fogo. Come-se com sal. Manteiga  bom, se voc tiver.
        - Ns temos -Jamie disse, com ar de alvio. Atirou a batata para a sra. Murray, como se estivesse ansioso para se livrar dela. - Devem ser assadas - ele 
informou-a com firmeza.
        - Tambm pode cozinh-las - eu contribu. - Ou amass-las com leite. Ou frit-las. Ou cort-las em pedacinhos e colocar na sopa. Um alimento muito verstil, 
a batata.
        -  o que diz o livro - Ian acrescentou, com satisfao.
        Jamie olhou para mim, o canto da boca torcendo-se num sorriso.
        - Voc nunca me disse que sabia cozinhar, Sassenach.
        - Eu no chamaria isso de cozinhar, exatamente - eu disse -, mas sem dvida sei preparar uma batata.
        - timo. - Jamie lanou um olhar para o grupo de lavradores e suas mulheres, que passavam as batatas de mo em mo, examinando-as com ar de dvida. Ele bateu 
palmas com fora para chamar a ateno de todos.
        - Vamos jantar aqui junto ao campo hoje - disse-lhes. - Vamos buscar um pouco de lenha para a fogueira, Tom e Willie, e a sra. Willie poderia trazer seu 
caldeiro? Sim, timo, um dos homens a ajudar a traz-lo at aqui. Voc, Kincaid - virou-se para um dos lavradores mais novos e acenou na direo do pequeno aglomerado 
de cabanas sob as rvores. - va dizer a todo mundo, vamos comer batatas no jantar!
        E assim, com a ajuda de Jenny, dez baldes de leite do barraco da leiteria, trs galinhas da capoeira e quatro dzias de alhos-pors grandes da horta, eu 
presidi a preparao de uma sopa e de batatas assadas para o senhor e os arrendatrios de Lallybroch.
        O sol j desaparecera no horizonte quando o jantar ficou pronto, mas o cu ainda estava claro, com veios vermelhos e dourados que atravessavam os galhos 
escuros do bosque de pinheiros na colina. Houve uma certa hesitao quando os camponeses ficaram cara a cara com a proposta adio  sua dieta, mas o ambiente festivo 
- ajudado por um pequeno e oportuno barril de usque domstico - superou quaisquer temores e logo o terreno junto ao campo de batatas estava apinhado de figuras 
de comensais improvisados, arqueados sobre suas tigelas apoiadas nos joelhos.
        - O que acha, Dorcas? - ouvi uma mulher perguntar  sua vizinha. -Tem um gosto meio estranho, no?
        Dorcas, assim questionada, balanou a cabea e engoliu antes de responder.
        - , sim. Mas o patro j comeu seis dessas at agora e elas ainda no o mataram.
        A reao dos homens e das crianas foi bem mais entusistica, provavelmente devido s generosas pores de manteiga servida com as batatas.
        - Os homens so capazes de comer bosta de cavalo se voc servir com manteiga - Jenny disse, em resposta a uma observao semelhante. -Homens! Uma barriga 
cheia e um lugar para dormir quando esto bbados e isso  tudo que pedem da vida.
        - Eu me pergunto por que voc atura a mim e a Jamie - Ian a provocou ao ouvir -, j que pensa to pouco dos homens.
        Jenny balanou a concha da sopa descartando marido e irmo, sentados lado a lado no cho, perto do caldeiro.
        - Ah, vocs no so "homens".
        As sobrancelhas arrepiadas de Ian ergueram-se e as de Jamie, mais espessas e ruivas, fizeram o mesmo.
        - Ah, no somos, no? Bem, o que somos, ento? - Ian perguntou. Jenny voltou-se para ele com um sorriso, os dentes brancos cintilando a luz da fogueira. 
Deu um tapinha carinhoso na cabea de Jamie e um beijo na testa de Ian.
        - Vocs so meus - ela disse.
        Aps o jantar, um dos homens comeou a cantar. E outro trouxe uma flauta de madeira e acompanhou-o, o som agudo mas penetrante na noite glida de outono. 
Fazia frio, mas no havia vento, e a sensao era de aconchego, envoltos em xales e cobertores, reunidos em pequenos grupos familiares ao redor do fogo. As chamas 
foram aumentadas depois da preparao do jantar e agora faziam um rombo significativo na escurido.
        O nosso prprio aglomerado familiar, agradavelmente aquecido, estava um pouco ativo demais. Ian fora buscar outra braada de lenha e a pequena Maggie agarrava-se 
a sua me, forando seu irmo mais velho a buscar refgio e calor humano em outro lugar.
        - Vou enfi-lo de cabea para baixo naquele caldeiro se voc no parar de cutucar meu saco - Jamie informou o sobrinho, que se contorcia vigorosamente no 
colo do tio. - Qual  o problema? Tem formiga nas calas?
        A pergunta foi recebida com uma onda de risadinhas e um notvel esforo de se esconder na parte do meio de seu hospedeiro. Jamie tateou no escuro, fazendo 
tentativas deliberadamente desajeitadas de agarrar os braos e as pernas de seu xar, depois passou os braos em volta do menino e rolou por cima dele, forando 
um berro espantado de alegria e prazer do pequeno Jamie.
        Jamie prendeu o sobrinho com fora no cho e o manteve l com uma das mos enquanto tateava cegamente no cho no escuro. Agarrando um punhado de grama molhada 
com um grunhido de satisfao, ergueu-se o suficiente para enfiar a grama pela gola da camisa do pequeno Jamie, mudando as risadas por um grito mais agudo, mas no 
menos encantado.
        - Pronto, a est - Jamie disse, rolando de cima da pequena figura. -V chatear sua tia para variar.
        O pequeno Jamie obedientemente arrastou-se at mim apoiado nas mos e nos joelhos, ainda dando risadas, e aconchegou-se no meu colo entre as pregas do meu 
manto. Sentou-se o mais quieto possvel para um garoto de quase quatro anos - o que no  muito quieto, se considerarmos bem - e deixou que eu removesse a maior 
parte da grama de sua camisa.
        - Voc tem um cheiro bom, tia - ele disse, roando afetuosamente o meu queixo com sua juba de cachos negros emaranhados. - Cheiro de comida.
        - Bem, obrigada - eu disse. - Devo entender que voc est com fome outra vez?
        - Sim. Tem leite?
        - Tem, sim. - Eu podia alcanar o jarro de cermica estendendo bem a mo. Sacudi a botija, decidi que no restava muito para valer a pena ir buscar uma xcara 
e inclinei o jarro, segurando-o para que o menino pudesse beber direto do recipiente.
        Temporariamente absorto em tomar o leite, ele ficou quieto, o corpo pequeno e vigoroso pesado sobre minha coxa, as costas apoiadas contra meu brao enquanto 
envolvia o jarro com as duas mos rechonchudas.
        As ltimas gotas de leite gorgolejaram da botija. O pequeno Jamie relaxou imediatamente e emitiu um leve soluo de saciedade. Eu podia sentir o calor emanando 
dele com aquela repentina subida de temperatura que anuncia o sono em crianas muito pequenas. Enrolei-o nas dobras do meu manto e embalei-o devagar para a frente 
e para trs, cantarolando baixinho a cano que cantavam do outro lado da fogueira. Os pequenos ns de suas vrtebras eram redondos e duros como bolas de gude sob 
meus dedos.
        - Ele adormeceu? - O corpanzil de Jamie assomou junto ao meu ombro, a luz do fogo fazendo brilhar o cabo de sua adaga e o cobre de seus cabelos.
        - Sim - respondi. - Ao menos no est se remexendo, ento deve estar dormindo.  mais ou menos como segurar um grande presunto.
        Jamie riu, em seguida ele prprio ficou imvel e em silncio. Eu podia sentir a dureza de seu brao apenas roando o meu e o calor de seu corpo pelas pregas 
do xale de xadrez e da minha capa escocesa, chamada arisaid.
        Uma brisa noturna soprou uma mecha de cabelos no meu rosto. Alisei-a para trs e descobri que o pequeno Jamie tinha razo; minhas mos cheiravam a alho-por, 
a manteiga e a amido das batatas cortadas. Dormindo, era um peso morto e, embora segur-lo fosse reconfortante, ele estava cortando a circulao da minha perna esquerda. 
Remexi-me um pouco, com a inteno de estend-lo sobre meu colo.
        - No se mova, Sassenach - a voz de Jamie soou baixa ao meu lado. - S por um instante, mo duinne... fique imvel..
        Obedientemente, fiquei paralisada, at que ele me tocou no ombro.
        - Tudo bem agora, Sassenach - ele disse, com um sorriso na voz. -  que voc estava to bonita, com a luz da fogueira no rosto e os cabelos balanando ao 
vento. Eu queria me lembrar dessa imagem para sempre.
        Voltei-me para encar-lo, ento, e sorri para ele, por cima do corpo da criana. A noite estava escura e fria, animada de pessoas ao redor, mas no havia 
nada onde estvamos sentados alm de luz e calor - e de ns dois.
        
        
        
33 - O PROTETOR DO IRMO
        
        Fergus, aps algum tempo de silenciosa observao pelos cantos, tornou-se parte do ambiente domstico, assumindo a posio oficial de ajudante do estbulo, 
junto com Rabbie MacNab.
        Embora Rabbie fosse um ou dois anos mais novo do que Fergus, era do mesmo tamanho do franzino garoto francs e logo tornaram-se amigos inseparveis, exceto 
nas ocasies em que discutiam - o que acontecia duas ou trs vezes por dia - e ento tentavam matar um ao outro. Certa manh, depois que uma briga se agravou em 
punhos brandindo no ar, socos, pontaps e os dois rolaram pelo cho da leiteria e derramaram dois canecos de creme deixados ali para fermentar, Jamie resolveu intervir.
        Com um ar sofrido, mas implacvel, ele pegou cada vilo pela nuca do fino pescoo e arrastou-os para a privacidade do celeiro, onde, presumo, ele superou 
quaisquer escrpulos que ainda tivesse sobre a administrao de castigo fsico. Saiu do celeiro a passos largos e pesados, sacudindo a cabea e afivelando seu cinto 
de volta  cintura, e partiu com Ian a cavalo para atravessar o vale at Broch Mordha. Os garotos saram do celeiro algum tempo depois, substancialmente submissos 
e - unidos na adversidade - de novo os melhores amigos.
        Bastante amansados, de fato, para permitirem que o pequeno Jamie os seguisse de perto enquanto realizavam suas tarefas. Quando olhei pela janela mais tarde, 
vi os trs brincando no quintal com uma bola de pano. Era um dia frio e nebuloso, e a respirao dos garotos erguia-se em nuvens leves conforme corriam e gritavam.
        - Voc tem um garoto muito forte e resistente - observei a Jenny, que vasculhava seu cesto de costura  procura de um boto. Ela ergueu os olhos, viu para 
onde eu olhava, e sorriu.
        - Ah, sim, o pequeno Jamie  um garoto e tanto. - Veio unir-se a mim  janela, espreitando para o jogo l embaixo.
        - Ele  a cara do pai - observou amorosamente -, mas vai ter os ombros muito mais largos, eu acho. Deve ficar grande como o tio; est vendo aquelas pernas? 
- Achei que ela provavelmente tinha razo; conquanto o pequeno Jamie, com quase quatro anos de idade, ainda tivesse os contornos rechonchudos de uma criana pequena, 
suas pernas eram longas e as costas eram largas, planas e musculosas. Possua os ossos longos e graciosos de seu tio e o mesmo aspecto que seu xar maior projetava, 
de ser composto de algo ao mesmo tempo mais duro e mais flexvel do que a carne comum. Observei o menino lanar-se sobre a bola, arrebat-la com um movimento gil 
e atir-la com fora suficiente para passar direto pela cabea de Rabbie MacNab, que saiu correndo, gritando, para resgat-la.
        - Ele se parece ao tio em outra coisa - eu disse. - Acho que tambm vai ser canhoto.
        - Ah, meu Deus! - Jenny exclamou, a testa franzida enquanto examinava de longe seu rebento. - Espero que no, mas talvez voc tenha razo. - Sacudiu a cabea, 
suspirando.
        - Meu Deus, quando penso nos problemas que o pobre Jamie teve por ser canhoto! Todo mundo tentava endireit-lo, dos meus pais ao professor na escola, mas 
ele sempre foi teimoso como uma mula e no cedia. Todos, exceto o pai de Ian, ao menos - ela acrescentou, como uma reflexo tardia.
        - Ele no achava errado ser canhoto? - perguntei curiosamente, sabendo que a opinio geral da poca era a de que ser canhoto era, na melhor das hipteses, 
um azar e, na pior, um sinal de possesso demonaca. Jamie escrevia com dificuldade com a mo direita, porque sempre apanhava na escola por pegar a pena com a mo 
esquerda.
        Jenny sacudiu a cabea, os cachos negros balanando-se sob sua touca.
        - No, o velho John Murray era um homem estranho. Dizia que se Deus escolhera fortalecer assim o brao esquerdo de Jamie, seria um pecado rejeitar o dom. 
E ele era um excelente espadachim, o velho John, de modo que meu pai ouviu-o e deixou que Jamie aprendesse a lutar com a mo esquerda.
        - Pensei que tivesse sido Dougal MacKenzie quem ensinara Jamie a lutar com a mo esquerda - eu disse. Eu me perguntava qual seria a opinio de Jenny sobre 
seu tio Dougal.
        Ela fez um gesto afirmativo com a cabea, lambendo a ponta de uma linha antes de pass-la pelo buraco da agulha com um rpido empurro.
        - Sim, mas isso foi mais tarde, quando Jamie j estava crescido e foi morar com Dougal. Foi o pai de Ian quem lhe ensinou os primeiros golpes. - Ela sorriu, 
os olhos na camisa em seu colo.
        - Lembro-me, quando eram jovens, o velho John disse a Ian que sua funo era ficar do lado direito de Jamie, porque ele devia guardar o lado mais fraco de 
seu chefe durante uma luta. E ele o fazia, os dois levaram isso muito a srio. E acho que o velho John estava certo - acrescentou, cortando com a tesoura o excesso 
de linha. - Depois de algum tempo, ningum mais lutava com eles, nem mesmo os rapazes MacNab. Jamie e Ian eram ambos bem altos e timos lutadores, e quando ficavam 
ombro a ombro, ningum conseguia derrub-los, ainda que os adversrios estivessem em maior nmero.
        Riu de repente e arrumou um anel de cabelo para trs da orelha.
        - Observe-os de vez em quando, andando juntos pelo campo. Acho que eles nem percebem que ainda fazem isso, mas fazem. Jamie sempre se move para a esquerda, 
de modo que Ian possa assumir seu posto  direita, guardando o lado mais fraco.
        Jenny ficou olhando pela janela, o olhar distante, a camisa momentaneamente esquecida no colo, e colocou a mo sobre o pequeno volume em seu ventre.
        - Espero que seja um menino - ela disse, olhando para seu filho de cabelos escuros l embaixo. - Canhoto ou no,  bom para um homem ter um irmo para ajud-lo. 
- Notei seu olhar para o quadro na parede, Jamie ainda criana, de p entre os joelhos de seu irmo mais velho, Willie. Os dois rostos juvenis altivos e solenes; 
a mo de Willie repousava protetoramente no ombro de seu irmo pequeno.
        - Jamie tem sorte de ter Ian - eu disse.
        Jenny afastou o olhar do quadro e piscou uma vez. Era dois anos mais velha do que Jamie; seria trs anos mais nova do que William.
        - Sim,  verdade. E eu tambm - ela disse suavemente, retomando o trabalho na camisa.
        Peguei um macaco de criana da cesta de roupas para consertar e virei-o do avesso, para ver a costura rasgada embaixo do brao. Estava frio demais l fora 
para qualquer pessoa que no meninos brincando ou homens trabalhando, mas estava confortvel e aconchegante na sala de estar; as vidraas embaaram-se rapidamente 
enquanto trabalhvamos, nos isolando do mundo gelado l de fora.
        - Por falar em irmos - eu disse, estreitando os olhos enquanto enfiava a linha na minha prpria agulha -, voc via Dougal e Colum MacKen-zie com freqncia 
quando eram crianas?
        Jenny sacudiu a cabea.
        - Nunca conheci Colum. Dougal veio aqui uma ou duas vezes, trazendo Jamie de volta depois das festas do Hogmanay, o Ano-Novo, ou algo assim, mas no posso 
dizer que o conheo bem. - Ela ergueu a cabea da costura, os olhos puxados brilhantes de interesse. - Mas voc os conhece. Diga-me, como  Colum MacKenzie? Sempre 
me perguntei, por uma ou outra coisa que ouvia dos visitantes que vinham aqui, mas meus pais nunca falavam dele. - Parou por um instante, um sulco entre as sobrancelhas.
        - No, estou errada; meu pai realmente disse algo sobre ele uma vez. Foi logo depois de Dougal ter ido embora, voltando a Beannachd com Jamie. Papai estava 
apoiado na cerca l fora, observando-os at se perderem de vista, e eu aproximei-me dele para acenar adeus para Jamie. Eu sempre sentia muito quando ele ia embora, 
porque no sabia quanto tempo ele iria ficar longe. De qualquer modo, ficamos observando-os at dobrarem o topo da colina e ento papai estremeceu ligeiramente, 
resmungou e disse: "Deus ajude Dougal MacKenzie quando seu irmo Colum morrer." Ento, pareceu lembrar-se que eu estava l, porque se virou, sorriu para mim e disse: 
"Bem, menina, o que temos para jantar hoje?" E no tocou mais no assunto.
        As sobrancelhas negras, elegantes e bem torneadas como pinceladas de caligrafia, ergueram-se intrigadas e inquiridoras.
        - Achei isso estranho, porque ouvi dizer, quem no ouviu?, que Colum est gravemente aleijado e que Dougal  quem faz o trabalho de chefe do cl por ele, 
recolhendo aluguis e resolvendo disputas, alm de liderar o cl para a batalha, quando necessrio.
        -  verdade. Mas... - hesitei, sem saber ao certo como descrever aquele estranho relacionamento simbitico. - Bem - eu disse com um sorriso -, o mais prximo 
que posso chegar  dizer-lhe que por acaso eu os ouvi discutir uma vez, e Colum disse a Dougal: "Estou lhe dizendo, se os irmos MacKenzie tm entre si apenas um 
pnis e um crebro, ento estou satisfeito com minha parte no negcio!"
        Jenny soltou uma risada repentina de surpresa, depois me olhou fixamente, um brilho especulativo no fundo dos olhos azuis, to parecidos com os do irmo.
        - Ah, ento  assim, hein? Uma vez eu me perguntei, ouvindo Dougal falar sobre o filho de Colum, o pequeno Hamish; ele parecia um pouco mais afetuoso do 
que seria o normal para um tio.
        - Voc  rpida, Jenny - eu disse, fitando-a tambm. - Muito rpida. Levei muito tempo para deduzir isso e eu os vi todos os dias durante meses.
        Ela deu de ombros modestamente, mas um pequeno sorriso brincava em seus lbios.
        - Eu ouo com ateno - disse simplesmente. - Ao que as pessoas dizem... e ao que no dizem. E as pessoas realmente mexericam aqui nas Ighlands. Ento - 
ela cortou uma linha com os dentes e cuspiu as pontas Perfeitamente na palma da mo -, conte-me sobre Leoch. Dizem que  enorme, mas no to imponente quanto Beauly 
ou Kilravock.
        Trabalhamos e conversamos durante a manh inteira, passando do conserto de roupas  fiao de l para tric e ao molde de um novo vestido para Maggie. Os 
gritos dos garotos do lado de fora cessaram e foram substitudos por murmrios e batidas nos fundos da casa, sugerindo que os meninos ficaram com frio e foram infestar 
a cozinha.
        - Ser que vai nevar logo? - Jenny disse, com um olhar para a janela. - O ar est mido; viu a neblina sobre o lago hoje de manh?
        Sacudi a cabea.
        - Espero que no. Vai dificultar a volta de Jamie e Ian. - A vila de Broch Mordha ficava a cerca de quinze quilmetros de Lallybroch, mas o caminho estendia-se 
por colinas altas, com encostas ngremes e rochosas, e no passava de uma trilha de veados. De fato, nevou, logo depois de meio-dia, e os flocos de neve continuaram 
se precipitando em redemoinhos at bem depois do cair da noite.
        - Devem ter ficado para pernoitar em Broch Mordha - Jenny disse, tirando a cabea coberta com a touca de dormir da janela aps uma inspeo do cu nublado, 
com seu brilho de neve rosada. - No se preocupe com eles; devem estar bem quentes embaixo das cobertas na cabana de algum para passar a noite. - Sorriu de modo 
reconfortante para mim, enquanto fechava as persianas. Ouviu-se um choro repentino do fundo do corredor e ela arrebanhou as saias de sua camisola com uma exclamao 
abafada.
        - Boa-noite, Claire - ela disse, j correndo para atender  sua misso maternal. - Durma bem.
        De fato, eu geralmente dormia bem; apesar do clima frio e mido, a casa era uma construo robusta e a cama de colcho de penas de ganso era bem suprida 
de cobertores e acolchoados. Esta noite, entretanto, sentia-me inquieta sem a presena de Jamie. A cama parecia grande e fria, minhas pernas contradas e meus ps 
frios.
        Tentei deitar de costas, as mos cruzadas de leve sobre as costelas, os olhos cerrados, respirando fundo, para evocar a figura de Jamie; se eu pudesse imagin-lo 
ali, respirando profundamente ao meu lado na escurido, talvez conseguisse adormecer.
        O canto de um galo cocoricando a plenos pulmes arrancou-me do travesseiro com um sobressalto, como se uma banana de dinamite tivesse explodido embaixo da 
cama.
        - Idiota! - eu disse, cada nervo do meu corpo vibrando com o choque. Levantei-me e abri uma fresta da veneziana. Parara de nevar, mas o cu ainda estava 
plido de nuvens, uma cor uniforme de um lado a outro no horizonte. O galo emitiu outro grito no galinheiro embaixo.
        - Cale-se! - eu disse. - Estamos no meio da noite, maldito garnis. -Um novo cocoric ecoou pela noite silenciosa e, no fim do corredor, uma criana comeou 
a chorar, seguida de uma sonora, mas abafada expresso galica na voz de Jenny.
        - Voc - eu disse para o galo invisvel - est com os dias contados. - No houve resposta a isso e, aps uma pausa para ter certeza de que o galo realmente 
resolvera ir dormir, fechei as persianas e fiz o mesmo.
        A comoo sabotara qualquer tentativa de pensamento. Em vez de tentar comear outro, resolvi tentar voltar-me para dentro de mim mesma, na esperana de que 
a contemplao fsica me relaxasse o suficiente para voltar a dormir.
        Funcionou. Quando comecei a flutuar  beira do sono, minha mente fixa em algum lugar perto do meu pncreas, pude ouvir indistintamente os sons do pequeno 
Jamie percorrendo o corredor na direo do quarto de sua me - desperto do sono por uma bexiga cheia, ele raramente tinha a presena de esprito de dar o prximo 
passo bvio e, em geral, em vez disso, descia as escadas s apalpadelas em busca de assistncia.
        Eu imaginara, ao vir para Lallybroch, se eu acharia difcil conviver com Jenny to de perto; se eu teria inveja de sua fcil fertilidade. E poderia ter tido, 
se no tivesse visto que a maternidade prdiga tambm tinha seu preo.
        - H um penico bem do lado de sua cama, cabea oca - a voz exasperada de Jenny soou do lado de fora de minha porta enquanto ela conduzia o pequeno Jamie 
de volta para a cama. - Voc deve ter pisado nele quando saiu. Por que no consegue colocar na cabea que tem que usar aquele? Por que tem que vir usar o meu, toda 
santa noite? - Sua voz desapareceu quando ela comeou a subir as escadas e eu sorri, a visualizao se movendo pelas curvas dos meus intestinos.
        Havia outra razo para eu no ter inveja de Jenny. No comeo, eu temera que o nascimento de Faith tivesse causado algum dano interno em meu corpo, mas esse 
temor desaparecera com o toque de Raymond. Ao completar o inventrio do meu corpo, e sentir minha espinha dorsal relaxar  beira do sono, pude sentir que tudo estava 
bem. Acontecera uma vez, poderia acontecer de novo. Tudo que seria necessrio era tempo. E Jamie.
        Os passos de Jenny soaram nas tbuas do corredor, apressando-se em resposta a um chiado sonolento de Maggie, do outro lado da casa.
        - Crianas so uma alegria, mas do muito trabalho - murmurei para mim mesma, e adormeci.
        Durante o dia seguinte, aguardamos, fazendo nossas tarefas e atravessando a rotina diria com o ouvido atento ao barulho de cavalos no ptio.
        - Devem ter ficado l para terminar algum negcio -Jenny disse, aparentemente confiante. Mas eu a via diminuir o passo toda vez que passava diante da janela 
que dava para o caminho de entrada da casa.
        Quanto a mim, tinha dificuldade em controlar a imaginao. A carta, assinada pelo rei Jorge, confirmando o perdo de Jamie, estava trancada na gaveta da 
escrivaninha no seu escritrio. Jamie a considerava uma humilhao e a teria queimado, mas eu insisti para que fosse guardada, por precauo. Agora, procurando ouvir 
sons atravs do zumbido do vento de inverno, eu tinha vises de tudo ter sido um erro ou alguma espcie de cilada - vises de Jamie preso outra vez por soldados 
do regimento dos Drages, em seus casacos vermelhos, novamente levado para o sofrimento da priso e do perigo iminente do lao da forca.
        Os homens retornaram finalmente, pouco antes do anoitecer. Os cavalos vinham carregados de sacas de sal, condimentos para fazer conservas, agulhas e outros 
pequenos artigos que Lallybroch no podia produzir sozinha.
        Ouvi um dos cavalos relinchar ao entrar no ptio do estbulo e desci correndo as escadas, encontrando Jenny que vinha das cozinhas.
        Uma sensao de alvio percorreu-me quando vi a figura alta de Jamie, ensombreada contra o celeiro. Atravessei correndo o ptio, alheia  pequena camada 
de neve que cobria o cho, e atirei-me em seus braos.
        - Por onde afinal vocs andaram? - perguntei.
        Ele beijou-me sem pressa antes de responder. Seu rosto estava frio contra o meu e seus lbios tinham o leve e agradvel sabor de usque.
        - Hum, salsichas para o jantar? - ele disse com aprovao, cheirando meus cabelos, defumados com a fumaa das cozinhas. - timo, estou faminto.
        - Bangers and mash - eu disse. - Por onde andaram?
        Ele riu, sacudindo o xale de xadrez para livrar-se dos flocos de neve.
        - Bangers and mash? Isso  comida, no ?
        - Salsichas com pur de batatas - traduzi. - Um bom prato tradicional da Inglaterra, at aqui desconhecido nos rinces incultos da Esccia. Agora, maldito 
escocs, onde diabos voc esteve nos ltimos dois dias? Jenny e eu estvamos preocupadas!
        - Bem, tivemos um pequeno acidente - Jamie comeou a explicar, quando notou a pequena figura de Fergus, carregando uma lanterna. - Ah, trouxe uma luz, ento, 
Fergus? Bom rapaz. Coloque ali, onde no vai pegar fogo na palha e depois leve este pobre animal para sua baia. Depois que tiver tratado dele, venha jantar. Acho 
que j  capaz de sentar  mesa, no ? - Deu um tapinha amistoso na orelha de Fergus. O garoto se esquivou e devolveu um amplo sorriso; aparentemente, o que quer 
que tenha acontecido no celeiro antes no deixara rancores.
        - Jamie - eu disse, pausadamente. - Se voc no parar de falar em salsichas e cavalos e me contar que acidente foi esse, vou lhe dar um chute na canela. 
O que vai doer muito nos meus dedos porque s estou de chinelos, mas vou chut-lo mesmo assim.
        -  uma ameaa? - ele disse, rindo. - No foi nada grave, Sassenach,  que...
        - Ian! - Jenny, retida momentaneamente por Maggie, acabara de chegar, a tempo de ver seu marido entrar no crculo de luz da lanterna. Surpresa com o choque 
em sua voz, virei-me e a vi arremessar-se para Ian e colocar a mo em seu rosto.
        - O que aconteceu com voc, homem? - ela perguntou. Obviamente, qualquer que tenha sido o acidente, Ian recebera o maior impacto. Um dos olhos estava roxo 
e inchado, semifechado, e havia um arranho longo e feio em uma das faces.
        - Estou bem, mi dhu - ele disse, dando uns tapinhas carinhosos em Jenny enquanto ela o abraava, a pequena Maggie desconfortavelmente espremida entre os 
dois. - S um pouco machucado.
        - Estvamos descendo o monte a trs quilmetros fora da vila, conduzindo os cavalos porque o terreno era acidentado, quando Ian pisou num buraco de toupeira 
e quebrou a perna - Jamie explicou.
        - A de madeira - Ian acrescentou. Riu, um pouco timidamente. - A toupeira levou a melhor nesse encontro.
        - Assim, ficamos em uma cabana prxima o tempo suficiente para entalhar uma nova - Jamie terminou a histria. - Podemos comer? As paredes do meu estmago 
esto coladas.
        Entramos sem mais tumulto e a sra. Crook e eu servimos o jantar, enquanto Jenny lavava o rosto de Ian com gua de hamamlis e fazia perguntas ansiosas sobre 
outras possveis contuses.
        - No foi nada - ele assegurou-lhe. - S uns machucados aqui e ali.
        No entanto, eu o observara caminhar para a casa e vira que ele mancava muito mais do que o normal. Troquei umas palavras com Jenny quando tirvamos a mesa 
do jantar e, quando estvamos instalados na sala de estar e o contedo dos alforjes guardado nos seus respectivos lugares, ela ajoelhou-se no tapete ao lado de Ian 
e segurou sua perna nova.
        - Vamos tirar isso, ento - disse, com firmeza. - Voc se machucou e quero que Claire d uma olhada. Talvez ela possa ajud-lo melhor do que eu.
        A amputao original fora feita com bastante habilidade e mais sorte ainda; o cirurgio do exrcito que decepara a parte de baixo da perna fora capaz de 
salvar o joelho. Isso dava a Ian muito mais flexibilidade de movimentos do que ele teria em caso contrrio. No momento, entretanto, o joelho era mais um risco do 
que uma vantagem.
        A queda torcera a perna brutalmente; a ponta do toco estava roxa da contuso e esfolada onde a borda afiada da perna artificial cortara a pele. Devia ser 
uma agonia colocar qualquer peso sobre aquele ferimento, ainda que tudo o mais estivesse normal. No entanto, o joelho torcera e a junta estava inchada, vermelha 
e quente.
        O rosto longo e afvel de Ian estava quase to vermelho quanto a junta machucada. Embora perfeitamente  vontade com sua deficincia, eu sabia que ele detestava 
a impotncia ocasional que ela impunha. Seu constrangimento em estar assim exposto agora era provavelmente to doloroso para ele quanto o toque de minha mo.
        - Voc rompeu um ligamento aqui - eu lhe disse, percorrendo delicadamente com o dedo o inchao na parte interna do joelho. - No sei a gravidade do problema, 
mas  bem srio. H lquido acumulado na junta;  por isso que est inchado.
        - Voc pode melhorar isso, Sassenach? - Jamie estava inclinado por cima do meu ombro, franzindo a testa diante do aspecto preocupante do ferimento.
        Sacudi a cabea.
        - No h muito que eu possa fazer, alm de compressas frias para reduzir o inchao. - Ergui os olhos para Ian, fitando-o com a melhor imitao possvel do 
olhar de madre Hildegarde.
        - O que voc pode fazer - eu disse -  permanecer na cama. Pode tomar usque para a dor amanh; esta noite, vou lhe dar ludano para que possa dormir. Fique 
de repouso pelo menos uma semana e veremos como ele se comporta.
        - No posso fazer isso! - Ian protestou. - A parede do estbulo precisa ser consertada, dois diques no campo de cima e as relhas dos arados para serem amoladas 
e...
        - E uma perna para consertar tambm - Jamie disse com firmeza. Lanou a Ian o que eu particularmente chamava de "olhar de chefe", um olhar azul, fixo e penetrante, 
que fazia com que a maioria das pessoas acatasse suas ordens na mesma hora. Ian, que compartilhara refeies, brinquedos, expedies de caa, brigas e surras com 
Jamie, era bem menos suscetvel do que a maioria.
        - Pois sim que vou ficar na cama! - ele disse sem rodeios. Os olhos castanhos ardentes enfrentaram os de Jamie com uma expresso onde a dor e a raiva misturavam-se 
ao ressentimento, e a alguma coisa mais que no reconheci. - Acha que pode me dar ordens?
        Jamie sentou-se sobre os calcanhares, enrubescendo como se tivesse levado uma bofetada. Ensaiou vrias respostas bvias e finalmente disse com serenidade:
        - No. No vou tentar lhe dar ordens. Mas posso lhe pedir... para cuidar de si mesmo?
        Os dois homens trocaram um longo olhar contendo alguma mensagem que eu no consegui decifrar. Finalmente, os ombros de Ian curvaram-se  medida que ele relaxou, 
e ele balanou a cabea, com um sorriso enviesado.
        - Voc pode pedir. - Suspirou e esfregou o arranho em seu rosto, contraindo-se ao tocar na pele esfolada. Respirou fundo, enrijecendo-se, depois estendeu 
a mo para Jamie. - Me ajude a subir, ento.
        Foi uma tarefa difcil, amparar um homem com uma perna s por dois lances de escada, mas finalmente conseguiram. A porta do quarto de dormir, Jamie deixou 
Ian comjenny. Ao recuar um passo, Ian disse algo amvel e rpido a Jamie em galico. Eu ainda no sabia bem a lngua, mas achei que ele tivesse dito: "Cuide-se, 
irmo."
        - Voc tambm, mo brathair.
        Segui Jamie pelo corredor at nosso prprio quarto. Eu podia ver pela postura de seus ombros que ele estava cansado, mas eu tinha algumas perguntas que queria 
fazer antes que ele fosse dormir.
        "S uns machucados aqui e ali", Ian dissera, tranqilizando Jenny. Realmente. Aqui e ali. Alm dos machucados no rosto e na perna, eu vira as marcas parcialmente 
escondidas sob o colarinho de sua camisa. Por maior que tenha sido a ira do animal com a intruso de Ian, eu no podia imaginar uma toupeira tentando estrangul-lo 
em represlia.
        Jamie, entretanto, no queria dormir imediatamente.
        - Ah, a ausncia enternece o corao, no ? - eu disse. A cama, to grande na noite anterior, agora mal parecia acomodar ns dois.
        - Hum? - ele disse, os olhos semicerrados de contentamento. - Ah, o corao? Sim, ele tambm. Ah, Deus, no pare; que sensao maravilhosa.
        - No se preocupe, continuarei com a massagem - assegurei-lhe. -Deixe-me apagar a vela. - Levantei-me e soprei-a; com as persianas abertas, havia bastante 
claridade no quarto com o reflexo do cu carregado de neve, mesmo sem a chama da vela. Eu podia ver Jamie nitidamente, a forma longa do seu corpo relaxada sob as 
cobertas, as mos semi-abertas ao longo do tronco. Entrei embaixo dos acolchoados ao lado dele e peguei sua mo direita, retomando a lenta massagem de seus dedos 
e da palma.
        Ele deu um longo suspiro, quase um gemido, enquanto eu esfregava meu polegar em crculos firmes na base dos seus dedos. Enrijecidos pelas longas horas agarrados 
s rdeas do cavalo, os dedos aqueceram-se e relaxaram-se lentamente sob o toque de minhas mos. A casa estava silenciosa e o quarto frio, fora do santurio de nossa 
cama. Era agradvel sentir a extenso do seu corpo aquecendo o espao ao meu lado e desfrutar a a intimidade do toque, sem nenhuma sensao de premncia imediata. 
Com o tempo, esse toque poderia significar mais; era inverno e as noites eram longas. Ele estava ali; eu tambm, e satisfeita com a situao como se apresentava 
no momento.
        - Jamie - eu disse, aps alguns instantes -, quem machucou an? Ele no abriu os olhos, mas deu um longo suspiro antes de responder.
        No entanto, seu corpo no se enrijeceu em resistncia; ele j esperava a pergunta.
        - Fui eu - ele respondeu.
        - O qu? - Larguei sua mo com o choque. Ele cerrou o punho e abriu-o, testando o movimento dos dedos. Em seguida, colocou a mo esquerda na colcha a seu 
lado, mostrando-me os ns dos dedos ligeiramente inchados pelo choque contra as protuberncias do rosto ossudo de an.
        - Por qu? - perguntei, horrorizada. Eu podia ver que havia algo novo e tenso entre Jamie e an, embora no parecesse exatamente hostilidade. Eu no podia 
imaginar o que teria feito Jamie bater em an; seu cunhado era quase to ligado a ele quanto sua irm, Jenny,
        Os olhos de Jamie estavam abertos agora, mas no olhavam para mim. Ele esfregou as juntas dos dedos nervosamente, fitando-os. Fora a leve contuso nos ns 
dos dedos, no havia nenhuma outra marca em Jamie; aparentemente, an no reagira.
        - Bem, an est casado h tempo demais - ele disse, na defensiva.
        - Eu diria que voc ficou no sol tempo demais - observei, fitando-o -, exceto que no h sol. Est com febre?
        - No - ele disse, desviando-se de minha tentativa de colocar a mo em sua testa. - No,  que... pare com isso, Sassenach, eu estou bem. -Cerrou os lbios, 
mas depois desistiu e contou-me toda a histria.
        an havia de fato quebrado a perna ao pisar num buraco de toupeira perto de Broch Mordha.
        - J era quase noite, tnhamos muita coisa a fazer na vila, e nevava. Eu podia ver que an estava sofrendo com sua perna, embora ele ficasse insistindo que 
conseguia viajar. Bem, havia duas ou trs cabanas prximas, ento eu o coloquei sobre um dos pneis e o levei encosta acima para pedir abrigo e passar a noite.
        Com a caracterstica hospitalidade das Highlands, tanto o abrigo quanto o jantar foram oferecidos com entusiasmo e, aps uma tigela quente de sopa e bolo 
de aveia fresco, os dois visitantes foram acomodados num colcho de palha junto ao fogo.
        - Quase no havia nem espao para estender uma colcha junto  lareira e ns ficamos um pouco apertados, mas nos deitamos lado a lado e nos ajeitamos da melhor 
forma possvel. - Respirou fundo e olhou para mim timidamente.
        - Bem, eu estava exausto da viagem e dormi profundamente, e suponho que Ian fez o mesmo. Mas ele tem dormido com Jenny todas as noites nos ltimos cinco 
anos e, suponho, tendo um corpo quente a seu lado na cama... bem, no meio da noite, ele rolou para o meu lado, passou o brao por cima de mim e me beijou na nuca. 
E eu... - hesitou, e eu pude ver o profundo rubor que inundou seu rosto, mesmo  luz cinza do quarto clareado pela neve - eu acordei de um sono profundo, achando 
que ele era Jack Randall.
        Eu prendera a respirao durante todo o relato; agora, soltei-a lentamente.
        - Deve ter sido um choque terrvel - eu disse. Jamie contorceu um dos lados da boca.
        - Foi um choque terrvel para Ian, acredite - ele disse. - Virei-me e dei-lhe um soco no rosto e, quando finalmente despertei por completo, eu estava em 
cima dele, estrangulando-o, a lngua dele para fora da boca. Foi um choque para os Murray na cama tambm - acrescentou, pensativamente. - Eu disse a eles que tivera 
um pesadelo... bem, de certa forma, eu tive mesmo... mas o incidente causou um grande tumulto, com as crianas berrando e Ian engasgado a um canto, e a sra. Murray 
sentada completamente ereta na cama, perguntando: "Quem? Quem?", como uma coruja pequena e gorda.
        Ri diante do quadro, a despeito de mim mesma.
        - Ah, meu Deus, Jamie. Ian ficou bem? Jamie encolheu os ombros ligeiramente.
        - Bem, voc o viu. Todos voltaram a dormir, aps algum tempo, e eu apenas fiquei deitado diante do fogo o resto da noite, fitando as vigas do teto. - Ele 
no ofereceu resistncia quando peguei sua mo esquerda, acariciando levemente os ns dos dedos feridos. Seus dedos fecharam-se sobre os meus, segurando-os.
        - Depois, quando partimos na manh seguinte - ele continuou -, esperei at chegarmos a um lugar onde pudssemos sentar e avistar todo o vale l embaixo. 
Ento - ele engoliu em seco e sua mo apertou ligeiramente a minha -, eu lhe contei. Sobre Randall. E tudo que aconteceu.
        Comecei a compreender a ambigidade do olhar que Ian lanara a Jamie. E agora compreendia a expresso exausta no rosto de Jamie e as olheiras sob os olhos. 
Sem saber o que dizer, apenas apertei suas mos.
        - Nunca pensei que iria contar isso a algum um dia... exceto voc - acrescentou, devolvendo o aperto na mo. Sorriu brevemente, depois libertou uma das 
mos para esfregar o rosto.
        - Mas Ian... bem, ele... - hesitou em busca da palavra certa. - Ele me conhece, sabe?
        - Eu sei. Vocs se conheceram a vida inteira, no ?
        Ele confirmou com um gesto de cabea, olhando vagamente pela janela. A neve girando em redemoinhos comeara a cair outra vez, pequenos flocos danando contra 
a vidraa, mais brancas do que o cu.
        - Ele  apenas um ano mais velho do que eu. Quando eu estava crescendo, ele estava sempre ao meu lado. At eu completar catorze anos, no se passava um s 
dia que no visse Ian. E mesmo mais tarde, quando fui morar com Dougal, em Leoch, e mais tarde ainda, quando fui para Paris, para a universidade... quando voltava, 
era s dobrar um canto da casa e l estava ele, e era como se eu nunca tivesse sado daqui. Ele apenas sorria ao me ver, como sempre fazia, e saamos por a juntos, 
lado a lado, pelos campos e crregos, falando de tudo. - Suspirou profundamente e passou a mo pelos cabelos.
        - Ian... ele  a parte de mim que pertence a este lugar, que nunca foi embora - ele disse, esforando-se para explicar. - Eu pensei... devo contar a ele; 
eu no queria me sentir... isolado. De Ian. Deste lugar. - Fez um gesto em direo  janela, depois se voltou para mim, os olhos escuros na penumbra. - Voc compreende?
        - Acho que sim - eu disse outra vez, suavemente. - E Ian?
        Ele fez um leve, desconfortvel, movimento com os ombros, como se quisesse soltar uma camisa muito apertada em suas costas.
        - Bem, no sei dizer. No incio, quando comecei a lhe contar a histria, ele ficou apenas sacudindo a cabea, como se no pudesse acreditar e, ento, quando 
acreditou... - Parou e umedeceu os lbios, e eu tive uma idia do quanto essa confisso na neve lhe custara. - Eu podia ver que ele queria ficar de p e andar de 
um lado para o outro, mas no podia, por causa da perna. Seus punhos estavam cerrados, o rosto lvido, e ele repetia: "Como? Droga, Jamie, como voc deixou que ele 
fizesse isso?"
        Sacudiu a cabea.
        - No me lembro do que respondi. Ou do que ele disse. Gritamos um com o outro, isso eu sei. Eu queria bater nele, mas no podia, por causa de sua perna. 
E ele queria me bater, mas no podia, por causa de sua perna. - Resfolegou com uma pequena risada. - Meu Deus, devamos parecer dois idiotas, sacudindo os braos 
e esbravejando um com o outro. Mas eu gri-tei por mais tempo e ele finalmente se calou e ouviu a histria at o fim-
        "Ento, de repente, no consegui continuar falando; parecia-me intil. E eu sentei-me repentinamente numa rocha e enfiei a cabea entre as mos. Depois de 
algum tempo, Ian disse que era melhor ns irmos andando. Eu assenti e me levantei, ajudei-o a montar no seu cavalo e partimos novamente, sem falar um com o outro."
        Jamie pareceu perceber de repente como estava apertando minha mo com fora. Aliviou a presso, mas continuou a segurar minha mo, girando minha aliana 
de casamento entre o polegar e o dedo indicador.
        - Cavalgamos durante muito tempo - ele disse, a meia-voz. - Ento, ouvi um leve rudo atrs de mim e puxei as rdeas do meu cavalo para esperar que Ian viesse 
para o meu lado. Pude ver que ele andara chorando, ainda chorava, as lgrimas escorrendo pelo rosto. Ele viu que eu o olhava e sacudiu a cabea com fora, como se 
ainda estivesse com raiva, mas depois estendeu a mo para mim. Segurei-a e ele apertou-a, com fora suficiente para quebrar os ossos. Depois, soltou minha mo e 
viemos para casa.
        Pude sentir a tenso esvair-se de seu corpo, com o final da histria. "Cuide-se, irmo", Ian dissera, equilibrado em uma nica perna,  porta do quarto.
        - Est tudo bem, ento? - perguntei.
        - Vai ficar. - Relaxou completamente agora, recostando-se nos travesseiros de penugem de ganso. Deslizei sob as cobertas para bem junto dele, encaixada contra 
seu corpo. Ficamos vendo a neve cair, sibilando baixinho contra as vidraas.
        - Estou feliz de que voc esteja de volta, so e salvo.
        Acordei com a mesma luz cinza pela manh. Jamie, j vestido para o dia, estava de p junto  janela.
        - Ah, est acordada, Sassenach? - disse, vendo-me erguer a cabea do travesseiro. - timo. Eu lhe trouxe um presente.
        Enfiou a mo na bolsa de seu kilt e retirou dali vrias moedas de cobre, duas ou trs pedras pequenas, um pedacinho de pau enrolado com linha de pescar, 
uma carta amassada e um bolo de fitas de cabelo.
        - Fitas de cabelo? - eu disse. - Obrigada. So lindas.
        - No, essas no so para voc - ele disse, franzindo a testa enquanto desembaraava as fitas azuis do p de toupeira que carregava como amuleto contra reumatismo. 
- So para Maggie. - Estreitou os olhos, em dvida, para as pedras que restaram em sua mo. Para minha surpresa, ele pegou uma delas e lambeu-a.
        - No, no  essa - murmurou e enfiou a mo de novo na bolsa que carregava  cintura.
        - O que acha que est fazendo? - perguntei com interesse, observando sua movimentao. Ele no respondeu, mas surgiu com novo punhado de pedras, que cheirou, 
descartando-as uma a uma at chegar a um ndulo.
        - mbar - disse, com satisfao, enquanto eu revirava o pedao irregular de mbar na palma da mo com o dedo indicador. Parecia clida ao toque e fechei 
a mo em torno dela, quase inconscientemente.
        - Precisa de polimento,  claro - explicou. - Mas achei que daria um belo pingente para um colar. - Enrubesceu ligeiramente, observando-me - ...  um presente 
pelo nosso primeiro ano de casamento. Quando a vi lembrei-me do pequeno pedao de mbar que Hugh Munro lhe deu, quando nos casamos.
        - Eu ainda o tenho - eu disse ternamente, acariciando o ndulo pequeno e peculiar de resina petrificada de rvore. O pedao de mbar de Hugh, um dos lados 
lapidado e polido para servir de janela, possua uma liblula embutida na matriz, suspensa num vo eterno. Eu a guardava na minha caixa de remdios, o mais poderoso 
dos amuletos.
        Um presente pelo nosso primeiro aniversrio de casamento. Ns havamos nos casado em junho,  claro, no em dezembro. Mas na data de nosso primeiro aniversrio 
de casamento, Jamie estava na Bastilha e eu... nos braos do rei da Frana. No foi propriamente uma poca de celebrao da bno matrimonial.
        - J  quase Hogmanay - Jamie disse, olhando pela janela para a neve fofa que cobria os campos de Lallybroch. - Parece-me uma boa poca para recomeos, eu 
acho.
        - Eu tambm acho. - Sa da cama e juntei-me a ele  janela, envolvendo-o pela cintura. Permanecemos ali parados, unidos, sem falar, at meus olhos recarem 
sobre os outros ndulos pequenos e amarelados que Jamie tirara da bolsa.
        - E essas aqui, o que so, Jamie? - perguntei, soltando-o o suficiente para apontar.
        - Ah, essas? So balas de mel, Sassenach. - Pegou um dos objetos, limpando-o com os dedos. - A sra. Gibson, na vila, as deu para mim. Muito boas, embora 
ache que ficaram um pouco sujas dentro da minha bolsa. - Estendeu a mo para mim, sorrindo. - Quer uma?
        
        
        
34 - O DESTINO BATE  PORTA
        
        Eu no sabia o que - ou quanto - Ian contara a Jenny de sua conversa na neve com Jamie. Seu comportamento em relao ao irmo continuou o mesmo de sempre, 
prtico e insolente, com um leve toque de afetuosa provocao. Eu j a conhecia h bastante tempo, no entanto, para perceber que um dos maiores dons de Jenny era 
sua capacidade de ver as coisas com absoluta clareza - e depois seguir em frente, como se elas no existissem.
        A dinmica de comportamentos e sentimentos entre ns quatro moveu-se nos meses seguintes e acomodou-se num padro slido e forte, baseado na amizade e fundamentado 
no trabalho. O respeito e a confiana mtuos eram simplesmente uma necessidade; havia muito a ser feito.
        Conforme a gravidez de Jenny evolua, passei a assumir cada vez mais afazeres domsticos e ela passou a deferi-los a mim com mais freqncia. Eu nunca tentava 
usurpar o seu lugar; ela era o eixo central de todo o ambiente domstico desde a morte de sua me e era a ela que os empregados ou colonos recorriam normalmente. 
Ainda assim, eles acostumaram-se comigo, tratando-me com um respeito amistoso que s vezes chegava  beira da aceitao e, outras vezes, do temor reverente.
        A primavera foi marcada, primeiro, pela plantao de uma enorme safra de batatas; mais da metade das terras arveis disponveis foi dedicada  nova colheita 
- uma deciso justificada em poucas semanas por uma tempestade de granizo que arrasou a cevada que comeava a brotar. As ramas de batata, crescendo junto ao solo, 
sobreviveram.
        O segundo acontecimento da primavera foi o nascimento da segunda filha, Katherine Mary, de Jenny e Ian. Ela chegou com uma rapidez que surpreendeu a todos, 
inclusive Jenny. Certo dia, Jenny se queixou de dor nas costas e foi deitar-se. Pouco depois, ficou claro o que estava realmente acontecendo e Jamie saiu apressado 
em busca da sra. Martins, a parteira. Os dois chegaram bem a tempo de compartilhar um copo de vinho para brindar a chegada do beb, cujos berros agudos ecoavam pelos 
corredores da casa.
        E assim o ano floresceu e tornou-se verde. Eu resplandecia, as ltimas feridas cicatrizando-se em meio ao amor e ao trabalho.
        As cartas chegavam regularmente: s vezes, havia correspondncia uma vez por semana, s vezes nada chegava por um ms ou mais. Considerando-se as distncias 
que os carteiros tinham que percorrer para entregar as correspondncias nas Highlands, eu achava incrvel que alguma coisa conseguisse chegar.
        Hoje, entretanto, havia um grande pacote de cartas e livros, bem embrulhado contra as intempries numa folha de pergaminho oleado e amarrado com corda. Enviando 
o carteiro  cozinha para uma refeio Jenny desamarrou com cuidado a corda retorcida e economicamente a guardou no bolso. Ela manuseou a pequena pilha de cartas, 
colocando de lado por enquanto um atraente pacote com endereo de Paris.
        - Uma carta para Ian, deve ser a conta das sementes, eu acho, e uma de tia Jocasta. Que bom, h meses no temos notcias dela, achei que pudesse estar doente, 
mas vejo que sua mo est firme na pena.
        Uma carta endereada com uma caligrafia preta e arrojada caiu sobre a pilha de Jenny, seguida de um bilhete de uma das filhas casadas de Jocasta. Depois, 
outra para Ian, de Edimburgo, uma para Jamie de Jared - reconheci a caligrafia emaranhada, quase ilegvel - e uma outra, num papel grosso, cor creme, selada com 
a coroa real da Casa Stuart. Outra queixa de Carlos sobre os rigores da vida em Paris e as dores do amor intermitentemente retribudo, eu imaginava. Ao menos, esta 
parecia curta; em geral, ele se estendia por vrias pginas, aliviando a alma com o "cher Jamie", num pato que era uma mistura de quatro idiomas e cheio de erros 
ortogrficos. Ao menos, era evidente que ele no buscava o auxlio de um secretrio para suas cartas pessoais.
        - Ooh, trs romances franceses e um livro de poesia de Paris! - Jenny disse, entusiasmada, abrindo o pacote bem embrulhado. - Cest un etnbar-ras de richesse, 
hein? Qual vamos ler esta noite? - Ergueu a pequena pilha de livros do seu invlucro, acariciando a capa macia de couro do livro que estava em cima com um dedo indicador 
que tremia de puro deleite. Jenny amava livros com a mesma paixo que seu irmo reservava aos cavalos. A manso, de fato, ostentava uma pequena biblioteca e se o 
lazer noturno, entre o trabalho e a hora de dormir, fosse curto, ainda assim inclua ao menos alguns minutos de leitura.
        - Isso nos d algo em que pensar enquanto trabalhamos -Jenny explicou, quando a encontrei certa noite cambaleando de cansao e insisti para que fosse para 
a cama dormir, em vez de ficar acordada para ler em voz alta para mim, Ian e Jamie. Ela bocejou, a mo na boca. - Ainda que eu esteja to cansada que mal consiga 
ver as palavras na pgina, elas voltam para mim no dia seguinte, enquanto estou batendo manteiga, fiando ou tecendo a l e eu fico revirando-as em minha mente.
        Ocultei um sorriso  meno da tecedura da l. Somente as mulheres de Lallybroch, entre todas as fazendas das Highlands, eu tinha certeza, teciam a l no 
s ao som de canes tradicionais, como tambm aos ritmos de Molire e Piron.
        Tive uma sbita viso do barraco de tecelagem, onde as mulheres sentavam-se em duas fileiras, uma de frente para a outra, descalas e com os braos nus, 
com suas roupas mais velhas. Elas apoiavam-se contra as paredes enquanto empurravam com os ps os rolos longos e sujos de tecido de l, formando a trama apertada 
e felpuda que iria repelir as neblinas das Highlands e at mesmo a chuva leve, mantendo quem o usava a salvo do frio.
        De vez em quando, uma mulher se levantava e saa, para trazer a chaleira de urina fumegante do fogo. Com as saias presas bem altas, ela caminhava com as 
pernas abertas pelo centro do barraco, embebendo o tecido entre suas pernas. Os vapores elevavam-se, sufocantes e renovados, da l encharcada, enquanto as tecels 
recolhiam os ps para evitar os possveis respingos e faziam piadas grosseiras.
        - Urina quente fixa o tingimento mais depressa - uma das mulheres me explicara enquanto eu pestanejava, os olhos lacrimejando, na minha primeira visita ao 
barraco. No comeo, as outras mulheres ficaram me observando para ver se eu iria me esquivar do trabalho, mas a tecelagem da l no era nenhum choque insuportvel 
depois de tudo que eu vira e fizera na Frana, tanto na guerra de 1944 quanto no hospital em 1744. O tempo faz bem pouca diferena para as realidades bsicas da 
vida. Fora o mau cheiro, o barraco era um lugar quente e confortvel, onde as mulheres de Lallybroch confraternizavam e pilheriavam entre peas de tecido, e cantavam 
juntas durante o trabalho. As mos moviam-se ritmicamente em cima de uma mesa ou os ps descalos afundavam-se fundo no tecido fumegante, enquanto nos sentvamos 
no cho, empurrando contra uma parceira que empurrava de volta.
        Fui arrancada de minhas recordaes da tecelagem da l pelo barulho de botas pesadas no vestbulo e uma rajada de ar chuvoso e frio quando a porta se abriu. 
Jamie, e Ian com ele, conversando em galico, ao jeito confortvel e sem afetao que significava que discutiam questes da fazenda.
        - Aquele campo vai ter que ser drenado no ano que vem -Jamie dizia ao atravessar a porta. Jenny, ao v-los, deixou a correspondncia de lado e foi buscar 
toalhas de linho lavadas da arca no vestbulo.
        - Enxuguem-se antes de ficar pingando no tapete - ordenou, entregando uma toalha a cada um. - E tirem essas botas imundas tambm. O correio chegou, Ian. 
H uma carta para voc daquele homem em Perth, aquele para quem voc escreveu a respeito das sementes de batatas.
        - Ah, ? J vou l-la, ento, mas posso comer alguma coisa enquanto fao isso? - Ian perguntou, esfregando a cabea molhada com a toalha, at que os espessos 
cabelos castanhos ficaram arrepiados como os plos de um porco-espinho. - Estou faminto e posso ouvir a barriga de Jamie roncando daqui de onde estou.
        Jamie sacudiu-se como um cachorro molhado, fazendo sua irm emitir um pequeno guincho quando as gotas frias voaram por todo o vestbu-lo. Sua camisa estava 
colada nos ombros e mechas soltas, da cor de ferrugem e encharcadas de chuva, caam sobre seus olhos.
        Enrolei uma toalha em seu pescoo.
        - Termine de se enxugar e eu vou buscar alguma coisa para voc comer.
        Eu estava na cozinha quando o ouvi gritar. Eu nunca o ouvira emitir um grito assim antes. Havia choque e horror naquele som, e mais alguma coisa - um tom 
de irrevogabilidade, como o grito de um homem que se v nas garras de um tigre. Eu j estava no corredor, em direo  sala de estar, sem parar para pensar, uma 
bandeja de bolos de aveia ainda segura nas mos.
        Quando irrompi na sala, eu o vi de p junto  mesa onde Jenny colocara a correspondncia. Seu rosto estava lvido e ele cambaleou ligeiramente, como uma 
rvore cortada, esperando que algum gritasse: "Madeira!", antes de cair.
        - O que foi? - perguntei, aterrorizada com a expresso de seu rosto. - Jamie, o que foi? O que foi?!
        Com um visvel esforo, ele pegou uma das cartas na mesa e a entregou a mim. Coloquei a bandeja de bolos de aveia sobre a mesa e peguei a folha de papel, 
correndo os olhos rpido por ela. Era de Jared; reconheci a caligrafia fina e rabiscada imediatamente. "Querido sobrinho", li para mim mesma, "... muito satisfeito... 
as palavras no podem expressar minha admirao... sua coragem e audcia sero uma inspirao... voc ter sucesso... minhas preces estaro com voc..." Ergui os 
olhos do papel, confusa.
        - De que ele est falando? O que voc fez, Jamie?
        A pele estava esticada sobre os ossos de sua face e ele riu, um esgar lgubre, enquanto pegava outra folha de papel, esta um folheto de impresso barata.
        - No  o que eu fiz, Sassenach - ele disse. A folha impressa era encimada pela coroa da Casa Real dos Stuart. A mensagem embaixo era breve, expressa numa 
linguagem grandiosa.
        Declarava que, por ordenao do Todo-poderoso, o rei Jaime, VIII da Esccia e III da Inglaterra e da Irlanda, afirmava por meio deste documento seus direitos 
a reclamar o trono de trs reinos. E por meio deste agradecia o apoio a esses direitos divinos pelos chefes dos cls das Highlands, pelos senhores jacobitas e pelos 
"diversos outros sditos leais de Sua
        Majestade, o rei Jaime, os quais, como prova disso, subscreveram seus nomes na presente Lista de Adeso".
        Meus dedos foram ficando gelados enquanto eu lia e eu tinha conscincia de uma sensao de terror to aguda que continuar respirando tornou-se um verdadeiro 
esforo. Meus ouvidos latejavam com a pulsao do sangue e pontos negros danavam diante dos meus olhos.
        Ao p do folheto viam-se as assinaturas dos chefes de cls escoceses que declararam sua lealdade ao mundo e apostaram suas vidas e reputao no sucesso de 
Carlos Stuart. Clanranald estava l, bem como Glengarry. Stewart, de Appin; Alexander MacDonald, de Keppoch; Angus Mac-Donald, de Scotus.
        E no final da lista estava escrito: "James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser, de Broch Tuarach."
        - Jesus Cristo! Maldio! - murmurei, na verdade desejando dizer uma blasfmia, como forma de alvio. - O desgraado assinou seu nome na lista!
        Jamie, ainda plido e carrancudo, comeava a se recobrar.
        - Sim, assinou - disse laconicamente. Estendeu a mo e pegou a carta ainda no aberta que permanecia sobre a mesa, um papel velino de alta qualidade, com 
o smbolo dos Stuart bem evidente no selo de cera. Jamie abriu a carta impacientemente, rasgando o papel. Leu-a depressa, lar-gando-a sobre a mesa em seguida, como 
se ela queimasse suas mos.
        - Um pedido de desculpas - disse com voz rouca. - Por falta de tempo de me mandar o documento, para que eu mesmo pudesse assin-lo. E sua gratido, por meu 
leal apoio. Meu Deus, Claire! O que vou fazer?
        Era um pedido de ajuda vindo do corao - e para o qual eu no tinha nenhuma resposta. Observei-o, impotente, enquanto ele se deixava cair sentado sobre 
uma almofada e ficava ali, imvel, olhando fixamente para o fogo.
        Jenny, paralisada por todo esse drama, aproximou-se para ver as cartas e o folheto. Leu-os com ateno, os lbios movendo-se ligeiro ao faz-lo.
        Em seguida, colocou os papis delicadamente de volta sobre o tampo lustroso da mesa. Olhou para eles com o cenho franzido, depois se dirigiu a seu irmo 
e colocou a mo em seu ombro.
        - Jamie - ela disse. Seu rosto estava muito plido. - S lhe resta uma nica coisa a fazer, querido. Voc tem que ir lutar por Carlos Stuart. Tem que ajud-lo 
a vencer.
        A verdade de suas palavras penetrou devagar pelas camadas de choque que me envolviam. A publicao dessa Lista de Adeso marcava os que assinaram como rebeldes 
e como traidores da coroa inglesa. No importava agora como, ou onde, Carlos conseguira os recursos financeiros para comear a agir; ele j singrava os mares da 
rebelio e Jamie - e eu - tambm singrvamos as mesmas ondas, quer quisssemos ou no. Como Jenny dissera, no havia escolha.
        Meus olhos recaram sobre a carta de Carlos, onde Jamie a largara.
        "... Embora muitos me digam que  uma tolice embarcar nesta empreitada sem o apoio de Lus - ou ao menos de seus bancos! -, no tenho a menor inteno de 
voltar para o lugar de onde vim", dizia. "Alegre-se comigo, meu caro amigo, porque estou indo para casa."
        
        
        
35 - LUAR
        
         medida que os preparativos para a partida prosseguiam, uma corrente de entusiasmo e especulao percorria toda a propriedade. Armas guardadas desde a rebelio 
de 1715 foram retiradas da palha, dos fardos de feno e de cima da lareira, polidas e amoladas. Os homens, quando se cruzavam, paravam para conversar e se reuniam 
em grupos ansiosos, as cabeas unidas sob o sol quente de agosto. As mulheres foram ficando silenciosas, observando-os.
        Jenny compartilhava com seu irmo a mesma capacidade de ser opaco, de no dar nenhuma pista do que estava pensando. Quanto a mim, transparente como uma vidraa, 
tinha uma certa inveja dessa aptido. Assim, quando em certa manh ela me pediu para chamar Jamie e dizer a ele que se encontrasse com ela na cervejaria, eu no 
fazia a menor idia do que ela queria com ele.
        Jamie entrou atrs de mim e parou assim que atravessou a porta da cervejaria, esperando que seus olhos se acostumassem  penumbra. Inspirou fundo, inalando 
o aroma pungente, mido e amargo, com evidente satisfao.
        - Ahh - ele disse, suspirando sonhadoramente. - Eu poderia ficar bbado aqui s de respirar.
        - Bem, ento prenda a respirao por um instante, pois preciso de voc sbrio - sua irm avisou-o.
        Ele obedientemente inflou os pulmes e encheu as bochechas, esperando. Jenny cutucou-o rapidamente no estmago com o cabo de seu amassador, fazendo-o dobrar-se 
sobre si mesmo e expelir todo o ar dos pulmes num s jato.
        - Palhao - ela disse, sem rancor. - Queria conversar com voc sobre Ian.
        Jamie pegou um balde vazio da prateleira, virou-o e sentou-se nele. uma leve claridade vinda da janela de papel oleado acima dele iluminou Seus cabelos com 
um brilho acobreado.
        - O que tem Ian? - ele perguntou.
        Agora, foi a vez de Jenny respirar fundo. A enorme tina de farelo de cereais  sua frente exalou um calor mido da fermentao, carregado do aroma de cevada, 
lpulo e lcool.
        - Quero que leve Ian com voc, quando voc for.
        As sobrancelhas de Jamie lanaram-se para cima, mas ele no disse nada de imediato. Os olhos de Jenny estavam fixos nos movimentos do amassador, observando 
a suave agitao da mistura. Ele fitou-a pensativo, as mos grandes soltas entre as pernas.
        - Cansada do casamento, hein? - ele perguntou, em tom de conversa. - Provavelmente seria mais fcil eu o levar para a floresta e dar um tiro nele para voc. 
- Viu-se um lampejo de olhos azuis acima da tina de fermentao.
        - Se eu quisesse matar algum a tiro, Jamie Fraser, eu mesma o faria. E Ian no seria minha primeira escolha como alvo, tampouco.
        Ele deu um rpido muxoxo e o canto de seus lbios contorceu-se num sorriso reprimido.
        - Ah, ? Ento, por qu?
        Os ombros de Jenny moviam-se num ritmo regular, um movimento fundindo-se no prximo.
        - Porque eu estou lhe pedindo.
        Jamie espalmou a mo direita sobre o joelho, acariciando distraida-mente a cicatriz irregular que ziguezagueava pelo dedo mdio.
        -  perigoso, Jenny - ele disse serenamente.
        - Eu sei disso.
        Ele sacudiu a cabea devagar, ainda fitando a mo. Ela se recuperara bem e ele podia us-la quase normalmente, mas o dedo anular rgido e a cicatriz grande 
e spera nas costas da mo conferiam-lhe uma aparncia estranha e defeituosa.
        - Voc acha que sabe.
        - Eu sei, Jamie.
        Ele ergueu a cabea. Parecia impaciente, mas esforava-se para se manter razovel e sensato.
        - Sim, eu sei que Ian deve ter lhe contado histrias sobre lutar na Frana e tudo o mais. Mas voc no faz a menor idia de como realmente , Jenny. Mo cridh, 
no  uma questo de roubo de gado.  uma guerra, e  provvel que seja um maldito massacre sangrento. ...
        O amassador bateu na borda da tina com um barulho estridente e caiu de volta dentro da mistura.
        - No diga que no sei como ! - Jenny interrompeu-o, furiosa. - Histrias, no ? Quem voc acha que cuidou de Ian quando ele voltou da Frana com metade 
da perna e uma febre que quase o matou?
        Ela bateu no banco com a mo aberta. Os nervos tensos eclodiram.
        - No sei? Eu no sei? Eu retirei um a um os vermes da carne viva do toco de sua perna, porque sua prpria me no teve coragem para isso! Eu segurei a faca 
quente contra sua perna para selar o ferimento! Eu senti o cheiro de sua carne tostando como a de um porco assado, ouvindo-o gritar enquanto isso! Ainda ousa ficar 
a e dizer que eu... no... SEI como !
        Lgrimas iradas escorriam pelo seu rosto. Limpou-as, tateando no bolso  procura de um leno.
        Os lbios cerrados com fora, Jamie levantou-se, tirou um leno da manga e deu-o a ela. Ele sabia que no devia toc-la ou tentar consol-la. Ficou parado, 
fitando-a por um instante, enquanto ela enxugava furiosamente os olhos e o nariz.
        - Ah, bem, voc sabe, ento - ele disse. - E ainda assim quer que eu o leve?
        - Quero. - Assoou o nariz e limpou-o energicamente, depois enfiou o leno no bolso.
        - Ele sabe muito bem que  aleijado, Jamie. Sabe disso muito bem. Mas ele conseguiria, com voc. H um cavalo para ele; ele no teria que caminhar.
        Ele fez um gesto impaciente com a mo.
        - Se ele conseguiria no  bem a questo, no ? Um homem pode fazer o que ele acha que deve. Por que voc acha que ele deve?
        Novamente controlada, ela pescou o amassador de dentro da mistura e sacudiu-o. Gotculas marrons respingaram dentro da tina.
        - Ele ainda no perguntou a voc, no ? Se vai precisar dele ou no?
        - No.
        Enfiou o amassador de novo dentro da tina e retomou o trabalho.
        - Ele acha que voc no vai quer-lo porque  aleijado e que ele no teria nenhuma utilidade para voc. - Ergueu os olhos, atormentados olhos azuis, iguais 
aos do irmo. - Voc conheceu Ian antes, Jamie. Ele  diferente agora.
        Ele balanou a cabea relutantemente, retomando o seu assento no balde.
        - Sim. Bem, mas  de se esperar, no? E ele parece muito bem. Ergueu os olhos para a irm e sorriu. - Ele  feliz com voc, Jenny. Voc e as crianas.
        Ela assentiu com um gesto de cabea, os cachos negros sacudindo-se.
        - Sim,  - ela disse suavemente. - Mas isso  porque ele  um homem completo para mim e sempre ser. - Olhou direto para o irmo. - Mas se achar que no 
tem utilidade para voc, ele no ser completo para si mesmo. E  por isso que eu quero que voc o leve.
        Jamie entrelaou as mos, os cotovelos apoiados nos joelhos, e descansou o queixo sobre os dedos unidos.
        - Isso no vai ser como na Frana - ele disse serenamente. - Lutando l, voc no arrisca mais do que seu corpo na batalha. Aqui... - Ele hesitou, depois 
continuou. - Jenny, isso  traio. Se der errado, aqueles que seguem os Stuart provavelmente terminaro no cadafalso.
        Sua tez normalmente clara tornou-se ainda mais branca, mas seus movimentos no diminuram de intensidade.
        - No h escolha para mim - ele continuou, os olhos fixos na irm. -Mas voc arriscaria ns dois? Vai querer Ian na forca, olhando para baixo para a fogueira 
que vai consumir suas entranhas? Vai correr o risco de criar seus filhos sem o pai, para salvar o orgulho dele? - Seu rosto estava quase to lvido quanto o dela, 
brilhando na penumbra da cervejaria.
        Os golpes do amassador tornaram-se mais lentos, sem a velocidade feroz de seus movimentos anteriores, mas sua voz abrigava toda a convico de seu trabalho 
lento, inexorvel.
        - Ou eu tenho um homem completo - ela disse com firmeza. - Ou nenhum.
        Jamie permaneceu sentado, imvel, por um longo instante, observando a cabea escura de sua irm inclinada sobre o trabalho.
        - Est bem - ele disse finalmente. Ela no ergueu os olhos nem alterou seus movimentos, mas a touca branca que usava pareceu inclinar-se na direo de Jamie.
        Ele suspirou explosivamente, em seguida levantou-se e virou-se de modo brusco para mim.
        - Vamos sair daqui, Sassenach - ele disse. - Santo Deus, devo estar bbado.
        - O que o faz pensar que pode me dar ordens? - A veia na tmpora de Ian latejava furiosamente. A mo de Jenny apertou a minha com mais fora.
        A declarao de Jamie de que Ian o acompanharia para se unir ao exrcito dos Stuart fora recebida primeiro com incredulidade, depois com desconfiana e - 
como Jamie insistisse - com raiva.
        - Voc  um idiota - Ian declarou sem rodeios. - Eu sou aleijado voc sabe disso muito bem.
        - Sei que voc  um bom soldado e no h nenhum outro que eu gostaria de ter a meu lado numa batalha - Jamie disse com firmeza. Seu rosto no deixava entrever 
nenhum sinal de dvida ou hesitao; ele concordara com o pedido de Jenny e o levaria at o fim, a qualquer preo. - Voc j lutou muitas vezes; vai me desertar 
agora?
        Ian agitou a mo num gesto de impacincia, descartando o elogio.
        - Talvez, sim. Se minha perna sair ou se quebrar, haver bem pouco que eu possa fazer. Ficarei l deitado no cho como um verme, esperando que o primeiro 
inimigo venha me espetar. Alm disso - disse, com uma expresso ameaadora para seu cunhado -, quem voc acha que vai cuidar deste lugar at voc voltar se eu estiver 
fora na guerra com voc?
        - Jenny - Jamie replicou prontamente. - Vou deixar aqui homens suficientes que podero encarregar-se do trabalho; ela sabe cuidar das contas muito bem.
        As sobrancelhas de Ian ergueram-se e ele disse algo bem rude em galico.
        - Pog ma mahon! Vai fazer com que eu a deixe cuidando sozinha do lugar, com trs crianas no seu avental e apenas metade dos homens necessrios? Meu caro, 
voc perdeu o juzo completamente! - Lanando as duas mos para o ar, Ian virou-se para o buf, onde o usque era mantido.
        Jenny, sentada a meu lado no sof com Katherine no colo, soltou uma exclamao quase inaudvel. Sua mo buscou a minha sob as pregas de nossas saias unidas 
e eu apertei seus dedos.
        - O que o faz pensar que pode me dar ordens?
        Jamie examinou as costas tensas de seu cunhado por um instante, com uma carranca. De repente, um msculo no canto de sua boca contorceu-se.
        - Porque eu sou maior do que voc - ele disse, de modo beligerante, ainda carrancudo.
        Ian girou nos calcanhares para encar-lo, a incredulidade estampada no rosto. A indeciso brincou em seus olhos por menos de um segundo. Seus ombros endireitaram-se 
e ele empinou o queixo.
        - Eu sou mais velho do que voc - ele retrucou, com uma carranca igual.
        - Eu sou mais forte.
        - No, no !
        - Sou, sim!
        - No, eu  que sou!
        Um veio de absoluta seriedade sublinhava o riso em suas vozes; embora esse pequeno confronto pudesse passar por uma brincadeira, eles estavam to concentrados 
um no outro e to resolutos como na infncia e na adolescncia. Os ecos do desafio soaram na voz de Jamie quando ele abriu os Punhos da camisa e enrolou as mangas 
para cima.
        - Prove - ele disse. Limpou a mesa de xadrez com uma varredura descuidada da mo, sentou-se e fincou o cotovelo na superfcie marchetada, os dedos flexionados 
para uma ofensiva. Os olhos azul-escuros fitaram os olhos castanhos de Ian, ardentes como os de Jamie.
        Ian levou meio segundo para avaliar a situao, em seguida sacudiu a cabea num breve sinal de concordncia, fazendo uma grossa mecha de cabelos castanhos 
cair pesadamente sobre seus olhos.
        Com calma deliberao, alisou-os para trs, abriu os punhos da camisa e enrolou as mangas at os ombros, dobra por dobra, sem nunca tirar os olhos de seu 
cunhado.
        De onde eu estava, podia ver o rosto de Ian, um pouco afogueado sob o bronzeado da pele, o queixo longo e estreito erguido com deciso. Eu no podia ver 
o rosto de Jamie, mas a determinao era eloqentemente expressa pela linha das costas e dos ombros.
        Os dois homens ajeitaram os cotovelos com todo o cuidado sobre a mesa, manobrando para encontrar o melhor ponto, esfregando a ponta do cotovelo para a frente 
e para trs, a fim de se certificar de que a superfcie no estava escorregadia.
        Seguindo o ritual, Jamie abriu os dedos, a palma voltada para Ian. Ian cuidadosamente colocou sua prpria palma contra a dele. Os dedos se correspondiam, 
tocando-se por um instante numa imagem espelhada, depois se moveram, um para a direita e o outro para a esquerda, unidos e firmes.
        - Pronto? - Jamie perguntou.
        - Pronto. - A voz de Ian era calma, mas seus olhos brilhavam sob as sobrancelhas.
        Os msculos tensionaram-se imediatamente, por toda a extenso dos dois braos, saltando em perfeita definio conforme eles se mexiam em seus assentos, buscando 
equilbrio.
        Os olhos de Jenny encontraram-se com os meus e ela os revirou para cima. O que quer que estivesse esperando de Jamie, no era isso.
        Os dois estavam concentrados no tenso enredamento de seus dedos, a excluso de tudo o mais. Ambos os rostos estavam vividamente vermelhos do esforo, o suor 
molhando os cabelos nas tmporas, os olhos saltando ligeiramente das rbitas. De repente, vi o olhar de Jamie sair de sua concentrao nos punhos cerrados ao ver 
os lbios de Ian apertarem-se com mais fora. Ian sentiu a mudana, ergueu a cabea, seus olhos se encontraram... e os dois desataram a rir.
        As mos permaneceram unidas por mais um instante, presas em espasmo, depois se separaram.
        - Empate, ento - Jamie disse, empurrando para trs uma mecha de cabelos molhados de suor. Sacudiu a cabea para Ian com bom humor-
        - Est bem, companheiro. Se eu pudesse lhe dar ordens, eu no o faria. Mas posso lhe pedir, no? Voc quer vir comigo?
        Ian enxugou o pescoo onde o suor molhava o colarinho. Seu olhar perambulou pelo aposento, descansando em Jenny por um instante. O
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        rosto de Jenny no estava mais plido do que o normal, mas eu podia ver a pulsao acelerada, latejando logo abaixo do ngulo de seu maxilar. Ian fitou-a 
atentamente enquanto desenrolava a manga da camisa outra vez, em voltas cuidadosas. Pude ver um rubor intenso comear a elevar-se da gola do vestido de Jenny.
        Ian esfregou o queixo como se pensasse, depois se virou para Jamie e sacudiu a cabea.
        - No, meu caro - disse a meia-voz. - Voc precisa de mim aqui e aqui eu vou ficar. - Seus olhos pousaram em Jenny, segurando Katherine contra o ombro, e 
na pequena Maggie, agarrada  saia da me com as mozinhas sujas. E sobre mim. A boca larga de Ian curvou-se num ligeiro sorriso. - Devo ficar aqui - ele repetiu. 
- Guardando seu lado fraco, amigo.
        - Jamie?
        - Sim? - A resposta veio imediatamente; eu sabia que ele no estava dormindo, embora permanecesse deitado e imvel como uma esttua esculpida num tmulo. 
O quarto estava iluminado pelo luar e eu pude ver seu rosto quando me ergui sobre um cotovelo; ele olhava fixamente para cima, como se pudesse enxergar alm das 
pesadas vigas do teto, para dentro da noite limpa e das estrelas no firmamento.
        - Voc no vai tentar me deixar para trs, no ? - Eu nem teria pensado em perguntar se no fosse pela cena com Ian, no comeo da noite. Uma vez definido 
que Ian permaneceria na propriedade, Jamie sentara-se com ele para tomar algumas decises: escolhendo quem iria marchar com o senhor das terras para ajudar o prncipe, 
quem ficaria para trs para cuidar dos animais, do pasto e da manuteno de Lallybroch.
        Eu sabia que fora um difcil processo de deciso, embora ele no desse nenhuma demonstrao disso, calmamente discutindo com Ian se Ross, o ferreiro, poderia 
ser levado e concluindo que poderia, embora os arados Necessrios para a primavera tivessem que estar todos consertados e em Perfeito estado antes de partirem. Se 
Joseph Fraser Kirby deveria ir e concluindo que no, j que ele era o principal esteio no s de sua prpria famlia, como tambm da famlia de sua irm viva. Brendan 
era o filho mais velho das duas famlias e tinha nove anos, ainda despreparado para substituir seu pai, caso Joseph no retornasse para casa.
        Era uma questo do mais delicado planejamento. Quantos homens deveriam ir, para ter algum impacto sobre o curso da guerra? Porque Jenny tinha razo, Jamie 
agora no tinha escolha - nenhuma escolha, a no ser ajudar Carlos Stuart a vencer. E para esse fim, o maior nmero possvel de homens e armas que pudessem ser convocados 
deveria ser lanado  causa.
        Entretanto, do outro lado estava eu e meu conhecimento mortal - e a falta dele. Havamos conseguido evitar que Carlos Stuart obtivesse dinheiro para financiar 
sua rebelio; ainda assim, o prncipe, insensato, irresponsvel e determinado a reivindicar seu legado, havia desembarcado para reunir os cls em Glenfinnan. Por 
outra carta de Jared, ficamos sabendo que Carlos atravessara o Canal com duas pequenas fragatas, fornecidas por um tal de Antoine Walsh, um ex-traficante de escravos 
com um senso de oportunidade. Aparentemente, ele considerou a aventura de Carlos menos arriscada do que uma expedio de trfico de escravos, um jogo em que ele 
podia ser ou no ser punido. Uma das fragatas fora interceptada pelos ingleses; a outra desembarcara Carlos so e salvo na ilha de Eriskay.
        Carlos desembarcara com apenas sete companheiros, inclusive o proprietrio de um pequeno banco chamado Aeneas MacDonald. Incapaz de financiar uma expedio 
inteira, MacDonald fornecera os recursos financeiros para um pequeno estoque de espadas de folha larga, que constitua todo o armamento de Carlos. Jared soara simultaneamente 
admirado e horrorizado com a irresponsabilidade da aventura, mas sendo um jacobita leal como era, fazia o possvel para engolir seus temores.
        E at aqui, Carlos fora bem-sucedido. Pelos rumores que circulavam nas Highlands, ficamos sabendo que ele aportara em Eriskay, atravessara at Glenfinnan 
e l aguardara, acompanhado apenas por alguns grandes toneis de conhaque, para ver se os cls iriam atender a sua convocao. Aps o que devem ter sido vrias horas 
de tenso, trezentos homens do cl Cameron desceram os desfiladeiros das ngremes montanhas verdes, liderados no pelo seu chefe, que estava sempre longe de casa 
- mas por sua irm, Jenny Cameron.
        Os Cameron foram os primeiros, mas outros se uniram a eles, como mostrava a Lista de Adeso.
        Se Carlos agora prosseguisse em direo ao desastre, apesar de todos os esforos, ento quantos homens de Lallybroch poderiam ser poupados, deixados em casa 
para salvar algo da destruio?
        O prprio Ian estaria a salvo; isso era certo e um blsamo para o esprito de Jamie. Mas e quanto aos outros - as sessenta famlias que viviam em Lallybroch? 
Escolher quem deveria ir e quem deveria ficar poderia parecer, sob alguns aspectos, escolher homens que deveriam ser sacrificados. Eu j vira comandantes antes. 
Os homens a quem a guerra forara a tais escolhas - e eu sabia o que isso lhes custava.
        Jamie tomara suas decises - no tinha outra escolha -, mas em duas questes ele ficou inflexvel; nenhuma mulher acompanharia sua tropa e nenhum rapaz de 
menos de dezoito anos participaria. Ian ficou um pouco surpreso - embora a maioria das mulheres com filhos pequenos normalmente fosse deixada em casa, estava longe 
de ser incomum que as mulheres das Highlands seguissem seus homens na guerra, cozinhando e cuidando deles, e compartilhando as raes do exrcito. E os rapazes, 
que se consideravam homens aos catorze anos, ficariam extremamente humilhados por serem deixados de fora. Mas Jamie dera suas ordens num tom que no admitia argumentao 
e Ian, aps um instante de hesitao, apenas assen-tira com um gesto de cabea e anotara os nomes.
        Eu no quis perguntar-lhe na presena de Ian e Jenny se o banimento de mulheres me inclua. Porque, inclusse ou no, eu iria com ele, e isso, pensei, era 
definitivo.
        - Deix-la aqui? - ele disse agora, e o canto de sua boca torceu-se num sorriso enviesado. - Acha que eu teria alguma chance?
        - No - eu disse, aconchegando-me junto a ele com um alvio repentino. - No teria. Mas achei que voc poderia considerar o assunto.
        Ele deu uma pequena risada e puxou-me para ele, minha cabea em seu ombro.
        - Ah, sim. E se eu achasse que poderia deix-la aqui, eu a acorrentaria no corrimo; nada mais iria impedi-la de me seguir. - Pude sentir sua cabea sacudir-se 
acima de mim, em sinal de negao. - No. Devo lev-la comigo, Sassenach, quer eu queira ou no. H coisas que voc talvez saiba durante o caminho, mesmo que paream 
no ter importncia agora, podem ter depois. E voc  uma tima curandeira, Sassenach. No posso negar suas habilidades aos homens, e elas sero necessrias.
        Sua mo deu uns tapinhas no meu ombro e ele suspirou.
        - Eu daria qualquer coisa, mo duinne, se pudesse deix-la aqui a salvo, mas no posso. Assim, voc ir comigo, voc e Fergus.
        - Fergus? - Fiquei surpresa com aquela deciso. - Mas achei que no iria levar nenhum dos rapazes mais jovens!
        Ele suspirou outra vez, e eu espalmei minha mo no centro do seu Peito, onde seu corao batia sob a pequena cavidade, devagar e compassadamente.
        - Bem, Fergus  um pouco diferente. Os outros rapazes... eu no os levarei porque eles pertencem a este lugar; se tudo der errado, restaro eles para impedir 
que suas famlias morram de fome, para trabalhar os campos e cuidar dos animais. Talvez tenham que crescer rpido, se isso acontecer, mas ao menos estaro aqui para 
fazer o trabalho. Mas Fergus... este no  seu lugar, Sassenach. Nem a Frana, ou eu o mandaria de volta. Mas tambm no h um lugar para ele l.
        - O lugar dele  com voc - eu disse ternamente, compreendendo. - Como o meu.
        Ele ficou em silncio por um longo tempo, depois sua mo apertou me suavemente.
        - Sim,  verdade - ele disse serenamente. - Durma agora, mo duinne, j  tarde.
        O lamento queixoso e irritado arrancou-me das profundezas do sono pela terceira vez. Os dentes de Katherine estavam comeando a despontar e ela no se importava 
se voc sabia disso ou no. Do seu quarto no final do corredor, ouvi o resmungado sonolento de Ian e a voz mais alta de Jenny, resignada, enquanto saa da cama e 
ia consolar o beb.
        Ento, ouvi os passos abafados e pesados no corredor e compreendi que Jamie, ainda acordado, caminhava descalo pela casa.
        - Jenny? - Sua voz, em tom baixo para evitar maiores perturbaes, ainda assim era perfeitamente audvel no silncio rangente da manso. -Ouvi o beb chorando 
- ele disse. - Se ela no consegue dormir, eu tambm no, mas voc pode. Se ela estiver alimentada e seca, talvez possamos aturar a companhia um do outro, enquanto 
voc volta para a cama.
        Jenny reprimiu um bocejo e pude perceber o sorriso em sua voz.
        - Jamie, querido, voc  uma bno para as mes. Sim, ela est cheia como um tambor e acabei de trocar sua fralda. Fique com ela e eu desejo a ambos muita 
alegria. - Uma porta se fechou e eu ouvi os passos pesados outra vez, voltando para o nosso quarto, e o murmrio surdo da voz de Jamie enquanto balbuciava para o 
beb num tom tranqilizador.
        Aninhei-me mais fundo no conforto da cama de penas de ganso e voltei ao sono outra vez, ouvindo ao longe o choro do beb, entremeado de soluos sentidos, 
e o cantarolar grave, sem melodia, de Jamie, o som to reconfortante quanto a idia de colmias ao sol.
        - Ei, Kitty, amar a tha ihu?. Much, mo naoidheachan, much.
        O som produzido pelos dois subia e descia pelo corredor e eu mergulhei mais fundo no sono, mas mantendo-me parcialmente acordada a fim de ouvi-los. Um dia, 
talvez, ele seguraria seu prprio filho assim, a cabecinha redonda embalada nas mos grandes, o corpo pequeno e slido, aconchegado com firmeza contra seu ombro. 
E desse jeito ele cantaria para sua prpria filha, uma cano sem melodia, um canto terno e delicado na escurido.
        A dorzinha constante em meu corao foi submergida numa inundao de ternura. Eu concebera uma vez; poderia faz-lo de novo. Faith e ofertara essa certeza, 
Jamie, a coragem e os meios para us-la. Minhas mos descansaram levemente sobre meus seios, envolvendo suas curvas, sabendo sem nenhuma dvida que um dia eles alimentariam 
a criana do meu corao. Mergulhei definitivamente no sono com a voz de Jamie em meus ouvidos.
        Algum tempo depois, subi  superfcie outra vez e abri os olhos para o quarto iluminado. A lua subira no cu, cheia e resplandecente, e todos os objetos 
no aposento eram plenamente visveis, daquela forma plana, bidimensional, das coisas vistas sem sombra.
        O beb silenciara, mas eu podia ouvir a voz de Jamie no corredor, ainda falando, porm muito mais serenamente, pouco mais do que um murmrio. E o tom de 
sua voz mudara; no era mais aquele palavreado sem sentido, rtmico, com que se fala com os bebs, mas o discurso entre -cortado, interrompido, de um homem buscando 
o caminho atravs da selva de seu prprio corao.
        Curiosa, deslizei da cama e aproximei-me silenciosamente da porta. Podia v-los l, no final do corredor. Jamie estava sentado com as costas apoiadas contra 
a lateral da banqueta encaixada na moldura da janela, vestido apenas com seu camiso. As pernas nuas estavam erguidas, formando um encosto contra o qual a pequena 
Katherine Mary descansava, de frente para ele e em seu colo, as prprias perninhas gorduchas chutando-o incansavelmente no estmago.
        O rosto do beb era insondvel e claro como a lua, os olhos, poas escuras absorvendo suas palavras. Ele traava a curva de sua bochecha com um dedo, sem 
parar, sussurrando com uma delicadeza comovente.
        Ele falava em galico e to baixo que eu no conseguiria entender o que dizia, ainda que soubesse as palavras. Mas a voz murmurante era grave e o luar que 
entrava pela janela atrs dele mostrava os caminhos das lgrimas que deslizavam livremente pelas suas faces.
        No era uma cena que pudesse sofrer uma intruso. Voltei para a cama ainda quente, levando na mente a imagem do senhor de Lallybroch, semi-nu  luz da lua, 
extravasando seu corao para um futuro desconhecido, segurando no colo a promessa de seu sangue.
        Quando acordei de manh, havia um aroma caloroso, pouco conhecido, ao meu lado, e algo enrolado em meus cabelos. Abri os olhos e deparei-me com os lbios 
rseos de Katherine Mary estalando sonhadoramente a cinco centmetros do meu nariz, os dedos gorduchos agarrados aos cabelos acima de minha orelha esquerda. Desvencilhei-me 
cautelosamente e ela remexeu-se, mas recaiu pesadamente de bruos, puxou os joelhos para cima e voltou a dormir.
        Jamie estava deitado do outro lado da criana, o rosto semi-enterrado no travesseiro. Ele abriu um dos olhos, azul-claro como o cu da manh.
        - Bom-dia, Sassenach - ele disse, falando baixinho para no perturbar a pequena dorminhoca. Sorriu para mim, enquanto eu me sentava na cama. - Vocs duas 
formavam um lindo quadro, adormecidas assim, uma de frente para a outra.
        Passei a mo pelos meus cabelos emaranhados e sorri tambm diante do traseiro levantado de Kitty, absurdamente empinado no ar.
        - Isso no parece nem um pouco confortvel - observei. - Mas ela ainda est dormindo, de modo que no pode ser to ruim assim. At que horas voc ficou acordado 
com ela ontem  noite? No ouvi quando veio para a cama.
        Ele bocejou e passou a mo pelos cabelos, afastando-os do rosto. Havia olheiras sob seus olhos, mas ele parecia serenamente satisfeito.
        - Ah, at tarde. Antes de amanhecer, pelo menos. No queria acordar Jenny levando o beb de volta para ela, assim coloquei-a na cama entre ns dois e ela 
no se mexeu nem uma vez, o resto da noite.
        O beb massageava o colcho com os joelhos e os cotovelos, escavando as cobertas da cama com um ronco gutural e baixo. Devia estar quase na hora de sua mamada 
matinal. Essa suposio confirmou-se no momento seguinte, quando ergueu a cabea, os olhos ainda completamente fechados, e emitiu um gritinho saudvel. Apressei-me 
a peg-la no colo.
        - Pronto, pronto, pronto - disse baixinho, procurando acalm-la, acariciando as pequeninas costas retesadas. Joguei as pernas para fora da cama, em seguida 
estendi a mo para trs e toquei a cabea de Jamie. Senti os cabelos revoltos e brilhantes aquecidos sob minha mo.
        - Vou lev-la para Jenny - eu disse. - Ainda  cedo; durma um pouco mais.
        -  o que farei, Sassenach - Jamie disse, contraindo-se diante do barulho. - Nos vemos no desjejum, certo? - Virou-se sobre as costas, cruzou as mos no 
peito em sua postura preferida para dormir e j respirava pesadamente outra vez quando Katherine Mary e eu alcanamos a porta.
        O beb gritava com todas as foras, procurando um mamilo e berrando de frustrao ao no encontrar nenhum imediatamente disponvel. Descendo s pressas pelo 
corredor, encontrei Jenny, surgindo afobada de seu quarto, em resposta aos gritos de seu rebento, amarrando um roupo verde enquanto saa. Estendi-lhe o beb que 
brandia os pequenos punhos numa demanda premente.
        - Pronto, mo miminn, quietinha agora, quietinha - Jenny repetia, tranqilizando-a. Erguendo uma das sobrancelhas como um convite, pegou a criana das minhas 
mos e virou-se para dentro do quarto outra vez.
        Seguia-a e sentei-me na cama desfeita, enquanto ela acomodava-se numa cadeira prpria para a amamentao, junto  lareira, e apressadamente desnudava um 
seio. A boquinha chorosa agarrou-se imediatamente ao mamilo e todos ns relaxamos aliviados quando o sbito silncio tomou conta do aposento.
        - Ah! - Jenny suspirou. Seus ombros baixaram quase imperceptivel-mente quando o fluxo de leite teve incio. - Assim est melhor, no , gulosa? - Ela abriu 
os olhos e sorriu para mim, os olhos lmpidos e azuis como os do irmo.
        - Foi muita gentileza sua tomar conta do nenm a noite toda. Eu dormi como uma pedra.
        Encolhi os ombros, sorrindo diante da figura da me com a filha, ambas relaxadas em total contentamento. A curva da cabea do beb imitava perfeitamente 
a curva alta e redonda do seio de Jenny, rudos de borbulhas erguendo-se da pequena trouxa, conforme seu corpo deixava-se afundar contra o corpo da me, encaixando-se 
facilmente na curva do colo de Jenny.
        - Foi Jamie, no fui eu - eu disse. - Ele e a sobrinha parecem ter se dado muito bem. - A viso dos dois juntos retornou  minha mente, Jamie falando com 
a criana num tom de voz grave e baixo, as lgrimas deslizando pelas suas faces.
        Jenny balanou a cabea, observando meu rosto.
        - Sim. Achei que talvez um pudesse consolar o outro um pouquinho. Ele no anda dormindo bem ultimamente? - Sua voz continha uma indagao.
        - No - respondi brandamente. - Anda muito preocupado.
        - Bem,  de se esperar - ela disse, olhando para a cama atrs de mim. Ian j sara, tendo acordado ao alvorecer para ir cuidar dos animais no celeiro. Os 
cavalos da fazenda que podiam ser cedidos, e alguns que no podiam, precisavam receber ferraduras e arreios, em sua preparao para a revolta.
        - A gente pode conversar com um beb, sabe - ela disse repentinamente, invadindo meus pensamentos. - Quero dizer, conversar de verdade. Voc pode dizer a 
eles qualquer coisa, por mais tolo que pudesse soar caso voc falasse para algum que no o compreendesse.
        - Ah. Ento, voc o ouviu? - perguntei. Ela assentiu, os olhos na curva da bochecha de Katherine, no ponto onde as minsculas pestanas repousavam sobre a 
pele clara, os olhos cerrados em xtase.
        - Sim. Voc no deve se preocupar - ela acrescentou, sorrindo amavelmente para mim. - No  que ele ache que no pode conversar com voc; ele sabe que pode. 
Mas  diferente conversar com um beb daquele jeito.  uma pessoa; voc sabe que no est sozinho. Mas voc sabe tambm que o beb no conhece suas palavras e voc 
no precisa se preocupar nem um pouco com o que ele vai pensar de voc ou com o que ele pode sentir que deve fazer. Voc pode extravasar seu corao para essas criaturinhas 
sem ter que escolher as palavras ou esconder qualquer coisa, e isso  um conforto para a alma.
        Ela falava de modo simples e pragmtico, como se aquilo fosse algo do conhecimento de todo mundo. Perguntei-me se ela conversaria com seu beb daquela forma 
com freqncia. A boca larga e generosa, to parecida com a do irmo, ergueu-se ligeiramente em um dos cantos.
        -  como se conversa com elas antes de nascerem - ela disse suavemente. - Sabe como ?
        Coloquei as mos delicadamente sobre o ventre, uma sobre a outra, lembrando-me.
        - Sim, eu sei.
        Ela pressionou o polegar na bochecha da filha, interrompendo a suco, e com um movimento gil mudou o corpinho de posio, para colocar o seio cheio ao 
alcance do beb.
        - As vezes, penso que talvez seja por isso que as mulheres em geral ficam tristes depois que a criana nasce - ela disse pensativamente, como se pensasse 
em voz alta. - Voc pensa nelas enquanto conversa e forma uma imagem delas como so dentro de voc, do modo que acha que so. Depois, elas nascem e so diferentes, 
no so absolutamente como voc imaginara que eram dentro de voc. E voc as ama,  claro, e passa a conhec-las como realmente so... mas, ainda assim, fica em 
seu corao a idia da criana com quem voc conversava, e essa criana no existe mais. Assim, acho que o que voc sente  a dor pela criana que se foi, embora 
tenha nos braos a criana que nasceu. - Abaixou a cabea e beijou o cocuruto recoberto de penugem de sua filha.
        - Sim - eu disse. - Antes... tudo so possibilidades. Pode ser um menino ou uma menina. Apenas uma criana, bela e saudvel. Depois ela nasce e tudo que 
ela poderia ter sido desaparece, porque agora ela passou a existir de verdade.
        Ela balanou-se delicadamente para frente e para trs, e a mozinha crispada que agarrava as dobras de seda verde sobre seu seio comeou a perder a fora 
e relaxar.
        - E nasce uma menina e o menino que ela poderia ter sido  morto - ela disse quase num sussurro. - E a linda garotinha ao seu seio matou o belo garoto que 
voc achava que carregava. E voc chora pelo que no sabia, que se foi para sempre, at conhecer a criana que tem agora e, ento, finalmente  como se ela no pudesse 
ser diferente de quem e, e voc sente apenas alegria por t-la. Entretanto, at ento, voc chora com facilidade.
        - E os homens... - eu disse, pensando em Jamie, sussurrando segredos aos ouvidos surdos da criana.
        - Sim. Eles seguram seus rebentos no colo e sentem tudo que podero ser e tudo que jamais sero. Mas no  to fcil para um homem chorar pelo que no conhece.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
PARTE VI - AS CHAMAS DA REBELIO




36 - PRESTONPANS

Esccia, setembro de 1745
        
        Quatro dias de marcha nos fez chegar ao cume de uma colina perto de Calder. Uma regio plana e deserta, de tamanho considervel, estendia-se ao sop do morro, 
mas ns acampamos sob a proteo das rvores no alto. Havia dois crregos atravessando a rocha recoberta de musgo da encosta da colina e o tempo lmpido e frio do 
comeo do outono dava a sensao mais de um piquenique do que de uma marcha para a guerra. Mas era 17 de setembro e se meu conhecimento superficial da histria jacobita 
estivesse correto, seria mesmo uma guerra, dentro de poucos dias.
        - Conte-me de novo, Sassenach - Jamie dissera, pela duodcima vez, enquanto avanvamos pelas trilhas sinuosas e estradas poeirentas. Eu cavalgava Donas, 
enquanto Jamie caminhava ao lado, mas naquele instante, apeei do cavalo para caminhar ao lado dele e facilitar a conversa. Embora Donas e eu tivssemos atingido 
uma espcie de compreenso mtua, ele era o tipo de cavalo que exige toda a sua concentrao para cavalgar; era muito afeito a jogar um cavaleiro desavisado para 
fora da sela passando sob galhos baixos, por exemplo.
        - J lhe disse antes, eu no sei muita coisa - repeti. - Havia muito pouco escrito sobre isso nos livros de histria e, na poca, eu no prestei muita ateno. 
Tudo que posso lhe dizer  que a batalha foi travada... h, ser travada... perto da cidade de Preston. Por isso  chamada de Batalha de Prestonpans, embora os escoceses 
a chamassem... chamem... de Batalha de Gladsmuir, por causa de uma antiga profecia de que o rei que regressa ser vitorioso em Gladsmuir. S Deus sabe onde fica 
o verdadeiro Gladsmuir, se  que existe.
        - Sim. E?
        Franzi o cenho, tentando me lembrar do menor resqucio de informao. Eu podia conjurar a imagem mental de um exemplar marrom, pequeno e enxovalhado, do 
livro Histria da Inglaterra para crianas, lido  luz bru-xuleante de um lampio de querosene num casebre de taipa na antiga Prsia. Folheando mentalmente o livro, 
s conseguia me lembrar da seo de duas pginas que era tudo que o autor achara adequado consagrar ao segundo levante jacobita, conhecido pelos historiadores como 
a Rebelio de 45. E nessa seo de duas pginas, havia um nico pargrafo que tratava da batalha que estvamos prestes a travar.
        - Os escoceses vencem - eu disse prestativamente.
        - Bem, esse  o ponto mais importante - ele concordou, um pouco sarcstico -, mas seria bom saber mais um pouco.
        - Se queria uma profecia, devia ter arranjado um adivinho - retruquei, arrependendo-me em seguida. - Desculpe-me.  apenas que eu no sei quase nada e isso 
 muito frustrante.
        - Sim, . - Ele tomou minha mo, apertando-a enquanto sorria para mim. - No se preocupe, Sassenach. No pode dizer mais do que sabe, mas conte-me tudo que 
souber, mais uma vez.
        - Est bem. - Correspondi ao aperto de sua mo e continuamos caminhando, de mos dadas. - Foi uma vitria notvel - comecei, lendo minha pgina mental -, 
porque os jacobitas estavam em nmero muito menor. Eles surpreenderam o exrcito do general Cope no raiar do dia. Lanaram-se do sol nascente, lembro-me disso, e 
foi uma derrota fragorosa para o inimigo. Houve centenas de baixas do lado ingls e apenas algumas do lado jacobita. Trinta homens, para ser exata. Apenas trinta 
homens mortos no confronto.
        Jamie olhou por cima do ombro, para as fileiras desordenadas dos homens de Lallybroch que vinham atrs de ns, espalhando-se ao longo da estrada conforme 
caminhavam, conversando e cantando em pequenos grupos. Trinta homens foram o que trouxemos de Lallybroch. No parecia um nmero muito pequeno, olhando-se para eles. 
Mas eu vira os campos de batalha de Alscia-Lorena e as grandes pastagens convertidas em cemitrios lamacentos pelo sepultamento de milhares de vtimas.
        - Tudo considerado - eu disse, sentindo-me ligeiramente pesarosa -, receio que na verdade tenha sido... pouco importante, historicamente falando.
        Jamie deixou escapar o ar dos pulmes pelos lbios contrados e olhou-me desoladamente.
        - Pouco importante. Sim, bem.
        - Sinto muito - eu disse.
        - No  culpa sua, Sassenach.
        Mas, de certa forma, eu no conseguia me isentar de culpa.
        Os homens sentaram-se em torno da fogueira aps o jantar, desfrutando preguiosamente a sensao de estmago cheio, trocando histrias e e coando-se. A 
coceira era endmica; acomodaes apertadas e falta de higiene tornavam os piolhos do corpo to comuns a ponto de no suscitarem mais nenhuma observao quando um 
dos homens arrancava um espcime representativo de uma prega de seu xale e o atirava no fogo. O parasita incendiava-se por um instante, mais uma entre as fagulhas 
da fogueira, e desaparecia.
        O jovem que chamavam de Kincaid - seu nome era Alexander, mas havia tantos Alexanders que a maioria acabava sendo chamada por apelidos ou sobrenomes - parecia 
particularmente aflito com o flagelo naquela noite. Ele escavava furiosamente debaixo de um dos braos, em seus cabelos castanhos encaracolados e depois - com um 
rpido olhar para ver se algum estava observando-o - na regio das virilhas.
        - Est infestado, no , rapaz? - Ross, o ferreiro, observou com simpatia.
        - Sim - ele respondeu. - Os malditos parasitas esto me devorando vivo.
        -  um inferno tir-los dos plos do seu pau - observou Wallace Fraser, coando-se tambm, em solidariedade. - Sinto arrepios s de olhar para voc, garoto.
        - Sabe qual a melhor maneira de se livrar dos malditos insetos? -Sorley McClure perguntou prestativamente e, diante da negativa de Kincaid sacudindo a cabea, 
inclinou-se para frente e cuidadosamente tirou uma vareta flamejante do fogo.
        - Levante seu kilt um instante, rapaz, e eu os afugentarei com fumaa - ofereceu-se, para as vaias e risadas de zombaria dos homens.
        - Fazendeiro desgraado - Murtagh resmungou. - E o que  que voc sabe sobre isso?
        - Conhece um modo melhor? - Wallace ergueu as grossas sobrancelhas castanhas com ceticismo, enrugando a pele bronzeada de sua fronte calva.
        - Claro. - Retirou sua adaga com um floreio. - O garoto agora  um soldado; deixe que ele faa isso como um soldado faz.
        O rosto franco de Kincaid mostrava-se ingnuo e ansioso.
        - E como ?
        - Bem, muito simples. Pegue sua adaga, levante sua saia e raspe metade dos plos de sua forquilha. - Ergueu a adaga como um aviso. - Mas apenas a metade, 
veja bem.
        - Metade? Sim, bem... - Kincaid parecia em dvida, mas prestava muita ateno. Eu podia ver o riso formando-se nos rostos dos homens em torno da fogueira, 
mas ningum ainda estava rindo.
        - Ento... - Murtagh indicou Sorley e sua vareta incandescente. - Ento, rapaz, voc ateia fogo na outra metade e quando os piolhos sarem correndo, voc 
os espeta com sua adaga.
        O rosto de Kincaid ficou to afogueado que podia ser notado mesmo  luz da fogueira, enquanto o crculo de homens irrompia em estrondosas gargalhadas. Seguiram-se 
vrios empurres violentos quando alguns dos homens fingiam tentar a cura pelo fogo uns nos outros, brandindo pedaos de brasa. Quando parecia que a brincadeira 
grosseira estava saindo de controle, com probabilidade de levar a golpes mais srios, Jamie retornou do trabalho de amarrar os animais. Entrou no crculo e atirou 
para Kincaid uma garrafa cinza que carregava sob o brao. Outra foi atirada para Murtagh e os empurres cessaram.
        - Vocs so todos uns tolos - declarou. - A segunda melhor maneira de se livrar de piolhos  despejar usque sobre eles e deix-los bbados. Quando estiverem 
roncando, inconscientes, voc se levanta e eles caem todos no cho.
        - A segunda melhor, hein? - disse Ross. - E qual  a melhor maneira, chefe, se posso lhe perguntar?
        Jamie sorriu indulgentemente ao redor do crculo, como um pai divertindo-se com as palhaadas dos filhos.
        - Ora, deixe que sua mulher cate-os um a um. - Dobrou um cotovelo e fez uma mesura para mim, uma das sobrancelhas arqueadas. - Se me fizer a gentileza, milady.
        Embora colocada como uma piada, a remoo individual era na verdade o nico mtodo eficaz de algum se livrar dos parasitas. Eu penteava com pente-fino meus 
prprios cabelos - todos eles - pela manh e  noite, lavava-os com mileflio sempre que parvamos junto a guas suficientemente profundas para o banho e conseguira 
at ento evitar qualquer infestao grave. Ciente de que eu s permaneceria livre dos piolhos enquanto Jamie tambm permanecesse, eu administrava-lhe o mesmo tratamento, 
sempre que conseguia mant-lo sentado e quieto por tempo suficiente.
        - Os babunos fazem isso o tempo todo - observei, desembaraando delicadamente um galhinho de rabo-de-raposa de sua espessa cabeleira ruiva. - Mas acredito 
que eles comam os frutos de seu trabalho.
        - No deixe que eu a impea, Sassenach, se tiver vontade - ele retrucou. Arqueou os ombros ligeiramente de prazer quando o pente deslizou pelos fios grossos 
e lustrosos. A luz do fogo encheu minhas mos com uma cascata de fascas e fios dourados. - Hum. Nunca imaginei que fosse to bom ter algum penteando seus cabelos 
por voc.
        - Espere at eu chegar ao resto - eu disse, beliscando-o com intimidade e fazendo-o contorcer-se com uma risadinha. - Embora esteja tentada a experimentar 
a sugesto de Murtagh em vez do pente.
        - Toque nos plos do meu pau com uma tocha e receber o mesmo tratamento - ele ameaou. - O que foi mesmo que Louise de La Tour disse que as mulheres depiladas 
so?
        - Erticas. - Inclinei-me para frente e mordisquei a parte superior de uma de suas orelhas.
        - Mmmuhm.
        - Bem, os gostos diferem - eu disse. - Chacun a son gout e coisas desse tipo.
        - Um sentimento muito francs, devo dizer.
        - No  mesmo?
        Um ronco sonoro, revolvido, interrompeu meus esforos. Larguei o pente e espreitei acintosamente as sombras entre as rvores.
        - Ou h ursos neste bosque - eu disse - ou... por que voc no comeu?
        - Estava ocupado com os animais - ele respondeu. - Um dos pneis est com o casco fendido e tive que enfaix-lo com um emplastro. No que eu sinta muita 
fome, com toda essa conversa de comer piolhos.
        - Que tipo de emplastro voc usa no casco de um cavalo? - perguntei, ignorando a observao.
        - Vrias coisas; bosta fresca serve, num aperto. Desta vez, usei folhas de ervilhaca trituradas e misturadas com mel.
        Os alforjes haviam sido despejados perto da nossa fogueira particular, junto  borda da pequena clareira onde os homens haviam armado a minha tenda. Embora 
eu estivesse disposta a dormir sob as estrelas como eles faziam, admiti uma certa gratido pela pequena privacidade concedida a mim pela lona da barraca. E, como 
Murtagh ressaltara com sua franqueza de costume, quando eu lhe agradeci por sua ajuda em erguer o abrigo, o arranjo no era unicamente para meu benefcio.
        - E se ele se esgueirar entre suas pernas  noite, ningum ficar com inveja dele - o pequeno escocs dissera, sacudindo a cabea na direo de Jamie, absorto 
numa conversa com vrios outros homens. - No h nenhuma necessidade de fazer os rapazes pensarem muito no que no podem ter, no ?
        - Sem dvida - eu disse, com um tom de irritao na voz. - Muito atencioso de sua parte.
        Um dos seus raros sorrisos curvaram o canto da boca de lbios finos.:
        - Ah, sem dvida - ele disse.
        Uma rpida busca nos alforjes produziu um naco de queijo e vrias mas. Dei-os a Jamie que os olhou com desconfiana.
        - No tem po? - perguntou.
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        - Talvez haja um pouco na outra sacola. Mas coma isso primeiro; vo lhe fazer bem. - Ele compartilhava a desconfiana inata de um escocs das Highlands em 
relao a frutas frescas e legumes, embora seu enorme apetite o dispusesse a comer praticamente de tudo em grandes quantidades.
        - Mm - resmungou, dando uma mordida numa ma. - J que voc o diz, Sassenach.
        - Digo, sim. Veja. - Afastei meus lbios, exibindo os dentes. - Quantas mulheres da minha idade voc conhece que ainda tm todos os seus dentes?
        Um amplo sorriso revelou seus prprios e excelentes dentes.
        - Bem, admito que os seus esto muito bem conservados, Sassenach, para uma senhora to idosa.
        - Bem-nutrida, isso  o que sou - retorqui. - Metade das pessoas em suas terras sofre ligeiramente de escorbuto e pelo que vi na estrada,  pior ainda em 
outros lugares.  a vitamina C que evita o escorbuto e as mas so cheias dela.
        Ele tirou a ma da boca e franziu o cenho com ar de desconfiana.
        -  mesmo?
        - Sim,  - eu disse com firmeza. - Assim como muitos outros tipos de plantas: laranjas e limes so os melhores, mas obviamente no se pode consegui-los 
aqui... mas cebolas, repolho, mas... coma algo assim todos os dias e nunca ter escorbuto. At mesmo ervas verdes e capim possuem vitamina C.
        - Mmuhm. E  por isso que os cervos no perdem os dentes quando ficam velhos?
        - Eu diria que sim.
        Ele revirou a ma de um lado para o outro, examinando-a criticamente, depois encolheu os ombros.
        - Sim, bem - disse, com mais uma mordida.
        Eu acabara de me virar para ir buscar o po quando um leve estalido chamou minha ateno. Avistei pelo canto do olho um vago movimento na escurido e a luz 
da fogueira reluziu em alguma coisa perto da cabea de Jamie. Virei-me para ele, gritando, bem a tempo de v-lo saltar para trs do toco de rvore onde estava sentado 
e desaparecer no vazio da noite.
        No havia lua e a nica pista do que estava acontecendo era um tremendo rudo de luta nas folhas secas dos carvalhos e o barulho de homens atracados num 
conflito brutal, mas silencioso, com grunhidos, arfadas e uma imprecao abafada de vez em quando. Ouviu-se um grito breve e agudo, seguido de absoluto silncio. 
Durou, suponho, no mais do que alguns segundos, embora me parecesse um tempo interminvel.
        Eu ainda estava de p junto  fogueira, paralisada em minha posio original, quando Jamie emergiu da escurido sombria da floresta, um prisioneiro  sua 
frente, com um dos braos torcidos para trs. Afrouxando a mo, ele girou a figura escura nos calcanhares e empurrou-a bruscamente, atirando-a de costas contra uma 
rvore. O homem bateu com fora no tronco, soltando uma chuva de folhas e bolotas do carvalho. Em seguida, deslizou lentamente e ficou deitado, aturdido, na camada 
de folhas no solo.
        Atrados pelo barulho, Murtagh, Ross e dois outros homens dos Fraser materializaram-se junto ao fogo. Iando o intruso sobre os ps, puxaram-no rispidamente 
para o crculo de luz da fogueira. Murtagh agarrou o prisioneiro pelos cabelos e puxou sua cabea para trs com um safano, exibindo seu rosto.
        Era um rosto pequeno, de ossos delicados, com olhos grandes de longas pestanas que piscavam aturdidamente para as figuras ao seu redor.
        - Mas  s um menino! - exclamei. - No pode ter mais de quinze anos!
        - Dezesseis! - disse o garoto. Sacudiu a cabea, recobrando os sentidos. - No que isso faa qualquer diferena - acrescentou arrogantemente, com um sotaque 
ingls. Sotaque de Hampshire, pensei. Ele estava muito longe de casa.
        - No faz mesmo - Jamie concordou de modo assustador. - Dezesseis ou sessenta, ele acabou de fazer uma tentativa bem real de cortar minha garganta. - Percebi, 
ento, o leno manchado de vermelho, pressionado contra o lado de seu pescoo.
        - No vou lhes contar nada - disse o garoto. Seus olhos eram duas poas escuras no rosto lvido, embora a luz da fogueira reluzisse nos cabelos louros. Ele 
agarrava um dos braos com fora  sua frente; achei que provavelmente estava machucado. O garoto estava obviamente fazendo um grande esforo para se manter em p 
e empertigado no meio dos homens, os lbios comprimidos contra qualquer expresso teimosa de medo ou dor.
        - Algumas coisas voc no precisa me contar - Jamie disse, examinando o garoto de alto a baixo. - Primeiro, voc  ingls, ento, provavelmente, veio com 
tropas prximas. Segundo, est sozinho.
        O garoto pareceu surpreso.
        - Como sabe disso?
         Jamie ergueu as sobrancelhas.
        - Imagino que no teria me atacado, a menos que achasse que esta senhora e eu estvamos sozinhos. Se estivesse com outras pessoas que tambm pensassem assim, 
provavelmente teriam vindo socorr-lo agora mesmo. Alis, seu brao est quebrado? Acho que senti alguma coisa estalar. Se estivesse com outras pessoas que soubessem 
que no estvamos sozinhos. elas o teriam impedido de tentar algo to tolo. - Apesar de seu diagnstico, notei trs dos homens desaparecerem discretamente na floresta, 
atendendo a um sinal de Jamie, provavelmente para verificar se havia outros invasores.
        A expresso do rosto do rapaz endureceu-se ao ouvir sua ao ser classificada de tola. Jamie tocou o leno de leve sobre o ferimento no pescoo e examinou-o 
com ar crtico.
        - Se estiver tentando matar algum por trs, garoto, escolha um homem que no esteja sentado numa pilha de folhas secas - advertiu. - E se estiver usando 
uma faca em algum maior do que voc, escolha o ponto certo; cortar a garganta de uma pessoa  arriscado, a menos que sua vtima fique sentada, imvel,  sua frente.
        - Obrigado pelo valioso conselho - disse o garoto com escrnio. Ele estava se saindo bem em tentar manter sua bravata, embora seus olhos saltassem nervosamente 
de um rosto ameaador e barbudo para outro. Nenhum homem das Highlands ganharia um concurso de beleza em plena luz do dia;  noite, no era o tipo de pessoa que 
voc gostaria de encontrar num lugar escuro.
        - No h de qu.  uma lstima que voc no v ter a oportunidade de us-lo no futuro. Alis, gostaria de saber, por que me atacou?
        Os homens, atrados pelo barulho, comearam a surgir dos acampamentos prximos, deslizando como espectros do meio das rvores. O olhar do garoto saltou de 
um lado para o outro, em torno do crescente crculo de homens, recaindo finalmente sobre mim. Hesitou por um instante, mas respondeu:
        - Eu esperava libertar a senhora de sua custdia.
        Uma leve movimentao de riso reprimido percorreu o crculo, sendo rapidamente extinguido por um breve gesto de Jamie.
        - Compreendo - ele disse, de forma no comprometedora. - Voc nos ouviu conversar e concluiu que se tratava de uma senhora inglesa de boa famlia. Ao passo 
que eu...
        - Ao passo que o senhor  um fora-da-lei sem escrpulos, com uma reputao de roubo e violncia! Seu rosto e descrio esto em enormes cartazes espalhados 
por toda parte em Hampshire e Sussex! Eu o reconheci imediatamente;  um rebelde e um devasso sem princpios! - O rapaz irrompeu furiosamente, o rosto manchado de 
vermelho mesmo sob a luz da fogueira.
        Mordi o lbio e abaixei os olhos para os meus sapatos, para no encarar Jamie.
        - Sim, bem.  isso mesmo - Jamie concordou cordialmente. - Sendo assim, talvez possa me dar alguma razo para eu no mat-lo imediatamente? - Sacando a adaga 
suavemente de sua bainha, ele girou-a bem devagar, fazendo a lmina reluzir.
        O sangue se esvara do rosto do rapaz, deixando-o como um fantasma nas sombras, mas ele empertigou-se diante das palavras de Jamie, empurrando seus captores 
de ambos os lados.
        - Eu j esperava por isso. Estou perfeitamente preparado para morrer - ele disse, endireitando os ombros.
        Jamie balanou a cabea pensativamente, em seguida, inclinando-se, colocou a lmina da adaga no fogo. Uma nuvem de fumaa elevou-se em torno do metal que 
se escurecia, com um cheiro forte de forja. Ns todos ficamos observando em silenciosa fascinao conforme a chama, de um azul espectral onde tocava a lmina, parecia 
impregnar de vida o ferro mortal com uma descarga de calor incandescente.
        Enrolando a mo no leno manchado de sangue, Jamie cautelosamente retirou a adaga do fogo. Avanou devagar em direo ao garoto, deixando a lmina cair, 
como se tivesse vontade prpria, at tocar o colete do rapaz. Um cheiro forte de tecido queimado desprendeu-se do leno enrolado em torno do cabo da arma, que se 
tornou mais forte conforme uma fina linha queimada traava seu curso, subindo pela frente do colete no caminho da adaga. A ponta da lmina, escurecendo  medida 
que esfriava, parou bem abaixo do queixo duramente erguido. Eu podia ver finas linhas de suor brilhando nas cavidades esticadas do pescoo delgado.
        - Sim, bem, acho que no estou preparado para mat-lo... ainda. - A voz de Jamie era mansa, repleta de uma ameaa silenciosa ainda mais assustadora por seu 
controle.
        - Com quem voc marchou? - A pergunta estalou como um chicote, fazendo os ouvintes recuarem de medo. A ponta da lmina pairou um pouco mais perto, fumegando 
na brisa da noite.
        - Eu... eu no vou lhe contar! - Os lbios do rapaz cerraram-se com firmeza sobre a resposta gaguejada e um tremor percorreu a garganta delicada.
        - Nem a que distncia esto seus camaradas? Nem quantos so? Nem a direo em que esto marchando? - As perguntas foram colocadas suavemente outra vez, com 
um toque meticuloso da lmina ao longo da borda do maxilar do garoto. O branco de seus olhos aumentou, como os de um cavalo em pnico, mas ele sacudiu a cabea violentamente, 
fazendo os cabelos dourados esvoaarem. Ross e Kincaid aumentaram a presso nos braos do rapaz que se debatia.
        A lmina escurecida pressionou com fora e repentinamente em toda a sua extenso, plana, sob o ngulo de seu maxilar. Ouviu-se um grito agudo e arfante, 
e o cheiro de pele queimada.
        - Jamie! - gritei, sem poder me conter. Ele no se voltou para me olhar, mas manteve os olhos fixos no prisioneiro, o qual, libertado das mos em seus braos, 
deixou-se cair de joelhos sobre as folhas secas varridas pelo vento, a mo agarrando o pescoo.
        - Isso no lhe diz respeito, madame - ele disse entre dentes Estendendo o brao, agarrou o menino pela frente da camisa e colocou-o de p com um safano. 
Cintilando, a lmina da adaga ergueu-se entre eles e pousou logo abaixo do olho esquerdo do garoto. Jamie inclinou a cabea numa pergunta silenciosa, mas recebeu 
em resposta uma negativa quase imperceptvel, mas definitiva.
        A voz do garoto no passava de um sussurro trmulo; teve que clarear a garganta para se fazer ouvir.
        - N-no - disse devagar. - No. No h nada que voc possa me fazer que me obrigue a contar-lhe qualquer coisa.
        Jamie continuou segurando-o por mais um instante, fitando-o nos olhos, depois soltou o tecido enrugado em sua mo e deu um passo para trs.
        - No - disse lentamente -, acho que no h. No a voc. Mas e quanto  senhora?
        No comeo, no percebi que ele se referia a mim, at que ele me agarrou pelo pulso e me puxou com fora para junto dele, fazendo-me tropear ligeiramente 
no solo irregular. Ca em sua direo e ele torceu meu brao bruscamente atrs das minhas costas.
        - Voc pode no ligar para o seu prprio bem-estar, mas talvez tenha alguma considerao pela honra da senhora, j que estava se dando a tanto trabalho para 
resgat-la. - Virando-me para ele, enrascou os dedos nos meus cabelos, forou minha cabea para trs e beijou-me com uma brutalidade deliberada que me fez contorcer 
o prprio corpo de modo involuntrio em protesto.
        Soltando meus cabelos, puxou-me com fora contra seu peito, de frente para o garoto do outro lado da fogueira. Os olhos do menino estavam arregalados, apavorados, 
com reflexos das chamas nas grandes pupilas escuras.
        - Solte-a! - exigiu com voz rouca. - O que pretende fazer com ela?
        As mos de Jamie alcanaram a gola do meu vestido. Com um violento puxo, rasgou o tecido do vestido e da roupa de baixo, desnudando quase todo o meu peito. 
Reagindo instintivamente, chutei-o na canela. O garoto emitiu um som inarticulado e deu um salto para frente, mas foi impedido mais uma vez por Ross e Kincaid.
        - J que perguntou - a voz de Jamie soou em tom agradvel atrs de mim -, estou disposto a violentar esta senhora diante dos seus olhos. Depois, eu a entregarei 
aos meus homens, para fazerem o que quiserem. - Talvez voc tambm queira ter a sua vez antes que eu o mate? Um homem no deve morrer virgem, no acha?
        Eu lutava seriamente agora, o brao mantido preso s costas com mo de ferro, meus protestos abafados pela palma grande e quente de Jamie sobre minha boca. 
Enfiei os dentes com fora na base de sua mo, arrancando sangue. Ele retirou-a bruscamente com uma exclamao sufocada, mas retornou-a quase de imediato, forando 
um pedao de pano como uma bucha entre meus dentes. Eu emitia sons estrangulados atravs de minha mordaa enquanto as mos de Jamie lanaram-se sobre meus ombros, 
afastando ainda mais os pedaos rasgados do meu vestido. Com um som rascante de linho fino e rstico rasgados, ele me desnudou at a cintura, prendendo meus braos 
nos lados do corpo. Vi Ross olhar para mim e logo desviar os olhos, fixando-o de modo intenso no prisioneiro, um lento rubor tomando conta de seu rosto. Kincaid, 
ele mesmo com apenas dezenove anos, ficou olhando fixamente em estado de choque, a boca aberta como uma planta carnvora.
        - Pare! - A voz do rapaz estava trmula, mas agora indignada, em vez de aterrorizada. - Voc... voc, covarde miservel! Como ousa desonrar uma senhora, 
seu canalha escocs! - Empertigou-se por um instante, o peito arquejante de emoo, depois tomou uma deciso. Arremeteu a cabea para trs e empinou o queixo.
        - Muito bem. No tenho outra escolha honrada. Solte a senhora e eu lhe direi o que quer saber.
        Uma das mos de Jamie largou meu ombro no mesmo instante. No vi seu gesto, mas Ross soltou o brao quebrado do rapaz e saiu s pressas para buscar meu manto, 
que cara no cho despercebidamente durante a agitao da captura do garoto. Jamie puxou minhas duas mos para trs e, arrancando meu cinto, usou-o para at-las 
com firmeza s minhas costas. Pegando o manto das mos de Ross, jogou-o sobre meus ombros e fechou-o com cuidado. Dando um passo para trs, inclinou-se ironicamente 
para mim numa mesura, depois se virou para encarar o prisioneiro.
        - Tem minha palavra de que a senhora estar a salvo das minhas investidas - disse. O tom de sua voz podia ser atribudo  tenso da raiva e do desejo frustrado; 
eu o reconheci como a angustiante represso de uma incontrolvel vontade de rir e alegremente o teria matado ali mesmo.
        O rosto endurecido como uma pedra, o rapaz forneceu as informaes exigidas, falando em monosslabos.
        Seu nome era William Grey, segundo filho do visconde Melton. Acompanhava uma tropa de duzentos homens, viajando para Dunbar, com a inteno de se juntar 
ali ao exrcito do general Cope. Seus companheiros estavam no momento acampados a uns cinco quilmetros dali, para oeste. Ele, William, andando pela floresta, vira 
a claridade de nossa fogueira e fora investigar. No, no havia ningum com ele. Sim, as tropas carregavam armamento pesado, dezesseis canhes montados em carroas 
e dois morteiros de quarenta centmetros. A maior parte das tropas estava armada de mosquetes e havia uma companhia com trinta cavalos.
        O garoto comeava a esmorecer sob a tenso combinada do interrogatrio e de seu brao quebrado, mas recusou uma oferta para se sentar. Ao invs disso, apoiou-se 
contra uma rvore, segurando o cotovelo na mo esquerda.
        As perguntas continuaram por quase uma hora, repassando as informaes inmeras vezes, identificando discrepncias, ampliando os detalhes, buscando as omisses 
mantidas em segredo, as questes das quais o interrogado se esquivava. Finalmente satisfeito, Jamie deu um suspiro profundo e afastou-se do garoto, que se deixou 
cair nas sombras oscilantes do carvalho. Ele estendeu a mo sem falar; Murtagh, como sempre adivinhando sua inteno, entregou-lhe uma pistola.
        Ele voltou-se outra vez para o prisioneiro, ocupando-se em verificar a preparao do explosivo e o carregamento da arma. Os trinta centmetros da pistola 
de metal, a coronha em forma de corao, reluziram com um brilho escuro, a luz da fogueira desprendendo fascas prateadas do gatilho e do percussor.
        - Corao ou cabea? - Jamie perguntou despreocupadamente, erguendo por fim o rosto.
        - Hein? - O rapaz permaneceu de boca aberta, com ar estpido de absoluta incompreenso.
        - Eu vou mat-lo com um tiro -Jamie explicou pacientemente. - Em geral, espies so enforcados, mas em considerao ao seu cavalheirismo, estou disposto 
a lhe dar uma morte rpida e limpa. Prefere receber o tiro na cabea ou no corao?
        O rapaz empertigou-se rpido, endireitando os ombros.
        - Ah, oh, sim, claro. - Umedeceu os lbios com a lngua e engoliu em seco. - Acho que... no corao. Obrigado - acrescentou, numa reflexo tardia. Ergueu 
o queixo, comprimindo os lbios, que ainda detinham um resqucio de seus contornos suaves e infantis.
        Balanando a cabea em concordncia, Jamie engatilhou a arma com um clique que ecoou pelo silncio sob os carvalhos.
        - Espere! - disse o prisioneiro. Jamie olhou-o com um ar inquiridor, a pistola apontada para o peito delgado.
        - Que garantia eu tenho de que a senhora no ser molestada depois que eu... depois que eu tiver partido? - o garoto exigiu, olhando agressivamente  volta 
do crculo de homens. Sua nica mo em perfeito estado estava fechada com fora, mas tremia ainda assim. Ross emitiu um som que habilmente transformou num espirro.
        Jamie abaixou a pistola e, com um controle inabalvel, manteve o rosto impassvel, numa expresso de solene seriedade.
        - Bem - disse, com o sotaque escocs mais forte sob a tenso -, voc tem a minha prpria palavra,  claro, embora eu possa compreender perfeitamente que 
voc tenha alguma hesitao em aceitar a palavra de um... - seu lbio se contorceu involuntariamente - covarde escocs. Talvez aceite a garantia da prpria senhora? 
- Ergueu uma das sobrancelhas em minha direo e Kincaid adiantou-se prontamente para me libertar de minha mordaa.
        - Jamie! - exclamei furiosa, a boca finalmente livre. - Isso  inadmissvel! Como pde fazer tal coisa? Seu... seu...
        - Covarde - ele adiantou-se prestativamente. - Ou canalha, se preferir. O que acha, Murtagh - disse, voltando-se para seu tenente -, eu sou um covarde ou 
um canalha?
        Os lbios finos de Murtagh contorceram-se numa expresso malvada.
        - Eu diria que voc  carne de cachorro se libertar sua garota sem uma adaga na mo.
        Jamie voltou-se para seu prisioneiro com ar de arrependimento.
        - Devo me desculpar com minha esposa por for-la a tomar parte nesta encenao. Asseguro-lhe que sua participao foi inteiramente a contragosto. - Examinou 
pesarosamente a mo mordida  luz da fogueira.
        - Sua esposa! - O rapaz olhava desvairadamente de mim para Jamie.
        - Tambm lhe asseguro que, embora a senhora em questo s vezes honre minha cama com sua presena, ela nunca o fez sob coao. E no o far agora - acrescentou 
enfaticamente -, mas no a desamarre ainda, Kincaid.
        - James Fraser - sibilei entre os dentes cerrados. - Se tocar neste garoto, com certeza nunca mais partilhar a minha cama!
        Jamie ergueu uma das sobrancelhas. Seus caninos brilharam momentaneamente  luz do fogo.
        - Bem, essa  uma ameaa sria, para um devasso sem princpios como eu, mas acho que no posso considerar meus prprios interesses nesta situao. Guerra 
 guerra, afinal de contas. - A pistola, que ele deixara arriar, comeou a elevar-se outra vez.
        - Jamie! - gritei.
        Ele abaixou a pistola de novo e virou-se para mim com uma expresso de exagerada pacincia.
        -Sim?
        Respirei fundo, para impedir que minha voz tremesse de raiva. Eu s podia imaginar o que ele estava tramando e esperava estar fazendo o que era certo naquela 
encenao. Certo ou no, quando isso terminasse...
        Afastei a viso extremamente agradvel de Jamie contorcendo-se no cho com meu p em seu pomo-de-ado, a fim de me concentrar no meu presente papel.
        - Voc no tem absolutamente nenhuma prova de que ele seja um espio - continuei. - Ele disse que se deparou com voc por acaso. Quem no ficaria curioso 
se visse uma fogueira no bosque?
        Jamie assentiu, seguindo meus argumentos.
        - Sim, e quanto  tentativa de assassinato? Espio ou no, ele tentou me matar, ele mesmo admitiu. - Passou os dedos delicadamente sobre o arranho vermelho 
no lado de sua garganta.
        - Bem,  claro que ele o fez - eu disse, acaloradamente. - Ele diz que sabia que voc era um fora-da-lei. Sua maldita cabea est a prmio, pelo amor de 
Deus!
        Jamie esfregou o queixo pensativo, virando-se finalmente para o seu prisioneiro.
        - Bem,  um argumento - ele disse. - William Grey, sua advogada defendeu-o muito bem. No  poltica nem de Sua Alteza, o prncipe Carlos, nem minha, executar 
pessoas de modo ilegal, seja inimigo ou no. - Convocou Kincaid com um gesto da mo.
        - Kincaid, voc e Ross levem esse homem na direo onde ele diz que est seu acampamento. Se as informaes que ele nos deu forem verdadeiras, amarrem-no 
em uma rvore a um quilmetro e meio do acampamento na linha de marcha. Seus amigos o encontraro l amanh. Se o que ele nos contou no for verdade... - parou, 
os olhos frios pousados no prisioneiro - cortem sua garganta.
        Encarou o rapaz direto nos olhos e disse, com um ar zombeteiro:
        - Eu lhe dou sua vida. Espero que a use bem.
        Deslocando-se para trs de mim, cortou a tira de pano que amarrava meus pulsos. Quando me virei furiosamente, ele indicou o garoto, que sentara-se de repente 
no cho, sob o carvalho.
        - Talvez queira fazer a gentileza de cuidar do brao do rapaz antes de sua partida?
        A carranca de pretensa ferocidade desaparecera de seu rosto, deixando-o impenetrvel como uma muralha. As plpebras estavam abaixadas, evitando o meu olhar.
        Sem uma palavra, dirigi-me ao garoto e ajoelhei-me a seu lado. Ele parecia aturdido e no protestou quando o examinei, nem com as subseqentes manipulaes, 
embora deva ter sido doloroso.
        O corpete rasgado do meu vestido insistia em deslizar dos meus ombros e eu xingava baixinho enquanto irritada ajeitava um lado e outro pela milsima vez. 
Os ossos do antebrao do rapaz eram leves e angulosos sob a pele, pouco mais largos do que os meus. Coloquei uma tala no brao e pendurei-o numa tipia usando meu 
prprio leno.
        -  uma fratura simples - eu lhe disse, tentando manter a voz impessoal. - Procure manter o brao imvel pelo menos por duas semanas. - Ele assentiu, sem 
olhar em minha direo.
        Jamie ficara sentado em silncio num toco de madeira, observando meus servios. Com a respirao entrecortada, caminhei at ele e o esbofeteei com toda a 
fora. A bofetada deixou uma mancha branca em uma das faces e fez seus olhos lacrimejarem, mas ele no se mexeu nem mudou de expresso.
        Kincaid ps o garoto de p e empurrou-o para a borda da clareira com uma das mos nas costas. Ao atingir o limite das sombras, ele parou e virou-se. Evitando 
olhar para mim, falou direto para Jamie.
        - Eu lhe devo minha vida - disse formalmente. - Eu preferia que no fosse assim, mas j que me forou a aceitar sua ddiva, devo consider-la uma dvida 
de honra. Espero poder pagar essa dvida no futuro e assim que estiver paga... - A voz do garoto tremeu ligeiramente com o dio contido, perdendo toda a pretendida 
formalidade na absoluta sinceridade de seus sentimentos - ...Eu o matarei!
        Jamie ergueu-se do toco de rvore em toda a sua altura. Seu rosto estava calmo, sem qualquer vestgio de divertimento. Inclinou a cabea com seriedade para 
seu prisioneiro de partida.
        - Neste caso, senhor, espero que no nos encontremos nunca mais. O rapaz empertigou os ombros e devolveu o cumprimento com rigor.
        - Um Grey jamais esquece um compromisso, senhor - ele disse, desaparecendo na escurido com Kincaid junto a seu cotovelo.
        Houve um discreto intervalo de espera silenciosa, enquanto os rudos de ps nas folhagens afastavam-se na escurido. Em seguida, as risadas comearam, primeiro 
com um barulho sibilante e baixo atravs das narinas de um dos homens, seguido de uma risadinha de outro. Sem nunca se tornarem clamorosas, ainda assim foram ganhando 
volume, elevando-se em espiral pela roda de homens.
        Jamie deu um passo para dentro do crculo, o rosto voltado para seus homens. As risadas cessaram bruscamente. Abaixando os olhos para mim, disse laconicamente:
        - V para a barraca.
        Alertado pela expresso do meu rosto, agarrou meu pulso antes que eu pudesse erguer a mo.
        - Se vai me esbofetear de novo, ao menos me deixe dar a outra face - disse secamente. - Alm do mais, acho que posso poupar-lhe o trabalho. Mas, ainda assim, 
aconselho-a a ir para a tenda.
        Largando minha mo, aproximou-se da fogueira a passos largos e decididos e, com um movimento brusco da cabea, reuniu os homens espalhados pela clareira 
em um aglomerado relutante, cauteloso, diante dele. Os olhos dos homens estavam arregalados, as rbitas escuras por causa das sombras.
        No compreendi tudo que ele disse, j que falava numa estranha mistura de galico e ingls, mas captei suficientemente o sentido para perceber que ele estava 
investigando, num tom uniforme e manso, que parecia transformar seus ouvintes em pedra, a identidade das sentinelas a servio naquela noite.
        Viram-se olhares furtivos de um lado para o outro, um movimento desconfortvel entre os homens, que pareciam aglomerar-se ainda mais estreitamente diante 
do perigo. No entanto, neste momento as fileiras cerradas se partiram e dois homens deram um passo  frente, olharam para cima - uma vez - depois rpido para baixo. 
Assim permaneceram, lado a lado, os olhos fixos no cho, fora da proteo de seus companheiros.
        Eram os irmos McClure, George e Sorley. Quase da mesma idade, de trinta e poucos anos, permaneciam acabrunhados, lado a lado, os dedos das mos embrutecidas 
pelo trabalho contorcendo-se como se ansiassem por se unir, se entrelaar, numa pequena proteo antes da tempestade anunciada.
        Houve uma pausa breve e silenciosa quando Jamie olhou as duas sentinelas negligentes de alto a baixo. Seguiram-se cinco longos minutos de descompostura, 
tudo conduzido na mesma voz regular e mansa. No se ouviu nenhum som do grupo de homens. Os McClure, ambos homens grandes e musculosos, pareciam definhar e encolher 
sob o peso da censura. Limpei as mos suadas na saia, contente por no conseguir compreender tudo e comeando a me arrepender por no ter seguido a ordem de Jamie 
para retornar  barraca.
        Arrependi-me ainda mais no momento seguinte, quando Jamie voltou-se repentinamente para Murtagh, que,  espera da ordem, estava pronto com uma correia de 
couro, de cerca de sessenta centmetros de comprimento, com um n em uma das pontas para maior firmeza na mo de quem a segurava.
        - Tirem a camisa e ponham-se de p diante de mim, os dois. - Os McClure movimentaram-se imediatamente, os dedos rudes tateando as amarras da camisa, como 
se ansiosos para obedecer, aliviados de que as preliminares tivessem acabado e chegado a hora da punio.
        Achei que fosse enjoar, embora compreendesse que a pena fora bem leve, pelos padres aplicados em casos semelhantes. No se ouviu nenhum som na clareira, 
seno as vergastadas e uma ou outra arfada ou gemido dos homens que estavam sendo aoitados.
        Na ltima chicotada, Jamie deixou a tira de couro cair a seu lado. Suava copiosamente e o linho sujo de sua camisa estava emplastrado em suas costas. Fez 
um movimento com a cabea para os McClure, dispensando-os. Em seguida, limpou o rosto molhado na manga da camisa enquanto um dos homens curvava-se dolorosamente 
para resgatar as camisas atiradas ao cho e seu irmo, tambm trmulo, amparava-o do outro lado.
        Os homens na clareira pareciam ter parado at mesmo de respirar durante o castigo. Neste instante, um estremecimento percorreu o grupo, como se uma respirao 
coletiva tivesse sido exalada num suspiro de alvio.
        Jamie olhou-os, sacudindo a cabea de leve. O vento da noite intensificava-se, agitando e levantando os cabelos no topo de sua cabea.
        - No podemos nos dar ao luxo de sermos descuidados, mo duinne! - ele disse a meia-voz. - Nenhum de ns pode. - Respirou fundo e sua boca torceu-se ironicamente. 
- E isso inclui a mim tambm. Foi a minha fogueira desprotegida que atraiu o garoto para ns. - Sua testa porejava de suor novamente e ele passou a mo pelo rosto, 
enxugando-a no kilt. Fez um sinal com a cabea para Murtagh, com um ar implacvel e afastado dos demais homens, e estendeu a tira de couro para ele.
        - Poderia me fazer o favor, senhor?
        Aps um instante de hesitao, Murtagh estendeu a mo nodosa e segurou a correia. Uma expresso que poderia ser de divertimento tremeluziu nos olhos negros 
e brilhantes do pequeno escocs.
        - Com prazer... senhor.
        Jamie virou-se de costas para seus homens e comeou a desamarrar a camisa. Seus olhos me avistaram, paralisada entre os troncos de rvores, e uma das sobrancelhas 
ergueu-se numa pergunta irnica. Eu queria observar? Sacudi a cabea energicamente, girei nos calcanhares e sa correndo pelo meio das rvores, seguindo seu conselho 
tarde demais.
        Na verdade, no retornei  barraca. No podia suportar a idia de seu confinamento asfixiante; sentia um aperto no peito e precisava de ar.
        Encontrei-o no topo de uma pequena elevao, um pouco adiante da barraca. Aos tropees, parei num pequeno espao aberto, atirei-me de corpo inteiro no cho 
e passei os dois braos por cima da cabea. No queria ouvir o menor eco do ato final do drama, l embaixo atrs de mim, Junto  fogueira.
        O capim spero sob meu corpo estava frio na minha pele nua e encolhi-me, enrolando-me no manto. Embrulhada e aquecida no meu casulo, permaneci deitada imvel 
e em silncio, ouvindo as batidas do meu corao, esperando o turbilho em meu ntimo se acalmar.
        Algum tempo mais tarde, ouvi os homens passando em pequenos grupos de quatro ou cinco, retornando aos seus locais de dormir. Abafadas pelas dobras do manto, 
eu no podia ouvir suas palavras, mas soavam submissas, talvez um pouco intimidadas. Passou-se algum tempo at eu perceber que Jamie estava ali. Ele no falou nem 
fez nenhum barulho, mas subitamente percebi que estava perto. Quando girei sobre o corpo e sentei-me, pude ver seu vulto sobre uma pedra, a cabea descansando sobre 
os braos, cruzados sobre os joelhos.
        Dividida entre o impulso de acariciar sua cabea e a nsia de golpe-la com uma pedra, no fiz nem uma coisa nem outra.
        - Voc est bem? - perguntei, aps uma pausa, a voz o mais neutra possvel.
        - Sim, vou ficar. - Endireitou o corpo devagar e esticou-se, movendo-se cuidadosamente, com um profundo suspiro.
        - Sinto muito pelo seu vestido - ele disse, um minuto depois. Percebi que ele podia ver minha pele nua brilhando com um branco opaco na escurido, e eu juntei 
as pontas do meu manto rispidamente.
        - Ah, pelo vestido? - eu disse, com mais do que uma leve irritao na voz.
        Ele suspirou outra vez.
        - Sim, e pelo resto tambm. - Parou por um instante, depois disse: -Achei que talvez voc estivesse disposta a sacrificar seu recato para evitar que eu tivesse 
que ferir o garoto, mas naquelas circunstncias no tive tempo de pedir sua permisso. Se eu estava enganado, ento peo seu perdo, senhora.
        - Quer dizer que voc o teria torturado mais?
        Ele estava irritado e no se preocupou em esconder o fato.
        - Torturar, pelo amor de Deus! Eu no machuquei o garoto. Enrolei as dobras do manto com mais fora em volta de mim.
        - Ah, ento no considera feri-lo quebrar seu brao e marc-lo com uma faca em brasa?
        - No, no considero. - Cobriu a pequena distncia de gramado que havia entre ns e agarrou-me pelo cotovelo, puxando-me e obrigando-me a fit-lo. - Oua. 
Ele mesmo quebrou o brao, tentando escapar de uma chave indefensvel. Ele  to corajoso quanto qualquer um dos meus homens, mas no tem nenhuma experincia de 
luta corporal.
        - E a faca?
        Jamie resfolegou com desdm.
        - Bah!  apenas um ponto dolorido sob uma das orelhas e que amanh  noite ele j ter esquecido. Achei que doeria um pouco, mas eu pretendia amedront-lo, 
no feri-lo.
        - Ah. - Desvencilhei-me e comecei a andar novamente em direo ao bosque escuro,  procura de nossa barraca. Sua voz me seguiu.
        - Eu poderia ter feito o garoto falar, Sassenach. Mas teria sido um trabalho sujo e talvez permanente. Prefiro no usar tais meios se no forem necessrios. 
Veja bem, Sassenach - sua voz vinha das sombras, chegando at mim com um tom de ameaa -, em algum momento talvez eu tenha que faz-lo. Eu tinha que saber onde estavam 
seus companheiros, suas armas e tudo o mais. No consegui amedront-lo; ou eu o enganava ou o forava a falar.
        - Ele disse que voc no podia fazer nada que o fizesse falar. A voz de Jamie pareceu cansada.
        - Pelo amor de Deus, Sassenach,  claro que eu podia. Voc pode fazer qualquer pessoa falar se estiver disposto a tortur-lo o suficiente. Sei disso melhor 
do que ningum.
        - Sim - eu disse serenamente -, acho que sabe.
        Por um instante, nenhum de ns dois se moveu, nem falou. Eu podia ouvir os murmrios dos homens se preparando para a noite, uma ou outra batida de botas 
na terra dura e o farfalhar de folhas amontoadas para formar uma barreira contra o frio do outono. Meus olhos haviam se acostumado o suficiente  escurido para 
que agora eu pudesse ver os contornos de nossa barraca, a uns dez metros de distncia, sob a proteo de um enorme larcio. Podia ver Jamie tambm, seu vulto negro 
contra a escurido menos densa da noite.
        - Est bem - eu disse finalmente. - Est bem. Considerando-se a escolha entre o que voc fez e o que poderia ter feito... sim, est bem.
        - Obrigado. - Eu no podia ver se ele estava sorrindo ou no, mas assim me pareceu, pelo tom de sua voz.
        - Voc correu um srio risco com o resto da encenao - eu disse. - E se eu no tivesse lhe dado uma desculpa para no mat-lo, o que teria feito?
        A enorme figura remexeu-se e encolheu os ombros. Ouviu-se uma leve risadinha na escurido.
        - No sei, Sassenach. Imaginei que voc pensaria em alguma coisa. Se no... bem, suponho que eu ia ter que atirar mesmo no garoto. No podia desapont-lo 
simplesmente deixando-o ir, no ?
        - Seu escocs filho-da-me - eu disse, sem muito ardor. Seu peito arfou com um profundo e exasperado suspiro.
        - Sassenach, fui esfaqueado, mordido, esbofeteado e chicoteado desde o jantar... que no cheguei a terminar. No gosto de amedrontar crianas e no gosto 
de aoitar homens, e tive que fazer as duas coisas. Tenho duzentos ingleses acampados a cinco quilmetros daqui e nenhuma idia do que fazer a respeito. Estou cansado, 
com fome e dolorido. Se voc tiver qualquer resqucio de compaixo feminina, eu gostaria de receber um pouco!
        Falou de um modo to ressentido que eu ri, a despeito de mim mesma. Levantei-me e caminhei para ele.
        - Acho que voc merece. Venha c e eu verei se consigo encontrar um pouquinho para voc. - Ele havia vestido a camisa novamente, solta nos ombros, sem se 
preocupar em fech-la. Deslizei as mos sob a camisa, sobre a pele quente e sensvel de suas costas. - No cortou a pele - eu disse, tateando delicadamente para 
cima.
        - Uma correia no corta a pele; s arde.
        Removi sua camisa e fiz com que sentasse para que eu pudesse colocar compressas com a gua fria do riacho.
        - Melhor? - perguntei.
        - Mmmm. - Os msculos de seus ombros relaxaram, mas ele contraiu-se ligeiro quando toquei um lugar particularmente dolorido.
        Voltei minha ateno para o arranho sob a orelha.
        - Voc no teria realmente atirado nele, no ?
        - Quem voc pensa que eu sou, Sassenach? - ele disse, fingindo-se indignado.
        - Um covarde escocs. Ou, na melhor das hipteses, um fora-da-lei sem escrpulos. Quem sabe o que um sujeito assim faria? Sem falar do devasso sem princpios.
        Ele riu comigo e seu ombro sacudiu-se sob minha mo.
        - Vire a cabea. Se quer compaixo feminina, ter que se manter quieto enquanto eu aplico isso.
        - Mmm. - Fez-se um momento de silncio. - No - ele disse finalmente -, eu no teria atirado nele. Mas eu tinha que salvar seu orgulho de algum modo, depois 
de faz-lo se sentir ridculo por sua causa.  um garoto corajoso; ele merecia sentir que valia a pena mat-lo.
        Sacudi a cabea.
        -Jamais vou entender os homens - murmurei, passando ungento de cravo-da-ndia sobre o arranho.
        Ele estendeu as mos para trs e trouxe as minhas para baixo do seu queixo.
        - Voc no precisa me entender, Sassenach - disse serenamente. -Desde que me ame. - Inclinou a cabea para frente e beijou com ternura as minhas mos unidas.
        - E me alimente - ele acrescentou, soltando-as.
        - Ah, compaixo feminina, amor e comida? - eu disse, rindo. - Est querendo muito, no acha?
        Havia pes e bolos nos alforjes, queijo e um pedao de bacon tambm. As tenses e absurdos das ltimas duas horas haviam sido mais exaustivos do que eu imaginara 
e eu tambm participei avidamente da refeio.
        Os rudos produzidos pelos homens  nossa volta haviam se apaziguado e no havia nenhum som ou tremular de um fogo desprotegido para indicar que no estvamos 
a mil quilmetros de qualquer ser humano. Apenas o vento se agitava incessantemente entre as folhas, lanando um ou outro raminho para baixo, pelo meio dos galhos 
mais resistentes.
        Jamie recostou-se contra uma rvore, o rosto indistinto  luz das estrelas, mas o corpo imbudo de malcia.
        - Dei minha palavra a seu heri de que eu no a molestaria com as minhas abominveis investidas. Suponho que isso signifique que, a menos que voc me convide 
para compartilhar sua cama, vou ter que ir dormir com Murtagh ou Kincaid. E com os roncos de Murtagh.
        -  verdade - eu disse.
        Fitei-o por um instante, depois dei de ombros, deixando metade do meu vestido arruinado deslizar.
        - Bem, voc j fez uma boa investida para me violentar. - Deixei o outro lado do vestido escorregar do ombro e o tecido rasgado caiu livremente em torno 
de minha cintura. - Pode muito bem vir terminar o servio adequadamente.
        O calor de seus braos era como seda aquecida, deslizando pela minha pele fria.
        - Ah, bem - ele murmurou nos meus cabelos -, guerra  guerra, no ?
        - Sou pssima com datas - eu disse para o cu estrelado algum tempo depois. - Miguel de Cervantes j nasceu?
        Jamie estava deitado de bruos a meu lado, a cabea e os ombros projetando-se para fora do abrigo da tenda. Um dos olhos abriu-se devagar e girou na direo 
do horizonte a leste. No vendo nenhum vestgio do amanhecer do dia, viajou lentamente de volta e pousou sobre meu rosto, com uma expresso de amarga resignao.
        - Sente uma necessidade urgente de discutir romances espanhis? - ele disse, com a voz um pouco rouca.
        - No necessariamente - eu respondi. - S me perguntava se voc estaria familiarizado com o termo "quixotesco".
        Ele ergueu-se sobre os cotovelos, coou a cabea com as duas mos para acordar completamente, depois se virou para mim, piscando, mas alerta.
        - Cervantes nasceu h quase duzentos anos, Sassenach, e eu, tendo tido o privilgio de uma educao esmerada, sim, estou familiarizado com o cavalheiro. 
Voc no estaria insinuando nada pessoal com essa ltima observao, estaria?
        - Suas costas dem?
        Ele arqueou os ombros experimentalmente.
        - No muito. Um pouco machucado, eu acho.
        - Jamie, por qu, pelo amor de Deus? - exclamei.
        Ele apoiou o queixo nos braos cruzados, a inclinao de sua cabea reforando a obliqidade dos olhos. O olho que eu podia ver estreitou-se ainda mais com 
um sorriso.
        - Bem, Murtagh divertiu-se. Eu lhe devia uma surra desde que eu tinha nove anos e coloquei pedaos de uma colmia em suas botas quando ele as tirou para 
refrescar os ps. Na ocasio, ele no conseguiu pr as mos em mim, mas aprendi um bom nmero de palavras novas e interessantes enquanto ele me perseguia descalo. 
Ele...
        Interrompi o relato ao dar-lhe um soco, com todas as minhas foras, na ponta do ombro. Surpreso, ele deixou o brao desmoronar sob ele com um agudo "Uuul", 
rolando sobre o corpo e ficando de costas para mim.
        Ergui os joelhos atrs dele e passei o brao pela sua cintura. Suas costas encobriam as estrelas, largas e musculosas, ainda brilhando ligeiramente com a 
umidade do esforo. Beijei-o entre as omoplatas, depois me afastei um pouco e soprei delicadamente, pelo prazer de sentir sua pele estremecer sob meus dedos e os 
plos minsculos e finos eriarem-se, arrepiando a pele ao longo de sua espinha dorsal.
        - Por qu? - repeti. Recostei o rosto contra suas costas quentes e midas. No escuro, as cicatrizes eram invisveis, mas eu podia senti-las, as linhas finas 
e duras sob a minha face.
        Ele ficou imvel por alguns instantes, as costelas erguendo-se e abaixando-se sob meu brao, a cada respirao lenta e profunda.
        - Sim, bem - ele disse, depois ficou silencioso outra vez, pensando.
        - No sei exatamente, Sassenach - disse finalmente. - Talvez eu achasse que devia isso a voc. Ou talvez a mim mesmo.
        Coloquei a mo de leve sobre uma de suas omoplatas, larga e plana, os contornos do osso perfeitamente delineados sob a pele.
        - No a mim.
        -  mesmo?  um ato de cavalheiro despir sua mulher na presena de trinta homens? - Seu tom de voz tornou-se amargo repentinamente e minhas mos imobilizaram-se, 
pressionando contra seu corpo. -  um ato de cavalheiro usar de violncia contra um inimigo capturado, e ainda por cima uma criana? Pensar em fazer pior?
        - Teria sido melhor poupar-me, ou a ele, e perder metade de seus homens no espao de dois dias? Voc tinha que saber. No podia... no pode se dar ao luxo 
de deixar que noes de cavalheirismo o dominem.
        - No - ele disse suavemente -, no posso. E assim devo cavalgar com um homem, com o filho do meu rei, a quem o dever e a honra me obrigam a seguir, e buscar, 
nesse nterim, perverter sua causa, que eu jurei defender. Cometo perjrio pelas vidas dos que amo, traio a honra para que aqueles a quem honro possam sobreviver.
        - A honra j matou muita gente - eu disse para o sulco escuro de suas costas machucadas. - A honra sem sentido ... tolice. Uma tolice cavalheiresca, mas 
ainda assim  tolice.
        - Sim,  verdade. E isso vai mudar, voc mesma me disse. Mas se eu estiver entre os primeiros que sacrificam a honra pela sensatez... no devo sentir vergonha 
ao faz-lo? - Virou-se repentinamente para me encarar. Os olhos transtornados  luz das estrelas.
        - No vou voltar atrs, agora no posso mais, mas, Sassenach, s vezes eu realmente lamento por aquela parte de mim mesmo que deixei para trs.
        - A culpa  minha - eu disse baixinho. Toquei seu rosto, as sobrancelhas espessas, a boca larga e os plos curtos da barba ao longo do maxilar longo e perfeito. 
- Minha. Se eu no tivesse vindo... e lhe contado o que iria acontecer... - Senti uma tristeza profunda pela corrupo de Jamie e compartilhei um sentimento de perda 
pelo rapaz ingnuo e galante que ele fora. E no entanto... que escolha qualquer um de ns de fato teve, sendo quem ramos? Eu tive que lhe contar e ele teve que 
agir com base nesse conhecimento. Uma frase do Velho Testamento insinuou-se em minha mente: "Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus 
constantes gemidos todo o dia."
        Como se tivesse captado essa linha de pensamento bblico, ele sorriu debilmente.
        - Sim, bem - ele disse. - Eu no me lembro de Ado pedindo a Deus para levar Eva de volta... e veja o que ela fez a ele. - Inclinou-se para frente e beijou-me 
na testa enquanto eu ria, depois puxou o cobertor para cobrir meus ombros nus. - Durma, minha costelinha. Vou precisar de uma companheira pela manh.
        Um estranho rudo metlico me despertou. Empurrei a cabea para fora do cobertor e fiquei piscando na direo do barulho, descobrindo meu nariz a trinta 
centmetros do joelho coberto de xadrez de Jamie.
        - Acordada? - Algo prateado e tilintante desceu de repente diante do meu rosto e um grande peso assentou-se em volta do meu pescoo.
        - Que diabos  isso? - perguntei, sentando-me atnita e espreitando para baixo. Eu parecia estar usando um colar composto de um grande nmero de objetos 
de metal de cerca de oito centmetros, cada qual com uma haste dividida e uma argola na ponta, pendurados num cadaro de botas, de couro. Alguns dos objetos estavam 
enferrujados na parte de cima e outros eram novos em folha. Todos apresentavam arranhes ao longo das hastes, como se tivessem sido arrancados  fora de algum objeto 
maior.
        - Trofus de guerra, Sassenach - Jamie disse.
        Ergui os olhos para ele e soltei um pequeno grito diante da viso.
        - Ah - ele exclamou, colocando a mo no rosto. - Eu me esqueci. No tive tempo de lavar o rosto.
        - Voc quase me matou de susto - eu disse, a mo pressionada contra o corao disparado. - O que  isso?
        - Carvo - ele disse, a voz abafada no pano que esfregava no rosto. Retirou-o e riu para mim. A esfregao removera parte do negrume do nariz, do queixo 
e da testa, que brilhavam com uma colorao bronze-rosada em meio  sujeira remanescente. Seus olhos, entretanto, continuavam com um crculo negro, como os de um 
guaxinim, e linhas de carvo colocavam um parntese em sua boca. Apenas comeava a amanhecer e, na luz turva da tenda, seu rosto e cabelos escurecidos tendiam a 
se diluir no fundo pardacento da parede de lona atrs dele, dando a impresso distintamente perturbadora de que eu estava falando com um corpo sem cabea.
        - Foi idia sua - ele disse.
        - Minha idia? Voc parece que saiu de um espetculo de menestris caracterizados de negros - retruquei. - O que andou fazendo?
        Seus dentes reluziram, um branco brilhante em meio s linhas enegrecidas em seu rosto.
        - Incurso de comando militar - ele disse, com imensa satisfao. - Comando?  a palavra certa?
        -Ah, meu Deus! - exclamei. - Esteve no campo dos ingleses? Virgem Maria! No sozinho, espero?
        - No poderia deixar meus homens fora da diverso, no ? Deixei trs deles guardando-a e o resto de ns teve uma noite muito produtiva. -Indicou meu colar 
com orgulho.
        - Contrapinos das carroas dos canhes. No podamos trazer os canhes nem danific-los sem barulho, mas eles no iro muito longe sem rodas. O general Cope 
vai ficar com dezesseis belos canhes encalhados na plancie.
        Examinei atentamente meu colar.
        - Muito bem, mas eles no podem inventar novos contrapinos? Parece que algo semelhante pode ser feito com arame grosso.
        Ele concordou com um sinal da cabea, sem que sua expresso de orgulho se abatesse nem um pouco.
        - Ah, sim, podem. Mas de nada lhes adiantaria, sem novas rodas onde coloc-los. - Ergueu a aba da tenda e fez um gesto indicando o sop da colina, onde agora 
eu podia ver Murtagh, negro como um demnio ressequido, supervisionando as atividades de vrios demnios de menor patente, igualmente decorados. Estes alegremente 
alimentavam uma enorme fogueira com as ltimas de trinta e duas grandes rodas de madeira. Os aros de metal das rodas jaziam numa pilha ao lado; Fergus, Kincaid e 
um dos outros rapazes haviam improvisado um jogo com um deles, rolando-o de um lado para o outro com varas. Ross estava sentado perto dali, num tronco de rvore 
cado, bebericando de um copo de chifre e preguiosamente girando outro aro em volta do brao musculoso.
        Ri diante da cena.
        - Jamie, voc  mesmo inteligente!
        - Posso ser inteligente - ele retrucou -, mas voc est seminua e j estamos de partida. Tem alguma coisa para vestir? Deixamos as sentinelas amarradas em 
um redil abandonado, mas o resto delas j deve ter acordado a essa altura e logo estaro atrs de ns.  melhor irmos embora daqui.
        Para enfatizar suas palavras, a tenda sacudiu-se repentinamente acima de mim, quando algum soltou as amarras de um dos lados com um puxo. Dei um grito 
agudo de surpresa e me lancei sobre os alforjes, enquanto Jamie saa para supervisionar os detalhes da partida.
        No meio da tarde, chegamos  vila de Tranent. Empoleirada sobre as colinas acima do litoral, o vilarejo geralmente tranqilo agitava-se sob o impacto do 
exrcito das Highlands. A maior parte do exrcito podia ser vista nas colinas distantes, de frente para uma pequena plancie que se estendia at a beira-mar. Mas 
com as freqentes e desorganizadas idas e vindas, havia tantos homens em Tranent quanto fora dela, com destacamentos para cima e para baixo numa formao militar 
desordenada, mensageiros galopando de um lado para o outro - alguns em pneis, outros a p -, e mulheres, crianas e simpatizantes. Todos estes ltimos superlotavam 
as cabanas e sentavam-se ao ar livre - recostados contra muros de pedra e alimentando bebs sob o sol intermitente, chamando os mensageiros que passavam para saber 
notcias das aes mais recentes.
        Paramos  margem dessa atividade efervescente e Jamie enviou Murtagh para descobrir por onde andava lorde George Murray, o comandante-em-chefe do exrcito, 
enquanto ele fazia uma toalete apressada em uma das cabanas.
        Minha prpria aparncia deixava muito a desejar; embora no estivesse deliberadamente coberta de carvo, meu rosto sem dvida alguma exibia algumas listras 
de sujeira deixadas como lembrana de vrias noites dormidas ao ar livre. A dona da casa gentilmente me forneceu uma toalha e um pente e eu estava sentada  sua 
mesa, lutando com meus cachos indomveis, quando a porta abriu-se e o prprio lorde George irrompeu na sala sem a menor cerimnia.
        Seu traje em geral impecvel estava desalinhado, com vrios botes abertos na cintura, a echarpe pendia, solta, de seu pescoo e uma das ligas da meia estava 
desatada. Sua peruca fora enfiada sem nenhum embarao em um dos bolsos e seus prprios cachos, castanhos e ralos, estavam em p, dando a impresso de que ele os 
andara puxando de puro desespero.
        - Graas a Deus! - ele disse. - Um rosto normal, finalmente! - Em seguida, inclinou-se para frente, estreitando os olhos para olhar melhor para Jamie. A 
maior parte do p de carvo fora retirada dos cabelos afo-gueados quando foram lavados, mas filetes cinza escorriam pelo seu rosto e pingavam no peito da camisa. 
Suas orelhas, esquecidas na pressa de suas ablues, ainda estavam negras de carvo.
        - O que... - o perplexo lorde George comeou a dizer, mas interrompeu-se, sacudiu a cabea rapidamente uma ou duas vezes como se quisesse se livrar de algum 
produto de sua imaginao e retomou a conversa parecendo no ter observado nada de extraordinrio.
        - Como vo as coisas, senhor? - Jamie perguntou respeitosamente, tambm fingindo no notar o rabo-de-cavalo amarrado com fita da peruca que pendia do bolso 
de lorde George, balanando como o rabo de um pequeno cachorro conforme Sua Excelncia gesticulava violentamente.
        - Como vo as coisas? - ele repetiu. - Bem, vou lhe dizer, senhor! Vo para leste, depois vo para oeste, depois metade desce a colina para almoar, enquanto 
a outra metade sai marchando Deus-sabe-para-onde!  assim que as coisas vo!
        "As coisas", ele disse, momentaneamente aliviado com sua exploso, "sendo o leal exrcito das Highlands de Sua Alteza." Um pouco mais calmo, comeou a nos 
contar sobre os acontecimentos que se tornaram de conhecimento pblico desde a chegada do exrcito a Tranent no dia anterior.
        Ao chegar com o exrcito, lorde George deixara o grosso dos homens na vila e correra com um pequeno destacamento para se apossar das elevaes acima da plancie. 
O prncipe Carlos, tendo chegado um pouco depois, ficou contrariado com essa medida e disse isso, em alto e bom som. Sua Alteza, ento, pegara metade do exrcito 
e seguira marchando na direo oeste, o duque de Perth - nominalmente o outro comandante-em- chefe - de modo servil em seu rastro, presumivelmente para avaliar as 
possibilidades de atacar por Preston.
        Com o exrcito dividido, e Sua Excelncia ocupada em conferir com os habitantes do vilarejo que sabiam muito mais sobre as regies vizinhas do que Sua Alteza 
ou ele prprio, O'Sullivan, um dos confidentes irlandeses do prncipe, se incumbira de convocar um contingente de Lochiel, os homens do cl Cameron, ao ptio da 
igreja de Tranent.
        - Cope,  claro, trouxe alguns canhes montados em carroas e os bombardeou - lorde George disse de modo sombrio. - E eu tive uma tarde infernal com Lochiel. 
Ele estava compreensivelmente contrariado por ter vrios de seus homens feridos sem nenhuma razo aparente. Pediu para que seus homens batessem em retirada e eu, 
naturalmente, aceitei o pedido. Aps o que, l vem o idiota de Sua Alteza, O'Sullivan, desgraado! S porque ele desembarcou em Eriskay com Sua Alteza, o sujeito 
acha que ele... bem, de qualquer forma, l vem ele choramingando, dizendo que a presena dos Cameron no ptio da igreja  essencial, essencial, veja bem!, se vamos 
atacar pelo oeste. Eu lhe disse com todas as letras que vamos atacar do leste, se  que vamos atacar. Tal perspectiva  extremamente duvidosa no presente momento, 
j que no sabemos exatamente onde est metade de nossos homens... nem Sua Alteza, por falar nisso - acrescentou, num tom que deixou claro que ele considerava o 
paradeiro do prncipe Carlos apenas uma questo de interesse acadmico.
        - E os chefes! Os Cameron de Lochiel tiraram na sorte o direito de lutar do lado direito na batalha, se houver uma, mas os MacDonald, tendo concordado com 
o arranjo, agora negam com veemncia terem dito tal coisa e insistem que simplesmente no lutaro se lhes for negado o tradicional privilgio de lutar do lado direito.
        Tendo iniciado o relato com bastante calma, lorde George se encolerizara outra vez no decorrer da exposio e, nesse ponto, ps-se de p num salto, esfregando 
o couro cabeludo energicamente com as duas mos.
        - Os Cameron foram treinados o dia inteiro. A essa altura, tiveram que marchar de um lado para o outro tantas vezes que j no sabem onde fica seu pau ou 
sua bunda, com perdo de sua presena, madame - acrescentou, lanando um olhar distrado em minha direo -, e os homens de Clanranald andaram brigando com os de 
Glengarry. - Parou, o maxilar mferior empurrado para frente, o rosto vermelho. - Se Glengarry no fosse quem ele ... ah, bem. - Descartou Glengarry com um rpido 
aceno da mo e retomou sua marcha de um lado para o outro.
        - A nica bno salvadora da questo - ele disse -  que os ingleses foram forados a dar meia-volta tambm, em resposta s nossas manobras. Elas fizeram 
toda a tropa de Cope mudar de direo nada menos do que quatro vezes e agora ele estendeu seu flanco direito at quase o mar, sem dvida imaginando o que em nome 
de Deus faremos em seguida.
        Inclinou-se e espreitou pela janela, como se esperasse ver o prprio general Cope avanando pela rua principal para perguntar.
        - H... onde exatamente est sua metade do exrcito no momento, sir? - Jamie fez meno de se unir a Sua Excelncia em suas peregrinaes aleatrias pela 
cabana, mas foi contido pela minha mo em seu colarinho. Armada com uma toalha e uma bacia de gua morna, eu me ocupara durante a exegese de Sua Excelncia em remover 
o carvo das orelhas do meu marido. Elas se destacavam agora, rseas e brilhantes com a esfregao.
        - Na serra ao sul da cidade.
        - Ns ainda detemos o terreno elevado, ento?
        - Sim, parece bom, no ? - Sua Excelncia sorriu desoladamente. -Entretanto, a ocupao do terreno alto nos d relativamente pouca vantagem, considerando-se 
o fato de que o terreno logo abaixo da serra est pontilhado de poas e reas pantanosas. Santo Deus! H uma vala de dois metros cheia de gua que corre por uns 
trs quilmetros ao longo do p dessa serra! H pouco mais de quinhentos metros entre os dois exrcitos neste momento e poderiam ser quinhentos quilmetros no que 
diz respeito ao que podemos fazer. - Lorde George enfiou a mo no bolso  cata de um leno, tirou-o e ficou olhando fixamente para a peruca com a qual estivera a 
ponto de limpar o rosto.
        Eu gentilmente lhe ofereci o leno sujo de p de carvo. Ele fechou os olhos, inalou com fora pelas duas narinas, depois os abriu e fez uma mesura para 
mim com seu modo corts de costume.
        - Seu criado, madame. - Poliu o rosto escrupulosamente com o pano sujo, devolveu-o educadamente para mim e fincou a peruca desgrenhada na cabea.
        - Que o diabo me carregue - ele disse claramente -, se vou deixar aquele palerma nos fazer perder essa batalha. - Virou-se para Jamie com deciso.
        - Quantos homens voc tem, Fraser?
        - Trinta, senhor.
        - Cavalos?
        - Seis, senhor. E quatro pneis como animais de carga.
        - Animais de carga? Ah. Carregando provises para os seus homens.
        - Sim, senhor. E sessenta sacas de farinha retiradas de um destacamento ingls ontem  noite. Ah, e um morteiro de quarenta centmetros, senhor.
        Jamie comunicou essa ltima informao com uma expresso de to perfeita indiferena e simplicidade que tive vontade de enfiar o leno pela sua garganta. 
Lorde George fitou-o por um instante, depois um dos cantos de sua boca torceu-se para cima com um sorriso.
        -  mesmo? Bem, venha comigo, Fraser. Pode me contar tudo no caminho. - Girou nos calcanhares em direo  porta, e Jamie, com um olhar espantado para mim, 
pegou seu chapu e seguiu-o.
        A porta da cabana, lorde George parou de repente e virou-se. Ergueu os olhos para a figura imponente de Jamie, o colarinho da camisa aberto e o casaco jogado 
apressadamente sobre o brao.
        - Posso estar com pressa, Fraser, mas ainda temos tempo suficiente para observar as civilidades. V dar um beijo de despedida em sua mulher, homem. Encontre-me 
l fora.
        Virando-se nos calcanhares, fez uma profunda reverncia para mim, de tal modo que o rabo-de-cavalo de sua peruca caiu para frente.
        - Seu criado, madame.
        Eu sabia o suficiente a respeito de exrcitos para compreender que nada muito evidente deveria acontecer durante algum tempo e, como previsto, nada aconteceu. 
Grupos aleatrios de homens marchavam para baixo e para cima da nica rua principal de Tranent. Mulheres, simpatizantes e os cidados desalojados de Tranent corriam 
de um lado para o outro sem direo, sem saber se deviam ir embora ou ficar. Os mensageiros arremessavam-se em diagonal pela multido, levando bilhetes.
        Eu j encontrara lorde George antes, em Paris. Ele no era o tipo de homem de fazer cerimnia quando a ao fosse prefervel, embora eu achasse provvel 
que sua irritao com o comportamento do prncipe Carlos e uma vontade de escapar da companhia de O'Sullivan fossem mais responsveis pelo fato de ele ter ido pessoalmente 
ao encontro de Jamie do que qualquer desejo de agilidade ou discrio. Enquanto o contingente total do exrcito das Highlands situava-se em algum ponto entre mil 
e quinhentos e dois mil, trinta homens nem deveriam ser encarados como uma ddiva dos deuses nem menosprezados.
        Olhei para Fergus, remexendo-se de um lado para o outro como um sapo com a dana de So Guido, e decidi que eu mesma deveria mandar algumas mensagens. H 
um ditado: "Em reino de cegos, quem tem um olho  rei." Prontamente inventei uma analogia, com base na experincia: Quando ningum sabe o que fazer, qualquer um 
com uma sugesto sensata vai ser ouvido."
        Havia papel e tinta nos alforjes. Sentei-me, observada com uma admirao quase supersticiosa pela dona da casa, que provavelmente nunca vira uma mulher escrever 
nada antes, e redigi um bilhete para Jenny Cameron.
        Foi ela quem liderara trezentos homens do cl Cameron pelas montanhas para se unirem ao prncipe Carlos, quando ele ergueu sua bandeira em Glenfinnan, no 
litoral. Seu irmo Hugh, chegando em casa atrasado e ouvindo o que acontecera, cavalgara a toda a velocidade at Glenfinnan para assumir o lugar de chefe  frente 
de seus homens, mas Jenny recusara-se a voltar para casa e perder a diverso. Ela adorara a breve parada em Edimburgo, onde Carlos recebeu o clamor de seus sditos 
leais, mas mostrara-se igualmente disposta a acompanhar seu prncipe a caminho da batalha.
        Eu no possua um sinete, mas o gorro de Jamie estava em uma das sacolas, ostentando um distintivo com o braso e o lema do cl Fraser. Retirei-o e pressionei-o 
no borro de cera de vela derretida com que eu selara o bilhete. Ficou com uma aparncia muito oficial.
        - Para a senhora escocesa com sardas - instru Fergus e, com satisfao, observei-o arremessar-se pela porta para o tumulto da rua. Eu no tinha a menor 
idia de onde Jenny Cameron poderia estar no momento, mas os oficiais estavam aquartelados na casa paroquial perto da igreja e esse era um lugar to bom para comear 
a procurar quanto qualquer outro. Ao menos, a busca manteria Fergus longe de travessuras.
        Essa tarefa providenciada, voltei-me para a dona da casa.
        - Bem, ento - eu disse. - O que voc tem a em termos de cobertores, lenos e anguas?
        Logo descobri que eu estava certa em minha suposio quanto  fora da personalidade de Jenny. Uma mulher que podia incitar trezentos homens e conduzi-los 
atravs das montanhas para lutar por um almofadinha de sotaque italiano muito chegado a um conhaque sem dvida tinha pouca pacincia com o tdio e um raro talento 
para convencer as pessoas a fazerem o que ela queria.
        - Muito bem pensado - ela disse, ao ouvir meu plano. - Meu primo Archie fez alguns preparativos, eu espero, mas  claro que ele quer estar com o exrcito 
neste momento. - Seu queixo firme projetou-se um pouco mais para frente. -  onde est toda a diverso, afinal - ela disse com ironia.
        - Surpreende-me que voc no tenha insistido em acompanh-los. - eu disse.
        Ela riu, o rosto pequeno, sem atrativos, com seu maxilar retrado, fazendo-a parecer um buldogue bem-humorado.
        - Eu o faria, se pudesse, mas no posso - admitiu francamente. -Agora que Hugh chegou, ele fica tentando me mandar de volta para casa. Eu lhe disse - olhou 
ao redor para se certificar que no estvamos sendo ouvidas e abaixou a voz em tom de conspirao - que era mais fcil eu ir para o inferno do que voltar para casa 
e ficar sentada. No enquanto eu puder ser til aqui.
        Parada na soleira da porta da cabana, olhou com todo o cuidado para baixo e para cima da rua.
        - Achei que no me dariam ouvidos - eu disse. - Sendo inglesa.
        - Sim, tem razo, mas ouviro a mim. No sei quantos sero os feridos, Deus queira que no sejam muitos. - Ela benzeu-se discretamente. -Mas  melhor comearmos 
pelas cabanas prximas  casa paroquial; vai dar menos trabalho transportar gua do poo. - Com ar decidido, ela saiu da soleira e comeou a descer a rua, eu seguindo-a 
logo atrs.
        Fomos ajudadas no s pelo poder de persuaso da posio e da personalidade da srta. Cameron, quanto pelo fato de que ficar sentado esperando  uma das situaes 
mais infelizes para um homem - no que lhes acontea amide; as mulheres o fazem com muito mais freqncia. Quando o sol desapareceu por trs da igreja de Tranent, 
j tnhamos as bases rudimentares de uma brigada hospitalar organizada.
        As folhas comeavam a cair dos carvalhos e larcios no bosque prximo, depositando-se soltas, secas e amarelas no terreno arenoso. Aqui e ali, uma folha 
se crispava e tornava-se marrom, sendo levada pelo vento como um barquinho por mares revoltos.
        Uma dessas passou por mim em redemoinho, pousando delicadamente no solo quando sua corrente de vento arrefeceu. Peguei-a e segurei-a na palma da mo por 
um instante, admirando a perfeio de suas nervuras, um esqueleto rendado que continuaria a existir depois que a lmina apodrecesse. Houve um sbito sopro de vento 
e a folha enrascada elevou-se de minha mo, caiu no cho e saiu rolando pela rua vazia.
        Protegendo meus olhos contra o sol poente, eu podia ver as colinas fora da cidade onde o exrcito das Highlands estava acampado. A metade do exrcito de 
Sua Alteza retornara h uma hora, arrastando consigo os ltimos desgarrados da vila quando passou em sua marcha para unir-se a lorde George. A esta distncia, eu 
podia apenas divisar uma ou outra figura minscula, negra contra o cinzento do cu, quando aqui e ali um homem surgia no topo da serra. A quatrocentos metros depois 
do fim da rua, eu podia ver a claridade das primeiras fogueiras dos ingleses sendo acesas, ardendo palidamente na luz mortia. O cheiro forte de turfa queimada que 
exalava das cabanas unia-se ao aroma mais pungente da lenha queimada pelos ingleses, sobrepujando o cheiro penetrante do mar prximo.
        Os preparativos possveis de serem feitos estavam em andamento. As mulheres e famlias dos soldados das Highlands tinham sido acolhidas com generosa hospitalidade 
e agora estavam em sua maior parte abrigadas nas cabanas ao longo da rua principal, compartilhando o jantar simples de seus anfitries, composto de arenque salgado 
e po assado na grelha. Minha prpria refeio me aguardava l dentro, embora eu estivesse quase sem apetite.
        Um vulto pequeno surgiu junto ao meu cotovelo, silencioso como as sombras alongadas.
        - Pode vir jantar, senhora? A dona da casa guardou comida para a senhora.
        - Hein? Ah, sim, Fergus. Sim, j vou. - Lancei um ltimo olhar em direo  serra, voltando-me para as casas em seguida.
        - Vem comigo, Fergus? - perguntei, vendo-o ainda parado na rua. Ele protegia os olhos, tentando ver as atividades nas elevaes fora da cidade. Jamie dera-lhe 
ordens expressas de permanecer comigo, mas ele obviamente ansiava estar com os soldados, preparando-se para a batalha iminente.
        - Hein? Ah, sim, senhora. - Virou-se com um suspiro, resignado por enquanto a uma vida de tediosa paz.
        Os longos dias de vero cediam lugar rapidamente  escurido, e os lampies foram acesos muito antes de terminarmos nossos preparativos. A noite do lado 
de fora fervilhava com o movimento constante e o claro de fogueiras no horizonte. Fergus, incapaz de permanecer quieto, entrava e saa das cabanas, levando recados, 
coletando boatos e surgindo das sombras periodicamente como um fantasma pequeno e escuro, os olhos brilhando de empolgao.
        - Madame - disse, puxando a manga do meu vestido enquanto eu rasgava roupas e lenis de linho em tiras e atirava-as numa pilha para esterilizao. - Madame!
        - O que foi agora, Fergus? - Fiquei um pouco irritada com a intruso; eu estava no meio de uma palestra para um grupo de donas-de-casa sobre a importncia 
de lavar as mos com freqncia ao tratar os feridos.
        - Um homem, madame. Ele quer falar com o comandante do exrcito de Sua Alteza. Diz que tem informaes importantes.
        - Bem, eu no o estou impedindo, estou? - Puxei a recalcitrante costura de uma camisa, depois usei os dentes para arrancar a ponta solta e dei um puxo. 
Rasguei-a diligentemente, com um satisfatrio som rascante.
        Cuspi um ou dois pedaos de linha. Ele continuava l, aguardando pacientemente.
        - Est bem - eu disse, resignada. - O que voc, ou ele, acha que posso fazer a respeito?
        - Se me der permisso, madame - ele disse ansiosamente -, posso conduzi-lo ao meu patro. - Ele poderia arranjar para que o homem falasse com o comandante.
        "Ele", obviamente, poderia fazer qualquer coisa, no que dizia respeito a Fergus; inclusive, sem dvida, caminhar sobre as guas, transformar gua em vinho 
e induzir lorde George a conversar com estranhos misteriosos que surgiam do nada com informaes importantes.
        Afastei os cabelos dos olhos; eu os prendera para trs sob uma touca, mas algumas mechas encaracoladas teimavam em escapar.
        - Esse homem est por perto?
        Esse era todo o encorajamento que ele precisava; desapareceu pela porta aberta, retornando em poucos instantes com um jovem magro, cujo olhar ansioso fixou-se 
imediatamente em meu rosto.
        - Sra. Fraser? - Fez uma mesura desajeitada quando confirmei com um sinal da cabea, limpando as mos nas calas como se no soubesse exatamente o que fazer 
com elas, mas quisesse estar preparado caso alguma coisa surgisse.
        - Sou... sou Richard Anderson, de Whitburgh.
        - Ah, sim? Bem, como vai? - eu disse educadamente. - Meu criado diz que possui informaes valiosas para lorde George Murray.
        Ele assentiu, balanando a cabea como um melro d'gua.
        - Veja, sra. Fraser, eu vivi nesta regio minha vida inteira. Eu... eu conheo todo esse terreno onde esto os exrcitos, conheo-o como a palma de minha 
mo. E h um caminho que desce das colinas onde as tropas das Highlands esto acampadas, uma trilha que os conduzir at bem depois da vala no sop da serra.
        - Compreendo. - Senti um vazio na boca do estmago diante daquelas palavras. Se os soldados das Highlands fossem partir para o ataque com o nascer do sol 
no dia seguinte, teriam que deixar a regio alta da serra durante a viglia noturna. E se um ataque quisesse ser bem-sucedido, obviamente essa vala tinha que ser 
atravessada ou contornada.
        Embora eu achasse que sabia o que estava para acontecer, no tinha absolutamente nenhuma certeza a respeito. Eu fora casada com um historiador - senti a 
leve pontada que me atingia sempre que me lembrava de Frank - e sabia o quanto as fontes histricas em geral eram pouco confiveis. Na verdade, eu no tinha nenhuma 
certeza de que a minha prpria presena poderia ou iria mudar alguma coisa.
        Por um instante, perguntei-me ansiosamente o que poderia acontecer se eu tentasse impedir que Richard Anderson conversasse com lorde George. O resultado 
da batalha do dia seguinte seria alterado? O exrcito das Highlands - inclusive Jamie e seus homens - seria massacrado conforme se arremessassem pela encosta abaixo 
sobre o terreno pantanoso e para dentro de uma vala? Lorde George apresentaria outro plano que funcionaria? Ou Richard Anderson simplesmente sairia e encontraria 
por conta prpria uma maneira de falar com o prprio lorde George, independentemente do que eu fizesse?
        No era um risco que eu quisesse correr por experincia. Olhei para Fergus, remexendo-se com impacincia para partir dali.
        - Acha que pode encontrar seu senhor? Est escuro como uma mina de carvo l no alto daqueles morros. No quero que nenhum de vocs dois receba um tiro por 
engano, perambulando l por cima.
        - Posso encontr-lo, madame - Fergus disse com confiana. Provavelmente podia, pensei. Ele parecia ter uma espcie de radar no que se referia a Jamie.
        - Est bem, ento - concordei. - Mas pelo amor de Deus, tenha cuidado.
        - Oui, madame! - Como um relmpago, ele j estava  porta, vibrando de ansiedade para partir.
        Somente meia hora depois de terem partido foi que notei que a faca que eu havia deixado sobre a mesa tambm havia desaparecido. E somente ento me lembrei, 
com uma sbita reviravolta no estmago, que embora eu tivesse dito a Fergus para tomar cuidado eu me esquecera de dizer-lhe tambm para voltar.
        O primeiro barulho de canho veio na luz que antecede a aurora, uma exploso seca, retumbante, que pareceu ecoar pelas tbuas do assoalho onde eu dormia. 
Minhas ndegas contraram-se, o recolhimento involuntrio de uma cauda que eu no possua, e meus dedos agarraram os da mulher deitada ao meu lado sob o cobertor. 
O conhecimento de que algo vai acontecer devia servir como defesa, mas de certa forma nunca estamos preparados.
        Ouviu-se um leve lamento de um dos cantos da cabana e a mulher ao meu lado murmurou, num sussurro:
        - Que Deus nos proteja.
        Houve uma movimentao no cho quando as mulheres comearam a se levantar. Falava-se pouco, como se todos os ouvidos estivessem alertas para captar os sons 
da batalha na plancie l embaixo.
        Avistei uma das mulheres das Highlands, a sra. MacPherson, quando ela dobrava seu cobertor junto  janela que comeava a se tornar acinzentada. Seu rosto 
estava plido de terror e ela cerrou os olhos com um pequeno estremecimento quando outra exploso abafada veio da plancie-
        Reconsiderei minha opinio sobre a inutilidade do conhecimento. Essas mulheres nada sabiam a respeito de trilhas secretas, ataques relmpagos ou debandadas. 
Tudo que sabiam era que seus maridos e filhos estavam agora enfrentando o fogo de canhes e mosquetes de um exrcito ingls em nmero quatro vezes maior.
        A previso  uma questo arriscada na melhor das hipteses e eu sabia que elas no me dariam ouvidos. O melhor que eu podia fazer por elas era mant-las 
ocupadas. Uma imagem fugaz atravessou minha mente - o sol nascente refletindo seu brilho numa cabeleira flamejante, tornando seu proprietrio um alvo perfeito. Uma 
segunda imagem surgiu imediatamente no rastro da primeira; um garoto de dentes de esquilo, armado com uma faca de aougueiro roubada e a crena ilusria nas glrias 
da guerra. Fechei meus prprios olhos e engoli em seco e com fora. Manter-me ocupada era o melhor que eu podia fazer por mim mesma.
        - Senhoras! - eu disse. - J fizemos muita coisa, mas ainda h muito a fazer. Vamos precisar de gua quente. Caldeires para ferver gua, tinas para enxaguar. 
Mingau para os que puderem comer; leite para os que no puderem. Sebo de velas e alho para curativos. Ripas de madeira para entalar. Garrafas e jarros, xcaras e 
colheres. Agulhas de costura e fio resistente, sra. MacPherson, poderia me fazer a gentileza de...
        Eu sabia pouco sobre a batalha, exceto qual dos lados deveria vencer e que as baixas do exrcito jacobita seriam "poucas". Da pgina distante e indistinta 
do livro de histria, retirei novamente a pequena informao: "... enquanto os jacobitas saram-se vitoriosos, com apenas trinta baixas".
        Baixas. Mortes, corrigi. Qualquer ferimento  uma baixa, em termos de enfermagem, e havia bem mais de trinta em minha cabana depois que o sol ardente traou 
seu caminho at o alto do cu atravs da nvoa marinha, por volta do meio-dia. Lentamente, os vitoriosos da batalha voltavam triunfalmente para Tranent, o som de 
homens ajudando seus companheiros feridos.
        Estranhamente, Sua Alteza ordenara que os ingleses feridos fossem retirados primeiro do campo de batalha e cuidadosamente atendidos. "So sditos de meu 
Pai", ele dissera com firmeza, enfatizando dramaticamente o P maisculo, "e farei com que sejam bem-tratados." O fato de que os homens das Highlands que acabavam 
de vencer uma batalha para ele tambm fossem presumivelmente sditos de seu Pai parecia ter lhe passado despercebido no momento.
        - Considerando-se o comportamento do Pai e do Filho - murmurei para Jenny Cameron ao ouvir aquilo -, o exrcito das Highlands deve rezar para que o Esprito 
Santo no resolva descer hoje.
        Uma expresso de choque diante dessa observao blasfema atravessou o rosto da sra. MacPherson, mas Jenny riu.
        A gritaria e os berros das comemoraes galicas abafaram os gemidos dos feridos, trazidos em padiolas improvisadas feitas com tbuas ou mos-quetes amarrados 
ou, com mais freqncia ainda, amparados nos braos de amigos. Algumas das vtimas vieram, cambaleando, com seus prprios ps, bbados e exultantes com sua prpria 
vitalidade, a dor de seus ferimentos parecendo uma inconvenincia menor diante da gloriosa prova de sua tenacidade. Apesar dos ferimentos que os traziam ali para 
serem tratados, o conhecimento inebriante da vitria enchia a casa com um sentimento de exultao e regozijo.
        - Nossa, voc viu como eles corriam que nem camundongos com um gato em seus rabos? - disse um paciente a outro, parecendo alheio  feia queimadura de plvora 
que marcara seu brao esquerdo dos ns dos dedos ao ombro.
        - E muitos deles j sem os rabos - respondeu o amigo, com uma risada.
        A alegria no era universal; aqui e ali, pequenos grupos de melanclicos soldados podiam ser vistos atravessando as colinas, carregando a figura imvel de 
um amigo, a ponta do xale de xadrez cobrindo um rosto que se tornara vazio e inexpressivo com a viso do cu.
        Foi o primeiro teste das assistentes que eu escolhera e elas enfrentaram o desafio to bem quanto os guerreiros no campo de batalha. Ou seja, elas empacavam 
e reclamavam e causavam problemas, mas quando a necessidade se apresentava, atiravam-se  luta com uma fria sem paralelo.
        No que parassem de reclamar enquanto trabalhavam.
        A sra. McMurdo retornou com mais uma garrafa cheia, que pendurou no lugar apropriado na parede da cabana, antes de se inclinar para vasculhar a tina que 
continha as garrafas de gua adocicada com mel. Uma idosa mulher de um pescador de Tranent forada a prestar servio militar, ela era a aguadeira em seu turno; sua 
incumbncia era ir de homem em homem, instando cada um deles a beber o mximo que pudesse tolerar de gua com mel, e em seguida fazendo uma segunda rodada para recolher 
os resultados, equipada com duas ou trs garrafas vazias.
        - Se voc no lhes desse tanta gua para beber, eles no mijariam tanto - reclamou, no pela primeira vez.
        - Eles precisam da gua - expliquei pacientemente, no pela primeira vez. - Mantm a presso sangnea elevada, repe uma parte dos fluidos que perderam 
e evita o estado de choque. Ora, olhe bem, mulher, est vendo muitos deles morrendo? - perguntei, repentinamente perdendo a pacincia diante das incessantes queixas 
e dvidas da sra. McMurdo; sua boca quase desdentada emprestava um tom lgubre a uma expresso j sombria, tudo est perdido mesmo, parecia dizer; para que se dar 
ao trabalho?
        - Muhm - ela disse. Uma vez que ela pegou a gua e retornou s suas rondas sem novos sinais de protesto, tomei esse som ao menos por um assentimento temporrio.
        Sa para o ar livre tanto para fugir da sra. McMurdo quanto da atmosfera na cabana. Estava densa de fumaa, calor e rano de corpos suados, e eu me senti 
um pouco tonta.
        As ruas estavam cheias de homens, bbados, comemorando, carregados de despojos do campo de batalha. Um grupo de homens com o tart avermelhado dos MacGillivray 
puxava um canho ingls, amarrado com cordas como uma perigosa besta selvagem. A semelhana era acentuada pelos elaborados entalhes de lobos agachados que decoravam 
o orifcio do pavio e a boca. Uma das peas de ostentao do general Cope, suponho.
        Ento, reconheci uma pequena figura escura atravessada sobre a boca do canho, os cabelos eriados como uma escova de garrafa. Fechei os olhos num agradecimento 
momentneo, depois os abri e desci a rua correndo para tir-lo de cima do canho.
        - Patife! - eu disse, dando-lhe uma sacudidela e, em seguida, um abrao. - O que pretendia fugindo assim desse jeito? Se eu no estivesse to ocupada, iria 
estapear suas orelhas at sua cabea chacoalhar!
        - Madame - ele disse, piscando estupidamente ao sol da tarde. - Madame.
        Compreendi que ele no ouvira nem uma palavra do que eu dissera.
        - Voc est bem? - perguntei, mais delicadamente.
        Um olhar de perplexidade atravessou seu rosto, sujo de lama e manchado de plvora. Ele balanou a cabea e uma espcie de sorriso estarrecido surgiu no meio 
da sujeira.
        - Matei um soldado ingls, madame.
        -  mesmo? - Eu no sabia ao certo se ele desejava congratulaes ou precisava de consolo. Ele tinha dez anos.
        Fergus franziu a testa e seu rosto contorceu-se como se tentasse com todas as foras se lembrar de alguma coisa.
        - Eu acho que o matei. Ele caiu e eu enfiei a faca nele. - Olhou para mim atordoado, como se eu pudesse lhe dar a resposta.
        - Venha, Fergus - eu disse. - Vamos encontrar alguma coisa para voc comer e um lugar para dormir. No pense mais nisso.
        - Oui, madame. - Seguiu a meu lado, cambaleando obedientemente, logo pude ver que ele iria cair de cara no cho. Peguei-o no colo, com alguma dificuldade, 
e carreguei-o na direo das cabanas prximas  igreja onde eu havia sediado nosso hospital. Pretendia dar-lhe de comer primeiro, mas ele dormia profundamente quando 
cheguei ao local onde O'Sullivan tentava - com pouco sucesso - organizar suas carroas de vveres.
        Em vez disso, deixei-o enrascado numa cama improvisada em uma das casas, onde uma mulher tomava conta de diversas crianas, enquanto suas mes cuidavam dos 
feridos. Pareceu-me o melhor lugar para ele.
        No meio da tarde, a cabana j estava repleta com vinte ou trinta homens e o meu grupo de trabalho formado de duas mulheres ia e vinha num p s. A casa normalmente 
abrigava uma famlia de cinco ou seis e os homens em condies de permanecer de p acomodavam-se sobre as mantas de xadrez dos que estavam deitados. A distncia, 
eu podia ver oficiais entrando e saindo da casa paroquial, a residncia do pastor da igreja, confiscada pelo Alto Comando. Fiquei observando a porta velha e mal-conservada, 
em geral escancarada, mas no vi Jamie entre os que chegavam para relatar baixas e receber congratulaes.
        Tentei afastar uma incmoda e recorrente preocupao, dizendo a mim mesma que eu tambm no o vira entre os feridos. Eu no tivera tempo desde o incio da 
manh de visitar a pequena barraca levantada na encosta da colina, onde os mortos em batalha estavam sendo colocados em fileiras perfeitamente arrumadas, como se 
aguardassem uma ltima inspeo. Mas com certeza ele no poderia estar l.
        Certamente no, disse a mim mesma.
        A porta abriu-se de par em par e Jamie entrou.
        Senti meus joelhos enfraquecerem-se ao v-lo e estendi a mo para me apoiar na chamin de madeira da cabana. Ele estivera procurando por mim; seus olhos 
vasculharam o aposento antes de recarem sobre mim e um sorriso comovente iluminou seu rosto.
        Ele estava imundo, sujo de fumaa preta da plvora, respingado de sangue e descalo, pernas e ps emplastrados de lama. Mas estava so, e de p. Eu no estava 
disposta a me importar com detalhes.
        Gritos de saudao de alguns dos feridos deitados no cho desviaram seus olhos de mim. Olhou para baixo, sorriu para George McClure, rindo para seu comandante 
apesar de uma orelha pendurada da cabea por uma lasca de carne, depois voltou o olhar rpido para mim.
        Graas a Deus, seus olhos azul-escuros diziam, e Graas a Deus, os meus prprios ecoavam de volta.
        No havia tempo para mais nada; homens feridos continuavam a chegar e cada civil capaz da vila fora instado a prestar servios cuidando deles. O mdico Archie 
Cameron, irmo de Lochiel, corria de uma cabana para outra, nominalmente no comando e realmente fazendo um bom trabalho aqui e ali.
        Eu dera ordens para que qualquer homem dos Fraser de Lallybroch fosse levado para a cabana onde eu conduzia minha prpria triagem, avaliando depressa a gravidade 
dos ferimentos, enviando os que ainda podiam se locomover para mais abaixo na rua, para serem tratados por Jenny Cameron, os moribundos para o quartel-general de 
Archie Cameron na igreja - eu o considerei competente para administrar ludano e o ambiente ao redor podia oferecer algum consolo.
        Os feridos gravemente eu tratava como podia. Ossos quebrados na casa ao lado, onde dois cirurgies do regimento Macintosh podiam aplicar talas e ataduras. 
Os feridos no peito eram recostados o mais confortavelmente possvel contra a parede, numa posio sentada, para ajudar a respirao; no dispondo de oxignio ou 
recursos cirrgicos, havia pouco mais que eu pudesse fazer por eles. Os que possuam ferimentos graves na cabea eram despachados para a igreja com os que estavam 
obviamente morrendo; eu nada tinha a oferecer-lhes e estariam melhor nas mos de Deus, se no nas de Archie Cameron.
        Membros estraalhados ou amputados e ferimentos abdominais eram os piores. No havia nenhuma possibilidade de esterilizao; tudo que eu podia fazer era 
lavar minhas prprias mos entre os cuidados de um paciente e outro e, com uma carranca, obrigar minhas assistentes a fazerem o mesmo - ao menos enquanto estivessem 
diretamente sob o meu escrutnio -, e tentar assegurar que os curativos que usvamos tivessem sido todos fervidos antes da aplicao. Eu sabia, sem sombra de dvida, 
que precaues semelhantes estavam sendo ignoradas como perda de tempo nas outras cabanas, apesar de minhas instrues. Se eu no conseguira convencer as freiras 
e mdicos do Hpital des Anges da existncia de germes, era improvvel que conseguisse com uma mistura de donas-de-casa escocesas e cirurgies do exrcito que tambm 
serviam de veterinrios.
        Bloqueei minha mente  idia dos homens com ferimentos tratveis que morreriam de infeco. Eu podia dar aos homens de Lallybroch, e a alguns outros, o benefcio 
de mos e ataduras limpas; no podia me preocupar com o resto. Eu aprendera um ditado nos campos de batalha da Frana numa guerra muito distante: voc no pode salvar 
o mundo, mas talvez possa salvar o homem que est  sua frente, se trabalhar depressa.
        Jamie ficou parado por um instante na soleira da porta, avaliando a situao, depois comeou a ajudar com o trabalho pesado, remanejando pacientes, levantando 
caldeires de gua quente, indo buscar baldes de gua limpa no poo da praa de Tranent. Livre do medo por ele e capturada no redemoinho de trabalho e ateno aos 
detalhes, esqueci-me dele a maior parte do tempo.
        O posto de triagem de qualquer hospital de campo sempre se assemelha a um matadouro e aquele no era nenhuma exceo. O cho era de terra batida, o que no 
era uma superfcie ruim, j que absorvia sangue e outros lquidos. Por outro lado, os lugares saturados ficavam lamacentos tornando o ato de caminhar extremamente 
arriscado.
        O vapor elevava-se do caldeiro fervente em cima do fogo, aumentando o calor do esforo fsico. Todos suavam copiosamente; os trabalhadores com o suor pegajoso 
do exerccio, os feridos com o suor fedorento do medo e da fria h muito exauridos. A fumaa preta de plvora que vinha do campo de batalha l embaixo se dissipava 
pelas ruas de Tranent e penetrava pelas portas abertas - uma nvoa que fazia arder os olhos, ameaando a pureza das ataduras de linho recentemente fervidas, penduradas 
e escorrendo a gua numa armao de secar peixe colocada junto  lareira.
        O fluxo de feridos vinha em ondas, inundando a cabana como resduos trazidos pela arrebentao, provocando uma grande agitao  chegada de cada nova leva. 
ramos lanados de um lado para o outro, lutando contra a fora da mar, para sermos finalmente abandonados, arquejantes, a fim de lidar com os novos destroos do 
naufrgio, deixados para trs a cada mar vazante.
        Existem calmarias,  claro, mesmo na atividade mais frentica. Elas comearam a ocorrer com mais freqncia  tarde e, quase ao pr-do-sol, quando o fluxo 
de feridos decaiu para um gotejamento espordico, comeamos a nos acomodar em uma rotina de cuidar dos pacientes que permaneceram conosco. Ainda significava muito 
trabalho, mas finalmente havia tempo para respirar, ficar parada em um nico lugar por um instante e olhar  volta.
        Eu estava de p junto  porta aberta, respirando a refrescante brisa martima, quando Jamie voltou  cabana, carregando uma braada de lenha. Largando-a 
junto  lareira, voltou para ficar ao meu lado, a mo pousada de leve em meu ombro. Gotas de suor escorriam pela borda de seu maxilar e eu estendi a mo para enxug-las 
com a ponta do meu avental.
        - Esteve nas outras cabanas? - perguntei.
        Ele balanou a cabea afirmativamente, a respirao comeando a desacelerar. Seu rosto estava to manchado de sujeira e sangue que eu no podia dizer ao 
certo, mas achei que ele parecia plido.
        - Sim. Ainda h pilhagem acontecendo no campo e muitos homens continuam desaparecidos. Mas todos os nossos prprios feridos esto aqui, nenhum em outro lugar. 
- Fez um sinal com a cabea indicando o outro lado da cabana, onde os trs homens de Lallybroch feridos estavam deitados ou sentados amigavelmente junto  lareira, 
trocando insultos bem-humorados com os outros escoceses. Os poucos ingleses feridos nesta cabana estavam reunidos junto  porta, separados dos demais. Falavam bem 
menos, satisfeitos em contemplar as desalentadoras perspectivas do cativeiro.
        - Nenhum ferimento grave? - ele me perguntou, olhando para os trs. Sacudi a cabea.
        - George McClure pode perder a orelha; no sei. Fora isso, no; acho que todos ficaro bem.
        - timo. - Lanou-me um sorriso cansado e limpou o rosto afogueado na ponta de seu xale. Notei que ele o enrolara descuidadamente em volta do corpo, em vez 
de arrum-lo sobre um dos ombros. Provavelmente, para que no o atrapalhasse, mas devia estar quente.
        Virando-se para ir embora, ele estendeu a mo para pegar a garrafa de gua pendurada no gancho da porta.
        - Esta a no! - eu disse.
        - Por que no? - ele perguntou, espantado. Sacudiu o frasco de boca larga, produzindo um leve som de lquido. - Est cheia.
        - Eu sei que est - eu disse. -  a que estou usando como urinol.
        - Ah. - Segurando a garrafa com dois dedos, estendeu a mo para pendur-la de volta no lugar, mas eu o interrompi.
        - No, v em frente e leve-a - sugeri. - Pode esvazi-la l fora e encher esta aqui no poo. - Entreguei-lhe outra garrafa cinza, de barro vidrado, idntica 
 primeira.
        - Tome cuidado para no mistur-las - eu disse prestativamente.
        - Mmuhm - ele retrucou, lanando-me um olhar escocs para acompanhar o rudo, e depois se virou para a porta.
        - Ei! - exclamei, vendo-o claramente de costas. - O que  isso?
        - O qu? - perguntou, surpreso, tentando ver por cima do ombro.
        - Isso! - Meus dedos traaram a forma enlameada que eu vira acima do xale cado, impressa no linho sujo de sua camisa com a preciso de um es-tncil. - Parece 
uma ferradura de cavalo - eu disse, mal podendo acreditar.
        - Ah, isso - ele disse, dando de ombros.
        - Um cavalo pisou em voc?
        - Bem, no foi de propsito - ele disse, em defesa do cavalo. - Os cavalos no gostam de pisar em pessoas; acho que sentem a superfcie mole demais.
        - Imagino que sim - concordei, segurando-o pela manga da camisa para impedi-lo de escapar. - Fique imvel. Como isso foi acontecer?
        - No  nada - ele protestou. - No sinto as costelas quebradas, apenas um pouquinho machucadas.
        - Ah, s um pouquinho - concordei sarcasticamente. Consegui afastar o tecido manchado de suas costas e pude ver a marca ntida e perfeita de uma ferradura, 
gravada na sua pele clara, logo acima da cintura. - Meu Deus, pode-se ver os cravos da ferradura. - Ele recuou involuntariamente quando passei o dedo sobre as marcas.
        Acontecera durante um dos rpidos ataques dos drages montados, ele explicou. Seus homens, a maioria acostumada apenas aos pneis pequenos e peludos das 
Highlands, estavam convencidos de que os animais da cavalaria inglesa tinham sido treinados para atac-los com coices e dentadas. Apavorados com a investida dos 
cavalos, mergulharam sob os cascos, talhando furiosamente pernas e barrigas com espadas, foices e machados.
        - E voc acha que no so?
        - Claro que no, Sassenach - ele disse com impacincia. - Ele no estava tentando me atacar. O cavaleiro queria fugir, mas estava cercado dos dois lados. 
Ele no tinha para onde ir seno por cima de mim.
        Vendo essa concluso evidenciar-se nos olhos do cavaleiro, uma frao de segundo antes de o soldado aplicar as esporas nas laterais de sua montaria, Jamie 
lanou-se estendido no cho, de barriga para baixo, os braos protegendo a cabea.
        - No instante seguinte, senti o ar ser expulso dos meus pulmes - ele explicou. - Senti todo o impacto do golpe, mas no doeu. No na hora. - Estendeu o 
brao para trs e esfregou a mo distraidamente sobre a marca, com um ligeiro sorriso.
        - Certo - eu disse, soltando a ponta da camisa. - J urinou depois disso?
        Olhou-me espantado como se eu tivesse enlouquecido de repente.
        - Voc levou uma pisada de quatrocentos quilos nos rins - expliquei, com certa impacincia. Havia homens feridos esperando. - Quero saber se h sangue em 
sua urina.
        - Ah - ele disse, a expresso do rosto se desanuviando. - No sei.
        - Bem, vamos descobrir, certo? - Eu colocara minha caixa de remdios grande fora do caminho, em um dos cantos; vasculhei seu interior e retirei um dos pequenos 
recipientes de vidro para exame de urina que eu adquirira no Hpital des Anges.
        - Encha-o e devolva-o para mim. - Entreguei-lhe o recipiente e virei-me para a lareira, onde um caldeiro em ebulio, cheio de panos de linho, aguardava 
minha ateno.
        Olhei para trs e o vi ainda examinando o frasco com uma expresso ligeiramente intrigada.
        - Precisa de ajuda, rapaz? - Um enorme soldado ingls olhava para cima de seu catre no assoalho, rindo para Jamie.
        Um lampejo de dentes brancos surgiu na sujeira do rosto de Jamie.
        - Ah, sim - disse. Inclinou-se para baixo, oferecendo o frasco para o ingls. - Tome, segure-o para mim enquanto eu tento acertar o alvo.
        Uma onda de risadas percorreu os homens ao redor, distraindo-os por um momento de seu infortnio.
        Aps um instante de hesitao, a mo grande do ingls cerrou-se em volta do frgil recipiente. O homem recebera uma dose de estilhaos no quadril e sua mo 
no estava nem um pouco firme, mas ele sorria ainda assim, apesar das gotculas de suor que umedeciam seu lbio superior.
        - Aposto seis pence que no consegue - ele disse. Moveu o frasco, posicionando-o no cho a cerca de um metro dos ps descalos de Jamie. - De onde voc est 
agora.
        Jamie olhou para baixo pensativo, esfregando o queixo com uma das mos enquanto media a distncia. O homem em cujo brao eu fazia curativo parou de gemer, 
absorto no desenrolar do drama.
        - Bem, no digo que vai ser fcil - Jamie observou, carregando propositadamente no sotaque escocs. - Mas por seis pence? Sim, bem,  uma quantia que vale 
o esforo, no? - Seus olhos, sempre levemente rasgados, transformaram-se em olhos de gato com seu largo sorriso.
        - Dinheiro fcil, rapaz - disse o ingls, respirando com dificuldade, mas ainda assim rindo. - Para mim.
        - Duas moedas de prata no garoto - gritou um dos homens do cl MacDonald do canto da chamin.
        Um soldado ingls, o casaco virado do avesso para identificar sua condio de prisioneiro, tateou pelas abas do casaco,  procura da abertura de seu bolso.
        - Ah! Uma bolsa de erva contra! - gritou, brandindo triunfalmente uma pequena sacola de pano cheia de tabaco.
        Apostas gritadas e comentrios grosseiros comearam a cruzar o ar quando Jamie agachou-se e fez uma grande encenao, calculando a distancia at o frasco.
        - Est bem - ele disse finalmente, levantando-se e empinando os ombros para trs. - Est pronto?
        O ingls no cho sacudiu-se numa risadinha.
        - Eu estou pronto, rapaz.
        - Muito bem, ento.
        Um silncio de expectativa recaiu sobre o aposento. Os homens se erguiam num dos cotovelos para observar a cena, ignorando, em sua curiosidade, tanto o desconforto 
quanto a inimizade.
        Jamie olhou ao redor da sala, balanou a cabea para seus homens de Lallybroch, em seguida, lentamente, ergueu a barra de seu kilt e enfiou a mo por baixo. 
Franziu o cenho em concentrao, tateando aleatoriamente, depois deixou uma expresso de dvida atravessar seu semblante.
        - Ele estava aqui quando sa - ele disse, provocando uma estrondosa gargalhada dos homens.
        Rindo com o sucesso de sua piada, levantou ainda mais o kilt, agarrou sua arma claramente visvel e mirou cuidadosamente. Estreitou os olhos, curvou um pouco 
os joelhos e seus dedos fecharam-se com mais fora.
        Nada aconteceu.
        - A arma falhou! - gritou um dos ingleses.
        - A plvora dele est molhada! - exclamou outro, com uma vaia.
        - No tem bala na pistola, rapaz? - caoou seu cmplice no cho. Jamie olhou atentamente, com ar de dvida, para seu equipamento, provocando uma nova exploso 
de urros e vaias. Em seguida, seu rosto desanuviou-se.
        - Ah! Meu compartimento est vazio, s isso! - Disfaradamente estendeu o brao para a fileira de garrafas penduradas na parede, arqueou uma das sobrancelhas 
para mim e, quando confirmei com um sinal de cabea, retirou uma delas e posicionou-a sobre a boca aberta. A gua espir-rou pelo seu queixo e pela frente da camisa, 
enquanto seu pomo-de-ado subia e descia teatralmente conforme bebia.
        - Ahhhh. - Abaixou a garrafa, limpou um pouco da sujeira do rosto com a manga da camisa e fez uma reverncia para a platia.
        - Agora, sim - disse, levando a mo para baixo. Mas ele viu meu rosto e parou pelo meio. Ele no podia ver a porta aberta s suas costas nem o homem que 
estava ali de p, mas o silncio repentino que tomou conta do aposento deve ter lhe dito que todas as apostas estavam canceladas.
        Sua Alteza o prncipe Carlos Eduardo abaixou a cabea para passar sob a verga da porta e entrar na cabana. Em visita aos feridos, estava vestido  altura 
da ocasio: calas amarradas nos joelhos, em veludo cor de ameixa, com meias de seda da mesma cor para combinar; camisa de linho branco imaculado e - certamente 
para demonstrar solidariedade com as tropas -casaco e colete no tart dos Cameron, com um xadrez complementar drapeado sobre um dos ombros, preso com um broche de 
quartzo escocs. Seus cabelos tinham acabado de ser empoados e a Ordem de Santo Andr reluzia em seu peito.
        Ficou parado no vo da porta, nobremente inspirando todos  vista e notoriamente bloqueando a entrada dos que vinham atrs. Olhou lentamente ao redor, assimilando 
os vinte e cinco homens amontoados no assoalho, os ajudantes agachados sobre eles, o monte de ataduras ensangentadas atiradas num dos cantos, a diversidade de remdios 
e instrumentos espalhados sobre a mesa, e eu, de p atrs dela.
        Sua Alteza, de um modo geral, no gostava muito de mulheres no exrcito, mas jamais esquecia as regras de cortesia. Eu era uma mulher, apesar das manchas 
de sangue e vmito que marcavam minha saia e o fato de que meus cabelos projetavam-se da touca em meia dzia de direes diferentes.
        - Madame Fraser - ele disse, cumprimentando-me com uma graciosa reverncia.
        - Alteza. - Inclinei a cabea em resposta  cortesia, torcendo para que ele no se demorasse muito.
        - Seu trabalho em nosso benefcio  muito apreciado, madame - ele disse, seu leve sotaque italiano mais forte do que o normal.
        - Ah, obrigada - eu disse. - Cuidado com o sangue. Est escorregadio a. A boca delicada comprimiu-se ligeiramente quando ele contornou a poa que eu indicara. 
Com a porta livre, Sheridan, O'Sullivan e lorde Balmerino entraram, aumentando o congestionamento na cabana. Agora que as exigncias da educao haviam sido cumpridas, 
Carlos agachou-se com todo o cuidado entre dois catres e colocou a mo gentilmente no ombro de um dos homens.
        - Qual  o seu nome, meu bravo soldado?
        - Gilbert Munro... h, Vossa Alteza - acrescentou o sujeito, apressadamente, fascinado com a presena do prncipe.
        Os dedos de unhas bem cuidadas tocaram as ataduras e talas que envolviam o que sobrara do brao de Gilbert Munro.
        - Seu sacrifcio foi notvel, Gilbert Munro - Carlos disse com simplicidade. - Prometo-lhe que no ser esquecido. - A mo alisou a face barbuda de Munro 
e ele enrubesceu de enlevado prazer.
        Eu tinha um homem diante de mim com um ferimento no couro cabeludo que precisava ser costurado, mas pude observar Carlos com o canto dos olhos, enquanto 
ele circulava pela cabana. Movendo-se devagar, ia de leito em leito, sem deixar de falar com nenhum ferido, parando para perguntar o nome e a terra natal de cada 
homem, oferecer agradecimentos e afetuosidade, congratulaes e palavras de conforto.
        Os homens ficaram mudos de perplexidade, tanto os ingleses quanto os escoceses, mal conseguindo responder a Sua Alteza com murmrios inaudveis. Finalmente, 
ele se ps de p e alongou-se, com sonoros estali-dos das juntas. Uma ponta de seu xale de xadrez arrastara-se na lama, mas ele no pareceu notar.
        - Trago-lhes as bnos e os agradecimentos de meu pai - disse. - Suas faanhas de hoje nunca sero esquecidas.
        Os homens no cho no estavam no estado de esprito certo para vivas e aclamaes, mas houve sorrisos e um murmrio geral de apreo.
        Virando-se para ir embora, Carlos avistou Jamie, de p num canto para no ter os ps descalos pisoteados pelas botas de Sheridan. O rosto de Sua Alteza 
iluminou-se de contentamento.
        - Mon cher! Eu no o vi hoje. Receei que algo tivesse lhe acontecido - Um olhar de reprovao atravessou o rosto bonito e corado. - Por que no foi jantar 
na casa paroquial com os outros oficiais?
        Jamie sorriu e inclinou-se respeitosamente.
        - Meus homens esto aqui, Alteza.
        As sobrancelhas do prncipe ergueram-se diante dessas palavras e ele abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa, mas lorde Balmerino deu um passo  frente 
e sussurrou em seu ouvido. A expresso de Carlos mudou para um ar de preocupao.
        - Mas o que isso  que estou ouvindo? - disse a Jamie, perdendo controle da sintaxe, como lhe acontecia em momentos de emoo. - Sua Excelncia est me dizendo 
que voc mesmo sofreu um ferimento.
        Jamie pareceu ligeiramente desconcertado. Lanou um rpido olhar em minha direo, para ver se eu havia escutado, e vendo que eu sem dvida ouvira, virou 
os olhos rapidamente de volta para o prncipe.
        - No foi nada, Alteza. S um arranho.
        - Mostre-me. - Foi dito de uma maneira simples, mas indubitavelmente tratava-se de uma ordem. O xale manchado caiu sem mais nenhum protesto.
        As pregas do tart escuro estavam quase negras no lado de dentro. A camisa que usava por baixo estava manchada de vermelho da axila ao quadril, com placas 
marrons e rgidas onde o sangue comeara a secar.
        Deixando aos prprios cuidados por um instante o ferimento de cabea que eu estava tratando, dei um passo  frente e abri a camisa, afastando-a delicadamente 
do lado machucado. Apesar da quantidade de sangue, vi que no se tratava de um ferimento grave; ele estava firme como uma rocha e o sangue j no escorria.
        Era um corte de sabre, enviesado, sobre as costelas. Um ngulo de sorte; se tivesse entrado de frente, teria penetrado fundo nos msculos intercostais entre 
as costelas. Do jeito que fora, uma aba de vinte centmetros de pele abria-se, solta, o sangue vermelho comeando a exsudar sob ela outra vez, com a liberao da 
presso. Seria necessrio um bom nmero de pontos para consertar, mas fora o constante perigo de infeco, o ferimento no era de frma alguma grave.
        Virando-me para relatar isso a Sua Alteza, parei, estancada pela estranha expresso em seu rosto. Por uma frao de segundo, pensei que se tratava de "tremores 
de recruta", o choque de uma pessoa no acostumada  viso de sangue e ferimentos. No posto de campanha, muitas enfermeiras novatas removiam um curativo feito no 
campo de batalha, davam uma olhada e saam que nem uma flecha, para vomitar silenciosamente l fora, antes de retornar para cuidar do paciente. Ferimentos de guerra 
tm um aspecto particularmente desagradvel.
        Mas no podia ser isso. Embora no fosse de modo algum um guerreiro inato, ainda assim Carlos fora ferido, como Jamie, aos catorze anos de idade, em sua 
primeira batalha em Gaeta. No, conclu, ao mesmo tempo em que a expresso momentnea de choque desaparecia dos suaves olhos castanhos. Ele no ficaria estarrecido 
com sangue ou ferimentos.
        Este no era um campons ou um pastor de ovelhas que ele tinha diante de si. No era um sdito annimo, cujo dever era lutar pela causa Stuart. Aquele era 
um amigo. E achei que talvez o ferimento de Jamie o tivesse feito se dar conta disso repentinamente; de que o sangue era derramado por suas ordens, que homens eram 
feridos por sua causa - no era de admirar que o conhecimento desse fato o tivesse atingido com tamanha profundidade, como um corte de espada.
        Ele olhou para o lado do corpo de Jamie por um longo instante, depois ergueu o rosto e fitou-o nos olhos. Segurou com fora a mo de Jamie e inclinou sua 
prpria cabea.
        - Obrigado - disse a meia-voz.
        E apenas por aquele instante, achei que talvez ele pudesse ter sido um rei, afinal.
        Por ordem de Sua Alteza, uma tenda fora erguida na pequena encosta atrs da igreja, como ltimo abrigo dos mortos em batalha. Tendo recebido prioridade no 
tratamento, os soldados ingleses no tinham nenhuma ali; os homens jaziam em fileiras, lenos cobrindo os rostos, os escoceses das Highlands distinguidos apenas 
pelos seus trajes, todos aguardando sepultamento no dia seguinte. MacDonald de Keppoch trouxera um padre francs com ele; o sujeito, os ombros arriados de cansao, 
a estola roxa usada de forma incongruente sobre um xale escocs manchado, movia-se devagar pela tenda, parando para rezar ao p de cada figura deitada.
        "O Senhor, conceda-lhe o descanso eterno e permita que a luz brilhe eternamente sobre ele", dizia. Fazia o sinal-da-cruz e passava ao cadver seguinte.
        Eu vira a tenda antes e, com o corao na boca, contara os corpos dos escoceses mortos. Vinte e dois. Agora, quando entrei na tenda, vi que o alto preo 
pago em vidas subira para vinte e seis.
        O vigsimo stimo jazia na igreja prxima, no ltimo quilmetro de sua jornada. Alexander Kincaid Fraser, morrendo aos poucos dos ferimentos que destroaram 
sua barriga e seu peito, com uma lenta infiltrao interna que no podia ser estancada. Eu o vira quando foi trazido, lvido de uma tarde inteira sangrando lentamente 
para a morte, sozinho no campo entre os corpos de seus inimigos.
        Ele tentou sorrir para mim e eu molhei seus lbios ressecados e untei-os com sebo. Dar-lhe algo para beber significava mat-lo instantaneamente, j que o 
lquido correria por seus intestinos perfurados, causando um choque fatal. Hesitei, vendo a gravidade de seus ferimentos e pensando que uma morte rpida talvez fosse 
melhor... mas logo parei. Compreendi que ele iria querer ver um padre e fazer sua confisso, ao menos. Assim, despachei-o para a igreja, onde o padre Benin cuidava 
dos moribundos como eu cuidava dos vivos.
        Jamie fizera visitas breves  igreja a cada meia hora mais ou menos, mas Kincaid resistiu por um tempo surpreendentemente longo, agarrando-se  vida apesar 
da deteriorao permanente de seu estado. No entanto, Jamie no voltara de sua ltima visita. Compreendi que a luta agora estava finalmente terminando e fui ver 
se podia ajudar.
        O espao sob as janelas que Kincaid ocupara estava vazio, exceto por uma mancha grande e escura. Ele tambm no estava na tenda dos mortos nem Jamie podia 
ser visto em nenhum lugar.
        Encontrei-os finalmente um pouco acima da colina atrs da igreja. Jamie estava sentado numa rocha, a figura de Alexander Kincaid deitada em seus braos, 
a cabea de cabelos cacheados pousada em seu ombro, as pernas longas e cabeludas pendendo, lnguidas, para o lado. Ambos estavam imveis como a rocha sobre a qual 
estavam sentados. Imveis como a morte, embora somente um deles estivesse morto.
        Toquei a mo branca e frouxa, para ter certeza, e pousei a mo na espessa cabeleira castanha, parecendo ainda incoerentemente viva. Um homem no devia morrer 
virgem, mas este morrera.
        - Ele se foi, Jamie - murmurei.
        Ele no se moveu por um instante, mas depois balanou a cabea, abrindo os olhos como se relutasse em encarar a realidade da noite.
        - Eu sei. Morreu pouco depois que eu o trouxe para fora, mas eu no queria deixar que ele se fosse.
        Segurei-o pelos ombros e o estendemos delicadamente no cho. Havia capim ali e o vento da noite agitava as lminas ao seu redor, roando-as de leve em seu 
rosto, um toque afetuoso da terra.
        - Voc no queria que ele morresse sob um teto - eu disse, compreendendo. O cu nos cobria com a sua vastido, aconchegante com as suas nuvens, mas infinito 
em sua promessa de refgio.
        Ele assentiu devagar, depois se ajoelhou junto ao corpo e beijou a testa ampla e lvida.
        - Eu gostaria que algum fizesse o mesmo por mim - ele disse num sussurro. Dobrou uma ponta do xale escocs sobre os cachos castanhos e murmurou alguma coisa 
em galico que eu no compreendi.
        Um posto mdico de campanha no  um lugar para lgrimas; h trabalho demais a ser feito. Eu no chorara o dia inteiro, apesar de tudo que vira, mas naquele 
momento cedi, ainda que apenas por alguns instantes. Reclinei o rosto sobre o ombro de Jamie em busca de sua fora e ele tocou-me de leve, para me consolar. Quando 
ergui os olhos, enxugando as lgrimas do rosto, vi-o ainda olhando fixamente, os olhos secos, para a silenciosa figura no cho. Sentindo que eu o observava, olhou 
para mim.
        - Chorei por ele enquanto ainda estava vivo para saber, Sassenach -disse serenamente. - Bem, como vo as coisas na casa?
        Funguei, assoei o nariz e tomei seu brao quando comeamos a voltar para a cabana.
        - Preciso de sua ajuda com um deles.
        - Qual?
        - Hamish MacBeth. O rosto de Jamie, tenso por tantas horas, relaxou um pouco sob as manchas de sujeira.
        - Ele voltou, ento? Fico contente. Mas como ele est? Revirei os olhos para cima.
        - Voc vai ver.
        MacBeth era um dos favoritos de Jamie. Um homem forte e pesado, com uma barba marrom encaracolada e modos reticentes, estava sempre ao alcance da voz de 
Jamie, sempre pronto quando algum servio era necessrio durante a jornada. De poucas palavras, possua um sorriso tmido e lento que se abria em sua barba como 
uma flor que desabrocha  noite, rara, porm radiante.
        Eu sabia que a ausncia do grandalho aps a batalha preocupara Jamie, mesmo entre os outros acontecimentos e tenses. Conforme o dia progredia e os desgarrados 
voltavam um a um, eu ficara atenta  volta de MacBeth. Mas o pr-do-sol chegou e as fogueiras irromperam pelo acampamento militar, sem que se tivesse notcia de 
MacBeth, e eu comecei a temer que o encontrssemos entre os mortos tambm.
        Mas ele entrara no posto de feridos h meia hora, movendo-se lentamente, mas com suas prprias pernas. Uma das pernas estava manchada de sangue at o tornozelo 
e ele caminhava de um modo saltitante, as pernas meio abertas, mas de maneira alguma deixaria uma "dona" colocar as mos nele para ver qual era o problema.
        O enorme sujeito estava deitado sobre um cobertor perto de um lampio, as mos entrelaadas sobre o ventre volumoso, os olhos pacientemente fixos nas vigas 
do teto. Girou os olhos quando Jamie ajoelhou-se a seu lado, mas no fez nenhum outro movimento. Deixei-me ficar discretamente ao fundo, oculta pelas costas largas 
de Jamie.
        - Muito bem, ento, MacBeth - Jamie disse, colocando a mo no pulso grosso como forma de cumprimento. - Como vai indo, amigo?
        - Vou indo, senhor - respondeu o gigante com sua voz retumbante. -Vou indo.  que  um pouco... - Hesitou.
        - Bem, ento, vamos dar uma olhada. - MacBeth no fez nenhum protesto quando Jamie dobrou para trs a barra do kilt. Espreitando atravs de uma fresta entre 
o brao e o corpo de Jamie, pude ver a causa das hesitaes de MacBeth.
        Uma espada ou lana atingira-o bem acima da forquilha entre as virilhas e abrira caminho para baixo. O escroto foi rasgado de um lado e um dos testculos 
estava parcialmente pendurado para fora, sua superfcie lisa e rosada brilhante como um ovo descascado.
        Jamie e os dois ou trs homens que viram o ferimento empalideceram e eu vi um dos ajudantes tocar-se num movimento reflexo, como se quisesse se assegurar 
que suas prprias partes estavam ilesas.
        Apesar da terrvel aparncia do ferimento, o prprio testculo no parecia danificado e no havia sangramento excessivo. Toquei Jamie no ombro e sacudi a 
cabea, querendo dizer que o ferimento no era grave, independentemente de qual fosse o efeito na psique masculina. Captando meu gesto com o canto do olho, Jamie 
deu uns tapinhas no joelho de MacBeth.
        - Ah, no  to grave, MacBeth. No se preocupe, voc ainda vai ser pai. O grandalho estivera olhando para baixo apreensivamente, mas diante dessas palavras 
transferiu o olhar para seu comandante.
        - Bem, isso no me preocupa, senhor, j que eu tenho seis filhos.  que eu no sei o que minha mulher iria dizer se eu... - MacBeth ficou roxo quando os 
homens  sua volta comearam a rir e caoar.
        Lanando um olhar para trs, para mim, em busca de confirmao, Jamie reprimiu seu prprio riso e disse com firmeza:
        - Isso tambm vai ficar bem, MacBeth.
        - Obrigado, senhor - o sujeito respirou aliviado, com absoluta confiana na afirmao de seu comandante.
        - Ainda assim - Jamie continuou rapidamente -, vai ser preciso costurar, amigo. Agora, voc  quem decide.
        Ele enfiou a mo no estojo aberto para pegar uma das agulhas de sutura feitas  mo. Horrorizada com os objetos rsticos que barbeiros-cirurgies geralmente 
usavam para costurar seus clientes, eu reunira trs dzias para mim, selecionando-as entre as mais finas agulhas de bordar que consegui obter e esquentei-as em frceps 
sobre a chama de um lampio a lcool, curvando-as delicadamente at conseguir a curva em meia-lua adequada, necessria para costurar vrios tecidos. Da mesma forma, 
eu fizera meu prprio categute - fios para sutura feitos de tripas de animais. Uma tarefa suja e desagradvel, mas ao menos eu tinha certeza da esterilidade de meus 
materiais.
        A minscula agulha de sutura parecia ridcula, segura entre os enormes dedos polegar e indicador de Jamie. A iluso de competncia mdica no era ajudada 
pelas vesgas tentativas de Jamie de passar o fio na agulha.
        - Ou eu mesmo fao isso - ele disse, a ponta da lngua ligeiramente para fora em sinal de concentrao - ou - interrompeu-se ao deixar cair a agulha e comear 
a tatear as pregas do xale de MacBeth  procura do instrumento. - Ou - disse, retomando a frase, enquanto exibia a agulha triun-falmente diante dos olhos apreensivos 
de seu paciente - minha mulher pode fazer isso para voc. - Uma ligeira sacudida da cabea convocou-me para entrar em cena. Fiz o melhor possvel para exibir uma 
expresso prtica e trivial, pegando a agulha da mo incompetente de Jamie e passando o fio por ela perfeitamente com um nico gesto.
        Os grandes olhos castanhos de MacBeth viajaram lentamente entre as enormes patas de Jamie - que ele conseguiu fazer parecer o mais desajeitadas possvel 
colocando a mo direita deformada em cima da esquerda - e as minhas mos pequenas e geis. Por fim, ele deitou-se com um suspiro de desalento e resmungou seu consentimento 
em deixar uma mulher colocar as mos em suas partes privadas.
        - No se preocupe, meu amigo - Jamie disse, dando uns tapinhas camaradas em seu ombro. - Afinal, ela tem manipulado os meus j h algum tempo e no me emasculou 
at agora. - Em meio  risada dos ajudantes e pacientes prximos, Jamie comeou a se levantar, mas eu o impedi empurrando um pequeno frasco em suas mos.
        - O que  isso? - perguntou.
        - lcool e gua - eu disse. - Soluo desinfetante. Se no quisermos que ele tenha febre, inflamao ou algo pior, o ferimento ter que ser lavado.
        MacBeth obviamente andara um bom pedao desde o local onde fora ferido e havia manchas de terra e de sangue prximas ao ferimento. lcool de cereais era 
um desinfetante muito forte, mesmo suavizado com cinqenta por cento de gua destilada esterilizada como eu usava. Ainda assim, era o nico recurso mais eficaz contra 
infeco e eu era inflexvel quanto  necessidade de sua utilizao, apesar das queixas dos ajudantes e dos gritos angustiados dos pacientes submetidos a ele.
        Jamie olhou do frasco de lcool para o ferimento aberto e estremeceu ligeiramente. Ele tivera o seu prprio quinho quando costurei o corte na lateral do 
seu corpo naquela manh.
        - Bem, MacBeth, melhor voc do que eu - ele disse e, colocando o joelho firmemente sobre a regio da barriga do escocs, aspergiu o contedo do frasco sobre 
os tecidos expostos.
        Um rugido apavorante sacudiu as paredes e MacBeth contorceu-se de dor como uma cobra cortada. Quando o urro enfim se acalmou, seu rosto estava esverdeado 
e ele no fez absolutamente nenhuma objeo quando comecei o trabalho rotineiro, ainda que doloroso, de costurar o escroto. A maioria dos pacientes, mesmo aqueles 
terrivelmente feridos, comportava-se estoicamente em relao ao tratamento primitivo a que os submetamos e MacBeth no era nenhuma exceo. Permaneceu quieto, terrivelmente 
constrangido, os olhos fixos na chama do lampio, e no moveu nenhum msculo enquanto eu fazia a sutura. Apenas as cores alternantes em seu rosto, de verde ao branco 
ao vermelho e de volta ao verde outra vez, traam suas emoes.
        Finalmente, entretanto, ele ficou roxo. Quando terminei a costura, o pnis frouxo comeou a enrijecer-se levemente, roado de leve pelo movimento de minha 
mo. Completamente abalado por essa comprovao de sua f na palavra de Jamie, MacBeth puxou o kilt para baixo assim que terminei, ps-se de p num salto e saiu 
cambaleando para a escurido, deixando-me com um riso reprimido, a cabea quase enfiada no meu estojo.
        Encontrei um canto onde um ba de suprimentos mdicos estava estocado e me apoiei na parede. Uma onda de dor subiu pelas minhas pernas; a repentina liberao 
da tenso e a reao dos nervos. Tirei os sapatos e recostei-me contra a parede, deliciando-me com os pequenos espasmos que se lanavam pela espinha dorsal e pelo 
pescoo,  medida que o esforo de ficar em p era aliviado.
        Cada centmetro quadrado de pele parece repentinamente sensvel em tal estado de fadiga; quando a necessidade de forar o corpo a trabalhar  subitamente 
suspensa, o mpeto remanescente parece forar o sangue ao permetro do corpo, como se o sistema nervoso relutasse em acreditar no que os msculos j haviam prazerosamente 
aceitado; voc no precisa se mover agora.
        O ar na cabana estava quente e barulhento com a respirao de seus ocupantes; no a algazarra saudvel de homens roncando, mas as arfadas superficiais de 
homens para quem respirar era doloroso e os gemidos daqueles que encontraram uma amnsia temporria que os liberta da obrigao mscula de sofrer em silncio.
        Os homens nesta cabana eram os que estavam gravemente feridos, mas no corriam perigo imediato de morte. Eu sabia, entretanto, que a morte caminha  noite 
pelos corredores de uma enfermaria, procurando aqueles cujas defesas esto baixas, que possam inconscientemente vagar e cruzar seu caminho por causa da solido e 
do medo. Alguns dos feridos possuam esposas que dormiam a seu lado, para confort-los na escurido, mas no havia nenhuma nesta cabana.
        Eles tinham a mim. Se pouco eu podia fazer para cur-los ou reduzir seu sofrimento, podia ao menos deixar que soubessem que no morriam sozinhos; que havia 
algum ali de guarda, entre eles e a escurido. Alm de qualquer coisa que eu pudesse fazer, era meu dever apenas estar ali.
        Levantei-me e percorri mais uma vez, lentamente, os espaos estreitos entre os catres no cho, agachando-me junto a cada um dos homens, murmurando e tocando, 
ajeitando um cobertor, alisando cabelos desgrenhados, massageando os ns que se formam nos msculos contrados. Um gole de gua aqui, uma troca de curativo ali, 
a percepo de uma atitude de tenso constrangimento que significava que um urinol era necessrio e a oferta simples e prtica do utenslio que permitia ao homem 
aliviar-se, a garrafa de barro vidrado tornando-se pesada e aquecida em minhas mos.
        Sa para esvaziar uma dessas e parei por um instante, absorvendo a noite mida e fria, deixando o chuvisco remover a sensao do toque de peles speras e 
cabeludas e o cheiro de homens suados.
        - Voc no dormiu muito, Sassenach. - A suave voz escocesa veio da direo da estrada. As outras cabanas que serviam de hospital estavam naquela direo; 
os alojamentos dos oficiais do outro lado, na casa paroquial.
        - Voc tambm no dormiu muito - respondi secamente. H quanto tempo ele estaria sem dormir, perguntei a mim mesma.
        - Dormi no campo ontem  noite, com os homens.
        - Ah,  mesmo? Um sono muito reparador - eu disse, com uma ironia que o fez rir. Seis horas de sono em um campo mido, seguido de uma batalha na qual ele 
fora pisado por um cavalo, ferido por uma espada e Deus sabe o que mais. Em seguida, ele reunira seus homens, recolhera os feridos, cuidara dos machucados, chorara 
os mortos e servira seu prncipe. E durante tudo isso eu no o vira parar para comer, beber ou descansar.
        No me dei ao trabalho de censur-lo. Nem valia a pena mencionar que ele devia estar entre os pacientes no cho. Era sua funo estar ali, de p, tambm.
        - H outras mulheres, Sassenach - ele disse ternamente. - Quer que eu pea a Archie Cameron para mandar uma delas para c?
        Era uma tentao, mas uma tentao que eu recusei antes de poder consider-la melhor, por medo de que se eu reconhecesse meu cansao no conseguiria me levantar 
outra vez.
        Alonguei-me, as mos atrs dos quadris.
        - No - eu disse. - Vou agentar at o amanhecer. Ento, outra pessoa poder me render por algum tempo. - De certo modo, eu achava que tinha que ajudar os 
pacientes a atravessar a noite; de manh eles estariam a salvo.
        Ele tambm no me censurou; apenas colocou a mo em meu ombro e puxou-me para ele por um instante. Compartilhamos o pouco da fora que nos restava, em silncio.
        - Vou ficar com voc, ento - ele disse, afastando-se finalmente. - Eu mesmo no vou conseguir dormir antes do dia clarear.
        - E os outros homens de Lallybroch?
        Ele fez um sinal com a cabea em direo aos campos prximos  cidade onde o exrcito estava acampado.
        - Murtagh est no comando.
        - Ah, bem. No h com que se preocupar - eu disse e vi seu sorriso  luz da janela. Havia um banco do lado de fora da cabana, onde a dona da casa sentava-se 
nos dias de sol para limpar peixe ou consertar roupas. Puxei-o para que se sentasse a meu lado e ele deixou-se arriar contra a parede da cabana com um suspiro. Seu 
bvio estado de exausto me fez lembrar de Fergus e da atordoada expresso de perplexidade do menino depois da batalha.
        Estendi o brao para acariciar a nuca de Jamie e ele virou a cabea cegamente em minha direo, descansando a fronte contra a minha.
        - Como foi ontem, Jamie? - perguntei num sussurro, os dedos massa-geando lentamente e com fora os msculos tensos de seu pescoo e ombros. - Como foi? Conte-me.
        Fez-se um breve silncio, depois ele suspirou e comeou a falar, com hesitao no comeo, em seguida mais rpido, como se quisesse desabafar.
        - No tnhamos fogueira, porque lorde George achava que devamos deixar a serra antes da aurora e no queria que nenhum vestgio de movimentao pudesse 
ser visto l de baixo. Ficamos sentados no escuro por algum tempo. No podamos nem falar, pois o som seria levado  plancie. Assim, ficamos aguardando.
        - Ento, senti alguma coisa agarrar minha coxa no escuro e quase ca duro. - Enfiou o dedo na boca e esfregou-o cautelosamente. - Quase arranquei a lngua 
com uma mordida. - Senti o movimento de seus msculos quando sorriu, embora seu rosto estivesse escondido.
        - Fergus?
        O fantasma de uma risada flutuou pela escurido.
        - Sim, Fergus. Arrastou-se pela grama sobre a barriga, o diabinho, e eu achei que ele fosse uma cobra. Me contou, sussurrando, sobre Anderson; eu sa rastejando 
atrs dele e levei Anderson para ver lorde George.
        Sua voz estava arrastada e enleada, murmurando sob o feitio do toque de minhas mos.
        - Ento, veio a ordem de que iramos partir, seguindo a trilha de Anderson. O exrcito inteiro se levantou e ps-se a caminho na escurido.
        A noite estava lmpida e sem lua, livre da costumeira camada de nuvens que captava a luz das estrelas e enviava uma luz difusa em direo  terra. Conforme 
o exrcito das Highlands seguia em silncio pelo caminho estreito atrs de Richard Anderson, cada homem no conseguia ver nada alm dos calcanhares em movimento 
do homem  sua frente, cada passo alargando a trilha pelo capim molhado.
        O exrcito locomovia-se quase sem rudo. As ordens eram passadas em murmrios de um homem para outro, no gritadas. Espadas de lmina larga e machados estavam 
ocultos nas dobras dos xales, frascos de plvora enfiados dentro das camisas, junto a coraes acelerados.
        To logo chegaram a solo firme, ainda em completo silncio, os homens das Highlands sentaram-se, arranjaram-se o mais confortavelmente possvel sem fogueira, 
comeram o que tinham de alimentos frios e prepararam-se para dormir, enrolados em seus xales,  vista das fogueiras do acampamento do inimigo.
        - Podamos ouvi-los conversar - Jamie disse. Seus olhos estavam cerrados, as mos entrelaadas atrs da cabea e recostado contra a parede da cabana. - Estranho, 
ouvir homens rindo de uma piada ou pedindo uma pitada de sal ou um gole do odre de vinho... e saber que dentro de poucas horas voc podia mat-los... ou eles matarem 
voc. Voc no consegue parar de pensar, sabe; como ser o rosto por trs daquela voz? Voc reconhecer o sujeito se encontr-lo pela manh?
        Ainda assim, os temores da expectativa da batalha no podiam sobrepujar o absoluto cansao, e "os Fraser negros" - assim chamados por causa dos vestgios 
de carvo que ainda adornavam seus rostos - e seu chefe j estavam acordados h mais de trinta e seis horas a essa altura. Ele pegara um feixe de junco para servir 
de travesseiro, enrolou bem o xale em volta dos ombros e deitou-se no capim ondulante ao lado de seus homens.
        Quando servia no exrcito francs, anos antes, um dos sargentos explicara aos mercenrios mais jovens o truque de adormecer na noite anterior  batalha.
        - Ajeite-se confortavelmente, examine sua conscincia e faa um bom ato de contrio. O padre Hugo diz que, em tempos de guerra, mesmo que no haja nenhum 
sacerdote para absolv-lo, seus pecados podem ser perdoados dessa forma. Como no pode cometer pecados enquanto dorme, voc acordar em estado de graa, pronto para 
cair sobre o inimigo. E sem nada mais a esperar seno a vitria ou o cu, como pode ter medo?
        Embora particularmente notando algumas falhas nesse argumento Jamie ainda assim o considerava um bom conselho; libertar a conscincia tranqilizava a alma 
e a reconfortante repetio de uma prece distraa a mente de fantasias atemorizantes e a embalava em direo ao sono.
        Ele ergueu os olhos para a abbada negra do cu e obrigou a tenso dos msculos dos ombros e do pescoo a relaxar no abrao duro do solo. As estrelas estavam 
fracas e indistintas nesta noite, no se comparando ao claro das fogueiras inglesas prximas.
        Sua mente voltou-se para os homens  sua volta, parando por um instante em cada um deles, um por um. A mancha do pecado era leve em sua conscincia, em comparao 
 preocupao com seus homens. Ross, McMurdo, Kincaid, McClure... parou para agradecer por ao menos sua mulher e o menino Fergus estarem a salvo. Sua mente demorou-se 
em sua mulher, desejando comprazer-se na lembrana de seu sorriso confiante, no calor slido, maravilhoso, do seu corpo em seus braos, pressionado com fora contra 
ele quando lhe dera um beijo de despedida naquela tarde. Apesar de seu prprio cansao e da presena de lorde George  sua espera l fora, teve vontade de derrub-la 
no colcho ali mesmo e possu-la rpida e imediatamente, sem se despirem. Estranho como a iminncia da luta deixava-o to excitado, sempre. Mesmo agora...
        Mas ele ainda no terminara seu rol mental e sentia as plpebras se fechando, conforme o cansao procurava arrast-lo para as profundezas do sono. Descartou 
o leve aperto dos testculos que sentiu ao pensar nela e retomou sua lista de chamada, um pastor traioeiramente levado a dormir pela contagem dos carneiros que 
conduzia ao matadouro.
        Mas no seria um massacre, tentou assegurar a si mesmo. Poucas baixas no lado jacobita. Trinta homens mortos. De um contingente de dois mil, apenas uma dbil 
possibilidade de algum dos homens de Lallybroch estar entre eles, certo? Se ela estivesse certa.
        Estremeceu ligeiramente sob o xale e esforou-se para afastar a dvida momentnea que revirava suas entranhas. Se. Meu Deus, se. Ainda tinha dificuldade 
de acreditar nisso, embora a tivesse visto junto quela pedra maldita. Vira o rosto dissolvendo-se em terror ao redor dos olhos dourados, arregalados de pnico, 
os prprios contornos de seu corpo esvaindo-se conforme ele, tambm em pnico, agarrara-se a ela, puxando-a de volta, sentindo pouco mais do que o frgil osso duplo 
de seu brao sob sua mo. Talvez devesse ter deixado que ela se fosse, de volta  sua prpria poca. No, talvez, no. Tinha certeza de que deveria ter deixado. 
Mas ele a puxara de volta. Dera-lhe a escolha, mas mantivera-a com ele pela pura fora de quer-la a seu lado. E, assim, ela ficara. E dera a ele a escolha -acreditar 
nela, ou no. Agir ou fugir. E a escolha estava feita agora e nenhuma fora terrena poderia impedir a chegada do alvorecer.
        Seu corao batia com fora, a pulsao ecoando nos pulsos, nas virilhas e na boca do estmago. Procurou acalm-lo, retomando sua contagem, um nome para 
cada batida do corao. Willie McNab, Bobby McNab, Geordie McNab... Graas a Deus, o jovem Rabbie McNab estava a salvo, em casa... Will Fraser, Ewan Fraser, Geoffrey 
McClure... McClure... Ele se lembrara de George e Sorley? Remexeu-se ligeiramente, com um dbil sorriso, apalpando o local dolorido ao longo de suas costelas. Murtagh. 
Sim, Murtagh, botina velha e boa... ao menos com voc minha mente no precisa se preocupar. William Murray, Rufus Murray, Geordie, Wallace, Simon...
        Finalmente, cerrara os olhos, encomendara todos eles aos cuidados do cu escuro acima e perdera-se no murmrio das palavras que ainda vieram  sua lembrana 
muito naturalmente em francs - "Mon Dieu, je regrette...
        Fiz minhas rondas na cabana, trocando um curativo encharcado de sangue da perna de um dos homens. O sangramento j devia ter estancado, mas no o fizera. 
M nutrio e ossos fracos. Se o sangramento no tivesse parado antes de o galo cantar, eu teria que mandar chamar Archie Cameron ou um dos cirurgies-veterinrios 
para amputar a perna e cau-terizar o toco.
        Detestava a idia. A vida j era suficientemente difcil para um homem com todos os seus membros em bom estado. Esperando o melhor, aspergi o novo curativo 
com uma pequena quantidade de sulfato de alumnio e enxofre. Se no adiantasse, mal no faria. O provvel  que doesse, mas quanto a isso nada poderia ser feito.
        - Vai arder um pouco - murmurei para o sujeito, enquanto envolvia sua perna nas bandagens.
        - No se preocupe, madame - ele sussurrou. Sorriu para mim, apesar do suor que corria pelo seu rosto, brilhante  luz da minha vela. - Eu agento.
        - timo. - Dei um tapinha em seu ombro, alisei seus cabelos para trs e lhe dei um gole de gua. - Darei outra olhada daqui a uma hora, se voc conseguir 
agentar o curativo tanto tempo.
        - Eu agento - repetiu.
        L fora outra vez, achei que Jamie tivesse adormecido. Seu rosto descansava nos braos cruzados sobre os joelhos. Mas ele ergueu o rosto ao ouvir meus passos 
e segurou minha mo quando me sentei a seu lado.
        - Ouvi o canho ao amanhecer - eu disse, pensando no homem l dentro, a perna destruda por um tiro de canho. - Temi por vocs.
        Ele riu baixinho.
        - Eu tambm, Sassenach. Todos ns.
        Silenciosos como tufos de neblina, os escoceses avanaram pelo mato, um p de cada vez. No havia nenhum indcio de que a escurido estivesse diminuindo, 
mas a sensao fsica da noite se modificara. O vento mudara de direo, era isso; soprava do mar para a terra fria e o dbil rugido de ondas em areias distantes 
podia ser ouvido.
        Apesar de sua impresso de escurido continuada, a luz se aproximava. Viu o homem a seus ps bem a tempo; mais um passo e ele teria cado de cabea sobre 
o corpo curvado do homem.
        O corao batendo forte com o choque da descoberta, agachou-se depressa para poder ver melhor. Um "casaco vermelho", e dormindo, nem morto nem ferido. Estreitou 
os olhos com fora para espreitar a escurido ao redor, aguando os ouvidos para ouvir a respirao de outros homens adormecidos. Nada alm de rudos do mar, do 
mato e do vento, o leve sussurro de ps furtivos quase amortecido pelos rugidos abafados da noite.
        Olhou apressadamente para trs, umedecendo os lbios ressecados apesar do ar mido. Havia homens bem perto atrs dele; no ousou hesitar por muito tempo. 
O prximo homem podia no ser to cuidadoso em ver onde pisava e no podiam correr o risco de nenhuma gritaria.
        Colocou a mo na adaga, mas hesitou. Guerra era guerra, mas ia contra seus princpios assassinar um inimigo dormindo. O homem parecia estar sozinho, a alguma 
distncia de seus companheiros. No era uma sentinela; nem mesmo o mais desleixado dos guardas dormiria, sabendo que o exrcito das Highlands estava acampado nas 
colinas acima. Talvez o soldado tenha se levantado para ir aliviar-se e se afastara uma boa distncia de seus camaradas para isso. Depois, perdendo-se no escuro, 
deitou-se para dormir ali mesmo onde estava at o dia clarear.
        O metal do mosquete estava escorregadio com o suor da palma de sua mo. Esfregou a mo no xale, depois se levantou, segurou o mosquete pelo cano e fez a 
coronha girar num arco maligno para baixo. O choque do impacto deu um tranco em suas omoplatas; uma cabea imvel  slida. Os braos do sujeito saltaram para os 
lados com a fora da coliso, mas fora uma exploso de ar dos pulmes, ele no fez nenhum barulho e agora jazia, esparramado de barriga para baixo, flcido como 
um trapo.
        Com as palmas das mos formigando, ele inclinou-se outra vez e tateou embaixo do maxilar do ingls  procura de uma pulsao. Encontrou-a e, tranqilizado, 
levantou-se. Ouviu-se um abafado grito de surpresa vindo de trs e ele girou nos calcanhares, o mosquete j no ombro, o cano quase tocando o rosto de um dos homens 
do cl MacDonald, de Keppoch.
        - Mon Dieu! - o homem murmurou, benzendo-se, e Jamie cerrou os dentes de irritao. Era o maldito padre francs de Keppoch, vestido, por sugesto de O'Sullivan, 
com xale escocs e camisa, como os combatentes.
        - O homem insistiu que era seu dever levar os sacramentos aos feridos e mortos no campo de batalha - Jamie explicou-me, prendendo seu xale manchado mais 
alto no ombro. A noite estava ficando ainda mais fria. - A idia de O'Sullivan era de que se os ingleses o pegassem em seu hbito o fariam em pedacinhos. Quanto 
a isso, talvez sim, talvez no. Mas ele parecia um palerma em trajes escoceses - acrescentou com ar de censura.
        O comportamento do padre tambm no ajudara a amenizar a impresso causada por sua vestimenta. Percebendo tardiamente que seu assaltante era um escocs, 
suspirou de alvio e em seguida abriu a boca. Com um rpido movimento, Jamie tampou-a antes que qualquer pergunta imprudente pudesse emergir.
        - O que faz aqui, padre? - grunhiu, a boca pressionada contra o ouvido do sacerdote. - Voc deve ficar atrs das linhas.
        Os olhos arregalados do padre revelaram a verdade a Jamie - o homem de Deus, perdido na escurido, achou que realmente estava atrs das linhas e a compreenso 
tardia de que na verdade ele estava na vanguarda dos escoceses que avanavam fez seus joelhos amolecerem.
        Jamie olhou para trs; no ousava mandar o padre de volta pelas linhas. Na escurido enevoada, ele poderia facilmente dar de cara com um escocs, ser tomado 
por um inimigo e ser morto ali mesmo. Segurando o homenzinho pela nuca, forou-o a ajoelhar-se.
        - Deite-se no cho e fique a at o fogo cessar - sussurrou no ouvido do padre. Ele assentiu balanando a cabea de modo frentico, depois de repente viu 
o corpo do soldado ingls, deitado no cho a poucos passos de distncia. Ergueu os olhos aterrorizados para Jamie e pegou os frascos de crisma e gua benta que trazia 
presos ao cinto, no lugar de uma adaga.
        Revirando os olhos para cima de exasperao, Jamie fez uma srie de gestos enrgicos, tentando indicar que o sujeito no estava morto e assim no precisava 
dos servios do padre. Tendo os gestos fracassado em sua inteno, ele inclinou-se, segurou a mo do sacerdote e pressionou seus dedos no pescoo do ingls, como 
o mtodo mais simples de ilustrar que o homem no era na verdade a primeira vtima da batalha. Surpreendido nessa posio ridcula, ficou paralisado quando uma voz 
atravessou a neblina atrs dele.
        - Pare! - disse a voz. - Quem est a?
        - Tem um pouco de gua, Sassenach - Jamie perguntou. - Minha boca est ficando seca de falar.
        - Filho-da-me! - eu disse. - No pode parar agora! O que aconteceu?
        - gua - ele disse, rindo -, e ento lhe contarei.
        - Est bem - eu disse, entregando-lhe uma garrafa de gua e observando-o vir-la na boca. - O que aconteceu depois?
        - Nada - ele disse, abaixando a garrafa e limpando a boca na manga da camisa. - O que voc acha que eu ia responder? - Riu deslavadamente para mim e desviou-se 
quando mirei um tapa em seu ouvido.
        - Ora, ora - disse em tom de reprovao. - Isso no so modos de tratar um homem ferido a servio de seu rei, no ?
        - Ferido, hein? - eu disse. - Acredite-me Jamie Fraser, um leve corte de sabre no  nada comparado ao que vou fazer se voc...
        - Ah, e ainda por cima ameaas, hein? Como era mesmo aquele poema que voc me disse...? "Quando a dor e a angstia enrugam a fronte, um anjo protetor"... 
Ai!
        - Da prxima vez, arranco sua orelha pela raiz - eu disse, soltando-a. - Ande, continue, tenho que voltar l para dentro em um minuto.
        Ele esfregou a orelha delicadamente, mas voltou a recostar-se contra a parede e retomou a histria.
        - Bem, ficamos l parados, de ccoras, o padre e eu, entreolhando-nos e ouvindo as sentinelas a dois metros de distncia. "O que foi isso?", disse um dos 
soldados, e fiquei pensando se conseguiria me levantar a tempo de golpe-lo com a minha adaga antes que ele pudesse atirar em mim, ou o amigo dele. J que eu no 
poderia esperar ajuda do padre, a no ser, talvez, uma ltima prece sobre meu cadver.
        Houve um silncio longo e exasperante, enquanto os dois jacobitas permaneciam agachados na grama, as mos ainda enlaadas, com medo de fazer sequer o mais 
leve movimento, at mesmo para se soltarem.
        - Ahhh, voc est vendo coisas - disse a outra sentinela finalmente e Jamie sentiu um estremecimento de alvio percorrer o corpo do padre, enquanto seus 
dedos suados soltavam-se. - No h nada l em cima alm de moitas de tojo. No se preocupe, rapaz - a sentinela disse de modo tranqilizador, e Jamie ouviu um tapa 
num ombro e batidas pesadas de ps calados de botas, de algum tentando se manter aquecido. - Com certeza h um bando deles por a e, nesta escurido, poderia ser 
o maldito exrcito das Highlands inteiro, pelo que se pode enxergar. - Jamie achou ter ouvido o sopro de um riso abafado vindo de uma das "moitas de tojo" na encosta 
dentro do seu campo de audio.
        Olhou para o topo da colina, onde as estrelas comeavam a esmaecer. Menos de dez minutos para os primeiros raios de luz, calculou. Quando, ento, as tropas 
de Johnnie Cope logo perceberiam que o exrcito das Highlands no estava, como pensavam, a uma hora de marcha dali, na direo oposta, mas j cara a cara com suas 
linhas de frente.
        Ouviu-se um rudo  esquerda, na direo do mar. Era fraco e indistinto, mas o tom de alarme era claro para ouvidos experientes. Algum, ele sups, tropeara 
numa moita de tojo.
        - Hein? - O tom de alarme fora captado por uma das sentinelas prximas. - O que est acontecendo?
        O padre teria que cuidar de si mesmo, pensou. Jamie sacou a espada de folha larga enquanto se levantava e, com uma nica e larga passada, eliminou a distncia 
at o inimigo. O homem no passava de um vulto na escurido, mas suficientemente distinto. A lmina implacvel abateu-se com toda a fora e rachou o crnio do sujeito 
ali mesmo onde ele estava.
        - Escoceses! - O grito de alarme eclodiu do companheiro e a segunda sentinela saltou como um coelho desentocado com jato d'gua, fugindo aos pulos na noite 
evanescente antes que Jamie pudesse arrancar sua espada da fenda ensangentada. Colocou o p nas costas do homem cado e deu um puxo na arma para trs, rangendo 
os dentes contra a sensao desagradvel de carne mole e osso rangente.
        O alarme espalhava-se para cima e para baixo das linhas inglesas; podia senti-lo tanto quanto ouvi-lo - uma agitao de homens bruscamente acordados, tateando 
s cegas em busca de suas armas, procurando em todas as direes a ameaa oculta.
        As gaitas de foles de Clanranald estavam atrs, para a direita, mas at ento nenhum sinal fora dado para o ataque. A ordem, ento, era para continuar avanando, 
o corao acelerado e o brao esquerdo formigando do esforo do golpe mortal, os msculos da barriga contrados e os olhos estreitando-se para ver atravs da escurido 
minguante, o sangue morno salpicado pelo seu rosto tornando-se frio e pegajoso.
        - Eu pude ouvi-los primeiro - ele disse, os olhos fitos na noite como se ainda procurasse os soldados ingleses. Inclinou-se para frente, abraando os joelhos. 
- Depois, eu pude ver, tambm. Os ingleses, contorcendo-se pelo cho como larvas na carne, e os homens atrs de mim. George Mc-Clure alcanou-me, e Wallace e Ross 
surgiram do outro lado. Prosseguamos em silncio, um passo de cada vez, mas cada vez mais rpido vendo os ingleses irrompendo  nossa frente.
        Ouviu-se uma exploso abafada  direita; o disparo de um nico canho. Um instante mais tarde, outro disparo, e em seguida, como se este fosse o sinal, um 
grito retumbante ergueu-se do meio dos escoceses que avanavam.
        - Ento, as gaitas de foles comearam - ele disse, os olhos cerrados. -No me lembrei do meu mosquete at que ouvi um disparo bem atrs de mim; eu o deixara 
no cho ao lado do padre. Num momento assim, voc no v nada alm daquilo que est acontecendo imediatamente  sua volta.
        "Voc ouve um grito e, de repente, est correndo. Devagar, por um ou dois passos, enquanto desata o cinto, ento seu xale cai, livre, e voc est saltando, 
os ps respingando lama pelas suas pernas e o frio do mato molhado nos seus ps e as abas de sua camisa voando pelo seu traseiro nu. O vento entra por dentro de 
sua camisa, sobe pela sua barriga e sai pelos seus braos... Em seguida, o barulho o invade e voc est gritando, como voc desce uma colina a toda a velocidade, 
gritando ao vento, quando  criana, para ver se consegue se erguer no ar com a fora do som."
        Cavalgaram as ondas de seus prprios gritos at a plancie e a fora do ataque dos escoceses arrebentou sobre os bancos de areia do exrcito ingls, engolfando-os 
num vagalho de sangue e terror.
        - Eles correram - ele disse a meia-voz. - Um homem virou-se para me enfrentar... durante toda a luta, apenas um. Todos os outros, eu peguei por trs. - Esfregou 
a mo encardida no rosto e pude sentir um ligeiro tremor desprender-se do mago de seu ser. - Eu me lembro... de tudo - ele disse, quase num murmrio. - Cada golpe. 
Cada rosto. O homem deitado no cho  minha frente que se mijou todo de medo. Os cavalos berravam-Todos os odores: plvora, sangue e o cheiro do meu prprio suor. 
Tudo. Mas era como se eu estivesse do lado de fora, observando a mim mesmo. Eu no estava realmente l. - Ele abriu os olhos e olhou para mim pelo canto do olho. 
Estava quase dobrado ao meio, a cabea sobre os joelhos, o tremor visvel agora.
        - Sabe como ? - ele perguntou.
        - Sei.
        Embora eu no tivesse lutado com espada ou adaga, havia lutado muitas vezes com as mos e a fora de vontade; atravessando o caos da morte somente porque 
no havia outra escolha. E isso realmente deixava aquela sensao estranha de distanciamento; o crebro parecia erguer-se acima do corpo, avaliando e instruindo 
com frieza, as vsceras obedientemente subjugadas at a crise passar. Era sempre algum tempo depois que os tremores comeavam.
        Eu ainda no havia atingido esse ponto. Retirei o manto dos meus ombros e o cobri antes de voltar para dentro da cabana.
        O dia amanheceu e fui substituda por duas mulheres da vila e um cirurgio militar. O homem com a perna ferida estava plido e trmulo, mas o sangramento 
parara. Jamie tomou-me pelo brao e levou-me dali, pela rua de Tranent.
        As constantes dificuldades de O'Sullivan com as provises para abastecer o exrcito foram temporariamente aliviadas pela captura das carroas de mantimentos 
dos ingleses, e havia abundncia de suprimentos. Comemos rapidamente, mal provando o mingau quente, considerando a comida apenas uma necessidade do corpo, como respirar. 
A sensao de saciedade comeou a tomar conta do meu corpo, deixando-me livre para pensar na segunda necessidade mais premente - dormir.
        Os feridos foram aquartelados em cada casa e cabana, os sos, em sua maioria, dormiam nos campos fora da vila. Embora Jamie pudesse ter reivindicado um lugar 
na casa paroquial com os outros oficiais, em vez disso ele me tomou pelo brao e me conduziu por entre as cabanas, em direo a uma colina. Subimos a encosta, at 
um dos pequenos bosques que se espalhavam pela periferia de Tranent.
        -  uma boa caminhada - ele dissera, em tom de desculpas, olhando para mim -, mas achei que voc gostaria de um pouco de privacidade.
        - Sim, gostaria. - Embora eu tivesse sido criada em condies que pareceriam primitivas s pessoas da minha poca, em geral dormindo em barracas e casas 
de taipa durante as expedies de campo de tio Lamb, ainda assim no estava acostumada a viver amontoada com vrias outras pessoas, como era costume aqui. As pessoas 
comiam, dormiam e muitas vezes copulavam comprimidas em cabanas minsculas e asfixiantes, iluminadas e aquecidas pela queima fumarenta de turfa. A nica coisa que 
no faziam juntas era se banhar - em grande parte porque elas no tomavam banho.
        Jamie liderou o caminho, por baixo dos galhos inclinados de um enorme castanheiro-da-ndia, at uma pequena clareira, forrada de folhas cadas de freixo, 
carvalho e pltano. O sol mal nascera e ainda fazia frio sob as rvores, uma linha fina de geada orlando algumas das folhas amareladas.
        Ele formou uma espcie de trincheira raspando a espessa camada de folhas com o calcanhar, depois se postou em uma das extremidades da depresso, colocou 
a mo na fivela do cinto e sorriu para mim.
        -  um pouco inconveniente para vestir, mas muito fcil de tirar. - Soltou o cinto com um puxo e o tecido de xadrez do seu traje caiu em dobras em torno 
de seus tornozelos, deixando-o vestido apenas at a metade da coxa com sua camisa. Ele geralmente usava o "pequeno kilt" militar, que era preso com um cinto em volta 
da cintura, sendo o xale de xadrez uma tira de pano separada, drapeada em torno dos ombros. Mas neste momento, estando seu prprio kilt rasgado e sujo da batalha, 
ele arranjara um traje antigo, consistindo apenas em um xale cingido por um cinturo - nada mais do que uma longa tira de tecido, enrolada em torno do corpo e presa 
na cintura apenas por um cinto.
        - Como  que voc veste isso? - perguntei, curiosa.
        - Bem, voc o estica no cho, assim - ajoelhou-se, estendendo a tira de xadrez de modo que ela forrasse a depresso coberta de folhas -, depois faz pregas 
a alguns centmetros de intervalo, deita-se sobre ele e rola.
        Soltei uma gargalhada e deixei-me cair de joelhos, ajudando a alisar a grossa l do tart.
        - Isso eu quero ver - eu lhe disse. - Acorde-me antes de se vestir. Ele sacudiu a cabea, divertindo-se, e a luz do sol filtrando-se atravs das folhas das 
rvores refletiu-se em seus cabelos.
        - Sassenach, as chances de eu acordar antes de voc so menores do que as de uma minhoca sobreviver num quintal de galinhas. No me importo se outro cavalo 
me pisotear, no vou me mexer at amanh. -Deitou-se cuidadosamente, afastando as folhas.
        - Deite-se aqui comigo. - Estendeu a mo para cima de forma convidativa. - Vamos nos cobrir com nosso manto.
        As folhas sob a l macia formavam um colcho surpreendentemente confortvel, apesar de que, a essa altura, eu teria ficado feliz de dormir numa cama de pregos. 
Meu corpo relaxou-se completamente contra o dele, comprazendo-se no delicioso prazer de apenas se deitar.
        A friagem inicial dissipou-se rpido, conforme nossos corpos aqueciam o bolso onde nos abrigramos. Estvamos suficientemente longe da cidade para que os 
sons de sua ocupao s nos alcanassem em fragmentos trazidos pelo vento. Pensei com sonolenta satisfao que, se algum procurasse por Jamie, provavelmente s 
nos encontraria amanh.
        Na noite anterior, eu tirara minhas anguas e as rasgara para fazer mais ataduras. Agora, no havia mais nada entre ns alm do tecido fino da saia e do 
camiso de baixo. Um calor rijo e slido agitou-se brevemente contra meu ventre.
        - No pode ser, pode? - eu disse, achando graa, apesar do cansao. -. Jamie, voc deve estar semimorto.
        Ele deu uma risada cansada, segurando-me bem junto ao seu corpo com uma das mos grandes e quentes na base da minha coluna.
        - Bem mais do que semimorto, Sassenach. Estou exausto e meu pau  a nica parte estpida do meu corpo que no sabe disso. No consigo me deitar com voc 
sem desej-la, mas desejar talvez seja tudo que vou conseguir fazer.
        Tateei em busca da barra de sua camisa, puxei-a para cima e minha mo envolveu-o delicadamente. Mesmo mais quente do que a pele de sua barriga, seu pnis 
era sedoso sob a carcia do meu polegar, pulsando com fora a cada batida do seu corao.
        Ele emitiu um pequeno gemido de dolorida satisfao e virou-se lentamente de costas, deixando as pernas abrirem-se, relaxadas, parcialmente cobertas pelo 
meu manto.
        O sol alcanara nossa pilha de folhas e meus ombros relaxaram-se sob o toque clido da luz. Tudo parecia recoberto com uma fina camada de ouro, um resultado 
da mistura de comeo de outono com fadiga extrema. Senti-me lnguida e vagamente separada do meu corpo, observando a pequena agitao de sua carne sob meus dedos. 
Todo o terror, cansao e barulho dos dois ltimos dias comearam a se esvair aos poucos, deixando-nos a ss.
        A nvoa da exausto parecia agir como uma lente de aumento, exagerando minsculos detalhes e sensaes. A ponta do seu ferimento a sabre podia ser vista 
sob a camisa embolada para cima, uma crosta escura contra a pele clara. Dois ou trs mosquitinhos zumbiam baixo, investigando, e eu abanei a mo, afastando-os. O 
silncio ressoava em meus ouvidos, o murmrio das rvores no se comparando aos dissonantes ecos da cidade.
        Recostei o rosto sobre ele, sentindo a curva lisa e rgida do osso do seu quadril, proeminente sob a pele. Na dobra de sua virilha, a pele era transparente 
e os vasos capilares finos e azuis como os de uma criana.
        Sua mo ergueu-se devagar, flutuando como as folhas, e descansou de leve em minha cabea.
        - Claire. Eu preciso de voc - ele murmurou. - Eu preciso muito de voc.
        Sem as incmodas anguas, foi fcil. Senti-me como se eu mesma estivesse flutuando, erguendo-me sem esforo, levantando as minhas saias pelo comprimento 
de seu corpo, dispondo-me sobre ele como uma nuvem no topo de uma colina, dando abrigo ao seu desejo.
        Seus olhos estavam fechados, a cabea para trs, o ouro avermelhado de seus cabelos esparramado sobre as folhas. Mas suas mos ergueram-se e assentaram-se 
com firmeza em minha cintura, descansando sem peso na curva dos meus quadris.
        Meus olhos tambm se fecharam e eu senti as formas de sua mente, to claramente como sentia as do seu corpo sob mim; a exausto bloqueava cada pensamento 
e cada lembrana; cada sensao, exceto o reconhecimento um do outro.
        - No... muito tempo - ele murmurou. Balancei a cabea, sabendo que ele sentia o que no via, e ergui-me em cima dele, as coxas frementes e firmes sob o 
tecido manchado do meu vestido.
        Uma, duas vezes, outra vez, e mais outra, e o tremor ergueu-se por dentro dos nossos corpos, como a subida da gua pelas razes de uma planta, at as folhas.
        Soltou a respirao com um suspiro e senti sua perda de conscincia como o lento apagar de um lampio. Deixei-me cair a seu lado, mal conseguindo puxar as 
pesadas dobras do manto sobre ns antes que a escurido me dominasse, e deitei meu peso sobre a terra, o calor de sua semente dentro de mim. Dormimos.
        
        
        
37 - Holyrood

Edimburgo, outubro de 1745
        
        Abatida na minha porta surpreendeu-me, interrompendo uma inspeo de minhas recm-reabastecidas caixas de remdios. Aps a impressionante vitria em Prestonpans, 
Carlos conduzira seu exrcito triunfante de volta a Edimburgo, para comprazer-se nas adulaes. Enquanto ele se deliciava, seus generais e chefes trabalhavam, reorganizando 
seus homens e adquirindo todo equipamento que pudessem obter, em preparao para o que quer que viesse.
        Encorajado pelo sucesso, Carlos discorria livremente sobre tomar Stirling, em seguida Carlyle e depois, talvez, em avanar para o sul, at mesmo sobre Londres. 
Eu passava meu tempo livre contando agulhas de sutura, armazenando casca de salgueiro e me apoderando de qualquer quantidade, por menor que fosse, de lcool que 
pudesse encontrar, para ser transformado em desinfetante.
        - O que ? - perguntei, abrindo a porta. O mensageiro era um garoto, pouco mais velho do que Fergus. Ele tentava parecer compenetrado e deferente, mas no 
conseguia conter sua natural curiosidade. Vi seus olhos moverem-se rpido pela sala, pousando, fascinados, na grande caixa de remdios no canto. Obviamente, os rumores 
a meu respeito haviam se espalhado pelo palcio de Holyrood.
        - Sua Alteza solicita sua presena, sra. Fraser - ele disse. Os grandes olhos castanhos examinaram-me detidamente, sem dvida em busca de indcios de possesso 
sobrenatural. Pareceu um pouco decepcionado com a minha aparncia desalentadoramente normal.
        - Ah,  mesmo? - eu disse. - Est bem. Onde ele est, ento?
        - Na sala de visitas matinal, senhora. Devo acompanh-la. Ah... - O pensamento ocorreu-lhe quando se virou e ele girou de volta antes que eu pudesse fechar 
a porta. - A senhora deve levar sua caixa de remdios, por gentileza.
        Meu acompanhante exultava com a importncia que ele mesmo atribua  sua misso e escoltou-me pelo longo corredor, at a ala real do palcio. Obviamente, 
algum andara lhe ensinando as regras do comportamento adequado a um pajem real, mas um saltitar exuberante em seus passos de vez em quando traa sua recente admisso 
ao trabalho.
        O que Carlos poderia querer comigo?, perguntei-me. Embora me tolerasse por causa de Jamie, a histria de La Dame Blanche obviamente o desconcertara e o deixara 
inquieto. Mais de uma vez, eu o surpreendera benzendo-se furtivamente em minha presena ou fazendo o rpido sinal de "chifres" feito com dois dedos e usado contra 
o mal. A idia de que ele fosse me pedir para trat-lo de algum problema mdico era extremamente improvvel.
        Quando a pesada porta de madeiras cruzadas se abriu para a pequena sala de visitas matinal, pareceu-me ainda mais improvvel. O prncipe, obviamente gozando 
de boa sade, inclinava-se sobre a espineta pintada, tentando extrair uma melodia claudicante com um nico dedo. Sua pele delicada estava ligeiramente ruborizada, 
mas de empolgao, no de febre, e seus olhos estavam lmpidos e atentos quando os ergueu para mim.
        - Sra. Fraser! Que gentileza a sua em me atender to prontamente! - Estava vestido nesta manh com ainda mais pompa do que de costume, usando peruca e um 
casaco novo de seda bege, rebordado de flores. Deve estar entusiasmado com alguma coisa, pensei; seu ingls se deteriorava sempre que ficava agitado.
        -  um prazer, Vossa Alteza - eu disse decorosamente, fazendo uma ligeira mesura. Ele estava sozinho, uma situao inusitada. Seria possvel que quisesse 
meus servios mdicos para si mesmo, afinal?
        Fez um gesto rpido e nervoso em direo a uma das cadeiras damas-quinadas pintadas em ouro, instando-me a sentar. Uma segunda cadeira foi puxada, de frente 
para a minha, mas ele andava de um lado para o outro  minha frente, irrequieto demais para se sentar.
        - Preciso de sua ajuda - ele disse de repente.
        - Hum? - Fiz um barulho educadamente indagador. Gonorria?, imaginei, examinando-o veladamente de alto a baixo. Eu no ouvira falar de nenhuma mulher desde 
Louise de La Tour, mas, por outro lado, bastava uma nica vez. Ele abriu e fechou os lbios, como se procurasse a melhor maneira de me contar, mas por fim desistiu.
        - Tenho um capo, um chefe, sabe?, aqui. Ele quer se unir  causa de meu pai, mas ainda tem alguma dvida.
        - Um chefe de cl,  o que quer dizer? - Ele balanou a cabea confirmando, a testa franzida sob os cachos cuidadosos da peruca.
        - Sim, madame. Ele obviamente apoia as reivindicaes de meu pai-
        - Ah,  claro - murmurei.
        - ...Mas ele quer falar com a senhora, antes de empenhar seus homens a me seguirem.
        Ele parecia incrdulo, ouvindo suas prprias palavras, e eu compreendi que o rubor em suas faces era proveniente da combinao de perplexidade irritada e 
fria reprimida.
        Eu mesma estava mais do que um pouco confusa. Minha imaginao prontamente visualizou um chefe de cl com uma terrvel doena, cuja adeso  causa dependia 
da realizao de uma cura milagrosa.
        - Tem certeza de que ele deseja falar comigo? - perguntei. Com certeza, minha reputao no tinha ido to longe assim.
        Carlos inclinou a cabea friamente em minha direo.
        -  o que ele diz, madame.
        - Mas eu no conheo nenhum chefe de cl - eu afirmei. - Fora Glengarry e Lochiel,  claro. Ah, e Clanranald e Keppoch. Mas todos eles j se comprometeram 
com Vossa Alteza. E por que, afinal...
        - Bem, ele  da opinio de que a senhora o conhece - o prncipe interrompeu, a sintaxe ainda mais atrapalhada com a elevao do seu mau humor. Ele cerrou 
os punhos, obviamente obrigando-se a falar de modo educado. -  de importncia, da maior importncia, madame, que ele se convena a se unir a mim. Eu exijo... eu 
lhe peo... portanto, que... o convena.
        Esfreguei o nariz pensativamente, olhando para ele. Mais um ponto de deciso. Mais uma oportunidade para fazer com que os acontecimentos seguissem o caminho 
que eu escolhesse. E mais uma vez, a incapacidade de saber qual a melhor atitude a tomar.
        Ele tinha razo; era importante convencer esse chefe de cl a comprometer seus recursos  causa jacobita. Com os Cameron, os vrios MacDonald e os outros 
que haviam se unido  causa at agora, o exrcito jacobita no reunia mais do que dois mil homens, e esses formavam o grupo mais heterogneo de gentalha j impingido 
a qualquer general. E no entanto, esse bando de maltrapilhos tomara a cidade de Edimburgo, derrotara uma fora inglesa muito superior em Preston e demonstrava toda 
disposio de continuar atravessando a zona rural como uma turba de saltimbancos.
        Ns no conseguramos impedir Carlos em sua aventura; talvez, como Jamie dissera, a nica maneira de evitar a calamidade era agora fazer todo o possvel 
para ajud-lo. O acrscimo de um importante chefe de cl  lista de partidrios influenciaria enormemente as chances de outros aderirem. Esse podia ser um momento 
decisivo, em que as foras jacobitas poderiam ser aumentadas ao nvel de um verdadeiro exrcito, realmente capaz de realizar a proposta invaso da Inglaterra. E 
se assim fosse, o que iria acontecer depois?
        Suspirei. Independentemente do que eu resolvesse fazer, no poderia tomar nenhuma deciso enquanto no visse quem era essa misteriosa pessoa.
        Olhei para baixo para ver se meus trajes estavam adequados para encontros com chefes de cl, infectados ou no, e me levantei, enfiando a caixa de remdios 
embaixo do brao.
        - Vou tentar, Alteza - eu disse.
        Os punhos cerrados relaxaram-se, revelando as unhas rodas, e sua testa desanuviou-se.
        - Ah, timo - ele disse. Virou-se para a porta mais larga da sala de visitas da tarde. - Venha, eu mesmo a conduzirei.
        O guarda postado  porta deu um salto de surpresa quando Carlos escancarou a porta e passou por ele a passos largos sem lanar sequer um olhar em sua direo. 
Do outro lado da sala longa, as paredes cobertas de tapearias, havia uma enorme lareira de mrmore, recoberta de azulejos brancos de Delft, pintados com cenas campestres 
holandesas em tons de azul e amora. Um pequeno sof estava disposto em frente  lareira e um homem muito alto e forte, de ombros largos, em trajes das Highlands, 
estava de p a seu lado.
        Em um aposento menos imponente, ele teria parecido enorme, as pernas como troncos de rvores em suas meias de xadrez sob o kilt. Na situao como agora se 
apresentava, neste salo imenso com tetos altos ornamentados em gesso, era apenas grande - bem de acordo com as figuras hericas da mitologia que decoravam as tapearias 
nas paredes da sala.
        Parei repentinamente ao ver o enorme visitante, o choque do reconhecimento ainda misturado  absoluta incredulidade. Carlos seguira adiante e parou para 
olhar para trs com alguma impacincia, fazendo sinal para que eu fosse me unir a ele junto  lareira. Balancei a cabea cumprimentando o enorme sujeito. Em seguida, 
contornei devagar a ponta do sof e fitei o homem deitado sobre ele.
        Ele sorriu debilmente ao me ver, os olhos cinza da cor de um pombo iluminando-se com uma centelha de diverso.
        - Sim - ele disse, em resposta  minha expresso. - Eu certamente tambm no esperava encontr-la outra vez. Deve-se sempre acreditar no destino. - Virou 
a cabea e ergueu a mo para seu enorme guarda-costas.
        - Angus. Poderia ir pegar uma dose de conhaque para madame Claire. Receio que a surpresa de me ver possa t-la perturbado.
        Isso, pensei, era colocar a situao de forma extremamente branda. Deixei-me cair em uma cadeira estranha, de ps abertos para fora, e copo de haste, de 
cristal, que Angus Mhor me estendia.
        Os olhos de Colum MacKenzie no haviam mudado; nem sua voz. Ambos conservavam a essncia do homem que liderava o cl MacKenzie h trinta anos, apesar da 
doena que o aleijara na adolescncia. No entanto, tudo o mais havia mudado tristemente para pior; os cabelos negros estavam fartamente estriados de branco, as rugas 
do rosto mais profundas na pele que se tornara flcida sobre os contornos distintos dos ossos. At mesmo o peito largo havia minguado e os ombros poderosos estavam 
cados, os msculos desaparecidos do esqueleto frgil que os sustentava.
        Ele j segurava um copo pela metade com um lquido mbar, brilhando  luz do fogo na lareira. Ergueu-se com dificuldade  posio sentada e levantou o copo 
num brinde irnico.
        - Voc est com uma tima aparncia... sobrinha. - Do canto do olho, vi a boca de Carlos abrir-se de espanto.
        - Voc no est - eu disse secamente.
        Ele olhou para baixo sem emoo, para as pernas arqueadas e deformadas. Dali a cem anos, dariam a essa doena o nome de seu mais ilustre portador - sndrome 
de Toulouse-Lautrec.
        - No - eu disse. - Mas, por outro lado, j faz dois anos que voc me viu pela ltima vez. Na ocasio, a sra. Duncan estimou minha sobrevivncia em menos 
de dois anos.
        Tomei um gole do conhaque. De excelente qualidade. Carlos estava ansioso.
        - No imaginei que pudesse dar muita importncia  maldio de uma bruxa - eu disse.
        Um sorriso torceu os lbios finos. Ele possua a beleza arrojada de seu irmo Dougal, apesar de desfeita como estava, e quando levantava o vu do desligamento 
de seus olhos, o poder do homem sobrepujava a devastao de seu corpo.
        - A maldies, no. Entretanto, eu tinha a distinta impresso de que aquela senhora lidava com observao, no bruxaria. E nunca encontrei uma observadora 
mais perspicaz do que Geillis Duncan... com uma exceo. - Inclinou a cabea graciosamente em minha direo, deixando claro o que pretendia dizer.
        - Obrigada - eu disse.
        Colum ergueu os olhos para Carlos, que continuava boquiaberto, estupefato e confuso com essa conversa.
        - Agradeo-lhe por sua gentileza em permitir que eu use suas instalaes para uma reunio com a sra. Fraser, Alteza - ele disse, com uma ligeira mesura. 
As palavras eram perfeitamente corteses, mas o tom com que foram ditas tornava bvio um pedido para que se retirasse. Carlos, que de modo algum estava acostumado 
a ser mandado embora, ficou intensamente ruborizado e abriu a boca. Em seguida, recompondo-se, fechou-a, fez uma curta reverncia e girou nos calcanhares.
        - Tambm no vamos precisar do guarda - eu disse s suas costas. Seus ombros arriaram e sua nuca ficou vermelha sob o rabo-de-cavalo da peruca, mas gesticulou 
rispidamente e o guarda postado  porta, com um olhar surpreso para mim, seguiu Sua Alteza para fora.
        - Hum. - Colum lanou um breve olhar de desaprovao em direo  porta, depois retornou sua ateno para mim.
        - Pedi para v-la porque eu lhe devo desculpas - ele disse, sem prembulos.
        Recostei-me na cadeira, o copo de conhaque pousado calmamente sobre o estmago.
        - Ah, um pedido de desculpas? - eu disse, com o mximo de sarcasmo que pude reunir sem aviso prvio. - Por tentar me mandar para a fogueira por bruxaria, 
imagino? - Abanei a mo, descartando graciosamente a oferta. - Ah, por favor, no se d a esse trabalho. - Fitei-o furiosamente. -Desculpas?!
        Ele sorriu, nem um pouco desconcertado.
        - Suponho que parea um pouco inadequado - ele comeou.
        - Inadequado?! Por mandar me prender e atirar no buraco dos ladres por trs dias sem gua ou comida decente? Por mandar me despir, me deixar quase nua, 
e aoitar-me diante de todos os habitantes de Cranesmuir? Por deixar-me por um triz de um barril de piche e um feixe de lenha? -Parei e respirei fundo. - Agora que 
mencionou - eu disse, um pouco mais calma -, "inadequado"  exatamente o que eu chamaria a isso.
        O sorriso desaparecera.
        - Peo-lhe perdo por minha aparente frivolidade - ele disse serenamente. - No tive inteno de zombar de voc.
        Olhei para ele, mas no encontrei nenhum vestgio de divertimento nos olhos de pestanas negras.
        - No - eu disse, com outra respirao profunda. - Suponho que no. Suponho que v dizer que tambm no tinha nenhuma inteno de me mandar prender por bruxaria.
        Os olhos cinzentos aguaram-se.
        - Voc sabia disso?
        - Geilie me disse. Quando estvamos no buraco dos ladres. Contou-me que era dela que voc pretendia se livrar; eu fui envolvida por acidente.
        - E foi mesmo. - Pareceu subitamente muito cansado. - Se voc estivesse no castelo, eu poderia t-la protegido. O que, em nome de Deus, levou-a a descer 
para a vila?
        - Disseram-me que Geilie Duncan estava doente e pedia a minha presena - respondi secamente.
        - Ah - ele disse num sussurro. - Disseram-lhe. Quem, se posso perguntar?
        - Laoghaire. - Mesmo agora, no pude reprimir uma breve exploso de clera diante do nome da jovem. Por causa de uma inveja doentia por eu ter me casado 
com Jamie, ela deliberadamente tentara fazer com que me matassem. Muita malignidade para uma jovem de dezesseis anos. Mesmo agora, em meio  raiva, senti uma minscula 
ponta de cruel satisfao; ele  meu, pensei, quase subconscientemente. Meu. Voc nunca o tirar de mim. Nunca.
        - Ah - Colum repetiu, fitando pensativo meu semblante afogueado. - Foi o que achei que tivesse acontecido. Diga-me - continuou, erguendo uma das sobrancelhas 
escuras -, se um simples pedido de desculpas lhe parece inadequado, voc preferiria a vingana?
        - Vingana? - Devo ter parecido surpresa com a idia, porque ele sorriu debilmente, embora sem humor.
        - Sim. A garota casou-se h seis meses com Hugh MacKenzie de Muldaur, um dos meus colonos. Ele far com ela o que eu mandar, se voc quiser castig-la. O 
que quer que eu faa?
        Pestanejei, desconcertada com sua oferta. Ele no parecia ter pressa para receber uma resposta; permanecia calmamente sentado, bebericando o novo copo de 
conhaque que Angus Mhor lhe servira. No me fitava, mas levantei-me e me afastei em direo s janelas, desejando ficar sozinha por alguns instantes.
        As paredes ali tinham um metro e meio de espessura; ao me recostar no profundo vo da janela, pude assegurar alguma privacidade a mim mesma. O sol brilhante 
iluminou os plos finos e louros dos meus braos quando os recostei no parapeito. Fez-me pensar no buraco dos ladres, o poo ftido e mido, e na nica fresta de 
luz do sol que brilhava atravs de uma abertura em cima, fazendo, com o contraste, o buraco escuro abaixo parecer ainda mais uma sepultura.
        Passei meu primeiro dia l embaixo no frio e na imundcie, perplexa e incrdula; o segundo, num estado deplorvel, trmula, o medo crescente, quando descobri 
toda a extenso da traio de Geillis Duncan e as medidas de Colum contra ela. E no terceiro dia, levaram-me a julgamento. E eu ficara l, envergonhada e aterrorizada, 
sob as nuvens de um cu de outono cada vez mais carregado, sentindo as mandbulas da armadilha de Colum fecharem-se ao meu redor, provocadas por uma palavra de Laoghaire.
        Laoghaire. A pele clara e os olhos azuis, com um rosto redondo e bonito, mas sem nada mais que a distinguisse das outras jovens de Leoch. Eu pensara nela 
- no buraco com Geillis Duncan, tive tempo de pensar em muitas coisas. Mas apesar de furiosa e aterrorizada como eu estava, furiosa como eu ainda estava, eu no 
podia, nem na poca nem agora, v-la como intrinsecamente m.
        - A menina tinha apenas dezesseis anos, pelo amor de Deus!
        - Idade suficiente para casar - disse uma voz irnica atrs de mim e percebi que tinha pensado em voz alta.
        - Sim, ela queria Jamie - eu disse, voltando-me. Colum ainda estava sentado no sof, as pernas curtas e deformadas cobertas com um cobertor. Angus Mhor permanecia 
de p a seu lado, em silncio, os olhos de plpebras pesadas fixos em seu senhor. - Talvez achasse que amava Jamie.
        Homens exercitavam-se no ptio, entre gritos e confronto de armas. O sol refletia-se do metal das espadas e mosquetes, das tachas de lato dos escudos - 
e dos cabelos dourado-avermelhados de Jamie, esvoaando na brisa conforme ele passava a mo pelo rosto, afogueado e suado com o esforo fsico, rindo de um dos chistes 
de Murtagh, sempre ditos com a expresso impassvel.
        Eu havia talvez cometido uma injustia com Laoghaire, afinal, ao presumir que seus sentimentos fossem menores do que os meus. Quer ela tenha agido em funo 
de uma raiva imatura ou de uma verdadeira paixo, eu jamais saberia. Fosse como fosse, ela fracassara. Eu sobrevivera. E Jamie era meu. Enquanto observava, ele levantou 
seu kilt e descuidadamente coou o traseiro, a luz do sol atingindo a penugem ruivo-dourada que suavizava a curva dura como ao de sua coxa. Sorri e voltei para 
a minha cadeira perto de Colum.
        - Aceito o pedido de desculpas - eu disse. Ele assentiu, os olhos cinza pensativos.
        - Acredita no perdo, ento, madame?
        - Mais na justia - eu disse. - Por falar nisso, no imagino que tenha viajado de Leoch a Edimburgo apenas para me pedir desculpas. Deve ter sido uma viagem 
infernal.
        - Sim, foi. - A figura silenciosa e enorme de Angus Mhor deslocou-se alguns centmetros atrs dele e a cabea macia inclinou-se para seu chefe num eloqente 
testemunho. Colum pressentiu o movimento e ergueu a mo brevemente, est tudo bem, o gesto dizia, estou bem por enquanto.
        - No - Colum continuou. - Na verdade, eu no sabia que voc estava em Edimburgo, at que Sua Alteza mencionou Jamie Fraser, e eu perguntei. - Um sorriso 
repentino surgiu em seu rosto. - Sua Alteza no a tem em grande estima, madame Claire. Mas suponho que saiba disso, no?
        Ignorei o comentrio.
        - Ento, est realmente considerando unir-se ao prncipe Carlos?
        Colum, Dougal e Jamie, todos eles tinham a capacidade de esconder o que estavam pensando quando assim desejavam, mas Colum era indubitavelmente o melhor 
dos trs. Era possvel obter mais de uma das cabeas esculpidas na fonte no ptio da frente, se ele no estivesse num estado de esprito comunicativo.
        - Eu vim v-lo - foi tudo que ele disse.
        Permaneci sentada por um instante, imaginando o que, se  que havia alguma coisa, eu poderia - ou deveria - dizer em favor de Carlos. Talvez fosse melhor 
eu deixar a tarefa para Jamie. Afinal, o fato de Colum sentir remorso por quase ter me matado por acidente no significava que ele estivesse necessariamente inclinado 
a confiar em mim. E embora o fato de eu estar ali, fazendo parte da comitiva de Carlos, certamente contrariasse a idia de eu ser uma espi inglesa, no era impossvel 
que eu fosse.
        Ainda ponderava comigo mesma quando Colum subitamente colocou seu copo na mesinha e olhou-me direto nos olhos.
        - Faz idia de quantos desses eu j tomei desde manh?
        - No.
        Suas mos estavam firmes, calejadas e speras da doena, mas bem cuidadas. As plpebras avermelhadas e os olhos ligeiramente injetados poderiam com facilidade 
ser atribudos tanto aos rigores da viagem quanto  bebida. Sua fala no estava arrastada e no havia mais do que uma certa deliberao de movimentos para indicar 
que ele no estava sbrio como um juiz. Mas eu j vira Colum beber antes e tinha uma idia muito respeitosa de sua capacidade.
        Com um gesto, afastou a mo de Angus Mhor, pairando acima da garrafa de conhaque.
        - Meia garrafa. A noite, j a terei terminado.
        - Ah. - Era por isso, ento, que eu fora solicitada a levar minha caixa de remdios. Peguei-a de onde eu a colocara no cho.
        - Se est precisando de tanto conhaque, no h muita coisa que possa ajud-lo seno algum tipo de pio - eu disse, remexendo no meu sortimento de frascos 
e botijas. - Acho que tenho um pouco de ludano aqui, mas posso lhe dar um pouco de...
        - No  isso que quero de voc. - O tom de autoridade em sua voz me fez parar e erguer os olhos. Se ele conseguia guardar seus pensamentos para si mesmo, 
tambm podia demonstr-los quando assim o desejava.
        - Eu poderia obter ludano com muita facilidade - ele disse. -Imagino que exista um boticrio na cidade que venda ludano ou, pelo menos, semente de papoula 
ou pio no diludo.
        Deixei a tampa do pequeno ba fechar-se e descansei as mos sobre ela. Ento, ele no queria ir se acabando num estado de torpor, drogado, deixando a liderana 
do cl numa situao incerta. E se no era um esquecimento temporrio o que ele queria de mim, o que mais poderia ser? Um definitivo, talvez. Eu conhecia Colum MacKenzie. 
E a mente lmpida e cruel que planejara a destruio de Geillis Duncan no hesitaria sobre a sua prpria.
        Agora tudo estava claro. Ele viera ver Carlos Stuart, para tomar a deciso final se comprometeria os MacKenzie de Leoch  causa jacobita. Uma vez comprometidos, 
seria Dougal quem comandaria o cl. E ento...
        - Eu tinha a impresso de que suicdio era considerado um pecado mortal - eu disse.
        - Imagino que sim - ele disse, sem se perturbar. - Um pecado de orgulho, pelo menos, que eu escolha uma morte digna no momento que julgar melhor, segundo 
as minhas convenincias. No espero, entretanto, sofrer indevidamente pelo meu pecado, j que no pus nenhuma f na existncia de Deus desde que tinha mais ou menos 
dezenove anos.
        A sala estava silenciosa, fora os estalidos do fogo e os gritos abafados da falsa batalha que ocorria l embaixo. Eu podia ouvir sua respirao, um suspiro 
lento e regular.
        - Por que pedir a mim? - perguntei. - Tem razo, voc pode obter ludano onde quiser, desde que tenha dinheiro, e voc tem. Certamente sabe que uma dose 
excessiva pode mat-lo. Alis,  uma morte fcil.
        - Fcil demais. - Sacudiu a cabea. - Tenho tido pouco com que contar em minha vida, exceto minha inteligncia. Gostaria de conserv-la, mesmo no encontro 
com a morte. Quanto  facilidade... - Remexeu-se ligeiramente no sof, no fazendo nenhum esforo para disfarar seu desconforto. - Logo terei o suficiente.
        Fez um sinal com a cabea indicando minha caixa.
        - Voc compartilhava os conhecimentos da sra. Duncan sobre remdios. Achei que talvez soubesse o que ela usou para matar o marido. Pareceu rpido e direto. 
E adequado - acrescentou ironicamente.
        - Ela usou feitiaria, segundo o veredicto da corte judicial. - O tribunal que a condenou  morte, de acordo com seu plano, pensei. - Ou no acredita em 
bruxaria? - perguntei.
        Ele riu, um som puro, despreocupado, no aposento iluminado pelo sol.
        - Algum que no acredita em Deus dificilmente daria crdito a Sat, no acha?
        Eu ainda hesitava, mas ele era um homem que julgava os outros to astuciosamente quanto julgava a si prprio. Ele me pedira perdo antes de me pedir um favor 
e verificara que eu possua um senso de justia - ou de compaixo. E era, como ele disse, adequado. Abri a caixa e tirei o pequeno frasco de cianureto que eu guardava 
para matar ratos.
        - Agradeo-lhe, sra. Claire - ele disse, novamente formal, embora o sorriso ainda se demorasse em seus olhos. - Mesmo que meu sobrinho no tivesse provado 
sua inocncia com tanta extravagncia em Cranesmuir, ainda assim eu jamais acreditaria que voc era uma bruxa. No tenho nenhuma noo melhor agora do que eu tinha 
na ocasio de quem voc , ou por que est aqui, mas uma bruxa no  uma das possibilidades que jamais tenha considerado. - Parou, uma das sobrancelhas arqueadas. 
-Suponho que no estaria inclinada a me dizer quem, ou o qu, voc ?
        Hesitei por um instante. Mas no era provvel que um homem que no acreditava nem em Deus nem no diabo acreditasse na verdade da minha presena ali. Apertei 
seus dedos levemente e soltei-os.
        -  melhor me chamar de bruxa - eu disse. -  o mais prximo a que provavelmente poderia chegar.
        Quando saa para o ptio na manh seguinte, encontrei-me com lorde Balmerino nas escadas.
        - Ah, sra. Fraser! - cumprimentou-me jovialmente. - Exatamente quem eu estava procurando.
        Sorri-lhe; um homem alegre, gorducho, era uma das reanimadoras caractersticas da vida em Holyrood.
        - Se no for febre, diarria ou sfilis - eu disse -, d para esperar um pouco? Meu marido e o tio esto dando uma demonstrao de luta de espadas em benefcio 
de dom Francisco de La Quintana.
        - Ah,  mesmo? Devo dizer, eu tambm gostaria de ver isso. - Balmerino comeou a acompanhar meus passos, a cabea sacudindo-se alegremente ao nvel do meu 
ombro. - Gosto de ver um homem bonito com uma espada - ele disse. - E qualquer coisa que possa adoar os espanhis tem a minha mais sincera aprovao.
        - A minha tambm. - Achando perigoso demais que Fergus roubasse a correspondncia de Sua Alteza dentro de Holyrood, Jamie dependia das informaes que obtinha 
do prprio Carlos. Entretanto, isso parecia ser muito; Carlos considerava Jamie um amigo ntimo, literalmente o nico chefe escocs a ser agraciado com essa marca 
de favoritismo, apesar da pequena contribuio que ele representava em termos de homens e dinheiro.
        No que dizia respeito a dinheiro, entretanto, Carlos confidenciara que tinha grandes esperanas de apoio de Filipe de Espanha, cuja ltima carta para Jaime 
em Roma tinha sido particularmente encorajadora. Dom Francisco, embora no fosse propriamente um enviado, era certamente um membro da corte espanhola e podia-se 
contar que levaria de volta seu relatrio sobre a situao da revolta dos Stuart. Essa era a oportunidade de Carlos de ver at onde sua prpria crena em seu destino 
o levaria, em convencer chefes das Highlands e reis estrangeiros a se unirem a ele.
        - Por que queria me ver? - perguntei quando saamos para a passagem que circundava o ptio de Holyrood. Uma pequena multido de espectadores estava se reunindo, 
mas nem dom Francisco nem os dois combatentes estavam  vista ainda.
        - Ah! - Tendo se lembrado, lorde Balmerino tateou dentro de seu casaco. - Nada de muita importncia, minha cara. Recebi isso de um dos meus mensageiros, 
que o obteve de um parente do sul. Pensei que acharia interessante.
        Entregou-me um mao fino de papis grosseiramente impressos. Eu os reconheci como cartazes volantes, as populares circulares distribudas em tavernas ou 
penduradas em batentes de portas e cercas pelas cidades e vilarejos.
        "CARLOS EDUARDO STUART, conhecido por todos como o "Jovem Pretendente", dizia um deles. "Que seja do conhecimento de todos que essa pessoa depravada e perigosa, 
tendo aportado ilicitamente nas costas da Esccia, incitou a populao desse pas  revolta e deslanchou sobre cidados inocentes a fria de uma guerra injusta." 
Havia muito mais, tudo na mesma linha de argumentao, concluindo com uma exortao aos cidados inocentes que lessem essa denncia "para fazerem tudo que estivesse 
em seu poder para entregar essa pessoa  justia que ele tanto merece". O cartaz era ilustrado com o que imaginei se tratar do retrato desenhado de Carlos; no se 
assemelhava muito ao original, mas definitivamente parecia depravado e perigoso, o que, pensei, era o objetivo.
        - Esse at que est bastante comedido - disse Balmerino, espreitando por cima do meu cotovelo. - Mas alguns dos outros revelam um leque mais impressionante 
tanto de imaginao quanto de invectiva; olhe este aqui. Este sou eu - ele disse, apontando para o papel com evidente deleite.
        O cartaz mostrava um escocs das Highlands magro, com grandes suas, sobrancelhas hirsutas e olhos que fitavam assustadoramente arregalados por baixo de 
um gorro escocs. Olhei de soslaio para lorde Balmerino vestido, como de costume, em calas presas nos joelhos e casaco do melhor bom gosto; feitos de tecidos nobres, 
mas discretos tanto no corte quanto na cor, para beneficiar sua figura baixa e rolia. Ele fitou o cartaz, alisando pensativamente o rosto redondo e bem barbeado.
        - No sei - ele disse. - As suas me emprestam um ar muito romntico, no acha? Ainda assim, uma barba  que  o inferno. No sei se conseguiria usar barba, 
ainda que ficasse pitoresco.
        Virei para a folha seguinte e quase deixei cair o mao inteiro.
        - Fizeram um trabalho ligeiramente melhor em conseguir uma semelhana com seu marido - Balmerino observou -, mas  claro que nosso querido Jamie realmente 
se parece um pouco com a popular concepo inglesa de um brutamontes das Highlands... com seu perdo, minha querida, sem nenhuma inteno de ofender. Mas ele  de 
fato grando, no ?
        - Sim - eu disse frouxamente, lendo com ateno as acusaes do cartaz.
        - No sabia que seu marido tinha o hbito de assar e comer criancinhas, sabia? - disse Balmerino, gargalhando. - Sempre achei que seu tamanho devia-se a 
algo especial em sua dieta.
        A atitude irreverente do nobre ingls ajudou-me bastante a recobrar a calma. Eu mesma quase conseguia sorrir diante das acusaes e descries ridculas, 
embora me perguntasse quanto crdito os leitores dariam aos cartazes. Muito, eu receava; as pessoas em geral pareciam no s dispostas, mas ansiosas para acreditar 
no pior - e quanto pior, melhor.
        -  no ltimo que achei que estaria interessada. - Balmerino interrompeu meus pensamentos, folheando o mao at a penltima folha.
        "A BRUXA STUART" proclamava o cabealho. Uma mulher de nariz comprido com pupilas minsculas fitava-me de volta, acima de um texto que acusava Carlos Stuart 
de invocar "os poderes das trevas" para apoi-lo em sua causa ilcita. Ao manter em sua comitiva mais ntima uma conhecida bruxa - uma bruxa com poder de vida e 
morte sobre os homens, assim como o poder mais comum de destruir plantaes, ressecar gado e causar cegueira -, Carlos dava evidncia do fato de que vendera a prpria 
alma ao diabo e, assim, iria "arder no inferno para sempre!", como o panfleto animadamente conclua.
        - Presumo que seja voc - Balmerino disse. - Embora eu lhe assegure, minha cara, o retrato no lhe faz justia.
        - Muito interessante - eu disse. Devolvi o mao de folhas para lorde Balmerino, contendo a vontade de limpar a mo na saia. Sentia-me levemente enjoada, 
mas fiz o melhor que pude para sorrir para Balmerino. Ele olhou-me atentamente, depois sacudiu meu cotovelo com um aperto tranqilizador.
        - No se perturbe com isso, minha querida - ele disse. - Quando Sua Majestade tiver reconquistado o trono, toda essa bobagem ser logo esquecida. O vilo 
de ontem  o heri de amanh aos olhos do populacho; j vi isso muitas vezes.
        - Plus a change, plus c'est Ia mme chose - murmurei. E se Sua Majestade no recuperar o trono...
        - E se por infelicidade nossos esforos no forem bem-sucedidos - Balmerino disse, fazendo eco aos meus pensamentos -, o que os cartazes dizem ser o menor 
de nossos problemas.
        - Engarde. - Com a abertura formal em francs, Dougal colocou-se na posio clssica de duelo, de lado em relao ao adversrio, o brao da espada curvado 
com a lmina pronta, o brao de apoio erguido num arco gracioso, a mo pendendo do pulso numa demonstrao clara de que no havia nenhuma adaga de reserva.
        A lmina de Jamie cruzou-se com a de Dougal, o metal tocando-se com um sussurro.
        -Je suis prest. - Jamie olhou-me e pude ver o lampejo de humor atravessar seu rosto. A resposta de praxe do duelista era o prprio lema de seu cl. Je suis 
prest. - Estou pronto.
        Por um instante, achei que talvez ele no estivesse e soltei um gemido involuntrio quando a espada de Dougal brilhou com uma repentina estocada. Mas Jamie 
vira o incio do movimento e, quando a lmina atravessou o local onde ele estivera, ele j se deslocara.
        Em seguida um rpido toque da lmina e um contragolpe, que fez com que as lminas rangessem ao longo de sua extenso. As duas espadas mantiveram-se unidas 
uma  outra na altura do punho apenas por um segundo, depois os espadachins soltaram-se, deram um passo para trs, andaram em crculo e retornaram ao ataque.
        Com uma coliso e um toque, uma parada e uma estocada em tierce, Jamie ficou a um triz do quadril de Dougal, que habilidosamente deu uma guinada para o lado 
com um fulgor de kilt verde. Uma parada, uma esquivada e um rpido toque para cima que afastou a espada adversria para o lado, e Dougal deu um passo para frente, 
forando Jamie a recuar.
        Eu podia ver dom Francisco, de p do outro lado do ptio com Carlos, Sheridan, o velho Tullibardine e algumas outras pessoas. Um ligeiro sorriso curvava 
os lbios do espanhol sob um bigode ralo e encerado, mas eu no sabia dizer se era de admirao pelos lutadores ou apenas uma variao de sua expresso normalmente 
presunosa. Colum no estava em nenhum lugar  vista. No me surpreendi; fora sua relutncia normal em aparecer em pblico, devia estar exausto de sua viagem a Edimburgo. 
Ambos os espadachins brilhantes, e ambos canhotos, tio e sobrinho ofereciam uma hbil exibio - um espetculo ainda mais impressionante pelo fato de que lutavam 
de acordo com as regras mais exatas do duelo francs, mas sem usar a espada pequena semelhante ao florete que fazia parte do costume de um cavalheiro nem o sabre 
de um soldado. Em vez disso, ambos brandiam a espada de folha larga das Highlands, cada qual de um metro de ao temperado, com uma lmina chata que podia rachar 
a cabea de um homem do topo ao pescoo. Manejavam as armas enormes com uma graciosidade e uma ironia que no poderiam ser imitadas por homens de menor porte.
        Vi Carlos sussurrar ao ouvido de dom Francisco e o espanhol balanar a cabea, sem jamais tirar os olhos dos lampejos e estrpitos do confronto no ptio 
gramado. Compatveis no tamanho e na agilidade, Jamie e seu tio davam a ntida impresso de pretenderem se matar. Dougal fora o instrutor de Jamie na arte da esgrima 
e j haviam lutado muitas vezes costas contra costas e ombro a ombro; cada um conhecia as sutilezas do estilo do outro to bem quanto as suas prprias - ou ao menos 
assim eu esperava.
        Dougal pressionou sua vantagem com uma estocada dupla, forando Jamie a recuar na direo da beira do ptio. Jamie deu um passo rpido para o lado, tirando 
o corpo fora, afastou a espada de Dougal com um toque, em seguida contra-atacou na direo oposta, com uma velocidade que fez a lmina de sua espada perfurar o tecido 
da manga direita de Dougal. Ouviu-se um barulho rascante de tecido rasgado e uma tira de linho branco soltou-se, flutuando na brisa.
        - Ah, belo golpe, senhor! - Virei-me para ver quem falara e deparei-me com lorde Kilmarnock parado junto ao meu ombro. Um homem srio, de rosto inexpressivo, 
com trinta e poucos anos, ele e seu filho mais novo Johnny tambm estavam residindo na ala de hspedes de Holyrood.
        O filho raramente se afastava de seu pai e eu olhei em volta  sua procura. No tive que procurar muito longe; ele estava de p do outro lado do pai, a boca 
ligeiramente aberta, observando a luta. Meu olhar captou um leve movimento do outro lado da pilastra: Fergus, os olhos negros fixos em Johnny, sem piscar. Fechei 
a cara e olhei-o ameaadoramente.
        Johnny, um pouco arrogante por ser o herdeiro de Kilmarnock, e ainda mais arrogante pelo seu privilgio de ir para a guerra com seu pai com a idade de doze 
anos, tendia a querer mandar nos outros garotos. Como  prprio dos meninos, a maioria ou evitava Johnny ou esperava o momento propcio, quando ele se afastasse 
da sombra protetora do pai.
        Fergus definitivamente recaa na segunda categoria. Ofendendo-se com uma observao depreciativa de Johnny sobre "chefes de gorro", que ele - com toda a 
razo - interpretara como um insulto a Jamie, Fergus fora forosamente impedido de atacar Johnny no jardim de pedras alguns dias antes. Jamie aplicara um rpido 
castigo fsico e depois explicara a Fergus que, embora a lealdade fosse uma virtude admirvel e altamente valorizada por quem a recebia, a burrice no era.
        - O garoto  dois anos mais velho do que voc e bem mais forte - ele dissera, sacudindo Fergus delicadamente pelo ombro. - Acha que vai me ajudar machucando-se 
numa briga? H ocasies em que se deve lutar sem medir as conseqncias, mas h outras em que se deve morder a lngua e esperar o momento certo. Ne ptez plus haut 
que votre cul, ouviu?
        Fergus assentiu, limpando o rosto molhado de lgrimas com a ponta da camisa, mas eu tinha minhas dvidas se as palavras de Jamie haviam realmente calado 
fundo em Fergus. Eu no gostava do olhar especulativo que eu via agora naqueles grandes olhos negros e pensei que, se Johnny fosse um pouco mais inteligente, ficaria 
entre mim e seu pai.
        Jamie dobrou ligeiramente um dos joelhos e deu um golpe cruel para cima, fazendo a lmina de sua espada passar zunindo pela orelha de Dougal. O MacKenzie 
deu um salto para trs, momentaneamente surpreso, depois riu com um lampejo de dentes brancos e bateu a espada chata no topo da cabea de Jamie, com um rudo oco 
e ressonante.
        Ouvi o som de aplausos vindo do outro lado da praa. A luta estava se degenerando de um elegante duelo francs para uma briga escocesa, e os espectadores 
divertiam-se imensamente.
        Lorde Kilmarnock, tambm ouvindo os aplausos, olhou para o outro lado da praa e fez uma careta de desaprovao.
        - Os conselheiros de Sua Alteza foram convocados para conhecer o espanhol - observou sarcasticamente. - O'Sullivan e o velho almofadinha Tullibardine. Ele 
se aconselha com lorde Elcho? Balmerino, Lochiel ou mesmo minha humilde pessoa?
        Essa era sem dvida uma pergunta de retrica e eu me contentei com um leve murmrio de simpatia, mantendo os olhos nos lutadores. O estrpito de ao contra 
ao reverberava nas pedras, quase abafando as palavras de Kilmarnock. Uma vez iniciada, ele parecia ser incapaz de conter sua amargura.
        - No, claro que no! - disse. - O'Sullivan e O'Brien e o resto dos irlandeses; eles no esto arriscando nada! Se o pior vier a acontecer, podem alegar 
imunidade em juzo, em funo de sua nacionalidade. Mas ns... ns que estamos arriscando propriedade, honra... a prpria vida. Ns somos ignorados e tratados como 
soldados comuns. Dei bom-dia a Sua Alteza ontem e ele passou voando por mim, o nariz empinado, como se eu tivesse cometido uma violao de etiqueta por me dirigir 
assim a ele.
        Kilmarnock estava obviamente furioso e com boa razo. Ignorando os homens que ele havia cortejado e seduzido a fornecer os soldados e o dinheiro para sua 
aventura, Carlos em seguida os rejeitara, voltando-se para o conforto de seus antigos conselheiros do continente - a maioria dos quais considerava a Esccia como 
uma regio desolada e inspita, e seus habitantes pouco mais do que selvagens.
        Ouviu-se uma exclamao de surpresa de Dougal e uma sonora risada de Jamie. A manga esquerda de Dougal pendurava-se do ombro, a carne sob ela morena e lisa, 
sem a mcula de um arranho ou de uma gota de sangue.
        - Vou pagar na mesma moeda, menino - Dougal disse, rindo. Gotas de suor escorriam pelo seu rosto.
        -  mesmo, tio? - Jamie disse, arquejante. - Com o qu? - Um lampejo de metal, estimado com preciso, e a bolsa do kilt de Dougal voou, tilintando, pelas 
pedras, arrancada do seu cinto.
        Notei um movimento com o canto do olho e virei o rosto repentinamente.
        - Fergus! - eu disse.
        Kilmarnock virou-se na direo em que eu estava olhando e viu Fergus. O garoto segurava um pedao de pau em uma das mos, com uma casualidade to fingida 
que chegava a ser ridcula, se no fosse pela ameaa implcita.
        - No se preocupe, milady Broch Tuarach - disse lorde Kilmarnock, aps uma rpida olhadela. - Meu filho sabe se defender honrosamente, se a ocasio exigir. 
- Sorriu indulgentemente para Johnny, voltando-se em seguida novamente para os duelistas. Virei-me tambm, mas mantive um ouvido atento na direo de Johnny. No 
 que eu achasse que Fergus no tivesse noo de honra; eu apenas tinha a impresso de que essa noo divergia profundamente da concepo dessa virtude que lorde 
Kilmarnock possua.
        - Gu leoir! - Ao grito de Dougal, a luta parou bruscamente. Suando copiosamente, os dois espadachins agradeceram com uma mesura os aplausos do grupo real 
e deram um passo  frente para aceitar as congratulaes e serem apresentados a dom Francisco.
        - Milorde! - gritou uma voz aguda dos pilares. - Por favor, le parabolal Jamie virou-se, franzindo a testa com a interrupo, mas depois deu de ombros, sorriu 
e voltou para o centro do ptio. Le parbola era o nome que Fergus dera a um determinado truque.
        Com uma rpida reverncia a Sua Alteza, Jamie pegou a espada larga com todo o cuidado pela ponta da lmina, inclinou-se ligeiramente e, com um tremendo impulso, 
lanou a arma no ar, girando direto para cima. Todos os olhos se fixaram na espada provida de guarda-mo, a lmina temperada brilhando ao sol conforme ela virava 
e virava sobre si mesma, com tal inrcia que pareceu pairar no ar por um instante antes de mergulhar em direo ao solo.
        A essncia do truque,  claro, era arremessar a arma de modo que, ao cair, a ponta da lmina se enterrasse no cho. O refinamento de Jamie era postar-se 
direto sob o arco de descida, dando um passo para trs no ltimo instante para no virar carne no espeto.
        A espada enterrou-se no cho a seus ps, seguindo-se um "ah" coletivo dos espectadores. Somente quando Jamie inclinou-se para retirar a espada de sua bainha 
de grama foi que eu notei que havia dois espectadores a menos na platia.
        Um, o Senhor de Kilmarnock, de doze anos, jazia de cara no cho na beira do gramado, o crescente galo em sua cabea j evidente em meio aos cabelos castanhos, 
lisos e soltos. O segundo no era visto em nenhum lugar, mas ouvi um leve murmrio das sombras atrs de mim.
        - Ne ptez plus haut que votre cul - disse a voz, com grande satisfao. No peide mais alto que seu eu.
        ; O tempo estava extraordinariamente quente para novembro e as nuvens onipresentes haviam se separado, permitindo que um fugidio sol de outono brilhasse 
brevemente sobre o tom cinzento de Edimburgo. Eu aproveitara o calor temporrio para ficar ao ar livre, ainda que por pouco tempo, e estava me arrastando de joelhos 
pelo jardim de pedras que havia atrs de Holyrood, para grande divertimento de vrios escoceses espalhados por ali, desfrutando o sol a seu prprio modo, com uma 
jarra de usque caseiro.
        - Est caando burras, madame? - gritou um dos homens.
        - No, devem ser fadas, com certeza, no lagartas - pilheriou o outro.
        -  mais fcil vocs encontrarem fadas nessa jarra do que eu sob as pedras - retruquei.
        O homem ergueu a jarra de usque, fechou um dos olhos e espreitou de forma teatral as profundezas do recipiente.
        - Sim, bem, desde que no haja lagartas em minha jarra - ele respondeu, tomando um grande gole.
        De fato, o que eu estava caando faria to pouco - ou tanto - sentido para eles quanto lagartas, refleti, afastando uma pedra alguns centmetros para o lado 
para expor o lquen marrom-alaranjado em sua superfcie. Uma delicada raspagem com um pequeno canivete e vrios flocos do estranho simbionte caiu na palma de minha 
mo, sendo transferidos com o devido cuidado para a barata latinha de rap que guardava o tesouro penosamente acumulado.
        Algo da atitude relativamente cosmopolita de Edimburgo havia se entranhado nos escoceses das Highlands em visita; enquanto nos remotos vilarejos das montanhas 
tal comportamento teria feito com que eu fosse vista com desconfiana, se no franca hostilidade, aqui parecia no mais do que uma excentricidade inofensiva. Embora 
os montanheses me tratassem com grande respeito, senti-me aliviada ao constatar que no havia nenhum medo misturado a esse sentimento.
        At minha origem inglesa era esquecida, quando ficavam sabendo quem era meu marido. Provavelmente eu jamais iria saber mais do que Jamie me contara sobre 
suas faanhas na Batalha de Prestonpans, mas o que quer que tenha sido havia impressionado enormemente os escoceses, e "Jamie, o Ruivo" arrancava gritos e saudaes 
toda vez que se aventurava fora de Holyrood.
        De fato, um grito dos homens prximos chamou minha ateno neste ponto e eu ergui os olhos para ver o prprio "Jamie, o Ruivo" caminhando pelo gramado, acenando 
distraidamente para os homens enquanto examinava com ateno os aglomerados de rochas atrs do palcio.
        Seu rosto iluminou-se ao me ver e ele atravessou o gramado at onde eu estava ajoelhada no jardim de pedras.
        - A est voc - ele disse. - Pode vir comigo por um instante? E traga sua cestinha, se quiser.
        Fiquei de p com certa dificuldade, batendo no meu vestido, na altura dos joelhos, para tirar a grama seca, e joguei o canivete dentro da cesta.
        - Est bem. Aonde vamos?
        - Colum mandou um recado dizendo que quer conversar conosco. Com ns dois juntos.
        - Onde? - perguntei, alongando os passos para acompanhar as longas passadas de Jamie pelo caminho de descida.
        - A igreja no Canongate.
        Isso era interessante. O que quer que Colum quisesse nos dizer, ele obviamente no queria que o fato de ter conversado conosco em particular fosse conhecido 
em Holyrood.
        Nem Jamie; da a cesta. Passando de braos dados pelo porto, minha cesta fornecia uma evidente desculpa para nos aventurarmos pela Royal Mile, quer fosse 
para trazer compras para casa, quer para distribuir remdios aos homens e suas famlias que estavam aquartelados nos becos e alias de Edimburgo.
        Edimburgo subia por encostas ngremes a partir de sua nica rua principal. Holyrood assentava-se dignamente no sop, a abbada rangente da abadia ao lado 
conferindo um ar esprio de piedosa segurana. Ele ignorava altivamente a presena hostil do Castelo de Edimburgo, empoleirado no alto da colina rochosa acima da 
cidade. Entre os dois castelos, a Royal Mile subia a um ngulo aproximado de quarenta e cinco graus. Arfando, afogueada, ao lado de Jamie, perguntei-me como Colum 
MacKenzie conseguira cobrir os quatrocentos metros de subida de calamento de pedras do palcio  igreja.
        Encontramos Colum no ptio da igreja, sentado em um banco de pedra onde o sol do fim de tarde podia aquecer suas costas. Sua bengala de abrunheiro jazia 
no banco a seu lado e as pernas curtas, arqueadas, balanavam-se a alguns centmetros do cho. Os ombros curvados e a cabea abaixada pensativamente, a distncia 
ele parecia um gnomo, um habitante natural deste jardim de pedras feito pelo homem, com suas pedras inclinadas e liquens rastejantes. Avistei uma espcie de excelente 
qualidade em uma reentrncia na rocha curtida pelo tempo, mas achei que no devamos parar.
        A grama abafava o rudo dos nossos passos, mas Colum ergueu a cabea enquanto ainda estvamos a uma certa distncia. No havia nada errado com seus sentidos, 
ao menos.
        A sombra sob uma tlia prxima moveu-se ligeiramente  nossa aproximao. No havia nada de errado com os sentidos de Angus Mhor, tampouco. Satisfeito com 
nossa identidade, o enorme criado retomou sua guarda silenciosa, tornando-se novamente parte da paisagem.
        Colum cumprimentou-nos com um sinal da cabea e indicou o lugar a seu lado para que nos sentssemos. De perto, no havia nenhuma sugesto de um gnomo, apesar 
de seu corpo deformado. Cara a cara, via-se apenas o homem.
        Jamie achou um lugar para mim numa laje tumular prxima, antes de aceitar o local indicado ao lado de Colum. O mrmore era surpreendentemente frio, mesmo 
atravs de minhas saias espessas, e remexi-me um pouco, o relevo do crnio e dos ossos cruzados esculpidos na lpide causando uma sensao desconfortvel sob mim. 
Vi o epitfio inscrito abaixo e sorri:
        Aqui jaz Martin Elginbrod.Tenha piedade de minha alma, Senhor Deus, como eu teria se fosse o Senhor Deus e o Senhor fosse Martin Elginbrod.
        Jamie ergueu uma das sobrancelhas para mim em sinal de aviso, depois se voltou para Colum.
        - Pediu para nos ver, tio?
        - Tenho uma pergunta para voc, Jamie Fraser - Colum disse, sem prembulos. - Voc me considera seu parente?
        Jamie ficou em silncio por um instante, analisando o rosto do tio. Em seguida, sorriu debilmente.
        - O senhor tem os olhos de minha me - ele disse. - Devo negar isso?
        Colum pareceu surpreso por um instante. Seus olhos tinham o cinza lmpido e aveludado da asa de um pombo, orlado com espessas pestanas negras. Apesar de 
toda a sua beleza, podiam brilhar com a frieza do ao e me perguntei, no pela primeira vez, como teria sido a me de Jamie.
        - Lembra-se de sua me? Voc era apenas um garotinho quando ela morreu.
        A boca de Jamie contorceu-se ligeiramente diante dessas palavras, mas ele respondeu com toda a calma.
        - Tinha idade suficiente. Quanto a isso, a casa de meu pai possui um espelho; dizem que eu me pareo um pouco com ela.
        Colum deu uma risada curta.
        - Mais do que um pouco. - Olhou com ateno para Jamie, os olhos ligeiramente apertados contra o sol brilhante. - Ah, sim, rapaz; voc  filho de Ellen, 
no resta dvida. Para comear, esses cabelos... - Gesticulou vagamente indicando os cabelos de Jamie, reluzindo castanho-avermelhados e mbar, cobre e cinbrio, 
uma massa espessa, ondeada, com mil tons de vermelho e ouro. - ...E essa boca. - A prpria boca de Colum ergueu-se no canto, como em relutantes reminiscncias. - 
Larga como a de uma jarra noturna, eu costumava caoar. Voc poderia pegar insetos como um sapo, eu lhe dizia, se voc tivesse uma lngua pegajosa.
        Tomado de surpresa, Jamie riu.
        - Willie me disse isso uma vez - ele disse, e em seguida os lbios cheios se trancaram; ele raramente falava de seu falecido irmo mais velho e nunca, eu 
imaginava, mencionara Willie a Colum antes.
        Se Colum notou o deslize, no deu nenhum sinal disso.
        - Escrevi para ela na ocasio - ele disse, olhando distraidamente para uma das lpides prximas. - Quando seu irmo e o beb morreram de varola. Foi a primeira 
vez, desde que ela deixara Leoch.
        - Desde que ela se casara com meu pai, voc quer dizer. Colum balanou a cabea devagar, os olhos ainda distantes.
        - Sim. Ela era mais velha do que eu, sabe, uns dois anos; mais ou menos como sua irm e voc. - Os olhos cinza e fundos giraram de volta e fixaram-se em 
Jamie.
        - Nunca conheci a sua irm. Vocs dois eram muito ligados um ao outro?
        Jamie no disse nada, mas balanou a cabea de leve, analisando seu tio atentamente, como se procurasse a resposta a um enigma no rosto desgastado diante 
dele.
        Colum balanou a cabea, tambm.
        - Era assim entre Ellen e mim. Eu era doente e ela sempre cuidava de mim. Lembro-me do sol brilhando atravs dos seus cabelos e ela me contando histrias 
enquanto eu estava deitado na cama. Mesmo mais tarde -os lbios cinzelados ergueram-se num leve sorriso -, quando minhas per nas comearam a ceder; ela ia e vinha, 
andava por Leoch inteira, e parava toda manh e toda noite no meu quarto, para me contar quem ela vira e o que disseram. Conversvamos, sobre os arrendatrios e 
os sublocatrios e como as coisas deviam ser feitas. Eu era casado na poca, mas Letitia no se preocupava com essas coisas e no tinha interesse. - Abanou a mo, 
descartando sua mulher.
        - Conversvamos, s vezes com Dougal, s vezes sozinhos, sobre a melhor maneira de preservar as riquezas do cl; como a paz deveria ser mantida entre as 
famlias, que alianas poderiam ser feitas com outros cls, como administrar as terras e a madeira... E ento ela foi embora - ele disse bruscamente, fitando as 
mos largas dobradas sobre o joelho. - Sem nenhum pedido de licena ou palavra de despedida. Ela simplesmente foi embora. E eu tinha notcias dela de vez em quando 
por outras pessoas, mas dela mesma... nada.
        - E ela no respondeu  sua carta? - perguntei delicadamente, no querendo me intrometer. Ele sacudiu a cabea, ainda olhando para baixo.
        - Ela estava doente; perdera uma criana e tinha varola. E talvez pretendesse escrever mais tarde;  uma tarefa fcil de adiar. - Sorriu brevemente, sem 
humor, e em seguida seu rosto relaxou numa expresso melanclica. - Mas, no Natal, ela estava morta.
        Olhou direto para Jamie, que o fitou sem desviar os olhos.
        - Fiquei um pouco surpreso, portanto, quando seu pai escreveu para me dizer que estava levando voc para Dougal e queria que depois voc ficasse comigo em 
Leoch para sua educao.
        - Foi acordado assim, quando se casaram -Jamie respondeu. - Que eu deveria ficar com Dougal como pai adotivo e depois vir morar com voc por algum tempo.
        Os galhinhos secos de um larcio farfalharam com um sopro do vento, e ele e Colum arquearam os ombros contra o frio repentino, a semelhana familiar ampliada 
pela similaridade do gesto.
        Colum viu meu sorriso diante da semelhana entre eles e um canto de sua boca torceu-se em resposta.
        - Ah, sim - ele disse para Jamie. - Mas os acordos s valem pelo que valem os homens que o fizeram, nada mais. E eu no conhecia seu pai na ocasio.
        Abriu a boca para continuar, mas achou melhor reconsiderar o que estivera prestes a dizer. O silncio do cemitrio da igreja fluiu de volta para o espao 
que haviam criado com sua conversa, preenchendo a lacuna como se nenhuma palavra jamais tivesse sido pronunciada.
        Foi Jamie, finalmente, quem quebrou o silncio outra vez.
        - O que achava de meu pai? - perguntou, e percebi em seu tom de voz aquela curiosidade de uma criana que perdeu os pais muito cedo, procurando pistas da 
identidade dessas pessoas conhecidas apenas do ponto de vista restrito de uma criana. Compreendi o impulso; o pouco que eu sabia de meus prprios pais veio quase 
inteiramente das respostas breves e insatisfatrias de tio Lamb s minhas perguntas, ele no era um homem afeito a anlise de carter.
        Colum, ao contrrio, era.
        - Como ele era, voc quer dizer? - Analisou seu sobrinho atentamente, depois soltou a respirao com um pequeno ronco, achando graa.
        - Olhe-se no espelho, rapaz - ele disse, um sorriso quase rancoroso pairando em seu rosto. - Se  o rosto de sua me que voc v,  o seu pai olhando para 
voc com aqueles malditos olhos de gato dos Fraser. - Ele esticou-se e mudou de posio, ajeitando os ossos no banco de pedra coberto de lquen. Seus lbios estavam 
cerrados com fora, por hbito, contra qualquer exclamao de desconforto, e pude compreender o que acarretara aqueles sulcos profundos dos dois lados do nariz e 
da boca.
        - Para responder a voc, entretanto - ele continuou, outra vez mais confortavelmente instalado -, eu no gostava muito do sujeito, nem ele de mim, mas logo 
reconheci nele um homem honrado. - Parou, depois disse, com muita brandura. - Reconheo o mesmo em voc, Jamie MacKenzie Fraser.
        A expresso de Jamie no se alterou, mas suas plpebras adejaram levemente; somente algum que o conhecesse to bem quanto eu - ou fosse to observador quanto 
Colum - teria notado.
        Colum soltou a respirao num longo suspiro.
        - Portanto, rapaz, foi por isso que eu quis falar com voc. Devo decidir, sabe, se os MacKenzie de Leoch ficam do lado do rei Jaime ou do rei Jorge. - Sorriu 
melancolicamente. -  um caso, eu acho, do diabo que voc conhece ou do diabo que no conhece, mas  uma escolha que eu tenho que fazer.
        - Dougal... - Jamie comeou, mas seu tio interrompeu-o com um movimento brusco da mo.
        - Sim, eu sei o que Dougal pensa. Ele tem me importunado com isso nos ltimos dois anos - ele disse com impacincia. - Mas eu sou o MacKenzie de Leoch e 
cabe a mim decidir. Dougal obedecer ao que eu disser. Queria saber o que voc me aconselharia a fazer, em nome do cl cujo sangue corre em suas veias.
        Jamie ergueu os olhos, azul-escuros e impenetrveis, protegidos contra o sol da tarde que iluminava seu rosto. 
        - Eu estou aqui, e meus homens comigo - ele disse. - Minha escolha  evidente, no?
        Colum remexeu-se de novo em sua posio, a cabea inclinada atentamente para seu sobrinho, como se quisesse captar quaisquer nuances de voz ou expresso 
que pudesse lhe dar uma pista.
        -  mesmo? - ele perguntou. - Os homens empenham sua fidelidade por inmeras razes, rapaz, e poucas tm a ver com as razes que alegam em voz alta. Eu conversei 
com Lochiel, Clanranald, Angus e Alex MacDonald de Scotus. Pensa que esto aqui apenas porque acham que Jaime Stuart  seu rei legtimo? Agora eu queria conversar 
com voc... e ouvir a verdade, em nome da honra de seu pai.
        Vendo Jamie hesitar, Colum continuou, ainda observando atentamente o sobrinho.
        - No pergunto por mim mesmo; se voc tem olhos, pode ver que a questo no vai me preocupar por muito tempo. Mas por Hamish, o garoto  seu primo, lembre-se. 
Se dever haver um cl para ele liderar, quando atingir a idade... ento, tenho que fazer a escolha certa, agora.
        Parou de falar e permaneceu imvel, a cautela habitual em suas feies agora abandonada, os olhos cinza abertos e atentos.
        Jamie permaneceu to imvel quanto Colum, paralisado como o anjo de mrmore na sepultura atrs dele. Eu conhecia o dilema que o preocupava, embora nenhum 
sinal transparecesse no rosto austero e cinzelado. Era o mesmo que enfrentramos antes, escolhendo vir com os homens de Lallybroch. A revolta de Carlos equilibrava-se 
no fio de uma faca; a adeso de um cl das dimenses dos MacKenzie de Leoch poderia encorajar outros a se unirem ao precipitado Jovem Pretendente, e lev-lo  vitria. 
Mas se ainda assim terminasse em fracasso, os MacKenzie de Leoch poderiam muito bem deixar de existir.
        Finalmente, Jamie virou a cabea deliberadamente e olhou para mim, os olhos azuis fitando os meus sem vacilar. Voc tem participao nisso, seu olhar dizia. 
O que devo fazer?
        Eu podia sentir os olhos de Colum sobre mim, tambm, e senti mais do que vi o arqueamento das sobrancelhas espessas e escuras num ar de interrogao. Mas 
o que eu via com os olhos da mente era o jovem Hamish, um garoto ruivo de dez anos de idade que se parecia tanto com Jamie que poderia ser seu filho, em vez de seu 
primo. E o que a vida poderia ser para ele e para o resto do cl, se os MacKenzie de Leoch apoiassem Carlos em Culloden. Os homens de Lallybroch tinham Jamie para 
salv-los do massacre final, se a revolta chegasse a esse ponto. Os homens de Leoch no teriam. E, no entanto, a escolha no podia ser minha. Encolhi os ombros e 
abaixei a cabea. Jamie
        - Volte para casa em Leoch, tio - ele disse. - E mantenha seus homens l. Colum permaneceu imvel, em silncio, por um longo instante, fitando-me. Finalmente, 
sua boca curvou-se para cima, mas a expresso do seu rosto no era exatamente a de um sorriso.
        - Eu quase detive Ned Gowan, quando ele partiu para impedir que voc fosse queimada na fogueira - ele disse para mim. - Acho que estou feliz por no t-lo 
feito.
        - Obrigada - eu disse, no mesmo tom.
        Ele suspirou, esfregando a nuca com a mo calosa, como se ela doesse sob o peso da liderana.
        - Muito bem, ento. Vou me reunir com Sua Alteza pela manh e comunicar-lhe minha deciso. - A mo desceu, repousando, inerte, no banco de pedra, entre ele 
e seu sobrinho. - Obrigado, Jamie, por seu conselho. - Hesitou, depois acrescentou: - Que Deus os acompanhe.
        Jamie inclinou-se para frente e colocou a mo sobre a de Colum. Ele sorriu com o sorriso meigo e largo de sua me e disse:
        - E a voc tambm, mo caraidh.
        A Royal Mile estava movimentada, apinhada de gente que aproveitava as poucas horas de calor. Caminhamos em silncio em meio  multido, minha mo enfiada 
na curva do cotovelo de Jamie. Finalmente, ele sacudiu a cabea, murmurando algo para si mesmo em galico.
        - Voc agiu certo - eu lhe disse, respondendo ao pensamento, no s palavras. - Eu teria feito o mesmo. O que quer que acontea, ao menos os MacKenzie estaro 
a salvo.
        - Sim, talvez. - Ele balanou a cabea em retribuio ao cumprimento de um oficial que passou por ns, acotovelando-se pela multido que cercava o Worlds 
End. - Mas e quanto aos demais, os MacDonald, os MacGillivray e os outros que vieram? Sero destrudos agora, quando talvez no o fossem, se eu tivesse a coragem 
de dizer a Colum para se unir a eles? - Sacudiu a cabea, o rosto anuviado. - No h como saber, no , Sassenach?
        - No, no h - eu disse, apertando seu brao. - No sabemos o suficiente. Ou talvez saibamos demais. Mas no podemos fazer nada a esse respeito, no ?
        Ele me devolveu um breve sorriso e apertou minha mo contra seu corpo.
        - No, Sassenach. Acho que no podemos. E agora j est feito e nada pode mudar isso, portanto no adianta ficar se preocupando. Os MacKenzie ficaro fora 
disso.
        A sentinela no porto de Holyrood era um MacDonald, um dos homens de Glengarry. Ele reconheceu Jamie e, com um ligeiro movimento da cabea, nos deixou entrar 
no ptio, mal erguendo os olhos, empenhado em catar piolhos do corpo. O tempo quente tornava os parasitas ainda mais ativos e quando deixavam seus confortveis ninhos 
nos plos do pbis e das axilas, em geral podiam ser surpreendidos atravessando o perigoso terreno da camisa ou do tart e removido do corpo de seu anfitrio
        Jamie disse-lhe algo em galico, sorrindo. O homem riu, pegou algo de sua camisa e lanou-o em cima de Jamie, que fingiu peg-lo, examinar com ar grave a 
minscula criatura imaginria, e depois, com uma piscadela para mim, jog-la dentro da boca.
        - Ei, como vai a cabea de seu filho, lorde Kilmarnock? - perguntei educadamente quando entramos juntos na pista de dana da Grande Galeria de Holyrood. 
Eu no me importava muito, mas achei que, j que o assunto no poderia ser totalmente evitado, talvez fosse melhor traz-lo  baila em um lugar onde seria pouco 
provvel que a hostilidade fosse demonstrada abertamente.
        A Galeria atendia ao meu critrio, pensei. O longo salo, de teto alto, com duas enormes lareiras e imponentes janelas, tinha sido o cenrio de freqentes 
bailes e festas desde a entrada triunfal de Carlos em Edimburgo em setembro. Agora, apinhado com as personalidades mais ilustres da alta classe de Edimburgo, todas 
ansiosas para prestar homenagens ao seu prncipe - J que parecia que ele de fato poderia sagrar-se vitorioso -, o aposento decididamente resplandecia. Dom Francisco, 
o convidado de honra, estava de p no extremo oposto do salo com Carlos, vestido ao deprimente estilo espanhol, com pantalonas escuras e fartas, casaco sem forma 
e at mesmo um pequeno rufo - uma golinha de tufos engomados - que parecia provocar considerveis risos reprimidos entre os indivduos mais jovens e mais bem-vestidos.
        - Ah, bastante bem, sra. Fraser - respondeu Kilmarnock, imperturbvel. - Um galo na cabea no incomoda um garoto dessa idade por muito tempo; mas o seu 
orgulho pode demorar um pouco mais para se recuperar - ele acrescentou, com uma repentina torcida bem-humorada de sua larga boca.
        Sorri-lhe, aliviada ao ver sua expresso.
        - Ento, no est zangado?
        Ele sacudiu a cabea, olhando para baixo para certificar-se de que seus ps no iriam pisar nas minhas saias ondulantes.
        - Tenho tentado ensinar a John tudo que ele deveria saber como herdeiro de Krnarnock. Parece que fracassei redondamente em ensinar-lhe humildade; talvez 
seu empregado tenha tido mais sucesso.
        - Espero que no tenha lhe dado uma surra depois - eu disse distrai-damente.
        - Como?
        - Nada - eu disse, enrubescendo. - Olhe, no  Lochiel ali? Pensei que ele estivesse doente.
        Danar exigia quase todo o meu flego e lorde Kilmarnock no parecia inclinado a conversas, de modo que eu tinha tempo para olhar  volta. Carlos no estava 
danando; embora fosse um bom danarino e as moas de Edimburgo competissem por sua ateno, esta noite ele estava inteiramente empenhado no entretenimento de seu 
hspede. Eu vira um pequeno barril com a marca de um produtor portugus queimada em um dos lados sendo rolado para as cozinhas  tarde e copos do lquido cor de 
rubi continuavam a surgir como por mgica ao lado da mo esquerda de dom Francisco durante toda a noite.
        Cruzamos o caminho de Jamie, impulsionando uma das senhoritas Williams pelos passos da dana. Havia trs delas, quase indistinguveis uma da outra -jovens, 
de cabelos castanhos, atraentes e todas "terrivelmente interessadas, sr. Fraser, nesta causa nobre". Elas me cansavam insuportavelmente, mas Jamie, sempre a imagem 
da pacincia, danava com todas elas, uma por uma, e respondia s mesmas perguntas tolas sem parar.
        - Bem, coitadas, para elas  uma oportunidade de sair da rotina - ele explicou amavelmente. - E o pai  um rico comerciante, de modo que Sua Alteza gostaria 
de angariar as simpatias da famlia.
        A srta. Williams que ele entretinha no momento parecia encantada e eu me perguntei sombriamente at que ponto ele estava se esforando para angariar simpatias. 
Em seguida, minha ateno desviou-se, quando Bal-merino passou danando com a mulher de lorde George Murray. Eu vira os Murray trocarem olhares carinhosos ao se 
cruzarem, ele com outra das senhoritas Williams, e senti-me ligeiramente envergonhada de estar prestando ateno a quem Jamie tirava para danar.
        Como no era de admirar, Colum no estava no baile. Perguntei-me Se ele tivera a chance de falar com Carlos anteriormente, mas conclu que talvez no; Carlos 
parecia muito alegre e animado para ter recebido ms notcias recentemente.
        Em um dos lados da Galeria, avistei duas figuras troncudas, quase idnticas em trajes formais desconfortveis. Era John Simpson, chefe da Associao dos 
Fabricantes de Espadas de Glascow, e seu filho, tambm John Simpson. Tendo chegado no comeo da semana para presentear Sua Alteza com uma das magnficas espadas 
de lmina larga, com guarda-mo no cabo, pelas quais eram famosos em toda a Esccia, os dois artesos obviamente haviam sido convidados para o baile desta noite 
para mostrar a dom Francisco at onde ia o apoio que os Stuart desfrutavam.
        Ambos possuam barbas e cabelos espessos e escuros, ligeiramente entremeados de branco. Os do Simpson pai eram grisalhos, enquanto os do Simpson filho davam 
a impresso de uma encosta escura de colina com uma orla de neve endurecida ao redor, os fios brancos confinados s tmporas e  parte superior das faces. Enquanto 
eu observava, o fabricante de espadas cutucou o filho fortemente nas costas e balanou a cabea significativamente na direo de uma das filhas do comerciante, pairando 
junto  pista de dana sob a proteo do pai.
        Simpson filho lanou um olhar ctico a seu pai, mas depois deu de ombros, adiantou-se e ofereceu o brao com uma reverncia para a terceira srta. Williams.
        Fiquei observando, entretida e fascinada,  medida que eles rodopiavam nos passos da dana, porque Jamie, que fora apresentado aos Simpson antes, dissera-me 
que Simpson filho era totalmente surdo.
        - De tanto martelar na forja, eu imagino - ele dissera, mostrando-me com orgulho a bela espada que ele comprara dos artesos. - Surdo como uma porta; seu 
pai  quem conversa, mas o filho v tudo.
        Vi os astutos olhos escuros saltitarem rapidamente pelo assoalho agora, avaliando com preciso a distncia de um casal para o seguinte. O jovem fabricante 
de espadas tinha uma pisada um pouco pesada, mas acompanhava o ritmo da dana muito bem - ao menos to bem quanto eu. Fechando os olhos, senti a batida da msica 
vibrar pelo assoalho de madeira, dos violoncelos apoiados nele, e presumi que era isso que ele seguia. Depois, abrindo os olhos para no colidir com ningum, vi 
o Simpson filho contrair-se com uma falha dissonante de um dos violinos. Talvez ele conseguisse ouvir alguns sons, afinal.
        A circulao dos pares de danarinos levou Kilmarnock e a mim mesma para perto do lugar onde Carlos e dom Francisco estavam, aquecendo as abas de seus casacos 
diante da lareira enorme e azulejada. Para minha surpresa, Carlos olhou para mim de cara feia por cima do ombro de dom Francisco, fazendo um sinal furtivo com uma 
das mos para que eu me afastasse. Vendo o movimento quando nos viramos, Kilmarnock soltou uma pequena risada.
        - Ento Sua Alteza est com medo de ter que apresent-la ao espanhol - disse.
        -  mesmo? - Olhei para trs por cima do ombro enquanto rodopivamos, mas Carlos retornara  sua conversa, agitando as mos com expressivos gestos italianos 
conforme falava.
        - Creio que sim. - Lorde Kilmarnock danava com habilidade, e eu estava comeando a relaxar o suficiente para conseguir falar, sem me preocupar o tempo inteiro 
em no tropear nas minhas saias.
        - Viu aquele cartaz tolo que Balmerino estava mostrando a todo mundo? - ele perguntou e, quando balancei afirmativamente a cabea, ele continuou: - Imagino 
que Sua Alteza o tenha visto tambm. E os espanhis so suficientemente supersticiosos para serem ridiculamente sensveis a idiotices desse tipo. Nenhuma pessoa 
de bom senso ou educao poderia levar tal coisa a srio - afirmou-me -, mas sem dvida Sua Alteza acha melhor no correr o risco. O ouro espanhol vale um considervel 
sacrifcio, afinal - acrescentou. Aparentemente incluindo o sacrifcio de seu prprio orgulho; Carlos ainda tratava os nobres escoceses e os chefes de cls das Highlands 
como mendigos em sua mesa, embora tivessem ao menos sido convidados para as festividades desta noite, sem dvida, para impressionar dom Francisco.
        - Notou os quadros? - perguntei, querendo mudar de assunto. Havia mais de cem deles ao longo das paredes da Grande Galeria, todos retratos de reis e rainhas. 
E todos com uma impressionante semelhana.
        - Ah, o nariz? - ele disse, um sorriso divertido substituindo a expresso contrariada que tomara conta de seu rosto ao ver Carlos e o espanhol. - Sim, claro. 
Sabe qual a histria desses quadros?
        Os retratos, parecia, eram todos obras de um nico pintor, Jacob DeWitt, que fora incumbido por Carlos II, aps a restaurao de sua dinastia, de produzir 
retratos de todos os ancestrais do rei, desde Robert Bruce em diante.
        - Para assegurar a todos a antigidade de sua linhagem e a absoluta propriedade de sua restaurao - Kilmarnock explicou, um ricto amargo em sua boca. - 
Ser que o rei Jaime empreender um projeto semelhante quando recuperar o trono?
        De qualquer modo, ele continuou, DeWitt pintara furiosamente, terminando um retrato a cada duas semanas a fim de atender a exigncia do monarca. A dificuldade, 
 claro, era que DeWitt no tinha como saber como eram na realidade os ancestrais de Carlos e havia, assim, usado como modelo qualquer pessoa que ele pudesse arrastar 
para seu estdio, simplesmente equipando cada retrato com o mesmo nariz proeminente, a fim de garantir uma semelhana familiar.
        - Aquele  o prprio rei Carlos - Kilmarnock disse, indicando com a cabea um retrato de corpo inteiro, resplandecente em veludo vermelho e chapu de plumas. 
Lanou um olhar crtico ao Carlos mais jovem, cujo rosto afogueado evidenciava que, por fora da hospitalidade, ele andara fazendo companhia a seu hspede nas doses 
de bebida.
        - Pelo menos tem um nariz melhor - o lorde murmurou, como se falasse consigo mesmo. - A me dele era polonesa.
        Estava ficando tarde e as velas nos candelabros de prata comeavam a tremular e se apagar antes que as boas famlias de Edimburgo tivessem se saciado de 
vinho e dana. Dom Francisco, provavelmente no to acostumado como Carlos a beber sem rdeas, balanava a cabea dentro de seu rufo.
        Jamie, tendo, com uma bvia expresso de alvio, devolvido a ltima srta. Williams a seu pai para a jornada de volta para casa, veio unir-se a mim num canto 
onde eu encontrara uma cadeira que me permitiu tirar os sapatos sob o abrigo de minhas saias espraiadas. Esperava no ter que cal-los outra vez apressadamente.
        Jamie sentou-se numa cadeira desocupada ao meu lado, enxugando o rosto brilhante com um grande leno branco. Estendeu a mo por cima de mim para alcanar 
uma mesinha onde ainda restavam alguns bolos.
        - Estou morto de fome - ele disse. - Danar d um apetite terrvel e conversar  pior ainda. - Lanou um bolinho inteiro na boca de um s golpe, mastigou-o 
rpido e pegou outro.
        Vi o prncipe Carlos inclinar-se sobre a figura desmoronada do convidado de honra e sacudi-lo pelo ombro, em vo. A cabea do embaixador espanhol estava 
cada para trs e sua boca frouxa sob o bigode arriado. Sua Alteza levantou-se, um pouco cambaleante, e olhou ao redor em busca de ajuda, mas Sheridan e Tullibardine, 
ambos cavalheiros idosos, haviam eles prprios adormecido, apoiando-se amistosamente um no outro como uma dupla de velhos beberres do vilarejo, vestidos em rendas 
e veludo.
        - No seria melhor voc dar uma mozinha a Sua Alteza? - sugeri.
        - Mmuhm.
        Resignado, Jamie engoliu o restante do bolo, mas antes que pudesse se levantar, eu vi o jovem Simpson, que logo percebera a situao, cutucar seu pai nas 
costelas.
        O Simpson pai adiantou-se e inclinou-se cerimoniosamente para o prncipe Carlos e, antes que o prncipe de olhar vidrado pudesse reagir, os fabricantes de 
espadas j haviam segurado o embaixador espanhol pelos pulsos e tornozelos. Com um impulso de msculos enrijecidos na forja, levantaram-no de sua cadeira e o levaram 
embora, sacudindo-o delicadamente entre eles como um grande animal abatido numa caa. Desapareceram pela porta no extremo oposto do salo, seguidos de forma instvel 
por Sua Alteza.
        Essa sada pouco cerimoniosa assinalou o fim do baile.
        Os outros convidados comearam a relaxar e andar de um lado para o outro, as senhoras desaparecendo em uma sala de entrada para pegar seus xales e mantos, 
os cavalheiros de p, em pequenos grupos impacientes, reclamando uns com os outros sobre o tempo que as mulheres estavam levando para se aprontarem para partir.
        Como estvamos hospedados em Holyrood, samos pela outra porta, no extremo norte da galeria, atravessando as salas de visitas da manh e da tarde, at a 
escadaria principal.
        O patamar e o alto vo da escada estavam recobertos de tapearias, suas figuras turvas e prateadas  luz de velas. E abaixo delas estava a forma gigantesca 
de Angus Mhor, sua sombra imensa na parede, tremulando como uma das figuras de tapearia conforme se agitavam na corrente de ar.
        - Meu senhor est morto - ele disse.
        - Sua Alteza disse - Jamie reportou - que talvez tenha sido melhor assim. - Falou com um tom de sarcstica amargura.
        - Por causa de Dougal - ele acrescentou, vendo meu espanto e perplexidade diante dessa declarao. - Dougal sempre esteve mais do que inclinado a unir-se 
a Sua Alteza no campo. Agora que Colum se foi, Dougal  o chefe. E assim os MacKenzie de Leoch marcharo com o exrcito das Highlands - ele disse calmamente - para 
a vitria... ou no.
        As rugas de tristeza e cansao marcavam seu rosto profundamente e ele no resistiu quando me aproximei por trs e coloquei as mos sobre seus ombros largos. 
Ele emitiu um pequeno som de alvio incoerente quando as pontas dos meus dedos pressionaram com fora os msculos da base de seu pescoo e deixou a cabea pender 
para frente, descansando nos braos cruzados. Ele estava sentado diante da mesa em nosso quarto e pilhas de cartas e despachos estavam perfeitamente arrumadas  
sua volta. Entre os documentos, havia um pequeno caderno de notas, um pouco gasto, encadernado em couro marroquino vermelho. O dirio de Colum, que Jamie pegara 
nos aposentos de seu tio na esperana de que contivesse uma anotao recente confirmando a deciso de Colum de no apoiar a causa jacobita.
        - No que seja provvel que isso fizesse Dougal mudar de idia - ele dissera, melancolicamente folheando as pginas densamente escritas -, mas no h mais 
nada a tentar.
        Na verdade, entretanto, no havia nada escrito no dirio de Colum Pelos ltimos trs dias, exceto por uma pequena entrada, obviamente feita ao retornar do 
ptio da igreja no dia anterior.
        Encontrei-me com o jovem Jamie e sua esposa. Fiz as pazes com Ellen finalmente.
        E isso era,  claro, importante - para Colum, para Jamie e, provavelmente, para Ellen -, mas de pouca utilidade para abalar as convices de Dougal MacKenzie.
        Jamie endireitou-se aps um instante e virou-se para mim. Seus olhos estavam escuros de preocupao e resignao.
        - O que isso significa  que agora ns estamos comprometidos com ele, Claire... com Carlos, quero dizer. H menos chance do que j houve. Temos que tentar 
assegurar sua vitria.
        Minha boca estava seca de tanto vinho. Umedeci os lbios antes de responder.
        - Imagino que sim. Droga! Por que Colum no podia ter esperado um pouco mais? At ao menos pela manh, quando poderia ter se encontrado com Carlos?
        Jamie exibiu um sorriso enviesado.
        - Acho que ele no teve muita escolha nessa questo, Sassenach. Poucos homens podem escolher a hora de sua morte.
        - Colum pretendia faz-lo. - Eu no conseguia decidir se devia contar a Jamie o que se passara entre mim e Colum em nosso primeiro encontro em Holyrood, 
mas agora j no adiantava guardar os segredos de Colum.
        Jamie sacudiu a cabea, incrdulo, e suspirou, os ombros sucumbindo sob a revelao de que Colum pretendia tirar a prpria vida.
        - Isso me faz pensar - ele murmurou, em parte consigo mesmo. -Seria um sinal, voc acha, Claire?
        - Um sinal?
        - A morte de Colum agora, antes que pudesse fazer o que pretendia e recusar o pedido de ajuda de Carlos. Seria um sinal de que Carlos est destinado a vencer 
esta luta?
        Lembrei-me da minha ltima viso de Colum. A morte viera para ele quando estava sentado na cama, um copo de conhaque intocado perto de sua mo. Ento, ele 
a encontrara como desejava, com a mente desanuviada e alerta; sua cabea cara para trs, mas seus olhos estavam arregalados, alheios s vises que deixara para 
trs. Sua boca estava cerrada com fora, as costumeiras rugas em sulcos profundos do nariz ao queixo. A dor que era sua companheira constante o acompanhara at onde 
lhe fora possvel.
        - S Deus sabe - eu disse finalmente.
        - Sim? - ele disse, a voz outra vez abafada em seus braos. - Sim, bem. Espero que algum saiba.
        
        
        
38 - UM PACTO COM O DIABO
        
        Ocatarro instalou-se em Edimburgo como a nuvem de chuva fria que encobria a vista do castelo em sua colina. Uma torrente pluvial escorria dia e noite pelas 
ruas e se as pedras do calamento estavam temporariamente limpas da imundcie e do esgoto, o alvio do mau cheiro era mais do que compensado pelos escarros de expectoraes 
que enlameavam cada quintal e cada beco, alm da nuvem sufocante de fumaa das lareiras que ocupava todo aposento da altura da cintura ao teto.
        Apesar de frio e desolador como o tempo estava do lado de fora, eu me vi passando um bom perodo andando pelos terrenos de Holyrood e de Canongate. O rosto 
encharcado de chuva parecia prefervel a pulmes impregnados de fumaa e de ar empestado de germes. Os barulhos de tosses e espirros percorriam o palcio, embora 
a restrio da presena refinada de Sua Alteza fizesse com que a maioria dos encatarrados cuspisse em lenos imundos ou nas lareiras de azulejos de Delft, em vez 
de faz-lo nos lustrosos assoalhos escoceses de carvalho.
        A luz cessava cedo nesta poca do ano e eu comecei a voltar, do meio da High Street, a fim de chegar a Holyrood antes do anoitecer. Eu no tinha absolutamente 
nenhum medo de um ataque na escurido; mesmo que eu ainda no fosse conhecida a essa altura por todas as tropas jacobitas que ocupavam a cidade, o horror dominante 
ao ar fresco mantinha todos dentro de casa.
        Os homens que ainda estavam suficientemente saudveis para deixar suas casas a trabalho terminavam seus afazeres apressadamente antes de mergulhar com satisfao 
no santurio da taverna de Jenny Ha. Ali permaneciam, aconchegados e aninhados no ambiente quente e abafado, onde o cheiro de madeira mida, de corpos no afeitos 
ao banho, de usque e cereja quase conseguia sobrepujar a fumaa ftida da lareira.
        Meu nico temor era o de tropear no escuro e quebrar um tornozelo nas pedras escorregadias. A cidade era iluminada apenas pelos lampies fracos das sentinelas 
e esses tinham o hbito desconcertante de abrigarem-Se de um vo de porta para outro, aparecendo e desaparecendo como vaga-lumes. E s vezes sumindo completamente 
por meia hora de cada vez, quando o portador do lampio arremessava-se para dentro do Worlds End no fim de Canongate para um gole salvador de cerveja quente.
        Olhei para a fraca claridade acima da igreja de Canongate, estimando quanto tempo restaria at escurecer. Com sorte, eu teria tempo de dar uma passada na 
farmcia do sr. Haugh. Embora no oferecesse nenhuma das variedades encontradas no emprio de Raymond em Paris, o sr. Haugh tinha um bom comrcio de castanheiro-da-ndia 
e casca de um tipo de olmo empregado como emoliente, e em geral era capaz de me fornecer menta e uva-espim tambm. Nesta poca do ano, sua principal fonte de renda 
vinha da venda de bolas de cnfora, considerada um excelente remdio para resfriados, catarro e tuberculose. Se no era mais eficaz do que os remdios modernos para 
gripes, refleti, no era pior, e ao menos possua um cheiro saudvel e revigorante.
        Apesar do predomnio de narizes vermelhos e rostos plidos, as festas eram realizadas no palcio vrias noites por semana enquanto a nobreza de Edimburgo 
saudava seu prncipe com entusiasmo. Mais duas horas e os lampies dos criados que acompanhavam os convidados em seu caminho para o baile comeariam a tremular na 
High Street.
        Suspirei  idia de mais um baile, freqentado por cavalheiros espirran-do, prestando suas homenagens com vozes roucas de muco. Talvez fosse melhor eu acrescentar 
um pouco de alho  lista; usado num medalho para perfume em volta do pescoo, acreditava-se, afastava doenas. O que realmente fazia, eu imaginava, era manter os 
amigos doentes a uma distncia segura - igualmente satisfatrio, do meu ponto de vista.
        A cidade estava ocupada pelas tropas de Carlos, e os ingleses, embora no sitiados, estavam ao menos isolados no castelo acima. Ainda assim, notcias - de 
duvidosa veracidade - tendiam a vazar em ambas as direes. Segundo o sr. Haugh, o boato mais recente era de que o duque de Cumberland estava reunindo tropas ao 
sul de Perth, com a inteno de marchar para o norte quase imediatamente. Eu no fazia a menor idia se isso era verdade; na realidade, duvidava, no me lembrando 
de nenhuma meno a atividades de Cumberland antes da primavera de 1746, que ainda no chegara. Ainda assim, era impossvel ignorar o boato.
        A sentinela no porto cumprimentou-me com um sinal da cabea, tossindo. O som foi reproduzido pelos guardas de servio nos corredores e patamares. Resistindo 
ao impulso de balanar minha cesta de alho diante deles como um incensrio enquanto eu passava, subi as escadas para a sala de visitas da tarde, onde fui admitida 
sem reservas.
        Encontrei Sua Alteza com Jamie, Aeneas MacDonald, O'Sullivan, o secretrio de Sua Alteza e um homem sombrio chamado Francis Townsend, que ultimamente havia 
cado nas boas graas de Sua Alteza. A maioria espirrava e tinha os narizes vermelhos. Escarradas lambuzavam a lareira diante de seu gracioso consolo. Lancei um 
olhar penetrante para Jamie, que estava desmoronado, exausto, em sua cadeira, o rosto plido e desanimado.
        Acostumados s minhas incurses  cidade e ansiosos por qualquer informao referente aos movimentos dos ingleses, os homens ouviram-me com grande ateno.
        - Estamos imensamente agradecidos por suas informaes, sra. Fraser - disse Sua Alteza, com uma reverncia corts e um sorriso. - Por favor, diga-me se existir 
uma maneira pela qual eu possa recompens-la por seus generosos prstimos.
        - H, sim - eu disse, aproveitando a oportunidade. - Quero levar meu marido para a cama. Agora.
        Os olhos do prncipe arregalaram-se ligeiramente, mas ele logo se recomps. No to contido, Aeneas MacDonald irrompeu num acesso de tosse estranhamente 
abafada. O rosto branco de Jamie ficou repentinamente vermelho. Ele espirrou e enterrou o rosto em um leno, os olhos azuis lanando fascas em minha direo por 
cima das dobras do linho.
        - Ah... seu marido - disse Carlos, recompondo-se galhardamente e enfrentando o desafio. - Hum. - Um leve rubor tingiu suas faces.
        - Ele est doente - eu disse, com certa aspereza. - Certamente pode ver isso, no? Quero que ele v para a cama repousar.
        - Ah, repousar - murmurou MacDonald, como se falasse consigo mesmo.
        Busquei palavras suficientemente educadas.
        - Lamentaria privar Vossa Alteza temporariamente da presena de meu marido, mas se ele no puder descansar o suficiente agora,  provvel que no continue 
a servi-lo por muito mais tempo.
        Carlos, recuperado de seu desconforto momentneo, agora parecia estar achando divertido o evidente embarao de Jamie.
        - Sem dvida - ele disse, observando Jamie, cujo semblante agora desbotara em uma espcie de palidez matizada. - A contemplao de tal perspectiva, como 
descrita pela senhora, madame, nos deixaria profundamente aborrecidos. - Inclinou a cabea em minha direo. - Que seu desejo seja cumprido, madame. Cher James tem 
licena de no comparecer  nossa presena at estar recuperado. Por favor, leve seu marido para seus aposentos imediatamente e, h... adote todas as medidas de 
cura que lhe parecerem... h... apropriadas. - O canto da boca do prncipe contorceu-Se repentinamente e, tirando um grande leno do bolso, seguiu o exemplo de Jamie 
e enterrou a metade inferior do rosto no leno, tossindo delicadamente.
        -  melhor tomar cuidado, Alteza - MacDonald avisou um tanto zombeteiro. - Pode pegar a indisposio de Jamie. 
        - Pode-se desejar ter metade das queixas do sr. Fraser - murmurou Francis Townsend, sem nenhum esforo para esconder o sorriso irnico que o fazia parecer 
uma raposa num galinheiro.
        Jamie, agora lembrando fortemente um tomate queimado pelo frio levantou-se bruscamente, fez uma reverncia para o prncipe com um breve: "Obrigado, Alteza", 
e encaminhou-se para a porta, segurando-me pelo brao.
        - Solte-me - rosnei, depois que passamos pelos guardas na ante-sala. -Est quebrando meu brao.
        - timo - ele murmurou. - Assim que estivermos a ss, vou quebrar seu pescoo. - Mas eu notei o canto torcido de sua boca e percebi que a raiva era apenas 
de fachada.
        Uma vez em nossos aposentos, com a porta bem trancada, puxou-me para ele, recostou-se contra a porta e soltou uma risada, a face pressionada contra o topo 
da minha cabea.
        - Obrigado, Sassenach - ele disse, ligeiramente ofegante.
        - No est zangado? - perguntei, a voz um pouco abafada no peito de sua camisa. - No tive a inteno de constrang-lo.
        - No, no tem importncia - ele disse, soltando-me. - Meu Deus, eu no teria me importado nem se voc tivesse dito que pretendia me deixar pegando fogo 
no meio da Grande Galeria, desde que eu pudesse largar Sua Alteza e vir descansar um pouco. Estou morto de cansao do sujeito e todos os meus msculos esto doendo. 
- Um repentino acesso de tosse sacudiu-o e ele recostou-se contra a porta outra vez, desta vez para se apoiar.
        - Voc est bem? - Fiquei na ponta dos ps e coloquei a mo em sua testa. No fiquei surpresa, mas um pouco alarmada, ao sentir como sua testa estava quente 
sob a palma de minha mo.
        - Voc est com febre! - eu disse em tom acusador.
        - Sim, bem, todo mundo est com febre, Sassenach - ele disse, um pouco irritado. - S que uns esto mais quentes do que outros, certo?
        - No tente se esquivar - eu disse, aliviada ao ver que ele ainda estava bastante bem para tentar argumentar. - Tire a roupa. E no diga nada -acrescentei 
energicamente, vendo o riso que se formava enquanto ele abria a boca para retrucar. - No tenho absolutamente nenhum plano em relao  sua carcaa doente alm de 
enfi-la num camisolo de dormir.
        - Ah, ? No acha que o exerccio iria me fazer bem? - Caoou, comeando a desamarrar a camisa. - Pensei que voc tivesse dito que exerccios eram saudveis. 
- Sua risada transformou-se de repente num acesso de tosse rouca que o deixou afogueado e sem respirao. Ele deixou a camisa cair no cho e quase imediatamente 
comeou a tremer de frio.
        - Saudveis demais para voc, meu caro. - Enfiei o camiso de l grossa pela sua cabea, deixando que se debatesse para vesti-lo, enquanto tirava seu kilt, 
sapatos e meias. - Santo Deus, seus ps parecem blocos de gelo!
        - Voc podia... aquec-los... para mim. - Mas seus dentes rangiam e ele mal conseguia pronunciar as palavras. Assim, no fez nenhum protesto quando eu o 
conduzi para a cama.
        Ele sacudia-se demais para falar quando consegui tirar um tijolo quente do fogo com o auxlio de tenazes, envolv-lo em uma flanela e enfi-lo sob as cobertas, 
junto a seus ps.
        Os tremores de frio foram intensos, mas breves, e ele estava sereno outra vez quando coloquei uma panela de gua para ferver com um punhado de menta e groselha-preta.
        - O que  isso? - ele perguntou, desconfiado, cheirando o ar quando abri outro recipiente de minha cesta. - No espera que eu beba isso, no ? Tem cheiro 
de um pato que ficou pendurado tempo demais.
        - Quase acertou - eu disse. -  gordura de ganso misturada com cnfora. Vou esfreg-la em seu peito.
        - No! - Puxou as cobertas at o queixo para se proteger.
        - Vou, sim - eu disse com firmeza, avanando com determinao. Em meio aos meus esforos, percebi que tnhamos uma platia. Fergus
        estava parado do outro lado da cama, observando os procedimentos com grande fascnio, o nariz escorrendo livremente. Retirei o joelho da barriga de Jamie 
e estendi-lhe um leno.
        - E o que voc est fazendo aqui? - Jamie perguntou, tentando puxar a frente de seu camisolo para baixo outra vez.
        Sem parecer desconcertado pelo tom pouco amistoso dessa saudao, Fergus ignorou o leno oferecido e limpou o nariz na manga da camisa, fitando com arregalada 
admirao o peito brilhante, largo e musculoso,  mostra.
        - O senhor magro me mandou vir buscar um pacote que ele diz que o senhor tem para ele. Todos os escoceses tm tanto plo assim no peito, milorde?
        - Santo Deus! Esqueci-me completamente dos despachos. Espere, eu mesmo vou lev-los a Cameron. - Jamie comeou a tentar sentar-se na cama, um processo que 
levou seu nariz at bem perto do local de meus recentes esforos.
        - Cruzes! - Abanou-se com a aba do camiso, numa tentativa de dissipar o cheiro pungente, depois me olhou fixamente, com ar acusador. - -Como  que eu vou 
tirar esse fedor de mim? Espera que eu saia na companhia de outras pessoas cheirando a ganso morto, Sassenach?
        - No, no espero - eu disse. - Espero que voc fique deitado quietinho na cama, repousando, ou voc ser um ganso morto. - Eu mesma produzi um olhar furioso 
de bom tamanho.
        - Posso levar o pacote, milorde - Fergus assegurava-lhe.
        - No vai fazer nada disso - eu disse, notando o rosto afogueado e os olhos excessivamente brilhantes do menino. Coloquei a mo em sua testa.
        - No me diga - Jamie disse sarcasticamente. - Ele tambm est com febre?
        - Est, sim.
        - Ah! - exclamou para Fergus com sombria satisfao. - Agora voc vai ver o que  ser besuntado.
        Um breve perodo de intenso esforo resultou em Fergus enfiado sob as cobertas em seu catre junto  lareira, gordura de ganso e ch medicinal quente profusamente 
administrados aos doentes e um leno limpo depositado sob o queixo de cada um.
        - Pronto - eu disse, lavando as mos escrupulosamente na bacia. -Agora, eu vou levar esse precioso pacote de despachos para o sr. Cameron. Vocs dois vo 
repousar, tomar ch quente, repousar, assoar o nariz e repousar, nessa ordem. Entenderam?
        A ponta de um nariz longo e vermelho surgiu, quase invisvel, acima das cobertas. Oscilou devagar de um lado para o outro conforme Jamie sacudia a cabea.
        - Embriagada de poder - observou com desaprovao para o teto. - Uma atitude bem pouco feminina.
        Dei um beijo em sua testa quente e tirei meu manto do gancho.
        - Como voc conhece pouco as mulheres, meu amor - eu disse.
        Ewan Cameron era encarregado do que passava como "operaes de inteligncia" em Holyrood. Suas dependncias ficavam no final da ala oeste, escondidas perto 
das cozinhas. De propsito, eu imaginava, j tendo testemunhado seu apetite voraz em ao. Provavelmente uma tnia, pensei, vendo o semblante cadavrico do oficial 
enquanto ele abria o pacote e examinava os despachos.
        - Tudo em ordem? - perguntei aps alguns instantes. Tive que conter a necessidade automtica de acrescentar "senhor".
        Arrancado de seus pensamentos, ele ergueu bruscamente a cabea dos despachos e piscou os olhos em minha direo.
        - Hein? Ah! - De volta a si mesmo, sorriu e apressou-se a pedir desculpas.
        - Sinto muito, sra. Fraser. Que indelicadeza a minha me distrair e deix-la a de p. Sim, tudo parece estar em ordem... muito interessante -murmurou consigo 
mesmo. Em seguida, repentinamente tomando conscincia de minha presena outra vez, disse: - Poderia fazer a gentileza de dizer a seu marido que eu gostaria de discutir 
esses despachos com ele o mais breve possvel? Sei que ele est doente - acrescentou com cautela, evitando os meus olhos. Aparentemente, Aeneas MacDonald no precisara 
de muito tempo para fazer um relatrio de nossa entrevista com o prncipe.
        - Est, sim - eu disse laconicamente. A ltima coisa que eu desejava era que Jamie sasse da cama e ficasse analisando despachos da inteligncia a noite 
inteira com Cameron e Lochiel. Isso seria to ruim quanto ficar danando a noite toda com as damas de Edimburgo. Bem, provavelmente no to ruim assim, eu me corrigi, 
lembrando-me das trs senhoritas Williams.
        - Tenho certeza de que ele vir v-lo assim que estiver em condies - eu disse, juntando as pontas de meu manto. - Direi a ele. - E o faria... amanh. Ou 
talvez depois de amanh. Onde quer que as foras inglesas estivessem no momento, eu tinha certeza que no estavam a menos de duzentos quilmetros de Edimburgo.
        Uma rpida espiada no quarto ao voltar mostrou dois montculos, imveis sob as cobertas, e os sons de respirao - lenta e regular, ainda que um pouco congestionada 
- enchiam o aposento. Tranqilizada, retirei o manto e sentei-me na sala de estar com uma xcara preventiva de ch quente, ao qual adicionei uma boa dose medicinal 
de conhaque.
        Bebericando devagar, senti o calor do lquido fluir pelo meio do meu peito, espalhar-se confortavelmente pelo meu abdmen e comear a abrir caminho com firmeza 
em direo aos meus ps, congelados aps uma corrida atravessando o ptio, empreendida preferencialmente  tortuosa passagem interna, com suas infindveis voltas 
e escadarias.
        Segurei a xcara sob o queixo, inalando o cheiro agradvel e amargo, sentindo os vapores aquecidos do conhaque purificarem os seios da minha face. Enquanto 
inspirava, admirei-me, imaginando exatamente por que, numa cidade e num prdio assolados com gripes e resfriados, minhas prprias cavidades nasais permaneciam desobstrudas.
        Na verdade, com exceo da febre puerperal, depois do parto, eu no ficara doente nem uma vez desde a minha passagem pelo crculo de pedras. Aquilo era estranho, 
pensei; considerando-se os padres de saneamento e higiene, e o amontoamento em que com freqncia vivamos, eu deveria sem dvida ter adoecido ou pelo menos ter 
pego uma gripe a essa altura. Mas continuava to acintosamente saudvel como sempre.
        Obviamente, eu no era imune a todas as doenas, ou no teria tido febre. Mas e quanto s doenas facilmente transmissveis? Algumas eram explicveis com 
base na vacinao,  claro. Eu era imune, por exemplo  varola, ao tifo,  clera e  febre amarela. No que febre amarela fosse uma possibilidade por ali, mas 
ainda assim. Coloquei a xcara de volta na mesinha e apalpei meu brao esquerdo, por cima do tecido da manga. A marca de vacina se abrandara com o tempo, mas ainda 
era bastante proeminente para ser detectvel; uma cicatriz mais ou menos circular de pele marcada, com pouco mais de um centmetro de dimetro.
        Estremeci ligeiramente, lembrando-me outra vez de Geillis Duncan, depois afastei o pensamento, mergulhando de novo na contemplao do meu estado de sade, 
a fim de evitar pensar tanto na mulher que morrera numa fogueira quanto em Colum MacKenzie, o homem que a mandara para l.
        A xcara estava quase vazia e eu me levantei para ench-la outra vez, pensando. Uma imunidade adquirida, talvez? Eu aprendera durante o curso de enfermagem 
que os resfriados so causados por diversos vrus, cada qual distinto do outro e em contnua evoluo. Uma vez exposto a um determinado vrus, o instrutor explicara, 
voc tornava-se imune a ele. Voc continuava a pegar resfriados conforme se deparava com novos e diferentes vrus, mas as chances de se deparar com algum ao qual 
no tivesse sido exposta antes diminuam  medida que voc envelhecia. Assim, ele dissera, enquanto as crianas pegavam uma mdia de seis resfriados ao ano, as pessoas 
de meia-idade pegavam apenas dois e os idosos podiam ficar anos sem pegar resfriados, simplesmente porque j haviam se deparado com a maioria dos vrus comuns e 
se tornado imunes.
        Havia uma possibilidade, pensei. E se alguns tipos de imunidade se tornassem hereditrios,  medida que os vrus e as pessoas evolussem? Os anticorpos a 
muitas doenas podiam ser passados de me para filho, isso eu sabia. Via placenta ou leite materno, de modo que a criana ficasse imune - temporariamente - a qualquer 
doena  qual a me j tivesse sido exposta. Talvez eu nunca pegasse resfriados porque eu guardava anticorpos ancestrais a vrus do sculo XVIII, beneficiando-me 
dos resfriados dos meus ancestrais nos ltimos duzentos anos.
        Eu ponderava sobre essa interessante idia, to absorta em meus pensamentos que no me preocupara em sentar, mas bebericava meu ch de p no meio do aposento, 
quando ouvi uma leve batida na porta.
        Suspirei com impacincia, aborrecida com a interrupo. No me dei ao trabalho de colocar a xcara na mesa, mas dirigi-me para a porta preparada para receber 
- e repelir - as indagaes esperadas a respeito da sade de Jamie. Era provvel que Cameron tivesse se deparado com uma passagem enigmtica em um dos despachos 
ou Sua Alteza tivesse reconsiderado sua generosidade em liberar Jamie do comparecimento ao baile. Bem, eles s iriam conseguir tirar Jamie da cama esta noite por 
cima do meu cadver. Abri a porta com um safano e as palavras de saudao morreram em minha garganta. Jack Randall estava parado nas sombras do vo da porta.
        A sensao de umidade causada pelo ch derramado infiltrando-se pela minha saia me devolveu os sentidos, mas ele j dera um passo para dentro da sala. Olhou-me 
de cima a baixo com seu ar costumeiro de desdenhosa avaliao, depois relanceou o olhar pela porta fechada do quarto de dormir.
        - Est sozinha?
        - Sim!
        O olhar cor de avel pestanejou de mim para a porta, calculando a verdade da minha resposta. Seu rosto estava marcado por rugas de uma sade precria, plido 
de m nutrio e de um inverno passado dentro de casa, mas no mostrava nenhuma diminuio do seu estado de vigilncia. O crebro gil e cruel havia recuado um pouco 
mais para trs, encoberto pela cortina daqueles olhos glaciais, mas continuava l; quanto a isso no havia dvidas.
        Tomando sua deciso, agarrou-me pelo brao, pegando meu manto com a outra mo.
        - Venha comigo.
        Eu teria permitido que ele me cortasse em pedacinhos antes de produzir qualquer rudo que fizesse a porta do quarto se abrir.
        Estvamos no meio do corredor quando achei seguro falar. No havia guardas de servio dentro dos limites das dependncias dos oficiais, mas as reas externas 
eram fortemente patrulhadas. Ele no poderia esperar me conduzir pelos ptios de pedras ou pelos portes laterais sem ser detectado, quanto mais atravs da entrada 
principal do palcio. Portanto, o que quer que ele quisesse comigo, tinha que ser um assunto conduzido dentro dos recintos de Holyrood.
        Assassinato, talvez, por vingana do ferimento que Jamie lhe causara? Com o estmago revirando diante desse pensamento, inspecionei-o o mais atentamente 
que pude enquanto atravessvamos depressa as poas de luz lanadas dos castiais nas paredes. No sendo destinadas  decorao ou beleza, as velas nesta parte do 
palcio eram pequenas e bem espaadas, e as chamas fracas serviam apenas para fornecer luz suficiente para ajudar os hspedes a retornarem a seus aposentos.
        Ele no estava de uniforme e parecia completamente desarmado. Vestia um indefinvel tecido rstico, com um grosso casaco sobre calas marrons simples e meias 
compridas. Nada, exceto a altivez de sua postura e a inclinao arrogante de sua cabea sem peruca, denunciava sua identidade - ele poderia facilmente ter se infiltrado 
nas dependncias do palcio com um dos grupos que chegavam para o baile, fazendo-se passar por um criado.
        No, conclu, examinando-o atentamente quando passvamos da escurido para a luz, ele no estava armado, embora a mo que agarrava meu brao fosse dura como 
ao. Ainda assim, se ele estivesse pensando em estrangulamento, no iria me achar uma vtima fcil; eu era quase to alta quanto ele e muito mais bem-nutrida.
        Como se lesse meus pensamentos, parou perto do fim do corredor e virou-me para encar-lo, as mos segurando meus braos com fora, acima dos cotovelos.
        - No quero lhe fazer nenhum mal - ele disse, a voz baixa, mas firme.
        - Conte-me outra - eu disse, avaliando as chances de algum me ouvir se eu gritasse ali. Eu sabia que deveria haver um guarda ao p das escadas, mas isso 
ficava do outro lado de dois aposentos, um pequeno patamar e uma longa escadaria.
        Por outro lado, estvamos num beco sem sada. Se ele no podia me levar dali, eu tambm no conseguiria ajuda onde estava. Essa ponta do corredor era quase 
desabitada e os poucos residentes sem dvida estariam na outra ala agora, ou participando ou prestando servios no baile.
        Ele falou com impacincia.
        - No seja idiota. Se eu quisesse mat-la, poderia faz-lo aqui mesmo. Seria muito mais seguro do que lev-la para fora. Quanto a isso - acrescentou -, se 
quisesse lhe fazer algum mal, dentro ou fora, por que teria trazido seu manto? - Ergueu a pea de vesturio do brao, ilustrando seu ponto de vista.
        - Como eu poderia saber? - eu disse, embora me parecesse um ponto definitivo. - Por que voc o trouxe?
        - Porque quero que saia comigo. Tenho uma proposta a lhe fazer e no vou correr o risco de ser ouvido. - Olhou para a porta no final do corredor. Como todas 
as demais em Holyrood, era construda ao estilo de cruz-e-Bblia, os quatro painis superiores arranjados de modo a formar uma cruz, os dois painis inferiores mais 
altos, dando a impresso de uma Bblia aberta. Holyrood um dia fora uma abadia.
        - Poderia vir at a igreja? L poderemos conversar sem medo de interrupo. - Era verdade; a igreja ao lado do palcio, parte da abadia original, estava 
abandonada, considerada insegura por falta de manuteno ao longo dos anos. Hesitei, sem saber o que fazer.
        - Pense, mulher! - Sacudiu-me levemente, depois me soltou e recuou um passo. A luz das velas o colocava em silhueta, de modo que suas feies no passavam 
de uma mancha escura encarando-me. - Por que eu correria o risco de entrar no palcio?
        Era uma boa pergunta. Depois de deixar a proteo do castelo disfarado, as ruas de Edimburgo estavam abertas para ele. Poderia ter percorrido furtivamente 
os becos e vielas at me avistar em minhas expedies dirias, e me atacado. A nica razo possvel para no t-lo feito era a que ele me deu; precisava falar comigo 
sem risco de ser visto ou ouvido.
        Viu a concluso tornar-se clara em meu rosto e seus ombros relaxaram ligeiramente. Abriu o meu manto, segurando-o para mim.
        - Tem minha palavra de que voltar de nossa conversa sem ser molestada, madame.
        Tentei ler sua expresso, mas as feies delgadas e cinzeladas nada deixavam transparecer. Seus olhos estavam fixos e no me revelavam mais do que os meus 
prprios, vistos em um espelho.
        Vesti o manto.
        - Est bem - eu disse.
        Samos para a escurido do jardim de pedras, passando pela sentinela com nada alm de um rpido cumprimento com a cabea. O guarda me reconheceu e no era 
incomum para mim sair  noite, para atender um caso urgente de doena na cidade. Ele olhou atentamente para Jack Randall - em geral, era Murtagh quem me acompanhava, 
caso Jamie no pudesse -, mas vestido como estava, no havia nenhum indcio da verdadeira identidade do capito. Ele devolveu o olhar do guarda com indiferena e 
a porta do palcio fechou-se atrs de ns, deixando-nos na escurido fria do lado de fora.
        Havia chovido, mas a tempestade cessara. Nuvens carregadas se rasgavam e voavam acima de ns, levadas por um vento que abria as abas do meu manto e fazia 
minhas saias grudarem em minhas pernas.
        - Por aqui.
        Segurei com fora o veludo pesado em volta do corpo, abaixei a cabea contra o vento e segui a figura magra de Jack Randall pelo caminho do jardim de pedras.
        Samos na outra extremidade e, aps uma pausa para uma rpida olhada ao redor, atravessamos rapidamente o gramado at o portal da igreja.
        A porta havia entortado e travara escancarada; no era usada h vrios anos por causa de falhas estruturais que tornavam o prdio perigoso e ningum se dera 
ao trabalho de consert-la. Abri caminho atravs de uma barreira de escombros e folhas mortas, passando agachada do bruxuleante luar do jardim posterior do palcio 
para a absoluta escurido da igreja.
        Ou nem to absoluta;  medida que meus olhos se acostumaram  escurido, pude ver as linhas altas das colunas que se alinhavam de cada lado da nave e a delicada 
estrutura em pedra da enorme janela na extremidade oposta, a maior parte dos vitrais j desaparecida.
        Um movimento nas sombras mostrou-me para onde Randall fora; passei entre os pilares e o encontrei em um espao onde um recesso antes usado como pia batismal 
deixara uma laje de pedra ao longo da parede. De cada um dos lados, havia manchas claras nas paredes; as placas em memria daqueles que estavam enterrados na igreja. 
Outras dispunham-se no cho, embutidas no piso de cada lado do corredor central, os nomes desgastados pela passagem de ps.
        - Muito bem - eu disse. - No podemos ser ouvidos agora. O que deseja de mim?
        - Sua habilidade mdica e sua absoluta discrio. Em troca de informaes que possuo com relao s manobras e planos das tropas do eleitor. - Ele respondeu 
prontamente.
        Quase perdi a respirao. O que quer que eu estivesse esperando, no era isso. Ele no podia estar querendo dizer...
        - Est buscando tratamento mdico? - perguntei, sem fazer nenhum esforo para disfarar a mistura de horror e espanto em minha voz. - De mim? Eu entendi 
que voc... h, quero dizer... - Com um esforo supremo, parei de tropear nas palavras e falei com firmeza. - Voc com certeza j recebeu todo tratamento mdico 
possvel, no? Parece estar em condies razoavelmente boas. - Externamente, ao menos. Mordi o lbio, reprimindo uma vontade incontrolvel de rir histericamente.
        - Fui informado de que tenho sorte de estar vivo, madame - ele respondeu friamente. - A questo  discutvel. - Colocou o lampio em um nicho na parede, 
onde a bacia escavada de uma pia de gua benta jazia seca e vazia em seu retiro.
        - Presumo que sua inquisio seja motivada por curiosidade mdica em vez de preocupao com o meu bem-estar - ele continuou. A luz do lampio, projetada 
na altura da cintura, iluminava-o das costelas para baixo, deixando a cabea e os ombros escondidos. Colocou a mo na cinta de suas calas, virando-se ligeiramente 
para mim.
        - Quer examinar o ferimento, a fim de julgar a eficcia do tratamento? - As sombras ocultavam seu rosto, mas as farpas de gelo em sua voz tinham veneno nas 
pontas.
        - Talvez mais tarde - eu disse, to friamente quanto ele. - Se no para si mesmo, para quem solicita minhas habilidades?
        Ele hesitou, mas era tarde demais para reticncias. =
        - Para meu irmo.
        - Seu irmo? - Eu no pude evitar o choque em minha voz. -Alexander?
        - J que meu irmo mais velho, William, est, at onde eu saiba, virtuosamente empenhado na administrao das propriedades da famlia em Sussex, e sem nenhuma 
necessidade de ajuda - ele disse secamente. - Sim, meu irmo Alex.
        Espalmei as mos sobre a pedra fria de um sarcfago para me amparar.
        - Conte-me a respeito - eu disse.
        Era uma histria bastante simples, e triste. Se fosse qualquer outra pessoa que no Jonathan Randall que a tivesse contado, eu teria sucumbido  compaixo.
        Privado de seu emprego com o duque de Sandringham por causa do escndalo em torno de Mary Hawkins, e de sade frgil demais para arranjar outro trabalho, 
Alexander Randall fora forado a pedir ajuda a seus irmos.
        - William enviou-lhe duas libras e uma carta de fervorosas exortaes. - Jack Randall recostou-se contra a parede, cruzando os tornozelos. - Receio que William 
seja um tipo muito fervoroso. Mas no estava preparado para ter Alex em casa em Sussex. A mulher de William  um pouco... radical, digamos assim. Em suas opinies 
religiosas. - Houve uma nuance de humor em sua voz que me fez apreci-lo por um momento. Em circunstncias diferentes, ele poderia ter sido como o bisneto com quem 
se parecia fisicamente?
        A lembrana repentina de Frank transtornou-me de tal forma que eu perdi sua observao seguinte.
        - Desculpe-me. O que foi que disse? - Agarrei minha mo esquerda com a direita, os dedos segurando com fora minha aliana de ouro. Frank se fora. Eu precisava 
parar de pensar nele.
        - Eu disse que procurei acomodaes para Alex perto do castelo, de modo que eu mesmo pudesse lhe dar assistncia, j que meus recursos financeiros no eram 
suficientes para me permitir empregar um criado adequado para ele.
        No entanto, a ocupao de Edimburgo havia,  claro, tornado tal atendimento difcil e Alex Randall ficara mais ou menos entregue a si mesmo no ltimo ms, 
fora os servios espordicos de uma mulher que ia fazer a limpeza de vez em quando. Com a sade abalada desde o incio, suas condies pioraram com o clima frio, 
a dieta pobre e as condies esqulidas em que vivia, at que, seriamente abalado, Jack Randall resolvera buscar minha ajuda. E a oferecer em troca dessa ajuda a 
traio de seu rei.
        - Por que voc viria a mim? - perguntei finalmente, virando-me da placa honorfica.
        Ele pareceu ligeiramente surpreso.
        - Por voc ser quem . - Seus lbios curvaram-se num pequeno sorriso escarnecedor. - Se uma pessoa quer vender a alma, no  certo recorrer aos poderes das 
trevas?
        - Voc realmente pensa que eu sou um poder das trevas, no ? -Obviamente, ele achava; ele era mais do que capaz de sarcasmo, mas no havia nenhum em sua 
proposta original.
        - Fora as histrias a seu respeito em Paris, voc mesma me disse isso. - Ele ressaltou. - Quando deixei que se fosse de Wentworth. - Virou-se no escuro, 
remexendo-se na laje de pedra.
        - Foi um erro grave - ele disse serenamente. - Voc jamais deveria ter deixado aquele lugar viva, perigosa criatura. E no entanto eu no tinha escolha; sua 
vida foi o preo que ele estabeleceu. E eu teria corrido riscos ainda maiores do que esse pelo que ele me deu.
        Emiti um leve som sibilante, que abafei imediatamente, mas tarde demais para impedir que ele me ouvisse. Ele ficou parcialmente sentado na laje, um dos quadris 
repousando sobre a pedra, uma perna esticada para baixo para dar-lhe equilbrio. A lua surgiu l fora, atravs das nuvens que passavam rapidamente, iluminando-o 
por trs, pela janela quebrada. Na semi-obscuridade, a cabea ligeiramente virada e os sulcos da crueldade ao redor da boca apagados pela escurido, eu podia confundi-lo 
outra vez, como acontecera anteriormente, com o homem que eu amara. Com Frank.
        Entretanto, eu trara esse homem; por causa da minha escolha, esse homem jamais existiria. Porque os filhos devero pagar pelos pecados dos pais. E voc 
o destruir, completamente, de modo que seu nome no mais seja conhecido entre as tribos de Israel.
        - Ele lhe contou? - a voz descontrada, agradvel, perguntou das trevas. - Ele lhe contou tudo que se passou entre ns, entre mim e ele, naquele cubculo 
em Wentworth? - Atravs do meu choque e do meu dio, notei que ele obedecia  imposio de Jamie; nem uma vez ele usou o nome dele. "Ele." Nunca "Jamie". Esse era 
meu.
        Meus dentes estavam cerrados com fora, mas forcei as palavras a sarem-
        - Ele me contou. Tudo.
        Ele emitiu um pequeno som, uma espcie de suspiro.
        - Quer a idia lhe agrade ou no, minha cara, ns estamos ligados, voc e eu. No posso dizer que isso me agrada, mas admito a verdade dessa afirmao. Voc 
conhece, como eu, a sensao do toque da pele dele... to quente, no ? Quase como se ele queimasse por dentro. Voc conhece o cheiro do seu suor e a aspereza dos 
plos de suas coxas. Voc sabe o som que ele faz no final, quando ele se perde. Eu tambm sei.
        - Cale-se - eu disse. - Fique quieto! - Ele me ignorou, reclinando-se, falando pausadamente, como se falasse consigo mesmo. Reconheci, com uma nova onda 
de dio, o impulso que o conduzia a isto, no a inteno, como eu pensara, de me perturbar, mas uma necessidade incontrolvel de falar de algum amado; rememorar 
em voz alta e reviver detalhes desaparecidos. Porque, afinal, com quem ele poderia falar de Jamie dessa forma, seno comigo?
        - Vou embora! - eu disse em voz alta, girando nos calcanhares.
        - Vai embora? - disse a voz calma atrs de mim. - Posso entregar o general Hawley em suas mos. Ou voc pode deix-lo tomar o exrcito escocs. A escolha 
 sua, madame.
        Senti uma vontade incontrolvel de responder que o general Hawley no valia o preo. Mas pensei nos chefes de cls escoceses agora aquartelados em Holyrood 
- Kilmarnock, Balmerino e Lochiel, a apenas alguns metros de distncia, do outro lado da parede da abadia. No prprio Jamie. Nos milhares de escoceses que eles conduziam. 
A chance de vitria valeria o sacrifcio de meus sentimentos? Seria este um momento decisivo, novamente um lugar de escolha? Se eu no o ouvisse, se eu no aceitasse 
a proposta de Randall, o que aconteceria?
        Virei-me, devagar.
        - Fale, ento - eu disse. -J que precisa. - Ele no parecia perturbado com minha raiva, nem preocupado com a possibilidade de que eu recusasse a barganha. 
A voz na igreja escura soou regular, controlada como a de um professor.
        - Imagino, sabe - ele disse. - Se voc teve dele tanto quanto eu. -Inclinou a cabea para o lado, as feies marcantes entrando em foco conforme ele saa 
das sombras. A luz fugidia alcanou-o momentaneamente pela lateral, iluminando o avel-claro de seus olhos e fazendo-os brilhar, como os de um animal selvagem vislumbrado 
no meio de arbustos.
        O tom de triunfo em sua voz era fraco, mas inconfundvel.
        - Eu - ele disse calmamente -, eu o tive de uma maneira que voc jamais o ter. Voc  mulher; no pode compreender, mesmo sendo a bruxa que . Eu tive a 
alma de sua masculinidade, tirei dele o que ele tirou de mim. Eu o conheo, como ele agora me conhece. Estamos ligados, ele e eu, pelo sangue. Dou-lhe meu corpo, 
para que ns dois sejamos um s...
        - Voc escolheu uma maneira muito estranha de obter minha ajuda -eu disse, a voz trmula. Meus punhos estavam cerrados nas pregas da minha saia, o tecido 
frio e embolado entre meus dedos.
        -  mesmo? Acho melhor voc compreender, madame. Eu no suplico sua piedade, no me submeto a seu poder como um homem poderia buscar a compaixo de uma mulher, 
na dependncia do que as pessoas chamam de compreenso feminina. Para isso, voc poderia socorrer meu irmo por ele mesmo. - Uma mecha de cabelos escuros caiu sobre 
sua testa; afastou-a para trs com uma das mos.
        - Prefiro que seja um trato feito diretamente entre ns, madame; por servio prestado e preo pago. Perceba, madame, que meus sentimentos em relao a voc 
so muito semelhantes ao que os seus em relao a mim devem ser.
        Foi um choque; enquanto eu esforava-me para encontrar uma resposta, ele continuou.
        - Estamos ligados, voc e eu, pelo corpo de um homem... ele. Eu no teria tal vnculo formado atravs do corpo de meu irmo; busco sua ajuda para curar o 
corpo dele, mas no corro nenhum risco de que a alma dele caia em seu poder. Diga-me, ento; o preo que lhe ofereo  aceitvel para voc?
        Virei-me e caminhei pelo centro da nave ressonante. Eu tremia tanto que sentia os passos incertos e o choque da pedra dura sob a sola dos meus sapatos me 
sacudiam. O rendilhado de pedra da grande janela acima do altar abandonado destacava-se, escuro, contra o branco das nuvens velozes, e tnues raios de luar iluminavam 
meu caminho.
        No final da nave, o mais longe que eu podia ficar dele, parei e pressionei as mos contra a parede para me apoiar. Estava escuro demais at mesmo para ver 
as letras da placa de mrmore sob minhas mos, mas eu podia sentir as linhas frias, afiadas, do entalhe. A curva de um pequeno crnio, descansando sobre iemures 
cruzados, uma verso piedosa da famosa bandeira dos piratas. Deixei minha cabea pender para frente, testa contra testa do crnio invisvel, liso como osso contra 
a minha pele.
        Esperei, os olhos cerrados, que minha nsia de vmito se aplacasse e a pulsao intensa que latejava em minhas tmporas abrandasse.
        No faz diferena, disse a mim mesma. No importa o que ele seja. No importa o que ele diga.
        Estamos ligados, voc e eu, pelo corpo de um homem... Sim, mas no pelo corpo de Jamie. No por ele!, insisti, para ele, para mim mesma. Sim, voc o possuiu, 
seu canalha! Mas eu o tomei de volta, eu o libertei de voc. Voc no possui nenhuma parte dele! Mas o suor que escorria pelas minhas costelas e o som da minha prpria 
respirao ofegante desmentiam a minha convico.
        Seria esse o preo que eu teria de pagar pela perda de Frank? Mil vidas que poderiam ser salvas, talvez, em compensao por essa nica perda?
        A forma escura do altar assomava  minha direita e desejei de todo o corao que pudesse haver alguma presena l, qualquer que fosse sua natureza; algo 
ao qual recorrer em busca de uma resposta. Mas no havia ningum aqui em Holyrood; ningum, a no ser eu. Os espritos dos mortos guardavam seus prprios conselhos, 
silenciosos nas pedras da parede e do assoalho.
        Tentei tirar Jack Randall da mente. Se no fosse ele, se fosse qualquer outro homem a pedir, eu iria? Havia Alex Randall a considerar, independentemente 
de todo o resto. "Para isso, voc poderia socorrer meu irmo por ele mesmo", o capito dissera. E certamente eu o faria. Eu podia negar o que quer que eu pudesse 
lhe oferecer em termos de cura por causa do homem que pedira?
        Um longo tempo decorreu at eu me endireitar, forando meu corpo exausto a se aprumar, as mos midas e escorregadias na curva do crnio. Sentia-me exaurida 
e fraca, a nuca doendo e a cabea pesada, como se a doena da cidade tivesse finalmente se apoderado de mim.
        Ele continuava l, paciente na escurido fria.
        - Sim - eu disse abruptamente, assim que cheguei ao alcance da voz. - Est bem. Irei amanh, pela manh. Onde?
        - Alameda Ladywalk - ele disse. - Conhece?
        - Sim. - Edimburgo era uma cidade pequena, nada alm da High Street, de onde partiam vielas e becos minsculos e mal-iluminados. A alameda Ladywalk era uma 
das mais pobres.
        - Eu a encontrarei l - ele disse. - Terei a informao para voc. Levantou-se e deu um passo  frente, depois parou, esperando que eu me movesse. Vi que 
ele no queria passar perto de mim, para alcanar a porta.
        - Est com medo de mim? - eu disse, com uma risada contrafeita. -Acha que vou transform-lo em um cogumelo?
        - No - ele disse, examinando-me calmamente. - Eu no a temo, madame. Voc no pode ter duas verdades, sabe. Voc procurou me aterrorizar em Wentworth dando-me 
o dia da minha morte. Tendo me dito isso, no pode agora me ameaar, pois se devo morrer em abril do prximo ano, voc no pode me matar agora, no ?
        Se eu tivesse uma faca comigo, talvez lhe mostrasse, num momento de gratificante impulso, que ele estava enganado. Mas a maldio da profecia estava sobre 
mim, bem como o peso de mil vidas escocesas. Ele estava a salvo de mim.
        - Mantenho distncia, madame, apenas porque eu preferia no correr o risco de toc-la.
        Ri outra vez, agora genuinamente.
        - E esse, capito,  um impulso com o qual estou inteiramente de acordo. - Virei-me e sa da igreja, deixando que me seguisse como bem entendesse.
        Eu no precisava perguntar-lhe ou temer que ele no mantivesse a palavra. Ele me libertara uma vez de Wentworth porque dera sua palavra que o faria. Sua 
palavra, uma vez dada, era sua fiana. Jack Randall era um cavalheiro.
        O que voc sentiu quando entreguei meu corpo a Jack Randall?, Jamie me perguntara.
        Raiva, eu dissera. Nojo. Horror.
        Apoiei-me contra a porta da sala de estar, sentindo tudo isso outra vez. O fogo se apagara e o aposento estava frio. O cheiro de gordura de ganso canforada 
ardeu em minhas narinas. Tudo estava em silncio, a no ser pela respirao pesada e spera que vinha da cama e o longnquo sopro do vento, correndo pelas paredes 
de um metro e meio de espessura.
        Ajoelhei-me junto  lareira e comecei a reacender o fogo. Apagara-se por completo e empurrei para dentro a lenha parcialmente queimada, afastando as cinzas 
antes de iniciar o fogo em uma pequena pilha de gravetos no centro da lareira. Tnhamos lenha em Holyrood, e no turfa. Infelizmente, pensei; um fogo de turfa no 
teria se apagado to facilmente.
        Minhas mos tremiam um pouco e deixei cair a caixa de slex antes de conseguir produzir uma fasca. O frio, disse a mim mesma. Fazia muito frio ali.
        Ele lhe contou tudo que se passou entre ns?, disse a voz zombeteira de Jack Randall.
        - Tudo que eu preciso saber - murmurei comigo mesma, encostando um pedao de papel torcido na minscula chama e levando-o de ponto em ponto, ateando fogo 
 lenha em seis pontos diferentes. Um de cada vez, acrescentei pequenos gravetos, enfiando cada um na chama e segurando-o ali at que pegasse fogo. Quando a pilha 
de gravetos queimava alegremente, peguei a tora grande pela ponta, levantando-a com todo o cuidado e colocando-a no meio da fogueira. Era madeira de pinho; verde, 
mas com um pouco de seiva, borbulhando de uma rachadura na madeira numa gota pequena e dourada. 
        Cristalizada e congelada com o tempo, formaria uma gota de mbar, dura e permanente como uma pedra preciosa. Agora, ela brilhou por um instante com o calor 
repentino, inflou e explodiu numa minscula chuva de centelhas, rapidamente desaparecidas.
        - Tudo que eu preciso saber - murmurei. A cama de Fergus estava vazia; tendo acordado com frio, arrastara-se da cama em busca de um paraso aquecido.
        Ele estava enroscado na cama de Jamie, a cabea escura e a ruiva pousadas lado a lado no travesseiro, as bocas ligeiramente abertas conforme roncavam pacificamente 
juntos. No pude deixar de sorrir diante da cena, mas eu no pretendia dormir no cho.
        - Saia da - murmurei para Fergus, empurrando-o para a ponta da cama e tomando-o nos braos. Ele era magro e seus ossos leves para uma criana de dez anos, 
mas ainda assim terrivelmente pesado. Levei-o at seu catre de palha sem dificuldade e ajeitei-o sob as cobertas, ainda inconsciente, voltando em seguida para a 
cama de Jamie.
        Despi-me devagar, parada junto  cama, fitando-o. Ele virara de lado e se enroscara contra o frio. Suas pestanas repousavam longas e curvas sobre a face; 
eram castanho-escuras, quase pretas nas pontas, mas louro-claras nas razes. Isso lhe dava um ar estranhamente inocente, apesar do nariz longo e reto e das linhas 
firmes do queixo e da boca.
        Vestida em minha camisola, entrei na cama por trs dele, aconchegando-me contra as costas largas e quentes em seu camiso de l. Ele remexeu-se um pouco, 
tossindo, e eu coloquei a mo sobre seu quadril para acalm-lo. Ele se mexeu, enroscando-se ainda mais e empurrando-se para trs, contra meu corpo, com um pequeno 
suspiro de conscincia. Passei o brao em torno de sua cintura, minha mo roando a maciez de seus testculos. Eu podia excit-lo, eu sabia, mesmo dormindo como 
estava; era necessrio muito pouco para excit-lo, no mais do que alguns movimentos firmes de meus dedos.
        Mas eu no queria perturbar seu repouso e me contentei em bater delicadamente em sua barriga. Ele estendeu a enorme mo para trs e de modo desajeitado devolveu 
os tapinhas em minha coxa.
        - Eu a amo - ele murmurou, semi-acordado.
        - Eu sei - eu disse. E adormeci imediatamente, abraada a ele.
        
39 - LAOS DE FAMLIA
        
        No era propriamente um barraco, mas estava bem prximo de ser. Pisei cuidadosamente para o lado a fim de evitar uma grande poa de imundcie, deixada ali 
pelo esvaziamento de urinis das janelas acima,  espera de remoo pela prxima chuva forte.
        Randall segurou meu cotovelo para impedir que eu escorregasse nas pedras viscosas do calamento. Enrijeci-me ao toque de sua mo, e ele retirou-a imediatamente.
        Viu meu olhar  ombreira da porta caindo aos pedaos e disse defensivamente:
        - No tive condies financeiras para remov-lo para instalaes melhores. No  to ruim l dentro.
        No era - no inteiramente. Algum esforo fora feito em mobiliar o aposento confortavelmente, ao menos. Havia um grande jarro com uma bacia, uma mesa slida, 
com po, queijo e uma garrafa de vinho em cima, e a cama tinha um colcho de penas e vrios cobertores grossos.
        O homem deitado na cama havia afastado as cobertas, acalorado pelo esforo de tossir, imaginei. Seu rosto estava muito vermelho e a fora de sua tosse sacudia 
a estrutura da cama, apesar de robusta.
        Atravessei o aposento at a janela e a escancarei, sem dar ouvidos s exclamaes de protesto de Randall. Com o ar frio que varreu o quarto abafado, o mau 
cheiro de corpo suado, lenis sujos e urinol cheio arrefeceu um pouco.
        A tosse diminuiu gradualmente e o semblante afogueado de Alexander Randall desbotou at um branco sem vio. Seus lbios estavam azulados e seu peito subia 
e descia no esforo de recuperar o flego.
        Olhei  volta do aposento, mas no vi nada adequado aos meus propsitos. Abri meu estojo mdico e retirei uma folha rgida de pergaminho. Estava um pouco 
esfarrapada nas pontas, mas ainda serviria. Sentei-me na beira da cama, sorrindo da maneira mais tranqilizadora possvel.
        - Foi... bondade sua... ter vindo - ele disse, esforando-se para no tossir entre uma palavra e outra.
        - Vai se sentir melhor daqui a pouco - eu disse. - No fale e no reprima a tosse. Eu preciso ouvi-la.
        Sua camisa j estava aberta na frente; afastei-a ainda mais para expor o peito assustadoramente afundado. Era praticamente pele e osso; as costelas eram 
claramente visveis do abdmen  clavcula. Ele sempre fora magro, mas a doena do ltimo ano deixara-o emaciado.
        Enrolei o pergaminho formando um tubo e coloquei uma das extremidades contra seu peito, meu ouvido junto  outra. Era um estetoscpio rstico, mas surpreendentemente 
eficaz.
        Ouvi atentamente em vrios pontos, instruindo-o para respirar fundo. No precisei dizer-lhe para tossir, pobre rapaz.
        - Deite-se de barriga para baixo por um instante. - Levantei sua camisa e ouvi, depois bati delicadamente em suas costas, testando a ressonncia em ambos 
os pulmes. As costas nuas estavam pegajosas e suadas sob meus dedos.
        - Muito bem. De costas outra vez. Apenas permanea deitado agora, quieto, e relaxe. No vai doer nada. - Mantive a conversa amena enquanto verificava o branco 
de seus olhos, as glndulas linfticas intumescidas no pescoo, a lngua recoberta com placas e as amdalas inflamadas.
        - Voc tem um pouco de catarro - eu disse, batendo de leve em seu ombro. - Vou preparar um remdio que vai abrandar a tosse. Enquanto isso... - Apontei o 
dedo do p desagradavelmente para o recipiente de loua, com tampa, sob a cama, e lancei um olhar para o homem parado  porta, esperando, as costas empertigadas 
e rgidas como se estivesse de prontido.
        - Livre-se disso - ordenei. Randall olhou-me furiosamente, mas adiantou-se e inclinou-se para obedecer.
        - No pela janela! - eu disse incisivamente, quando ele fez um movimento naquela direo. - Leve-o l para baixo. - Ele deu meia-volta e saiu sem olhar para 
mim.
        Alexander inspirou, uma respirao superficial, quando a porta fechou-se atrs de seu irmo. Sorriu para mim, os olhos cor de avel brilhando no rosto plido. 
A pele era quase transparente, distendida sob os ossos da face.
        -  melhor andar depressa antes que Johnny volte. O que eu tenho?
        Seus cabelos escuros estavam desalinhados pela tosse; tentando reprimir os sentimentos que essa viso despertava em mim, ajeitei-os para ele. Eu no queria 
lhe dizer, mas obviamente ele j sabia.
        - Voc est com catarro. Tambm est com tuberculose.
        - E?
        - E insuficincia cardaca - eu disse, fitando-o nos olhos.
        - Ah. Achei que... devia ser algo assim. Meu corao palpita no peito de vez em quando... como as asas de um pssaro bem pequeno. - Colocou a mo de leve 
sobre o corao. 
        Eu no conseguia suportar a aparncia de seu peito, arfando sob seu fardo impossvel, e delicadamente fechei sua camisa e amarrei o lao no pescoo. A mo 
longa e branca agarrou a minha.
        - Quanto tempo? - ele disse. Seu tom de voz era calmo, quase despreocupado, no revelando mais do que uma leve curiosidade.
        - No sei - eu disse. - Esta  a verdade. Eu no sei.
        - Mas no muito tempo - ele disse, com convico.
        - No. No muito tempo. Meses talvez, mas certamente menos de um ano.
        - Voc pode... parar a tosse?
        Peguei meu estojo.
        - Sim. Posso ao menos abrand-la. E as palpitaes cardacas; posso preparar-lhe um extrato de digitalina que ajudar. - Encontrei o pequeno pacote de folhas 
secas de dedaleira; levaria algum tempo para preparar a infuso.
        - Seu irmo... - eu disse, sem olhar para ele. - Quer que eu...
        - No - ele disse categoricamente. Um dos cantos de sua boca se curvou para cima e ele se pareceu tanto com Frank que por um instante tive vontade de chorar 
por ele.
        - No - ele disse. - Ele j deve saber. Ns sempre... soubemos o que se passa um com o outro.
        -  mesmo? - perguntei, encarando-o. Ele no desviou os olhos dos meus, mas sorriu debilmente.
        - Sim - disse a meia-voz. - Sei tudo a respeito dele. No importa.
        Ah, no? Pensei. No para voc, talvez. No podendo confiar nem no meu rosto nem na minha voz, virei-me e procurei me ocupar, tentando acender um pequeno 
fogareiro de lcool que trouxera comigo.
        - Ele  meu irmo - a voz branda disse atrs de mim. Respirei fundo e firmei as mos para medir a quantidade de folhas.
        - Sim - eu disse -, ao menos isso ele .
        Desde que a notcia da surpreendente derrota de Cope em Prestonpans se espalhara, ofertas de apoio, de homens e dinheiro fluram do norte aos borbotes. 
Em alguns casos, essas ofertas at se materializaram: lorde Ogilvy, o filho mais velho do conde de Airlie, trouxe seiscentos arrendatrios de seu pai, enquanto Stewart 
de Appin apareceu  frente de quatrocentos homens dos distritos de Aberdeen e BanfF. Lorde Pitsligo sozinho era responsvel pela maior parte da cavalaria escocesa. 
Ele trouxe um grande nmero de cavalheiros e seus criados dos condados do nordeste, todos bem montados e bem armados - ao menos em comparao a alguns membros de 
cls diversos, que vinham armados com antigas espadas de dois gumes salvas por seus avs da revoluo de 1715, machados enferrujados e forcados retirados das tarefas 
mais domsticas de limpar currais.
        Formavam um grupo diversificado, mas nem por isso menos perigoso, refleti, abrindo caminho em meio a um grupo de homens reunidos em torno de um amolador 
de facas itinerante, que amolava adagas, facas e foices com absoluta indiferena. Um soldado ingls que se defrontasse com eles estaria arriscado a morrer de ttano 
em vez de uma morte instantnea, mas os resultados provavelmente seriam os mesmos.
        Embora lorde Lewis Gordon, o irmo mais novo do duque de Gordon, viera prestar suas homenagens a Carlos em Holyrood, anunciando a esplndida perspectiva 
de trazer todo o cl Gordon, havia um longo caminho a ser percorrido entre o beija-mo e o real fornecimento de homens.
        E as terras baixas da Esccia, as Lowlands, embora perfeitamente dispostas a celebrar ruidosamente as notcias de vitria de Carlos, eram estranhamente avessas 
a enviar homens para apoi-lo; quase todo o exrcito Stuart era composto de escoceses das Highlands, e talvez assim permanecesse. Entretanto, as Lowlands no tinham 
sido um fracasso total; lorde George Murray dissera-me que o recolhimento de alimentos, mercadorias e dinheiro nos burgos do sul havia resultado em uma contribuio 
muito significativa aos cofres e suprimentos do exrcito, capaz de mant-lo por algum tempo.
        - S de Glasgow, temos cinco mil e quinhentas libras. Embora seja uma ninharia, comparada s quantias prometidas pela Frana e Espanha -Sua Excelncia confidenciara 
a Jamie. - Mas no estou inclinado a virar o nariz para ela, particularmente porque Sua Alteza no recebeu nada da Frana alm de palavras tranqilizadoras, mas 
nenhum ouro.
        Jamie, que sabia exatamente o quanto era improvvel que o ouro francs se materializasse, simplesmente balanou a cabea.
        - Descobriu mais alguma coisa hoje, mo duinne? - ele me perguntou quando entrei. Tinha um despacho parcialmente redigido diante dele e enfiou a pena no tinteiro 
para molh-la de novo. Tirei o capuz mido dos cabelos com um estalido de eletricidade esttica, balanando a cabea afirmativamente.
        - H um boato de que o general Hawley est formando unidades de cavalaria no sul. Ele tem ordens para a formao de oito regimentos.
        Jamie rosnou. Considerando-se a averso dos escoceses das Highlands  cavalaria, essa no era uma boa notcia. Distraidamente, esfregou as costas onde a 
contuso feita pela pata de um cavalo em Prestonpans ainda no desaparecera.
        - Registrarei isso para o coronel Cameron, ento - ele disse. - At que ponto acha que o boato pode ser verdadeiro, Sassenach? - Quase automaticamente, ele 
olhou por cima do ombro, para certificar-se de que estvamos sozinhos. Ele agora s me chamava de Sassenach quando estvamos a ss, usando a formalidade de "Claire" 
em pblico.
        - Pode apostar nele - eu disse. - Quer dizer, acho que  verdadeiro.
        No se tratava em absoluto de um boato; era a mais recente informao da inteligncia britnica, fornecida por Jack Randall, a mais nova prestao do pagamento 
da dvida que ele insistiu em assumir para que eu cuidasse de seu irmo.
        Jamie sabia,  claro, que eu visitava Alex Randall, assim como todos os doentes do exrcito jacobita. O que ele no sabia, e que eu jamais poderia lhe contar, 
era que uma vez por semana - s vezes, com mais freqncia - eu me encontrava com Jack Randall, para tomar conhecimento das notcias que se infiltravam no Castelo 
de Edimburgo, provenientes do sul.
        s vezes, ele ia ao quarto de Alex quando eu estava l; outras vezes, eu voltava para casa na penumbra do crepsculo de inverno, andando com cuidado pelas 
pedras escorregadias do calamento da Royal Mile, quando repentinamente um vulto empertigado como uma vara, em roupas de tecido rstico marrom, acenava da entrada 
de um ptio ou uma voz calma saa da neblina atrs do meu ombro. Era assustador; como ser assombrada pelo fantasma de Frank.
        Teria sido bem mais simples para ele deixar uma carta no alojamento de Alex, mas ele no colocava nada por escrito e eu podia entender sua cautela. Se tal 
carta fosse encontrada, mesmo sem assinatura, poderia comprometer no s o prprio Jack, como Alex tambm. No momento, Edimburgo fervilhava de estranhos; voluntrios 
para o estandarte do rei Jaime, visitantes curiosos do sul e do norte, enviados estrangeiros da Frana e da Espanha, espies e informantes em abundncia. As nicas 
pessoas nas ruas que no eram de fora eram os oficiais e homens da guarnio militar inglesa, que permanecia reclusa no castelo. Desde que ningum o ouvisse conversando 
comigo, ningum o reconheceria pelo que ele era, nem acharia nada de estranho em nossos encontros, ainda que fssemos vistos - e raramente o ramos, tais eram suas 
precaues.
        De minha parte, estava igualmente satisfeita; eu teria tido que destruir qualquer coisa colocada por escrito. Embora eu duvidasse que Jamie reconhecesse 
a caligrafia de Randall, eu no poderia explicar uma fonte regular de informaes sem mentir abertamente. Era bem melhor fazer parecer que as informaes que ele 
me dava eram somente parte da coleo de novidades que eu adquiria nas minhas rondas dirias.
        A desvantagem,  claro, era que ao tratar as contribuies de Randall  mesma luz dos outros boatos que eu coletava, elas podiam ser menosprezadas ou ignoradas. 
Ainda assim, embora eu acreditasse que Randall estivesse fornecendo informaes em boa-f - presumindo-se que fosse possvel manter tal conceito em relao ao sujeito 
-, no significava necessariamente que estivessem sempre corretas. Nem que devessem ser encaradas com ceticismo.
        Transmiti as notcias dos novos regimentos de Hawley com a costumeira pontada de culpa com a minha quase fraude. Entretanto, eu chegara  concluso de que 
embora a honestidade entre marido e mulher fosse essencial, no devia ser levada a terrveis extremos. E eu no via nenhuma razo pela qual o fornecimento de informaes 
teis para os jacobitas devesse causar mais sofrimento a Jamie.
        - O duque de Cumberland ainda est esperando suas tropas retornarem de Flandres - acrescentei. - E o cerco do Castelo Stirling no est indo a lugar nenhum.
        Jamie grunhiu, escrevendo rapidamente.
        - Isso eu sabia; lorde George recebeu um despacho de Francis Townsend h dois dias; ele domina a cidade, mas as trincheiras que Sua Alteza tanto insiste 
que sejam cavadas esto desperdiando tempo e homens. No h necessidade delas; seria melhor simplesmente atacar o castelo de longe com artilharia de canho e depois 
invadi-lo.
        - Ento, por que esto cavando trincheiras?
        Jamie abanou a mo distraidamente, ainda concentrado em seu documento. Suas orelhas estavam rseas de frustrao.
        - Porque o exrcito italiano cavou trincheiras quando tomaram o Castelo Verano, que  o nico cerco que Sua Alteza j viu, portanto, obviamente,  assim 
que deve ser feito, cerrrrto?
        - Oh, cerrrrto - eu disse, imitando seu sotaque.
        Funcionou; ele ergueu os olhos para mim e riu, os olhos oblquos quase se fechando.
        - Boa tentativa, Sassenach - ele disse. - O que mais voc tem para me dizer?
        - Contente-se com o padre-nosso em galico, est bem? - eu disse.
        - No - ele retrucou, espalhando areia sobre o despacho. Levantou-se, beijou-me rapidamente e pegou seu casaco. - Mas me contentarei com um jantar. Vamos, 
Sassenach. Encontraremos uma taverna aconchegante e confortvel e eu lhe ensinarei um monte de coisas que voc no deve dizer em pblico. Esto fresquinhas em minha 
cabea.
        Por fim, o Castelo Stirling caiu. O preo foi alto, as probabilidades de manter a ocupao eram pequenas e o benefcio de mant-la, questionvel. Ainda assim, 
o efeito em Carlos foi eufrico - e desastroso.
        - Consegui finalmente convencer Murray... aquele teimoso idiota! -Carlos aparteou, franzindo o cenho. Em seguida, lembrou-se de sua vitria e sorriu, radiante, 
 volta da sala outra vez. - Mas eu venci. Marchamos para a Inglaterra daqui a uma semana, para reclamar todas as terras do meu pai!
        Os chefes de cl escoceses reunidos na sala de visitas da manh se en-treolharam e viu-se um considervel ataque de tosse e agitao de ps. O estado de 
esprito geral no parecia ser de grande entusiasmo com a notcia.
        - Ha, Alteza - comeou lorde Kilmarnock, cautelosamente. - No seria mais prudente considerar...?
        Tentaram. Todos eles tentaram. A Esccia, ressaltaram, j pertencia a Carlos, com tudo que tinha de melhor. Do norte, continuavam a chegar homens em grandes 
nmeros, embora do sul parecesse haver pouca esperana de apoio. E os lordes escoceses tinham plena conscincia de que os homens das Highlands, ainda que guerreiros 
ferozes e leais partidrios, tambm eram fazendeiros. Os campos tinham que ser trabalhados para o plantio na primavera; o gado precisava de provises para passar 
o inverno. Muitos dos homens resistiriam a seguir avanando na direo sul nos meses de inverno.
        - E esses homens, no so meus sditos? No vo aonde eu lhes ordenar? Tolice - Carlos disse com firmeza. E ponto final. Ou quase.
        - James, meu amigo! Espere, quero falar com voc um instante em particular, por favor. - Sua Alteza virou-se de uma spera troca de palavras com lorde Pitsligo, 
o queixo longo e determinado abrandando-se um pouco ao acenar para Jamie.
        Achei que eu no estava includa no convite. Entretanto, no tinha a menor inteno de sair dali e instalei-me com mais firmeza em uma das cadeiras douradas 
e adamascadas, enquanto os lordes e chefes de cl jaco-bitas saam em fileira, conversando uns com os outros em voz baixa.
        - Ah! - Carlos estalou os dedos desdenhosamente na direo da porta que se fechava. - Parecem umas velhas, todos eles! Eles vo ver. Meu primo Lus tambm, 
e Filipe. Preciso da ajuda deles? Vou mostrar a todos eles. - Vi os dedos plidos, manicurados, tocarem rapidamente em um ponto logo acima do peito. Podia-se ver 
um leve contorno retangular atravs da seda de seu casaco. Ele carregava o retrato em miniatura de Louise; eu o vira.
        - Desejo a Vossa Alteza toda boa sorte no empreendimento - Jamie murmurou -, mas...
        - Ah, muito obrigado, cher James! Ao menos, voc acredita em mim! -Carlos lanou um dos braos em volta dos ombros de Jamie, massageando seus deltides afetuosamente.
        - Estou desolado por voc no me acompanhar, por voc no estar ao meu lado para receber os aplausos de meus sditos quando entrarmos marchando na Inglaterra 
- Carlos disse, apertando vigorosamente os msculos do ombro de James.
        - No vou? - Jamie parecia perplexo.
        - Ah, mon cher ami, o dever exige de voc um grande sacrifcio. Sei como seu enorme corao anseia pelas glrias da batalha, mas preciso de voc para outra 
tarefa.
        - Precisa? - Jamie disse.
        - O qu? - perguntei sem rodeios.
        Carlos lanou um olhar de desagrado, embora bem-educado, em minha direo, em seguida voltou-se novamente para Jamie e retomou a cordialidade.
        -  uma tarefa das mais importantes, James, e que s voc pode executar.  verdade que os homens esto aderindo em massa  luta de meu pai; chegam mais a 
cada dia. Ainda assim, no devemos descuidar da segurana, no ? Tive a sorte de que seus parentes, os MacKenzie, vieram em minha ajuda. Mas voc tem outro lado 
de sua famlia, no ?
        - No -Jamie disse, uma expresso de horror assomando ao seu rosto.
        - Mas claro que sim - disse Carlos, com um aperto final no ombro de Jamie. Girou nos calcanhares para encarar o amigo, com um sorriso radiante. - Voc ir 
para o norte, para a terra de seus parentes, e retornar para mim  frente dos homens do cl Fraser!
        
        
        
40 - A TOCA DA RAPOSA
        
        Voc conhece bem seu av? - perguntei, abanando a mo para afastar uma mutuca fora de estao que parecia incapaz de decidir-se se eu ou o cavalo daramos 
uma refeio melhor. Jamie sacudiu a cabea.
        - No. Ouvi dizer que ele age como um terrvel monstro velho, mas voc no deve ter medo dele. - Sorriu para mim enquanto eu atacava a mutuca com a ponta 
do meu xale. - Eu estarei com voc.
        - Ah, velhos rabugentos no me incomodam - assegurei-lhe. - Vi muitos desses na minha poca. No fundo so como manteiga, a maioria deles. Imagino que seu 
av seja bem parecido.
        - Mm, no - retrucou, pensativamente. - Ele realmente  um terrvel monstro velho. S que, se voc demonstrar medo dele, fica pior ainda. Como uma fera farejando 
sangue.
        Lancei um olhar para a imensido  nossa frente, onde as colinas distantes que ocultavam o Castelo Beaufort repentinamente assomaram de uma maneira um pouco 
sinistra. Aproveitando-se de minha momentnea falta de ateno, a mutuca deu um vo rasante junto  minha orelha esquerda. Soltei um gritinho agudo e esquivei-me 
para o lado, e o cavalo, assustado com esse movimento repentino, fez um movimento brusco.
        - Ei! Cuir stad! - Jamie lanou-se para o lado para agarrar as rdeas das minhas mos. Mais bem treinado do que minha montaria, seu cavalo relin-chou, mas 
acomodou essa manobra, apenas estremecendo as orelhas, de uma maneira complacente e arrogante.
        Jamie enfiou os joelhos nas laterais de seu cavalo, puxando o meu para uma parada ao lado do seu.
        - Bem - ele disse, os olhos estreitados seguindo o vo em ziguezague da mutuca, que zumbia desafiadoramente. - Deixe-a pousar, Sassenach, e eu a pegarei. 
- Ele esperou, as mos erguidas na posio certa, os olhos apertados contra a luz do sol.
        Fiquei parada como uma esttua ligeiramente nervosa, semi-hipnotizada pelo zumbido ameaador. O inseto de asas pesadas, enganadora-mente lento, continuava 
zumbindo de um lado para o outro entre as orelhas do cavalo e as minhas prprias. As orelhas do cavalo torciam-se de modo frentico, um impulso que eu podia compreender 
muito bem.
        - Se essa coisa pousar na minha orelha, Jamie, eu vou... - comecei a dizer.
        - Shhh! - ele ordenou, inclinando-se para frente na expectativa, a mo esquerda curvada como uma pantera pronta para o ataque. - Mais um segundo e eu a pegarei.
        Nesse instante, eu vi a pequena mancha escura pousar em seu ombro. Outra mutuca, procurando um lugar para se refestelar. Abri a boca outra vez.
        - Jamie...
        - Silncio! - Bateu as palmas das mos triunfalmente sobre meu torturador, uma frao de segundo antes que a mutuca em seu colarinho enfiasse os ferres 
em seu pescoo.
        Os homens dos cls escoceses lutavam de acordo com suas antigas tradies. Desdenhando a estratgia, a ttica e a sutileza, seu mtodo de ataque era simplesmente 
a prpria simplicidade. Detectando o inimigo dentro de seu alcance, deixavam cair os xales, sacavam a espada e avanavam para cima do inimigo, berrando a plenos 
pulmes. A gritaria galica sendo como , este mtodo em geral era bem-sucedido. Muitos inimigos, vendo a multido de banshees cabeludos, seminus, lanando-se sobre 
eles, simplesmente acovardavam-se e fugiam.
        Apesar de bem treinado como deveria ser, nada havia preparado o cavalo de Jamie para um grito galico classe A, proferido no mais alto volume de um ponto 
a sessenta centmetros acima de sua cabea. Apavorado, arremessou as orelhas para trs e disparou como se o prprio diabo estivesse atrs dele.
        Minha montaria e eu ficamos parados, paralisados, no meio da estrada, observando uma impressionante exibio da arte escocesa de equitao, conforme Jamie, 
os dois estribos perdidos e as rdeas soltas, quase lanado para fora de sua sela pela brusca arrancada do cavalo, arremessava-se desesperadamente para frente, procurando 
agarrar-se  crina do animal. Seu xale de xadrez tremulava loucamente ao seu redor, agitado pelo deslocamento do vento provocado por sua passagem, e o cavalo, completamente 
em pnico a essa altura, considerava o esvoaante tart colorido uma desculpa para correr mais ainda.
        Com uma das mos agarrada  longa crina, Jamie iava-se assustadoramente ereto, as pernas longas pressionadas com fora contra os flancos do cavalo, ignorando 
os estribos de metal que se sacudiam sob a barriga do animal. Fragmentos do que at meu galico limitado reconhecia como linguagem de baixssimo calo flutuavam 
de volta at mim trazidos pela brisa.
        Um som vagaroso, de batidas de cascos de cavalos, me fez olhar para trs, para onde Murtagh, conduzindo o cavalo de carga, surgia no cimo da pequena elevao 
que eu e Jamie acabramos de descer. Avanou com cuidado pela estrada, at o local onde eu o esperava. Devagar, levou o animal a uma parada total, protegeu os olhos 
com a mo e olhou para frente, para onde Jamie e sua montaria em pnico acabavam de desaparecer por cima do topo da colina seguinte.
        - Uma mutuca - eu disse,  guisa de explicao.
        - J  tarde para elas. Ainda assim, no pensei que ele estivesse com tanta pressa de reencontrar-se com seu av a ponto de deix-la para trs -Murtagh observou, 
com sua frieza habitual. - No que eu ache que uma mulher v fazer muita diferena em sua recepo.
        Pegou as rdeas e esporeou seu pnei, fazendo-o comear a se locomover com relutncia, e o cavalo de carga amistosamente o acompanhou. Minha prpria montaria, 
animada com a companhia e tranqilizada pela ausncia temporria de mutucas, alegremente ps-se a caminho ao lado deles.
        - Nem mesmo uma mulher inglesa? - perguntei com curiosidade. Pelo pouco que eu sabia, as relaes de lorde Lovat com qualquer coisa inglesa eram muito animadoras.
        - Inglesa, francesa, holandesa ou alem. Provavelmente, no faria muita diferena; vai ser o fgado do rapaz que a raposa velha vai comer no desjejum, no 
o seu.
        - O que quer dizer com isso? - Olhei fixamente para o circunspecto escocs, muito parecido a uma de suas prprias trouxas, sob as dobras frouxas de seu xale 
e de sua camisa. Por alguma razo, toda roupa que Murtagh vestia, por mais nova ou bem talhada que fosse, imediatamente assumia a aparncia de algo salvo por um 
triz de um monte de lixo.
        - Em que p esto as relaes de Jamie com lorde Lovat?
        Captei um olhar de soslaio de um olho preto, pequeno e astuto, e em seguida a cabea de Murtagh virou-se para o Castelo Beaufort. Encolheu os ombros, de 
resignao ou expectativa.
        - Absolutamente nenhum, at agora. O garoto nunca falou com seu av em toda a sua vida.
        - Mas como voc sabe tanto sobre ele se nunca se encontraram?
        Ao menos, eu estava comeando a compreender a relutncia inicial de Jamie em buscar a ajuda de seu av. Novamente ao lado de Jamie e seu cavalo, este ltimo 
com ar de quem foi severamente repreendido, e o primeiro um pouco irritado, Murtagh olhara especulativamente para Jamie e ofereceu-se para seguir na frente at Beaufort 
com o animal de carga, deixando Jamie e a mim para trs, almoando  beira da estrada.
        Enquanto fazamos uma restauradora refeio de cerveja e po de aveia, ele por fim contou-me que seu av, lorde Lovat, no aprovara a escolha de seu filho 
para esposa. Assim, achara melhor no abenoar a unio nem se comunicar mais com o filho - ou com os filhos de seu filho - depois do casamento de Brian Fraser e 
Ellen MacKenzie, h mais de trinta anos.
        - Mas ouvi falar muito dele, de uma maneira ou de outra - Jamie disse, mastigando um pedao de queijo. - Ele  o tipo de homem que causa uma forte impresso 
nas pessoas.
        - Foi o que ouvi. - O idoso Tullibardine, um dos jacobitas de Paris, me regalara com vrias opinies isentas de censura, relativas ao lder do cl Fraser 
e pensei que talvez Brian Fraser no tenha ficado desolado com o afastamento de seu pai. Disse isso a Jamie e ele balanou a cabea, concordando.
        - Ah, sim. No me lembro de meu pai ter muitos elogios a fazer ao velho, mas ele nunca foi desrespeitoso. Apenas no falava dele com freqncia. - Esfregou 
o lado do pescoo, onde uma marca vermelha produzida pela mordida da mutuca comeava a empolar. O tempo estava estranhamente quente e ele estendera seu xale para 
eu me sentar. A misso junto ao chefe do cl Fraser foi considerada merecedora de algum investimento na dignidade da aparncia e Jamie usava um kilt novo, de corte 
militar, preso com fivela, o xale uma tira de pano em separado. Menos apropriado para se abrigar das intempries do que o modelo antigo, um longo xale preso apenas 
por um cinto era bem mais eficiente para ser vestido s pressas.
        - Eu s vezes me perguntava - ele disse pensativamente - se meu pai era o tipo de pai que era por causa da maneira como o Velho Simon o tratara. Eu no percebia 
isso na poca,  claro, mas no  muito comum para um homem demonstrar seus sentimentos em relao aos filhos.
        - Voc pensou muito sobre isso. - Ofereci-lhe mais cerveja e ele retribuiu com um sorriso que se demorou sobre mim, mais quente do que o sol fraco do outono.
        - Sim, pensei. Eu imaginava que tipo de pai eu seria para meus prprios filhos e, olhando um pouco para trs, meu pai era o melhor exemplo que eu tinha. 
No entanto, eu sabia, pelo pouco que ele dissera, ou que Murtagh me dissera, que seu prprio pai no era absolutamente como ele. Assim, pensei em como ele deve ter 
decidido fazer tudo diferente, quando tivesse a chance.
        Suspirei, deixando meu pedao de queijo.
        - Jamie - eu disse. - Voc realmente acha que ns um dia...
        - Acho - ele disse, com segurana, sem me deixar terminar a frase. Inclinou-se e beijou-me na testa. - Eu sei que sim, Sassenach, e voc tambm
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        sabe. Voc nasceu para ser me e eu certamente no pretendo deixar ningum mais ser o pai de seus filhos.
        - Bem, isso  timo - eu disse. - Eu tambm no.
        Ele riu e ergueu meu queixo para me beijar nos lbios. Correspondi ao seu beijo, depois ergui a mo para tirar um farelo de po que grudara ao redor de sua 
boca, nos plos curtos da barba por fazer.
        - Voc deveria fazer a barba, no acha? - eu disse. - Em homenagem ao primeiro encontro com seu av.
        - Ah, eu j o vi uma vez antes - ele disse despreocupadamente. - E ele me viu, tambm. Quanto ao que ele possa achar da minha aparncia agora, ele pode me 
aceitar como sou e ir para o inferno.
        - Mas Murtagh disse que voc nunca se encontrou com ele!
        - Muhm. - Ele limpou o resto dos farelos do peito da camisa, franzindo a testa ligeiramente, como se decidisse o quanto deveria me contar. Finalmente, deu 
de ombros e deitou-se na sombra de um arbusto de tojo, as mos entrelaadas atrs da cabea, fitando o cu.
        - Bem, ns nunca nos encontramos de verdade. Bem, no exatamente. Foi assim...
        Aos dezessete anos, o jovem Jamie Fraser zarpou para a Frana, para terminar sua educao na Universidade de Paris e para aprender outras coisas que no 
so ensinadas nos livros.
        - Parti do porto de Beauly - ele disse, balanando a cabea na direo da prxima colina, onde uma estreita faixa cinza no horizonte longnquo marcava a 
beira do esturio Moray. - Havia outros portos por onde eu poderia sair, Inverness seria o mais provvel, mas meu pai reservou minha passagem e era de Beauly. Ele 
cavalgou comigo at l, para me ver partir para o mundo, pode-se dizer.
        Brian Fraser raramente deixara Lallybroch nos anos seguintes a seu casamento e, enquanto cavalgavam, comprazia-se em mostrar vrios locais a seu filho, onde 
ele havia caado ou viajado quando era menino ou rapaz.
        - Mas ele ficou muito quieto quando nos aproximamos de Beaufort. Ele no falara sobre meu av nessa viagem e eu sabia que era melhor eu mesmo no tocar no 
assunto. Mas sei que ele tinha uma razo para me fazer partir de Beauly.
        Vrios pardais pequenos aproximaram-se cuidadosa e paulatinamente, entrando e saindo das moitas baixas, prontos a partirem como uma flecha de volta para 
a segurana ao mais leve indcio de perigo. Vendo-os, Jamie pegou um pedao de po que sobrara e atirou-o com grande preciso no meio do bando, que explodiu como 
metralha, todos fugindo da repentina intruso.
        - Eles voltaro - ele disse, indicando os pssaros espalhados. Colocou o brao sobre o rosto, como para proteg-lo do sol, e continuou com sua histria.
        - Ouviu-se um barulho de cavalos ao longo da estrada que saa do castelo e quando nos viramos para ver, havia um pequeno grupo se aproximando, seis cavaleiros 
com uma carroa, e um deles carregava o estandarte de Lovat; assim, eu sabia que meu av estava entre eles. Olhei rapidamente para meu pai, para ver se ele pretendia 
fazer alguma coisa, mas ele apenas sorriu, deu um leve aperto no meu ombro e disse: "Vamos embarcar, ento, rapaz."
        "Eu podia sentir os olhos de meu av em mim enquanto descia pela costa, com meus cabelos e minha altura, berrando: "MacKenzie", e fiquei satisfeito de estar 
com as minhas melhores roupas e no parecer um mendigo. No olhei  volta, mas mantive-me o mais aprumado possvel e tive orgulho de ser meia cabea mais alto do 
que o homem mais alto l. Meu pai caminhou ao meu lado, com seu jeito quieto, e tambm no olhou para os lados, mas pude senti-lo ali, orgulhoso de ter me gerado."
        Ele sorriu para mim, um sorriso enviesado.
        - Essa foi a ltima vez que eu tive certeza que o fiz ter orgulho de mim, Sassenach. Tempos depois, eu no tive tanta certeza, mas fiquei feliz com aquele 
dia.
        Enlaou os joelhos com os braos, olhando fixamente para frente, como se revivesse a cena no cais.
        - Entramos no navio e fomos recebidos pelo mestre, depois ficamos junto  balaustrada, conversando um pouco  toa, ambos tomando cuidado para no olhar para 
os homens de Beaufort que embarcavam a carga ou olhar para a costa onde estavam os cavaleiros. Ento, o mestre deu as ordens para soltarem as amarras. Beijei meu 
pai e ele saltou por cima da balaustrada, para a doca, e caminhou para seu cavalo. Ele s olhou para trs quando estava montado e a essa altura o navio j partia 
para a enseada.
        "Eu acenei e ele acenou de volta, depois se virou, puxando meu cavalo, e pegou a estrada de volta a Lallybroch. Ento, o grupo de Beaufort virou-se tambm 
e comeou a voltar. Pude ver meu av  frente do grupo, aprumado na sela. E eles cavalgaram, meu pai e meu av, a vinte metros de distncia um do outro, pela colina 
acima e depois dela, fora do alcance de minha vista, e nenhum dos dois voltou-se para o outro nem agiu sequer como se o outro estivesse ali."
        Virou a cabea para a estrada, como se buscasse sinais de vida da direo de Beaufort.
        - Nossos olhos se encontraram uma nica vez. Esperei at meu pai chegar ao seu cavalo, depois me virei e olhei para lorde Lovat, o mais ousadamente que eu 
pude. Queria que ele soubesse que no queramos nada dele e que eu no tinha medo dele. - Sorriu para mim, de um lado s. -Mas eu tinha.
        Coloquei a mo sobre a dele, acariciando os ns dos seus dedos.
        - Ele estava olhando para voc? Soltou um riso irnico.
        - Sim, estava. Acho que ele no tirou os olhos de mim do momento em que eu desci a colina at meu navio zarpar; podia senti-los perfurando minhas costas 
como verrumas. E quando olhei para ele, l estava ele, com seus olhos negros sob as sobrancelhas, fitando os meus.
        Ficou em silncio, ainda olhando para o castelo, at eu cutuc-lo delicadamente.
        - Como ele era, ento?
        Tirou os olhos da massa de nuvens escuras no horizonte longnquo para olhar para mim, a habitual expresso de bom humor ausente da curva de sua boca, das 
profundezas de seus olhos.
        - Frio como pedra, Sassenach. Frio como pedra.
        Ns tivemos sorte com o tempo; esteve quente o dia inteiro, desde Edimburgo.
        - No vai durar muito - Jamie previu, estreitando os olhos em direo ao mar  frente. - Est vendo o aglomerado de nuvens l longe? Ele estar em terra 
firme at hoje  noite. - Farejou o ar e enrolou o xale nos ombros. - Sente o cheiro do ar? Pode-se sentir a chuva se aproximando.
        No to experiente em meteorologia olfativa, ainda assim achei que eu realmente podia sentir o cheiro; uma umidade no ar, aguando os aromas comuns de resina 
de pinheiro e urzes secas, misturados a um odor leve e mido de algas-marinhas da orla distante.
        - Ser que os homens j chegaram de volta a Lallybroch? - perguntei.
        - Duvido. - Jamie sacudiu a cabea. - Eles tm uma distncia menor a percorrer do que ns, mas esto a p e deve estar sendo difcil todos prosseguirem juntos. 
- Ergueu-se em seus estribos, protegendo os olhos para examinar a distante camada de nuvens. - Espero que seja apenas chuva, no vai atrapalh-los muito. De qualquer 
forma, no dever ser uma forte tempestade. Talvez no chegue to longe ao sul.
        Puxei meu arisaid, um quente xale de tart, mais apertado em volta dos meus prprios ombros, em reao  brisa crescente. Eu havia considerado o tempo ameno 
daquela viagem de poucos dias um bom pressgio; esperava que no tivesse sido um engano.
        Jamie passara uma noite inteira sentado junto  janela em Holyrood, depois de receber a ordem de Carlos. Pela manh, ele primeiro foi ver Carlos, para dizer 
a Sua Alteza que ele e eu cavalgaramos sozinhos para Beauty, acompanhados apenas de Murtagh, para transmitir as saudaes de Sua Alteza a lorde Lovat, e seu pedido 
de que Lovat honrasse sua promessa de homens e ajuda.
        Em seguida, Jamie convocou Ross, o ferreiro, a nosso quarto e lhe deu suas ordens, numa voz to baixa que eu no pude compreender o que ele dizia de meu 
lugar junto  lareira. Mas vi os ombros do musculoso ferreiro se aprumarem e permanecerem firmes enquanto ele absorvia suas instrues.
        O exrcito das Highlands viajava com pouca disciplina, um bando desordenado de gente comum do povo, que dificilmente poderia ser dignificado com o ttulo 
de "coluna". No decurso de um dia de marcha, os homens de Lallybroch deveriam ir abandonando o grupo, um a um. Desgarrando-se para dentro de um bosque como se fossem 
descansar por um instante ou se aliviar, no deveriam voltar para o grupo principal, mas afastarem-se silenciosamente e seguirem seu caminho, um a um, para um local 
de encontro com os outros homens de Lallybroch. Uma vez reunidos outra vez sob o comando do ferreiro Ross, deveriam ir para casa.
        - Duvido que a ausncia deles seja percebida durante algum tempo, se  que ser percebida. - Jamie dissera, discutindo o plano comigo antes de falar com 
Ross. - A desero  grande, em todo o exrcito. Ewan Cameron disse-me que havia perdido vinte homens de seu regimento na ltima semana.  inverno e os homens querem 
preparar suas casas e tomar as providncias para o plantio na primavera. De qualquer forma, os comandantes no podem abrir mo de ningum para ir atrs deles, mesmo 
que sua ausncia seja notada.
        - Ento, voc desistiu, Jamie? - eu perguntara, colocando a mo em seu brao. Ele esfregou o rosto de modo cansado antes de responder.
        - No sei, Sassenach. Pode ser tarde demais; pode no ser. No sei dizer. Foi tolice ir para o sul to perto do inverno; e mais tolice ainda perder tempo 
no cerco a Stirling. Mas Carlos no foi derrotado e alguns chefes esto vindo, atendendo  sua convocao. Os MacKenzie, agora, e outros por causa deles. Ele tem 
o dobro de homens hoje do que tinha em Preston. O que isso significar? - Lanou as mos para cima, num gesto de frustrao.
        - No sei. No h oposio. Os ingleses esto aterrorizados. Bem, voc sabe; voc viu os cartazes. - Sorriu, um sorriso forado. - Colocamos criancinhas 
no espeto e assamos na brasa e desonramos as mulheres e filhas de homens honestos. - Fez um muxoxo de irnica repugnncia. Embora crimes como roubo e insubordinao 
fossem comuns no exrcito das Highlands, o estupro era de fato desconhecido. Suspirou, um som breve e irado.
        - Cameron ouviu um boato de que o rei Jorge est se preparando para fugir de Londres, com medo de que o exrcito do prncipe v tomar a cidade em breve. 
- Ele ouvira, na verdade, um boato que chegara a Cameron atravs de mim, que ouvira de Jack Randall. - E l esto Kilmarnock e Cameron. Lochiel e Balmerino, e Dougal, 
com seus MacKenzie. Guerreiros do prncipe, todos eles. E se Lovat enviar os homens que prometeu... meu Deus, talvez seja suficiente. Se invadirmos Londres... - 
Encolheu os ombros, depois esticou-os repentinamente, estremecendo como se quisesse sair de uma camisa muito apertada.
        - Mas no posso correr o risco - disse simplesmente. - No posso ir para Beauly e deixar meus homens aqui, para serem levados Deus sabe para onde. Se eu 
estivesse l para comand-los, seria diferente. Mas no vou deix-los para que Carlos ou Dougal os atirem sobre os ingleses, e eu a cento e sessenta quilmetros 
de distncia, em Beauly.
        Assim ficou planejado. Os homens de Lallybroch - inclusive Fergus, que protestara clamorosamente, mas fora rejeitado - desertariam e partiriam para casa 
discretamente. Logo que nossa misso em Beauy estivesse terminada e tivssemos voltado a nos reunir com Carlos - bem, ento j teria havido tempo suficiente para 
ver como a situao estava evoluindo.
        -  por isso que estou levando Murtagh conosco - Jamie explicara. - Se tudo parecer bem, eu o enviarei a Lallybroch para levar os homens de volta. - Um breve 
sorriso iluminou seu rosto sombrio. - Ele no parece grande coisa sobre um cavalo, mas  um excelente cavaleiro. Veloz como um raio.
        No momento, ele no parecia, refleti, mas agora, por outro lado, no havia nenhuma emergncia. De fato, ele avanava mais devagar do que de costume; quando 
chegamos ao topo de uma colina, pude v-lo l embaixo, parando o cavalo. Quando o alcanamos, ele havia apeado e examinava a sela do cavalo de carga.
        - O que houve? -Jamie fez meno de descer de sua prpria sela, mas Murtagh desencorajou-o com um gesto irritado da mo.
        - No, no, nada com que se preocupar. Uma das cordas se partiu. Vo em frente.
        Apenas com um sinal da cabea em concordncia, Jamie puxou as rdeas e continuou em frente, e eu o segui.
        - Ele no est muito bem-humorado hoje, no ? - observei, abanando a mo rapidamente para trs, em direo de Murtagh. De fato, o pequeno escocs ficava 
mais irritado e impaciente a cada passo na direo de Beauly. - Ele no est muito animado com a perspectiva de visitar lorde Lovat, no ?
        Jamie sorriu, com um breve olhar para trs, para a figura pequena e escura, inclinada em profunda concentrao sobre a corda que ele estava emendando.
        - No, Murtagh no  nem um pouco amigo do Velho Simon. Ele amava meu pai - sua boca curvou-se num trejeito enviesado - e minha me tambm. E no gostava 
do tratamento que Lovat lhes dispensava. Ou dos mtodos de Lovat de obter esposas. Murtagh tem uma av irlandesa, mas ele tem parentesco com Primrose Campbell pelo 
lado de sua me -ele explicou, como se isso tornasse tudo muito claro.
        - Quem  Primrose Campbell? - perguntei, confusa.
        - Ah. - Jamie coou o nariz, pensando. O vento que soprava do mar intensificava-se e aoitava seus cabelos, soltando-os da tira que os amarrava e fazendo 
pequenas mechas ruivas tremularem pelo seu rosto.
        - Primrose Campbell foi a terceira mulher de Lovat... ainda , suponho, embora ela o tenha deixado h alguns anos e voltado para a casa de seus pais.
        - Popular com as mulheres, hein? - murmurei.
        Jamie soltou um riso desdenhoso.
        - Suponho que possa dizer que sim. Arranjou sua primeira mulher com um casamento forado. Arrancou a viva e herdeira lady Lovat da cama no meio da noite, 
casou-se com ela ali mesmo e voltou direto para a cama com ela outra vez. Mesmo assim - ele acrescentou, com imparcialidade -, ela mais tarde resolveu que o amava, 
de modo que talvez ele no fosse to ruim.
        - Deve ter sido especial na cama, pelo menos - eu disse, de forma irreverente. -  de famlia, eu acho.
        Ele me lanou um olhar ligeiramente chocado, que se dissolveu num sorriso tmido.
        - Sim, bem - ele disse. - Se era ou no, isso no o ajudou muito. As criadas da viva o denunciaram e Simon foi obrigado a fugir para a Frana.
        Casamentos forados e fugitivo da lei, hein? Abstive-me de fazer mais comentrios sobre semelhanas familiares, mas particularmente confiava em que Jamie 
no seguiria os passos do av com relao a esposas subseqentes. Aparentemente, uma no fora suficiente para Simon.
        - Ele foi visitar o rei Jaime em Roma e jurou sua fidelidade aos Stuart - Jamie continuou. Depois virou as costas e foi direto falar com Guilherme de Orange, 
rei da Inglaterra, que estava em visita  Frana. Fez com que Jaime lhe prometesse seu ttulo e propriedades, caso uma restaurao da dinastia Stuart ocorresse, 
e depois, s Deus sabe, obteve um perdo total de Guilherme e pde voltar para casa na Esccia.
        Agora foi a minha vez de erguer as sobrancelhas. Aparentemente, no se tratava apenas de atrao pelo sexo oposto, ento.
        Simon continuara suas aventuras voltando posteriormente para a Frana, desta vez para espionar os jacobitas. Tendo sido descoberto, foi atirado na priso, 
mas conseguiu fugir, retornou  Esccia, engendrou a reunio dos cls sob o disfarce de uma caada em Braes of Mar em 1715 - e depois conseguiu obter todo o crdito 
junto  Coroa inglesa por sufocar a revoluo resultante.
        - Um velhaco mentiroso, hein? - eu disse, completamente intrigada. - Embora eu suponha que ele no pudesse ser muito velho na poca, talvez uns quarenta 
e poucos anos. - Tendo ouvido que lorde Lovat estava agora com cerca de setenta e cinco anos, eu esperava algum bastante envelhecido e decrpito, mas estava revendo 
rapidamente minhas expectativas, em vista dessas histrias.
        - Meu av - Jamie observou sem se alterar - possui, segundo todos que o conhecem, um carter que lhe permitiria esconder-se convenientemente atrs de uma 
escada em espiral. De qualquer modo - continuou, descartando o carter de seu av com um abano da mo -, ele ento se casou com Margaret Grant, filha de Grant o' 
Grant. Depois que ela morreu, ele se casou com Primrose Campbell. Ela devia ter mais ou menos dezoito anos na poca.
        - O Velho Simon era um partido to bom para sua famlia for-la a casar-se com ele? - perguntei, compreensivamente.
        - De modo algum, Sassenach. - Ele fez uma pausa para afastar os cabelos do rosto, enfiando as mechas soltas atrs das orelhas. - Ele sabia muito bem que 
ela no iria quer-lo, ainda que fosse rico como Creso, o que ele no era. Assim, ele enviou-lhe uma carta, dizendo que a me dela adoecera em Edimburgo e dando 
o endereo da casa aonde ela deveria ir.
        Dirigindo-se s pressas para Edimburgo, a jovem e bela srta. Campbell encontrou no sua me, mas o velho e engenhoso Simon Fraser, que lhe informou que ela 
estava numa famosa casa de prazer e que sua nica esperana de preservar seu bom nome era casando-se com ele imediatamente.
        - Ela devia ser muito idiota para cair nessa cilada - observei sarcastica-mente.
        - Bem, ela era muito nova - Jamie disse, defendendo-a -, e no era uma ameaa vazia, no; se ela o tivesse recusado, o Velho Simon teria arruinado sua reputao 
sem pensar duas vezes. De qualquer forma, ela se casou com ele... e se arrependeu.
        - Hum. - Eu estava ocupada, fazendo contas mentalmente. O encontro com Primrose Campbell havia sido h apenas alguns anos, ele dissera. Ento... - Sua av 
foi a viva lady Lovat ou Margaret Grant? - perguntei, curiosa.
        As mas do rosto altas estavam ressecadas pelo vento e pelo sol; neste momento, uma vermelhido, repentina e penosa, inundou-as.
        - Nenhuma das duas - ele disse. No olhou para mim, mas manteve o olhar fixo direto  frente, na direo do Castelo Beaufort. Seus lbios estavam cerrados 
com fora.
        - Meu pai era bastardo - ele disse finalmente. Sentou-se ereto como uma espada na sela e os ns de seus dedos estavam brancos, a mo agarrada s rdeas. 
- Reconhecido, mas bastardo. Filho de uma das criadas do Castelo Downie.
        - Oh - eu disse. No parecia haver muito a acrescentar.
        Ele engoliu em seco; pude ver a ondulao em sua garganta.
        - Devia ter lhe contado antes - ele disse, com dificuldade. - Desculpe-me.
        Estendi a mo e toquei em seu brao; estava duro como ao.
        - No tem importncia, Jamie - eu disse, sabendo, no instante mesmo em que falava, que nada do que eu dissesse poderia fazer diferena. - No ligo a mnima.
        - Ah, ? - ele disse finalmente, ainda com o olhar fixo  frente. -Bem... eu ligo.
        O vento cada vez mais fresco que soprava do esturio Moray murmurava por uma encosta de pinheiros escuros. A regio era uma estranha combinao de vertentes 
de montanhas e litoral. Uma densa extenso de carvalhos, larcios e vidoeiros cobria o terreno dos dois lados do caminho estreito que seguamos, mas quando nos aproximvamos 
da figura escura do Castelo Beaufort, sobre tudo flutuava o eflvio de lamaais e algas marinhas.
        ramos, de fato, esperados; as sentinelas de guarda no porto, trajando seus kilts e armadas com machados, no opuseram nenhum obstculo  nossa entrada. 
Olharam-nos com muita curiosidade, mas aparentemente sem nenhuma animosidade. Jamie sentava-se empertigado como um rei em sua sela. Ele balanou a cabea uma vez 
para o homem ao seu lado e recebeu um sinal semelhante em resposta. Eu tinha a distinta sensao de que entrramos no castelo levando uma bandeira branca de trgua; 
s no sabamos quanto tempo essa trgua iria durar.
        706
        Continuamos a cavalgar, sem sermos interpelados, pelo ptio do Castelo Beaufort, um edifcio pequeno em se tratando de um castelo, mas ainda assim bastante 
imponente, construdo com as pedras da regio. No to fortificado quanto alguns dos castelos que eu vira ao sul, mesmo assim parecia capaz de resistir a uma boa 
dose de abraso. As aberturas para canhes abriam suas grandes bocas a intervalos ao longo da base das muralhas externas e a fortaleza ainda ostentava uma entrada 
de estbulo aberta para o ptio.
        Vrios dos pequenos pneis das Highlands estavam abrigados ali, as cabeas projetando-se das meias-portas de madeira para relinchar em boas-vindas aos nossos 
prprios cavalos. Junto  parede, viam-se vrias trouxas, pacotes e malas, recentemente descarregados dos pneis no estbulo.
        - Lovat convocou alguns homens para nos receberem - Jamie observou asperamente, observando as bagagens. - Parentes, espero. - Deu de ombros. - Ao menos no 
comeo sero bem amistosos.
        - Como sabe?
        Ele deslizou para o cho e estendeu os braos para me ajudar a descer.
        - Deixaram as espadas com a bagagem.
        Jamie entregou as rdeas para um cavalario que saiu do estbulo e veio em nossa direo, limpando as mos nas calas.
        - H, e agora? - murmurei para Jamie. No havia nenhum sinal de uma castel ou de um mordomo; nada semelhante  figura alegre e investida de autoridade da 
sra. FitzGibbons que nos recebera no Castelo Leoch h dois anos.
        Os poucos cavalarios e ajudantes de estbulo que estavam por ali nos olhavam de vez em quando, mas continuavam com seus afazeres, assim como os criados 
que atravessavam o ptio, carregando cestos de roupa lavada, maos de turfa e todas as outras volumosas parafernlias que a vida em um castelo de pedras exigia. 
Olhei com ar de aprovao para um homem musculoso suando sob o fardo de dois vasilhames de cobre, de cinco gales cada, de gua. Quaisquer que fossem as deficincias 
no departamento de hospitalidade, o Castelo Beaufort ao menos dispunha de uma banheira em algum lugar.
        Jamie ficou parado no centro do ptio, os braos cruzados, inspecionando o lugar como um possvel comprador de propriedades que alimentava srias dvidas 
quanto aos drenos.
        - Agora, ns esperamos, Sassenach - ele disse. - As sentinelas devem ter mandado avisar que estamos aqui. Ou algum vir nos receber... ou no.
        - Hum - eu disse. - Bem, espero que se decidam logo; estou com fome e precisando de um banho.
        - Est mesmo - Jamie concordou, com um breve sorriso enquanto me examinava. - Est com uma mancha de fuligem no nariz e vrias flores de cardo emaranhadas 
em seus cabelos. No, deixe-as - ele acrescentou, quando levei a mo aos cabelos, horrorizada. - Esto bonitos, voc fez isso de propsito ou no?
        Definitivamente, no, mas deixei-as. Mesmo assim, afastei-me furtivamente at um cocho de gua, para inspecionar minha aparncia e remedi-la at onde fosse 
possvel usando apenas gua fria.
        Era uma situao um pouco delicada, no que dizia respeito ao Velho Simon Fraser, pensei, inclinando-me sobre o cocho e tentando descobrir quais manchas na 
minha imagem refletida eram realmente de sujeira e quais eram causadas por pedacinhos flutuantes de feno.
        Por um lado, Jamie era um emissrio formal dos Stuart. Se as promessas de Lovat de apoio  causa eram sinceras ou apenas conversa fiada, as chances eram 
de que ele se sentiria obrigado a dar as boas-vindas ao enviado do prncipe, ainda que apenas por cortesia.
        Por outro lado, o dito representante era um neto de ascendncia ilegtima que, se no exatamente ele mesmo um renegado, com certeza no era tampouco um membro 
ntimo da famlia. E a essa altura eu conhecia o suficiente a respeito dos feudos das Highlands para saber que hostilidades desse tipo eram improvveis de diminuir 
com o passar do tempo.
        Passei a mo molhada pelos meus olhos fechados e pelas tmporas, alisando alguns tufos de cabelos desgrenhados. Tudo considerado, eu no achava que lorde 
Lovat iria nos deixar esperando de p no ptio. Ele poderia, entretanto, deixar-nos ali tempo suficiente para compreendermos inteiramente a natureza dbia de nossa 
recepo.
        Depois disso - bem, quem poderia saber? Seramos muito provavelmente recebidos por lady Francs, uma das tias de Jamie, uma viva que -de tudo que ouvramos 
de Tullibardine - administrava os assuntos domsticos para seu pai. Ou, se ele decidisse nos receber como uma representao diplomtica em vez de conexes familiares, 
imaginei que o prprio lorde Lovat apareceria para nos receber, formalmente escudado pela panpa de secretrio, guardas e criados.
        Essa ltima possibilidade parecia a mais provvel, tendo em vista o tempo que estava levando; afinal, voc no iria manter uma comitiva para-mentada o tempo 
todo de prontido - era necessrio algum tempo para reunir adequadamente as pessoas necessrias. Visualizando a repentina apario de um nobre seguido de um squito 
completo, fiquei em dvida sobre deixar flores de cardo emaranhadas em meus cabelos e inclinei-me sobre o cocho outra vez.
        Nesse momento, fui interrompida pelo som de passos no caminho atrs das manjedouras. Um homem de idade, troncudo, com a camisa aberta e as calas desafiveladas, 
entrou no ptio, afastando para o lado uma gua gorda, de cor castanha, com uma cotovelada e uma exclamao irritada. Apesar da idade, tinha as costas retas como 
uma vareta de arma de fogo e ombros quase to largos quanto os de Jamie.
        Parando junto ao cocho dos cavalos, olhou ao redor do ptio como se procurasse algum. Seus olhos passaram por mim sem registrar minha presena, depois voltaram 
de repente, obviamente espantados. Deu um passo adiante e empurrou o rosto belicosamente para a frente, a barba grisalha por fazer espetada como um porco-espinho.
        - Quem diabos  voc? - perguntou.
        - Claire Fraser, h, quero dizer, lady Broch Tuarach - eu disse, tardiamente me lembrando de minha posio. Reuni todo o meu autocontrole e limpei uma gota 
d'gua do meu queixo. - Quem diabos  voc? - perguntei.
        A mo firme de Jamie agarrou meu cotovelo por trs e uma voz resignada de algum lugar acima de minha cabea disse:
        - Este, Sassenach,  meu av. Senhor, posso apresentar-lhe a minha mulher?
        - Hein? - exclamou lorde Lovat, concedendo-me o benefcio de um frio olho azul. - Ouvi dizer que voc se casou com uma inglesa. - Seu tom de voz deixou claro 
que esse ato confirmava suas piores suspeitas a respeito do neto que ele nunca conhecera.
        Ele ergueu uma sobrancelha espessa e grisalha em minha direo e voltou o olhar de verruma para Jamie.
        - To sem juzo quanto o pai, ao que parece.
        Pude notar as mos de Jamie contorcerem-se ligeiramente, resistindo a necessidade de cerrar os punhos.
        - Pelo menos, no tive necessidade de arranjar uma mulher por estupro ou trapaa - ele observou sem alterar a voz.
        Seu av grunhiu, sem se deixar abalar pelo insulto. Pensei ter visto o canto de sua boca enrugada se torcer, mas no tive certeza.
        - Sim, e de pouco lhe valeu esse negcio que voc fez - ele observou. - Embora, quanto a isso, esta  menos cara do que aquela vagabunda MacKenzie por quem 
seu pai se enrabichou. Se esta vadia sassenach no lhe traz nada, ao menos tem a aparncia de quem lhe custa pouco. - Os olhos oblquos azuis, to parecidos com 
os de Jamie, percorreram meus trajes sujos da viagem, observando a bainha desfeita, a costura arrebentada e os respingos de lama na saia.
        Pude sentir uma leve vibrao percorrer o corpo de Jamie e no soube ao certo se era raiva ou riso.
        - Obrigada - eu disse, com um sorriso amistoso para o senhor de Lovat. - No como muito, tambm. Mas gostaria de me lavar um pouco. Apenas gua; no se preocupe 
com sabo, se for muito caro.
        Desta vez, tive certeza a respeito do movimento do canto da boca.
        - Sim, sei - disse o senhor de Lovat. - Mandarei uma criada ir atend-la em seus aposentos, ento. E lhe fornecerei o sabo. Ns os veremos na biblioteca 
antes do jantar... neto - ele acrescentou para Jamie e, girando nos calcanhares, desapareceu de novo sob a passagem em arco.
        - Quem  ns? - perguntei.
        - O Jovem Simon, eu suponho - Jamie respondeu. - O herdeiro do senhor de Lovat. Um ou dois primos desgarrados, talvez. E alguns colonos, eu imagino, a julgar 
pelos cavalos no ptio. Se Lovat pensa em mandar tropas para se unir aos Stuart, seus colonos e arrendatrios devem ter algo a dizer sobre o assunto.
        - J viu uma minhoca pequena no terreiro, no meio de um bando de galinhas? - ele murmurou quando percorramos o corredor uma hora mais tarde, atrs de um 
criado. - Sou eu... ou ns, melhor dizendo. Fique perto de mim, agora.
        As vrias conexes do cl Fraser estavam de fato reunidas; quando fomos introduzidos  biblioteca do Castelo Beaufort, deparamo-nos com mais de vinte homens 
sentados pelo aposento.
        Jamie foi adequadamente apresentado e fez um discurso formal, em nome dos Stuart, transmitindo os cumprimentos do prncipe Carlos e do rei Jaime a lorde 
Lovat e solicitando a sua ajuda. Ao discurso, lorde Lovat respondeu de forma rpida, eloqente e evasiva. Uma vez cumpridas as formalidades da etiqueta, fui ento 
levada  frente e apresentada, depois do que o ambiente ficou mais relaxado.
        Fui cercada por vrios cavalheiros das Highlands, que se revezavam trocando palavras de boas-vindas comigo, enquanto Jamie conversava com algum de nome 
Graham, que parecia ser primo de lorde Lovat. Os colonos me olhavam com uma certa reserva, mas todos mostraram-se gentis - com uma nica exceo.
        O Jovem Simon, muito parecido com seu pai na silhueta troncuda, mas quase cinqenta anos mais novo, adiantou-se e fez uma mesura sobre a minha mo. Endireitando-se, 
examinou-me de alto a baixo com uma intensidade que chegou s raias da falta de educao.
        - Mulher de Jamie, hum? - ele perguntou. Possua os mesmos olhos rasgados de seu pai e de seu sobrinho, mas os dele eram castanhos, da cor de um lamaal. 
- Acho que isso significa que posso cham-la de "sobrinha", no? - Tinha aproximadamente a idade de Jamie, claramente alguns anos mais novo do que eu.
        - Hum-hum - eu disse educadamente, enquanto ele ria de sua prpria esperteza. Tentei retirar minha mo, mas ele no queria solt-la. Em vez disso, sorriu 
jovialmente, lanando-me aquele olhar de cima a baixo outra vez.
        - J ouvi falar de voc, sabe - ele disse. -  bastante famosa nas High-lands, madame.
        - Ah,  mesmo? Que gentileza. - Puxei a mo discretamente; em resposta, sua mo apertou-se ainda mais em torno da minha, quase a ponto de doer.
        - Ah, sim. Ouvi dizer que  muito popular entre os homens sob o comando de seu marido - ele disse, sorrindo com tanta nfase que seus olhos transformaram-se 
em duas fendas marrom-escuras. - Eles a chamam de neo-geimnidh meala, eu soube. Significa "senhora dos lbios de mel", ele traduziu, vendo meu olhar confuso diante 
do galico pouco familiar.
        - Ora, obrigada... - comecei, mas foi tudo que consegui dizer antes do punho de Jamie atingir em cheio o maxilar de Simon filho e enviar seu tio girando 
de encontro a uma mesa de tortas, espalhando doces e talheres pelas pedras polidas do assoalho com uma barulhada terrvel.
        Ele se vestia como um cavalheiro, mas possua os instintos de um lutador. O Jovem Simon girou sobre os joelhos, os punhos em riste, e ficou ali paralisado. 
Jamie olhou-o de cima, os punhos cerrados, mas abaixados, seu silncio e imobilidade mais ameaadores do que palavras ou gestos.
        - No - ele disse sem se alterar -, ela no compreende bem o galico. E agora que voc o demonstrou para satisfao de todos, vai pedir desculpas gentilmente 
a minha mulher, antes que eu enfie seus dentes goela abaixo. - O Jovem Simon olhou para cima, para Jamie, com raiva, depois olhou para o lado, para o pai, que assentiu 
imperceptivelmente, parecendo impaciente com esta interrupo. Os cabelos negros e cheios do Jovem Simon haviam se soltado da fita que os prendia e espalhavam-se 
como musgo ao redor de seu rosto. Analisou Jamie cautelosamente, mas tambm com uma estranha nuana de divertimento, mesclado a respeito. Limpou a boca com as costas 
da mo e fez uma solene reverncia para mim, ainda de joelhos.
        - Perdo, madame Fraser, e minhas desculpas por qualquer ofensa que possa ter sofrido.
        Eu no pude fazer nada alm de balanar a cabea educadamente em resposta, antes de Jamie me conduzir para fora do aposento. J havamos quase alcanado 
a porta ao fim do corredor quando eu falei, olhando para trs para me certificar de que no ramos ouvidos.
        - O que, afinal, neo-geimnidh meala significa? - perguntei, puxando sua manga para que ele andasse mais devagar. Olhou para baixo, como se acabasse de ser 
lembrado de minha presena.
        - Hein? Ah, significa lbios de mel, sim. Mais ou menos. -Mas...
        - No era  sua boca que ele estava se referindo, Sassenach - Jamie disse secamente.
        - Ora, que... - Fiz meno de voltar  biblioteca, mas Jamie apertou meu brao com mais fora.
        - No se preocupe, Sassenach. Eles s esto me testando. Tudo vai ficar bem.
        Fui deixada aos cuidados de lady Francs, irm do Jovem Simon, enquanto Jamie retornava  biblioteca, os ombros empertigados, prontos para a luta. Esperava 
que ele no batesse em mais nenhum de seus parentes; embora os Fraser no fossem, de um modo geral, to grandes quanto os MacKenzie, possuam uma espcie de vigilncia 
agressiva que era um sinal de agouro para qualquer um que tentasse alguma coisa em sua vizinhana imediata.
        Lady Francs era jovem, talvez vinte e dois anos, e inclinada a me ver com uma espcie de aterrorizado fascnio, como se eu fosse saltar sobre ela se no 
fosse incessantemente aplacada com ch e doces. Tentei ser o mais agradvel e inofensiva possvel e, aps algum tempo, ela relaxou o suficiente para confessar que 
nunca conhecera uma mulher inglesa antes. "Mulher inglesa" sendo, pelo que pude apreender, uma espcie extica e perigosa.
        Tive o cuidado de no fazer movimentos bruscos e, depois de algum tempo, ela sentiu-se suficientemente  vontade para apresentar-me timidamente a seu filho, 
um garotinho robusto de mais ou menos trs anos, mantido em um estado de limpeza artificial pela vigilncia permanente de uma criada de ar severo.
        Eu falava a Francs e sua irm mais nova, Aline, sobre Jenny e sua famlia, que elas no conheciam, quando se ouviu um barulho repentino e um grito no corredor. 
Levantei-me num salto e cheguei  porta da sala de estar a tempo de ver uma trouxa de roupas tentando ficar de p no corredor de pedra. A pesada porta da biblioteca 
estava aberta e a figura troncu-da do Velho Simon Fraser emoldurada nela, maligno como um sapo.
        - Vai ser pior ainda, mulher, se no puder fazer um servio melhor do que esse - ele disse. Seu tom de voz no era particularmente ameaador; apenas uma 
declarao. A figura embolada levantou a cabea e eu vi um rosto estranho, anguloso, mas bonito, os olhos escuros arregalados acima da mancha cada vez mais vermelha 
em sua ma do rosto. Ela me viu, mas no deu nenhuma ateno  minha presena, apenas pondo-se de p e saindo s pressas, sem nenhuma palavra. Ela era muito alta 
e extremamente magra, e movia-se com a estranha e um pouco desajeitada elegncia de uma grua, sua sombra seguindo-a pelas pedras.
        Fiquei parada, olhando espantada para o Velho Simon, a silhueta recortada contra a luz do fogo da lareira na biblioteca atrs dele. Ele sentiu meus olhos 
sobre ele e virou a cabea para olhar para mim. Os velhos olhos azuis pousaram em mim, frios como safiras.
        - Boa-noite, minha cara - ele disse, fechando a porta.
        Fiquei ali parada, olhando atnita para a porta de madeira escura.
        - O que foi aquilo? - perguntei a Francs, que surgira atrs de mim.
        - Nada - ela disse, passando a lngua pelos lbios nervosamente. - Vamos, prima. - Deixei que ela me afastasse dali, mas estava decidida a perguntar a Jamie 
mais tarde o que acontecera na biblioteca.
        Havamos chegado ao quarto que nos destinaram para passar a noite e Jamie amavelmente dispensou nosso pequeno guia com um tapinha em sua cabea.
        Deixei-me afundar na cama, olhando  minha volta desamparadamente.
        - Agora o que vamos fazer? - perguntei. O jantar transcorrera sem maiores incidentes, mas eu sentira os olhos de Lovat sobre mim de vez em quando.
        Jamie deu de ombros, tirando a camisa pela cabea.
        - No fao a menor idia, Sassenach - ele disse. - Perguntaram-me sobre as condies em que estava o exrcito das Highlands, as condies das tropas, o que 
eu sabia sobre os planos de Sua Alteza. Eu lhes disse. Ento, perguntaram tudo de novo. Meu av no acredita que algum possa lhe dar uma resposta franca - acrescentou 
secamente. - Ele acha que todo mundo deve ser to ardiloso quanto ele prprio, com uma dzia de motivos diferentes; um para cada ocasio.
        Sacudiu a cabea e jogou a camisa sobre a cama, a meu lado.
        - Ele no consegue saber se eu posso estar mentindo sobre o estado do exrcito das Highlands ou no. Porque se eu quisesse que ele se unisse aos Stuart, 
ento eu devia dizer que as condies eram melhores do que de fato eram, enquanto se eu pessoalmente no me importasse, de um modo ou de outro, ento eu devia falar 
a verdade. E ele no pretende se comprometer nem de um jeito nem de outro, enquanto no souber qual a minha posio.
        - E exatamente como ele pretende saber se voc est de fato dizendo a verdade? - perguntei com ceticismo.
        - Ele tem uma vidente - ele respondeu distraidamente, como se isso fosse parte comum do mobilirio de um castelo das Highlands. At onde eu sabia, era.
        -  mesmo? - Sentei-me na cama, intrigada. -  aquela mulher estranha que ele atirou no corredor?
        - Sim. O nome dela  Maisri e ela tem o dom da vidncia desde que nasceu. Mas ela no conseguiu lhe dizer nada... ou no quis - ele acrescentou. - Ficou 
bem claro que ela sabia alguma coisa, mas no fazia nada alm de sacudir a cabea e dizer que no conseguia ver. Foi quando meu av perdeu a pacincia e a agrediu.
        - Velho miservel! - eu disse, indignada.
        - Bem, ele no  nenhum exemplo de cavalheirismo - Jamie concordou. Ele encheu a bacia de gua e comeou a lavar o rosto, jogando gua em abundncia. Ergueu 
os olhos, surpreso e escorrendo gua, quando me ouviu soltar a respirao com uma arfada.
        - Hein?
        - Sua barriga... - eu disse, apontando. A pele entre o esterno e o kilt exibia uma grande mancha roxa, espalhada como uma flor enorme e feia sobre a pele 
clara.
        Jamie olhou para a barriga com ar de pouco caso e depois continuou lavando o rosto.
        - O que aconteceu - eu disse, aproximando-me para examinar melhor.
        - No foi nada - ele disse, a fala vindo quase indistinta atravs da toalha. - Falei um pouco impensadamente esta tarde e meu av fez o Jovem Simon me dar 
uma pequena lio.
        - Ento, ele fez dois dos Frasers menos importantes o segurarem enquanto ele o socava na barriga? - eu disse, sentindo-me ligeiramente doente.
        Atirando a toalha para o lado, Jamie pegou seu camisolo de dormir.
        - Muito lisonjeiro de sua parte supor que foram precisos dois para me segurar - ele disse, rindo enquanto sua cabea surgia pela abertura. - Na verdade, 
havia trs; um estava por trs, me estrangulando.
        - Jamie!
        Ele riu, sacudindo a cabea pesarosamente enquanto pegava o kilt que estava em cima da cama.
        - Eu no sei o que  que voc tem, Sassenach, que sempre me faz querer me exibir para voc. Vou acabar sendo morto um dia desses, tentando impression-la. 
- Suspirou, cuidadosamente alisando o camiso de l sobre a barriga. -  s encenao, Sassenach. No precisa se preocupar.
        - Encenao! Pelo amor de Deus, Jamie!
        - Nunca viu um cachorro de fora tentando se juntar a um bando de cachorros, Sassenach? Os outros o cheiram, mordiscam suas canelas e rosnam, para ver se 
ele vai se acovardar ou rosnar de volta para eles. E s vezes chegam mesmo a se morder, s vezes no, mas, no final, cada cachorro no bando fica sabendo seu lugar 
e quem  o lder. O Velho Simon quer ter certeza de que eu sei quem lidera esse bando; s isso.
        - Ah, ? E voc sabe? - Deitei-me, esperando-o vir para a cama. Ele pegou a vela e riu para mim, a luz bruxuleante captando um brilho azul em seus olhos.
        - Uuuf- ele disse, soprando a vela.
        Vi Jamie bem pouco nas duas semanas seguintes, exceto  noite. Durante o dia, ele estava sempre com seu av, caando ou cavalgando -pois Lovat era um homem 
vigoroso, apesar da idade -, ou bebendo no gabinete, enquanto a Velha Raposa lentamente tirava suas concluses e traava seus planos.
        Eu passava a maior parte do tempo com Francs e as outras mulheres. Longe da sombra assustadora do pai, Francs adquiria coragem suficiente para expressar 
seus prprios pensamentos, e demonstrou ser uma companhia interessante e inteligente. Ela era responsvel pelo andamento sem atropelos do castelo e de seus empregados, 
mas quando o pai surgia em cena, ela reduzia-se  sua insignificncia, raramente erguendo os olhos ou falando mais do que um sussurro. No sei se poderia culp-la.
        Duas semanas aps nossa chegada, Jamie foi me buscar na sala de visitas onde eu estava sentada com Francs e Aline, dizendo que lorde Lovat queria me ver.
        O Velho Simon gesticulou displicentemente na direo das garrafas de bebidas na mesa junto  parede, depois se instalou numa grande cadeira de braos de 
nogueira entalhada, com estofamento em um veludo azul desbotado. A cadeira encaixava-se em sua forma atarracada e troncuda como se tivesse sido construda ao seu 
redor; imaginei se de fato havia sido feita sob encomenda ou se, aps longo uso, ele tivesse se adaptado  forma da cadeira.
        Sentei-me sossegadamente a um canto com meu copo de Porto e permaneci em silncio enquanto Simon interrogava Jamie outra vez sobre a situao e as perspectivas 
de Carlos Stuart.
        Pela vigsima vez em uma semana, Jamie pacientemente repetiu todas as informaes: o nmero de tropas disponveis; a estrutura de comando - admitindo-se 
que havia uma; o armamento disponvel e suas condies - em sua maior parte, precrias; as perspectivas de Carlos receber o apoio de lorde Lewis Gordon ou dos Farquharson; 
o que Glengarry dissera depois de Prestonpans; o que Cameron soube ou deduziu a respeito das manobras das tropas inglesas; por que Carlos resolvera marchar para 
o sul; e assim por diante. Eu me vi balanando a cabea por cima do copo em minha mo e, com um sobressalto, despertei repentinamente, bem a tempo de impedir que 
o lquido cor de rubi entornasse em minha saia.
        - ...E lorde George Murray e Kilmarnock ambos acham que Sua Alteza faria melhor retirando-se para as Highlands durante o inverno - Jamie concluiu, bocejando. 
Apertado na cadeira estreita que haviam lhe dado, ele ergueu-se e espreguiou-se, sua sombra tremulando nas tapearias claras que cobriam as paredes de pedra.
        - E o que voc mesmo pensa? - Os olhos do Velho Simon cintilaram sob as plpebras semicerradas, enquanto ele se reclinava na cadeira. O fogo ardia em chamas 
altas e luminosas na lareira; Francs havia abafado o fogo no salo principal, cobrindo-o com turfas, mas este fora aceso de novo por ordem de Lovat, e com lenha, 
no turfa. O aroma de resina de pinheiro da lenha queimada era penetrante, misturado ao cheiro mais pesado de fumaa.
        A luz lanava a sombra de Jamie bem alto na parede enquanto ele se movia sem parar, no querendo sentar-se outra vez. O ambiente estava confinado e escuro 
no pequeno gabinete, com as cortinas cerradas - muito diferente do ptio da igreja aberto e ensolarado em que Colum lhe fizera a mesma pergunta. E a situao agora 
mudara; no mais a figura popular e bem-amada a quem os chefes de cls se submetiam, Carlos agora estava enviando recados aos chefes, implacavelmente exigindo que 
cumprissem suas obrigaes. Mas a natureza do problema era a mesma - uma natureza amarga e sombria, pairando como uma sombra sobre ns.
        - Eu lhe disse o que penso... mais de doze vezes. -Jamie falou rispidamente. Ele movia os ombros com impacincia, encolhendo-os como se o casaco estivesse 
apertado demais.
        - Ah, sim. Voc me disse. Mas desta vez eu acho que devemos ter a verdade. - O Velho Simon acomodou-se melhor em sua cadeira estofada, as mos entrelaadas 
no colo.
        -  mesmo? - Jamie soltou uma breve risada e virou-se para encarar seu av. Apoiou-se contra a mesa, as mos entrelaadas s costas. Apesar das diferenas 
de figura e de postura, havia uma tenso entre os dois homens que revelava uma semelhana fugaz entre eles. Um alto e o outro atarracado, mas ambos fortes, teimosos 
e determinados a vencer aquele embate.
        - No sou seu parente? E seu chefe? Eu comando sua lealdade, no? Ento, essa era a questo. Colum, to acostumado  fraqueza fsica aprendera o segredo 
de usar a fraqueza de outro homem em seu prprio proveito. Simon Fraser, forte e vigoroso mesmo na velhice, estava acostumado a ser acatado por meios mais diretos. 
Eu podia ver pelo sorriso amargo no rosto de Jamie que ele, tambm, estava comparando o apelo de Colum com a exigncia de seu av.
        - Voc pode? No me lembro de ter lhe feito nenhum juramento. Vrios plos longos e hirsutos eriaram-se nas sobrancelhas de Simon, como acontece com homens 
idosos. Eles estremeceram  luz do fogo, embora eu no soubesse dizer se de indignao ou divertimento.
        - Juramento, hein? E no  o sangue dos Fraser que corre em suas veias?
        A boca de Jamie contorceu-se ironicamente ao responder.
        - Dizem que uma criana  sbia quando conhece o prprio pai, no? Minha me era uma MacKenzie; disso eu sei.
        O rosto de Simon ficou roxo e suas sobrancelhas uniram-se. Em seguida, sua boca abriu-se e ele soltou uma sonora gargalhada. Riu at ser forado a endireitar-se 
na cadeira e inclinar-se para frente, lanando perdigotos e engasgando. Finalmente, batendo uma das mos no brao da cadeira num riso incontrolvel, enfiou a outra 
na boca e retirou os dentes postios.
        - Deus - disse, salpicando cuspe e respirando com um chiado. Com lgrimas e saliva pelo rosto, tateou cegamente em direo  mesinha junto  sua cadeira 
e largou a dentadura no prato de bolo. Os dedos nodosos fecharam-se em um guardanapo de linho que ele apertou contra o rosto, ainda emitindo roncos sufocados de 
riso enquanto conduzia a limpeza.
        - Nossa, rapaz - ele disse finalmente, ciciando os esses. - Passe-me o usque.
        Com as sobrancelhas erguidas, Jamie pegou a garrafa da mesa atrs dele e passou-a a seu av, que tirou a rolha e tomou um grande gole da bebida sem se incomodar 
com a formalidade de um copo.
        - Voc acha que no  um Fraser? - ele disse, abaixando a garrafa e expirando com uma rajada. - Ah! - Reclinou-se na cadeira outra vez, a barriga subindo 
e descendo rapidamente enquanto ele recuperava o flego. Apontou um dedo longo e descarnado para Jamie.
        - Seu prprio pai ficou bem a onde voc est, rapaz, e me disse a mesma coisa, no dia em que deixou o Castelo Beaufort para sempre. - O Velho Simon estava 
mais calmo agora; tossiu vrias vezes e limpou o rosto outra vez.
        - Sabia que eu tentei impedir o casamento de seus pais alegando que o filho de Ellen MacKenzie no era de Brian?
        - Sim, eu sabia. - Jamie apoiava-se na mesa outra vez, inspecionando seu av atravs dos olhos estreitados.
        Lorde Lovat fez um muxoxo.
        - No vou dizer que sempre houve boa vontade entre mim e os meus, mas eu conheo meus filhos. E meus netos - ele acrescentou explicitamente. - Diabos me 
carreguem se eu no acho que qualquer um deles poderia ser um corno, tanto quanto eu.
        Jamie no moveu um fio de cabelo, mas no pude deixar de desviar os olhos do Velho Simon. Vi-me fitando sua dentadura descartada, a madeira de faia manchada 
estava brilhando molhada entre os farelos de bolo. Felizmente, lorde Lovat no notou minha ligeira distrao.
        Ele continuou, novamente srio.
        - Bem, ento. Dougal MacKenzie de Leoch declarou-se a favor de Carlos. Voc o considera seu chefe?  isso que voc est me dizendo, que prestou um juramento 
a ele?
        - No. No prestei juramento a ningum.
        - Nem mesmo a Carlos? - A reao do velho foi rpida, lanando-se sobre isso como um gato sobre um rato. Eu quase podia ver sua cauda torcer-se enquanto 
observava Jamie, os olhos rasgados e fundos brilhando sob as plpebras enrugadas.
        Os olhos de Jamie estavam fixos nas chamas saltitantes, sua sombra imvel na parede s suas costas.
        - Ele no me pediu. - Isso era verdade. Carlos no precisara exigir um juramento de Jamie, tendo eliminado a necessidade ao assinar o nome de Jamie em sua 
Lista de Adeso. Ainda assim, eu sabia que o fato de no ter dado sua palavra era importante para Jamie. Se tivesse que trair o homem, que no fosse como um chefe 
reconhecido. A idia de que o mundo inteiro achasse que tal juramento existia era uma questo de menor importncia.
        Simon resmungou outra vez. Sem seus dentes postios, seu nariz e seu queixo quase se uniam, tornando a parte de baixo de seu rosto estranhamente reduzida.
        - Ento, nada o impede de fazer um juramento a mim, como chefe de seu cl - ele disse serenamente. A cauda abanando era menos visvel, mas ainda estava l. 
Eu quase podia ouvir os pensamentos em sua cabea, deslizando de um lado para outro em pantufas. Com a lealdade de Jamie jurada a ele, e no a Carlos, o poder de 
Lovat aumentaria. Assim como sua riqueza, com uma parte da renda de Lallybroch que ele poderia reclamar como um imposto do chefe. A perspectiva de um ducado aproximava-se 
um pouco, brilhando atravs do nevoeiro.
        - Nada a no ser minha prpria vontade - Jamie concordou amavelmente.
        - Mas este  um obstculo pequeno, no ? - Seus prprios olhos enrugaram-se nos cantos ao se estreitarem ainda mais.
        - Mmuhm. - Os olhos de Lovat estavam quase fechados e ele sacudiu a cabea devagar de um lado para o outro. - Ah, sim, rapaz, voc  mesmo o filho de seu 
pai. Teimoso como uma mula e duas vezes mais idiota. Eu devia saber que Brian no geraria nada alm de estpidos daquela vagabunda.
        Jamie adiantou-se e pegou a dentadura de madeira de faia do prato.
        -  melhor colocar isso de volta, velho idiota - ele disse rispidamente. - No consigo conversar com voc desse jeito.
        A boca de seu av abriu-se num sorriso contrafeito que mostrava o toco amarelado de um nico dente quebrado na arcada inferior.
        - No? - ele disse. - Mas voc conversaria sobre um acordo? - Lanou um rpido olhar para mim, no vendo nada alm de outra ficha no jogo. -Seu juramento 
pela honra de sua esposa, que tal?
        Jamie deu uma sonora risada, ainda segurando os dentes em uma das mos.
        - Ah, ? Quer dizer, subjug-la diante dos meus olhos, ento, vov? - Inclinou-se relaxadamente para trs, com ar de desdm, a mo sobre a mesa. - V em 
frente, e quando ela tiver acabado com voc, mandarei tia Francs vir para varrer os pedaos.
        Seu av examinou-o calmamente.
        - Eu no, rapaz. - Um dos lados da boca desdentada ergueu-se num sorriso enviesado quando ele virou a cabea para olhar para mim. -Embora eu tenha tido meu 
prazer com vagabundas. - A malcia fria nos olhos escuros me fez desejar puxar meu manto sobre meus seios como forma de proteo; infelizmente, eu no o estava usando.
        - Quantos homens h em Beaufort, Jamie? Quantos gostariam de colocar sua sassenach para o nico uso que ela serve? No pode guard-la noite e dia.
        Jamie aprumou-se devagar, a enorme sombra imitando seus movimentos na parede. Ele olhou para seu av de cima para baixo, sem nenhuma expresso no rosto.
        - Ah, acho que no tenho com que me preocupar, vov - ele disse serenamente. - Porque minha mulher  uma pessoa rara. Uma mulher sbia. Uma dama branca, 
como dame Aliset.
        Eu nunca ouvira falar em dame Aliset, mas lorde Lovat obviamente havia; virou a cabea subitamente para me olhar, os olhos arregalados de choque e espanto. 
Ficou boquiaberto, mas antes que pudesse falar, Jamie continuara, uma malcia subjacente claramente audvel em sua fala macia.
        - O homem que a tomar num abrao profano ter suas partes privadas ulceradas como uma ma destruda pela geada - ele disse, com notria satisfao -, e 
sua alma arder para sempre no inferno. - Exibiu um ricto de sarcasmo para seu av e recolheu a mo. - Como isso. - Os dentes de madeira aterrissaram no meio do 
fogo com um baque seco e imediatamente comearam a queimar com um chiado.
        
        
        
41 - A MALDIO DA VIDENTE
        
        A maioria dos escoceses das terras baixas havia aderido ao protestantismo nos dois sculos anteriores. Alguns dos cls das Highlands se juntaram a eles, 
mas outros, como os Fraser e os MacKenzie, mantiveram a f catlica. Especialmente os Fraser, com seus estreitos laos familiares com a Frana catlica.
        Havia uma pequena capela no Castelo Beaufort, para atender s necessidades religiosas do conde e sua famlia, mas o convento de Beauly, em runas como estava, 
continuava a ser o local de sepultamento dos Lovat, e o assoalho da capela-mor de teto desmoronado estava densamente pavimentado com as lajes planas dos tmulos 
daqueles que estavam sob elas.
        Era um lugar tranqilo e eu costumava andar por ali s vezes, apesar do tempo frio e tempestuoso. Eu no fazia a menor idia se o Velho Simon falara a srio 
em sua ameaa contra mim ou se o fato de Jamie me comparar  dame Aliset - que vinha a ser uma lendria "mulher branca" ou curandeira, a equivalente escocesa a La 
Dame Blanche - tinha sido suficiente para anular essa ameaa. Mas eu achava que ningum teria a coragem de se aproximar de mim entre os tmulos de antepassados dos 
Fraser.
        Certa tarde, poucos dias depois da cena no gabinete, atravessei uma brecha na parede em runas do convento e descobri que desta vez eu no a tinha s para 
mim. A mulher alta que eu vira fora do gabinete de Lovat estava l, reclinada em um dos tmulos de pedra vermelha, os braos cruzados sobre o peito para se proteger 
do frio, as pernas longas atiradas para fora como as de uma cegonha.
        Fiz meno de dar meia-volta, mas ela me viu e fez sinal para que eu fosse me unir a ela.
        -  a sra. Broch Tuarach? - ela disse, embora no houvesse mais do que uma leve nuance de interrogao em sua voz suave das Highlands.
        - Sou. E voc ... Maisri?
        Um pequeno sorriso iluminou seu rosto. Possua feies muito intrigantes, ligeiramente assimtricas, como uma pintura de Modigliani, e longos cabelos negros, 
soltos pelos ombros, entremeados de fios brancos, embora ela obviamente ainda fosse nova. Uma adivinha, hein? Achei que ela se parecia mesmo a uma adivinha.
        - Sim, eu tenho o dom da vidncia - ela disse, o sorriso ampliando-se um pouco em sua boca torta.
        - Tambm l a mente? - perguntei.
        Ela riu, o som perdendo-se no vento que gemia pelas paredes em runas.
        - No, madame. Mas eu leio rostos e...
        - E o meu  um livro aberto. Eu sei - eu disse, resignada.
        Ficamos lado a lado por alguns instantes, observando minsculos respingos de uma chuva fina misturada com neve que se lanava contra o arenito, bem como 
a grama espessa e queimada que cobria o cemitrio da igreja.
        - Dizem que voc  uma dama branca - Maisri mencionou de repente. Podia senti-la observando-me intensamente, mas sem nenhum sinal do nervosismo que parecia 
comum a tal observao.
        - Realmente,  o que dizem - concordei.
        - Ah. - Ela no voltou a falar, ficou apenas olhando para baixo, fitando os ps, longos e elegantes, calados em meias de l e sandlias de couro. Os prprios 
dedos dos meus ps, mais agasalhados, estavam ficando dor-mentes e imaginei que os dela deviam estar congelados como uma pedra de gelo, caso ela estivesse ali h 
algum tempo.
        - O que est fazendo aqui? - perguntei. O convento era um lugar belo e tranqilo no tempo bom, mas no era propriamente um abrigo na chuva fina e gelada 
do inverno.
        - Eu venho aqui para pensar - ela disse. Deu um leve sorriso, mas estava obviamente preocupada. O que quer que estivesse em sua mente, seus pensamentos no 
eram dos mais agradveis.
        - Pensar em qu? - perguntei, alando o corpo para sentar-me ao lado dela na tumba. Via-se a figura desgastada de um cavaleiro na tampa, sua espada de dois 
gumes presa junto ao peito, o punho formando uma cruz sobre seu corao.
        - Quero saber por qu! - ela explodiu. Seu rosto fino iluminou-se repentinamente de indignao.
        - Por que o qu?
        - Por qu! Por que posso ver o que vai acontecer, quando no h nada que eu possa fazer para mudar ou impedir isso? De que adianta um dom como esse? Alis, 
no  um dom,  uma desgraada maldio, embora eu no tenha feito nada para ser amaldioada assim!
        Ela virou-se e olhou com dio para Thomas Fraser, sereno sob seu elmo, com o punho de sua espada agarrado sob as mos cruzadas.
        - Sim, e talvez seja praga sua, velho idiota! Sua e do resto de sua maldita famlia. Voc alguma vez j pensou sobre isso? - ela perguntou de repente, virando-se 
para mim. Suas sobrancelhas arquearam-se bem alto acima dos olhos castanhos que faiscavam com furiosa inteligncia.
        - Voc j pensou que talvez no seja absolutamente o seu destino que faz voc ser quem ? Que talvez voc tenha o dom ou o poder da vidncia apenas porque 
 necessrio para outra pessoa, que isso no tem nada a ver com voc, exceto que  voc quem tem e deve sofrer pelo fato de possuir esse dom? J pensou?
        - No sei - eu disse devagar. - Oh, sim, agora que mencionou, eu tenho me perguntado. Por que eu? Voc se pergunta isso o tempo todo,  claro. Mas nunca 
encontrei uma resposta satisfatria. Voc acha que talvez tenha o dom da vidncia porque essa  uma maldio sobre os Fraser... saber sua morte antes da hora?  
uma idia infernal.
        - Infernal  a palavra certa - ela concordou com amargura. Reclinou-se contra o sarcfago de pedra vermelha, olhando fixamente para fora, para a mistura 
de chuva e neve que pulverizava por cima da parede em runas.
        - O que voc acha? - ela perguntou repentinamente. - Devo contar a ele?
        Fiquei perplexa.
        - Quem? Lorde Lovat?
        - Sim, ele mesmo. Ele me pergunta o que eu vejo e me bate quando eu lhe digo que no h nada para ser visto. Mas ele sabe; ele v em meu rosto quando eu 
tenho uma viso. Mas esse  o nico poder que tenho; o poder de no dizer. - Os dedos longos e brancos deslizaram de modo sinuoso de dentro do seu manto, brincando 
nervosamente com as dobras de tecido molhado.
        - H sempre a chance, no ? - ela disse. Sua cabea estava inclinada de modo que o capuz de seu manto escondia seu rosto do meu olhar. - H a chance de 
o fato de eu contar fazer alguma diferena. E faz, de vez em quando, sabe. Eu disse a Lachlan Gibbons quando vi seu genro enrolado em algas marinhas e as enguias 
remexendo-se embaixo de sua camisa. Lachlan ouviu; ele saiu imediatamente e fez um rombo no barco de seu genro. - Ela riu, lembrando-se. - Meu Deus, foi a maior 
confuso! Mas quando veio a grande tempestade na semana seguinte, trs homens morreram afogados e o genro de Lachlan estava a salvo em casa, ainda consertando o 
barco. E da prxima vez que o vi, sua camisa estava seca em seu corpo e as algas marinhas haviam desaparecido de seus cabelos.
        - Ento pode acontecer - eu disse num sussurro. - s vezes.
        - ela disse, balanando a cabea, ainda olhando fixamente para o cho. Lady Sarah Fraser jazia a seus ps, a lpide da senhora coroada por um crnio em cima 
de ossos cruzados. Hodie mihi eras tibi, dizia a inscrio. Sic transit gloria mundi. Minha vez hoje, a sua amanh. E assim morre a glria do mundo.
        - s vezes no. Quando vejo um homem enrolado em sua mortalha, a doena vem em seguida... e no h nada que se possa fazer a respeito.
        - Talvez - eu disse. Olhei para minhas prprias mos, espalmadas na lpide a meu lado. Sem medicina, sem instrumentos, sem conhecimento, sim, ento a doena 
era destino e nada podia ser feito. Mas se houvesse um curandeiro por perto e tivesse os recursos necessrios para curar... seria possvel que Maisri visse a sombra 
de uma doena iminente como um sintoma real, embora geralmente invisvel, como uma febre ou uma erupo? E ento apenas a falta de recursos mdicos fizesse a leitura 
desses sintomas uma sentena de morte? Eu jamais saberia.
        - Ns nunca vamos saber - eu disse, voltando-me para ela. - No temos como saber. Temos conhecimento de coisas que outras pessoas no tm, mas no sabemos 
por que ou como. Mas temos esse dom... e voc est certa,  uma maldio. Mas se voc tem o conhecimento e esse conhecimento pode evitar danos... acha que ele poderia 
causar danos?
        Ela sacudiu a cabea.
        - No sei dizer. Se voc soubesse que iria morrer em breve, h coisas que faria? E seriam apenas coisas boas que voc faria ou iria aproveitar a ltima chance 
que poderia ter para fazer o mal a seus inimigos, mal que de outra forma poderia ser deixado em paz?
        - No fao a menor idia. - Ficamos em silncio por algum tempo, observando a chuva transformar-se em neve e os flocos soprados pelo vento girarem em rajadas 
pelos adereos arruinados da parede do convento.
        - s vezes, eu sei que h alguma coisa l - Maisri disse repentinamente -, mas posso bloque-la fora da minha mente, no olhar. Foi assim com lorde Lovat; 
eu sabia que havia algo, mas eu conseguira no ver. Mas ele me ordenou que olhasse e dissesse as palavras mgicas que fazem a viso clarear. E eu o fiz. - O capuz 
de seu manto escorregou para trs quando ela inclinou a cabea, erguendo os olhos para a parede do convento que assomava acima de ns, ocre, branca e vermelha, com 
a argamassa esfare-lando entre as pedras. Cabelos negros entremeados de branco derramaram-se pelas suas costas, livres ao vento.
        - Ele estava l, de p diante do fogo, mas era dia e podia-se ver com clareza. Um homem estava de p atrs dele, imvel como uma rvore, o rosto coberto 
de preto. E sobre o rosto do lorde recaa a sombra de um machado.
        Ela falava com naturalidade, mas ainda assim um calafrio percorreu minha espinha. Ela suspirou finalmente e virou-se para mim.
        - Bem, eu lhe direi, ento, e deixarei que faa o que achar melhor. Conden-lo ou salv-lo, isso eu no posso fazer. A escolha  dele e que o Senhor Jesus 
Cristo o ajude.
        Virou-se para ir embora e eu deslizei de cima da tumba, aterrissando na laje de lady Sarah.
        - Maisri - eu disse. Ela virou-se para olhar para mim, os olhos negros como as sombras entre os tmulos.
        - Sim?
        - O que voc v, Maisri? - perguntei e fiquei parada,  espera, encarando-a, as mos abandonadas ao lado do corpo.
        Ela fitou-me intensamente, acima e abaixo, atrs e dos lados. Por fim, sorriu debilmente, balanando a cabea.
        - No vejo nada alm de voc mesma, senhora - ela disse serenamente. - H apenas voc.
        Ela se virou e desapareceu pela trilha entre as rvores, deixando-me entre os flocos de neve esvoaantes.
        Condenar ou salvar. Isso eu no posso fazer. Porque no tenho poder alm do conhecimento, nenhuma capacidade de submeter os outros  minha vontade, nenhum 
modo de impedi-los de fazer o que eles desejarem. H apenas eu.
        Sacudi a neve das dobras do meu manto e virei-me para seguir Maisri pela trilha, compartilhando seu amargo conhecimento de que havia apenas eu. E eu sozinha 
no era suficiente.
        O comportamento do Velho Simon no se alterou muito nas prximas duas ou trs semanas, mas eu imaginei que Maisri tivesse mantido sua inteno de contar-lhe 
sobre suas vises. Enquanto ele parecia, at ento, a ponto de convocar seus arrendatrios e colonos para sair em marcha, repentinamente ele recuou, dizendo que 
no havia pressa, afinal. Esse adiamento enfureceu o Jovem Simon, que estava mordendo os freios de impacincia para ir  guerra e cobrir-se de glria.
        - No  uma questo urgente - disse o Velho Simon, pela centsima vez. Ergueu um po de aveia, cheirou-o e colocou-o de volta na mesa. - Talvez seja melhor 
esperarmos o plantio na primavera.
        - Eles j podero estar em Londres na primavera! - O Jovem Simon olhou colericamente para seu pai do outro lado da mesa de jantar e estendeu a mo para pegar 
a manteiga. - Se voc mesmo no quiser ir, ento me deixe levar os homens para nos unirmos a Sua Alteza!
        Lorde Lovat rosnou.
        - Voc tem a impacincia do prprio diabo - ele disse -, mas no tem a metade de seu juzo. Nunca vai aprender a esperar?
        - A hora de esperar j passou h muito tempo! - Simon irrompeu. -Os Cameron, os MacDonald, os MacGillivray, todos esto l desde o primeiro instante. Vamos 
chegar no final, encolhidos de medo, como supli-cantes, ficando atrs de Clanranald e Glengarry? Grande chance voc ter de um ducado ento!
        Lovat possua uma boca larga e expressiva; mesmo na velhice, ela conservava traos de humor e sensualidade. Nenhum dos dois era visvel no momento. Ele pressionava 
os lbios com fora, examinando seu herdeiro sem entusiasmo.
        - Case-se com pressa e vai se arrepender devagar - ele disse. - E isso  mais verdade ainda na escolha de um chefe do que de uma rapariga. De uma mulher 
 possvel se livrar.
        O Jovem Simon resfolegou e olhou para Jamie em busca de apoio. Nos ltimos dois meses, sua desconfiada hostilidade inicial esvara-se num respeito relutante 
pela bvia competncia de seu parente bastardo na arte da guerra.
        - Jamie diz que... - ele comeou.
        - Sei muito bem o que ele diz - o Velho Simon interrompeu. - Ele j repetiu muitas vezes. Tomarei minha deciso no devido tempo. Mas no se esquea, rapaz: 
no que diz respeito a voc se declarar em uma guerra, pouco se perde em esperar.
        - Esperar para ver quem vence - Jamie murmurou, diligentemente limpando o prato com um pedao de po. O velho lorde levantou os olhos abruptamente, mas evidentemente 
decidido a ignorar essa contribuio.
        - Voc deu sua palavra aos Stuart - o Jovem Simon continuou obstinadamente, sem prestar ateno  contrariedade de seu pai. - Com certeza, no pretende faltar 
com a palavra, no ? O que as pessoas diro de sua honradez?
        - O mesmo que disseram em 1715 - seu pai respondeu calmamente. - Muitos daqueles que "disseram coisas" na ocasio, agora esto mortos, falidos ou pobres 
na Frana. Mas eu ainda estou aqui.
        - Mas... - O Jovem Simon estava vermelho, o resultado habitual desse tipo de conversa com seu pai.
        - Basta - o velho chefe interrompeu incisivamente. Sacudiu a cabea, olhando colericamente para o filho, os lbios contrados em desaprovao. - Santo Deus. 
s vezes, eu chego a desejar que Brian no tivesse morrido. Ele pode ter sido um tolo tambm, mas ao menos sabia quando parar de falar.
        Tanto o Jovem Simon quanto Jamie ruborizaram-se de raiva, mas depois de trocarem um olhar cauteloso, voltaram a ateno para sua comida
        - E o que est olhando? - grunhiu lorde Lovat, quando desviou os olhos do filho e flagrou meus olhos sobre ele.
        - O senhor - respondi rispidamente. - No est com uma aparncia nada boa. - No estava, mesmo para um homem de setenta e poucos anos. Pouco acima de uma 
altura mediana, ele normalmente ainda era um homem de aparncia slida, dando a impresso de que seu peito e sua barriga arredondados eram firmes e saudveis sob 
a camisa de linho. Mas ultimamente comeara a parecer flcido, como se tivesse encolhido um pouco dentro da pele. As bolsas enrugadas sob seus olhos acentuavam as 
olheiras e a pele apresentava uma palidez doentia.
        - Muhm - ele grunhiu. - E por que no? No obtenho nenhum descanso quando durmo, nem consolo quando estou acordado. No seria de admirar se eu estivesse 
parecendo um noivo.
        - Ah, mas voc est, pai - disse o Jovem Simon maliciosamente, vendo ali uma chance de revide. - E um noivo do fim da lua-de-mel, com toda a sua seiva drenada 
do corpo.
        - Simon! - disse lady Francs. Ainda assim, ouviu-se uma onda de risadinhas ao redor da mesa e at a boca de lorde Lovat contorceu-se ligeiramente.
        - Ah,  mesmo? - ele disse. - Bem, eu preferia que a causa do meu sofrimento fosse essa, sabe, rapaz. - Remexeu-se desconfortavelmente em sua cadeira e afastou 
o prato de nabos cozidos que estava sendo servido. Pegou seu copo de vinho, levou-o ao nariz para sentir o aroma e, em seguida, recolocou-o devagar de volta na mesa.
        -  falta de educao olhar fixamente para as pessoas - ele observou friamente para mim. - Ou talvez os ingleses tenham padres diferentes de cortesia.
        Fiquei um pouco ruborizada, mas no abaixei os olhos.
        - Eu s estava pensando... o senhor no tem apetite e no bebe. Que outros sintomas tem?
        - Quer provar que vale alguma coisa, hein? - Lovat reclinou-se para trs em sua cadeira, cruzando as mos sobre o largo ventre como uma r velha. - Uma curandeira, 
meu neto diz. Uma dama branca, hein? -Lanou um olhar reptiliano para Jamie, que simplesmente continuou a comer, ignorando seu av. Lovat grunhiu e inclinou a cabea 
ironicamente em minha direo.
        - Bem, eu no bebi, dona, porque no consigo mijar e no pretendo explodir como a bexiga de um porco. E no descansei, porque me levanto uma dzia de vezes 
por noite para usar meu urinol e quase no consigo us-lo. Ento, o que tem a dizer sobre isso, dame Aliset?
        - Pai - murmurou lady Francs -, francamente, no acho que deveria...
        - Poderia ser uma infeco de bexiga, mas me parece prostatite - respondi. Peguei meu copo de vinho e tomei um bom gole, saboreando-o antes de deixar que 
deslizasse pela minha garganta. Sorri com recato para lorde Lovat por cima do meu copo enquanto o abaixava.
        - Ah,  mesmo? - ele disse, as sobrancelhas muito arqueadas. - E o que  isso, por favor?
        Empurrei minhas mangas para trs e ergui as mos, flexionando meus dedos como uma mgica prestes a realizar um ato de prestidigitao. Ergui o indicador 
esquerdo.
        - A glndula da prstata nos homens - eu disse instrutivamente -envolve o tubo da uretra, que  a passagem que vai da bexiga ao exterior. -Juntei dois dedos 
da minha mo direita em um crculo em torno do meu indicador esquerdo, para ilustrar. - Quando a prstata fica inflamada ou aumentada, e quando isso acontece  que 
se chama de prostatite, ela comprime a uretra - estreitei o crculo dos meus dedos -, interrompendo o fluxo da urina. Muito comum em homens mais velhos. Entendeu?
        Lady Francs, no tendo conseguido causar nenhuma impresso em seu pai com suas opinies sobre conversas apropriadas  mesa de jantar, sussurrava agitadamente 
com sua irm mais nova, ambas me olhando com mais suspeita do que o normal.
        Lorde Lovat observou minha pequena demonstrao fascinado.
        - Sim, entendo - ele disse. Os olhos rasgados de gato estreitaram-se ainda mais, olhando especulativamente para os meus dedos. - E o que se pode fazer a 
respeito, ento, j que sabe tanto sobre o assunto?
        Pensei, franzindo a testa enquanto rebuscava a memria. Eu na verdade nunca vira - muito menos tratara - um caso de prostatite, e no era uma condio que 
afligisse jovens soldados. Ainda assim, eu lera textos mdicos onde era descrita; lembrei-me do tratamento, porque causara muita hilari-dade entre as estudantes 
de enfermagem, que haviam se debruado com um horror fascinado sobre as ilustraes grficas no texto.
        - Bem - eu disse -, eliminando-se a cirurgia, h apenas duas coisas que pode fazer. Pode inserir uma varinha de metal pelo pnis e subir at a bexiga, para 
forar a abertura da uretra - enfiei meu dedo indicador pelo crculo contrado - ou pode massagear a prpria prstata, para reduzir o inchao. Pelo reto - acrescentei 
prestativamente.
        Ouvi um leve rudo sufocado perto de mim e ergui os olhos para Jamie. Seus olhos ainda estavam fixos no prato, mas a onda rubra subia de seu colarinho e 
as pontas das orelhas ardiam, vermelhas. Ele estremeceu ligeiramente. Olhei ao redor da mesa e encontrei uma falange de olhares fascinados sobre mim. Lady Francs, 
Aline e as outras mulheres me fitavam com expresses variadas, que iam da curiosidade  repugnncia, enquanto todos os homens exibiam variaes de horror revoltado.
        A exceo  reao geral era o prprio lorde Lovat, que esfregava o queixo pensativo, os olhos semicerrados.
        - Mmuhm - ele disse. - Uma escolha infernal. Uma vara pelo pau ou um dedo por trs, hein?
        - Mais provvel dois ou trs - eu disse. - Repetidamente. - Dei-lhe um sorriso pequeno, conveniente.
        - Ah. - Um sorrisinho semelhante decorava a boca de lorde Lovat e ele devagar ergueu o olhar, fixando os olhos azuis e fundos nos meus com uma expresso 
de zombaria tingida de provocao.
        - Isso parece... engraado - observou serenamente. Os olhos rasgados desceram pelas minhas mos, avaliando.
        - Voc tem mos lindas, minha querida - ele disse. - Bem-cuidadas e com dedos elegantes, delgados e longos, no?
        Jamie colocou as duas mos fragorosamente sobre a mesa e levantou-se. Inclinou-se sobre a mesa, aproximando o rosto a uns trinta centmetros do av.
        - Se o senhor est precisando de tais atenes, vov, eu mesmo farei isso. - Espalmou as mos sobre a mesa, grandes e slidas, cada longo dedo com o dimetro 
aproximado de um cano de pistola. - No seria nada agradvel para mim enfiar os dedos pelo seu cu velho e cabeludo - ele informou o av -, mas imagino que seja meu 
dever filial salv-lo de explodir num chuveiro de urina, no ?
        Francs emitiu um dbil guincho.
        Lorde Lovat olhou para seu neto com considervel desaprovao, depois se ergueu lentamente de sua cadeira.
        - No precisa se preocupar - disse secamente. - Uma das criadas far isso. - Abanou a mo para o grupo, dando sinal para que continussemos a refeio e 
deixou o salo, parando para olhar especulativamente para uma jovem criada que entrava com uma bandeja de faiso fatiado. Os olhos arregalados, ela desviou-se para 
o lado para passar por ele.
        Um silncio mortal recaiu sobre a mesa de jantar depois da sada de Lovat. O Jovem Simon olhou para mim e abriu a boca. Depois, olhou para Jamie e fechou-a 
outra vez. Limpou a garganta.
        - Passe-me o sal, por favor - ele disse.
        - "... e em conseqncia da lamentvel enfermidade que me impede de atender pessoalmente a Vossa Alteza, envio pelas mos de meu filho e herdeiro uma prova 
da lealdade", no, substitua por "apreo", "uma prova do apreo que h muito nutro por Vossa Majestade e Vossa Alteza". -Lorde Lovat parou, franzindo a testa para 
o teto.
        - O que devemos mandar, Gideon? - perguntou ao secretrio. - Que parea suntuoso, mas no tanto que eu no possa dizer que se trata apenas de um presente 
insignificante de nenhuma importncia.
        Gideon suspirou e limpou o rosto com um leno. Um homem de meia-idade, robusto, com cabelos rareados e bochechas vermelhas e gorduchas, ele obviamente achava 
opressivo o calor da lareira do quarto.
        - O anel que o senhor ganhou do conde de Mar? - ele sugeriu, sem esperana. Uma gota de suor caiu de seu queixo duplo na carta que ele anotava e ele disfarou 
e a enxugou com a manga.
        - No  suficientemente caro -julgou lorde Lovat - e carrega muitas associaes polticas. - Os dedos salpicados de pintas tamborilavam pensa-tivamente sobre 
o cobertor enquanto ele pensava.
        O Velho Simon havia se esmerado, pensei. Usava seu melhor camiso de dormir e estava recostado na cama com uma impressionante panplia de remdios dispostos 
sobre a mesa, providenciados por seu mdico pessoal, dr. Menzies, um homem baixinho com os olhos apertados, que ficava me examinando com considervel ar de dvida. 
Suponho que o velho lorde simplesmente no confiava nos poderes de imaginao do Jovem Simon e montara aquela elaborada cena teatral para que seu herdeiro pudesse 
relatar com credibilidade o estado de decrepitude de lorde Lovat quando se apresentasse a Carlos Stuart.
        - Ah - exclamou o Velho Lovat com satisfao. - Enviaremos o faqueiro de piquenique de ouro e prata.  bastante rico, mas frvolo demais para ser interpretado 
como apoio poltico. Alm do mais - acrescentou de modo prtico -, a colher est defeituosa. Muito bem, ento - disse ao secretrio -, vamos continuar com: "Como 
 do conhecimento de Vossa Alteza..."
        Troquei um olhar significativo com Jamie, que disfarou um sorriso em resposta.
        - Acho que voc deu a ele o que ele precisava, Sassenach - ele me dissera enquanto nos despamos aps nosso fatdico jantar na semana anterior.
        - E o que foi? - perguntei. - Uma desculpa para molestar as criadas?
        - Duvido que ele se preocupe muito com desculpas desse tipo -Jamie disse secamente. - No, voc lhe deu uma maneira de caminhar dos dois lados, como sempre. 
Se ele tem uma doena aparentemente importante e que o mantm na cama, ento no pode ser culpado por no comparecer em pessoa com os homens que prometeu. Ao mesmo 
tempo, se ele envia seu herdeiro para a guerra, os Stuart daro a Lovat o crdito de ter cumprido a palavra e, se tudo der errado, a Velha Raposa alegar aos ingleses 
que ele no pretendia dar nenhuma ajuda aos Stuart, mas que o Jovem Simon seguiu em frente por conta prpria.
        - Soletre "prostatite" para Gideon, por favor, dona. - Lorde Lovat chamou-me, interrompendo meus pensamentos. - E trate de escrever isso corretamente, idiota 
- ele disse ao secretrio -, no quero que Sua Alteza interprete errado.
        - P-r-o-s-t-a-t-i-t-e - soletrei devagar, em favor de Gideon. - E como est hoje de manh, por falar nisso? - perguntei, aproximando-me e parando junto  
cama do Velho Simon.
        - Muito melhor, obrigado - disse o velho lorde, rindo para mim com grande exibio de dentes falsos. - Quer me ver mijar?
        - Agora no, obrigada - eu disse educadamente.
        Foi num dia lmpido e glido de meados de dezembro que deixamos Beauly para nos unirmos a Carlos Stuart e ao exrcito das Highlands. Contra todos os conselhos, 
Carlos continuara a pressionar e entrara na Inglaterra, desafiando o tempo e o bom senso, bem como seus generais. Mas finalmente, em Derby, os generais prevaleceram, 
os chefes das Highlands recusaram-se a prosseguir e o exrcito das Highlands estava voltando na direo norte. Uma carta urgente de Carlos a Jamie insistia para 
que viajssemos para o sul "sem demora", para nos encontrarmos com Sua Alteza quando ele retornasse a Edimburgo. O Jovem Simon, com toda a aparncia de um chefe 
de cl em seu tart carmesim, cavalgava  frente de uma coluna de homens. Os homens que possuam montaria o acompanhavam, enquanto o nmero maior a p seguia-o atrs.
        Estando montados, cavalgamos com Simon  frente da coluna, at alcanarmos Cornar. Ali, nos separaramos, Simon e as tropas Fraser dirigindo-se a Edimburgo, 
Jamie escoltando-me ostensivamente a Lally-broch, antes de voltar ele mesmo a Edimburgo. Ele no tinha,  claro, nenhuma inteno de retornar, mas isso no era da 
conta de Simon.
        No meio da manh emergi de um pequeno grupo de rvores ao lado do caminho e encontrei Jamie aguardando-me impacientemente. Cerveja quente fora servida aos 
homens de partida, a fim de anim-los para a jornada. E embora eu mesma tivesse descoberto que cerveja quente era um desjejum surpreendentemente bom, tambm descobri 
que tinha um efeito marcante sobre os rins.
        Jamie resmungou.
        - Mulheres... Como vocs podem levar tanto tempo para fazer uma coisa simples como mijar? Voc faz tanta confuso a respeito disso quanto meu av.
        - Bem, da prxima vez voc pode vir junto e observar - sugeri asperamente. - Talvez possa me dar algumas sugestes teis.
        Ele simplesmente resmungou outra vez e virou-se de costas para observar a coluna de homens que passava, mas sorria ainda assim. O dia claro e luminoso levantava 
o nimo de todos, mas Jamie estava particularmente de bom humor naquela manh. No era de admirar; estvamos indo para casa. Eu sabia que ele no se enganava achando 
que tudo corria bem; esta guerra teria seu preo. Mas se fracassramos em impedir Carlos, ainda poderia ser que salvssemos aquele pequeno canto da Esccia mais 
prximo de ns - Lallybroch. Isso talvez ainda estivesse dentro de nosso poder.
        Olhei para a coluna de homens do cl que vinha atrs.
        - Duzentos homens causam uma impresso considervel.
        - Cento e setenta - Jamie corrigiu-me distraidamente, pegando as rdeas de seu cavalo.
        - Tem certeza? - perguntei, curiosa. - Lorde Lovat disse que estava enviando duzentos homens. Eu o ouvi ditando a carta e afirmando isso.
        - Bem, no enviou. - Com uma guinada do corpo, Jamie montou na sela, em seguida ficou de p sobre os estribos, apontando para baixo da encosta  frente, 
para o ponto distante onde o estandarte dos Fraser com a cabea de veado em seu braso tremulava  frente da coluna.
        - Contei-os enquanto a esperava - ele explicou. - Trinta homens montados l na frente com Simon, depois cinqenta com espadas largas e escudos, que so os 
homens da Guarda local, e atrs os colonos, com todo tipo de arma, de foices a martelos, em seus cintos, e esses so noventa.
        - Suponho que seu pai esteja apostando que o prncipe Carlos no ir cont-los pessoalmente - observei cinicamente. - Tentando receber o mrito de ter mandado 
mais homens do que de fato mandou.
        - Sim, mas os nomes entraro nas listas do exrcito quando chegarem a Edimburgo - Jamie disse, franzindo o cenho. -  o que vou ver.
        Segui-o mais serenamente. Meu cavalo devia ter cerca de vinte anos e no era capaz de nada alm de um trote moderado. O cavalo de Jamie era um pouco mais 
vivo, embora ainda assim no pudesse ser comparado a Donas. O enorme garanho fora deixado em Edimburgo, pois o prncipe Carlos queria cavalg-lo em ocasies pblicas. 
Jamie atendera seu pedido, j que abrigava suspeitas de que o Velho Simon pudesse muito bem ser capaz de se apropriar do belo animal, caso Donas ficasse ao alcance 
de suas garras vorazes.
        A julgar pela cena que se desenrolava diante de mim, a avaliao de Jamie da personalidade de seu av no estava errada. Jamie primeiro cavalgara ao lado 
do secretrio do Jovem Simon e o que parecia do meu privilegiado ponto de observao uma discusso acalorada terminou quando Jamie inclinou-se de sua sela, agarrou 
as rdeas do cavalo do indignado secretrio e arrastou-o para fora das linhas, para a beira do caminho enlameado.
        Os dois homens desmontaram e ficaram parados frente a frente, obviamente exaltados. O Jovem Simon, vendo a altercao, aproximou-se em seu cavalo, fazendo 
sinal para que o resto da coluna prosseguisse. Seguiu-se uma discusso acalorada; estvamos perto o suficiente para ver o rosto de Simon, vermelho de contrariedade, 
o riso preocupado no semblante do secretrio e uma srie de gestos mais ou menos violentos da parte de Jamie.
        Observei essa pantomima fascinada, conforme o secretrio, dando de ombros num gesto de resignao, desamarrou seu alforje, remexeu no fundo e surgiu com 
vrias folhas de pergaminho. Jamie arrancou-as de sua mo e folheou-as depressa, o dedo indicador seguindo as linhas escritas. Pegou uma das folhas, deixando as 
demais carem ao cho, e sacudiu-a na cara de Simon Fraser. A Jovem Raposa pareceu desconcertada. Pegou a folha, examinou-a, depois ergueu os olhos, perplexo. Jamie 
pegou a folha de volta e, com um repentino esforo, rasgou o forte pergaminho ao meio, depois novamente, e em seguida enfiou os pedaos na bolsa de seu kilt.
        Eu havia parado meu pnei, que se aproveitou do recesso para fuar entre os ralos resqucios de vida vegetal que ainda podiam ser encontrados. A nuca do 
Jovem Simon estava de um vermelho vivo quando ele se virou para voltar ao seu cavalo e eu resolvi me manter a distncia.
        Jamie, novamente montado, veio trotando de volta ao longo da beira do caminho para se juntar a mim, os cabelos ruivos voando como um estandarte ao vento, 
os olhos brilhando de raiva acima dos lbios cerrados com fora.
        - O velhaco nojento - ele disse sem nenhuma cerimnia.
        - O que ele fez? - perguntei.
        - Relacionou os nomes de meus homens em suas prprias listas - Jamie disse. - Como se fizessem parte do seu regimento Fraser. Verme miservel! - Seus olhos 
deslizaram pela trilha acima. - Pena que j tenhamos chegado at aqui; estamos longe demais para voltar e confrontar o impostor desgraado.
        Resisti  tentao de incentivar Jamie a continuar xingando o av e, em vez disso, perguntei:
        - Por que ele faria isso? S para fazer parecer que estava dando uma contribuio maior aos Stuart?
        Jamie assentiu, a onda de fria diminuindo ligeiramente de suas faces.
        - Sim, isso mesmo. Dar uma impresso ainda melhor, sem custo algum. Mas no apenas isso. O velho canalha ordinrio quer tomar as minhas terras de volta, 
 o que quer desde que foi obrigado a abrir mo delas quando meus pais se casaram. Agora, ele acha que se tudo der certo e ele for nomeado duque de Inverness, poder 
alegar que Lallybroch sempre foi dele e eu apenas um arrendatrio, a prova sendo que ele levantou homens da propriedade para atender ao apelo dos Stuart aos cls.
        - Ele realmente pode escapar impune de algo assim? - perguntei, em dvida.
        Jamie inspirou fundo e soltou o ar, a nuvem de vapor de seu hlito erguendo-se como fumaa das narinas de um drago. Ele sorriu com raiva e bateu de leve 
na bolsa  sua cintura.
        - Agora, no, no pode - ele disse.
        Era uma viagem de dois dias de Beauly a Lallybroch, com tempo bom, cavalos vigorosos e terreno seco, no parando para nada alm das necessidades de comida, 
sono e higiene pessoal. Nas condies em que viajvamos, um dos cavalos ficou manco a nove quilmetros de Beauly, a chuva, a neve e o vento revezavam-se, e o solo 
pantanoso congelou-se parcialmente em placas de gelo escorregadio. Assim, entre um problema e outro, levamos quase uma semana at comear a descer a ltima encosta 
que levava  casa da fazenda de Lallybroch - enregelados, cansados, famintos e imundos.
        Estvamos sozinhos, apenas ns dois. Murtagh fora enviado a Edimburgo com o Jovem Simon e os soldados de Beaufort, para avaliar a situao do exrcito das 
Highlands.
        A casa erguia-se orgulhosa entre as construes anexas, branca como os campos cobertos de neve que a cercavam. Lembrei-me vividamente das emoes que sentira 
quando vi aquele lugar pela primeira vez. Na verdade, eu a vira pela primeira vez sob a luminosidade de um belo dia de outono, no atravs de rajadas de neve e gelo, 
mas mesmo naquela ocasio parecera um refgio acolhedor. A impresso de solidez e serenidade da casa era intensificada agora pela clida luz de lampio que se derramava 
pelas janelas do trreo, um amarelo suave no cinza cada vez mais escuro do comeo da noite.
        A sensao de boas-vindas aumentou ainda mais quando segui Jamie atravs da porta da frente, deparando-me com o cheiro de dar gua na boca de carne assada 
e po fresco.
        - Jantar - Jamie disse, fechando os olhos de felicidade enquanto inalava os deliciosos aromas. - Meu Deus, eu poderia comer um cavalo. - Gelo derretido pingava 
da bainha de seu manto, fazendo pequenas poas no assoalho de madeira.
        - Eu achei que amos ter que comer um deles - observei, desatando os cadaros do meu manto e sacudindo os flocos de neve j meio derretidos dos meus cabelos. 
- Aquela pobre criatura que voc trocou em Kirkinmill mal conseguia mancar.
        O barulho de nossas vozes atravessou o vestbulo e uma porta abriu-se acima, seguida do rudo de ps midos correndo e de um grito de alegria quando o pequeno 
Jamie avistou seu xar embaixo.
        A algazarra do encontro dos dois chamou a ateno do resto do pessoal da casa e, antes que nos dssemos conta, estvamos rodeados de abraos e cumprimentos, 
conforme Jenny e o beb, a pequena Maggie, Ian, a sra. Crook e vrias criadas acorreram ao vestbulo.
        - Que bom v-lo, querido! -Jenny disse pela terceira vez, na ponta dos ps para beijar Jamie. - Pelas notcias que tivemos do exrcito, temamos que muitos 
meses se passariam antes de retornarem para casa.
        - Sim - Ian disse -, voc trouxe algum dos homens de volta com voc ou trata-se apenas de uma visita?
        - Se eu trouxe de volta? - Interrompido no ato de cumprimentar sua sobrinha mais velha, Jamie olhou espantado para seu cunhado, momentaneamente esquecendo-se 
da menina em seus braos. Trazido  realidade de sua presena por um puxo em seus cabelos, beijou-a distraidamente e entregou-a a mim.
        - O que quer dizer, Ian? - perguntou. - Todos os homens deveriam ter retornado h um ms. Alguns deles no voltaram para casa?
        Abracei Maggie com fora, uma terrvel sensao de mau agouro abatendo-se sobre mim enquanto eu observava o sorriso desaparecer do rosto de Ian.
        - Nenhum deles voltou, Jamie - disse devagar, o rosto comprido e bem-humorado repentinamente espelhando a expresso sombria que viu no rosto de Jamie. - 
No vimos nenhum deles, desde que partiram com voc.
        Ouviu-se um grito no ptio de entrada, onde Rabbie MacNab pegara os cavalos para guardar. Jamie girou nos calcanhares, dirigiu-se para a porta, escancarou-a, 
inclinando-se para a tempestade do lado de fora.
        Por cima de seu ombro, pude ver um cavaleiro aproximando-se atravs das rajadas de neve. A visibilidade no era suficiente para ver seu rosto, mas aquela 
figura pequena, musculosa, agarrada como um macaco  sela, era inconfundvel.
         "Veloz como um raio", Jamie dissera, e obviamente tinha razo; fazer a viagem de Beauly a Edimburgo e depois a Lallybroch em uma semana era uma verdadeira 
faanha de resistncia. O cavaleiro que se aproximava era Murtagh e no era preciso o dom de profecia de Maisri para nos dizer que as notcias que ele trazia no 
eram boas.
        
        
        
42 - REENCONTROS
        
        Branco de raiva, Jamie escancarou a porta da sala de estar matinal de Holyrood com um estrondo. Ewan Cameron ps-se de p num salto,! virando o tinteiro 
que estivera usando. Simon Fraser, senhor de Lovat estava sentado do outro lado da mesa, mas meramente ergueu as espessas sobrancelhas negras  entrada de seu meio-sobrinho.
        - Droga! - Ewan disse, remexendo na manga  procura de um leno para enxugar a poa de tinta que se espalhava. - Qual  o seu problema, Fraser? Ah, bom-dia, 
sra. Fraser - ele acrescentou, vendo-me atrs de Jamie.
        - Onde est Sua Alteza? - Jamie perguntou sem prembulos.
        - Castelo Stirling - Cameron respondeu, sem conseguir encontrar o leno que procurava. - Tem um leno a, Fraser?
        - Se tivesse, eu o sufocaria com ele - Jamie disse. Ele relaxara ligeiramente, depois de descobrir que Carlos Stuart no estava na casa, mas os cantos de 
seus lbios ainda estavam apertados. - Por que deixou meus homens presos em Tolbooth? Acabo de v-los, mantidos em um lugar em que eu no deixaria porcos viverem! 
Certamente voc poderia ter feito alguma coisa!
        Cameron ficou vermelho, mas seus olhos castanho-claros enfrentaram os de Jamie com firmeza.
        - Eu tentei - ele disse. - Disse a Sua Alteza que eu tinha certeza que era um erro. Claro, os trinta homens a dezesseis quilmetros do exrcito quando foram 
encontrados, s podia ser um engano! Alm disso, ainda que tivessem realmente pretendido desertar, ele no tinha tantos homens que pudesse se dar ao luxo de prescindir 
deles. Foi apenas isso que o impediu de ordenar que todos eles fossem enforcados na mesma hora, sabe - ele disse, comeando a se enfurecer, conforme o choque da 
entrada de Jamie se esvaa. - Deus do cu, homem,  traio desertar em tempo de guerra.
        -  mesmo? -Jamie disse ceticamente. Balanou a cabea rpido para o Jovem Simon e empurrou uma cadeira em minha direo antes de ele mesmo se sentar. - 
E voc enviou ordens para enforcar os vinte de seus homens que foram para casa, Ewan? Ou ser que agora j so quarenta?
        Cameron ficou ainda mais vermelho e abaixou os olhos, concentrando-se em enxugar a tinta com o leno que Simon Fraser lhe dera.
        - No foram apanhados - murmurou finalmente. Ergueu os olhos para Jamie, o rosto fino ansioso. - V ver Sua Alteza em Stirling - aconselhou. - Ele ficou 
furioso com a desero, mas afinal foram as ordens dele que o enviaram a Beauly e deixaram seus homens sem chefe, no ? E ele sempre teve muita considerao por 
voc, Jamie, e o chama de amigo. Pode ser que perdoe seus homens, suplique por suas vidas.
        Pegando o leno encharcado de tinta, olhou-o de forma duvidosa e, em seguida, murmurando um pedido de licena, saiu para jog-lo fora, obviamente ansioso 
para se afastar de Jamie.
        Jamie permaneceu esparramado em sua cadeira, respirando atravs dos dentes cerrados com um leve assobio, os olhos fixos na bandeirola bordada na parede ostentando 
o braso dos Stuart. Os dois dedos rgidos de sua mo direita tamborilavam devagar sobre a mesa. Ele estava nesse mesmo estado desde que Murtagh chegara a Lallybroch 
com a notcia de que os trinta homens sob o comando de Jamie tinham sido detidos no ato de desero e encarcerados na famosa priso de Tolbooth de Edimburgo, sentenciados 
 morte.
        Eu mesma no acreditava que Carlos pretendesse executar os homens. Como Ewan Cameron ressaltara, o exrcito das Highlands precisava de todo homem em boa 
forma fsica de que pudesse dispor. A invaso da Inglaterra que Carlos defendera tivera um preo alto e o influxo de suporte que ele previra das zonas rurais inglesas 
no se materializara. No apenas isso; executar os homens de Jamie em sua ausncia seria um ato de idiotice poltica e traio pessoal grande demais at para Carlos 
Stuart arrostar.
        No, eu imaginava que Cameron tinha razo e que os homens seriam finalmente perdoados. Jamie indubitavelmente tambm chegara a essa concluso. Entretanto, 
isso no serviu de grande consolo para ele, defrontado com a correspondente concluso de que, em vez de retirar seus homens em segurana dos riscos de uma campanha 
em deteriorao, suas ordens os levaram a uma das piores prises de toda a Esccia, marcados como covardes e sentenciados a uma morte vergonhosa por enforcamento.
        Isso, associado  perspectiva iminente de deixar os homens em sua priso imunda e escura, para ir a Stirling e enfrentar a humilhao de implorar a Carlos, 
era mais do que suficiente para explicar a expresso no rosto de Jamie - a de um homem que acabara de engolir vidro modo.
        O Jovem Simon tambm permaneceu em silncio, franzindo as sobrancelhas, a testa larga enrugando-se de preocupao.
        - Irei com voc at Sua Alteza - ele disse repentinamente.
        - Ir? - Jamie olhou com surpresa para seu meio-tio, depois seus olhos estreitaram-se para Simon. - Por qu?
        Simon exibiu um sorriso contrafeito.
        - Sangue  sangue, afinal de contas. Ou voc acha que eu tentaria reclamar seus homens para mim como papai fez?
        - Tentaria?
        - Talvez - Simon disse com franqueza -, se eu achasse que houvesse uma chance de que isso seria vantajoso para mim. Mas penso que o mais provvel  que s 
me trouxesse dor de cabea. No tenho nenhuma vontade de lutar com os MacKenzie... nem com voc, sobrinho - ele acrescentou, o riso ampliando-se. - Por mais rica 
que Lallybroch possa ser, fica muito longe de Beauly e provavelmente seria uma luta encarniada para se apoderar dela, seja pela fora ou nos tribunais. Eu disse 
isso a meu pai, mas ele s ouve o que quer ouvir.
        O Jovem Simon sacudiu a cabea e ajeitou o cinto de sua espada em torno dos quadris.
        - Deve haver uma escolha melhor com o exrcito; certamente haver com um rei restaurado. E - concluiu -, se o exrcito lutar outra vez como lutou em Preston, 
vo precisar de todo homem que puderem arregimentar. Irei com voc - repetiu com firmeza.
        Jamie assentiu, um leve sorriso desenhando-se em seu rosto.
        - Obrigado, ento, Simon. Ser uma boa ajuda. Simon balanou a cabea.
        - Sim, bem. Alm disso, seria bom se voc pedisse tambm a Dougal MacKenzie que intercedesse por voc. Ele est em Edimburgo no momento.
        - Dougal MacKenzie? - As sobrancelhas de Jamie ergueram-se de forma inquiridora. - Sim, suponho que no faria mal algum, mas...
        - No faria mal algum? Rapaz, voc no sabe? O MacKenzie  o mais novo favorito do prncipe Carlos. - Simon reclinou-se para trs em sua cadeira, olhando 
zombeteiramente para seu sobrinho.
        - Por que razo? - perguntei. - O que ele fez? - Dougal trouxera duzentos e cinqenta soldados para lutar pela causa Stuart, mas vrios chefes de cl haviam 
dado contribuies ainda maiores.
        - Dez mil libras - Simon disse, saboreando as palavras enquanto as deixava rolar na lngua. - Dez mil libras em boa prata foi o que Dougal MacKenzie trouxe 
para colocar aos ps de seu soberano. E bem na hora certa - ele disse de maneira prtica, abandonando sua pose relaxada. -Cameron acabou de me dizer que Carlos j 
esgotou o que restava do dinheiro espanhol e bem pouco tem entrado dos partidrios ingleses com que ele contava. Os dez mil de Dougal mantero o exrcito com armas 
e alimento por mais algumas semanas, ao menos, e com sorte at l ele ter obtido mais dinheiro da Frana. - Percebendo finalmente que seu imprudente primo estava 
lhe propiciando uma excelente distrao para os ingleses, Lus estava concordando, embora de forma relutante, em contribuir com algum dinheiro. Entretanto, j estava 
h muito tempo a caminho.
        Olhei espantada para Jamie, seu rosto refletindo minha prpria perplexidade. Onde Dougal MacKenzie teria arranjado dez mil libras? De repente, lembrei-me 
de onde ouvira essa quantia ser mencionada antes - no buraco dos ladres em Cranesmuir, onde eu passara trs dias e trs noites infindveis,  espera de julgamento 
sob a acusao de bruxaria.
        - Geillis Duncan! - exclamei. Senti um calafrio  lembrana daquela conversa, ocorrida na escurido absoluta de um fosso lamacento, minha companhia nada 
mais do que uma voz nas trevas. O fogo crepitava na lareira da sala de estar, mas eu puxei meu manto com mais fora ao redor do corpo.
        "Eu consegui desviar perto de dez mil libras", Geillis dissera, vangloriando-se dos roubos realizados pela judiciosa falsificao da assinatura de seu falecido 
marido. Arthur Duncan, a quem ela havia assassinado com veneno, fora o procurador fiscal do distrito. "Dez mil libras pela causa jacobita. Quando houver a Revoluo, 
saberei que dei minha contribuio."
        - Ela o roubou - eu disse, sentindo um tremor percorrer meus braos  lembrana de Geillis Duncan, condenada por bruxaria, morta numa fogueira sob os galhos 
de uma sorveira. Geillis Duncan, que conseguira escapar da morte apenas o tempo suficiente para dar  luz a criana que gerou de seu amante, Dougal MacKenzie. - 
Ela o roubou e o deu a Dougal; ou ele tomou-o dela, no sei dizer como aconteceu. - Agitada, levantei-me e comecei a andar de um lado para o outro diante da lareira.
        - O filho-da-me! - eu disse. - Era isso que ele estava fazendo em Paris h dois anos!
        - O qu? - Jamie franzia a testa para mim, Simon fitava-me boquiaberto.
        - Visitando Carlos Stuart. Ele foi verificar se Carlos estava realmente planejando uma rebelio. Talvez ele tenha prometido o dinheiro na ocasio, talvez 
tenha sido isso que encorajou Carlos a arriscar-se a vir para a Esccia: a promessa do dinheiro de Geillis Duncan. Mas Dougal no podia dar o dinheiro abertamente 
a Carlos enquanto Colum fosse vivo - Colum teria feito perguntas; era um homem honesto demais para usar dinheiro roubado, independentemente de quem tivesse cometido 
a fraude.
        - Sei. - Jamie balanou a cabea, os olhos velados, pensativo. - Mas agora Colum est morto - ele disse serenamente. - E Dougal MacKenzie  o favorito do 
prncipe.
        - O que  timo para voc, como venho dizendo - Simon interps, impaciente com a conversa sobre pessoas que ele no conhecia e assuntos que s entendia em 
parte. - V procur-lo;  provvel que esteja no WorlcTs End a esta hora do dia.
        - Acha que ele interceder junto ao prncipe em seu favor? - eu perguntei a Jamie, preocupada. Dougal fora o pai adotivo de Jamie durante um certo perodo, 
mas o relacionamento sem dvida tivera altos e baixos. Dougal poderia no estar disposto a arriscar sua recente popularidade com o prncipe tomando a defesa de um 
bando de covardes e desertores.
        A Jovem Raposa podia no ter os anos de experincia de seu pai, mas possua uma boa dose de sua perspiccia. As grossas sobrancelhas pretas ergueram-se.
        - MacKenzie ainda quer Lallybroch, no? E se ele achar que papai e eu podemos estar de olho nas terras, estar mais ansioso em ajud-lo a recuperar seus 
homens, certo? Vai lhe custar muito mais lutar conosco por elas do que lidar com voc, quando a guerra tiver terminado. - Balanou a cabea, mordendo alegremente 
o lbio superior enquanto contemplava as ramificaes da situao.
        - Vou sacudir uma cpia da lista de meu pai no nariz de Dougal antes de voc falar com ele. Voc entra e lhe diz que prefere me mandar para o inferno a me 
deixar reclamar seus homens e ento iremos todos juntos a Stirling. - Abriu um largo sorriso para Jamie, com ar de cumplicidade.
        - Eu sempre achei que a Esccia era a terra da conspirao - observei.
        - O qu? - Os dois homens ergueram os olhos, espantados.
        - Deixem pra l - eu disse, sacudindo a cabea. - O sangue no mente.
        Permaneci em Edimburgo enquanto Jamie e seus tios rivais viajavam a Stirling para resolver a questo com o prncipe. Naquelas circunstncias, eu no podia 
permanecer em Holyrood, mas encontrei alojamento em uma das vielas acima de Canongate. Era um aposento acanhado, frio e pequeno, mas eu no ficava muito tempo ali.
        Os prisioneiros de Tolbooth no podiam sair, mas nada impedia a entrada de visitantes. Fergus e eu visitvamos a priso diariamente e um pouco de suborno 
permitia-me passar alimentos e remdios aos homens de Lallybroch. Teoricamente, eu no tinha permisso de conversar em particular com os prisioneiros, mas tambm 
nisso o sistema podia ser um pouco escorregadio, quando adequadamente lubrificado. Consegui falar a ss com Ross, o ferreiro, em duas ou trs ocasies.
        - Foi culpa minha, madame - ele disse imediatamente, na primeira vez que o vi. - Eu devia ter tido o bom senso de fazer os homens debandarem em pequenos 
grupos de trs ou quatro, no todos juntos como fizemos.
        Mas eu receava perder alguns; a maioria deles nunca havia estado a mais de oito quilmetros de casa antes.
        - No tem que se culpar - assegurei-lhe. - Pelo que ouvi dizer, foi por pura m sorte que vocs foram apanhados. No se preocupe; Jamie foi ver o prncipe 
em Stirling; logo ele vai tir-los daqui.
        Ele balanou a cabea, arrumando uma mecha de cabelo para trs com ar cansado. Estava imundo e desgrenhado, e reduzido a uma frao do arteso robusto e 
musculoso que fora alguns meses atrs. Ainda assim, sorriu para mim e agradeceu-me pela comida.
        -Vem bem a calhar - ele disse francamente. - Tudo que comemos aqui  um caldo ralo. Acha que pode... - Hesitou. - Acha que pode conseguir alguns cobertores, 
madame? Eu no pediria, mas  que quatro dos homens tm febre e...
        - Vou dar um jeito - eu disse.
        Deixei a priso, perguntando-me exatamente como eu daria um jeito. Embora o exrcito principal tivesse marchado para o sul para invadir a Inglaterra, Edimburgo 
ainda era uma cidade ocupada. Com soldados, lordes e parasitas constantemente entrando e saindo, artigos de qualquer espcie eram caros e escassos. Cobertores e 
roupas de l podiam ser encontrados, mas custariam muito e s restavam precisamente dez shlings em minha bolsa.
        Havia um banqueiro em Edimburgo, um sr. Waterford, que no passado administrara alguns negcios e investimentos de Lallybroch, mas Jamie retirara todos os 
fundos do banco h alguns meses, temendo que bens guardados em bancos pudessem ser confiscados pela Coroa. O dinheiro foi convertido em ouro, parte foi enviada para 
Jared na Frana por segurana, o resto foi escondido na fazenda. Tudo igualmente inacessvel para mim no momento.
        Parei na rua para pensar, os transeuntes empurrando-me nas pedras do calamento ao passarem. Embora no tivesse dinheiro, eu ainda tinha algumas coisas de 
valor. O cristal que Raymond me dera em Paris - embora o cristal em si no tivesse nenhum valor especial, seu engate e cordo de ouro tinham. Minhas alianas de 
casamento - no, no queria me desfazer delas, ainda que temporariamente. Mas as prolas... enfiei a mo no bolso, verificando se o colar de prolas que Jamie me 
dera no dia de nosso casamento ainda estava costurado em segurana na bainha de minha saia.
        Estava; as contas pequenas, irregulares, das prolas de gua doce eram duras e lisas sob meus dedos. Embora no fossem to caras quanto prolas orientais, 
ainda assim formavam um fino colar, com pequenas peas de ouro lavrado entre as prolas. Pertencera  me de Jamie, Ellen. Achei que ela teria gostado de v-lo usado 
para dar algum conforto aos homens dele.
        - Cinco libras - eu disse com firmeza. - Vale dez e eu poderia obter seis por ele, se quisesse me dar ao trabalho de subir toda a colina e ir  outra loja. 
- Eu no fazia a menor idia se o que eu estava dizendo era verdade ou no, mas estendia a mo como se fosse pegar o colar do balco de qualquer forma, fingindo 
estar prestes a ir embora da loja de penhores. O dono da casa de penhores, sr. Samuels, colocou a mo rapidamente sobre o colar, sua nsia me dizendo que eu deveria 
ter pedido seis libras desde o comeo.
        - Trs libras e dez, ento - ele disse. - Isso  empobrecer minha prpria famlia, mas para uma senhora to fina...
        O pequeno sino acima da porta da loja soou atrs de mim quando a porta abriu-se. Ouviu-se o som de passos hesitantes nas tbuas gastas do assoalho da loja 
de penhores.
        - Com licena - comeou uma voz feminina quase infantil e eu girei nos calcanhares, o colar de prolas esquecido, para ver a sombra das trs bolas, o smbolo 
das casas de penhores, recair sobre o rosto de Mary Hawkins. Ela crescera no ltimo ano e tambm ganhara mais corpo. Havia uma nova maturidade e dignidade em seus 
modos, mas ainda era muito nova. Piscou uma vez e em seguida jogou-se sobre mim com um gritinho de alegria, sua gola de pele fazendo ccegas no meu nariz enquanto 
me abraava com fora.
        - O que est fazendo aqui? - perguntei, desvencilhando-me finalmente.
        - A irm de meu pai mora aqui - ela respondeu. - Estou na casa dela. Ou voc quer saber por que estou aqui? - Abanou a mo, indicando as instalaes encardidas 
e escuras do emprio do sr. Samuels.
        - Bem, isso tambm - eu disse. - Mas isso pode esperar um pouco. - Virei-me para o penhorista. - Quatro libras e seis ou vou subir a colina -eu lhe disse. 
- Decida-se, estou com pressa.
        Resmungando consigo mesmo, o sr. Samuels enfiou a mo sob o balco para pegar o dinheiro, enquanto eu me virava outra vez para Mary.
        - Tenho que comprar alguns cobertores. Pode vir comigo?
        Ela olhou para fora, para onde um homenzinho de uniforme postava-se junto  porta, obviamente esperando por ela.
        - Sim, se voc vier comigo depois. Ah, Claire, estou to feliz de v-la.
        - Ele me enviou uma mensagem - Mary confidenciou, conforme descamos a rua. - Alex. Uma amiga me trouxe sua carta. - Seu rosto se iluminou ao pronunciar 
o nome dele, mas tambm havia um pequeno sulco entre suas sobrancelhas.
        - Quando descobri que ele estava em Edimburgo, f-fiz papai me mandar em visita  tia Mildred. Ele no se importou - ela acrescentou amargamente.
        - Ele ficava doente s de me olhar, depois do que aconteceu em Paris. Ficou feliz em me ver longe de sua casa.
        - Ento voc viu Alex? - perguntei. Imaginei como o jovem padre teria passado desde que o vira pela ltima vez. Tambm imaginei como ele encontrara a coragem 
para escrever a Mary.
        - Sim. Ele no me pediu para vir - ela acrescentou rpido. - V-vim por conta prpria. - Seu queixo ergueu-se desafiadoramente, mas estremeceu ligeiramente 
ao falar. - Ele... no teria escrito para mim, mas achou que estava m-morrendo e queria que eu soubesse... soubesse...
        Passei o brao em torno de seus ombros e entrei rpido em um dos ptios fechados, fugindo do fluxo agitado do trnsito na rua.
        - Est tudo bem - eu disse, dando uns tapinhas de consolo em suas costas, mas sentindo-me impotente, sabendo que no havia nada que eu pudesse fazer para 
que tudo ficasse bem. - Voc veio e o viu, isso  o que importa.
        Ela balanou a cabea, incapaz de falar, e assoou o nariz.
        - Sim - disse com voz rouca, finalmente. - Ns tivemos... dois meses. Repito para mim mesma que isso  mais do que a maioria das pessoas j teve, dois meses 
de felicidade... mas ns perdemos tanto tempo que poderamos ter t-tido e... no basta. Claire, no basta!
        - No - eu disse serenamente. - Nem uma vida inteira basta para esse tipo de amor. - Com uma repentina pontada de dor, imaginei onde Jamie estaria e como 
estaria passando.
        Mary, agora mais controlada, agarrou-se  manga do meu vestido.
        - Claire, voc pode vir comigo para v-lo? Sei que no h muita coisa que voc possa fazer... - Sua voz fraquejou e ela firmou-a com visvel esforo. - Mas 
talvez voc pudesse... ajudar. - Ela percebeu meu olhar para o lacaio, que permanecia de p impassivelmente na entrada do beco, indiferente  movimentao do trnsito. 
- Eu o pago - ela disse simplesmente. - Minha tia pensa que eu saio para c-caminhar toda tarde. Voc vir?
        - Sim, claro. - Espreitei entre os prdios altos, avaliando o nvel do sol sobre as colinas fora da cidade. Ficaria escuro dentro de uma hora; eu queria 
que os cobertores fossem entregues na priso antes que a noite tornasse as paredes de pedra de Tolbooth ainda mais frias. Tomando uma sbita deciso, virei-me para 
Fergus, que aguardava pacientemente ao meu lado, observando Mary com interesse. Levado de volta a Edimburgo com o resto dos homens de Lallybroch, escapara da priso 
em funo de sua cidadania francesa e sobrevivera corajosamente voltando  sua ocupao de costume.
        Eu o encontrara rondando fielmente a priso de Tolbooth, onde levava uma ou outra poro de comida para seus companheiros presos.
        - Pegue esse dinheiro - eu disse, entregando-lhe minha bolsa - e encontre Murtagh. Diga-lhe para comprar tantos cobertores quanto o dinheiro der e fazer 
com que sejam entregues ao carcereiro de Tolbooth. Ele j foi subornado, mas guarde alguns shillings, por via das dvidas.
        - Mas madame - ele protestou -, eu prometi a milorde que no a deixaria sozinha...
        - Milorde no est aqui - eu disse com firmeza -, e eu estou. V Fergus.
        Ele olhou de mim para Mary, evidentemente decidiu que ela era uma ameaa menor para mim do que meu temperamento para ele e partiu, dando de ombros e resmungando 
em francs sobre a teimosia das mulheres.
        O quartinho no alto do prdio havia mudado consideravelmente desde a minha ltima visita. Estava limpo, para comear, com todas as superfcies horizontais 
enceradas e brilhantes. Havia comida no armrio, um acolchoado na cama e inmeros pequenos confortos propiciados ao paciente. Mary confidenciara-me no caminho que 
ela andara discretamente penhorando as jias da me para garantir que Alex Randall tivesse todo o conforto que o dinheiro pudesse comprar.
        Havia limites para o que o dinheiro podia conseguir, mas o rosto de Alex brilhava como a chama de uma vela quando Mary atravessou a porta, temporariamente 
obscurecendo a devastao da doena.
        - Trouxe Claire comigo, querido. - Mary largou o manto sobre uma cadeira e ajoelhou-se ao lado dele, tomando a mo magra, de veias azuladas, nas suas.
        - Sra. Fraser. - Sua voz era fraca e ofegante, embora ele sorrisse para mim. -  bom rever um rosto amigo.
        - Sim, . - Sorri para ele, notando quase inconscientemente a pulsao rpida visvel em sua garganta e a transparncia de sua pele. Os olhos cor de avel 
eram meigos e cordiais, retendo a maior parte da vida que restava em seu corpo frgil.
        No tendo remdios, no havia nada que eu pudesse fazer por ele, mas examinei-o com todo o cuidado e depois esperei at v-lo instalado de modo confortvel 
sob as cobertas, os lbios ligeiramente azuis pelo pequeno esforo do exame.
        Ocultei a ansiedade que senti diante do seu estado e prometi ir visit-lo no dia seguinte com algum remdio que o ajudasse a dormir melhor. Ele mal notou 
minhas promessas; toda a sua ateno era voltada para Mary, sentada ansiosamente a seu lado, segurando sua mo. Eu a vi olhar para a
        Eu a vi olhar para a janela, onde a luz esvaa-se rapidamente, e percebi sua preocupao; ela precisava voltar para a casa de sua tia antes de anoitecer.
        - Vou sair agora - eu disse a Alex, afastando-me o mais educadamente possvel, para deixar-lhes alguns preciosos momentos a ss.
        Ele olhou de mim para Mary, depois sorriu de novo para mim de gratido.
        - Deus a abenoe, sra. Fraser - ele disse.
        - Vejo-o amanh - eu disse, e sa, esperando poder realmente voltar.
        Fiquei muito ocupada nos dias seguintes. As armas dos homens de Lallybroch haviam sido evidentemente confiscadas, quando foram detidos, e fiz o melhor possvel 
para recuperar o que pude, perturbando e ameaando, subornando e convencendo onde necessrio. Penhorei dois broches que Jared me dera como presente de despedida 
e comprei comida suficiente para garantir que os homens comessem to bem quanto o exrcito em geral - apesar de ser uma alimentao pobre.
        Consegui convencer os guardas a me deixarem entrar nas celas da priso e passei mais tempo tratando as doenas dos prisioneiros - desde escor-buto e a mais 
generalizada desnutrio comum no inverno, at feridas causadas por frico, frieiras, artrite e diversas doenas respiratrias.
        Fui visitar os chefes de cl e lordes ainda em Edimburgo - no muitos - que poderiam ajudar Jamie, caso a visita a Stirling fracassasse. No acreditava nisso, 
mas pareceu-me de bom alvitre tomar medidas de precauo.
        Entre todas as atividades dos meus dias, eu arranjava tempo para visitar Alex Randall diariamente. Esforava-me para ir de manh, a fim de no usar seu tempo 
com Mary. Alex dormia pouco e esse pouco, mal; em conseqncia, estava sempre cansado e abatido de manh, sem vontade de falar, mas sempre sorrindo em sinal de boas-vindas 
quando eu chegava. Eu lhe dava uma mistura leve de hortel e lavanda, com algumas gotas de xarope de papoula misturadas; isso em geral lhe concedia algumas horas 
de sono, de modo que estivesse alerta quando Mary chegasse  tarde.
        Alm de mim e de Mary, eu no vira nenhuma outra visita no topo do prdio. Assim, fiquei surpresa quando, ao subir as escadas para seu quarto certa manh, 
ouvi vozes por trs da porta fechada.
        Bati uma vez, rapidamente, como havamos combinado, e entrei. Jonathan Randall estava sentado junto  cama de seu irmo, trajando seu uniforme de capito, 
vermelho e castanho-claro. Levantou-se quando entrei e fez uma reverncia adequada, a expresso fria.
        - Madame - ele disse.
        - Capito - eu disse. Ficamos, ento, parados e indecisos, no meio do quarto, entreolhando-nos fixamente, nenhum dos dois querendo dar o primeiro passo.
        - Johnny - disse Alex da cama, com sua voz rouca. Havia um tom de persuaso, bem como de comando, e seu irmo encolheu os ombros com irritao ao ouvi-lo.
        - Meu irmo me convocou para lhe dar algumas notcias - ele disse, os lbios cerrados. No usava peruca nesta manh e com seus cabelos escuros amarrados 
na nuca, sua semelhana com o irmo era surpreendente. Fraco e plido como Alex estava, ele parecia o fantasma de Jonathan.
        - Voc e o sr. Fraser sempre foram bondosos com minha Mary - Alex disse, virando-se de lado para olhar para mim. - E para mim tambm. Eu... soube da barganha 
do meu irmo com voc - um rubor quase imperceptvel subiu ao seu rosto -, mas sei tambm o que voc e seu marido fizeram por Mary... em Paris. - Umedeceu os lbios, 
rachados e ressecados do calor permanente no quarto. - Acho que deveria ouvir as notcias que Johnny trouxe do castelo ontem.
        Jack Randall olhou-me com antipatia, mas era um homem de palavra.
        - Hawley sucedeu a Cope, como eu havia lhe dito anteriormente - ele disse. - Hawley no tem o dom da liderana, a no ser uma certa confiana cega nos homens 
sob seu comando. Se isso vai coloc-lo em melhor situao do que o fez o canho de Cope... - Deu de ombros com impacincia.
        - Seja como for, o general Hawley recebeu ordens de marchar para o norte para retomar o castelo Stirling.
        -  mesmo? - eu disse. - Sabe que tropas ele tem? Randall balanou a cabea, com um rpido gesto afirmativo.
        - Ele possui oito mil soldados no momento, mil e trezentos da cavalaria. Ele tambm est na expectativa diria da chegada de seis mil soldados mercenrios 
de Hesse. - Franziu as sobrancelhas, pensando. - Ouvi dizer que o chefe do cl Campbell est enviando mil homens para se unirem s foras de Hawley tambm, mas no 
sei dizer se essa informao  confivel; no parece haver nenhuma maneira de prever o que os escoceses vo fazer.
        - Sei. - Isso era grave; o exrcito das Highlands neste momento tinha entre seis e sete mil homens. Contra Hawley, sem os reforos esperados, eles poderiam 
conseguir. Esperar at que os hessianos e os Campbell chegassem era obviamente loucura, para no falar do fato de que as habilidades guerreiras dos soldados das 
Highlands eram muito mais adequadas ao ataque do que  defesa. Era melhor que essas notcias chegassem a lorde George Murray imediatamente.
        A voz de Jack Randall chamou-me de volta de minhas ruminaes.
        - Tenha um bom dia, madame - ele disse, formal como sempre, e no havia nenhum trao de humanidade nas feies belas e duras quando ele se inclinou numa 
mesura para mim e saiu.
        - Obrigada - eu disse a Alex Randall, esperando que Jonathan descesse a longa escadaria em caracol antes de eu mesma ir embora. - Fico-lhe muito agradecida 
por isso.
        Ele balanou a cabea. As sombras sob seus olhos estavam pronunciadas; outra noite ruim.
        - No h de qu. - ele disse simplesmente. - Suponho que deixar um pouco de remdio para mim? Imagino que no vou v-la to cedo.
        Parei, impressionada por sua suposio de que eu mesma iria a Stirling. Isso  o que cada fibra do meu corpo exigia que eu fizesse, mas havia a questo dos 
homens na priso Tolbooth a ser considerada.
        - No sei - eu disse. - Mas, sim, deixarei os remdios.
        Caminhei devagar de volta ao meu alojamento, a mente ainda acelerada. Obviamente, eu tinha que mandar um recado a Jamie imediatamente. Murtagh teria que 
ir, eu imaginava. Jamie acreditaria em mim,  claro, se eu lhe escrevesse um bilhete. Mas ele conseguiria convencer lorde George, o duque de Perth ou os outros comandantes 
do exrcito?
        Eu no poderia lhe dizer onde eu conseguira essas informaes; os comandantes estariam dispostos a acreditar na palavra escrita e sem provas de uma mulher? 
Mesmo a palavra de uma mulher popularmente tida como detentora de poderes sobrenaturais? Pensei em Maisri subitamente, e estremeci.  uma maldio, ela dissera. 
Sim, mas que escolha havia? No tenho nenhum poder alm do poder de no dizer o que eu sei. Eu tinha esse poder tambm, mas no ousava me arriscar a us-lo.
        Para minha surpresa, a porta do meu pequeno quarto estava aberta e ouvia-se uma barulhada vinda l de dentro. Eu andara armazenando as armas recuperadas 
sob minha cama e empilhando espadas e lminas de diversos tipos junto  lareira quando o espao sob a cama ficou cheio, at que literalmente no havia mais lugar 
livre no assoalho, exceto pelo pequeno quadrado de tbuas onde Fergus colocava seus cobertores.
        Fiquei parada na escada, espantada com a cena visvel pela porta aberta acima. Murtagh, de p na cama, supervisionava a entrega de armas aos homens que apinhavam 
o quarto - os homens de Lallybroch.
        - Madame! - virei-me diante do grito e vi Fergus junto ao meu cotovelo, radiante, um sorriso largo e falhado no rosto amarelado.
        - Madame! No  maravilhoso?! Milorde recebeu o perdo de seus homens. Um mensageiro veio de Stirling hoje de manh, com a ordem de solt-los, e devemos 
nos juntar a milorde imediatamente em Stirling!
        Abracei-o. eu mesma rindo.
        - Que maravilha, Fergus!
        Alguns dos homens haviam percebido a minha presena e comeavam a se virar para mim, sorrindo e puxando a manga um do outro. Um ar de regozijo e excitao 
enchia o pequeno aposento. Murtagh, empoleirado no estrado da cama como o Gnomo Rei sobre um cogumelo chapu-de-sapo, me viu e, em seguida, sorriu para mim - uma 
expresso que o deixava absolutamente irreconhecvel, de tal forma transformava seu rosto.
        - O sr. Murtagh levar os homens a Stirling? - Fergus perguntou. Ele ganhara uma espada curta, como sua parte na distribuio de armas, e praticava sacando-a 
e embainhando-a outra vez enquanto falava.
        Meus olhos depararam-se com os de Murtagh e sacudi a cabea. Afinal, pensei, se Jenny Cameron podia liderar os homens de seu irmo a Glenfinnan, eu podia 
levar as tropas de meu marido a Stirling. Queria ver lorde George e Sua Alteza tentarem ignorar minhas informaes, entregues pessoalmente.
        - No - eu disse. - Eu o farei.
        
        
        
        
        
43 - FALKIRK
        
        Eu podia sentir os homens por perto, ao meu redor na escurido. Havia um tocador de gaita de foles caminhando ao meu lado; podia ouvir o rangido do saco 
de couro sob seu brao e ver o contorno dos bordes, projetando-se para trs no odre. Eles moviam-se conforme o gaiteiro andava, de modo que ele parecia estar carregando 
um animal pequeno que lutava debilmente.
        Eu o conhecia, um homem chamado Labhriunn Maclan. Os gaiteiros dos cls revezavam-se para tocar a alvorada em Stirling, andando de um lado para o outro no 
acampamento com o passo calculado de um gaiteiro, de modo que os lamentos longos e montonos dos bordes ricocheteassem das tendas frgeis, chamando todos que estivessem 
em seus interiores para a batalha do novo dia.
        Novamente ao fim da tarde, um nico gaiteiro sairia, atravessando o ptio devagar, e o acampamento pararia para ouvir, as vozes silenciando-se e o claro 
do pr-do-sol dissipando-se das lonas das tendas. As notas altas e lamuriosas do pibroch - pea musical escocesa para gaita de foles - chamavam as sombras da charneca, 
e quando o gaiteiro terminava a noite j cara.
        Manh ou noite, Labhriunn Maclan tocava com os olhos fechados, marchando devagar e com firmeza de um lado ao outro do ptio, o cotovelo apertado contra o 
odre e os dedos geis sobre os buracos dos tubos. Apesar do frio, s vezes me sentava para observar ao anoitecer, deixando o som trespassar meu corao com suas 
estacas. Maclan andava de um lado para o outro, ignorando tudo ao seu redor, fazendo meias-voltas na ponta do calcanhar, deixando todo o seu ser transbordar pelos 
tubos da gaita de foles.
        Existem as pequenas gaitas de foles irlandesas, usadas em interiores para tocar msica e as gaitas de foles Great Northern usadas ao ar livre para o toque 
de alvorada, para chamar os cls  ordem e para incitar os homens  luta. Eram as gaitas de foles Northern que Maclan tocava, andando de um lado para o outro com 
os olhos cerrados.
        Certa noite, ao me levantar do lugar onde estava sentada quando Maclan terminou, esperei at v-lo pressionar o ltimo resqucio de ar de seu odre com um 
gemido agonizante e coloquei-me a seu lado quando ele atravessou o porto de Stirling com um sinal da cabea para o guarda.
        - Boa-noite, madame - ele disse. Sua voz era suave e seus olhos, agora abertos, mais suaves ainda sob o feitio continuado de sua msica.
        - Boa-noite, Maclan - eu disse. - Estava me perguntando, Maclan por que voc toca com os olhos bem fechados?
        Ele sorriu e coou a cabea, mas respondeu prontamente.
        - Acho que  porque meu av me ensinou, madame, e ele era cego. Sempre o vejo quando toco, andando pela praia com a barba voando ao vento e os olhos cegos 
fechados contra o aguilho da areia, ouvindo o som da gaita descer at ele depois de ricochetear das rochas do penhasco e sabendo da em que ponto de sua caminhada 
ele estava.
        - Ento, voc o v e voc toca, tambm, para os penhascos e o mar? De onde voc vem, Maclan? - perguntei. Sua fala era baixa e sibilante, de uma forma ainda 
mais acentuada do que a da maioria dos escoceses das Highlands.
        - Venho das Shetlands, madame - ele respondeu, fazendo a ltima palavra soar quase como "Zetlands". - Muito longe daqui. - Sorriu novamente e fez uma reverncia 
para mim quando chegamos  ala dos hspedes, onde eu iria ficar. - Mas estou pensando que a senhora veio ainda de mais longe, madame.
        -  verdade - eu disse. - Boa-noite, Maclan. -,
        Mais tarde nessa mesma semana, perguntei-me se sua habilidade em tocar sem ver iria ajud-lo aqui no escuro. Um grande grupo de homens locomovendo-se faz 
bastante barulho, por mais silenciosamente que se desloquem, mas achei que quaisquer ecos que criassem seriam abafados pelo uivo do vento cada vez mais forte. Era 
uma noite escura de lua nova, mas o cu estava claro de nuvens e caa uma glida mistura de chuva e neve, ferroando minhas faces.
        Os homens do exrcito das Highlands avanavam em pequenos grupos de dez ou vinte, movendo-se por um terreno irregular de protuberncias e reas planas, como 
se a terra empurrasse para cima pequenas elevaes aqui e ali ou como se os bosques de larcio e carvalho estivessem caminhando pelas trevas. Minhas informaes 
no chegaram sem suporte; os espies de Ewan Cameron tambm relataram as manobras de Hawley e o exrcito escocs estava agora a caminho de um encontro com ele, em 
algum lugar ao sul do Castelo Stirling.
        Jamie desistira de insistir para que eu voltasse. Eu prometi ficar fora do caminho, mas se havia uma batalha a ser travada, ento os mdicos do exrcito 
tambm tinham que estar a postos. Eu sabia quando sua ateno voltava-se para seus homens, e as perspectivas  frente, pela inclinao de sua cabea. Montado em 
Donas, sua figura elevava-se o suficiente para ser vista como uma sombra, mesmo no escuro, e quando ele levantou um dos braos, duas sombras menores destacaram-se 
da massa em movimento e aproximaram-se de seu estribo. Houve um momento de conversa sussurrada; em seguida, ele empertigou-se em sua sela e virou-se para mim.
        - Os batedores dizem que fomos vistos; guardas ingleses voaram  Casa Callendar, para avisar o general Hawley. No devemos esperar mais; estou levando meus 
homens e dando a volta pelas tropas de Dougal para o lado mais distante do monte Falkirk. Desceremos por trs enquanto os MacKenzie entram pelo oeste. H uma pequena 
igreja no topo do monte  sua esquerda, talvez a uns quatrocentos metros. Esse  o seu lugar, Sassenach. V para l agora e fique l. - Tateou em busca do meu brao 
no escuro, encontrou-o e apertou-o.
        - Irei ao seu encontro assim que puder ou enviarei Murtagh se eu no puder ir. Se as coisas derem errado, entre na igreja e alegue que aquele  um santurio. 
 o melhor que consigo pensar.
        - No se preocupe comigo - eu disse. Meus lbios estavam gelados e esperava que minha voz no soasse to trmula quanto eu me sentia. Reprimi o "tome cuidado" 
que teriam sido minhas palavras seguintes e contentei-me em toc-lo rapidamente, a superfcie glida de sua face dura como metal sob minha mo e o roar de uma mecha 
de cabelos fria e macia como a pele de um cervo.
        Desviei meu cavalo para a esquerda, escolhendo meu caminho devagar conforme os homens que chegavam fluam ao meu redor. O meu cavalo castrado estava inquieto 
com a movimentao; sacudia a cabea de um lado para o outro, resfolegando e agitando-se nervosamente sob mim. Puxei-o bruscamente, como Jamie me ensinara, e mantive 
as rdeas curtas quando o terreno elevou-se de repente sob os cascos do cavalo. Olhei para trs uma vez, mas Jamie desaparecera dentro da noite e eu precisava de 
toda a minha ateno para encontrar a igreja no escuro.
        Era uma construo minscula, de pedra, com telhado de palha, incrustada numa pequena depresso da colina, como um animal encolhido de medo. As fogueiras 
das sentinelas inglesas eram visveis daqui, cintilando atravs da chuva com neve, e eu podia ouvir gritos ao longe - escoceses ou ingleses, impossvel dizer.
        Ento, as gaitas de foles comearam a soar, um grito agudo e estranho na tormenta. Ouviram-se guinchos dissonantes, sobrenaturais, erguendo-se de vrios 
pontos na colina. Tendo visto essa cena antes de perto, podia imaginar os gaiteiros soprando e enchendo seus odres, o peito inflando com arfadas rpidas e lbios 
azulados pressionados com fora na boca dos tubos, dedos rgidos de frio tateando para guiar os sopros de forma coerente.
        Eu quase podia sentir a resistncia teimosa do saco de couro, mantido quente e flexvel sob um xale, mas relutante em se deixar inflar completamente, em 
seguida adquirindo vida subitamente, parte do corpo do gaiteiro, como um terceiro pulmo, respirando por ele quando o sopro roubava seu ar, como se os gritos dos 
homens prximos a ele o enchessem.
        A gritaria estava mais alta agora e alcanava-me em ondas  medida que o vento mudava de direo, carregando rajadas de chuva e neve em redemoinho. No havia 
nenhuma entrada para servir de abrigo ou quaisquer rvores na encosta da colina para quebrar o vento. Meu cavalo virou-se e abaixou a cabea, enfrentando o vento, 
e sua crina aoitava meu rosto com fora, spera de gelo.
        A igreja oferecia um santurio contra os elementos, bem como contra os ingleses. Empurrei a porta e, puxando a brida, reboquei o cavalo para dentro atrs 
de mim.
        Estava no interior da igreja, com a nica janela de pele de animal oleada no mais do que uma mancha turva na escurido acima do altar. Parecia acolhedora, 
em contraste com o tempo do lado de fora, mas o cheiro ranoso de suor tornava-a sufocante. No havia bancos que pudessem fazer o cavalo tropear; nada, exceto um 
pequeno santurio embutido em uma das paredes, e o prprio altar. Oprimido pelo forte cheiro de gente, o cavalo parou imvel, resfolegando e bufando, porm sem muita 
agitao. Vigiando-o atentamente, voltei para a porta e enfiei a cabea para fora.
        Ningum saberia dizer o que se passava no monte Falkirk. Os lampejos de armas de fogo espocavam aleatoriamente na escurido. Eu podia ouvir, fracos e intermitentes, 
o tinir de metais e a pancada surda de uma ou outra exploso. De vez em quando, ouvia-se o grito de um homem ferido, alto e agudo como um guincho da gaita de foles, 
diferente dos brados galicos dos guerreiros. Ento, o vento mudava de direo e eu no ouvia nada ou imaginava ouvir vozes que nada mais eram do que o vento uivante.
        Eu no vira a luta em Prestonpans; subconscientemente acostumada aos movimentos ponderados de enormes exrcitos refreados por tanques e morteiros, eu no 
percebera exatamente a rapidez com que as coisas podiam acontecer em uma batalha diminuta e fixa, de luta corpo a corpo e armas leves e pequenas.
        O primeiro aviso que tive foi um grito bem prximo a mim.
        - Tulach Ard!
        Ensurdecida pelo vento, eu no os ouvira subir a colina.
        - Tulach Ard!
        Era o grito de batalha do cl MacKenzie; alguns soldados de Dougal, forados a recuar na direo do meu santurio. Abaixei a cabea e entrei novamente, mas 
mantive a porta aberta, de modo que eu pudesse olhar para fora.
        Eles estavam subindo a colina, um pequeno grupo de homens em fuga. Homens das Highlands, tanto pelo som quanto pela viso deles, xales de xadrez, barbas 
e cabelos voando ao redor, de modo que pareciam nuvens escuras contra a encosta gramada, movimentando-se com rapidez ladeira acima,  frente do vento.
        Saltei para dentro da igreja quando o primeiro deles irrompeu pela porta. Escuro como estava, eu no podia ver seu rosto, mas reconheci sua voz quando ele 
colidiu em cheio com meu cavalo.
        - Santo Deus!
        - Willie! - gritei. - Willie Coulter!
        - Santa Me de Deus! Quem est a?
        No tive tempo de responder antes de a porta bater com fora contra a parede e mais duas formas escuras lanarem-se dentro da minscula igreja. Enraivecido 
por essa intruso barulhenta, meu cavalo recuou e relin-chou, erguendo as patas no ar. Isso provocou gritos de alarme dos intrusos, que obviamente achavam que o 
prdio estava desocupado e estavam desconcertados com a constatao de que isso no era verdade.
        A entrada de vrios outros homens apenas aumentou a confuso e eu desisti de tentar dominar o cavalo. Forada para os fundos da igreja, me espremi no pequeno 
espao entre o altar e a parede e esperei que as coisas se resolvessem por si.
        Quando tudo parecia dar sinais de se acalmar, uma das vozes confusas na escurido ergueu-se acima das outras.
        - SILNCIO! - gritou, num tom que no tolerava nenhum protesto. Todos, exceto o cavalo, obedeceram e quando a confuso desvaneceu-se at o cavalo aquietou-se, 
retirando-se para um canto e resfolegando ruidosamente, em meio a guinchos queixosos de insatisfao.
        - Somos os MacKenzie de Leoch - disse a voz imperiosa. - Quem mais est aqui?
        - Geordie, Dougal e meu irmo comigo - disse uma voz prxima, em tom de profundo alvio. - Trouxemos Rupert conosco tambm; ele est ferido. Meu Deus, achei 
que era o prprio diabo que estava aqui!
        - Gordon McLeod de Ardsmuir - disse outra voz que no reconheci.
        - E Ewan Cameron de Kinnoch - disse outra. - De quem  este cavalo?
        - Meu - eu disse, saindo cautelosamente de trs do altar. O som de minha voz causou nova confuso, mas Dougal mais uma vez extinguiu-a
        - SILNCIO, bando de tolos!  voc, Claire Fraser?
        - Bem, no  a rainha - eu disse com irritao. - Willie Coulter est aqui tambm, ou estava h um minuto. Ningum tem uma caixa de slex?
        - Nada de luz! - disse Dougal. - H poucas chances de que os ingleses examinem este lugar se nos seguirem, mas seria tolice chamar sua ateno.
        - Est bem - eu disse, mordendo o lbio. - Rupert, consegue falar? Diga alguma coisa para eu saber onde voc est. - Eu no sabia o que poderia fazer por 
ele no escuro; do jeito que estava, no conseguia sequer pegar minha caixa de remdios. De qualquer maneira, eu no podia deix-lo sangrar at a morte no cho.
        Ouviu-se uma tosse terrvel do lado oposto da igreja em relao a mim e uma voz rouquenha disse, tossindo outra vez:
        - Aqui, senhora.
        Fui tateando na direo da voz, praguejando em voz baixa. Eu podia saber simplesmente pelo som borbulhante daquela tosse que seu estado era grave; o tipo 
de gravidade para a qual minha caixa de remdios pouco adiantaria. Agachei-me e caminhei abaixada os ltimos passos, abanando os braos em movimentos amplos para 
sentir o que poderia estar no meu caminho.
        Uma das minhas mos tocou um corpo quente e outra mo, grande, agarrou-me. Tinha que ser Rupert; podia ouvi-lo respirar, um som estertoroso, com um dbil 
gorgolejar por trs.
        - Estou aqui - eu disse, tentando reconfort-lo com uns tapinhas num lugar que eu esperava que fosse tranqilizador. Acredito que tenha sido, porque ele 
deu uma espcie de risadinha ofegante e arqueou os quadris, pressionando minha mo com fora contra ele.
        - Faa isso outra vez, dona, e eu esquecerei tudo a respeito da bala de mosquete - ele disse.
        Retirei a mo bruscamente.
        - Talvez mais tarde - eu disse secamente. Levei a mo para cima, deslizando pelo seu corpo  procura de sua cabea. A barba spera e espessa disse-me que 
eu alcanara meu alvo e coloquei a mo com cuidado sob os plos densos para sentir sua pulsao na garganta. Rpida e superficial, mas ainda bastante regular. Sua 
testa estava escorregadia de suor, embora sua pele fosse pegajosa ao toque. A ponta de seu nariz estava fria quando a rocei, enregelada pelo ar l de fora.
        - Pena que no sou um cachorro - ele disse, um fio de risada emergindo entre as arfadas em busca de ar. - Nariz frio... seria um bom sinal.
        - Seria melhor se parasse de falar - eu disse. - Onde a bala o atingiu? No, no me diga, pegue minha mo e coloque-a sobre o ferimento... e se coloc-la 
em qualquer outro lugar, Rupert MacKenzie, pode morrer aqui como um co e boa passagem para voc.
        Pude sentir o peito largo vibrar sob a minha mo com uma risada reprimida. Conduziu minha mo devagar embaixo do seu xale e eu afastei o tecido do caminho 
com a outra mo.
        - Est bem, j senti - murmurei. Pude sentir o pequeno rasgo em sua camisa, mido de sangue ao redor das bordas. Coloquei ambas as mos na abertura e rasguei 
a camisa de alto a baixo. Rocei os dedos de leve pelo lado de seu corpo, sentindo os poros arrepiados sob eles, depois o pequeno buraco da entrada do ferimento. 
Parecia um orifcio excepcionalmente pequeno, comparado ao volume de Rupert, que era um homem forte e musculoso.
        - Ela saiu por algum lugar? - murmurei. O interior da igreja estava silencioso, exceto pelo cavalo, que se remexia nervosamente em seu prprio canto. Com 
a porta fechada, os sons da batalha l fora ainda eram audveis, mas difusos; era impossvel dizer a que proximidade estavam.
        - No - ele disse, tossindo outra vez. Pude sentir que ele levava a mo  boca e segui-a com uma dobra de seu xale. Meus olhos j estavam tanto quanto possvel 
acostumados  escurido, mas ele ainda no passava de uma figura escura, curvada  minha frente. Para algumas coisas, entretanto, o toque era suficiente. Havia pouco 
sangramento no local do ferimento, mas o tecido que levei  sua boca encharcou minha mo com um calor repentino e mido.
        A bala atingira-o em um dos pulmes, pelo menos, provavelmente ambos, e seu peito enchia-se de sangue. Ele poderia durar algumas horas nestas condies, 
talvez um dia se um dos pulmes continuasse em funcionamento. Se o pericrdio tivesse sido perfurado, ele morreria mais rpido. Entretanto, somente a cirurgia de 
um tipo que eu no tinha como fazer poderia salv-lo.
        Senti uma presena clida s minhas costas e ouvi uma respirao normal quando algum veio tateando at chegar perto de mim. Estendi o brao para trs e 
senti a minha mo ser agarrada com fora. Dougal MacKenzie.
        Continuou avanando at posicionar-se a meu lado e colocou a mo no corpo inerte de Rupert.
        - Como est, companheiro? - perguntou a meia-voz. - Consegue caminhar? - Minha outra mo ainda estando sobre Rupert, pude sentir sua cabea sacudir em resposta 
 pergunta de Dougal. Os homens atrs de ns na igreja comearam a falar em sussurros entre si mesmos.
        A mo de Dougal pressionou meu ombro.
        - Do que precisa para ajud-lo? Sua caixa? Est no cavalo? - Ele j havia se levantado antes que eu pudesse lhe dizer que no havia nada na caixa que pudesse 
ajudar Rupert.
        Um estalo sonoro e repentino do altar calou todos os sussurros e houve uma movimentao geral por toda parte, conforme os homens pegavam as armas que haviam 
deixado no assoalho. Outro estalo, um barulho de algo se rasgando, e a cobertura de pele oleada que cobria a janela deu lugar a uma rajada de ar limpo e frio, alm 
de alguns flocos de neve em redemoinho.
        - Sassenach! Claire! Est a? - A voz baixa que vinha da janela me fez ficar de p, momentaneamente esquecida de Rupert.
        - Jamie! - Ouviu-se uma exalao coletiva de alvio ao meu redor e o barulho estridente de espadas e escudos sendo largados. A nova claridade que vinha de 
fora foi obstruda por um instante pelo volume da cabea e dos ombros de Jamie. Ele desceu sem esforo do altar, a figura recortada contra a janela aberta.
        - Quem est a? - ele perguntou, olhando em torno. - Dougal,  voc?
        - Sim, sou eu, rapaz. Sua mulher e alguns homens. Viu os malditos ingleses em algum lugar a fora?
        Jamie emitiu uma pequena risada.
        - Por que acha que eu entrei pela janela? H pelo menos uns vinte deles no sop da colina.
        Dougal emitiu um ronco de insatisfao do fundo da garganta.
        - Os miserveis que nos separaram do grosso das tropas. Vou ficar preso aqui.
        -  verdade. Ho, mo cridh! Ciamar a tha thu? - Reconhecendo uma voz familiar no meio da loucura, meu cavalo empinara o focinho com um sonoro relincho de 
boas-vindas.
        - Silncio, seu tolo! - Dougal disse bruscamente para o cavalo. - Quer que os ingleses ouam?
        - No creio que os ingleses enforcassem ele - Jamie observou serenamente. - Quanto a eles saberem que vocs esto aqui, no vo precisar de ouvidos, se tiverem 
olhos; a encosta l fora est lamacenta e as pegadas de vocs so bem visveis.
        - Mmuhm. - Dougal lanou um olhar em direo  janela, mas Jamie j sacudia a cabea.
        - No adianta, Dougal. A parte principal das tropas est ao sul e lorde George Murray foi ao seu encontro, mas h os poucos ingleses do grupo que enfrentamos 
que ainda esto deste lado. Um bando deles me perseguiu pela colina acima; esquivei-me para o lado e vim me arrastando de barriga pela grama at a igreja, mas acho 
que ainda esto vasculhando a encosta. - Estendeu a mo em minha direo e eu a tomei. Estava fria e mida do contato com a grama, mas fiquei feliz s de poder toc-lo, 
de t-lo ali a meu lado.
        - Veio rastejando, hein? E como planejava sair outra vez? - Dougal perguntou.
        Pude sentir Jamie dar de ombros. Inclinou a cabea na direo do meu cavalo.
        - Pensei em irromper daqui e passar por eles em disparada; no sabem do cavalo. Isso causaria perturbao suficiente talvez para Claire conseguir escapar.
        Dougal fez um muxoxo.
        - Ah, e eles o arrancariam do cavalo como uma ma madura.
        - Pouco importa - Jamie disse secamente. - No vejo como todos vocs poderiam se esgueirar daqui em silncio sem que ningum notasse, por mais barulho e 
confuso que eu provocasse.
        Como em confirmao s suas palavras, Rupert deu um gemido alto junto  parede. Dougal e eu camos de joelhos ao lado dele imediatamente, seguidos por Jamie, 
mais devagar.
        Ele no estava morto, mas tampouco estava indo bem. Suas mos estavam frias e sua respirao era acompanhada de um chiado.
        - Dougal - ele murmurou.
        - Estou aqui, Rupert. Fique quieto, companheiro, logo estar bem. -O chefe do cl MacKenzie rapidamente tirou seu prprio xale, dobrou-o como um travesseiro, 
que enfiou sob a cabea e os ombros de Rupert. Um pouco erguido, sua respirao parecia mais fcil, mas um toque sob sua barba revelou-me manchas midas em sua camisa. 
Ele ainda possua algumas foras; estendeu a mo e agarrou o brao de Dougal.
        - Se... vo nos encontrar de qualquer modo... me d uma luz - ele disse, arfando. - Eu veria seu rosto mais uma vez, Dougal.
        Estando muito perto de Dougal, pude sentir o choque percorr-lo diante dessas palavras e suas implicaes. Sua cabea virou-se abruptamente em minha direo, 
mas obviamente ele no podia ver meu rosto. Murmurou uma ordem por cima do ombro e aps alguns sussurros e movimentaes, algum cortou um punhado da palha do telhado, 
torceu-o formando uma tocha e acendeu-o com uma fagulha de slex. Queimou rpido, mas forneceu luz suficiente para que eu examinasse Rupert enquanto os homens tentavam 
cortar uma longa lasca de madeira das vigas do teto, para servir como uma tocha mais durvel.
        Ele estava branco como a barriga de um peixe, os cabelos grudados de suor e uma pequena mancha de sangue ainda era visvel no grosso lbio inferior. Havia 
pontos escuros na lustrosa barba negra, mas ele sorriu debilmente para mim quando me curvei sobre ele para verificar sua pulsao outra vez. Mais superficial, mas 
muito rpida, com batimentos irregulares. Afastei os cabelos de sua testa e ele tocou minha mo em agradecimento.
        Senti a mo de Dougal no meu cotovelo e sentei-me sobre os calcanhares, virando-me para fit-lo. Eu o fitara assim uma vez, sobre o corpo de um homem mortalmente 
ferido por um javali. Ele me perguntara na ocasio: "Ele pode viver?", e vi a lembrana desse dia cruzar seu rosto. A mesma pergunta estampava-se em seus olhos novamente, 
mas desta vez em olhos vidrados de medo pela minha resposta. Rupert era seu melhor amigo, o parente que cavalgara e lutara a seu lado direito, como Ian fizera por 
Jamie.
        Desta vez eu no respondi; Rupert o fez por mim.
        - Dougal - ele disse, sorrindo quando seu amigo inclinou-se ansiosamente sobre ele. Ele cerrou os olhos por um instante e respirou o mais profundo que pde, 
reunindo foras para o momento.
        - Dougal - repetiu, abrindo os olhos. - No lamente por mim, companheiro.
        O rosto de Dougal contorceu-se  luz da tocha. Pude ver a negao da morte aflorar aos seus lbios, mas ele a conteve e afastou.
        - Sou seu chefe, amigo - ele disse, com um sorriso trmulo. - No pode me dar ordens; vou lamentar sua perda, sim. - Agarrou a mo de Rupert, inerte sobre 
o peito, e ficou segurando-a com fora.
        Ouviu-se uma risadinha fraca e chiada de Rupert e outro acesso de tosse.
        - Bem, chore por mim se assim voc quer, Dougal - ele disse, ao terminar. - E fico contente por isso. Mas no pode sentir pesar por mim enquanto eu estiver 
vivo, no ? Quero morrer em suas mos, mo caraidh, no na mo de estranhos.
        Dougal deu um solavanco, e Jamie e eu trocamos olhares horrorizados pelas suas costas.
        - Rupert... - Dougal comeou, com voz desamparada, mas Rupert interrompeu-o, agarrando sua mo e sacudindo-a delicadamente.
        - Voc  meu chefe, companheiro,  seu dever - ele sussurrou. -Vamos. Faa-o agora. Estou sofrendo, Dougal, e gostaria de acabar com isso. - Seus olhos moveram-se 
nervosamente, pousando em mim.
        - Pode segurar minha mo enquanto eu parto, dona? - ele perguntou. - Eu gostaria muito.
        No parecia haver mais nada a fazer. Movendo-me devagar, sentindo como se tudo aquilo fizesse parte de um sonho, tomei a mo grande, de plos negros, entre 
as minhas, pressionando-a como se eu pudesse transmitir meu prprio calor  carne cada vez mais fria.
        Com um grunhido, Rupert ergueu-se ligeiramente sobre um dos lados e ergueu os olhos para Jamie, sentado junto  sua cabea.
        - Ela devia ter se casado comigo, rapaz, quando teve escolha - disse com a respirao ruidosa. - Voc  um palerma, mas faa o melhor que puder. - Um dos 
olhos se fechou numa piscadela significativa. - D-lhe uma boa por mim, rapaz.
        Os olhos negros giraram de volta para mim e um sorriso final se propagou pelo seu rosto.
        - Adeus, bela rapariga - ele disse a meia-voz.
        A adaga de Dougal pegou-o sob o esterno, direta e com firmeza. O volumoso corpo sacudiu-se com um espasmo, virando-se de lado com uma golfada de ar e sangue, 
mas o breve som de agonia veio de Dougal.
        O chefe do cl MacKenzie permaneceu paralisado por um instante, os olhos fechados, as mos cerradas em torno do cabo da adaga. Em seguida, Jamie levantou-se, 
segurou-o pelos ombros e afastou-o dali, murmurando alguma coisa em galico. Jamie olhou para mim, eu assenti e estendi os braos. Ele conduziu Dougal delicadamente 
at mim e eu o tomei em meus braos, enquanto ns dois nos prostrvamos no cho, abraando-o enquanto ele chorava.
        O prprio rosto de Jamie estava banhado em lgrimas e eu podia ouvir os breves soluos e suspiros dos outros homens. Pensei que era melhor que chorassem 
por Rupert do que por si mesmos. Se os ingleses realmente viessem em nosso encalo ali, todos ns seramos enforcados por traio. Era mais fcil chorar por Rupert, 
que se fora em segurana, o caminho abreviado pela mo de um amigo.
        Eles no vieram em nenhum momento na longa noite de inverno. Aconchegamo-nos uns contra os outros juntos a uma nica parede, sob mantos e xales,  espera. 
Cochilei em espasmos, reclinada no ombro de Jamie, com Dougal curvado e silencioso do outro lado. Creio que nenhum dos dois dormiu, mas se mantiveram em viglia 
a noite inteira sobre o corpo de Rupert, imvel sob seu prprio xale drapeado, do outro lado da igreja, do outro lado do abismo que separa os mortos dos vivos.
        Falamos pouco, mas eu sabia o que estavam pensando. Perguntavam-se, como eu, se as tropas inglesas teriam ido embora, reunindo-se com o grosso do exrcito 
na Casa Callendar mais abaixo, ou se ainda vigiavam do lado de fora, esperando a aurora antes de atacarem, com medo de que algum na minscula igreja escapasse, 
tirando proveito da escurido.
        A questo foi resolvida com a chegada dos primeiros raios de luz.
        - Ei, a na igreja! Saiam e entreguem-se! - A ordem veio do sop da colina, com um forte sotaque ingls.
        Houve uma agitao entre os homens no interior da igreja e o cavalo que dormitava no canto, ergueu a cabea bruscamente, bufando de surpresa com a movimentao 
prxima. Jamie e Dougal trocaram um olhar como se tivessem planejado aquilo juntos, levantaram-se e ficaram parados, ombro a ombro, diante da porta fechada. Um sinal 
da cabea de Jamie me mandou para os fundos da igreja, de volta ao meu refgio atrs do altar.
        Outro grito vindo do lado de fora foi recebido com silncio. Jamie sacou a pistola do cinto e verificou a carga, descontraidamente, como se tivesse todo 
o tempo do mundo. Apoiou-se em um dos joelhos e preparou a arma, apontando-a para a porta, ao nvel da cabea de um homem.
        Geordie e Willie tomavam conta da janela nos fundos, as espadas e pistolas a postos. Mas o mais provvel  que o ataque viesse da frente; a colina atrs 
da igreja subia de forma muito ngreme, quase no deixando espao entre a encosta e a parede da igreja para um homem passar.
        Ouvi o rudo de passos no terreno enlameado, aproximando-se da porta, e o leve retinir de armas brancas carregadas  cintura. Os passos pararam a alguma 
distncia e ouviu-se uma voz outra vez, mais perto e mais forte.
        - Em nome de Sua Majestade o rei Jorge, saiam e entreguem-se! Sabemos que esto a!
        Jamie disparou. O barulho da detonao dentro da igreja foi ensurdecedor. Devia ter sido muito impressionante do lado de fora tambm; eu podia ouvir os sons 
apressados de uma rpida retirada, acompanhada de imprecaes abafadas. O projtil fez um pequeno buraco na porta; Dougal aproximou-se de lado e espreitou pelo buraco.
        - Droga - disse num murmrio. - H um bando deles.
        Jamie lanou um olhar para mim, depois cerrou os lbios e concentrou-se no recarregamento da pistola. Obviamente, os escoceses no tinham nenhuma inteno 
de se renderem. Igualmente bvio, os ingleses no tinham nenhuma vontade de invadir a igreja, considerando-se que as entradas podiam ser facilmente defendidas. Ser 
que pretendiam nos deixar morrer de fome? Certamente, o exrcito das Highlands estaria enviando homens para buscar os feridos na batalha da noite anterior. Se chegassem 
antes que os ingleses tivessem oportunidade de trazer um canho para atacar a igreja, poderamos ser salvos.
        Infelizmente, havia algum pensando do lado de fora. Ouviu-se o barulho de passos outra vez e, em seguida, uma voz inglesa pausada, carregada de autoridade.
        - Vocs tm um minuto para sair e se render - ele disse -, ou atearemos fogo  palha.
        Olhei para cima totalmente apavorada. As paredes da igreja eram de pedra, mas a palha do telhado arderia em poucos minutos, mesmo estando encharcada de chuva 
e neve, e quando o fogo tivesse se alastrado, lanaria uma chuva de labaredas e brasas fumegantes que nos engolfariam. Lembrei-me da terrvel velocidade com que 
a tocha de palha torcida queimara na noite anterior; os remanescentes carbonizados jaziam no cho, junto ao corpo coberto de Rupert, um terrvel lembrete na luz 
cinzenta do amanhecer.
        - No! - gritei. - Miserveis! Malditos! Esta  uma igreja! Nunca ouviram falar em santurio!
        - Quem ? - veio a voz incisiva do lado de fora. -  uma mulher inglesa que est a?
        - Sim! - gritou Dougal, saltando para junto da porta. Abriu-a de par em par e gritou para os soldados ingleses na encosta mais abaixo. - Sim! Mantemos uma 
senhora inglesa prisioneira! Ateiem fogo ao telhado e ela morre conosco!
        Ouviu-se uma exploso de vozes no sop da colina e uma movimentao repentina entre os homens na igreja. Jamie virou-se para Dougal com uma expresso ameaadora.
        - O que...!
        -  nossa nica chance! - Dougal sibilou em resposta. - Deixe que eles a levem, em troca de nossa liberdade. No iro lhe fazer mal se souberem que  nossa 
prisioneira e ns a resgataremos quando estivermos livres!
        Sa do meu esconderijo e aproximei-me de Jamie, agarrando a manga de sua camisa.
        - Faa isso! - eu disse com urgncia. - Dougal tem razo,  nossa nica chance!
        Ele olhou para mim com ar de desamparo, raiva e medo misturados em seu rosto. E sob tudo isso, um trao de humor diante da ironia subjacente da situao.
        - Sou uma sassenach, afinal de contas - eu disse, percebendo a ironia. Ele tocou meu rosto de leve com um sorriso melanclico.
        - Sim, mo duinne. Mas voc  minha sassenach. - Vrou-se para Dougal, aprumando os ombros. Respirou fundo e fez um sinal com a cabea.
        - Est bem. Diga que ns a seqestramos - pensou rpido, passando a mo pelos cabelos - na estrada de Falkirk, ontem no final da tarde.
        Dougal assentiu e, sem mais delongas, deslizou para fora pela porta da igreja, um leno branco erguido bem acima da cabea em sinal de trgua. Jamie virou-se 
para mim, a testa franzida, olhando para a porta da igreja, onde os sons de vozes eram audveis, embora no pudssemos distinguir o que diziam.
        - No sei o que voc vai lhes dizer, Claire; talvez seja melhor fingir-se em tal estado de choque que no consegue falar. Talvez seja melhor do que inventar 
uma histria; porque se descobrirem quem voc ... - Parou de repente e esfregou a mo com fora no rosto.
        Se descobrissem quem eu era, seria Londres e a Torre de Londres -seguida certamente por uma rpida execuo. Mas embora os cartazes tivessem feito muito 
alarde sobre "a Bruxa dos Stuart", ningum, at onde eu soubesse, havia descoberto ou publicado o fato de que a bruxa era inglesa.
        - No se preocupe - eu disse, percebendo a tolice dessa observao, mas incapaz de pensar em algo melhor. Coloquei a mo sobre a manga de sua camisa, sentindo 
seu pulso acelerado. - Voc vai me resgatar antes que tenham qualquer chance de descobrir alguma coisa. Acha que me levaro para a Casa Callendar?
        Ele balanou a cabea, recuperando o autocontrole.
        - Sim, creio que sim. Se puder, tente ficar sozinha perto de uma janela, logo depois do anoitecer.  quando irei busc-la.
        No houve tempo para nada mais. Dougal esgueirou-se de novo para dentro, fechando a porta cuidadosamente atrs de si.
        - Est feito - ele disse, olhando de mim para Jamie. - Ns lhes damos a mulher e poderemos partir sem sermos molestados. Nenhuma perseguio. Ficamos com 
o cavalo. Precisaremos dele, para Rupert, sabe - disse-me, como se pedisse desculpas.
        - Tudo bem - eu lhe disse. Olhei para a porta, com seu pequeno furo negro onde a bala a atravessara, o mesmo tamanho do buraco no corpo de Rupert. Minha 
boca estava seca e eu engoli com fora. Eu era um ovo de cuco, prestes a ser colocado no ninho errado. Ns trs hesitamos diante da porta, todos relutantes em dar 
o passo final.
        - E- melhor eu ir - eu disse, tentando controlar minha voz e minhas pernas trmulas. - Vo se perguntar o que est nos detendo.
        Jamie fechou os olhos por um instante, assentiu, depois deu um passo em minha direo.
        - Acho melhor voc desmaiar, Sassenach - ele disse. - Talvez assim seja mais fcil. - Inclinou-se, pegou-me nos braos e carregou-me pela porta que Dougal 
mantinha aberta.
        Seu corao batia com fora sob meu ouvido e eu podia sentir o tremor de seus braos enquanto me carregava. Depois do ar abafado da igreja, com seus cheiros 
de suor, sangue, plvora e excremento de cavalo, o ar frio e limpo do comeo da manh tirou meu flego e eu aconcheguei-me junto a ele, tremendo. Suas mos apertaram-se 
com mais fora sob meus joelhos e ombros, rgidos como uma promessa; jamais me deixaria ir.
        - Meu Deus - ele disse uma vez, num sussurro, e ento os alcanamos. Perguntas incisivas, respostas murmuradas, o afrouxamento relutante de suas mos quando 
me colocou no cho. Em seguida, o rudo de seus ps, afastando-se pela grama molhada. Eu estava sozinha, nas mos de estranhos.
        
        
        
44 - QUANDO MUITAS COISAS DERAM ERRADO
        
        Encolhi-me mais perto do fogo, estendendo as mos para aquec-las. Estavam sujas de segurar as rdeas o dia inteiro e perguntei-me se valia a pena percorrer 
a distncia at o crrego para lav-las. Manter padres modernos de higiene na ausncia de todas as formas de encanamento s vezes parecia muito mais trabalho do 
que valia a pena. No era de admirar que as pessoas adoecessem e morressem com freqncia, pensei de mau humor. Morriam de pura sujeira e ignorncia mais do que 
de quaisquer outros males.
        A idia de morrer na sujeira foi suficiente para me fazer levantar, apesar do cansao. O minsculo crrego que cortava o acampamento era pantanoso nas margens 
e meus sapatos afundaram-se na vegetao alagadia. Tendo trocado mos sujas por ps molhados, arrastei-me de volta at a fogueira e encontrei o cabo Rowbotham esperando 
por mim com uma tigela do que ele disse ser um ensopado.
        - Com os cumprimentos do capito, madame - ele disse, na verdade ajeitando o topete enquanto me entregava a tigela -, e ele me pediu para dizer-lhe que estaremos 
em Tavistock amanh. H uma estalagem l. -Hesitou, o rosto redondo, rude, de meia-idade, preocupado. Em seguida, acrescentou: - As desculpas do capito pela falta 
de acomodaes adequadas, madame, mas erguemos uma tenda para a senhora passar a noite. No  grande coisa, mas talvez assim no se molhe na chuva.
        - Agradea ao capito por mim, cabo - eu disse, o mais amavelmente que consegui. - E obrigada a voc tambm - acrescentei, com mais entusiasmo. Eu tinha 
plena conscincia de que o capito Mainwaring me considerava um peso incmodo e que de modo algum teria se preocupado com um abrigo para eu passar a noite. A tenda, 
um pedao de lona cuidadosamente dobrado por cima de um galho de rvore e preso dos dois lados, era sem dvida uma idia exclusiva do cabo Rowbotham.
        O cabo foi embora, e eu fiquei sentada sozinha, comendo devagar batatas queimadas e carne fibrosa. Eu encontrara uma touceira de mostarda perto do crrego, 
as folhas murchando e marrons nas bordas, e trouxera um punhado no bolso, junto com alguns frutos do zimbro que eu colhera durante uma parada no meio do dia. As 
folhas de mostarda eram velhas e muito amargas, mas consegui faz-las descer pela minha garganta comendo pedaos entre pores de batata. Terminei a refeio com 
os zimbros, mordendo cada um ligeiramente para evitar ficar engasgada e em seguida engolindo a fruta dura, achatada, com semente e tudo. A oleosa exploso de sabor 
enviava vapores para cima do fundo da minha garganta e fazia meus olhos lacrimejarem, mas realmente limpava minha lngua do gosto de gordura e queimado e, com as 
folhas de mostarda, talvez fossem suficientes para evitar o escorbuto.
        Eu tinha um bom estoque das folhas comestveis, novas e enroladas, de samambaias, frutos de roseira brava, mas secas e sementes de endro na maior das duas 
caixas de remdios, cuidadosamente coletadas como defesa contra a desnutrio durante os longos meses de inverno. Esperava que Jamie as estivesse comendo.
        Coloquei a cabea sobre os joelhos; achei que ningum estivesse olhando para mim, mas no queria que vissem meu rosto quando eu estivesse pensando em Jamie.
        Permaneci no meu falso desmaio no monte Falkirk o maior tempo possvel, mas fui acordada pouco depois por um soldado dos drages tentando forar um pouco 
de conhaque de um pequeno frasco pela minha garganta. Sem saberem o que fazer comigo, meus "salvadores" levaram-me para a Casa Callendar e entregaram-me  equipe 
do general Hawley.
        At ento, tudo correra conforme o plano. No entanto, no desenrolar da ltima hora as coisas haviam degringolado seriamente. Por ficar sentada em uma ante-sala, 
ouvindo tudo o que era dito  minha volta, logo fiquei sabendo que aquilo que eu achava ter sido uma grande batalha durante a noite, na verdade no passara de uma 
pequena escaramua entre os MacKenzie e um destacamento das tropas inglesas a caminho de se unir ao corpo principal do exrcito. Este exrcito estava agora se reunindo 
para enfrentar o esperado ataque dos escoceses no monte Falkirk; a batalha  qual eu achava ter sobrevivido no havia, de fato, acontecido ainda!
        O prprio general Hawley supervisionava o processo e como ningum parecia ter nenhuma idia do que fazer comigo, fui consignada  custdia de um jovem soldado 
raso, junto com uma carta descrevendo as circunstncias do meu resgate, e despachada para o quartel-general temporrio de um certo coronel Campbell, em Kerse. O 
jovem soldado, um sujeito troncudo chamado Dobbs, era zeloso de uma forma enervante na nsia de desempenhar suas funes e, apesar de vrias tentativas ao longo 
do caminho, eu no conseguira me livrar dele.
        Chegamos a Kerse e descobrimos que o coronel Campbell no estava l, mas fora convocado a Livingston.
        - Olhe - eu sugeri ao meu acompanhante -, obviamente o coronel Campbell no vai ter tempo nem vontade de conversar comigo e de qualquer forma no tenho nada 
a lhe dizer. Por que eu no encontro uma hospedaria aqui na cidade, at poder fazer alguns arranjos para continuar minha viagem para Edimburgo? - Por falta de uma 
idia melhor, eu dera ao ingls basicamente a mesma histria que dera a Colum MacKenzie, h dois anos; que eu era uma viva de Oxford, viajando para visitar um parente 
na Esccia, quando fui emboscada e seqestrada por bandidos das Highlands.
        O soldado Dobbs sacudiu a cabea, ruborizando teimosamente. Ele no devia ter mais de vinte anos e no era muito inteligente, mas quando metia uma idia 
na cabea, no a largava.
        - No posso deix-la fazer isso, sra. Beauchamp - ele disse, pois eu usara o meu prprio nome de solteira como nome falso. - O capito Bledsoe vai comer 
meu fgado se eu no lev-la a salvo ao coronel.
        Assim, fomos para Livingston, montados em dois dos mais lamentveis pangars que eu j vira. Finalmente, fui liberada das atenes do meu acompanhante, mas 
sem que isso implicasse nenhuma melhoria nas minhas circunstncias. Ao invs disso, vi-me confinada em um quarto superior de uma casa em Livingston, contando a histria 
mais uma vez, a um certo coronel Gordon MacLeish Campbell, um escocs das Lowlands no comando de um dos regimentos do eleitor.
        - Sim, compreendo - ele disse, com a espcie de tom que sugeria que ele no compreendia absolutamente nada. Era um homem pequeno, de feies de raposa, meio 
calvo, com cabelos ruivos penteados para trs. Ele estreitou ainda mais os olhos, voltados para baixo, para a carta amassada em cima do mata-borro em sua escrivaninha.
        - Esta carta diz - falou, colocando no nariz pequenos culos de lentes pela metade, a fim de olhar com mais ateno a folha de papel - que um dos seus captores, 
madame, era um membro do cl Fraser, grande, de cabelos ruivos. Essa informao  correta?
        - Sim - eu disse, perguntando-me aonde ele pretendia chegar.
        Ele inclinou a cabea, de modo que seus culos deslizaram pelo nariz, para melhor fixar em mim um olhar penetrante por cima das lentes.
        - Os homens que a resgataram perto de Falkirk disseram ter a impresso de que um de seus captores no era outro seno o famoso chefe das Highlands conhecido 
como "Jamie, o Ruivo". Bem, soube tambm, sra-Beauchamp, que a senhora estava... perturbada, devo dizer? - repuxou os lbios, mas no era um sorriso -, durante o 
perodo de seu cativeiro e talvez sem condies mentais de fazer observaes detalhadas, mas notou em algum momento se os outros homens presentes referiam-se a esse 
homem pelo nome?
        - Sim. Chamavam-no de Jamie. - No achei que haveria nenhum mal em dizer-lhe isso; os cartazes que eu vira deixavam bem claro que Jamie era um partidrio 
da causa Stuart. A localizao de Jamie na batalha de Falkirk era provavelmente de interesse para os ingleses, mas dificilmente poderia incrimin-lo ainda mais.
        "Eles no podem me enforcar mais de uma vez", ele dissera. Uma j seria mais do que suficiente. Olhei para a janela. A noite j cara h mais de meia hora 
e lampies brilhavam na rua l embaixo, carregados por soldados que passavam de um lado para o outro. Jamie devia estar na Casa Callendar, procurando a janela onde 
eu deveria estar aguardando-o.
        Tive a absoluta certeza, repentinamente, que ele me seguira, soube de alguma forma para onde eu estava sendo levada, e estaria esperando na rua l embaixo 
que eu me apresentasse.
        Levantei-me abruptamente e dirigi-me  janela. A rua embaixo estava vazia, a no ser por um vendedor de arenque em conserva, sentado em um banco com um lampio 
aos ps,  espera de algum fregus. No era Jamie, obviamente. Ele no tinha como me encontrar. Ningum no acampamento Stuart sabia onde eu estava; e eu estava completamente 
sozinha. Pressionei as mos com fora contra a vidraa num sbito ataque de pnico, sem me preocupar se poderia quebr-la.
        - Sra. Beauchamp! Est se sentindo bem? - A voz do coronel atrs de mim soou aguda, assustada.
        Cerrei os lbios com fora para impedir que tremessem e respirei fundo vrias vezes, enevoando o vidro, de modo que a rua abaixo desapareceu na nvoa. Externamente 
calma, voltei-me para encarar o coronel.
        - Estou bem - eu disse. - Se j acabou de fazer perguntas, gostaria de ir agora.
        -  mesmo? Humm. - Examinou-me com ar de dvida, depois sacudiu a cabea decididamente.
        - Vai passar a noite aqui - declarou. - Pela manh, eu a enviarei para o sul. Senti um espasmo de choque contrair minhas entranhas.
        - Sul?! Para qu? - deixei escapar abruptamente.
        Suas sobrancelhas de plo de raposa ergueram-se de perplexidade e ele ficou boquiaberto. Em seguida, estremeceu ligeiramente e fechou a boca com fora, entreabrindo-a 
apenas numa fenda para enunciar suas prximas palavras.
        - Tenho ordens de enviar qualquer informao pertencente ao criminoso das Highlands conhecido como Jamie Fraser, o Ruivo - ele disse. - Ou qualquer pessoa 
associada a ele.
        - Eu no estou associada a ele! - eu disse. A menos que queira contar casamento,  claro.
        O coronel Campbell permaneceu indiferente. Voltou-se para a sua escrivaninha e remexeu numa pilha de despachos.
        - Sim, aqui est. O capito Mainwaring ser o oficial que a escoltar. Vir aqui busc-la pela manh. - Tocou uma pequena sineta de prata no formato de um 
gnomo e a porta abriu-se, revelando o rosto inquiridor de seu ordenana particular. - Garvie, acompanhe a senhora aos seus aposentos. Tranque a porta. - Virou-se 
para mim e fez uma ligeira mesura. - Creio que no nos veremos outra vez, sra. Beauchamp. Desejo-lhe um bom descanso e v com Deus. - E isso foi tudo.
        No sei qual exatamente era a velocidade de Deus, mas provavelmente devia ser mais rpida do que o lento cavalgar do destacamento do capito Mainwaring. 
O capito estava encarregado de uma caravana de carroas de suprimentos, destinadas a Lanark. Aps a entrega dessas carroas e de seus condutores, deveria prosseguir 
para o sul com o resto de seu destacamento, entregando despachos de pouca importncia ao longo do caminho. Aparentemente, eu estava enquadrada na categoria de despachos 
sem urgncia, pois estvamos h mais de uma semana na estrada e no havia sinal de estarmos chegando a nenhum lugar ao qual eu era destinada.
        "Sul." Significaria Londres?, perguntei-me, pela milsima vez. O capito Mainwaring no me dissera qual a minha destinao final, mas eu no conseguia pensar 
em nenhum outro destino.
        Erguendo a cabea, dei de cara com um dos soldados dos drages olhando fixamente para mim. Devolvi o olhar diretamente, at que ele enrubesceu e abaixou 
os olhos para a tigela em suas mos. Eu estava acostumada a olhares desse tipo, embora a maioria no fosse to ousada.
        Comeara desde que eu fora "resgatada", com um certo constrangimento reservado por parte do jovem idiota que me levara a Livingston. No precisei de muito 
tempo para perceber que o que causava a atitude de distante reserva por parte dos oficiais ingleses no era desconfiana, mas uma mistura de desprezo e horror, mesclada 
a traos de pena e uma noo de responsabilidade oficial que impedia que seus verdadeiros sentimentos fossem abertamente demonstrados.
        Eu no s fora resgatada de um bando de escoceses vorazes e predadores. Eu fora entregue de um cativeiro durante o qual eu passara uma noite inteira em um 
nico aposento com vrios homens, que eram, de acordo com determinado conhecimento de todos os ingleses de bem, "pouco mais do que bestas selvagens, culpados de 
pilhagem, roubo e incontveis outros crimes hediondos". Inimaginvel, portanto, que uma jovem inglesa tivesse passado a noite na companhia de tais animais e emergido 
inclume.
        Refleti com raiva que o fato de Jamie ter me carregado para fora aparentemente desmaiada podia ter facilitado as coisas no incio, mas sem dvida contribura 
para a impresso geral de que ele - e os demais escoceses do bando - haviam me violentado. E graas  carta detalhada escrita pelo capito do meu grupo original 
de salvadores, todos a quem eu fora repassada - e todos com quem eles conversaram, eu imagino - sabiam a respeito. Instruda em Paris, eu conhecia muito bem os mecanismos 
dos mexericos.
        O cabo Rowbotham certamente ouvira histrias, mas continuara a tratar-me amavelmente, sem nenhum indcio da especulao mal disfarada que eu de vez em quando 
surpreendia nos rostos dos outros soldados. Se eu fosse inclinada a oferecer preces antes de dormir, teria includo seu nome.
        Levantei-me, bati a poeira do meu manto e entrei em minha tenda. Vendo-me sair, o cabo Rowbotham tambm se levantou e, dando a volta  fogueira discretamente, 
sentou-se junto a seus companheiros outra vez, as costas voltadas direto para a entrada da minha tenda. Depois que os soldados se retirassem para suas camas, sei 
que ele procuraria um local a uma distncia respeitvel do meu lugar de descanso, mas ainda assim ao alcance de minha voz. Ele fizera isso nas ltimas trs noites, 
quer dormssemos numa estalagem ou no campo.
        H trs noites, eu tentara mais uma fuga. O capito Mainwaring sabia muito bem que eu estava viajando com ele por imposio e, embora eu representasse um 
fardo para ele, era um soldado consciencioso demais para se livrar da responsabilidade. Dois guardas haviam sido destacados para me vigiar atentamente, cavalgando 
comigo, um de cada lado, durante o dia.
        A noite, a guarda era relaxada, o capito evidentemente achando improvvel que eu fugisse a p pela regio pantanosa e deserta nos rigores do inverno. O 
capito tinha razo. Eu no tinha a menor inteno de cometer suicdio.
        Na noite em questo, entretanto, havamos atravessado um vilarejo h umas duas horas antes de pararmos para passar a noite. Mesmo a p, eu tinha certeza 
de que poderia voltar pelo mesmo caminho e chegar  vila antes do amanhecer. A vila possua uma pequena destilaria, de onde carroas carregadas de barris partiam 
para vrias cidades nas regies adjacentes. Eu vira o ptio da destilaria, com pilhas de barris, e achei que eu tinha ali uma boa chance de me esconder e partir 
com a primeira carroa.
        Assim depois que o acampamento ficou silencioso e os soldados estavam amontoados, roncando em volta da fogueira, eu sara sorrateiramente de baixo do meu 
cobertor, cuidadosamente estendido  beira de um bosque de salgueiros, e abri caminho atravs de suas enormes copas com as folhagens arrastando pelo cho, sem nenhum 
rudo mais alto do que o murmrio do vento.
        Ao sair do bosque, pensei que fosse o barulho do vento atrs de mim tambm, at que a mo de algum agarrou meu ombro.
        - No grite. No vai querer que o capito saiba que saiu sem permisso. - No gritei, apenas porque, com o susto, todo o ar se exaurira dos meus pulmes. 
O soldado, um homem consideravelmente alto chamado carinhosamente de "Jessie" por seus companheiros, por causa do cuidado que tomava em pentear seus cachos louros, 
sorriu para mim e eu devolvi o sorriso de modo incerto.
        Seus olhos recaram sobre meus seios. Suspirou, ergueu os olhos para os meus e deu um passo em minha direo. Dei trs passos para trs, rapidamente.
        - Na verdade, no importa, no , docinho? - ele disse, ainda sorrindo sem pressa. - No depois do que j aconteceu. Que diferena faz mais um, no  mesmo? 
E, alm do mais, sou um ingls - tentou me persuadir. - E no um escocs imundo.
        - Deixe a pobre mulher em paz, Jess - disse o cabo Rowbotham, emergindo silenciosamente da proteo dos salgueiros s suas costas. - Ela j teve muitos problemas, 
a pobre senhora. - Falou com voz bastante calma, mas Jessie fitou-o com raiva. Depois, pensando melhor em relao ao que quer que fosse que tinha em mente, virou-se 
sem mais nenhuma palavra e desapareceu sob as folhas dos salgueiros.
        O cabo esperou, calado, at eu pegar meu manto cado no cho, depois me seguiu de volta ao acampamento. Ele foi pegar seu prprio cobertor, fez sinal para 
que eu fosse me deitar e posicionou-se a alguns passos de distncia, sentando-se com seu cobertor em volta dos ombros, como um ndio. Sempre que eu acordava durante 
a noite, eu o via ainda sentado l, olhando fixa e distraidamente para o fogo.
        Tavistock realmente possua uma estalagem. Mas eu no tive muito tempo para desfrutar de suas comodidades. Chegamos ao vilarejo ao meio-dia e o capito Mainwaring 
saiu na mesma hora para entregar sua atual safra de despachos. Entretanto, retornou depois de uma hora e me disse para pegar meu manto.
        - Por qu? - perguntei, confusa. - Para onde vamos?
        Olhou para mim com indiferena e disse:
        - Para a Manso Bellhurst.
        - Certo - eu disse. Parecia um pouco mais imponente do que meu ambiente atual, que inclua vrios soldados jogando dados no cho, um vira-lata pulguento 
dormindo junto ao fogo e um forte cheiro de lpulo de cerveja.
        A manso, indiferente  beleza natural do lugar, teimosamente virava-se de costas para as campinas abertas e encolhia-se para dentro da terra, de frente 
para o ngreme penhasco.
        Seu acesso era reto, curto e sem adornos, ao contrrio dos acessos graciosos e sinuosos das manses francesas. Mas a entrada da manso era guar-necida com 
dois teis pilares de pedra, cada qual ostentando o smbolo herldico do proprietrio. Fitei-o quando meu cavalo passou perto, tentando localizar de quem era aquele 
braso. Um gato - talvez um leopardo? - agachado com a cabea levantada e um lrio na pata. O braso era-me familiar, eu tinha certeza. Mas de quem seria?
        Ouviu-se um movimento no capim alto junto ao porto e eu vislumbrei dois plidos olhos azuis quando uma trouxa de trapos corcunda fugiu rapidamente para 
as sombras, longe da agitao dos cascos dos cavalos. Algo a respeito do mendigo em farrapos tambm me pareceu familiar. Talvez eu estivesse simplesmente enlouquecendo; 
agarrando-me a qualquer coisa que no me lembrasse de soldados ingleses. O meu acompanhante ficou aguardando no ptio de entrada, sem se dar ao trabalho de desmontar, 
enquanto eu subia os degraus da entrada com o capito Mainwaring e esperava enquanto ele batia  porta, imaginando o que haveria do outro lado.
        - Sra. Beauchamp? - O mordomo, se isso  o que ele era, tinha um ar de quem esperava o pior. Sem dvida, ele tinha razo.
        - Sim - eu disse. - De quem  esta casa?
        Mas enquanto eu perguntava ergui os olhos e espreitei a semi-obscuridade do vestbulo interior. Um rosto fitava-me, os olhos de cora arregalados e espantados.
        Mary Hawkins.
        Quando a jovem abriu a boca, eu tambm abri a minha. E gritei o mais alto que pude. O mordomo, pego de surpresa, recuou um passo, tropeou num canap e caiu 
de lado como um pino de boliche. Pude ouvir os rudos de surpresa dos soldados l fora, subindo os degraus da entrada.
        Arrematei minhas saias e gritei esganiadamente, saindo correndo em direo  sala de visitas, berrando como uma banshee.
        - Um rato! Um rato!
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        Contagiada pela minha aparente histeria, Mary gritou tambm e agarrou-me pela cintura quando colidi com ela como uma bala de canho Empurrei-a para trs, 
para os recessos da sala de visitas comigo, e agarrei-a pelos ombros.
        - No diga a ningum quem eu sou - sussurrei em seu ouvido. - Ningum! Minha vida depende disso! - Achei que estava sendo melodramtica, mas me ocorreu, 
enquanto eu falava, que eu podia muito bem estar dizendo a mais pura verdade. Ser casada com Jamie Fraser, o Ruivo era provavelmente um problema arriscado.
        Mary teve tempo apenas para balanar a cabea de uma forma atordoada, quando a porta no outro extremo do aposento abriu-se e um homem entrou.
        - Que barulheira terrvel  essa, Mary? - perguntou. Apesar de ser um homem gordo, com um ar satisfeito, ele tambm tinha um queixo firme e lbios apertados 
num ar de contentamento, prprios de algum que est satisfeito porque em geral consegue o que quer.
        - N-nada, papai - Mary disse, gaguejando de nervosismo. - Apenas um r-r-rato.
        O baronete cerrou os olhos com fora e respirou fundo, buscando pacincia. Tendo encontrado um simulacro desse estado, abriu-os e olhou fixamente para sua 
filha.
        - Repita isso, menina - ele ordenou. - Mas direito. No vou aceitar que fique murmurando ou balbuciando incoerentemente. Respire fundo, controle-se. Agora. 
Outra vez.
        Mary obedeceu, inspirando at que os cadaros de seu corpete esticaram-se em cima de seu peito estufado. Seus dedos enrolaram-se no brocado de seda de sua 
saia, em busca de apoio.
        - Era um r-rato, papai. A sra. Fr... h, esta senhora assustou-se com um rato.
        Descartando essa tentativa como meramente satisfatria, o baronete aproximou-se, examinando-me com interesse.
        - Oh? E quem  voc, madame?
        O capito Mainwaring, chegando atrasado  cena aps a busca pelo mtico rato, surgiu junto ao meu cotovelo e apresentou-me, entregando a carta de apresentao 
do coronel MacLeish.
        - Hum. Ento, parece que Sua Excelncia dever ser seu hospedeiro, madame, ao menos por enquanto. - Entregou a carta ao mordomo que aguardava discretamente 
e pegou o chapu que este ltimo havia tirado do cabide prximo.
        - Lamento que nosso conhecimento deva ser to breve, sra. Beau-champ. Eu j estava de sada. - Olhou por cima do ombro, para um pequeno lance de escadas 
que partia do vestbulo. O mordomo, com a dignidade restaurada, j subia as escadas, a carta encardida descansando em uma salva conduzida  sua frente. - Vejo que 
Walmisley foi comunicar sua chegada a Sua Excelncia. Devo ir ou perderei a carruagem do correio. Adieu, sra. Beauchamp.
        Voltou-se para Mary, parada, hesitante, junto aos lambris de madeira.
        - Adeus, minha filha. Tente... bem. - Os cantos de sua boca viraram-se para cima no que pretendia ser um sorriso paternal. - Adeus, Mary.
        - Adeus, papai - ela murmurou, os olhos no cho. Olhei de um para o outro. O que diabos Mary Hawkins, de todas as pessoas possveis, estava fazendo ali? 
Obviamente, ela estava hospedada na casa; imaginei que o proprietrio devia ser um conhecido da famlia.
        - Sra. Beauchamp? - Um criado de libr, gordo e baixo, fazia uma mesura junto ao meu cotovelo. - Sua Excelncia vai receb-la agora, madame.
        As mos de Mary agarraram a minha manga quando me virei para seguir o criado.
        - M-m-m-mas... - ela comeou a dizer. Em meu estado de tenso, achei que conseguiria reunir pacincia suficiente para esperar at que ela conseguisse dizer 
o que pretendia. Sorri vagamente e bati de leve em sua mo para tranqiliz-la.
        - Sim, sim - eu disse. - No se preocupe, tudo vai ficar bem.
        - M-mas  meu...
        O criado inclinou-se e empurrou a porta no final do corredor. A luz interior recaa sobre a riqueza de brocados e madeira polida. A cadeira que eu podia 
ver em um dos lados possua um braso de famlia bordado no encosto; uma verso mais clara da desgastada insgnia de pedra que eu vira l fora.
        Um leopardo agachado, segurando na pata um ramo de lrios - ou seriam flores de aafro? Sinais de alarme soaram em minha mente quando o ocupante da cadeira 
se levantou, sua sombra recaindo sobre o polido umbral da porta quando ele se virou. Mary conseguiu finalmente pronunciar sua angustiada palavra final, simultaneamente 
ao anncio do criado.
        - Meu p-p-padrinho - ela disse.
        - Sua Excelncia, o duque de Sandringham - anunciou o criado.
        - Sra.... Beauchamp? - disse o duque, boquiaberto de surpresa.
        - Bem - eu disse debilmente. - Algo assim.
        A porta da sala de visitas fechou-se atrs de mim, deixando-me sozinha com Sua Excelncia. A ltima viso que tive de Mary foi ela de p no corredor, os 
olhos parecendo dois pires, a boca abrindo-se e fechando-se silenciosamente como um peixinho dourado.
        Havia grandes jarros chineses flanqueando as janelas e mesas marchetadas sob eles. Uma Vnus de bronze posava provocantemente sobre o consolo da lareira, 
acompanhada por um par de tigelas de porcelana de bordas douradas e candelabros de prata, iluminados com velas de cera. Um tapete felpudo que eu reconheci como um 
Kermanshah de excelente qualidade cobria quase todo o assoalho e em um dos cantos destacava-se uma espineta; o pouco espao que sobrava era ocupado por mveis incrustados 
e uma ou outra esttua.
        - Belo lugar voc tem aqui - observei amavelmente para o duque, que estava parado diante da lareira, as mos entrelaadas sob a aba do casaco, observando-me 
com uma expresso de cauteloso divertimento no rosto largo e avermelhado.
        - Obrigado - ele disse, na voz alta de tenor que saa to estranhamente daquele peito em forma de tambor. - A sua presena o adorna, minha cara. - A diverso 
venceu a suspeita e ele sorriu, um riso fanfarro e encantador.
        - Por que Beauchamp? - ele perguntou. - Esse no , por acaso, seu verdadeiro nome, ?
        - Meu nome de solteira - respondi, estimulada a dizer a verdade. Suas grossas sobrancelhas louras levantaram-se abruptamente.
        - Voc  francesa?
        - No, inglesa. Mas eu no podia usar Fraser, no ?
        - Compreendo. - As sobrancelhas ainda erguidas, ele indicou com um sinal da cabea um pequeno canap de dois lugares forrado de brocado, convidando-me a 
sentar. Era ricamente esculpido e magnificamente proporcionado, uma pea de museu, como tudo o mais no aposento. Puxei minhas saias ensopadas para o lado o mais 
graciosa possvel, ignorando as profusas manchas de lama e plo de cavalo, e delicadamente sentei-me sobre o cetim amarelo-claro.
        O duque comeou a andar de um lado para o outro diante do fogo, observando-me, ainda com um leve sorriso nos lbios. Lutei contra a crescente sensao de 
calor e conforto que se espalhou pelas minhas pernas doloridas, ameaando me arrastar para o abismo de fadiga que se abria aos meus ps. No era absolutamente hora 
de baixar a guarda.
        - Qual delas voc ? - perguntou o duque de repente. - Uma refm inglesa, uma jacobita fervorosa ou uma agente francesa?
        Esfreguei dois dedos sobre a dor entre meus olhos. A resposta correta era "nenhuma das respostas acima", mas achei que isso no me levaria muito longe.
        - A hospitalidade desta casa parece deixar um pouco a desejar, em relao s pessoas que recebe - eu disse, to arrogante quanto possvel naquelas circunstncias, 
o que no era muito. Ainda assim, o exemplo de Louise como grande dama no fora totalmente em vo.
        O duque riu, uma espcie de risada alta e trinada, como um morcego que tivesse acabado de ouvir uma boa piada.
        - Mil perdes, madame. Tem toda a razo; devia ter pensado em lhe oferecer um lanche antes de ousar interrog-la. Uma grande falta de considerao de minha 
parte.
        Murmurou alguma coisa para o criado que apareceu em resposta ao toque da sineta, depois esperou calmamente diante da lareira at que a bandeja chegasse. 
Permaneci sentada em silncio, olhando em torno do aposento, ocasionalmente lanando um rpido olhar ao meu anfitrio. Nenhum de ns dois estava interessado em conversas 
amenas sobre assuntos gerais. Apesar de sua cordialidade exterior, aquela era uma trgua armada e ns dois sabamos disso.
        O que eu queria saber era por qu. J acostumada a que as pessoas se perguntassem quem diabos eu era, eu imaginava onde o duque se encaixava. Ou onde ele 
achava que eu me encaixava. Ele j se encontrara comigo duas vezes antes, como sra. Fraser, mulher do senhor de Lallybroch. Agora eu surgia na soleira de sua porta, 
posando como uma refm inglesa chamada Beauchamp recentemente resgatada de uma gangue de jacobitas escoceses. Era suficiente para qualquer um desejar saber. Mas 
essa atitude em relao a mim ia muito alm da simples curiosidade.
        O ch chegou, completo com pezinhos e bolo. O duque pegou sua prpria xcara, indicou a minha com um sinal da sobrancelha e tomamos ch, ambos ainda em 
silncio. Em algum lugar do outro lado da casa, eu podia ouvir umas batidas surdas, como as de algum martelando. O leve tilintar da xcara do duque contra o pires 
foi o sinal para a retomada das hostilidades.
        - Muito bem - ele disse, com tanta firmeza quanto possvel para um homem que soava como o Mickey Mouse. - Deixe-me comear, sra. Fraser... posso cham-la 
assim? Obrigado. Deixe-me comear dizendo que eu j sei muito a seu respeito. Pretendo saber mais. Far bem em me responder de maneira completa e sem hesitaes. 
Devo dizer, sra. Fraser, que  uma pessoa surpreendentemente difcil de matar - inclinou-se um pouco em minha direo, o sorriso ainda nos lbios -, mas tenho certeza 
de que isso poder ser realizado, desde que se tenha suficiente determinao.
        Encarei-o, sem me mexer; no por algum sangue-frio inato, mas por simples estupefao. Adotei outro dos maneirismos de Louise, ergui as duas sobrancelhas 
inquisitivamente, tomei um pequeno gole do ch, depois sequei meus lbios delicadamente com o guardanapo bordado com um monograma.
        - Receio que me ache estpida, excelncia - eu disse educadamente -, mas no fao a menor idia do que est dizendo.
        - No mesmo, minha cara?
        Os olhos azuis, pequenos e alegres, no piscaram. Estendeu a mo para a sineta de prata sobre a bandeja e tocou-a uma nica vez.
        O homem devia estar esperando no aposento ao lado pela convocao, pois a porta abriu-se quase imediatamente. Um sujeito magro e alto, com as vestimentas 
escuras e a camisa de linho de boa qualidade de um criado de alto escalo, aproximou-se do duque e fez uma profunda reverncia.
        - Excelncia? - Ele falava ingls, mas o sotaque francs era inconfundvel. O rosto era francs, tambm; nariz longo e branco, com lbios finos e cerrados 
e um par de orelhas que se destacavam de sua cabea como uma pequena asa de cada lado, as pontas fragorosamente vermelhas. O rosto delgado ficou ainda mais plido 
quando ele ergueu os olhos e me viu. Instintivamente, deu um passo para trs.
        Sandringham observou-o com uma carranca de irritao, depois voltou sua ateno para mim.
        - No o reconhece? - perguntou.
        Eu estava comeando a sacudir a cabea, quando a mo direita do sujeito contorceu-se de repente contra o tecido de suas calas. O mais discretamente possvel, 
ele fazia o sinal de chifres, os dedos mdio e anular dobrados, o indicador e o dedo mnimo apontados para mim. Compreendi, ento, e no instante seguinte tive a 
confirmao do que j sabia - um pequeno sinal, uma pinta falsa usada para embelezamento, acima da forquilha do polegar.
        No tive a menor dvida; era o homem da camisa de manchas escuras que atacara a mim e a Mary em Paris. E obviamente a mando do duque.
        - Seu miservel filho-da-me! - exclamei. Levantei-me num salto, virando a mesinha de ch, e agarrei o objeto mais prximo, um jarro de tabaco de alabastro 
esculpido. Arremessei-o na cabea do sujeito, que se virou e fugiu precipitadamente, o pesado jarro errando o alvo por apenas alguns centmetros e indo espatifar-se 
contra o batente da porta.
        A porta bateu quando comecei a correr atrs do sujeito e eu parei bruscamente, arfando. Olhei furiosa para Sandringham, as mos nos quadris.
        - Quem  ele? - perguntei.
        - Meu camareiro - disse o duque calmamente. - Seu nome  Albert Danton. Um bom sujeito ao lidar com echarpes e meias, mas um pouco excitvel, como so tantos 
franceses. Incrivelmente supersticioso, tambm. - Franziu o cenho e olhou com ar de desaprovao para a porta fechada.
        - Malditos papistas, com todos esses santos e cheiros e coisas semelhantes. Acreditam em qualquer coisa.
        Minha respirao abrandou-se, embora meu corao ainda martelasse contra as barbatanas do meu espartilho. Tive dificuldade em respirar fundo.
        - Seu imundo, nojento, desgraado... pervertido.
        O duque pareceu entediado com a minha reao e balanou a cabea negligentemente.
        - Sim, sim, minha cara. Tudo isso, tenho certeza, e mais ainda. Um pouco azarado tambm, ao menos naquela ocasio.
        - Azarado?  assim que chama a isso? - Tropegamente, voltei para o canap e sentei-me. Minhas mos tremiam de nervoso e eu as entrelacei no colo, escondendo-as 
sob as pregas da minha saia.
        - Por diversos motivos, minha cara senhora. Veja bem. - Espalmou as duas mos em sinal de splica. - Enviei Danton para dar cabo de voc. Ele e seus companheiros 
resolveram se divertir um pouco primeiro; at a, tudo bem, mas no processo eles a olharam com mais ateno, saltaram inexplicavelmente  concluso de que voc era 
algum tipo de bruxa, perderam completamente a cabea e fugiram. Porm, no antes de deflorar minha afilhada, que estava presente por acaso, assim arruinando todas 
as chances de um excelente casamento que eu tive muito trabalho em arranjar para ela. Considere a ironia da situao!
        Os choques vinham avassaladores e rpidos e eu nem conseguia saber a qual reagir primeiro. No entanto, havia uma declarao particularmente surpreendente 
naquele discurso.
        - O que quer dizer com "dar cabo de mim"? - perguntei. - Est querendo dizer que voc tentou mesmo mandar me matar? - O aposento pareceu oscilar um pouco 
e tomei um grande gole de ch como se fosse um tnico reconstituinte. No foi muito eficaz.
        - Bem, sim - Sandringham disse afavelmente. - Era isso que eu estava tentando dizer. Diga-me, minha cara, gostaria de tomar um pouco de xerez?
        Fitei-o com os olhos semicerrados por um instante. Tendo acabado de afirmar que ele tentara mandar me matar, ele agora esperava que eu aceitasse um copo 
de xerez de suas mos?
        - Conhaque - eu disse. - Muito conhaque.
        Ele deu uma risadinha naquele tom estridente outra vez e dirigiu-se ao bufete, observando por cima do ombro.
        - O capito Randall disse que voc era uma mulher muito divertida. Um elogio e tanto vindo do capito, sabe. Ele normalmente no tem muita pacincia com 
as mulheres, embora elas fervilhem sobre ele como um enxame. Por sua aparncia, imagino, no pode ser por seus modos.
        - Ento, Jack Randall realmente trabalha para voc - eu disse, pegando o copo que ele me entregou. Eu o vira servir dois copos e tinha certeza de que ambos 
continham apenas conhaque. Tomei um grande e terrivelmente necessitado gole.
        O duque acompanhou-me, piscando os olhos diante do efeito do lquido custico.
        - Claro - ele disse. - Em geral, a melhor ferramenta  a mais perigosa. Por essa razo, no se hesita em us-la;  preciso apenas tomar certas precaues.
        - Perigoso, hein? Exatamente o quanto voc sabe a respeito de Jonathan Randall? - perguntei, com curiosidade.
        O duque riu baixinho.
        - Ah, literalmente tudo, eu diria, minha cara. Talvez muito mais do que voc, na realidade. No adianta empregar um homem como esse sem ter  mo os meios 
de control-lo. E o dinheiro  uma boa brida, mas uma rdea fraca.
        - Ao contrrio da chantagem? - eu disse secamente.
        Ele recostou-se confortavelmente na cadeira, as mos cruzadas sobre a proeminente barriga, e olhou-me com um interesse superficial.
        - Ah. Est pensando que a chantagem pode funcionar nos dois sentidos, suponho? - Sacudiu a cabea, deslocando algumas partculas de gros de rap que flutuaram 
at pousar no colete de seda.
        - No, minha cara. Para comear, existe uma certa diferena em nossas posies. Embora boatos desse tipo possam afetar a maneira como sou recebido em alguns 
crculos da sociedade, isso no  uma questo que me preocupe muito. Enquanto que para o bom capito... bem, o exrcito tem uma viso muito turva de tais predilees 
anormais. Na verdade, a penalidade em geral  a morte. No, no h muita comparao, realmente. -Inclinou a cabea para o lado, at onde as mltiplas papadas permitiam.
        - Mas no  nem a promessa de riqueza nem a ameaa de exposio que prendem John Randall a mim - ele disse. Os olhinhos azuis, lacrimosos, brilharam nas 
rbitas. - Ele me serve porque eu posso lhe dar o que ele deseja.
        Examinei a compleio corpulenta com um asco indisfarvel, fazendo Sua Excelncia sacudir-se de rir.
        - No, isso no - ele disse. - Os gostos do capito so um pouco mais refinados do que isso, ao contrrio dos meus.
        - O qu, ento?
        - Castigo - ele disse calmamente. - Mas voc sabe disso, no? Ou ao menos seu marido sabe.
        Senti-me suja simplesmente por estar perto dele e levantei-me para ir embora. Os cacos do jarro de tabaco de alabastro jaziam espalhados pelo assoalho e 
eu chutei um deles inadvertidamente, de modo que ele voou, bateu na parede, ricocheteou e girou, indo se alojar embaixo do canap e me fazendo lembrar de Danton.
        Eu no tinha certeza se queria discutir o assunto do meu assassinato abortado com ele, mas no momento a questo parecia prefervel a outras alternativas.
        - Por que quis me matar? - perguntei bruscamente, virando-me para encar-lo. Passei os olhos rpido pela coleo de objetos em uma mesinha redonda,  cata 
de uma boa arma de defesa, para o caso de ele ainda nutrir tais sentimentos.
        No parecia. Ao invs disso, ele inclinou-se com grande esforo e pegou o bule de ch - milagrosamente intacto -, colocando-o de novo em p sobre a mesinha 
de ch agora restabelecida  sua posio original.
        - Pareceu-me vantajoso na poca - ele disse calmamente. - Eu soubera que voc e seu marido estavam tentando frustrar um negcio particular no qual eu mesmo 
estava interessado. Pensei em eliminar seu marido, mas pareceu-me perigoso demais, considerando-se seu parentesco prximo com duas das maiores famlias da Esccia.
        - Considerou elimin-lo? - Uma luz acendeu-se em minha mente, uma das muitas que espocavam em meu crnio como fogos de artifcio. -Foi voc quem enviou dois 
marinheiros que atacaram Jamie em Paris?
        O duque balanou a cabea, confirmando.
        - Pareceu-me o mtodo mais simples, ainda que um pouco grosseiro. Por outro lado, Dougal MacKenzie apareceu em Paris e eu me perguntei se na verdade seu 
marido no estaria trabalhando a favor dos Stuart. Fiquei sem saber de que lado ele estava.
        O que eu me perguntava era exatamente de que lado o duque estava. Esse estranho discurso fazia parecer que ele na verdade era um jacobita secreto - e se 
assim fosse, havia conseguido fazer um trabalho de mestre em guardar seus segredos.
        - Depois - ele continuou, delicadamente colocando a tampa no bule outra vez -, havia sua crescente amizade com Lus de Frana. Mesmo que seu marido fracassasse 
com os banqueiros, Lus poderia fornecer a Carlos Stuart o que ele precisasse, desde que voc mantivesse seu lindo nariz fora disso.
        Franziu a testa para o pozinho que segurava, removeu com um peteleco uns fiapos de sua superfcie, em seguida decidiu que era melhor no com-lo e atirou-o 
de volta na mesinha.
        - Quando ficou claro o que estava realmente acontecendo, tentei atrair seu marido de volta  Esccia, com a oferta de um perdo. Provou-se muito cara, essa 
soluo. E tudo para nada, outra vez! Mas ento me lembrei da aparente devoo de seu marido por voc... muito tocante - ele disse, com um sorriso benevolente que 
eu particularmente detestava. -Imaginei que sua morte trgica poderia muito bem distra-lo do esforo no qual estava engajado sem provocar o tipo de interesse que 
seu prprio assassinato teria envolvido.
        Lembrando-me de algo, virei-me para olhar para a espineta no canto da sala. Vrias folhas de partituras adornavam o suporte, escritas numa caligrafia elegante 
e clara. Cinqenta mil libras, na ocasio em que Sua Alteza colocar o p na Esccia. Assinado S. "S",  claro, de Sandringham. O duque riu, aparentemente encantado.
        - Isso foi muito inteligente de sua parte, minha cara. Deve ter sido voc; eu tinha ouvido falar da infeliz incapacidade de seu marido com msica.
        - Na verdade, no foi - retruquei, afastando-me do piano. A mesa ao meu lado no ostentava nada til como abridores de cartas ou objetos rombudos, mas apressadamente 
apoderei-me de um vaso e enterrei o rosto no aglomerado de flores de estufa que ele continha. Fechei os olhos, sentindo o roar das ptalas frias contra minhas faces 
repentinamente quentes. No ousava levantar os olhos, por medo de que meu rosto revelador me entregasse.
        Porque, atrs do ombro do duque, eu vira um objeto redondo, curtido como couro, no formato de uma abbora, emoldurado pelas cortinas de veludo verde como 
um dos exticos objetos de arte do duque. Abri os olhos, espreitando cautelosamente por entre as ptalas, e a boca larga, de dentes quebrados, abriu-se num riso 
como uma lanterna de abbora do Dia das Bruxas.
        Eu estava dividida entre o terror e o alvio. Eu estava certa, ento, sobre o mendigo perto do porto. Era Hugh Munro, um velho companheiro de Jamie dos 
dias em que viveu como um fora-da-lei nas Highlands. Um ex-diretor de escola, ele fora capturado pelos turcos no mar, desfigurado por torturas e levado  mendicncia 
e  perambulao -profisses que ele incrementava com uma bem-sucedida espionagem. Eu ouvira dizer que ele era um agente do exrcito das Highlands, mas eu no percebera 
que suas atividades o haviam trazido to longe ao sul.
        H quanto tempo ele estaria ali, empoleirado como um pssaro na hera do lado de fora da janela do segundo andar? No ousei tentar me comunicar com ele; tudo 
que pude fazer foi fixar os olhos em um ponto logo acima do ombro do duque, fitando o espao com aparente indiferena.
        O duque olhava-me com interesse.
        -  mesmo? No Gerstmann, sem dvida. Eu no imaginaria que ele tivesse uma mente suficientemente tortuosa.
        - E acha que eu tenho? Estou lisonjeada. - Mantive o nariz nas flores, falando distraidamente para o centro de uma penia.
        A figura do lado de fora soltou a trepadeira o suficiente para erguer uma das mos. Privado de sua lngua pelos seus captores sarracenos, as mos de Hugh 
falavam por ele. Fitando-me com intensidade, ele apontou deliberadamente, primeiro para mim, depois para ele prprio, em seguida para um dos lados l fora. A mo 
larga inclinou-se e os dois primeiros dedos transformaram-se num par de pernas em movimento, fugindo para leste. Um ltimo piscar de olhos, o punho cerrado numa 
saudao e ele havia desaparecido.
        Relaxei, tremendo ligeiramente em reao, e respirei fundo, recuperando o flego. Espirrei e devolvi as flores ao seu lugar.
        - Ento, voc  um jacobita? - perguntei.
        - No necessariamente - o duque respondeu animado. - A pergunta , minha cara: voc ? - Completamente  vontade, tirou a peruca e coou a cabea loura e 
meio calva, antes de coloc-la de novo.
        - Voc tentou frustrar o esforo de restituir o rei Jaime ao poder quando estava em Paris. Tendo fracassado, voc e seu marido parecem agora ser os mais 
leais partidrios de Sua Alteza. Por qu? - Os pequenos olhos azuis no demonstravam mais do que um ligeiro interesse, mas no foi um ligeiro interesse que fez com 
que tentasse mandar me matar.
        Desde que descobrira quem era meu anfitrio, eu tentava com todas as foras lembrar-me do que Frank e o reverendo Wakefield haviam dito sobre ele. Seria 
realmente um jacobita? At onde eu conseguia me lembrar, o veredicto da histria - nas pessoas de Frank e do reverendo - era incon-cludente. O meu tambm.
        - Acho que no vou lhe contar - eu disse devagar.
        Com uma sobrancelha loura arqueada bem alta, o duque pegou uma pequena caixa esmaltada do bolso e retirou uma pitada do contedo.
        - Tem certeza de que essa  uma deciso sbia, minha cara? Danton ainda est ao alcance da voz, sabe.
        - Danton no me tocaria nem com uma vara de trs metros - eu disse asperamente. - Alis, nem voc. No - acrescentei apressadamente, vendo sua boca se abrir 
- pela mesma razo. Mas se voc quer tanto saber de que lado estou, no vai me matar antes de descobrir, no ?
        O duque engasgou-se com sua pitada de rap e tossiu estrondosamente, batendo no prprio peito de seu colete bordado. Levantei-me e fitei-o friamente de cima 
para baixo enquanto ele espirrava e lanava perdigotos.
        - Est tentando me assustar para me fazer falar e contar-lhe o que sei mas no vai funcionar - eu disse, com muito mais confiana do que realmente sentia.
        Sandringham enxugou delicadamente os olhos lacrimejantes com um leno. Por fim, inspirou fundo e expirou por entre os lbios carnudos franzidos, enquanto 
olhava-me furioso.
        - Muito bem, ento - ele disse, com muita calma. - Imagino que meus criados a essa altura j terminaram de preparar os seus aposentos. Vou mandar vir uma 
criada para lev-la ao seu quarto.
        Devo ter olhado para ele com um ar pasmo e estpido, porque ele sorriu desdenhosamente enquanto levantava-se com esforo.
        - De certa forma, sabe, no importa - ele disse. - O que quer que seja ou qualquer informao que possa ter, voc possui um atributo de valor incalculvel 
como hspede da casa.
        - E qual ? - perguntei. Ele parou, a mo na sineta, e sorriu.
        - Voc  a mulher de Jamie, o Ruivo - ele disse serenamente. - E ele gosta de voc de verdade, minha cara, no ?
        No que dizia respeito a prises, eu j vira piores. O quarto media uns nove metros de lado e era mobiliado com uma suntuosidade ultrapassada somente pela 
sala de visitas no trreo. A cama de dossel assentava-se em uma pequena plataforma, com penas de avestruz brotando dos cantos do baldaquim e pesadas cortinas de 
tecido adamascado. Um par de cadeiras forradas com o mesmo brocado das cortinas plantava-se confortavelmente diante de uma enorme lareira.
        A criada que me acompanhara colocou a bacia e o jarro de gua que carregava sobre a mesa e apressou-se a acender o fogo da lareira, j preparado. O criado 
de libr colocou sua enorme bandeja coberta sobre a mesa junto  porta, depois ficou parado impassivelmente na entrada, frustrando quaisquer pensamentos que eu pudesse 
ter de tentar uma pequena corrida pelo corredor. No que me adiantasse tentar, pensei com melancolia; ficaria irremediavelmente perdida na casa depois da primeira 
volta no corredor; o malditolugar era to grande quanto o palcio de Buckingham.
        - Tenho certeza de que Sua Excelncia espera que fique confortvel, madame - disse a criada, com uma mesura gentil antes de sair.
        - Ah, aposto que sim - eu disse, de forma nada gentil.
        A porta fechou-se atrs dela com um baque surdo e slido, bastante desencorajador. E o som rangente da enorme chave girando pareceu raspar o ltimo resqucio 
de isolante que cobria meus nervos esfolados.
        Tremendo no frio do vasto aposento, agarrei os cotovelos e aproximei-me do fogo, onde me deixei cair em uma das cadeiras. Meu impulso era o de aproveitar 
a privacidade para ter um pequeno ataque histrico. Por outro lado, receava que se eu desse qualquer vazo s minhas emoes contidas a rdeas curtas, jamais conseguiria 
refre-las outra vez. Fechei os olhos com fora e observei o tremular vermelho da luz do fogo na parte posterior das minhas plpebras, esforando-me para me acalmar.
        Afinal, eu no corria nenhum perigo no momento, e Hugh Munro estava indo ao encontro de Jamie. Ainda que Jamie tivesse perdido minha pista no decurso da 
viagem de uma semana, Hugh o encontraria e o conduziria at aqui. Hugh conhecia cada campons e cada funileiro, cada fazenda e cada manso em quatro parquias. Uma 
mensagem do homem mudo viajaria pela rede de notcias e boatos com a rapidez com que as nuvens levadas pelo vento passavam pelas montanhas. Quer dizer, se ele tivesse 
conseguido sair em segurana de seu elevado poleiro na hera e deixado as terras do duque sem ser capturado.
        - No seja ridcula - eu disse em voz alta -, o sujeito  um invasor profissional.  claro que conseguiu. - O eco de minhas palavras contra o teto de gesso 
ornamentado era de certa forma reconfortante.
        - E se assim  - continuei com firmeza, ainda falando para ouvir a mim mesma -, ento Jamie vir.
        Certo, pensei repentinamente. E os homens de Sandringham estaro  sua espera quando ele chegar. Voc  a mulher de Jamie, o Ruivo, o duque dissera. Meu 
nico atributo de valor. Eu era a isca.
        - Sou um ovo de salmo! - exclamei, sentando-me empertigada na cadeira. A absoluta indignidade da imagem provocou uma pequena, mas bem-vinda exploso de 
clera que fez o medo recuar um pouco. Tentei atiar as chamas da raiva levantando-me e andando a passos largos de um lado para o outro, pensando em novos nomes 
para xingar o duque na prxima vez em que nos encontrssemos. Em minhas composies, eu chegara at "pederasta traioeiro", quando um grito abafado vindo do lado 
de fora distraiu minha ateno.
        Afastando as pesadas cortinas de veludo da janela, vi que o duque cumprira sua palavra. Slidas barras de madeira cruzavam-se no caixilho da janela, numa 
trelia to fechada que eu mal conseguia enfiar o brao entre elas. Entretanto, eu podia ver.
        Anoitecera e as sombras sob as rvores do parque eram negras como tinta. A gritaria vinha de l, acompanhada por gritos de resposta provenientes dos estbulos, 
onde duas ou trs figuras surgiram repentinamente, portando tochas acesas.
        As figuras escuras e pequenas correram em direo ao bosque, as chamas de suas tochas de pinho ondeando para trs, sua luz laranja flamejan-do ao vento mido 
e frio. Quando alcanaram a borda do bosque, um amontoado de vultos humanos quase indistinto tornou-se visvel, caindo na grama em frente  casa. O terreno estava 
molhado e a fora da luta deixava cortes negros e profundos no gramado castigado pelo inverno.
        Fiquei na ponta dos ps, agarrando-me s barras e pressionando a cabea contra a madeira, num esforo para ver melhor. A luz do dia esvara-se completamente 
e,  luz das tochas, eu no conseguia distinguir mais do que um ou outro brao ou perna arremessando-se do tumulto l embaixo.
        No pode ser Jamie, disse a mim mesma, tentando engolir o bolo em minha garganta que era meu corao. No assim to cedo, no agora. E no sozinho, certamente 
ele no teria vindo sozinho? Porque eu j podia ver que a luta concentrava-se em um nico homem, agora de joelhos, no mais do que uma figura escura arqueada sob 
os punhos e paus dos guardas de caa e dos cavalarios do duque.
        Em seguida, a figura agachada estatelou-se no cho e a gritaria cessou, embora mais alguns golpes tenham sido desfechados por precauo antes do pequeno 
bando de criados do duque recuar. Algumas palavras de conversa foram trocadas, inaudveis do meu ponto de observao, e dois homens abaixaram-se e seguraram a figura 
por baixo dos braos. Quando passaram embaixo de minha janela do terceiro andar a caminho dos fundos da casa, a luz das tochas iluminou um par de ps calados de 
sandlias sendo arrastado pelo cho e os farrapos de um casaco encardido. No era Jame.
        Um dos rapazes do estbulo corria ao lado, triunfalmente carregando uma grossa bolsa de couro em uma correia. Eu estava muito acima para ouvir o tilintar 
dos minsculos ornamentos de metal pendurados na correia, mas eles brilhavam na luz das tochas e todas as foras abandonaram meus braos numa precipitao de horror 
e desespero.
        Eram moedas e botes, os pequenos objetos metlicos. E gaberlunzes. Os minsculos selos de chumbo que davam a um mendigo licena de pedir esmolas por uma 
determinada parquia. Hugh Munro possua quatro desses, uma concesso especial por seus sofrimentos nas mos dos turcos. No era Jamie, mas Hugh.
        Eu tremia tanto que minhas pernas mal me obedeciam, mas corri para a porta e soquei-a com todas as minhas foras.
        - Deixem-me sair! - gritei. - Tenho que ver o duque! Deixem-me sair!
        No houve nenhuma resposta aos meus incessantes gritos e socos na porta, e eu voltei correndo para a janela. A cena l embaixo era eminentemente pacfica 
agora; um rapaz segurava uma tocha para um dos jardineiros, que estava ajoelhado na beirada do gramado cuidadosamente substituindo os tufos de grama que haviam sido 
arrancados durante a luta-
        - Ei! - berrei. Cobertos como estavam por barras, eu no podia girar a manivela e abrir os postigos para fora. Atravessei o quarto correndo e peguei um dos 
pesados castiais de prata, corri de volta e estilhacei uma das vidraas da janela, indiferente aos estilhaos que voaram em todas as direes.
        - Socorro! Ei, vocs a embaixo! Digam ao duque que preciso v-lo! Agora! Socorro!
        Achei que uma das figuras virou a cabea na minha direo, mas nenhum dos dois fez qualquer movimento em direo  casa, continuando com seu trabalho como 
se tivesse sido apenas o grito de um pssaro perturbando a escurido que os cercava.
        Corri de volta para a porta, batendo e gritando, e de novo para a janela e de volta para a porta outra vez. Gritei, implorei e ameacei at que minha garganta 
ficou rouca e dolorida, e soquei a porta inflexvel at meus punhos ficarem machucados e roxos, mas ningum apareceu. Pelo que eu podia ouvir, era como se estivesse 
sozinha na casa. O silncio no corredor era to profundo como o da noite l fora; como o de uma sepultura. Todo o controle que eu mantinha sobre meu medo desapareceu 
e eu ca finalmente de joelhos diante da porta, soluando incontrolavelmente.
        Acordei, com frio e os msculos enrijecidos, com uma dor de cabea latejante, sentindo algo grande e slido empurrando-me pelo cho. Despertei completamente 
com um sobressalto quando a beirada da pesada porta que se abria beliscou minha coxa contra o assoalho.
        - Ai! - rolei sobre mim mesma desajeitadamente, depois me ergui de maneira atabalhoada sobre as mos e os joelhos, os cabelos cados sobre o rosto.
        - Claire! Ah, fique quieta, p-por favor! Querida, voc est machucada? - Com um farfalhar de tecido engomado, Mary ajoelhou-se ao meu lado. Atrs dela, a 
porta fechou-se e eu ouvi o clique da fechadura.
        - Sim... quero dizer, no. Estou bem - eu disse, aturdida. - Mas Hugh... - Cerrei os lbios com fora e sacudi a cabea, tentando clare-la. - O que voc 
est fazendo aqui, Mary?
        - Subornei a governanta para ela me deixar entrar - sussurrou. - Tem que falar to alto assim?
        - No faz muita diferena - eu disse, num tom normal de voz. - Esta porta  to grossa, s um jogo de futebol poderia ser ouvido atravs dela.
        - Um o qu?
        - Deixe pra l. - Minha mente comeava a clarear, embora meus olhos estivessem inchados e pegajosos e minha cabea ainda latejasse como um tambor. Levantei-me 
com dificuldade e arrastei-me at a bacia, onde lavei o rosto com gua fria.
        - Subornou a governanta? - eu disse, enxugando o rosto com uma toalha. - Mas ainda estamos trancadas aqui dentro, no estamos? Eu ouvi a chave girar na fechadura.
        Mary estava plida na obscuridade do aposento. A vela derretera completamente enquanto eu dormia e no havia nenhuma luz, exceto o intenso claro vermelho 
das brasas na lareira. Ela mordeu o lbio.
        - Foi o m-melhor que pude fazer. A sra. Gibson estava com muito medo do duque para me dar a chave. Tudo que ela concordou em fazer foi me trancar aqui com 
voc e me deixar sair de manh. Achei que voc precisasse de c-companhia - acrescentou timidamente.
        - Ah - eu disse. - Bem... obrigada. Foi muita bondade sua. - Peguei uma nova vela na gaveta e dirigi-me  lareira para acend-la. O castial estava coberto 
de cera da vela derretida; inclinei o castial e entornei uma pequena poa de cera derretida sobre a mesa e fixei uma nova vela sobre ela, indiferente aos danos 
causados  superfcie marchetada do mvel do duque.
        - Claire - Mary disse. - Voc est... est em dificuldades?
        Mordi o lbio para estancar uma resposta impensada. Afinal, era uma menina de apenas dezessete anos e sua ignorncia de poltica era provavelmente ainda 
mais profunda do que fora sua falta de conhecimento sobre homens.
        - H, sim - eu disse. - Em grandes dificuldades, receio. - Meu crebro comeava a trabalhar outra vez. Ainda que Mary no tivesse condies de ser uma grande 
ajuda para uma fuga, ela podia ao menos ser capaz de me fornecer informaes sobre seu padrinho e sobre as rotinas da casa.
        - Voc ouviu a algazarra l fora perto do bosque algumas horas atrs? -perguntei. Ela sacudiu a cabea. Ela comeava a tremer; num aposento to grande, o 
calor do fogo morria muito antes de chegar  plataforma da cama.
        - No, mas ouvi uma das cozinheiras dizendo que os guardas haviam capturado um mendigo no parque. Est terrivelmente frio. No podemos entrar debaixo das 
c-cobertas?
        Ela j engatinhava por cima da colcha, enfiando a mo sob o travesseiro para pegar a beirada do lenol. Seu traseiro era redondo e bonito, infantil sob a 
camisola branca.
        - No era um mendigo - eu disse. - Ou melhor, era um mendigo, mas era tambm um amigo. Ele estava indo ao encontro de Jamie, para dizer-lhe que eu estava 
aqui. Sabe o que aconteceu depois que os guardas o levaram?
        Mary virou-se bruscamente para mim, o rosto uma mancha plida sob as sombras das cortinas da cama. Mesmo nessa luz fraca, pude ver que os olhos escuros arregalaram-se.
        - Ah, Claire! Sinto muito!
        - Bem, eu tambm - eu disse, com impacincia. - Mas sabe onde est o mendigo? - Se Hugh tivesse sido preso em algum lugar acessvel, como os estbulos, havia 
uma pequena chance de que Mary pudesse facilitar sua fuga de algum modo pela manh.
        O tremor de seus lbios, fazendo sua gagueira normal parecer compreensvel em comparao, devia ter me alertado. Mas as palavras, uma vez que ela as pronunciou, 
trespassaram o meu corao, afiadas e repentinas como uma adaga arremessada.
        - E-eles o en-en-forcaram - ela disse. - No p-porto do p-parque.
        Passou-se algum tempo at eu conseguir prestar ateno  minha volta. A onda de choque, dor, medo e esperanas destroadas inundou-me, dominando-me completamente. 
Tive a vaga conscincia da pequena mo de Mary batendo de leve em meu ombro e de sua voz oferecendo lenos e goles d'gua, mas continuei encolhida numa bola, sem 
falar, tremendo e esperando o relaxamento do desespero avassalador que crispava meu estmago como um punho cerrado. Por fim, exauri o pnico, se no a mim mesma, 
e abri os olhos debilmente.
        - Vou ficar bem - acabei dizendo, sentando-me na cama e assoando o nariz de forma nada elegante na manga. Peguei a toalha que me era oferecida e enxuguei 
os olhos com ela. Mary pairava ao meu redor, com ar preocupado, e eu tomei sua mo e apertei-a para tranqiliz-la.
        - De verdade - eu disse. - Estou bem agora. E estou muito feliz por voc estar aqui. - Uma idia ocorreu-me e eu larguei a toalha, olhando-a com curiosidade. 
- Por falar nisso, por que voc est aqui? - perguntei. -Nesta casa, quero dizer.
        Ela abaixou a cabea, enrubescendo, e comeou a torcer a ponta da coberta.
        - O d-duque  meu padrinho, sabe.
        - Sim, foi o que ouvi dizer - retruquei. - Mas duvido que ele simplesmente quisesse o prazer de sua companhia.
        Ela sorriu um pouco diante da observao.
        - N-no. Mas ele, o duque, quero dizer, ele acha que encontrou outro m-m-marido para mim. - O esforo para pronunciar "marido" deixou-a com o rosto vermelho. 
- Papai me trouxe aqui para conhec-lo.
        Compreendi pelo seu comportamento que aquela no era uma notcia que requeresse congratulaes imediatas.
        - Voc conhece o sujeito?
        Verificou-se que o conhecia apenas de nome. Um sr. Isaacson, um importador, de Londres. Ocupado demais para viajar at Edimburgo para conhecer sua prometida, 
ele concordara em vir a Bellhurst, onde o casamento seria realizado, todas as partes estando de acordo.
        Peguei a escova de cabelos de cabo de prata da mesinha-de-cabeceira e distraidamente comecei a me pentear. Assim, tendo fracassado em assegurar uma aliana 
com a nobreza francesa, o duque pretendia vender sua afilhada a um judeu rico.
        - Tenho um novo dote - Mary disse, tentando sorrir. - Quarenta e trs anguas bordadas, duas com fio de o-ouro. - Parou abruptamente, os lbios cerrados 
com fora, fitando sem ver a mo esquerda vazia. Coloquei minha prpria mo sobre a sua.
        - Bem. - Tentei encoraj-la. - Talvez ele seja um bom homem.
        -  isso que eu t-temo. - Evitando meu olhar inquiridor, ela abaixou os olhos, contorcendo as mos no colo.
        - No contaram ao sr. Isaacson... sobre Paris. E tambm disseram que eu no devo contar. - Seu rosto anuviou-se de tristeza. - Trouxeram uma velha horrvel 
para me dizer como eu deveria agir na m-m-minha noite de npcias, par... para fingir que  a primeira vez, mas eu... ah, Claire, como posso fazer isso? - gemeu. 
- E Alex... eu no contei a ele; no pude! Fui to covarde, n-nem sequer me despedi!
        Atirou-se em meus braos e eu bati de leve em suas costas, perdendo um pouco da minha prpria dor no esforo para reconfort-la. Finalmente, ela acalmou-se, 
mas estava com soluos e aprumou-se para tomar um pouco de gua.
        - Voc vai levar isso at o fim? - perguntei. Ela ergueu os olhos para mim, as pestanas midas e espetadas.
        - No tenho escolha - ela disse simplesmente.
        - Mas... - comecei, e parei em seguida, impotente.
        Mary tinha toda a razo. Jovem e mulher, sem nenhum recurso prprio e nenhum homem que pudesse resgat-la, simplesmente no havia nada a fazer seno acatar 
os desejos de seu pai e de seu padrinho e casar-se com o desconhecido sr. Isaacson de Londres.
        Acabrunhadas, nenhuma de ns duas tinha apetite para a comida na bandeja. Enfiamo-nos sob as cobertas para nos aquecermos e Mary, exausta de emoo, estava 
dormindo profundo em poucos minutos. No menos exausta, vi-me incapaz de adormecer, sofrendo de pesar por Hugh, preocupada comJamie e curiosa a respeito do duque.
        As cobertas estavam frias e meus ps pareciam blocos de gelo. Evitando os pensamentos mais perturbadores em minha mente, voltei-me para Sandringham. Qual 
era o lugar dele em todo esse caso?
        Segundo todos os indcios, o sujeito era um jacobita. Ele se disps, segundo suas prprias palavras, a cometer assassinato - ou ao menos, encomend-lo -, 
a fim de assegurar que Carlos conseguisse o suporte de que precisava para lanar sua campanha na Esccia. E a prova do cdigo musical apenas confirmava que fora 
o duque quem finalmente induzira Carlos a viajar para a Esccia em agosto, com sua promessa de ajuda.
        Sem dvida, havia muitos homens que se esforavam arduamente para ocultar suas simpatias jacobitas; considerando-se as penalidades por traio, no era de 
admirar. E o duque tinha muito mais a perder do que outras pessoas, caso apoiasse uma causa malograda.
        Ainda assim, Sandringham no me parecia um partidrio entusiasmado da monarquia Stuart. Considerando-se suas observaes a respeito de Danton, obviamente 
ele no simpatizaria com um governante catlico. E por que esperar tanto para dar apoio, quando Carlos precisava to desesperadamente de dinheiro agora - na verdade, 
desde sua chegada  Esccia?
        Eu s conseguia imaginar duas razes plausveis para o comportamento do duque, nenhuma delas, particularmente honrosas para o cavalheiro, mas ambas bem dentro 
dos limites de seu carter.
        Ele podia de fato ser um jacobita, disposto a patrocinar um intragvel rei catlico em compensao pelos benefcios futuros que ele pudesse antever como 
principal patrocinador da monarquia Stuart. Eu podia entender isso; o termo "princpios" no constava do vocabulrio do duque, ao passo que "interesses prprios" 
obviamente era uma expresso que ele conhecia bem. Ele poderia querer esperar at que Carlos chegasse a Inglaterra, a fim de que o dinheiro no fosse desperdiado 
antes do ataque crucial, definitivo, do exrcito das Highlands a Londres. Qualquer um que conhecesse Carlos Stuart podia compreender o bom senso em no confiar-lhe 
dinheiro demais de uma s vez.
        Ou ele pode ter desejado se assegurar de que os Stuart de fato possuam algum suporte substancial  sua causa antes de se envolver financeiramente; afinal, 
contribuir para uma rebelio no  a mesma coisa que financiar um exrcito inteiro sozinho.
        Por outro lado, eu podia ver uma razo muito mais sinistra para as condies da oferta do duque. Condicionar seu apoio ao exrcito jacobita  chegada ao 
solo ingls assegurava que Carlos iria continuar lutando contra a crescente oposio de seus prprios lderes, arrastando seu exrcito relutante, desordenado, cada 
vez mais para o sul, longe das montanhas onde poderiam encontrar refgio.
        Se o duque podia esperar benefcios dos Stuart pela ajuda em restaur-los, o que poderia esperar dos Hanover, em troca de atrair Carlos Stuart at coloc-lo 
ao alcance deles - e trair Carlos e seus seguidores entregando-os nas mos do exrcito ingls?
        A histria no conseguiu dizer quais eram as verdadeiras inclinaes do duque. Isso me pareceu estranho; sem dvida, ele teria que revelar suas verdadeiras 
intenes mais cedo ou mais tarde. Claro, ponderei, a Velha Raposa, lorde Lovat, conseguira enganar os dois lados na ltima revoluo jacobita, insinuando-se ao 
mesmo tempo junto aos Hanover e continuando nas boas graas dos Stuart. O prprio Jamie fizera isso durante um perodo. Talvez no fosse to difcil assim para algum 
esconder sua lealdade, no lamaal movedio da poltica real.
        O frio subia pelos meus ps e eu agitava as pernas sem parar, a pele parecendo dormente conforme eu esfregava as panturrilhas uma na outra. As pernas obviamente 
geravam muito menos frico do que galhos secos; nenhum calor perceptvel resultava dessa atividade.
        Deitada insone, irrequieta, mida e pegajosa, repentinamente tomei conscincia de um barulhinho estalado e rtmico a meu lado. Virei a cabea, ouvindo, depois 
me ergui sobre o cotovelo e espreitei, incrdula, a minha companheira. Ela estava curvada de lado, a pele delicada corada do sono, de modo que parecia uma flor completamente 
desabrochada na estufa, o polegar enfiado nos recessos rseos e macios de sua boca. Seu lbio inferior movia-se enquanto eu a observava, em delicados movimentos 
de suco.
        Eu no sabia se ria ou chorava. Por fim, no fiz nem uma coisa nem outra; apenas puxei o polegar delicadamente de sua boca e coloquei a mo lnguida curvada 
sobre seu peito. Apaguei a vela com um sopro e aconcheguei-me junto a Mary.
        Quer tenha sido a inocncia daquele pequeno gesto, com a distante lembrana de confiana e segurana que evocava, o simples conforto de um corpo quente prximo 
ou apenas a exausto da dor e do medo, meus ps descongelaram, finalmente relaxei e adormeci.
        Enrolada num quente casulo de acolchoados, dormi profundamente e sem sonhos. Foi um choque maior ainda, ento, quando fui abruptamente arrancada da escurido 
tranqila e silenciosa do esquecimento. Ainda estava escuro - na realidade, escuro como breu, j que o fogo havia se apagado -, mas o ambiente no estava nem tranqilo 
nem silencioso. Algo pesado aterrissara de repente sobre a cama, batendo em meu brao, e parecia estar tentando assassinar Mary.
        A cama se elevou e o colcho inclinou-se bruscamente sob mim, a estrutura da cama estremecendo com a fora da luta que ocorria a meu lado. Grunhidos agonizantes 
e ameaas sussurradas vinham bem de perto e um brao arremessado - de Mary, eu acho - atingiu-me o olho.
        Rolei apressadamente para fora da cama, tropeando no degrau da plataforma e estatelando-me no cho. Os sons da luta acima de mim intensificaram-se, com 
um horrvel guincho agudo que entendi como sendo o melhor esforo de Mary de gritar enquanto era estrangulada.
        Houve uma repentina exclamao de surpresa, numa profunda voz masculina, em seguida mais uma convulso de cobertas e a gritaria parou bruscamente. Movendo-me 
rpido, encontrei uma caixa de slex sobre a mesa e acendi a vela. Sua chama bruxuleante fortaleceu-se e ergueu-se, revelando o que eu suspeitara pelo som daquele 
vigoroso palavro em galico - Mary, invisvel a no ser por um par de mos debatendo-se desesperadamente, o rosto sufocado sob um travesseiro e o corpo achatado 
pela forma prostrada de meu enorme e agitado marido. Apesar da vantagem de seu tamanho, o invasor parecia estar tendo um grande trabalho para dominar Mary.
        Absorto em subjugar Mary, ele no erguera os olhos para a vela que eu acabara de acender, mas continuou tentando capturar suas mos, enquanto ao mesmo tempo 
segurava o travesseiro sobre seu rosto. Reprimindo a necessidade de rir histericamente diante do espetculo, em vez disso eu coloquei a vela sobre a mesa, inclinei-me 
sobre a cama e bati de leve em seu ombro.
        - Jamie? - eu disse.
        - Santo Deus! - Ele saltou como um salmo, pulando da cama e aterrissando agachado no cho, a adaga j parcialmente desembainhada. Viu-me, ento, e relaxou, 
aliviado, fechando os olhos por um instante.
        - Meu Deus, Sassenach! Nunca mais faa isso, ouviu? Fique quieta -disse sucintamente para Mary, que escapara do travesseiro e agora estava sentada completamente 
ereta na cama, os olhos esbugalhados e tossindo. -No pretendia machuc-la; pensei que fosse minha mulher. - Contornou a cama a passos largos e decididos e beijou-me 
com fora, como se quisesse se certificar que agora tinha encontrado a mulher certa. Encontrara, e eu retribu o beijo com considervel fervor, deliciando-me na 
aspereza da barba por fazer e no seu cheiro quente e penetrante; l e linho midos, com uma forte insinuao de suor masculino.
        - Vista-se - ele disse, soltando-me. - A maldita casa est fervilhando de criados.  como um formigueiro l embaixo.
        - Como entrou aqui? - perguntei, olhando  volta  procura do meu vestido.
        - Pela porta,  claro - ele disse impacientemente. - Tome. - Pegou meu vestido das costas de uma cadeira e atirou-o para mim. De fato, a porta macia estava 
escancarada, um grande molhe de chaves pendurado na fechadura.
        - Mas como... - comecei a perguntar.
        - Mais tarde - ele disse bruscamente. Avistou Mary, fora da cama e lutando para entrar em seu robe. -  melhor voltar para a cama, menina -ele avisou. - 
O cho est frio.
        - Vou com vocs. - As palavras foram abafadas pelas dobras de tecido, mas sua determinao era evidente quando sua cabea despontou pela gola do robe e emergiu, 
descabelada e desafiadora.
        - De jeito nenhum - Jamie disse. Fitou-a furioso e notei as marcas recentes, vermelhas, de unhas em seu rosto. Vendo o tremor em seus lbios, entretanto, 
ele dominou seu temperamento com esforo e falou de forma tranqilizadora. - No se preocupe, menina. Voc no ter nenhum problema com isso. Trancarei a porta atrs 
de ns e de manh voc poder contar a todo mundo o que aconteceu. Ningum vai culp-la.
        Ignorando as palavras de Jamie, Mary enfiou os ps apressadamente nos chinelos e correu para a porta.
        - Ei! Aonde voc pensa que vai? - Surpreso, Jamie girou nos calcanhares e foi atrs dela, mas no suficientemente rpido para impedi-la de alcanar a porta. 
Parou no corredor logo depois da porta, parecendo uma cora.
        - Eu vou com vocs! - disse ferozmente. - Se no me levar, sairei correndo pelo corredor, gritando a plenos pulmes. E ento?
        Jamie fitou-a, os cabelos refletindo um brilho de cobre  luz da vela e o sangue subindo s suas faces, obviamente dividido entre a necessidade de silncio 
e a vontade de mat-la com as prprias mos e para o inferno com o barulho. Mary encarou-o de volta, uma das mos segurando as saias, pronta para correr. Agora vestida 
e calada, cutuquei-o nas costelas, quebrando sua concentrao.
        - Leve-a - eu disse sucintamente. - Vamos.
        Lanou-me um olhar muito semelhante ao que lanara a Mary, mas no hesitou mais do que um instante. Com um curto aceno da cabea, pegou meu brao e ns trs 
samos para a escurido fria do corredor.
        A casa estava ao mesmo tempo mortalmente parada e cheia de barulhos; tbuas rangiam alto sob nossos ps e nossas roupas farfalhavam como folhas numa ventania. 
As paredes pareciam respirar com o assentamento de madeiras e pequenos sons, quase inaudveis, alm do corredor, sugeriam as escavaes secretas de animais subterrneos. 
E acima de todos os sons estava o silncio profundo e assustador de uma casa grande e escura, mergulhada em um sono que no devia ser interrompido.
        A mo de Mary agarrava-se com fora ao meu brao, conforme deslizvamos pelo corredor atrs de Jamie. Ele movia-se como uma sombra, colado  parede, mas 
rpido, apesar de seu silncio.
        Ao passarmos por uma porta, ouvi o rudo de passos leves do outro lado. Jamie tambm os ouviu e achatou-se contra a parede, fazendo sinal para que Mary e 
eu segussemos  sua frente. Senti a argamassa da parede fria contra as palmas de minhas mos, quando tentei comprimir-me contra ela.
        A porta abriu-se cautelosamente e uma cabea numa touca branca alta e inflada projetou-se para fora, espreitando pelo corredor na direo oposta  nossa.
        - Ol? - disse a voz num sussurro. -  voc, Albert? - Um fio de suor gelado desceu pela minha espinha. Uma criada, aparentemente esperando a visita do camareiro 
do duque, que parecia estar mantendo a reputao dos franceses.
        No achei que ela fosse considerar um escocs das Highlands armado um substituto adequado a seu amante ausente. Podia sentir Jamie tenso a meu lado, tentando 
superar seus escrpulos contra golpear uma mulher. Mais um instante e ela iria virar-se, avist-lo e trazer a casa abaixo com seus gritos.
        Dei um passo para fora da parede.
        - H, no - eu disse em tom de desculpas -, receio que seja apenas eu. A criada comeou a agitar-se de forma convulsiva e eu dei um passo rpido passando 
por ela, de modo que ela ficasse de frente para mim, com Jamie ainda atrs dela.
        - Desculpe-me por t-la assustado - eu disse, sorrindo alegremente. - No conseguia dormir, sabe. Pensei em tentar um pouco de leite quente. Diga-me, estou 
na direo certa para a cozinha?
        - Hein? - A criada, uma senhorita gorda de vinte e poucos anos, abriu a boca de maneira muito inconveniente, expondo a prova de uma perturbadora falta de 
preocupao com a higiene dos dentes. Felizmente, no era a mesma criada que me acompanhara ao quarto; ela no devia saber que eu era uma prisioneira e no uma hspede.
        - Sou hspede na casa - eu disse, tentando ser mais convincente. Continuando com o princpio de que a melhor defesa  um bom ataque, fitei-a com um olhar 
acusador.
        - Albert, hein? Sua Excelncia sabe que voc tem o hbito de distrair homens em seu quarto  noite? - perguntei. Isso pareceu tocar um ponto sensvel, porque 
a mulher empalideceu e caiu de joelhos, agarrando-se   minha saia. A perspectiva de ser descoberta era to assustadora que ela no parou para perguntar exatamente 
por que uma hspede deveria estar vagando pelos corredores de madrugada, usando no vestidos e sapatos, mas um manto de viagem tambm.
        - Ah, senhora! Por favor, no diga nada a Sua Excelncia, est bem? Posso ver que tem um rosto bondoso, madame, certamente no vai querer que eu seja despedida, 
no ? Tenha pena de mim, milady, tenho seis irmos e irms ainda em casa e eu...
        - Vamos, vamos - eu disse, tentando acalm-la, batendo de leve em seu ombro. - No se preocupe com isso. No vou contar ao duque. Volte para sua cama e... 
- Falando no tom de voz que se usa com crianas e doentes mentais, fui conduzindo-a, ainda falando sem parar, protestando sua inocncia, de volta ao seu pequeno 
quarto.
        Fechei a porta e reclinei-me sobre ela em busca de apoio. O rosto de Jamie assomou das sombras diante de mim, rindo. Ele no disse nada, mas bateu de leve 
na minha cabea felicitando-me, antes de tomar meu brao e me puxar pelo corredor outra vez.
        Mary nos aguardava sob a janela do patamar, seu robe branco resplandecente ao luar que brilhou momentaneamente atravs das nuvens ligeiras que passavam l 
fora. Ao que parecia, uma tempestade estava se formando e eu me perguntei se isso iria ajudar ou atrapalhar nossa fuga.
        Mary agarrou o xale de Jamie quando ele pisou no patamar.
        - Shh! - ela sussurrou. - Algum est vindo!
        De fato, vinha algum; pude ouvir rudos abafados de passos vindos de baixo e a claridade fraca de uma vela acesa no vo da escada. Mary e eu olhamos desesperadas 
 nossa volta, mas no havia absolutamente nenhum lugar onde pudssemos nos esconder. Essa era uma escada de fundos, destinada ao uso dos criados, e os patamares 
eram simples quadrados de piso, inteiramente desprovidos de mveis ou convenientes tapearias penduradas nas paredes.
        Jamie suspirou de resignao. Ento, fazendo sinal para que eu e Mary voltssemos para o corredor de onde viramos, ele sacou sua adaga e esperou, parado 
no canto escuro do patamar.
        Os dedos de Mary agarravam-se e entrelaavam-se aos meus, apertando com fora numa agonia de apreenso. Jamie tinha uma pistola pendurada do cinto, mas obviamente 
no podia us-la dentro da casa - e um criado iria perceber isso, tornando-a intil como ameaa. Teria que ser a adaga e meu estmago tremeu de pena do azarado criado 
que estava prestes a ficar frente a frente com noventa e seis quilos de um musculoso escocs e a ameaa de sua lmina.
        Eu estava fazendo um inventrio da minha indumentria e pensando que eu podia dispensar uma das minhas anguas para ser usada para amarrar, quando a cabea 
abaixada do portador da vela tornou-se visvel. Os cabelos escuros eram divididos ao meio e emplastrados com uma pomada de cheiro adocicado e enjoativo que imediatamente 
trouxe de volta a lembrana de uma rua escura de Paris e a curva de lbios finos e cruis sob uma mscara.
        A arfada que soltei ao reconhec-lo fez Danton erguer os olhos abruptamente, um degrau abaixo do patamar. No instante seguinte, ele foi agarrado pelo pescoo 
e atirado contra a parede do patamar com uma fora que lanou o castial pelos ares.
        Mary tambm o vira.
        -  ele! - ela exclamou, esquecendo-se, com o choque, tanto de sussurrar quanto de gaguejar. - O homem de Paris!
        Jamie manteve o camareiro, que se debatia debilmente, esmagado contra a parede, preso por um brao musculoso pressionado contra seu peito. O rosto do francs, 
surgindo e desaparecendo com a luz que se esvaa ou inundava o patamar, de acordo com as nuvens cleres, estava plido como o de um fantasma. Ficou ainda mais plido 
no instante seguinte, quando Jamie encostou a ponta da lmina na sua garganta.
        Entrei no patamar, sem saber ao certo o que Jamie pretendia fazer ou o que eu desejava que ele fizesse. Danton emitiu um gemido estrangulado ao me ver e 
fez uma tentativa infrutfera de fazer o sinal-da-cruz.
        - La Dame Blanche! - murmurou, os olhos arregalados de pavor. Jamie moveu-se com uma violncia repentina, agarrando os cabelos do sujeito e dando um puxo 
to forte em sua cabea para trs que ela se chocou contra os lambris.
        - Se eu tivesse tempo, mo garhe, voc iria morrer devagar - ele sussurrou e sua voz, apesar de serena, no deixava dvidas sobre sua inteno. -Agradea 
a Deus por eu estar com pressa.
        Puxou a cabea de Danton bruscamente ainda mais para trs, de modo que pude ver o subir e descer do seu pomo-de-ado, conforme ele engolia em seco convulsivamente, 
os olhos aterrorizados fixos em mim.
        - Voc a chama de Dame Blanche - Jamie disse, entre dentes. - Eu a chamo de minha mulher! Ento, que o rosto dela seja sua ltima viso!
        A faca rasgou a garganta do sujeito com tal violncia que fez Jamie grunhir com o esforo e uma cortina escura de sangue jorrar sobre sua camisa. O cheiro 
ftido de morte sbita encheu o patamar, com um som chiado e gorgolejante do montculo desmoronado no cho, que pareceu se prolongar por um longo tempo.
        Os sons s minhas costas finalmente me fizeram recobrar os sentidos: Mary, vomitando convulsivamente no corredor. Meu primeiro pensamento coerente foi o 
de que os criados iriam ter uma sujeira infernal para limpar de manh. Meu segundo pensamento foi por Jamie, visto num lampejo fugaz de luar. Seu rosto estava salpicado 
e seus cabelos emplastrado de sangue em alguns lugares. E ele respirava pesadamente. Parecia que ele tambm estava prestes a vomitar.
        Voltei-me para Mary e vi, no final do corredor, uma fenda de luz por trs de uma porta que se abria. Algum estava vindo investigar o barulho. Agarrei a 
bainha de seu robe, passei-o grosso modo pela sua boca e segurei-a pelo brao, arrastando-a em direo ao patamar.
        - Vamos! - eu disse. - Vamos sair daqui!
        Despertando de sua atordoada contemplao do corpo de Danton, Jamie sacudiu-se repentinamente e, recuperando os sentidos, virou-se para a escada.
        Ele parecia saber para onde estvamos indo, conduzindo-nos pelos corredores escuros sem hesitao. Mary acompanhava-me aos tropees, arquejante, sua respirao 
alta como uma mquina a vapor no meu ouvido.
        Quando chegamos  porta da copa, Jamie parou e deu um assobio baixo. Isso foi imediatamente correspondido e a porta abriu-se para uma escurido habitada 
por formas indistintas. Uma dessas destacou-se das trevas e apressou-se  frente. Algumas palavras murmuradas foram trocadas e o homem - quem quer que fosse - estendeu 
a mo para Mary e puxou-a para as sombras. Uma corrente de ar frio disse-me que havia uma porta aberta em algum lugar  frente.
        A mo de Jamie em meu ombro guiava-me pelo meio dos obstculos da copa escura e um aposento menor que parecia ser uma espcie de quartinho de despejo; raspei 
o queixo contra alguma coisa, mas contive uma exclamao de dor.
        Finalmente do lado de fora, na noite fria, o vento apoderou-se do meu manto e o fez rodopiar num exuberante balo. Depois do difcil e tenso percurso pela 
casa escura, senti que podia criar asas e voar para os cus.
        Os homens ao meu redor pareciam compartilhar a sensao de alvio. Houve uma pequena erupo de comentrios sussurrados e risos abafados, logo silenciados 
por Jamie. Um de cada vez, os homens atravessaram depressa o espao aberto em frente  casa, no mais do que sombras sob a lua volvel. Ao meu lado, Jamie observava-os 
desaparecer nos bosques do parque.
        - Onde est Murtagh? - ele murmurou, como se falasse consigo mesmo, franzindo a testa depois que o ltimo homem passou. - Acho q foi procurar Hugh - ele 
disse, em resposta  sua prpria pergunta. -onde ele pode estar, Sassenach?
        Engoli em seco, sentindo o vento frio sob meu manto, a lembrana eliminando a repentina alegria da liberdade.
        - Sim - respondi e dei-lhe a m notcia, da forma mais breve possvel. A expresso do seu rosto anuviou-se sob a mscara de sangue e quando terminei seu 
rosto estava rgido como pedra.
        - Pretende ficar a parado a noite toda - perguntou uma voz atrs de ns - ou devemos soar um alarme para que eles saibam onde procurar primeiro?
        A expresso de Jamie desanuviou-se um pouco quando Murtagh surgiu das sombras ao nosso lado, silencioso como um fantasma. Carregava um pacote envolvido em 
panos debaixo do brao; um pedao de carne da cozinha, pensei, vendo a mancha de sangue escura no pano. Essa impresso advinha do enorme presunto que ele trazia 
enfiado debaixo do outro brao e as cordas de salsichas penduradas em volta do pescoo.
        Jamie franziu o nariz com um leve sorriso.
        - Voc est fedendo a aougueiro, meu camarada. No consegue ir a lugar nenhum sem pensar no seu estmago?
        Murtagh inclinou a cabea para o lado, analisando a aparncia respin-gada de sangue de Jamie.
        - Melhor se parecer com um aougueiro do que com sua mercadoria, rapaz - ele retrucou. - Vamos?
        A travessia do parque foi escura e assustadora. As rvores eram altas e muito espaadas, mas havia mudas crescendo entre elas que transformavam-se bruscamente 
nas figuras ameaadoras de guardas de caa  luz incerta. Ao menos, as nuvens se adensavam e a lua cheia fazia poucas aparies, e agradecamos por isso. Quando 
alcanamos o outro lado do parque, comeou a chover.
        Trs homens haviam sido deixados com os cavalos. Mary j estava montada  frente de um dos homens de Jamie. Obviamente embaraada com a necessidade de ter 
de cavalgar montada com uma perna de cada lado, ela no parava de enfiar as pontas de seu robe embaixo das coxas, na v tentativa de esconder o fato de que ela possua 
pernas.
        Mais experiente, mas ainda assim amaldioando as dobras pesadas de minhas saias, segurei-as para cima e coloquei um p na mo estendida de Jamie, impulsionando 
o corpo com agilidade e montando o cavalo com um baque na sela. O cavalo resfolegou com o impacto e inclinou as orelhas para trs.
        - Sinto muito, companheiro - eu disse, sem compaixo. - Se voc acha que isso foi ruim, espere at ele montar.
        Olhando  minha volta,  procura do "ele" em questo, encontrei-o sob uma das rvores, a mo no ombro de um rapaz desconhecido, de aproximadamente catorze 
anos.
        - Quem  aquele? - perguntei, inclinando-me para frente para atrair ateno de Geordie Paul Fraser, que estava ocupado amarrando sua sela meu lado.
        - Hein? Ah, ele. - Lanou um rpido olhar para o garoto, depois de volta ao obstinado cinturo de sua sela, franzindo o cenho. - Seu nome  Ewan Gibson. 
O enteado mais velho de Hugh Munro. Ele estava com o pai, ao que parece, quando os guardas do duque os atacaram. O garoto conseguiu fugir e ns o encontramos  beira 
da charneca. Ele nos trouxe aqui. - Com um derradeiro e desnecessrio puxo, fitou o cinturo com raiva, como se o desafiasse a dizer alguma coisa, depois ergueu 
os olhos para mim.
        - Sabe onde est o pai do garoto? - perguntou abruptamente. Balancei a cabea afirmativamente e a resposta deve ter sido evidente em meu rosto, porque ele 
se virou para olhar para o rapaz. Jamie abraava o menino, apertando-o forte contra o peito e batendo de leve em suas costas. Conforme observvamos, ele afastou 
o rapaz, as mos em seus ombros, e disse alguma coisa, fitando-o intensamente. No pude ouvir o que ele dizia, mas aps alguns instantes o rapaz aprumou-se e balanou 
a cabea em sinal afirmativo. Jamie tambm balanou a cabea e, com um aperto final em seus ombros, virou o rapaz na direo de um dos cavalos, onde George McClure 
j estendia a mo para baixo, para o jovem. Jamie caminhou a passos largos at ns, a cabea baixa, com a ponta do seu xale esvoaando livremente atrs dele, apesar 
do vento frio e da chuva fustigante. Geordie cuspiu no cho.
        - Pobre garoto - disse, sem especificar de quem ele falava, e montou em seu prprio cavalo.
        Perto do canto sudeste do parque, paramos, os cavalos batendo as patas no cho e remexendo-se, enquanto dois dos homens desapareciam de volta no meio das 
rvores. No devem ter se passado mais do que vinte minutos at eles voltarem, mas pareceu o dobro.
        Os dois homens cavalgavam em um s cavalo agora e o outro animal carregava uma forma longa, atravessada na sela e amarrada, envolvida num tart dos Fraser. 
Os cavalos pareceram no gostar; o meu ergueu a cabea com um safano, as narinas dilatadas, quando o cavalo que conduzia o corpo de Hugh aproximou-se. Mas Jamie 
deu um puxo na rdea e disse algo rispidamente em galico e o animal desistiu.
        Senti Jamie erguer-se nos estribos atrs de mim, olhando para trs como se contasse os remanescentes do seu bando. Em seguida, passou o brao pela minha 
cintura e partimos, na direo norte.
        Viajamos a noite toda, com apenas algumas paradas para descanso. Durante uma dessas paradas, escondendo-se sob uma castanheira, Jamie abraou-me, depois 
parou repentinamente.
        - O que foi? - perguntei, sorrindo. - Com medo de beijar sua mulher na frente de seus homens?
        - No - ele disse, provando-o. Em seguida, deu um passo para trs, sorrindo. - No, por um instante tive medo de que fosse gritar e arranhar meu rosto. - 
Passou a mo de leve nas marcas de unhas que Mary deixara em sua face.
        - Coitadinho - eu disse, rindo. - No foram as boas-vindas que voc esperava, hein?
        - Bem, a essa altura, na verdade, foram - ele disse, rindo. Ele tirara duas salsichas de uma das cordas de Murtagh e estendeu uma para mim. No me lembrava 
da ltima vez que eu havia comido, mas devia ter sido h muito tempo, porque nem mesmo meu medo de botulismo impediu que a carne gordurosa e bem temperada parecesse 
deliciosa.
        - O que quer dizer com isso? Achou que eu no iria reconhec-lo depois de apenas uma semana?
        Ele sacudiu a cabea, ainda sorrindo, e engoliu um pedao de salsicha.
        - No.  que, assim que entrei na casa, eu sabia onde voc estava, mais ou menos, por causa das barras em suas janelas. - Arqueou uma das sobrancelhas. - 
A julgar por elas, voc deve ter causado uma forte impresso em Sua Excelncia.
        - Causei, sim - eu disse sucintamente, no querendo pensar no duque. - Continue.
        - Bem - ele disse, dando mais uma mordida na salsicha e transferindo-a habilmente para a bochecha enquanto falava -, eu sabia qual era o quarto, mas precisava 
da chave, certo?
        - Ah, sim - eu disse. - Voc ia me contar sobre isso. Ele mastigou rpido e engoliu.
        - Peguei-a com a governanta, mas no sem dificuldade. - Esfregou a barriga de leve, alguns centmetros abaixo do cinto. - Ao que parece, eu diria que a mulher 
j foi acordada em sua cama outras vezes antes... e no gostou da experincia.
        - Ah, sim - eu disse, divertindo-me com a imagem mental que seu relato provocou. - Bem, eu diria que voc veio como uma fruta rara e revigorante para ela.
        - Duvido muito, Sassenach. Ela berrou como uma banshee e deu uma joelhada nas minhas bolas, depois quase conseguiu golpear minha cabea com um castial, 
enquanto eu gemia, dobrado ao meio.
        - O que voc fez?
        - Dei-lhe um soco, eu no estava me sentindo muito cavalheiresco naquele momento, e amarrei-a com as tiras de sua touca de dormir. Em seguida, enfiei uma 
toalha em sua boca para pr um fim aos xingamentos que ela me dirigia e dei uma busca no quarto at encontrar as chaves.
        - Bom trabalho - eu disse, ocorrendo-me uma dvida -, mas como voc sabia onde a governanta dormia?
        - Eu no sabia - ele disse calmamente. - A lavadeira me disse, depois de eu lhe dizer quem eu era e ameaar estrip-la e ass-la num espeto se ela no me 
dissesse o que eu queria saber. - Lanou um sorriso enviesado para mim. - Como eu lhe disse, Sassenach, s vezes  uma vantagem ser considerado um brbaro. Imagino 
que a essa altura todos eles j tenham ouvido falar emjamie Fraser, o Ruivo.
        - Bem, se no ouviram, vo ouvir - eu disse. Olhei-o de cima a baixo, da melhor maneira que pude na luz turva. - E ento, a lavadeira no o espancou tambm?
        - Ela puxou meu cabelo - ele disse, pensativamente. - Arrancou um punhado pela raiz. Vou lhe dizer, Sassenach; se eu algum dia tiver necessidade de mudar 
de emprego, acho que no vou comear a atacar mulheres...  uma maneira desgraada de ganhar a vida.
        A mistura de neve e chuva comeou a cair pesadamente com a proximidade do amanhecer, mas ns continuamos cavalgando por mais algum tempo at que Ewan Gibson 
fez seu pnei parar, ergueu-se desajeitadamente nos estribos para olhar em volta, depois fez sinal para que subssemos a encosta que se erguia  esquerda.
        Escuro como estava, era impossvel subir a encosta a cavalo. Tivemos que apear e conduzi-los passo a passo por poas e lama, seguindo a trilha quase invisvel 
que ziguezagueava pelas urzes e pedras. A luz do dia comeava a clarear o cu quando paramos no topo da colina para recuperar o flego. O horizonte estava encoberto 
por grossas nuvens, mas um cinza turvo, proveniente de nenhuma fonte visvel, comeava a substituir o cinza mais escuro da noite. Agora, eu ao menos podia ver os 
arroios parcialmente congelados em que eu afundava os ps at a canela e evitar torcer o tornozelo nas piores salincias das rochas e arbustos que encontrvamos 
na descida da colina.
        Encravada no sop, via-se uma pequena rea plana, com seis casas, embora "casa" fosse uma palavra suntuosa demais para as rsticas construes agachadas 
sob os larcios. Os telhados de palha quase tocavam o cho, deixando apenas um pedao de parede de pedra  mostra.
        Paramos em frente a uma dessas cabanas. Ewan olhou para Jamie, hesitando como se esperasse instrues, depois, diante do sinal que Jamie fez com a cabea, 
agachou-se e desapareceu sob o teto baixo da choupana. Aproximei-me de Jamie, colocando a mo sobre seu brao.
        - Esta  a casa de Hugh Munro - ele me disse, a voz muito baixa. - Eu o trouxe de volta para sua mulher. O garoto entrou para contar-lhe.
        Desviei os olhos da entrada escura e baixa do casebre para o fardo flcido, envolto em tecido xadrez, que dois dos homens desamarravam do cavalo. Senti um 
pequeno tremor percorrer o brao de Jamie. Ele fechou os olhos por um instante e vi seus lbios moverem-se; em seguida, ele deu um passo  frente e estendeu os braos 
para o fardo. Inspirei fundo, afastei os cabelos do meu rosto e segui-o, agachando-me sob a verga da porta.
        No foi to ruim quanto eu temia, embora bastante desolador. A mulher, a viva de Hugh, permaneceu em silncio, aceitando o suave discurso de condolncias 
de Jamie, em galico, com a cabea baixa, as lgrimas escorrendo pelo rosto como chuva. Estendeu a mo, hesitante, na direo do xale que recobria o corpo, como 
se pretendesse abaix-lo, mas no teve coragem. Permaneceu ali parada, uma das mos pousada, sem jeito, na curva da mortalha, enquanto a outra apertava uma criana 
junto  sua coxa.
        Havia vrias crianas amontoadas junto ao fogo - os enteados de Hugh - e um beb enfaixado num bero tosco mais perto da lareira. Senti um pequeno consolo, 
olhando para a criana; ao menos, restara um pedao de Hugh. Depois, o consolo foi sobrepujado por uma fria sensao de medo quando olhei para as outras crianas, 
os rostinhos sujos mesclando-se s sombras. Hugh fora o principal esteio desta famlia. Ewan era corajoso e determinado, mas tinha apenas catorze anos e a criana 
mais velha depois dele era uma menina de aproximadamente doze anos. Como eles iriam sobreviver?
        O rosto da mulher era desgastado e enrugado, quase sem dentes. Percebi com um choque que ela devia ser apenas alguns anos mais velha do que eu. Fez um sinal 
com a cabea indicando a nica cama e Jamie depositou o corpo cuidadosamente sobre ela. Falou outra vez em galico para a mulher; ela sacudiu a cabea desamparadamente, 
ainda fitando a longa forma sobre a cama.
        Jamie ajoelhou-se ao lado da cama, inclinou a cabea e colocou uma das mos sobre o corpo. Suas palavras eram baixas, mas pronunciadas com clareza, e at 
mesmo eu, com meu parco galico, podia segui-las.
        -Juro a voc, meu amigo, e que Deus seja testemunha. Em nome de seu amor por mim, nunca os seus passaro necessidade, enquanto eu puder ampar-los. - Permaneceu 
imvel por um longo instante e no se ouvia nenhum rudo no casebre, seno o estalar da turfa na lareira e o tamborilar abafado da chuva no telhado. A umidade havia 
escurecido os cabelos de Jamie; gotculas de chuva brilhavam como jias nas pregas de seu xale. Em seguida, sua mo apertou o corpo do amigo uma vez numa despedida 
final, e ele se levantou.
        Jamie cumprimentou a sra. Munro com uma inclinao do corpo e depois virou-se para tomar meu brao. Entretanto, antes que pudssemos sair, o couro de boi 
que encobria a entrada da casa foi afastado para o lado e eu recuei um passo para dar passagem a Mary Hawkins, seguida de Murtagh.
        Mary parecia tanto desalinhada quanto desnorteada, um xale mido em volta dos ombros e os enlameados chinelos projetando-se por baixo da bainha encharcada 
de seu robe. Avistando-me, apertou-se contra mim, como se estivesse grata pela minha presena.
        - Eu no queria entrar - sussurrou para mim, lanando um olhar tmido na direo da viva de Hugh Munro -, mas o sr. Murtagh insistiu.
        As sobrancelhas de Jamie ergueram-se numa indagao, quando Murtagh cumprimentou a sra. Munro respeitosamente com um aceno da cabea e disse-lhe algumas 
palavras em galico. O pequeno escocs tinha a aparncia de sempre, circunspecta e competente, mas achei que havia um indcio extra de dignidade em seu comportamento. 
Carregava um de seus alforjes  sua frente, bojudo e pesado com alguma coisa. Talvez um presente de despedida para a sra. Munro, pensei.
        Murtagh colocou o alforje no cho, aos meus ps, depois se aprumou e olhou de mim para Mary, para a viva de Hugh Munro e finalmente para Jamie, que parecia 
to intrigado quanto eu. Tendo dessa forma se assegurado da ateno de sua platia, Murtagh inclinou-se numa mesura formal para mim, uma mecha de cabelos escuros 
e molhados caindo livremente sobre sua testa.
        - Trago-lhe sua vingana, senhora - ele disse, de uma forma to serena como eu nunca o ouvira falar. Endireitou-se e inclinou a cabea para Mary e para a 
sra. Munro. - E justia pelo mal que lhes causou.
        Mary espirrou e limpou o nariz apressadamente com uma dobra de seu xale. Olhava fixamente para Murtagh, os olhos arregalados e atnitos. Abaixei o olhar 
para o alforje bojudo, sentindo um calafrio profundo e repentino, que nada tinha a ver com o tempo l fora. Mas foi a viva de Hugh Munro quem caiu de joelhos e, 
com mos firmes, abriu a sacola e retirou de dentro a cabea do duque de Sandringham.
        
        
        
45 - MALDITOS SEJAM TODOS OS RANDALL
        
        Foi uma viagem torturante para o norte, rumo  Esccia. Tnhamos que nos esquivar e esconder, sempre com medo de sermos reconhecidos como um bando das Highlands, 
sem podermos comprar ou pedir comida, tendo que roub-la de cabanas momentaneamente vazias ou arrancar as poucas razes comestveis que eu conseguisse identificar 
nos campos.
        Devagar, avanamos para o norte. No tnhamos a menor idia de onde o exrcito escocs estaria agora, exceto que viera para o norte. Sem saber onde estava 
o exrcito, resolvemos nos dirigir a Edimburgo; l, pelo menos, haveria notcias da campanha. Estivramos desligados de tudo por vrias semanas; eu soubera que a 
tentativa dos ingleses de recuperar o Castelo Stirling havia fracassado, Jamie sabia que a batalha de Falkirk fora um sucesso, terminando com a vitria dos escoceses. 
Mas o que acontecera depois?
        Quando finalmente entramos no caminho de pedras cinza da Royal Mile, Jamie dirigiu-se imediatamente para o quartel-general do exrcito, deixando-me com Mary 
para irmos ao quarto de Alex Randall. Subimos a rua apressadamente, mal falando, ambas receosas demais do que poderamos encontrar.
        Ele estava l, e eu vi os joelhos de Mary cederem quando entrou no quarto e deixou-se cair junto  cama. Subitamente acordado de um sono leve, ele abriu 
os olhos e piscou uma vez, depois o rosto de Alex Randall iluminou-se como se ele tivesse recebido uma visita celestial.
        - Ah, meu Deus! - murmurava sem parar, as palavras entrecortadas, em meio aos cabelos da jovem. - Ah, meu Deus! Eu pensei... ah, Senhor, eu rezei... queria 
v-la mais uma vez. Apenas uma. Ah, Senhor!
        Simplesmente desviar meus olhos no me pareceu suficiente; sa para o patamar e sentei-me nas escadas por meia hora, descansando minha exausta cabea sobre 
os joelhos.
        Quando me pareceu decente retornar, voltei ao pequeno quarto, que se tornara sujo e triste outra vez nas semanas de ausncia de Mary. Examinei-o, minhas 
mos suaves sobre a carne devastada. Eu estava surpresa por ele estar durando tanto; no iria demorar muito mais.
        Ele viu a verdade em meu rosto e balanou a cabea, sem surpresa.
        - Eu esperava - ele disse em voz baixa, recostando-se, exausto sob os travesseiros. - Eu esperava... que ela viesse mais uma vez. Eu no tinha nenhuma razo... 
mas eu rezei. E minhas preces foram ouvidas. Posso morrer em paz agora.
        - Alex! - O grito de angstia de Mary irrompeu como se as palavras dele a tivessem atingido como um soco, mas ele sorriu e apertou sua mo
        - Sabemos disso h muito tempo, meu amor - ele sussurrou-lhe -No se desespere. Estarei sempre com voc, observando-a, amando-a. No chore, minha querida. 
- Ela limpou obedientemente as faces rosadas, mas nada pde fazer para estancar as lgrimas que escorriam pelo seu rosto. Apesar de seu bvio desespero, ela nunca 
parecera to viosa.
        - Sra. Fraser - Alex disse, obviamente reunindo suas foras para pedir mais um favor. - Preciso pedir-lhe... amanh... poder vir outra vez e trazer seu 
marido com a senhora?  importante.
        Hesitei por um instante. O que quer que Jamie descobrisse, ele iria querer partir de Edimburgo imediatamente, para unir-se ao exrcito e ao resto de seus 
homens. Entretanto, com certeza mais um dia no faria diferena para o desfecho da guerra - e eu no podia negar o apelo nos dois pares de olhos que me fitavam com 
tanta esperana.
        - Ns viremos - eu disse.
        - Sou um idiota - Jamie resmungou, subindo as ruas ngremes, de calamento de pedras, para o beco onde ficava o quarto de Alex Randall. -Devamos ter partido 
ontem, imediatamente, assim que conseguimos reaver suas prolas do penhor! No sabe como Inverness  distante? E ns com pouco mais do que pangars para nos levar 
l.
        - Eu sei - eu disse com impacincia. - Mas eu prometi. E se voc o tivesse visto... bem, voc o ver em instantes e ento compreender.
        - Muhm. - Mas ele segurou a porta da rua para mim e seguiu-me pela escada em caracol do prdio decrpito sem maiores reclamaes.
        Mary estava recostada, quase deitada na cama. Ainda trajando suas esfarrapadas roupas de viagem, segurava Alex, apertando-o com fora contra seu peito. Ela 
deve ter permanecido com ele assim a noite toda.
        Ao me ver, ele delicadamente se liberou de seu abrao, batendo de leve em suas mos conforme as colocava de lado. Ergueu-se apoiado no cotovelo, o rosto 
mais plido do que os lenis de linho onde estava deitado.
        - Sra. Fraser - ele disse. Sorriu debilmente, apesar da pelcula de suor doentio e da palidez acinzentada que sinalizava um ataque srio.
        - Foi muita bondade de vocs terem vindo - ele disse, arfando um pouco. Olhou alm de mim. - Seu marido... ele est com voc?
        Como em resposta, Jamie entrou no quarto, atrs de mim. Mary, arrancada de sua infelicidade pelo barulho de nossa chegada, olhou de mim para Jamie, depois 
se levantou, colocando a mo timidamente no brao de Jamie.
        - Eu... ns... p-precisamos de voc, lorde Tuarach. - Achei ter sido a gagueira, mais do que o uso de seu ttulo, que o comoveu. Embora ele ainda estivesse 
carrancudo, uma parte de sua tenso esvaiu-se. Inclinou a cabea cortesmente para ela.
        - Eu pedi  sua esposa que o trouxesse, senhor. Estou morrendo, como pode ver. - Alex Randall endireitou-se com esforo e sentou-se na beira da cama. Suas 
pernas descarnadas brilhavam brancas como ossos sob a bainha puda do camiso de dormir. Os dedos dos ps, longos, delgados e exangues, estavam azulados pela m 
circulao.
        Eu j vira a morte muitas vezes antes, em todas as suas formas, mas isso era sempre o pior - e o melhor; um homem que ia ao encontro da morte com conhecimento 
e coragem, enquanto as artes vs do curandeiro desmoronavam. Vs ou no, remexi o contedo da minha caixa em busca da digitalina que eu preparara para ele. Eu tinha 
vrias infuses, de concentraes variadas, um espectro de lquidos marrons em frascos de vidro. Escolhi o frasco mais escuro sem hesitao; eu podia ouvir sua respirao 
borbulhar por causa da gua em seus pulmes.
        No era a digitalina, mas sua fora de vontade que o sustentava agora, iluminando-o com um brilho como se uma vela queimasse por trs da pele semelhante 
 cera de seu rosto. Eu tambm j vira isso algumas vezes antes; o homem - ou mulher - cuja vontade era forte o suficiente para sobrepujar durante algum tempo os 
imperativos do corpo.
        Pensei que talvez fosse assim que alguns fantasmas se formavam; onde uma vontade e um propsito sobreviviam, indiferentes  carne frgil que caa  beira 
da estrada, incapaz de sustentar a vida por mais tempo. Eu no queria ser assombrada por Alex Randall; essa, entre outras, foi a razo que me fez trazer Jamie comigo 
hoje.
        O prprio Jamie parecia estar chegando s mesmas concluses.
        - Sim - ele disse brandamente. - Compreendo. Deseja algo de mim? Alex balanou a cabea, fechando os olhos por um momento. Ergueu o frasco que lhe dei e 
bebeu, estremecendo um pouco com o gosto amargo. Abriu os olhos e sorriu para Jamie.
        - A indulgncia de sua presena apenas. Prometo que no vou det-lo por muito tempo. Estamos esperando por mais uma pessoa.
        Enquanto espervamos, fiz o que pude por Alex Randall, o que, nas atuais circunstncias, no era muito. A infuso de dedaleira outra vez e um pouco de cnfora 
para facilitar a sua respirao. Ele pareceu um pouco melhor depois da administrao dos remdios, mas colocando o estetosc-pio improvisado contra seu peito fundo, 
eu podia ouvir as batidas esforadas de seu corao, interrompidas por estremecimentos e palpitaes to freqentes que eu achava que iria parar a qualquer momento.
        Mary segurava sua mo o tempo todo e ele mantinha os olhos fixos nela, como se memorizasse cada trao de seu rosto. Parecia quase uma intruso estar no mesmo 
quarto que eles.
        A porta abriu-se e Jack Randall ficou parado na soleira. Olhou para mim e para Mary por um instante sem compreender, depois seu olhar recaiu sobre Jamie 
e ele ficou paralisado. Jamie encarou-o sem desviar os olhos, depois se virou, balanando a cabea em direo  cama.
        Vendo aquele rosto emaciado, Jack Randall atravessou o quarto correndo e caiu de joelhos ao lado da cama.
        - Alex! - exclamou. - Meu Deus, Alex...
        - Est tudo bem - seu irmo disse. Segurou o rosto de Jack entre suas mos frgeis e sorriu para ele, tentando tranqiliz-lo. - Est tudo bem, Johnny - 
ele disse.
        Coloquei a mo sob o cotovelo de Mary, delicadamente instando-a a sair da cama. O que quer que Jack Randall fosse, ele merecia algumas derradeiras palavras 
com seu irmo. Atnita de desespero, ela no resistiu, mas acompanhou-me para o outro lado do aposento, onde eu a fiz sentar-se em um banco. Despejei um pouco de 
gua do jarro e molhei meu leno. Tentei dar-lhe o leno, para ela limpar os olhos, mas ela simplesmente continuou sentada, agarrando-o, inerte. Suspirando, peguei-o 
e limpei seu rosto, alisando seus cabelos o quanto pude.
        Ouviu-se um som entrecortado, sufocado, de trs, que me fez olhar na direo da cama. Jack, ainda de joelhos, enterrara o rosto no colo do irmo, enquanto 
Alex acariciava sua cabea, segurando uma de suas mos.
        -John - ele disse. - Voc vai saber que no lhe peo isso sem motivo. Mas pelo amor que voc tem por mim... - Um acesso de tosse o interrompeu, o esforo 
ruborizando seu rosto com uma cor febril.
        Senti o corpo de Jamie retesar-se ainda mais, se isso fosse possvel. Jonathan Randall tambm se enrijeceu, como se sentisse a fora do olhar de Jamie sobre 
ele, mas no ergueu os olhos.
        - Alex - ele disse serenamente. Colocou a mo no ombro do irmo mais novo, como se quisesse acalmar a tosse. - No se atormente, Alex. Sabe que no precisa 
pedir; farei qualquer coisa que voc quiser.  a respeito da... da garota? - Olhou na direo de Mary, mas no pde realmente encar-la.
        Alex balanou a cabea, ainda tossindo.
        - Tudo bem-John disse. Colocou ambas as mos nos ombros de Alex, tentando lev-lo a se deitar no travesseiro outra vez. - No deixarei que nada lhe falte. 
Descanse sua mente.
        Jamie olhou para mim, os olhos arregalados. Sacudi a cabea devagar, sentindo meus plos arrepiarem-se da minha nuca  base de minha espinha. Tudo fazia 
sentido agora; o vio no rosto de Mary, apesar de seu sofrimento, e a sua aparente concordncia em se casar com o rico judeu de Londres.
        - No se trata de dinheiro - eu disse. - Ela est grvida. Ele quer... - parei, limpando a garganta. - Acho que ele quer que voc se case com ela.
        Alex balanou a cabea, confirmando, os olhos ainda cerrados. Respirou profundamente por um instante, depois os abriu, brilhantes poas cor de avel, fixas 
no rosto perplexo que o olhava sem compreender.
        - Sim - ele disse. -John... Johnny, preciso que voc cuide dela por mim. Quero... que meu filho tenha o nome Randall. Voc pode... lhes dar certa posio 
no mundo, muito mais do que eu pude. - Estendeu a mo, tateando, e Mary segurou-a, prendendo-a contra o peito, como se quisesse lhe preservar a vida. Ele sorriu-lhe 
ternamente e estendeu a mo para tocar os cachos escuros, brilhantes, que caam ao redor de seu rosto, ocultando-o.
        - Mary. Desejo-lhe... bem, voc sabe o que lhe desejo, minha querida; tantas coisas. E tantas coisas que lamento. Mas no posso lamentar o amor que nos une. 
Tendo conhecido essa alegria, poderia morrer feliz, a no ser pelo meu medo de que voc possa ficar exposta  vergonha e  desgraa.
        - No me importo! - Mary irrompeu ferozmente. - No me importa que fiquem sabendo!
        - Mas eu me preocupo com voc - Alex disse, meigamente. Estendeu a mo para seu irmo, que a segurou aps um instante de hesitao. Ele, ento, uniu-as, 
colocando a mo de Mary na de Randall. A de Mary permaneceu inerte e a de Jack Randall rgida, como um peixe morto em uma prancha de madeira, mas Alex envolveu-as 
com suas mos e pressionou-as com fora, obrigando-as a se unirem.
        - Eu os dou um ao outro, meus queridos - ele disse calmamente. Olhou de um rosto para o outro, cada qual refletindo o horror da sugesto, submersos na dor 
avassaladora da perda iminente.
        - Mas... - Pela primeira vez em nosso conhecimento, eu vi Jonathan Randall completamente sem palavras.
        - timo. - Foi quase um sussurro. Alex abriu os olhos e deixou escapar a respirao que estava prendendo, sorrindo para seu irmo. - No resta muito tempo. 
Eu mesmo devo cas-los. Agora. Foi por isso que pedi  sra. Fraser que trouxesse seu marido... se concordar em ser testemunha com sua esposa, senhor? - Ergueu os 
olhos para Jamie, que, aps um instante de perplexa imobilidade, assentiu, balanando a cabea como um autmato.
        Creio que jamais vi trs pessoas com uma expresso to completamente aniquilada.
        Alex estava to fraco que seu irmo, o rosto quase ptreo, teve que ajud-lo, prendendo o colarinho alto e branco de padre em volta do seu pescoo plido. 
O prprio Jonathan parecia um pouco melhor. Emaciado da doena, as rugas em seu rosto eram to profundas que ele parecia anos mais velho do que sua idade real e 
seus olhos espreitavam de rbitas fundas como cavernas de osso. Vestido de modo impecvel como sempre, ele parecia um manequim malfeito de um alfaiate, as feies 
negligentemente talhadas de um bloco de madeira.
        Quanto a Mary, permanecia sentada na cama, chorando inconsolavel-mente nas dobras de seu manto, os cabelos desalinhados e arrepiados de esttica. Fiz o que 
pude por ela, ajeitando seu vestido e penteando seus cabelos. Ela ficou sentada, soluando tristemente, os olhos fixos em Alex.
        Apoiando a mo na cmoda, Alex tateou na gaveta, retirando finalmente seu enorme livro de preces. Era pesado demais para ele segurar aberto diante dele, 
como deveria fazer. No conseguia ficar de p, mas sentou-se o mais empertigado possvel na cama, mantendo o livro aberto sobre os joelhos. Fechou os olhos, respirando 
pesadamente, e uma gota de suor pingou de seu rosto, manchando a pgina.
        - Meus entes queridos - Alex comeou, e eu desejei, pelo seu prprio bem, como pelo de todos os demais, que ele estivesse usando a forma abreviada da cerimnia.
        Mary parara de chorar, mas seu nariz estava vermelho e brilhante no rosto claro e a coriza escorria sobre seu lbio superior. Jonathan notou isso e, sem 
nenhuma expresso no rosto, puxou um grande leno de linho da manga e ofereceu-o a ela silenciosamente.
        Ela pegou-o com um leve aceno da cabea, sem olhar para ele, e limpou o rosto indiferentemente.
        - Sim - ela disse quando chegou o momento, como se no mais se importasse com qualquer coisa que dissesse.
        Jack Randall fez seus votos com voz firme, mas distante da cena. Tive a estranha sensao de estar presenciando um casamento contratado entre duas pessoas 
que nem se davam conta da presena uma da outra; toda a ateno de ambos concentrava-se no homem sentado diante deles, os olhos fixos nas pginas de seu livro.
        Estava feito. Congratulaes aos noivos no parecia ser o prximo passo apropriado e seguiu-se um silncio constrangedor. Jamie olhou para mim com ar de 
interrogao e eu encolhi os ombros. Eu desmaiara logo depois de me casar com ele e Mary parecia prestes a seguir meu exemplo.
        Terminada a cerimnia, Alex permaneceu absolutamente imvel por um instante. Sorriu levemente e olhou deliberadamente  sua volta, os olhos repousando por 
alguns instantes em cada rosto, um de cada vez. Jonathan, Jamie, Mary e eu. Vi o brilho naqueles suaves olhos cor de avel quando seu olhar encontrou-se com o meu. 
O toco de vela diminua cada vez mais, mas o fim do pavio ardia, por um instante forte e luminoso.
        Seu olhar demorou-se no rosto de Mary, em seguida ele cerrou as plpebras rapidamente, como se no suportasse olhar para ela, e eu pude ouvir o ronco de 
sua respirao lenta e laboriosa. O brilho de sua pele se embotava e se esvaa, a vela derretendo-se.
        Sem abrir os olhos, ele estendeu a mo, tateando cegamente. Jonathan segurou-a, pegou-o por trs dos ombros e deitou-o devagar sobre os travesseiros. As 
mos longas, lisas como as de um garoto, contorceram-se agi-tadamente, mais brancas do que a camisa onde se apoiavam.
        - Mary.
        Os lbios azulados moveram-se num sussurro e ela envolveu as mos nervosas nas dele, segurando-as contra o peito.
        - Estou aqui, Alex. Ah, Alex, estou aqui! - Inclinou-se para mais perto dele, murmurando em seu ouvido. O movimento forou Jonathan a recuar um pouco, de 
modo que ele se afastou da cama. Ficou parado, os olhos fixos no cho, o rosto sem nenhuma expresso.
        As plpebras pesadas, convexas, ergueram-se mais uma vez, apenas parcialmente agora, buscando um rosto e encontrando-o.
        -Johnny. To... bom para mim. Sempre, Johnny.
        Mary inclinou-se sobre ele, a sombra de seus cabelos soltos escondendo seu rosto. Jonathan Randall permaneceu imvel como uma pedra de um crculo megaltico, 
observando seu irmo e sua esposa. No havia nenhum som no quarto, exceto o sussurro do fogo e os soluos abafados de Mary Randall.
        Senti um toque em meu ombro e ergui os olhos para Jamie. Ele indicou Mary com um sinal da cabea.
        - Fique com ela - disse a meia-voz. - No vai demorar muito mais, no ?
        - No.
        Ele balanou a cabea. Em seguida, respirou fundo, soltou a respirao devagar e atravessou o aposento, aproximando-se de Jonathan Randall.
        Segurou a figura paralisada pelo brao e virou-o gentilmente na direo da porta.
        - Vamos - disse serenamente. - Eu o levarei em segurana at o seu alojamento.
        A porta empenada rangeu quando ele saiu, acompanhando Jack Randall ao lugar onde ele iria passar sua noite de npcias, sozinho.
        Fechei a porta de nosso quarto na hospedaria e apoiei-me contra ela, exausta. Acabara de escurecer l fora e os gritos dos vigias noturnos ecoavam pela rua.
        Jamie estava junto  janela, aguardando a minha chegada. Veio at mim imediatamente, apertando-me com fora contra seu peito, antes mesmo de eu tirar meu 
manto. Deixei-me aconchegar junto a ele, grata pelo calor e solidez de seu corpo. Ele passou um dos braos sob meus joelhos e carregou-me at o banco da janela.
        - Tome uma bebida, Sassenach - insistiu. - Voc est abatida e no  de admirar. - Pegou o frasco de bebida de cima da mesa e preparou uma mistura que parecia 
ser conhaque e gua, sem a gua.
        Passei a mo, exausta, pelos cabelos. Fomos ao quarto em Ladywalk Wynd logo depois do desjejum; agora j passava das seis da tarde. Parecia que eu estivera 
dias ausente.
        - O pobre coitado no demorou muito. Foi como se ele s estivesse esperando para v-la em segurana. Mandei um recado  casa de sua tia; a tia e dois primos 
vieram busc-la. Eles cuidaro... dele. - Tomei um pequeno gole de conhaque com grande satisfao. Queimou minha garganta e os vapores elevaram-se para dentro de 
minha cabea como neblina nas charnecas, mas eu no me importei.
        - Bem - eu disse, tentando sorrir -, ao menos sabemos que Frank esta a salvo, afinal de contas.
        Jamie olhou-me furioso, as sobrancelhas ruivas quase se tocando.
        - Dane-se Frank! - ele disse, ferozmente. - Danem-se todos os Randall! Dane-se Jack Randall e dane-se Mary Hawkins Randall e dane-se Alex Randall... h, 
que Deus o tenha, quero dizer - corrigiu-se apressadamente, benzendo-se.
        - Pensei que voc no guardasse rancor - comecei a dizer. Fitou-me com raiva.
        - Eu menti.
        - E dane-se voc tambm, Claire Randall Fraser, j que estou nisso! - exclamou. - Pode ter certeza que eu guardo rancor! Tenho cimes de cada lembrana sua 
que no me inclua e de cada lgrima que voc verteu por outra pessoa e de cada segundo que passou na cama de outro homem! Danem-se todos! - Ele derrubou o copo de 
conhaque de minha mo -acidentalmente, creio -, puxou-me para ele e beijou-me com fora.
        Afastou-se o suficiente para sacudir-me outra vez.
        - Voc  minha, diabos, Claire Fraser! Minha e eu no vou compartilh-la, nem com outro homem nem com uma lembrana, nem com coisa nenhuma, enquanto ns 
vivermos. No mencione o nome desse homem para mim outra vez. Voc me ouviu? - Beijou-me impetuosamente para enfatizar suas palavras. - Voc me ouviu? - perguntou, 
desligando-se bruscamente de mim.
        - Sim - eu disse, com alguma dificuldade. - Se voc... parasse... de me sacudir, eu poderia... responder.
        Um pouco timidamente, ele soltou as mos dos meus ombros.
        - Desculpe-me, Sassenach.  que... Deus, por que voc... bem, sim, vejo porque... mas voc tinha que... - Interrompi aquela fala entrecortada e incoerente 
colocando a mo em sua nuca e puxando sua cabea para mim.
        - Sim - eu disse com firmeza, soltando-o. - Eu precisava. Mas agora acabou. - Desamarrei meu manto e deixei-o cair dos meus ombros ao cho. Ele inclinou-se 
para peg-lo, mas eu o interrompi.
        - Jamie - eu disse. - Estou cansada. Pode me levar para a cama?
        Ele inspirou fundo e expirou devagar, fitando-me intensamente, os olhos fundos de cansao e tenso.
        - Sim - disse brandamente, por fim. - Sim.
        Ele ficou em silncio e foi rude no comeo, os resqucios de sua raiva embrutecendo seu amor.
        - Aai! - exclamei a certa altura.
        - Santo Deus, desculpe-me, mo duinne. Eu no...
        - Tudo bem. - Interrompi suas desculpas com minha boca e abracei-o com fora, sentindo a clera esvair-se  medida que a ternura crescia entre ns. Ele no 
se esquivou do beijo, mas permaneceu imvel, delicadamente explorando meus lbios, a ponta de sua lngua acariciando, mal me tocando.
        Toquei sua lngua com a minha e segurei seu rosto entre minhas mos. Ele no se barbeara desde manh e os minsculos plos ruivos raspavam agradavelmente 
as pontas dos meus dedos.
        Ele abaixou o corpo e rolou um pouco para o lado, para no me esmagar sob seu peso. E continuamos, tocando em toda a extenso de nossos corpos, intimamente 
ligados, falando em idiomas silenciosos.
        Vivos e unidos num nico ser. Somos um s e, enquanto nos amarmos, a morte jamais nos alcanar. "A sepultura  um lugar belo e reservado / Mas acho que 
ningum ali se abraa." Alex Randall jazia, frio, em sua cama e Mary Randall sozinha em outra. Mas ns estvamos ali juntos e nada nem ningum importava alm deste 
fato.
        Ele agarrou meus quadris, as mos grandes e quentes em minha pele, e puxou-me para ele. O estremecimento que me percorreu, tambm percorreu seu corpo, como 
se compartilhssemos a mesma carne.
        Acordei durante a noite, ainda em seus braos, e percebi que ele estava acordado.
        - Volte a dormir, mo duinne. - Sua voz era branda, baixa e reconfor-tante, mas com um travo que me fez estender a mo para sentir as lgrimas em seu rosto.
        - O que foi, meu amor? - sussurrei. - Jamie, eu o amo muito.
        - Eu sei - ele disse serenamente. - Eu realmente sei, querida. Deixe que eu lhe diga em seu sono o quanto eu a amo. Porque as palavras que lhe digo quando 
est acordada so sempre as mesmas, no so suficientes. Enquanto voc dormir em meus braos, posso dizer-lhe coisas que soariam tolas e loucas, e seus sonhos entendero 
a verdade delas. Volte a dormir, mo duinne.
        Virei a cabea, o suficiente para que meus lbios roassem a base de sua garganta, onde seus batimentos cardacos pulsavam devagar sob a pequena cicatriz 
triangular. Depois, repousei a cabea sobre seu peito e entreguei meus sonhos em suas mos.
        
        
        
46 - Timer mortis conturbat me
        
        Havia homens e vestgios de sua passagem por toda parte  medida que avanvamos para o norte, seguindo a retirada do exrcito das Highlands. Passamos por 
pequenos grupos de homens a p, caminhando tenazmente, as cabeas abaixadas contra o vento e a chuva. Outros jaziam nas trincheiras e sob as cercas vivas, exaustos 
demais para prosseguir. Equipamentos e armas haviam sido abandonados ao longo do caminho; aqui uma carroa derrubada, os sacos de farinha rasgados e estragados na 
umidade, ali um par de pequenas colubrinas sob uma rvore, os canos gmeos brilhando sinistramente nas sombras.
        O tempo estivera inclemente o dia inteiro, atrasando-nos. Era 13 de abril e eu cavalgava e caminhava com uma sensao constante, atormentadora, de horror 
em meu corao. Lorde George e os chefes de cl, o prncipe e seus principais conselheiros - todos estavam na Casa Culloden, ou assim haviam nos informado por um 
dos MacDonald que encontramos ao longo do caminho. Ele pouco sabia alm disso e ns no o detivemos; o homem afastou-se tropegamente na neblina, andando como um 
zumbi. As raes estavam escassas quando fui capturada pelos ingleses um ms atrs; a situao havia claramente ido de mal a pior. Os homens que vimos se moviam 
devagar, muitos cambaleando de exausto e inanio. Mas prosseguiam obstinadamente na direo norte, todos seguindo as ordens de seu prncipe. Caminhavam para o 
lugar que os escoceses chamavam de Drumossie Moor. Para Culloden.
        Em determinado ponto, a estrada ficou ruim demais para os pneis trpegos. Tivemos que contornar o trecho invivel, conduzindo-os pela borda externa de um 
pequeno bosque, atravs das urzes midas da primavera, at onde a estrada tornava-se transitvel outra vez, a uns oitocentos metros de distncia.
        - Ser mais rpido atravessar o bosque - Jamie disse-me, tomando as rdeas da minha mo dormente. Fez um sinal com a cabea indicando o pequeno bosque de 
pinheiros e carvalhos, onde o cheiro fresco e adocicado de folhas molhadas elevava-se do solo encharcado. - V por ali, Sassenach. Encontraremos com voc do outro 
lado.
        Eu estava cansada demais para discutir. Colocar um p na frente do outro era um bvio esforo e o esforo seria indubitavelmente menor na camada macia de 
folhas e agulhas de pinheiros cadas no bosque do que atravs das urzes pantanosas e traioeiras.
        Estava silencioso no bosque, as lamrias do vento abrandadas pelos galhos dos pinheiros acima. A pouca chuva que atravessava os ramos tamborilava de leve 
sobre as camadas de folhas de carvalho cadas, curtidas como couro, estalando e sussurrando, mesmo quando molhadas.
        Ele jazia a apenas alguns metros da borda mais remota do bosque, ao lado de uma enorme rocha cinza. O lquen verde-claro da rocha era da mesma cor do seu 
tart e os marrons do xadrez de suas roupas misturavam-se s folhas mortas que o vento soprara sobre seu corpo. Ele parecia tanto fazer parte do bosque que eu poderia 
ter tropeado nele, se no tivesse sido interrompida pela mancha de um azul brilhante.
        Macio como um veludo, o estranho fungo espalhou seu manto sobre os membros nus, brancos e frios. Seguia a curva dos ossos e dos tendes, lanando pequenas 
chamas trmulas, como o mato e as rvores de uma floresta, invadindo terrenos desertos.
        Era um azul vvido e eltrico, puro e estranho. Eu nunca o vira, mas j ouvira falar, de um velho soldado de quem eu cuidara e que lutara nas trincheiras 
da Primeira Guerra Mundial.
        - Chamvamos de fogo-ftuo - ele me dissera. - Azul, azul fosfores-cente. Voc no o v em lugar nenhum, a no ser no campo de batalha... em homens mortos. 
- Ele havia erguido o olhar para mim, os olhos cansados estarrecidos sob a bandagem branca.
        - Sempre me perguntei onde ele vive, entre uma guerra e outra.
        No ar, talvez, seus esporos invisveis  espera de uma oportunidade a qual se agarrar, pensei. A cor era brilhante, incongruente, luminosa como o anil com 
que os ancestrais deste homem se pintavam antes de ir para a guerra.
        Uma brisa atravessou o bosque, perturbando os cabelos do guerreiro morto. Agitaram-se e levantaram-se, sedosos e parecendo cheios de vida. Ouvi um rudo 
de folhas esmagadas atrs de mim e comecei a sair convul-sivamente do transe em que mergulhara, olhando o cadver.
        Jamie estava a meu lado, fitando-me. No disse nada; apenas segurou-me pelo cotovelo e conduziu-me para fora do bosque, deixando o morto para trs, envolto 
nos tons saprbios da guerra e do sacrifcio.
        ;: Chegamos  Casa Culloden no meio da manh de 15 de abril, tendo arrastado a ns mesmos e aos pneis implacavelmente com supremo esforo para alcan-la. 
Ns a abordamos pelo lado sul, primeiro atravessando um aglomerado de construes externas. Houve uma agitao - quase um frenesi - entre os homens na estrada, mas 
o ptio do estbulo estava curiosamente deserto.
        Jamie desmontou e entregou as rdeas a Murtagh.
        - Espere aqui um momento - ele disse. - Parece haver algo de errado aqui.
        Murtagh olhou para a porta dos estbulos, parcialmente aberta, e balanou a cabea. Fergus, montado atrs do escocs, teria seguido Jamie, mas Murtagh impediu-o 
com uma palavra rspida.
        Com os msculos enrijecidos da viagem, deslizei do meu prprio cavalo e segui Jamie, escorregando na lama do ptio. Realmente havia alguma coisa estranha 
a respeito do estbulo. Somente quando o segui cruzando a porta  que percebi o que era - estava silencioso demais.
        Tudo ali dentro estava quieto demais; o prdio estava frio e escuro, sem o calor e a agitao habituais de um estbulo. Ainda assim, o lugar no estava completamente 
isento de vida; uma figura escura moveu-se na obscuridade, grande demais para ser um rato ou uma raposa.
        - Quem est a? - Jamie perguntou, dando um passo  frente para me colocar automaticamente atrs dele. - Alec?  voc?
        A figura no feno ergueu a cabea devagar e seu xale caiu. O chefe da estrebaria do Castelo Leoch tinha apenas um olho; o outro, perdido em um acidente h 
muitos anos, era coberto com uma venda preta. Em geral, bastava-lhe um olho; de um azul vivo e brilhante, era suficiente para angariar a obedincia de todos igualmente 
- dos rapazes do estbulo, dos cavalos, dos cavalarios e dos cavaleiros.
        Agora, o olho de Alec McMahon MacKenzie estava embaciado como uma ardsia empoeirada. O corpo volumoso, um dia vigoroso, estava curvado sobre si mesmo e 
as faces encovadas com a apatia da inanio.
        Sabendo que Alec sofria de artrite no tempo mido, Jamie agachou-se ao seu lado para que ele no tivesse que se erguer.
        - O que aconteceu por aqui? - perguntou. - Acabamos de chegar; o que aconteceu?
        O velho Alec pareceu levar um longo tempo para absorver a pergunta, assimil-la e colocar sua resposta em palavras; talvez fosse apenas a quietude do estbulo 
vazio e escuro que fizeram suas palavras soarem ocas quando ele finalmente falou.
        - Tudo deu errado - ele disse. - Marcharam sobre Nairn h duas noites e voltaram correndo ontem. Sua Alteza disse que eles iam fincar posio em Culloden; 
lorde George est l agora, com as poucas tropas que conseguiu reunir.
        No pude reprimir um pequeno gemido ao ouvir o nome Culloden. Ento, era ali. Apesar de tudo, iria acontecer, e ns estvamos ali.
        Um tremor percorreu o corpo de Jamie tambm; vi os plos ruivos se arrepiarem em seus braos, mas sua voz no traiu nada da ansiedade que ele devia estar 
sentindo.
        - As tropas... elas esto sem provises para lutar. Lorde George no v que elas tm que ter descanso e alimentos?
        O som rangente que o velho Alec emitiu podia ter sido o espectro de uma risada.
        - O que Sua Excelncia sabe faz pouca diferena, rapaz. Sua Alteza assumiu o comando do exrcito. E Sua Alteza diz que devemos enfrentar os ingleses em Drumossie. 
Quanto a alimentos... - As sobrancelhas do idoso homem eram grossas e arrepiadas, tendo ficado inteiramente brancas no ltimo ano, com plos speros projetando-se 
para fora. Uma das sobrancelhas ergueu-se agora, pesadamente, como se mesmo essa pequena mudana de expresso fosse exaustiva. Uma das mos tortuosas e nodosas da 
artrite remexeu-se em seu colo, indicando as baias vazias.
        - Comeram os cavalos no ms passado - ele disse simplesmente. -Quase no houve mais nada para comer depois disso.
        Jamie levantou-se bruscamente e apoiou-se contra a parede, a cabea abaixada, em choque. Eu no podia ver seu rosto, mas seu corpo estava rgido como as 
tbuas do estbulo.
        - Sim - ele disse finalmente. - Sim. Meus homens... eles tiveram sua parte da carne? Donas... ele era... um cavalo de grande porte. - Falou serenamente, 
mas eu vi pela repentina agudeza do olhar de um s olho de Alec que ele tambm ouviu, assim como eu, o esforo que impedia a voz de Jamie de alquebrar-se.
        O velho ergueu-se lentamente do feno, o corpo aleijado movendo-se com dolorosa deliberao. Colocou uma das mos tortuosas no ombro de Jamie; os dedos deformados 
pela artrite no conseguiam se fechar, mas a mo continuou pousada ali, um peso morto, mas reconfortante.
        - No mataram Donas - ele disse serenamente. - Pouparam-no, para o prncipe Tcharlach montar, era seu retorno triunfal a Edimburgo. O'Sulli-van disse que 
no seria... apropriado... que Sua Alteza marchasse a p.
        Jamie cobriu o rosto com as mos e ficou tremendo contra as tbuas do estbulo vazio.
        - Sou um tolo - disse finalmente, arquejante, tentando recuperar o flego. - Ah, meu Deus, eu sou um tolo. - Deixou cair as mos, mostrando o rosto, as lgrimas 
escorrendo pela sujeira da viagem. Passou as costas da mo pela face, mas as lgrimas continuavam a brotar de seus olhos, como se fosse um processo inteiramente 
fora do seu controle.
        - A causa est perdida, meus homens esto sendo levados a um massacre, h homens mortos apodrecendo no bosque... e eu estou chorando por um cavalo! Ah, meu 
Deus - ele sussurrou, sacudindo a cabea. - Sou um idiota.
        O peito do velho Alec ergueu-se com um suspiro e sua mo deslizou pesadamente pelo brao de Jamie.
        - Ainda bem que voc consegue chorar, rapaz - ele disse. - Eu mesmo j passei disso.
        O velho dobrou uma perna desajeitadamente no joelho e abaixou-se outra vez. Jamie ficou parado por um instante, olhando para baixo, fitando o Velho Alec. 
As lgrimas ainda rolavam incontidas pelo seu rosto, mas era como a chuva lavando uma superfcie de granito polido. Em seguida, ele tomou meu cotovelo e afastou-se 
sem uma palavra.
        Olhei para trs, para Alec, quando chegamos  porta do estbulo. Ele permanecia sentado absolutamente imvel, uma forma escura, corcunda, envolta em seu 
xale, o nico olho azul to cego quanto o outro.
        Os homens espalhavam-se pela casa, exaustos, procurando o esquecimento da fome torturante e do conhecimento do desastre certo e iminente. No havia nenhuma 
mulher ali; aqueles chefes cujas mulheres do cl os haviam acompanhado j as enviaram de volta em segurana - a runa iminente lanava uma longa sombra.
        Jamie deixou-me com uma palavra apenas murmurada ao chegarmos  porta que levava aos aposentos temporrios do prncipe. Minha presena de nada adiantaria. 
Caminhei silenciosamente pela casa, sussurrante com a respirao pesada de homens dormindo, o ar carregado do embotamento do desespero.
        Na parte mais alta da casa, encontrei um pequeno quarto de despejo. Abarrotado de ferro-velho e mveis descartados, no era ocupado por ningum. Deslizei 
para dentro deste depsito de velharias, sentindo-me um pequeno roedor, buscando refgio de um mundo em que foras misteriosas e poderosas estavam soltas para fazer 
grassar a destruio.
        Havia uma nica e minscula janela, cheia da manh cinza e nebulosa. Esfreguei a sujeira de uma das vidraas com a ponta do meu manto, mas no havia nada 
a ser visto, alm da neblina onipresente. Encostei a testa contra o vidro frio. Em algum lugar l fora estava o Campo de Culloden, mas eu no via nada alm da silhueta 
turva de meu prprio reflexo.
        As notcias da morte misteriosa e macabra do duque de Sandringham haviam chegado ao prncipe Carlos, eu soube; ouvramos isso da boca de quase toda pessoa 
com quem falamos durante o trajeto para o norte e tornou-se seguro para ns nos apresentarmos outra vez. O que exatamente ns havamos feito?, perguntava-me. Havamos 
arruinado de maneira definitiva a causa jacobita na aventura daquela nica noite ou havamos inadvertidamente salvo Carlos Stuart de uma armadilha inglesa? Corri 
o dedo com um rangido agudo pelo vidro enevoado, marcando mais um fato que eu jamais iria descobrir.
        Pareceu que um longo tempo transcorrera at eu ouvir um passo nas tbuas sem tapete da escada do lado de fora de meu refgio. Dirigi-me  porta e encontrei 
Jamie chegando ao patamar. Um olhar para seu rosto foi suficiente.
        - Alec tinha razo - ele disse, sem preliminares. Os ossos de sua face destacavam-se sob a pele, mais proeminentes pela fome e mais aguados pela raiva. 
-As tropas locomovem-se para Culloden... do jeito que podem. No comem nem dormem h dois dias, no h munio para o canho... mas eles continuam em frente. - A 
raiva eclodiu repentinamente e seu punho cerrado abateu-se violentamente sobre uma mesa frgil. Uma cascata de pequenas vasilhas de lato de uma pilha de entulho 
domstico acordou os ecos do sto com uma barulhada infernal.
        Com um gesto impaciente, arrancou a adaga do cinto e fincou-a violentamente na mesa, onde ela ficou espetada, tremendo com a fora do golpe.
        - Os camponeses dizem que se voc vir sangue em sua adaga, isso significa morte. - Respirou fundo com um som sibilante, o punho cerrado sobre a mesa. - Bem, 
eu vi! E todos eles tambm viram. Eles sabem... Kilmarnock, Lochiel e todo o resto. E de nada adianta saber disso!
        Abaixou a cabea, as mos agarradas  mesa, olhando fixamente para a adaga. Ele parecia grande demais para o aposento acanhado, uma presena furiosa, ardendo 
em brasa, que podia irromper em chamas a qualquer momento. Ao invs disso, lanou os braos para o alto e jogou-se sobre um velho banco de madeira, onde ficou sentado 
com a cabea enterrada nas mos.
        - Jamie - eu disse, engolindo em seco. Mal conseguia pronunciar as palavras seguintes, mas tinham que ser ditas. Eu j conhecia as notcias que ele traria 
e havia pensado no que ainda poderia ser feito. - Jamie. Resta apenas uma coisa... uma ltima possibilidade.
        Sua cabea estava abaixada, a testa pousada nos ns dos dedos. Ele sacudiu a cabea, sem olhar para mim.
        - No h nenhum jeito - ele disse. - Ele est decidido. Murray tentou dissuadi-lo, Lochiel tambm. Balmerino. Eu. Mas os homens esto de p l na plancie 
neste mesmo instante. Cumberland partiu para Drumossie. No h jeito.
        As artes da cura so poderosas e qualquer mdico versado no uso de substncias que curam tambm conhece o poder daquelas que causam dano. Eu dera a Colum 
o cianureto que ele no teve tempo de usar e tomara de volta o frasco mortfero da mesa junto  cama onde seu corpo repousava. Estavam em minha caixa agora, os cristais 
grosseiramente destilados de um plido branco-acastanhado, enganadoramente inofensivo na aparncia.
        Minha boca estava to seca que no consegui falar imediatamente. Havia um resto de vinho em meu frasco; bebi-o, o gosto acre como bile em minha lngua.
        - H um nico modo - eu disse. - Apenas um.
        A cabea de Jamie continuou afundada entre as mos. Fora uma longa viagem e o choque das notcias de Alec havia acrescentado depresso ao seu cansao. Havamos 
nos desviado para encontrarmos seus homens, ou a maior parte deles, um bando maltrapilho, desgraado, indistinguveis dos esquelticos Fraser de Lovat que os rodeavam. 
A entrevista com Carlos foi muito alm da ltima gota.
        - Sim? - ele disse.
        Hesitei, mas eu tinha que falar. A possibilidade tinha que ser mencionada; quer ele - ou eu - pudssemos execut-la ou no.
        -  Carlos Stuart - eu disse, finalmente. -  ele... tudo. A batalha, a guerra... tudo depende dele, no v?
        - Sim? -Jamie olhava para mim agora, os olhos vermelhos curiosos.
        - Se ele estivesse morto... - murmurei finalmente.
        Os olhos de Jamie cerraram-se e os ltimos vestgios de sangue drenaram de seu rosto.
        - Se ele morresse... agora. Hoje. Ou esta noite. Jamie, sem Carlos, no h nada pelo qual lutar. Ningum para ordenar que os homens marchem para Culloden. 
No haveria batalha.
        Os longos msculos de sua garganta ondularam brevemente quando ele engoliu em seco. Ele abriu os olhos e fitou-me, horrorizado.
        - Santo Deus - murmurou. - Santo Deus, voc no pode estar falando srio.
        Minha mo fechou-se sobre o cristal esfumaado, em seu engaste de ouro, pendurado em meu pescoo.
        Haviam me chamado para atender o prncipe, antes de Falkirk. O'Sullivan, Tullibardine e os outros. Sua Alteza estava doente - uma indisposio, disseram. 
Eu examinara Carlos, fiz com que desnudasse o peito e os braos, examinei sua boca e o branco de seus olhos.
        Era escorbuto e diversas outras doenas de desnutrio. Disse isso a eles.
        - Bobagem! - disse Sheridan, ultrajado. - Sua Alteza no pode sofrer de comicho, como um campons comum!
        - Ele tem comido como um deles - retorqui. - Ou talvez pior do que um deles. - Os camponeses eram obrigados a comer cebolas e repolho no tendo mais nada. 
Desdenhando a comida barata, Sua Alteza e seus conselheiros comiam carne... e quase nada alm disso. Olhando ao redor do crculo de rostos assustados, indignados, 
vi poucos que no apresentavam sintomas da falta de alimentos frescos. Dentes moles ou faltando, gengivas inchadas, sangrando, os folculos cheios de pus, coando, 
que to abundantemente decoravam a pele branca de Sua Alteza.
        Eu detestava abrir mo de qualquer poro dos meus preciosos frutos de roseira brava e frutas silvestres secas, mas me ofereci, com relutncia, para fazer 
um ch com eles para o prncipe. A oferta fora rejeitada, com um mnimo de cortesia, e eu compreendi que Archie Cameron fora convocado, com sua tigela de sanguessugas 
e sua lanceta, para ver se uma liberao do sangue real aliviaria a coceira real.
        - Eu poderia faz-lo - eu disse. Meu corao batia com tanta fora no meu peito que eu mal conseguia respirar. - Eu poderia lhe preparar uma poo. Acho 
que conseguiria persuadi-lo a beb-la.
        - E se ele morresse depois de tomar seu remdio? Santo Deus, Claire! Eles a matariam ali mesmo.
        Enfiei minhas mos sob os braos cruzados, tentando aquec-las.
        - I-isso importa? - perguntei, procurando desesperadamente estabilizar minha voz. A verdade  que importava, sim. Neste momento, minha prpria vida pesava 
bem mais na balana do que as centenas que eu pudesse salvar. Cerrei os punhos, tremendo de pavor, um camundongo nas mandbulas da armadilha.
        Jamie surgiu ao meu lado no mesmo instante. Minhas pernas no me obedeciam; ele praticamente me carregou para o banco quebrado e se sentou comigo, os braos 
envolvendo-me com fora.
        - Voc tem a coragem de um leo, mo duinne - ele murmurou no meu ouvido. - De um urso, de um lobo! Mas voc sabe que eu no vou deixar voc fazer isso.
        Os tremores abrandaram-se, embora eu ainda sentisse frio e nuseas com a gravidade daquilo que eu estava propondo.
        - Deve haver algum outro modo - eu disse. - H pouca comida, mas o pouco que h vai para o prncipe. Acho que no seria difcil acrescentar alguma coisa 
ao seu prato sem ser notada; tudo est completamente desorganizado. - Isso era verdade; por toda a casa, os oficiais dormiam sobre mesas e no assoalho, ainda calados 
com suas botas, cansados demais para descansar as armas. A casa estava um caos, com constantes idas e vindas. Seria simples distrair um criado tempo suficiente para 
acrescentar um p mortal  refeio da noite.
        O terror imediato havia aplacado um pouco, mas o horror da minha proposta demorava-se, como veneno, esfriando meu prprio sangue. O brao de Jamie apertou-se 
por um instante em torno dos meus ombros, depois se afastou, conforme ele contemplava a situao.
        A morte de Carlos Stuart no poria fim  questo da revolta; as coisas haviam ido longe demais para isso. Lorde George Murray, Balmerino, Kilmarnock, Lochiel, 
Clanranald - todos ns ramos traidores, vidas e propriedade penhoradas  Coroa. O exrcito das Highlands estava em frangalhos; sem a figura de Carlos  frente para 
unir as tropas, ele se dissiparia como fumaa. Os ingleses, aterrorizados e humilhados em Preston e Falkirk, no hesitariam em perseguir os fugitivos, buscando recuperar 
sua honra perdida e lavar o insulto com sangue.
        Era pouco provvel que Henrique de York, o piedoso irmo mais novo de Carlos, j obrigado pelos votos eclesisticos, tomasse o lugar de seu irmo para continuar 
a guerra pela restaurao da monarquia Stuart. No havia nada  frente, a no ser catstrofe e devastao, e nenhuma maneira de evit-las. Tudo que poderia ser salvo 
agora eram as vidas dos homens que iriam morrer na charneca amanh.
        Foi Carlos quem escolheu lutar em Culloden, Carlos cuja autocracia mope e teimosa desafiara os conselhos de seus prprios generais e levara adiante a invaso 
da Inglaterra. E se a oferta de Sandringham seria para o bem ou para o mal, a resposta morrera com ele. No havia nenhum suporte proveniente do sul; os ingleses 
jacobitas que existissem no acorreram como se esperava ao estandarte de seu rei. Forado a recuar, Carlos escolhera aquele ltimo e obstinado posto de resistncia, 
para colocar homens famintos, exaustos e mal equipados numa frente de batalha na charneca alagada pela chuva, e enfrentar a ira do fogo dos canhes de Cumberland. 
Uma vida, contra duas mil. Uma vida - mas uma vida real, e tirada no em combate, mas a sangue-frio.
        O pequeno aposento onde estvamos sentados tinha uma lareira, mas o fogo no fora aceso - no havia combustvel. Jamie permaneceu sentado, fitando-a, como 
se buscasse uma resposta em chamas invisveis. Assassinato. No apenas assassinato, mas regicdio. No apenas assassinato, mas a morte de quem um dia foi amigo.
        E no entanto - os homens dos cls das Highlands j tremiam na charneca descampada, remexendo-se em suas fileiras cerradas enquanto o plano de batalha era 
ajustado, reorganizado, reordenado, conforme outros homens chegavam para se unir s tropas. Entre eles, estavam os MacKenzie de Leoch, os Fraser de Beauly, quatrocentos 
homens do mesmo sangue de Jamie. E os trinta homens de Lallybroch, seus prprios homens.
        Seu rosto estava plido, imvel, enquanto ele pensava, mas as mos entrelaadas sobre o joelho crispavam-se com fora, evidenciando a luta que ele travava. 
Os dedos aleijados e os sos contorciam-se, enlaados. Sentei-me ao lado dele, mal ousando respirar, aguardando sua deciso.
        Finalmente, exalou o ar dos pulmes com um suspiro quase inaudvel e voltou-se para mim, um olhar de indescritvel tristeza no rosto.
        - No posso - sussurrou. Sua mo tocou meu rosto de leve, envolvendo minha face. - Quisera Deus que eu pudesse, Sassenach. No posso fazer isso.
        A onda de alvio que me inundou deixou-me sem fala, mas ele viu o que eu sentia e segurou minhas mos entre as suas.
        - Ah, Deus, Jamie, ainda bem, fico feliz com isso! - sussurrei.
        Ele abaixou a cabea sobre minhas mos. Virei o rosto para colocar minha face contra seus cabelos, e congelei.
        Na soleira da porta, observando-me com um olhar de absoluta repugnncia, estava Dougal MacKenzie.
        Ele envelhecera nos ltimos meses; a morte de Rupert, as noites insones de discusses estreis, as tenses da difcil campanha e agora a amargura da derrota 
iminente. Havia cabelos grisalhos na barba castanho-avermelhada, um tom acinzentado na pele e profundos sulcos no rosto que no estavam l em novembro. Com um choque, 
compreendi que ele estava se parecendo com seu irmo, Colum. Ele quis ser o lder, Dougal MacKenzie. Agora ele herdara a chefia do cl e estava pagando o preo.
        - Imunda... traioeira... vagabunda... bruxa.
        Jamie deu um salto como se tivesse levado um tiro, o rosto branco como a neve do lado de fora. Pus-me de p num pulo, virando o banco com um barulho que 
ecoou pelo quarto.
        Dougal MacKenzie avanou lentamente em minha direo, afastando as pregas do seu manto, de modo que o punho de sua espada ficasse livre para a sua mo. Eu 
no ouvira a porta abrir-se atrs de mim; deve ter ficado aberta. H quanto tempo ele estivera do outro lado, ouvindo?
        - Voc - ele disse baixinho. - Eu devia ter sabido; desde a primeira vez que a vi, eu devia ter sabido. - Seus olhos estavam fixos em mim, algo entre o horror 
e a fria nas profundezas verdes e enevoadas.
        O ar agitou-se repentinamente ao meu lado; Jamie estava ali, a mo em meu brao, puxando-me para trs dele.
        - Dougal - ele disse. - No  o que voc pensa. ...
        - No? - Dougal interrompeu-o. Seu olhar abandonou-me por um instante e eu encolhi-me atrs de Jamie, grata pela trgua.
        - No  o que eu penso? - ele disse, ainda falando brandamente. -Ouo a mulher instando-o a cometer um terrvel assassinato, o assassinato de nosso prncipe! 
No s um vil assassinato, mas traio tambm! E voc me diz que eu no ouvi o que ouvi? - Sacudiu a cabea, os cachos marrom-dourados embaraados, lnguidos e oleosos, 
cados sobre os ombros. Como todos ns, ele estava passando fome; os ossos saltavam do seu rosto, mas os olhos ardiam das rbitas escuras.
        - Eu no o culpo, rapaz - ele disse. Sua voz soou cansada e eu me lembrei que ele era um homem de mais de cinqenta anos. - No  culpa sua, Jamie. Ela o 
enfeitiou, qualquer um pode ver isso. - Sua boca contorceu-se quando olhou de novo para mim.
        - Sim, eu sei muito bem como tem sido para voc. Ela me lanou o mesmo feitio, um dia. - Seus olhos varreram-me de cima a baixo, em brasa. - Uma vadia, 
assassina e mentirosa, pegaria um homem pelo pau e o levaria  sua desgraa, com as garras cravadas em suas bolas. Esse  o feitio que lanam em voc, rapaz, ela 
e a outra bruxa. Levam voc para as suas camas e roubam a sua alma enquanto voc dorme com a cabea em seus seios. Elas tomam sua alma e devoram sua masculinidade, 
Jamie.
        Colocou a lngua para fora e umedeceu os lbios. Ainda me fitava intensamente e sua mo apertou-se no punho da espada.
        - Afaste-se, rapaz. Vou livr-lo da vagabunda sassenach.
        Jamie deu um passo adiante e colocou-se  minha frente, momentaneamente bloqueando a minha viso de Dougal.
        - Voc est cansado, Dougal - ele disse, falando baixo e devagar, procurando acalm-lo. - Cansado e ouvindo coisas. Desa agora. Eu vou...
        No teve chance de terminar. Dougal no o ouvia; os olhos verdes e fundos estavam fixos em meu rosto, e o chefe dos MacKenzie sacara a adaga da bainha em 
sua cintura.
        - Vou cortar sua garganta - ele me disse num sussurro. - Eu devia ter feito isso desde a primeira vez que a vi. Teria poupado muito sofrimento a todos ns.
        Eu no tinha certeza se ele no estava certo, mas isso no significava que eu tivesse a inteno de deixar que ele remediasse a questo. Dei trs passos 
rpidos para trs e esbarrei na mesa.
        - Para trs, Dougal! - Jamie atirou-se  minha frente, o brao erguido como um escudo, quando Dougal avanou para mim.
        O chefe dos MacKenzie sacudiu a cabea, como um touro, os olhos vermelhos fixos em mim.
        - Ela  minha - ele disse com voz rouca. - Bruxa. Traidora. Saia do caminho, rapaz. No quero feri-lo, mas, juro por Deus, se proteger essa mulher, eu o 
matarei tambm, filho adotivo ou no.
        Ele empurrou Jamie, agarrando meu brao. Apesar de exausto, faminto, e mais velho como estava, ele ainda era um homem colossal e seus dedos penetraram fundo 
em minha carne.
        Dei um grito de dor e chutei-o freneticamente quando ele me puxou para si com um safano. Ele agarrou-me pelos cabelos e forou minha cabea para trs violentamente. 
Eu sentia seu hlito quente e acre em meu rosto. Gritei e o ataquei, enfiando as unhas em seu rosto num esforo para me libertar.
        O ar explodiu dos seus pulmes quando o punho de Jamie golpeou-o nas costelas e a mo que agarrava meus cabelos soltou-se quando o outro punho de Jamie desceu 
num soco sobre a ponta de seu ombro, deixando-o dormente. Inesperadamente livre, ca para trs, contra a mesa, gemendo de choque e de dor.
        Dougal girou nos calcanhares para encarar Jamie, agachando-se na posio de luta, brandindo a adaga, a lmina apontando para cima.
        - Que assim seja, ento - ele disse, respirando pesadamente. Oscilou um pouco de um lado para o outro, deslocando o peso do corpo, procurando uma posio 
vantajosa. - O sangue no mente. Fraser desgraado. A traio corre em suas veias. Venha, cria de raposa. Vou mat-lo rpido, em considerao a sua me.
        Havia pouco espao para manobra no pequeno sto. No dava para sacar uma espada; com sua adaga fincada no tampo da mesa, Jamie estava efetivamente desarmado. 
Ele adotou a mesma postura de Dougal, os olhos vigilantes, fixos na ponta da ameaadora adaga.
        - Abaixe a arma, Dougal - ele disse. - Se tem considerao por minha me, ento me escute, por ela!
        O MacKenzie no respondeu, mas atacou repentinamente, um golpe de baixo para cima, destinado a estripar o adversrio.
        Jamie esquivou-se para o lado e esquivou-se de novo do amplo giro do brao armado que veio do outro lado. Jamie possua a agilidade da juventude a seu favor 
- mas Dougal tinha a arma.
        Dougal investiu para frente e a adaga deslizou pela lateral do corpo de Jamie, rasgando sua camisa e cortando uma linha escura em sua carne. Com um silvo 
de dor, ele deu um salto para trs, tentando agarrar o pulso de Dougal, segurando-o quando a lmina desceu num golpe fulminante.
        O brilho fosco da lmina fulgurou uma nica vez e desapareceu entre os corpos em luta. Continuaram o embate, unidos como amantes, o ar impregnado do cheiro 
de suor masculino e fria. A lmina ergueu-se outra vez, duas mos agarradas ao cabo redondo. Uma mudana de posio, um puxo, um repentino grunhido de esforo, 
um de dor. Dougal recuou, aturdido, o rosto congestionado e escorrendo suor, o cabo da adaga se projetando da base de sua garganta.
        Jamie desequilibrou-se, arfando, e apoiou-se na mesa. Seus olhos estavam escuros de choque e seus cabelos encharcados de suor, as beiradas do rasgo de sua 
camisa tintas de sangue do corte.
        Ouviu-se um som terrvel de Dougal, um som de choque e respirao interrompida. Jamie segurou-o quando ele cambaleou e caiu, o peso de Dougal derrubando-o 
de joelhos. A cabea de Dougal apoiou-se no ombro de Jamie, os braos de Jamie enlaando o corpo de seu pai adotivo.
        Ca de joelhos ao lado dos dois, tentando ajudar, estendendo os braos para segurar Dougal. Era tarde demais. O enorme corpo ficou flcido, depois estremeceu 
com um espasmo, deslizando do abrao de Jamie. Dougal ficou encolhido no cho, os msculos sacudindo-se em convulses involuntrias, lutando como um peixe fora d'gua.
        Sua cabea ficou apoiada na coxa de Jamie. Um espasmo para cima deixou seu rosto  mostra. Estava contorcido, roxo, os olhos apenas duas fendas. Sua boca 
movia-se continuadamente, dizendo alguma coisa, falando com grande esforo - mas sem som, a no ser pelo rudo spero e bor-bulhante de sua garganta arruinada.
        O rosto de Jamie estava lvido; aparentemente ele conseguia compreender o que Dougal dizia. Jamie lutava com todas as foras, tentando segurar o corpo que 
se debatia violentamente. Houve um ltimo espasmo, seguido de um terrvel som chocalhante, e Dougal MacKenzie ficou imvel, as mos de Jamie agarradas a seus ombros, 
como se quisesse impedi-lo de sacudir-se outra vez.
        - Que Deus nos acuda! - O murmrio rouco veio da porta. Era Willie Coulter MacKenzie, um dos homens de Dougal. Olhava com horror e estupefao para o corpo 
de seu chefe. Uma pequena poa de urina formava-se sob o corpo, escorrendo por baixo do xale esparramado. O homem benzeu-se, sem desviar os olhos arregalados.
        - Willie. - Jamie levantou-se, passando a mo trmula pelo rosto. -Willie. - O homem parecia mudo de choque. Olhou para Jamie completamente aturdido, a boca 
aberta.
        - Eu preciso de uma hora, Willie. - Jamie havia colocado a mo no ombro de Willie Coulter, conduzindo-o para dentro do aposento. - Uma hora para colocar 
minha mulher em segurana. Ento, eu voltarei para responder por isso. Dou-lhe minha palavra, pela minha honra. Mas tenho que ter uma hora. Uma hora. Voc me d 
uma hora, Willie, antes de falar?
        Willie umedeceu os lbios secos, olhando do corpo de seu chefe para o sobrinho do lder dos MacKenzie, obviamente apavorado. Por fim, assentiu, claramente 
sem saber o que fazer, preferindo atender seu pedido porque nenhuma alternativa razovel se apresentava.
        - timo. - Jamie engoliu com fora e limpou o rosto em seu xale. Bateu de leve no ombro de Willie. - Fique aqui, rapaz. Reze pela alma dele - indicou a forma 
imvel no cho com um movimento da cabea, sem olhar em sua direo - e pela minha. - Inclinou-se para trs de Willie para arrancar sua adaga da mesa, depois me 
empurrou  sua frente, pela porta e pelas escadas abaixo.
        No meio do lance de escadas, ele parou, apoiando-se contra a parede com os olhos fechados. Respirou fundo vrias vezes, de maneira entrecor-tada, como se 
estivesse prestes a desmaiar, e eu coloquei a mo em seu peito, assustada. Seu corao batia como um tambor e ele tremia, mas aps alguns instantes, ele aprumou-se, 
balanou a cabea para mim e segurou meu brao.
        - Preciso de Murtagh - ele disse.
        Encontramos o escocs logo ao sair, a cabea coberta com o xale para se proteger da chuva misturada a neve, sentado em um lugar seco sob as calhas da casa. 
Fergus estava enrascado a seu lado, cochilando, cansado da longa viagem.
        Murtagh olhou o rosto de Jamie e levantou-se, sinistro e austero, pronto para o que fosse necessrio.
        - Matei Dougal MacKenzie -Jamie disse direto, sem rodeios.
        O rosto de Murtagh ficou lvido por um instante, depois sua expresso normal, desconfiada e ameaadora, se refez.
        - Sim - ele disse. - O que  preciso fazer, ento?
        Jamie remexeu na bolsa de seu kilt e retirou um papel dobrado. Suas mos tremiam enquanto ele tentava desdobr-la e eu a tirei de suas mos, estendendo-a 
sob o abrigo das calhas.
        "Transferncia de propriedade", lia-se no alto da folha. Era um documento curto, escrito em algumas poucas linhas pretas, transferindo a posse da propriedade 
conhecida por Broch Tuarach a James Jacob Fraser Murray, a ser mantida em custdia e administrada pelos pais do referido James Murray, Janet Fraser Murray e Ian 
Gordon Murray, at a maioridade do referido James Murray. A assinatura de Jamie estava embaixo e havia dois espaos em branco sob ela, cada qual com a palavra "Testemunha" 
escrita ao lado. Estava datado de primeiro de julho de 1745 - um ms antes de Carlos Stuart deslanchar sua rebelio nas praias da Esccia e fazer de Jamie Fraser 
um traidor da Coroa.
        - Preciso que voc assine isso, voc e Claire -Jamie disse, pegando o documento das minhas mos e entregando-o a Murtagh. - Mas isso significa cometer perjrio; 
no tenho nenhum direito de lhe pedir isso.
        Os pequenos olhos negros de Murtagh varreram o documento rapidamente.
        - No - ele disse secamente. - No tem direito nem necessidade tampouco.
        - Cutucou Fergus com o p e o garoto sentou-se completamente ereto, piscando.
        - V l dentro e traga tinta e uma pena para o seu chefe, garoto -Murtagh disse. - E seja rpido, ande!
        Fergus sacudiu a cabea uma vez para clare-la, lanou um olhar para Jamie em busca de um sinal de confirmao - e partiu.
        A gua da chuva pingava da calha e descia pela minha nuca. Estremeci e puxei o arisaid de l mais apertado em volta dos meus ombros. Perguntei-me quando 
Jamie redigira o documento. A data falsa fazia parecer que a propriedade fora transferida antes de Jamie tornar-se um traidor, com seus bens e terras sujeitos a 
confisco - se no fosse questionado, a propriedade passaria em segurana para o pequeno Jamie. Ao menos a famlia de Jenny ficaria a salvo, ainda de posse das terras 
e da casa da fazenda.
        Jamie antevira a possvel necessidade daquela transferncia; entretanto, ele no executara o documento antes de deixarmos Lallybroch; de algum modo, ele 
esperara que pudssemos retornar e reclamar seu prprio ttulo outra vez. Agora isso era impossvel, mas a propriedade ainda podia ser salva do confisco. No havia 
ningum para dizer quando o documento realmente fora assinado - a no ser as testemunhas, eu e Murtagh.
        Fergus retornou, arquejante, com um pequeno tinteiro de vidro e uma pena em mau estado. Assinamos, apoiados contra a parede da casa, tomando o cuidado de 
sacudir a pena antes para impedir que a tinta respingasse. Murtagh assinou primeiro; vi que seu primeiro sobrenome era FitzGibbons.
        - Quer que eu leve isso a sua irm? - Murtagh perguntou enquanto eu sacudia o papel cuidadosamente para sec-lo.
        Jamie sacudiu a cabea. A chuva fazia ndoas molhadas, do tamanho de uma moeda, em seu xale e brilhavam em suas pestanas como lgrimas.
        - No. Fergus a levar.
        - Eu? - Os olhos do garoto arregalaram-se de surpresa.
        - Voc mesmo, rapaz. - Jamie pegou o documento de minhas mos, dobrou-o, depois se ajoelhou e enfiou-o dentro da camisa de Fergus.
        - Isso tem que chegar s mos de minha irm, madame Murray, sem falta. Vale mais do que a minha vida, rapaz... ou a sua.
        Praticamente sem ar com a enormidade da responsabilidade que lhe era confiada, Fergus aprumou-se, as mos apertadas sobre o peito.
        - No o desapontarei, milorde!
        Um dbil sorriso atravessou os lbios de Jamie e ele pousou a mo por um breve instante nos cabelos lisos de Fergus.
        - Eu sei disso, rapaz, e sou-lhe grato - ele disse. Tirou o anel da sua mo esquerda; o cabocho de rubi que pertencera a seu pai. - Tome - ele disse, entregando-o 
a Fergus. - V ao estbulo e mostre isso ao velho que encontrar l. Diga-lhe que eu disse que voc deve levar Donas. Monte o cavalo e parta para Lallybroch. No 
pare para nada, exceto para o que for necessrio, para dormir, e quando dormir, esconda-se bem.
        Fergus estava sem fala de ansiedade e empolgao, mas Murtagh franziu a testa para ele, com ar de dvida.
        - Acha que o menino pode controlar aquele seu animal perverso? -disse.
        - Sim, pode - Jamie disse com firmeza. Emocionado, Fergus gaguejou, depois se prostrou de joelhos e beijou a mo de Jamie fervorosamente. Pondo-se de p 
num salto, saiu correndo em direo ao estbulo, sua figura mirrada desaparecendo na neblina.
        Jamie umedeceu os lbios secos, ento, virou-se, decidido, para Murtagh.
        - E voc - mo caraidh - preciso que rena os homens.
        As sobrancelhas delineadas de Murtagh se ergueram, mas ele simplesmente assentiu com um movimento de cabea.
        - Sim - disse ele -, e quando terei de fazer isso?
        Jamie olhou para mim, depois se voltou para seu padrinho.
        - J devem estar na charneca agora, eu acho, com o Jovem Simon. Rena-os em um nico lugar. Vou deixar minha mulher a salvo e depois... - Hesitou, em seguida 
deu de ombros. - Eu o encontrarei. Espere por mim.
        Murtagh assentiu mais uma vez e virou-se para ir embora. Ento, parou e voltou-se para encarar Jamie. A boca fina torceu-se ligeiramente e ele disse:
        - Eu s lhe pediria uma coisa, rapaz... que sejam os ingleses. No o seu prprio povo.
        Jamie hesitou um pouco, mas aps um instante, assentiu. Depois, sem falar, estendeu os braos para o escocs mais velho. Abraaram-se rapidamente, com fora, 
e Murtagh, tambm, foi embora, com um giro do tart esfarrapado.
        Eu era a ltima providncia a ser tomada na agenda.
        - Vamos, Sassenach - ele disse, segurando-me pelo brao. - Precisamos ir. Ningum nos deteve; havia tanto movimento de ida e vinda pelas estradas que mal 
fomos notados enquanto estvamos perto da charneca. Mais longe, quando deixamos a estrada principal, no havia ningum para nos ver.
        Jamie estava mergulhado no mais completo silncio, concentrando-se unicamente na tarefa  mo. Eu tambm no lhe disse nada, ocupada demais com meu prprio 
estado de choque e pavor para querer conversar.
        "Vou deixar minha mulher a salvo." Eu no sabia o que ele queria dizer com isso, mas tornou-se bvio depois de duas horas, quando ele virou a cabea de seu 
cavalo mais para o sul e a colina ngreme e verde chamada Craigh na Dun surgiu no horizonte.
        - No! - eu disse ao v-la e perceber para onde estvamos nos dirigindo. - Jamie, no! Eu no vou!
        Ele no me respondeu, apenas esporeou o cavalo e galopou  frente, no me deixando outra opo seno segui-lo.
        Meus sentimentos agitavam-se num turbilho; alm da desgraa da batalha prestes a ser travada e do horror da morte de Dougal, agora havia a expectativa das 
pedras. Aquele crculo maldito, atravs do qual eu viera parar ali. Obviamente, Jamie pretendia enviar-me de volta, de volta a meu prprio tempo - se isso fosse 
possvel.
        Ele podia pretender o que quisesse, pensei, trincando os maxilares de determinao enquanto o seguia pela estreita trilha atravs das urzes. No havia nada 
neste mundo que pudesse me fazer deix-lo agora.
        Ficamos parados na encosta da colina, no pequeno ptio de entrada da cabana em runas que ficava abaixo do cume da colina. H anos ningum morava ali; os 
habitantes do local diziam que o pequeno monte era assombrado - a colina das fadas.
        Jamie em parte me empurrara, em parte me arrastara colina acima, sem dar ouvidos a meus protestos. Mas ao chegarmos  cabana, ele parou e deixou-se cair 
no cho, o peito arfando enquanto se esforava para respirar.
        - Est tudo bem - ele disse finalmente. - Temos um pouco de tempo agora. Ningum nos encontrar aqui.
        Sentou-se no cho, enrolado em seu xale para aquecer-se. Parara de chover agora, mas o vento soprava frio das montanhas prximas, onde a neve ainda encobria 
os picos e obstrua as passagens. Deixou a cabea pender para frente, sobre os joelhos, exausto da fuga.
        Sentei-me a seu lado, encolhida dentro do meu manto, e senti sua respirao gradualmente se normalizar enquanto o pnico diminua. Permanecemos sentados 
em silncio por um longo tempo, com medo de nos movermos no que parecia ser um posto precrio acima do caos abaixo. Caos que eu sentia que ajudara a criar.
        - Jamie - eu disse, finalmente. Estendi a mo para toc-lo, mas retirei-a e deixei-a pender. - Jamie... eu sinto muito.
        Ele continuou a fitar o vazio cada vez mais escuro da charneca embaixo. Por um instante, achei que ele no tivesse me ouvido. Ele fechou os olhos. Em seguida, 
sacudiu a cabea muito levemente.
        - No - disse num sussurro. - No  preciso.
        -  preciso, sim. - A tristeza quase me sufocava, mas eu sentia que devia falar; dizer-lhe que eu sabia o que lhe causara.
        - Eu devia ter voltado. Jamie... se eu tivesse ido embora, naquela ocasio, quando voc me trouxe aqui de Cranesmuir... talvez ento...
        - Sim, talvez - ele interrompeu. Virou-se abruptamente para mim e pude sentir seus olhos penetrando-me. Havia nostalgia ali e uma tristeza que se igualava 
 minha, mas nenhuma raiva, nenhuma reprovao.
        Ele sacudiu a cabea outra vez.
        - No - disse novamente. - Sei o que quer dizer, mo duinne. Mas no  assim. Se tivesse ido naquela vez, talvez as coisas ainda acontecessem do mesmo jeito. 
Talvez sim, talvez no. Talvez tivessem acontecido antes ou de modo diferente. Talvez... apenas talvez... no tivessem absolutamente acontecido. Mas outras pessoas 
alm de ns dois contriburam para os acontecimentos e no quero que voc assuma a culpa.
        Sua mo tocou meus cabelos, afastando-os dos meus olhos. Uma lgrima rolou pelo meu rosto e ele pegou-a em seu dedo.
        - No  isso - eu disse. Lancei a mo  frente, para a escurido, englobando os exrcitos, Carlos, os homens famintos no bosque e o massacre que viria. - 
No  isso.  o que eu fiz a voc.
        Ele sorriu, com grande ternura, e deslizou a palma da mo pelo meu rosto, quente em minha pele enregelada pelo ar frio da primavera.
        -  mesmo? E o que eu fiz a voc, Sassenach? Tirei voc de seu lugar, levei-a  pobreza e a uma vida fora-da-lei, levei-a atravs de campos de batalha e 
arrisquei sua vida. Voc me culpa por isso?
        - Sabe que no. Ele sorriu.
        - Sim, bem; nem eu a culpo, Sassenach. - O sorriso desapareceu de seu rosto quando ele ergueu os olhos para o topo da colina acima de ns. As pedras eram 
invisveis de onde estvamos, mas eu podia sentir sua ameaa, bem prxima.
        - Eu no vou, Jamie - repeti teimosamente. - Vou ficar com voc.
        - No. - Ele sacudiu a cabea. Falou delicadamente, mas sua voz era firme, no admitindo nenhuma espcie de recusa. - Eu tenho que voltar, Claire.
        - Jamie, voc no pode! - Agarrei seu brao ansiosamente. - Jamie, eles j devem ter encontrado Dougal a essa altura! Willie Coulter j deve ter contado 
a algum.
        - Sim, deve. - Colocou a mo em meu brao e bateu nele de leve, tentando me confortar. Ele tomara sua deciso na viagem para a colina; eu podia ver isso 
em seu rosto anuviado, uma mistura de resignao e determinao.
        Havia dor ali, e tristeza tambm, mas haviam sido afastadas; ele no tinha tempo para lamentao agora.
        - Podamos tentar fugir para a Frana - eu disse. - Jamie, temos que fazer isso! - Mas mesmo enquanto eu falava, sabia que no conseguiria dissuadi-lo do 
curso que ele traara.
        - No - ele disse outra vez, serenamente. Virou-se e ergueu a mo, indicando o vale cada vez mais escuro abaixo, as colinas quase invisveis ao longe. - 
O pas est em guerra, Sassenach. Os portos esto fechados. O'Brien tem tentado nos ltimos trs meses trazer um navio para resgatar o prncipe, para lev-lo em 
segurana de volta  Frana. Dougal me contou... antes. - Um tremor percorreu seu rosto e um repentino espasmo de dor e pesar uniu suas sobrancelhas. Entretanto, 
ele afastou esses sentimentos e continuou, explicando com voz firme.
        - Somente os ingleses esto perseguindo Carlos Stuart. Sero os ingleses e os chefes de cl que me perseguiro. Sou duplamente traidor, um rebelde e um assassino. 
Claire... - ele parou, esfregando a mo na nuca, depois disse suavemente. - Claire, eu sou um homem morto.
        As lgrimas congelavam em meu rosto, deixando traos de gelo que queimavam minha pele.
        - No - eu disse outra vez, em vo.
        - No sou precisamente uma pessoa que possa passar despercebida, sabe disso - ele disse, tentando fazer um gracejo, enquanto corria a mo pelas mechas ruivas 
de seus cabelos. -Jamie, o Ruivo, no iria longe, eu acho. Mas voc... - Tocou minha boca, traando a linha dos meus lbios. - Eu posso salv-la, Claire, e o farei. 
Isso  o mais importante de tudo. Mas depois devo voltar... pelos meus homens.
        - Os homens de Lallybroch? Mas como?
        Jamie franziu o cenho, distraidamente tocando o punho de sua espada enquanto pensava.
        - Acho que consigo tir-los de l. Estar a maior confuso na charneca, com homens e cavalos indo e vindo de um lado para o outro, ordens sendo gritadas 
e contrariadas; as batalhas so algo muito confuso. E mesmo que j saibam a essa altura o que eu... o que eu fiz - ele continuou, com um tremor momentneo na voz 
-, ningum me deteria ento, com os ingleses  vista e a batalha prestes a comear. Sim, eu posso fazer isso - ele disse. Sua voz se firmara e seus punhos cerraram-se 
ao lado do corpo com determinao.
        - Eles me seguiro sem questionar... que Deus os ajude, foi isso que os trouxe at aqui! Murtagh dever t-los reunido para mim; eu os conduzirei para fora 
do campo de batalha. Se algum tentar me impedir, devo dizer que reclamo o direito de liderar meus prprios homens na luta; nem mesmo o Jovem Simon me negar isso.
        Respirou fundo, a testa franzida ao visualizar a cena no campo de batalha quando amanhecesse.
        - Eu os levarei embora em segurana. O campo  bastante amplo e h muitos homens para que ningum perceba que no estamos apenas mudando de posio. Eu os 
tirarei da charneca e os colocarei na estrada rumo a Lallybroch.
        Calou-se, como se seus planos s tivessem chegado at esse ponto.
        - E depois? - perguntei, sem querer saber a resposta, mas incapaz de silenciar.
        - Depois voltarei a Culloden - ele disse, soltando a respirao ruidosamente. Deu-me um sorriso trmulo. - No tenho medo de morrer, Sassenach. - Sua boca 
contorceu-se ironicamente. - Bem... no muito, de qualquer forma. Mas de algumas maneiras de encontrar a morte... - Um estremecimento breve, involuntrio, percorreu-o, 
mas ele tentou continuar a sorrir.
        - Duvido que eu seja considerado digno dos servios de um verdadeiro profissional, mas imagino que neste caso, tanto monsieur Forez quanto eu mesmo iramos 
achar... estranho. Quero dizer, ter o corao arrancado por algum com quem tomei vinho...
        Com um som incoerente de desespero, lancei os braos ao seu redor, abraando-o com todas as minhas foras.
        - Est tudo bem - ele sussurrou em meus cabelos. - Est tudo bem, Sassenach. Uma bala de mosquete. Talvez uma lmina de espada. Vai ser rpido.
        Eu sabia que era uma mentira; eu j vira o suficiente de ferimentos de batalha e de mortes de guerreiros. Toda a verdade  que era melhor do que esperar 
pelo lao da forca. O terror que me acompanhara desde a propriedade de Sandringham erguia-se agora ao nvel mais elevado, sufocando-me, devastando-me. Meus ouvidos 
latejavam com as prprias batidas do meu corao e um n fechava minha garganta de tal forma que eu no conseguia respirar.
        Ento, de repente, o medo desapareceu. Eu no podia deix-lo, e no o faria.
        - Jamie - eu disse, nas dobras de seu xale. - Eu vou voltar com voc. Ele recuou com um sobressalto, olhando-me fixamente.
        - De jeito nenhum! - exclamou.
        - Vou, sim. - Sentia-me muito calma, sem nenhum vestgio de dvida. - Posso fazer um kilt de meu arisaid; h muitos rapazes bem novos no exrcito para que 
eu possa passar por um deles. Voc mesmo disse que haver uma grande confuso. Ningum notar.
        - No! - ele exclamou. - No, Claire! - Seu maxilar estava cerrado e ele me fitava intensamente com uma mistura de raiva e horror.
        - Se voc no tem medo, eu tambm no tenho - eu disse, cerrando meu prprio maxilar. - Tudo... terminar rpido. Voc mesmo disse. -Meu queixo comeava 
a tremer, apesar de minha determinao. - Jamie... eu no vou... eu no posso... eu decididamente no vou viver sem voc e ponto final!
        Ele abriu a boca, sem fala, em seguida fechou-a, sacudindo a cabea. A luz acima das montanhas esvaa-se, pintando as nuvens com uma fosca claridade vermelha. 
Finalmente, ele estendeu os braos, puxou-me para bem junto de seu peito e abraou-me com fora.
        - Acha que eu no sei? - perguntou num sussurro. - Sou eu quem vai ficar com a parte mais fcil agora. Porque se sente por mim o que eu sinto por voc, ento 
estou lhe pedindo para arrancar seu corao e viver sem ele. - Suas mos alisaram meus cabelos, a aspereza dos ns de seus dedos agarrando-se aos fios esvoaantes.
        - Mas voc tem que fazer isso, mo duinne. Minha leoa corajosa. Voc tem que fazer.
        - Por qu? - perguntei, afastando-me para fit-lo. - Quando voc me resgatou do julgamento de bruxas em Cranesmuir voc disse que teria morrido comigo, que 
iria para a fogueira comigo, se chegasse a esse ponto.
        Ele segurou minhas mos, fitando-me com um olhar azul e firme.
        - Sim, eu o faria - ele disse. - Mas eu no estava carregando seu filho. O vento me congelara; era o frio que me fazia tremer, eu disse a mim mesma. Era 
o frio que me deixava sem ar.
        - Voc percebeu - eu disse, finalmente. -  cedo demais para termos certeza.
        Ele suspirou ruidosamente e um minsculo lampejo de humor iluminou seus olhos.
        - Ah, Sassenach, e eu no sou um fazendeiro?! Sassenach, voc nunca atrasou nem um dia em suas menstruaes, durante todo o tempo em que me levou para a 
sua cama. Voc no menstrua h quarenta e cinco dias.
        - Seu filho-da-me! - eu disse, indignada. - Voc contou! No meio de uma maldita guerra, voc contou!
        - E voc no!
        - No! - Eu no havia mesmo contado; tive medo demais de reconhecer a possibilidade de que aquilo pelo qual eu mais ansiara e rezara durante tanto tempo 
viesse a acontecer agora, to terrivelmente tarde.
        - Alm do mais - continuei, ainda tentando negar a possibilidade -, isso no significa nada. A inanio pode causar isso; em geral acontece.
        Ele ergueu uma das sobrancelhas e colocou a mo delicadamente sob meu seio.
        - Sim, voc est muito magra; mas apesar de descarnada, seus seios esto cheios... e os mamilos adquiriram a cor de uvas de champanhe. Voc se esquece que 
eu j vi isso acontecer antes. Eu no tenho a menor dvida... nem voc.
        Tentei conter a nsia de vmito - to facilmente tributvel ao medo e  inanio -, mas senti o pequeno peso, repentinamente queimando em meu tero. Mordi 
o lbio com fora, mas a nusea dominou-me.
        Jamie soltou minhas mos e postou-se diante de mim, as mos ao lado do corpo, a figura nitidamente em silhueta contra o cu turvo.
        - Claire - ele disse serenamente. - Eu vou morrer amanh. Esta criana...  tudo que restar de mim. Eu lhe peo, Claire, eu lhe imploro, proteja-a.
        Permaneci imvel, a viso embaciada, e naquele instante ouvi meu corao se partir. Foi um pequeno som, ntido, como o estalido da quebra do caule de uma 
flor.
        Finalmente, abaixei a cabea, o vento lamentando-se em meus ouvidos.
        - Sim - murmurei. - Sim. Eu irei.
        J era quase noite. Ele ficou atrs de mim e me enlaou. Recostei-me contra seu corpo enquanto ele olhava por cima do meu ombro, fitando o vale distante. 
As luzes de fogueiras das sentinelas haviam comeado a surgir, pequenos pontos brilhantes ao longe. Permanecemos em silncio por um longo tempo, enquanto a noite 
se aprofundava. Tudo estava quieto e silencioso na colina; eu no ouvia nada alm da respirao de Jamie, um som precioso.
        - Eu a encontrarei - murmurou em meu ouvido. - Eu prometo. Ainda que tenha que suportar duzentos anos de purgatrio, duzentos anos sem voc, esse ser meu 
castigo, que eu mereci pelos meus crimes. Porque eu menti, matei e roubei; tra e quebrei a confiana. Mas h uma nica coisa que dever pesar a meu favor. Quando 
eu ficar diante de Deus, eu terei uma nica coisa a dizer, para contrabalanar o resto.
        Sua voz diminuiu, at quase se transformar num sussurro, e seus braos apertaram-me com mais fora.
        - Meu Deus, o Senhor me deu uma mulher especial e, Deus!, eu a amei demais.
        Ele foi vagaroso e cuidadoso; eu tambm. Cada toque, cada momento precisava ser desfrutado, guardado na lembrana - apreciado como um talism contra um futuro 
sem ele.
        Toquei cada cavidade macia, os lugares ocultos de seu corpo. Senti a graciosidade e a fora de cada curva de seus ossos, o deslumbramento de seus msculos 
firmemente entrelaados, delgados e flexveis pela largura de seus ombros, lisos e slidos pela extenso de suas costas, rgidos como carvalho envelhecido nas colunas 
de suas coxas.
        Provei o suor salgado na cavidade de sua garganta, senti o cheiro almis-carado e quente dos plos entre suas pernas, a doura da boca larga e macia, com 
um leve sabor de ma seca, e o gosto acre dos frutos do zimbro.
        - Voc  to linda, meu amor - ele sussurrou para mim, tocando a maciez escorregadia entre minhas pernas, a pele fina e macia de dentro de minhas coxas.
        Sua cabea era somente uma mancha escura e indistinta contra a mancha branca dos meus seios. Os buracos no telhado admitiam apenas uma leve claridade do 
cu carregado; o ronco distante de uma trovoada de primavera murmurava constantemente nas colinas alm de nossas frgeis paredes. Ele estava rgido, to rijo de 
desejo que o toque de minha mo o fez gemer de uma necessidade prxima  dor.
        Quando ele j no podia mais esperar, possuiu-me, uma faca em sua bainha, e nos movemos juntos, com fora, pressionando, desejando, ansiando por aquele momento 
de unio derradeira, e temendo alcan-lo, por saber que depois dele s restaria a separao eterna.
        Ele me levou repetidas vezes aos pncaros do prazer, contendo-se, parando, arfando e estremecendo. At que finalmente eu toquei seu rosto, enfiei os dedos 
em seus cabelos, apertei-o com fora e arqueei minhas costas e quadris sob ele, forando, incitando.
        - Agora - eu lhe disse num sussurro. - Agora. Venha comigo, venha para mim, agora. Agora!
        Ele rendeu-se a mim e eu a ele, o desespero tomando conta da paixo, de modo que o eco de nossos gritos parecia extinguir-se lentamente, ressoando na escurido 
da fria cabana de pedras.
        Permanecemos abraados, imveis, seu corpo um peso abenoado, um escudo e um consolo. Um corpo to slido, to cheio de vida e calor; como era possvel que 
ele deixasse de existir dentro de poucas horas?
        - Oua - ele disse finalmente, baixinho. - Est ouvindo?
        No comeo, no ouvi nada a no ser o zumbido do vento e o pingar da chuva, gotejando pelos buracos do teto. Depois, ouvi, o baque firme, lento, de seu corao, 
pulsando contra mim, e o meu contra ele, os dois no mesmo compasso, no ritmo da vida. O sangue corria pelo seu corpo, e atravs de nosso frgil elo, por mim e de 
volta para ele.
        Permanecemos deitados assim, aquecidos sobre a coberta improvisada com xale e manto, numa cama de nossas roupas, entrelaados. Finalmente, ele se afastou 
e virando-me de costas para ele, segurou meu ventre, sua respirao clida na minha nuca.
        - Durma um pouco agora, mo duinne - murmurou. - Eu quero dormir mais uma vez assim... segurando voc, segurando o beb.
        Achei que no conseguiria dormir, mas a fora da exausto era grande demais e deslizei quase instantaneamente para as profundezas da incons-cincia. Acordei 
quase ao alvorecer, os braos de Jamie ainda  minha volta, e fiquei observando o desabrochar imperceptvel da noite se transformando em dia, inutilmente desejando 
que o abenoado refgio da noite no se esvasse.
        Virei-me de lado e ergui o corpo para observ-lo, para ver a luz tocar os contornos arrojados de seu rosto, inocente no sono, para ver o sol nascente incendiar 
seus cabelos - pela ltima vez.
        Uma onda de angstia irrompeu dentro de mim, to aguda que eu devo ter emitido algum som, porque ele abriu os olhos. Sorriu ao me ver e seus olhos buscaram 
meu rosto. Compreendi que ele estava memorizando minhas feies, como eu gravava as suas.
        -Jamie - eu disse. Minha voz estava rouca de sono e lgrimas reprimidas. - Jamie. Quero que voc deixe uma marca em mim.
        - O qu? - ele disse, espantado.
        A pequena sgian dhu que ele carregava na meia estava  mo, o cabo de chifre de veado esculpido contra a pilha de roupas. Peguei-a e a entreguei a ele.
        - Corte-me - eu disse com premncia. - Bastante fundo para deixar uma cicatriz. Quero levar a marca do seu toque no meu corpo, ter alguma coisa sua que ficar 
para sempre comigo. No tem importncia se doer; nada pode doer mais do que deix-lo. Ao menos, quando eu toc-la, onde quer que eu esteja, poderei sentir seu toque 
em mim.
        Sua mo cobriu a minha sobre o punho da faca. Aps um instante, ele apertou-a e assentiu. Hesitou por um instante, a lmina afiada na mo, e eu ofereci-lhe 
a mo direita. Estava quente sob nossas cobertas, mas sua respirao vinha em delicados fios encaracolados de vapor, visveis no ar frio da cabana.
        Ele virou a palma de minha mo para cima, examinando-a cuidadosamente, depois a levou aos lbios. Um terno beijo no centro da palma e, em seguida, ele prendeu 
a base do meu polegar numa mordida forte. Ao solt-lo, ele habilmente cortou a carne dormente. No senti mais do que uma leve sensao de ardncia, mas o sangue 
brotou imediatamente. Ele levou minha mo rpido  boca outra vez, mantendo-a ali at o fluxo de sangue diminuir. Amarrou o corte, agora queimando, cuidadosamente 
com um leno, mas no antes de eu ver que o corte tinha a forma de um pequeno e ligeiramente torto "J".
        Ergui os olhos e vi que ele oferecia a pequena faca para mim. Peguei-a e, com certa hesitao, peguei tambm a mo que ele me estendia.
        Ele fechou os olhos rpido e cerrou os lbios, mas deixou escapar um pequeno grunhido de dor quando pressionei a ponta da faca na parte mais carnosa da base 
de seu polegar. O Monte de Vnus, dissera-me uma adivinha que lia as linhas da mo; indicador de paixo e amor.
        Somente quando terminei o pequeno corte semicircular  que percebi que ele me dera a mo esquerda.
        - Eu deveria ter pegado a outra mo - eu disse. - O punho de sua espada pressionar o corte.
        Ele sorriu debilmente.
        - Eu no poderia pedir mais do que sentir seu toque em mim em minha ltima luta, onde quer que ela ocorra.
        Desenrolando o leno manchado de sangue, pressionei o corte em minha mo firmemente sobre o dele, nossos dedos entrelaados com fora. O sangue era morno 
e escorregadio, ainda no pegajoso em nossas mos.
        - Sangue do meu sangue... - murmurei.
        - ...E carne da minha carne - ele respondeu baixinho. Nenhum de ns dois conseguiu terminar o voto, "at o fim de nossas vidas", mas as palavras no pronunciadas 
pairaram dolorosamente entre ns. Por fim, ele deu um sorriso enviesado.
        - Alm. Muito alm disso - ele disse com firmeza, puxando-me para ele mais uma vez.
        - Frank - ele disse finalmente, com um suspiro. - Bem, deixo por sua conta o que voc dir a ele sobre mim. Provavelmente ele no vai querer ouvir. Mas se 
quiser, se voc achar que pode conversar com ele sobre mim, como conversou comigo sobre ele, ento diga a ele... que eu agradeo. Diga-lhe que confio nele, porque 
preciso. E diga-lhe... - suas mos apertaram repentinamente meus braos e ele falou com uma mistura de humor e absoluta sinceridade. - Diga-lhe que eu o odeio at 
o ltimo fio dos seus cabelos, at a medula de seus ossos!
        Estvamos vestidos e a luz da aurora transformara-se em pleno dia. No havia nada para comermos, nada para minorar nossa fome. Nada mais a fazer... e nada 
mais a dizer.
        Logo ele teria que partir, para chegar  charneca de Drumossie atempo. Era nossa despedida final e no conseguamos encontrar uma maneira de dizer adeus.
        Finalmente, com um sorriso enviesado, inclinou-se e me beijou terna-mente nos lbios.
        - Diziam... - comeou, e parou para limpar a garganta. - Diziam, antigamente, quando um homem partia para uma grande faanha, que ele encontraria uma "mulher 
sbia" e lhe pediria para abeno-lo. Ele deveria ficar parado, olhando para frente, na direo para onde iria, e ela iria por trs dele, para dizer as palavras 
mgicas sobre ele. Ao terminar, ele seguiria direto em frente, sem olhar para trs, porque isso traria azar  sua jornada.
        Tocou levemente meu rosto e virou-se, de frente para a porta aberta. O sol da manh filtrava-se para dentro da cabana, iluminando seus cabelos com fogo. 
Ele aprumou os ombros largos sob o xale e respirou fundo.
        - Abenoe-me, ento, mulher sbia - ele disse baixinho -, e v.
        Coloquei a mo em seu ombro, em busca de palavras. Jenny me ensinara algumas das antigas preces clticas de proteo; tentei evocar as palavras mentalmente.
        - Jesus, Filho de Maria - comecei, com voz rouca -, suplico-Vos em Vosso nome; e em nome do abenoado apstolo Joo, e em nome de todos os santos do domnio 
vermelho, para proteg-lo na batalha que vir...
        Parei, interrompida por um som vindo do sop da colina. O som de vozes, e de passos.
        Jamie ficou paralisado por um instante, o ombro rgido sob minha mo, depois girou nos calcanhares, empurrando-me para os fundos da cabana, onde a parede 
havia desmoronado.
        - Por ali! - ele disse. - So ingleses! Claire, v!
        Corri para a abertura na parede, o corao na boca, enquanto ele voltava para a porta, a mo na espada. Parei, por um instante, para v-lo pela ltima vez. 
Ele virou a cabea, avistou-me, e repentinamente estava a meu lado, empurrando-me com fora contra a parede numa agonia de desespero. Agarrou-me com toda a fora. 
Eu podia sentir sua ereo pressionando meu ventre e o punho de sua adaga machucando minha costela.
        Ele falou com voz rouca em meus cabelos.
        - Mais uma vez. Eu preciso! Mas rpido!
        Prendeu-me contra a parede, eu arregacei minhas saias enquanto ele erguia seu kilt. No se tratava de fazer amor; ele possuiu-me rpida e impetuosamente 
e tudo terminou em segundos. As vozes estavam mais prximas; a apenas uns cem metros.
        Ele beijou-me mais uma vez, com fora suficiente para deixar o gosto de sangue em minha boca.
        - D-lhe o nome de Brian - ele disse -, por meu pai. - Com um empurro, conduziu-me para a abertura na parede. Enquanto corria para ela, virei-me e o vi 
de p na soleira da porta, a espada parcialmente sacada, a adaga pronta na mo direita.
        Os ingleses, sem saber que a cabana estava ocupada, no pensaram em enviar um batedor pelos fundos. A encosta atrs da cabana estava deserta quando corri 
por ela e entrei no bosque de carvalhos abaixo do topo da colina.
        Abri caminho entre os galhos e arbustos, tropeando em pedras, cega pelas lgrimas. Atrs de mim, podia ouvir gritos e o embate de metais que vinha da cabana. 
Minhas coxas estavam midas e escorregadias do smen de Jamie. O topo da colina parecia nunca se aproximar; certamente eu iria passar o resto da vida lutando para 
abrir caminho pelas rvores asfixiantes!
        Ouviu-se um estalo no mato atrs de mim. Algum me vira correr da cabana. Limpei as lgrimas e me arrastei pela subida, tateando e rastejando  medida que 
o terreno ficava mais ngreme. Estava na clareira agora, a plataforma de granito de que eu me lembrava. O pequeno p de corniso que crescia do rochedo estava l, 
bem como as pequenas rochas tombadas.
        Parei na borda do crculo de pedras, olhando para baixo, tentando desesperadamente ver o que estava acontecendo. Quantos soldados haviam chegado  cabana? 
Jamie conseguiria livrar-se deles e alcanar seu cavalo manco l embaixo? Sem ele, jamais chegaria a Culloden a tempo.
        Imediatamente, os galhos abaixo de mim abriram-se com um lampejo vermelho. Um soldado ingls. Virei-me, corri, arquejante, pela grama do crculo e atirei-me 
pela fenda na rocha.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
PARTE VII
RETROSPECTO



47 - DETALHES
        
        Ele estava certo,  claro. Desgraado, ele quase sempre estava certo. - Claire parecia contrariada enquanto falava. Um sorriso triste atravessou seu rosto, 
depois ela olhou para Brianna, sentada no tapete em frente  lareira, envolvendo os joelhos, o rosto completamente insondvel. Somente um leve movimento de seus 
cabelos, erguendo-se e esvoaando ligeiramente no calor crescente do fogo, demonstrava qualquer movimento.
        - Foi uma gravidez de risco, novamente, e um parto perigoso. Se eu tivesse arriscado ter a criana l, provavelmente ns duas teramos morrido. - Ela falava 
diretamente para sua filha, como se estivessem sozinhas na sala. Roger, acordando lentamente do fascnio do passado, sentiu-se um intruso.
        - A verdade, portanto, toda ela. Eu no suportava deix-lo - Claire disse calmamente. - Nem mesmo por voc... eu a odiei um pouco, antes de voc nascer, 
porque foi por sua causa que ele me fez partir. Eu no me importava de morrer... no com ele. Mas ter que continuar vivendo, sem ele... ele tinha razo, eu fiquei 
com a pior parte do trato. Mas eu o cumpri, porque o amava. E sobrevivemos, voc e eu, porque ele a amava.
        Brianna no se mexeu; no tirou os olhos do rosto de sua me. Somente seus lbios se moveram, rigidamente, como se no estivessem acostumados a falar.
        - Por quanto tempo... voc me odiou?
        Os olhos dourados encontraram-se com os azuis, inocentes e implacveis como os olhos de um falco.
        - At voc nascer. Quando a segurei nos braos, amamentei-a e a vi olhar para mim com os olhos de seu pai.
        Brianna emitiu um som fraco, estrangulado, mas sua me continuou, a voz abrandando-se um pouco enquanto olhava para a jovem aos seus ps.
        - E ento comecei a conhec-la, algum  parte de mim mesma ou de Jamie. E eu a amei por voc mesma e no apenas pelo homem que a gerou.
        Houve um movimento agitado no tapete e Brianna ps-se de p num salto. Seus cabelos eriaram-se como a juba de um leo e os olhos azuis flamejaram como as 
chamas na lareira.
        - Meu pai era Frank Randall! - ela disse. - Era ele! Eu sei! - Com os punhos cerrados, fitou a me furiosamente. Sua voz tremia de raiva.
        - No sei por que voc est fazendo isso. Talvez voc realmente me odiasse, talvez ainda odeie! - Lgrimas comeavam a rolar pelo seu rosto, incontidas, 
e ela as limpou irritadamente com as costas da mo.
        - Papai... papai me amava. Ele no teria me amado se eu no fosse dele! Por que est tentando me fazer acreditar que ele no era meu pai? Voc tinha cimes 
de mim?  isso? Incomodava-a tanto assim que ele me amasse? Ele no amava voc, disso eu sei! - Os olhos azuis estreitaram-se como os de um gato, chamejando no rosto 
mortalmente lvido.
        Roger sentiu um grande desejo de esconder-se sorrateiramente atrs da porta antes que ela notasse sua presena e voltasse sua ira incandescente contra ele. 
Mas alm de seu prprio desconforto, ele tinha conscincia de uma sensao de crescente assombro. A jovem que estava de p em frente  lareira, esbravejando em defesa 
de sua paternidade, ardia com a fora selvagem que levara os guerreiros das Highlands a carem sobre seus inimigos como banshees estridentes. Com seu nariz longo 
e reto, prolongado ainda mais pelas sombras, os olhos rasgados como os de um gato enfurecido, ela era a imagem de seu pai - e evidentemente seu pai no era o acadmico 
moreno e tranqilo, cuja foto adornava a contracapa do livro sobre a mesa.
        Claire abriu a boca uma vez, mas fechou-a em seguida, observando a filha com absorto fascnio. Aquela poderosa tenso do corpo, o arco das mas do rosto 
largas e planas; Roger percebeu que ela j vira tudo aquilo muitas vezes antes - mas no em Brianna.
        Com uma imprevisibilidade que fez ambos se encolherem, Brianna girou nos calcanhares, agarrou os recortes de jornal amarelecidos de cima da mesa e atirou-os 
ao fogo. Agarrou o atiador e empurrou-o ferozmente no monte de brasas, sem se importar com a chuva de fagulhas que voava da lareira e chiava em volta das botas 
em seus ps.
        Virando-se da massa de papis em chamas e rapidamente se enegrecendo, bateu um dos ps na lareira.
        - Desgraada! - gritou para sua me. - Voc me odiava? Bem, eu odeio voc! - Levou para trs o brao que segurava o atiador e os msculos de Roger retesaram-se 
instintivamente, pronto a se atirar sobre ela. Mas Brianna se virou, o brao ainda para trs como uma lanadora de dardo, e arremessou o atiador por toda a extenso 
da janela, onde as vidraas escuras da noite refletiram a imagem de uma mulher enfurecida por um ltimo instante antes de se estilhaarem e se transformarem num 
buraco negro.
        O silncio no gabinete era devastador. Roger, que se pusera de p num salto para ir atrs de Brianna, acabou parado no meio do aposento, embaraosamente 
paralisado. Abaixou os olhos para as prprias mos, como se no soubesse ao certo o que fazer com elas, depois olhou para Claire. Ela continuava sentada perfeitamente 
imvel no santurio da poltrona bergre, como um animal paralisado pela sombra fugaz de uma ave de rapina.
        Aps longos momentos, Roger atravessou o aposento e apoiou-se na escrivaninha.
        - No sei o que dizer - murmurou.
        A boca de Claire torceu-se ligeiramente.
        - Nem eu.
        Permaneceram em silncio por vrios minutos. A velha casa estalava, acomodando-se ao redor deles, e um rudo distante de panelas desceu o corredor, proveniente 
da cozinha onde Fiona preparava o jantar. A sensao de choque e constrangimento de Roger gradualmente cedeu lugar a outro sentimento, que ele no sabia definir 
bem. Suas mos estavam geladas e ele esfregou-as nas pernas, sentindo a aspereza quente do veludo cotel nas palmas das mos.
        - Eu... - comeou a falar, depois parou e sacudiu a cabea.
        Claire respirou fundo e ele percebeu que esse era o primeiro movimento que ele a vira fazer desde que Brianna sara. Seu olhar era lmpido e direto.
        - Voc acredita em mim? - ela perguntou.
        Roger olhou pensativamente para ela.
        - Juro que no sei - disse por fim.
        Isso provocou um sorriso trmulo.
        - Foi o que Jamie disse quando lhe perguntei pela primeira vez de onde ele achava que eu viera.
        - No posso dizer que o culpo. - Roger hesitou e, ento, tomando uma deciso, desceu da escrivaninha e atravessou o aposento at Claire. - Permite-me? - 
Ajoelhou-se e tomou sua mo, virando-a para a luz. Voc pode distinguir o marfim verdadeiro do sinttico, lembrou-se de repente, porque o verdadeiro tem um toque 
quente em sua mo. A palma da mo de Claire era suavemente rosada, mas a fina cicatriz do "J" na base de seu polegar era branca como osso.
        - Isso no prova nada - ela disse, observando seu rosto. - Poderia ter sido um acidente; eu mesma poderia t-la feito.
        - Mas no fez, no ? - Ele recolocou a mo de Claire muito delicadamente em seu colo outra vez, como se fosse um frgil artefato.
        - No. Mas no posso prov-lo. As prolas - sua mo dirigiu-se ao colar reluzente em seu pescoo - so autnticas; isso pode ser verificado. Mas posso provar 
onde as obtive? No.
        - E o retrato de Ellen MacKenzie... - ele comeou.
        - O mesmo. Uma coincidncia. Algo em que basear meu delrio. Minhas mentiras. - Havia um leve tom amargo em sua voz, embora falasse muito calmamente. Via-se 
um pouco de cor em cada face agora e ela abandonava aquela rigidez absoluta. Era como ver uma esttua adquirir vida, ele pensou.
        Roger levantou-se. Andou devagar de um lado para o outro, passando a mo pelos cabelos.
        - Mas  importante para voc, no ? Muito importante.
        - Sim. - Ela levantou-se e se dirigiu  escrivaninha, onde estava a pasta de sua pesquisa. Colocou a mo na capa de papel manilha com reverncia, como se 
fosse uma sepultura; e para ela era, Roger pensou.
        - Eu tinha que saber. - Havia um pequeno tremor em sua voz, mas ela viu seu queixo firmar-se instantaneamente, reprimindo-o. - Eu tinha que saber se ele 
conseguira... se ele salvara seus homens... ou se ele se sacrificara por nada. E eu tinha que contar a Brianna. Ainda que ela no acreditasse... ainda que nunca 
acredite. Jamie era seu pai. Eu tinha que contar a ela.
        - Sim, eu compreendo. E no podia fazer isso enquanto o dr. Randall... seu mari... quer dizer, Frank - corrigiu-se, enrubescendo - fosse vivo.
        Ela sorriu debilmente.
        - Tudo bem; voc pode chamar Frank de meu marido. Ele foi, afinal, por muitos anos. E Bri tem razo, de certa forma. Ele era seu pai, assim como Jamie. - 
Abaixou os olhos para as prprias mos e abriu os dedos de ambas, de modo que a luz refletisse nas duas alianas que usava, prata e ouro. Um pensamento ocorreu a 
Roger.
        - Sua aliana - ele disse, aproximando-se de Claire outra vez. - A de prata. Ela tem a marca do fabricante? Alguns artistas escoceses do sculo XVIII que 
trabalhavam com prata costumavam us-las. Pode no ser uma prova definitiva, mas j  alguma coisa.
        Claire pareceu espantada. Sua mo esquerda cobriu a direita protetoramente, os dedos esfregando a larga aliana de prata com seu desenho de entrelace escocs 
e flores de cardo.
        - No sei - ela disse. Um leve rubor tomou conta de suas faces. - Nunca a olhei por dentro. Eu nunca a tirei do dedo. - Ela girou a aliana lentamente por 
cima do n do dedo; seus dedos eram delgados, mas pelo longo tempo de uso, a aliana deixara uma marca funda em sua carne.
        Ela estreitou os olhos, observando a parte de dentro da aliana, depois se levantou e levou-a  mesa, onde parou ao lado de Roger, inclinando o aro de prata 
para que refletisse a luz do abajur da mesa.
        - H palavras gravadas aqui - disse, admirada. - Eu nunca percebi que ele havia... Ah, meu Deus. - Sua voz alquebrou-se e a aliana escorregou de seus dedos, 
tilintando na mesa com um pequeno retinido metlico. Roger logo a pegou, mas Claire se virara, os punhos cerrados apertados com fora contra o estmago. Ele sabia 
que ela no queria que ele visse seu rosto; o controle que ela conservara atravs das longas horas do dia e da cena com Brianna abandonou-a agora.
        Ele ficou parado por um instante, sentindo-se insuportavelmente deslocado e constrangido. Com a terrvel sensao de estar violando uma privacidade mais 
profunda do que ele jamais conhecera, mas sem saber o que mais fazer, ergueu o minsculo aro de metal para a luz e leu as palavras gravadas no lado interno.
        - Da mi basia mille... - Mas foi a voz de Claire que enunciou as palavras, no a dele. Sua voz estava trmula e ele podia sentir que ela estava chorando, 
mas aos poucos recuperava o controle. Ela no podia extravasar por muito tempo; a fora do que ela mantinha sob controle podia facilmente destru-la.
        - E de Catulo. Um trecho de um poema de amor. Hugh.... Hugh Munro, ele me deu o poema como presente de casamento, enrolado em volta de um pedao de mbar 
com uma liblula em seu interior. - Ainda com os punhos cerrados, deixara as mos penderem ao lado do corpo. -Eu no sei o poema de cor, mas este trecho... este 
eu sei. - Sua voz ficava mais firme  medida que ela falava, mas continuou de costas para Roger. O pequeno aro de prata brilhava na palma de sua mo, ainda quente 
do calor do dedo que acabara de deixar.
        - ...Da mi basia mille... - Ainda de costas, ela continuou, traduzindo:
        - Permita, ento, que beijos apaixonados permaneam
        Em nossos lbios, comece a contagem
        At mil e cem
        E mais cem e mais mil.
        Quando terminou, permaneceu imvel por um instante, depois devagar virou-se para ele outra vez. Seu rosto estava afogueado e molhado, e seus clios grudados 
de lgrimas, mas ela estava aparentemente calma.
        - E mais cem e mais mil - ela disse, com uma dbil tentativa de sorriso. - Mas nenhuma marca do fabricante. Ento, isso tambm no  uma prova.
        - , sim. - Roger sentia como se houvesse alguma coisa entalada em sua garganta e apressadamente tentou clare-la. -  prova absoluta. Para mim.
        Algo se acendeu no fundo dos seus olhos e o sorriso tornou-se real. Ento, as lgrimas afloraram e transbordaram, conforme ela perdia seu autocontrole de 
uma vez por todas.
        - Desculpe-me - ela disse finalmente. Estava sentada no sof, os cotovelos nos joelhos, o rosto parcialmente enterrado em um dos enormes lenos brancos do 
reverendo Wakefield. Roger sentou-se ao seu lado, bem prximo, quase a tocando. Ela parecia muito pequena e vulnervel. Ele teve vontade de afagar seus cachos castanho-acinzentados
, mas sentia-se muito tmido para isso.
        - Nunca pensei... nunca me ocorreu - ela disse, assoando o nariz outra vez. - Eu no sabia o quanto significaria, ter algum que acreditasse em mim.
        - Ainda que no seja Brianna?
        Ela sorriu ligeiramente diante dessas palavras, afastando os cabelos para trs com uma das mos enquanto se aprumava.
        - Foi um choque - disse, defendendo a filha. - Naturalmente, ela no poderia... ela gostava tanto de seu pai... de Frank, quero dizer - corrigiu-se apressadamente. 
- Eu sabia que provavelmente ela no conseguiria digerir tudo isso no comeo. Mas... com certeza depois que tiver tido tempo para pensar, para fazer perguntas... 
- Sua voz esvaiu-se e os ombros de seu conjunto de linho branco sucumbiram sob o peso das palavras.
        Como para distrair-se, ela olhou para a mesa, onde a pilha de livros de capa brilhante ainda permanecia, intocada.
        -  estranho, no ? Viver vinte anos com um estudioso dos jacobitas e ter tanto medo do que eu podia vir a saber que nunca tive coragem de abrir um desses 
livros? - Sacudiu a cabea, ainda fitando os livros. - No sei o que aconteceu com muitos deles... eu no podia suportar descobrir. Todos os homens que eu conhecia; 
eu no conseguia esquec-los. Mas eu podia sepult-los, mant-los longe da lembrana. Por algum tempo.
        E esse tempo agora terminara e um outro comeava. Roger pegou o livro no alto da pilha, pesando-o nas mos, como se fosse uma responsabilidade. Talvez ao 
menos isso tirasse sua cabea de Brianna.
        - Quer que eu lhe conte? - perguntou serenamente.
        Ela hesitou por um longo instante, mas depois balanou a cabea rapidamente, com medo de vir a se arrepender se parasse para pensar mais.
        Roger umedeceu os lbios ressecados e comeou a falar. No precisava consultar o livro; esses eram fatos conhecidos de qualquer estudioso do perodo. Ainda 
assim, segurou o livro de Frank Randall contra o peito, slido como um escudo.
        - Francis Townsend - ele comeou. - O homem que manteve o domnio de Carlisle para Carlos. Foi capturado. Condenado por traio, enforcado e estripado.
        Parou, mas o rosto lvido j estava exangue, no era possvel ficar ainda mais branco. Ela sentou-se do outro lado da mesa, em frente a ele, imvel como 
uma esttua de sal.
        - MacDonald de Keppoch atacou a p no campo de Culloden, com seu irmo Donald. Ambos foram abatidos pela artilharia inglesa. Lorde Kilmarnock caiu no campo 
de batalha, mas lorde Ancrum, identificando os feridos, reconheceu-o e salvou sua vida dos homens de Cumberland. No foi nenhum grande favor; ele foi decapitado 
no ms de agosto na Torre de Londres, junto com Balmerino. - Hesitou. - O filho pequeno de Kilmarnock perdeu-se no campo de batalha; seu corpo nunca foi recuperado.
        - Sempre gostei de Balmerino - ela murmurou. - E a velha raposa? Lorde Lovat? - Sua voz era pouco mais do que um sussurro. - A sombra de um machado...
        - Sim. - Os dedos de Roger afagaram a capa lisa e brilhante do livro inconscientemente, como se ele lesse as palavras em seu interior por Braille. - Foi 
julgado por traio e condenado  decapitao. Morreu dignamente. Todos os relatos afirmam que ele enfrentou sua morte com grande dignidade.
        Uma cena atravessou a mente de Roger; uma anedota de Hogarth. Recitou de memria, o mais fielmente possvel.
        - Carregado atravs dos gritos e vaias de uma turba inglesa no trajeto a caminho da Torre, o velho chefe do cl Fraser parecia descontrado, indiferente 
aos objetos arremessados que passavam zunindo por sua cabea e quase de bom humor. Em resposta ao grito de uma mulher idosa: "Vai ter a sua cabea decepada, velho 
canalha escocs!", ele inclinou-se para fora da janela de sua carruagem e gritou jovialmente em resposta: "Assim espero, megera inglesa velha e feia!"
        Ela sorria, mas o som que emitia era um misto de riso e soluo.
        - Tenho certeza que sim, o patife filho-da-me!
        - Quando foi levado ao cadafalso - Roger continuou cautelosamente -, pediu para inspecionar a lmina e instruiu o executor para que fizesse um bom servio. 
Ele disse ao sujeito: "Faa direito, porque vou ficar realmente furioso se no fizer!"
        As lgrimas escorriam sob suas plpebras fechadas, cintilando como pedras preciosas  luz da lareira. Ele fez meno de aproximar-se dela, mas ela pressentiu 
seu movimento e sacudiu a cabea, os olhos ainda fechados.
        - Estou bem. Continue.
        - No h muito mais. Alguns deles sobreviveram, voc sabe. Lochiel fugiu para a Frana. - Ele teve o cuidado de no mencionar o irmo do chefe do cl, Archibald 
Cameron. O doutor foi enforcado, estripado e decapitado em Tyburn, o corao arrancado e atirado s chamas. Ela no pareceu notar a omisso.
        Roger terminou a lista rpido, observando-a. Suas lgrimas haviam estancado, mas ela permanecia sentada, com a cabea baixa, os cabelos cacheados e cheios 
ocultando a expresso do seu rosto.
        Ele ficou parado por um instante quando terminou de falar, em seguida levantou-se e segurou-a com firmeza pelo brao.
        - Venha - ele disse. - Voc precisa de um pouco de ar. Parou de chover; vamos l para fora.
        O ar do lado de fora era fresco e frio, quase embriagante depois do ambiente abafado do gabinete do reverendo. A chuva forte parara ao pr-do-sol e agora, 
no comeo da noite, apenas o barulho dos pingos de gua que gotejavam das rvores e arbustos lembrava o aguaceiro anterior.
        Senti um grande alvio em sair da casa. Eu temera tudo isso por tanto tempo e agora estava feito. Ainda que Bri nunca... mas no, ela iria entender. Ainda 
que levasse muito tempo, ela certamente aceitaria a verdade. Tinha que aceitar; a verdade a fitava todos os dias de manh no espelho; corria no prprio sangue em 
suas veias. Por enquanto, eu lhe contara tudo e sentia a leveza de uma alma absolvida, saindo do confessionrio, ainda sem o peso do pensamento da penitncia.
         como dar  luz, pensei. Um curto perodo de grande dificuldade e dor dilacerante, aliado  certeza de noites sem dormir e dias estressantes no futuro. 
Mas por enquanto, por um instante abenoado e tranqilo, no havia nada alm de uma serena euforia que enchia a alma e no deixava espao para apreenso. At mesmo 
a dor recente pelos homens que eu conhecera estava amortizada ali fora, abrandada pelas estrelas que brilhavam atravs de brechas nas nuvens esgaradas.
        A noite do comeo da primavera estava mida e os pneus dos carros que passavam na rodovia principal ali perto zuniam no asfalto molhado. Roger conduziu-me 
em silncio pela descida atrs da casa, em seguida por uma subida, passando por uma pequena clareira coberta de musgo, e por outra descida, onde havia um caminho 
que levava ao rio. Uma ponte preta de ferro da ferrovia atravessava o rio neste ponto; havia uma escada de ferro no caminho, presa a uma das vigas mestras. Algum 
de posse de uma lata de spray de tinta branca escrevera ESCCIA LIVRE na extenso do vo da ponte com uma ousadia fortuita.
        Apesar da tristeza da lembrana, eu me sentia em paz, ou quase. Eu j fizera a parte mais difcil. Agora, Bri j sabia quem ela era. Esperava ardentemente 
que, com o tempo, ela viesse a acreditar - no apenas para o seu prprio bem, eu sabia, mas tambm para o meu. Mais do que eu jamais teria admitido, nem para mim 
mesma, eu queria ter algum com quem me lembrar de Jamie; algum com quem eu pudesse conversar sobre ele. Senti um cansao devastador, de tal natureza que atingia 
o corpo e a mente. Mas empertiguei minhas costas mais uma vez, forando meu corpo alm dos seus limites, como j fizera tantas vezes antes. Em breve, prometi s 
minhas juntas doloridas, minha mente sensvel, meu corao recm-partido. Em breve, eu poderia descansar. Poderia sentar-me sozinha na pequena e aconchegante sala 
de estar da penso, sozinha com meus fantasmas. Poderia chor-los em paz, deixando o cansao esvair-se com as lgrimas e, finalmente, buscar o esquecimento temporrio 
do sono, onde talvez pudesse encontr-los vivos uma vez mais.
        Mas ainda no. Ainda havia mais uma coisa a ser feita antes de eu dormir.
        Caminharam em silncio por algum tempo, sem nenhum rudo alm do trfego distante e da agitao mais prxima das pequenas ondas do rio em suas margens. Roger 
sentia-se relutante em iniciar qualquer conversa, com receio de faz-la se lembrar de coisas que desejava esquecer. Mas as comportas tinham sido abertas e no havia 
mais como impedir.
        Ela comeou a fazer-lhe pequenas perguntas, hesitantes e entrecortadas. Ele respondia a elas da melhor forma possvel e, por sua vez tambm hesitante, fez-lhe 
algumas perguntas prprias. A liberdade de falar repentina, aps tantos anos de segredo guardado, parecia agir como uma droga sobre ela, e Roger, ouvindo fascinado, 
estimulava-a, apesar de si mesma. Quando chegaram  ponte da ferrovia, ela j havia recuperado o vigor e a fora de carter que identificara nela quando a vira pela 
primeira vez.
        - Ele era um idiota, um bbado, um homem tolo e fraco - ela declarou apaixonadamente. - Todos eles eram uns tolos: Lochiel, Glengarry e o resto. Bebiam demais 
e enchiam-se dos sonhos tolos de Carlos. Falar  fcil, e Dougal tinha razo:  fcil ser corajoso, sentado com um copo de cerveja numa sala aconchegante. Estavam 
todos estupidificados de bebida e, depois, eram orgulhosos demais de sua maldita honra para recuar. Aoitavam e ameaavam seus homens, subornavam-nos e seduziam-nos, 
levaram todos eles  desgraa e  runa... em nome da honra e da glria.
        Ela expirou fazendo rudo pelo nariz e ficou em silncio por um instante. Em seguida, surpreendentemente, riu.
        - Mas sabe o que  realmente engraado? Aquele pobre, tolo beberro e seus auxiliares estpidos e gananciosos; e os homens honrados e tolos que no admitiam 
recuar... tinham uma nica virtude: eles acreditavam. E o engraado  que isso  tudo que permaneceu deles. Toda a tolice, a incompetncia, a covardia e a vaidade, 
tudo isso desapareceu. Tudo que resta agora de Carlos Stuart e seus homens  a glria que eles buscavam e nunca encontraram.
        - Talvez Raymond tivesse razo - ela acrescentou num tom mais suave. -  apenas a essncia de um fato que conta. Quando o tempo arranca todo o resto, sobra 
apenas a rigidez do osso.
        - Imagino que voc deva sentir uma certa amargura em relao aos historiadores - Roger arriscou. - Todos os autores que entenderam tudo errado, que o retrataram 
como um heri. Quer dizer, no se pode ir a nenhum lugar nas Highlands sem vermos o prncipe Carlos em latas de balas e canecas de suvenir para turistas.
        Claire sacudiu a cabea, o olhar distante. A neblina da noite estava cada vez mais densa, os arbustos comeando a gotejar outra vez das pontas das folhas.
        - No os historiadores. No, eles no. Seu maior crime  que eles acham que sabem o que aconteceu, como os fatos se sucederam, quando tudo que tm  o que 
o passado escolheu deixar para trs. A maioria deles acha o que foram condicionados para acreditar e  raro encontrar um historiador que veja o que realmente aconteceu 
por trs da cortina de fumaa de artefatos e documentos.
        Ouviram um ronco fraco a distncia. O trem de passageiros noturno, proveniente de Londres, Roger sabia. Podia-se ouvir seu apito da casa da parquia em noites 
lmpidas.
        - No, a culpa  dos artistas - Claire continuou. - Os escritores, os cantores, os contadores de histrias. So eles que tomam o passado e o recriam a seu 
gosto. So eles que podem pegar um tolo e o devolver como um heri, pegar um beberro e torn-lo um rei.
        - So todos mentirosos, ento? - Roger perguntou. Claire deu de ombros. Apesar do ar frio, ela tirara o casaco de seu costume; a umidade moldara a camisa 
de algodo, revelando a elegncia da sua clavcula e das suas omoplatas.
        - Mentirosos? - ela perguntou. - Ou feiticeiros? Ser que vem os ossos na poeira da terra, vem a essncia de algo que existiu e o revestem com uma nova 
carne, de modo que a besta surja de novo como um monstro fabuloso?
        - Ento, eles esto errados em faz-lo? - Roger perguntou. A ponte da via frrea estremeceu quando o trem se aproximou. As letras trmulas e brancas sacudiram-se 
com a vibrao: ESCCIA LIVRE.
        Claire ergueu os olhos para as letras, o rosto iluminado pela fugidia claridade das estrelas...
        - Voc ainda no consegue compreender, no ? - ela disse. Estava irritada, mas a voz aveludada no se ergueu acima do tom normal.
        - Voc no sabe por que - ela disse. - Voc no sabe, e eu no sei e ns nunca saberemos. No percebe? Voc no sabe porque no pode dizer qual  a finalidade, 
no h nenhuma finalidade. Voc no pode dizer: "Este acontecimento em particular foi "predestinado" a acontecer e, portanto, todas as outras coisas aconteceram." 
O que Carlos fez ao povo da Esccia... era isso que tinha que acontecer? Ou isso era "predestinado" a acontecer como aconteceu e a real finalidade de Carlos era 
ser o que ele  agora: um smbolo, um cone? Sem ele, a Esccia teria suportado duzentos anos de unio com a Inglaterra e ainda assim, ainda assim - ela sacudiu 
a mo indicando as letras espalhadas acima - ter conservado sua prpria identidade?
        - No sei! - Roger disse, tendo que gritar conforme o holofote oscilante iluminava as rvores e os trilhos, e o trem rugia na ponte acima deles.
        Passou-se um minuto inteiro de um barulho retumbante e ensurdecedor que os manteve imveis onde estavam. Finalmente, passou e o rudo estrondoso definhou, 
transformando-se num lamento solitrio conforme a luz vermelha do ltimo vago era varrida para fora de suas vistas.
        - Bem, esse  o mal, no ? - ela disse, desviando o rosto. - A gente nunca sabe, mas temos que agir de qualquer modo, no ?
        Ela espalmou as mos de repente, flexionando os dedos fortes de modo que suas alianas brilharam na luz.
        - Voc aprende isso quando se torna um mdico. No na faculdade, pelo menos, no  l que se aprende, de qualquer forma, mas quando coloca as mos nas pessoas 
e presume que vai cur-las. H tanta gente l, fora do seu alcance. Tantas que voc nunca conseguir tocar, tantas cuja essncia no consegue encontrar, tantas que 
escorregam entre seus dedos. Mas voc no pode pensar nelas. A nica coisa que pode fazer, a nica,  tentar salvar aquela que est  sua frente. Agir como se aquele 
paciente fosse a nica pessoa no mundo, porque agir de outra forma  perder este tambm. Em determinado momento, isso  tudo que se pode fazer. E voc aprende a 
no se desesperar por todos aqueles que no pode ajudar, mas apenas a fazer o que pode.
        Voltou-se novamente para ele, o rosto abatido de cansao, os olhos brilhando com a chuva e a luz, cristais de gua enfeitando os cachos de seus cabelos. 
Sua mo pousou no brao de Roger, inexorvel como o vento que infla a vela de um barco e o obriga e seguir em frente.
        - Vamos voltar para a casa, Roger - ela disse. - Tenho algo muito particular para lhe contar.
        Claire permaneceu em silncio no trajeto de volta para a residncia paroquial, evitando as especulaes de Roger. Ela recusou o brao que ele lhe ofereceu, 
caminhando sozinha, a cabea abaixada, absorta em seus pensamentos. No como se estivesse tomando uma deciso, Roger pensou; j fizera isso. Ela decidia o que dizer.
        O prprio Roger refletia. O silncio dava-lhe uma trgua do tumulto das revelaes do dia - o suficiente para imaginar precisamente por que Claire decidira 
inclu-lo nos acontecimentos. Ela poderia facilmente ter contado a Brianna sozinha, se quisesse. Seria apenas o fato de ter temido a reao da filha e hesitado em 
enfrent-la sozinha? Ou teria apostado que ele iria - como o fez - acreditar nela e, assim, procurou alist-lo como um aliado na causa da verdade - a verdade sua 
e de Brianna?
        Sua curiosidade quase atingira o ponto de ebulio quando finalmente chegaram  casa. No entanto, ainda havia trabalho a ser feito primeiro; juntos, descarregaram 
uma das estantes mais altas e empurraram-na para frente da janela estilhaada, bloqueando a entrada do ar frio da noite.
        Corada com o esforo, Claire sentou-se no sof enquanto ele foi servir duas doses de usque da pequena mesa de bebidas no canto do aposento. Quando a sra. 
Graham estava viva, sempre trazia bebidas numa bandeja, adequadamente forrada com paninhos de renda e adornada com guardanapos e biscoitos para acompanhar. Fiona, 
se lhe permitissem, teria de bom grado feito o mesmo, mas Roger preferia a simplicidade de servir seu prprio drinque sozinho.
        Claire agradeceu, tomou um gole de seu copo, depois o deixou de lado e ergueu os olhos para ele, cansada, mas serena.
        - Voc deve estar se perguntando por que eu queria que voc ouvisse toda a histria - ela disse, com aquela habilidade assustadora de ler seus pensamentos.
        - Por duas razes. Logo lhe contarei a segunda, mas quanto  primeira, achei que voc tinha certo direito de ouvi-la.
        - Eu? Que direito?
        Os olhos dourados eram francos, perturbadores como o olhar fixo e direto de um leopardo.
        - O mesmo que Brianna. O direito de saber quem voc .
        Ela atravessou o aposento, at a parede no extremo oposto. Era forrada de cortia do cho ao teto, coberta com camadas de fotografias, mapas, anotaes, 
um ou outro carto de visitas, antigas tabelas de horrios da parquia, duplicatas de chaves e outras quinquilharias presas na cortia.
        - Lembro-me desta parede. - Claire sorriu, tocando a foto da escola primria local. - Seu pai alguma vez tirou alguma coisa daqui?
        Roger sacudiu a cabea, intrigado.
        - No, acredito que no. Ele sempre dizia que jamais conseguiria encontrar nada guardado em gavetas; se era alguma Coisa importante, ele a queria bem  vista.
        - Ento,  provvel que ainda esteja aqui. Ele o considerava importante. Erguendo a mo, ela comeou a folhear levemente as camadas superpostas, separando 
delicadamente os papis amarelados.
        - Este aqui, eu creio - murmurou, aps remexer acima e abaixo. Estendendo o brao mais alto e por baixo do entulho de anotaes de sermes e notas do posto 
de gasolina, ela destacou uma nica folha de papel e colocou-a sobre a escrivaninha.
        - Ora,  minha rvore genealgica - Roger disse, surpreso. - No vejo este velho documento h anos. Tambm nunca prestei nenhuma ateno a ele quando o examinei 
- acrescentou. - Se vai me dizer que sou adotado, j sei disso.
        Claire balanou a cabea, absorta no grfico.
        - Ah, sim.  por isso que seu pai, o sr. Wakefield, quero dizer, desenhou este mapa. Ele queria ter certeza de que voc conheceria sua verdadeira famlia, 
embora ele tenha lhe dado seu prprio nome.
        Roger suspirou, pensando no reverendo, e na pequena fotografia na moldura de prata sobre sua escrivaninha, com a sorridente semelhana de um jovem desconhecido, 
de cabelos escuros e uniforme da RAF na Segunda Guerra Mundial.
        - Sim, sei disso tambm. O nome de minha famlia era MacKenzie. Vai me dizer que estou ligado a alguns dos MacKenzie que voc... h, conheceu? No vejo nenhum 
daqueles nomes no mapa.
        Claire agiu como se no o tivesse ouvido, correndo o dedo pelas linhas interligadas, desenhadas  mo, da genealogia.
        - O sr. Wakefield era obcecado por preciso - ela murmurou, como se falasse consigo mesma. - No iria tolerar nenhum erro. - Seu dedo parou em um ponto do 
documento.
        - Aqui est - ela disse. - Foi aqui que aconteceu. Abaixo deste ponto - seu dedo varreu a pgina para baixo - tudo est correto. Esses eram seus pais e seus 
avs, e seus bisavs e assim por diante. Mas no acima. - O dedo moveu-se para cima.
        Roger inclinou-se sobre o mapa, depois ergueu os olhos verde-musgo, pensativo.
        - Este aqui? William Buccleigh MacKenzie, nascido em 1744, de William John MacKenzie e Sarah Innes. Morto em 1782.
        Claire sacudiu a cabea.
        - Morreu em 1744, com dois meses de idade, vtima de varola. - Ela levantou a cabea e os olhos dourados encontraram-se com os dele com uma fora que fez 
um calafrio percorrer sua espinha. - Voc no foi a primeira adoo na famlia, sabe? - ela disse. Seu dedo bateu de leve na inscrio. - Ele precisou de uma ama-de-leite 
- ela continuou. - Sua prpria me estava morta, ento ele foi doado a uma famlia que perdera um beb. Deram-lhe o nome da criana que haviam perdido, isso era 
comum, e suponho que ningum queria chamar ateno para sua verdadeira origem registrando a nova criana nos livros da parquia. Afinal, ele teria sido batizado 
ao nascer; no era necessrio faz-lo de novo. Colum disse-me onde o haviam colocado.
        - Filho de Geillis Duncan - ele disse devagar. - Filho da bruxa.
        - Isso mesmo. - Olhou-o de forma avaliadora, a cabea inclinada para o lado. - Achei que devia ser, quando o vi. Os olhos, sabe. So os olhos dela.
        Roger sentou-se, sentindo-se repentinamente enregelado, apesar da estante estar bloqueando a corrente de ar e o fogo da lareira ter sido reativado h pouco 
tempo.
        - Tem certeza disso? - ele disse, mas obviamente ela tinha certeza. Presumindo-se que toda a histria no fosse uma inveno, a construo elaborada de uma 
mente doentia. Ele ergueu os olhos para ela, tranqilamente sentada com seu usque, serena como se estivesse prestes a solicitar uns salgadinhos.
        Mente doentia? A dra. Claire Beauchamp-Randall, mdica-chefe da equipe de um hospital grande e importante? Insanidade avassaladora, delrios desenfreados? 
Era mais fcil acreditar que ele estivesse louco. Na realidade, estava comeando justo a acreditar nessa possibilidade.
        Ele expirou fundo e colocou as duas mos espalmadas sobre o grfico, ocultando a inscrio de William Buccleigh MacKenzie.
        - Bem,  muito interessante e creio que estou feliz por ter me contado. Mas isso na verdade no muda nada, no ? Exceto que eu suponho que possa arrancar 
a parte de cima desta rvore genealgica e jog-la fora. Afinal, no sabemos de onde Geillis Duncan surgiu, nem o homem que gerou o seu filho; voc parece ter certeza 
de que no foi o pobre e velho Arthur.
        - Ah, no, no foi Arthur Duncan. Foi Dougal MacKenzie quem gerou o filho de Geilie. Essa foi a razo real de ter sido morta. No foi por bruxaria. Mas Colum 
MacKenzie no podia permitir que se soubesse que seu irmo tivera um caso extraconjugal com a mulher do fiscal. O que ela queria era se casar com Dougal; creio que 
talvez ela tenha ameaado os MacKenzie com a verdade a respeito de Hamish.
        - Hamish? Ah, o filho de Colum. Sim, lembro-me. - Roger esfregou a testa. Sua cabea estava comeando a girar.
        - No era filho de Colum - Claire corrigiu-o. - Era filho de Dougal. Colum no podia ter filhos, mas Dougal podia... e o fez. Hamish era o herdeiro do comando 
do cl MacKenzie; Colum teria matado qualquer um que ameaasse Hamish... e o fez.
        Ela respirou fundo.
        - E isso - disse - nos leva  segunda razo pela qual eu lhe contei essa histria.
        Roger enfiou as duas mos nos cabelos, os olhos fixos na mesa, onde as linhas do mapa genealgico pareciam contorcer-se como cobras, zombando dele, as lnguas 
bifurcadas agitando-se entre os nomes.
        - Geillis Duncan - ele disse com voz rouca. - Ela possua uma cicatriz de vacina.
        - Sim. Foi isso, finalmente, que me fez voltar  Esccia. Quando parti daqui com Frank, jurei que jamais voltaria. Eu sabia que nunca poderia esquecer, mas 
eu poderia enterrar o que sabia; podia me manter distante e nunca procurar saber o que aconteceu depois que parti. Parecia o mnimo que eu poderia fazer, por ambos, 
por Frank e Jamie. E pela criana que eu estava esperando. - Seus lbios cerraram-se com fora por um instante.
        - Mas Geilie salvou minha vida, no julgamento em Cranesmuir. Talvez ela estivesse condenada de qualquer forma; creio que ela acreditava nisso. Mas ela jogou 
fora qualquer chance que pudesse ter tido, a fim de me salvar. E deixou-me uma mensagem. Dougal a deu para mim, numa caverna nas Highlands, quando me levou a notcia 
de que Jamie estava na priso. Havia duas partes na mensagem. Uma frase: "Acho que  possvel, mas no sei ao certo", e uma seqncia de quatro nmeros: um, nove, 
seis, oito.
        - Mil novecentos e sessenta e oito - Roger disse, com a sensao de que tudo aquilo era um sonho. Certamente, logo iria acordar. - Este ano. O que ela quis 
dizer com acreditar que era possvel?
        - Voltar. Atravs das pedras. Ela no tentara, mas achou que eu poderia. E tinha razo,  claro. - Claire virou-se e pegou seu usque da mesa. Olhou fixamente 
para Roger por cima do aro de seus culos, os olhos da mesma cor do contedo do copo. - Estamos em 1968; o ano em que ela voltou no tempo. Exceto que eu acho que 
ela ainda no voltou.
        O copo escorregou da mo de Roger e ele quase no conseguiu agarr-lo a tempo.
        - O qu... aqui? Mas ela... por que no... voc no pode saber... - Ele balbuciava de forma incoerente, os pensamentos embaralhados.
        - Eu no sei - Claire ressaltou. - Mas eu creio que sim. Tenho quase certeza de que ela era escocesa e as possibilidades so grandes de que ela tenha sado 
das Highlands. Considerando-se que h uma grande quantidade de crculos de pedra, ns sabemos que Craigh na Dun  uma passagem, para os que podem us-la. Alm do 
mais - acrescentou, com ar de quem apresenta o argumento definitivo -, Fiona a viu.
        - Fiona? - Isso, Roger sentiu, era simplesmente demais. O maior dos absurdos. Em qualquer outra coisa, ele conseguiria acreditar: viagens no tempo, traio 
de cls, revelaes histricas, mas trazer Fiona para dentro dessa histria era mais do que sua razo podia agentar. Olhou para Claire com ar de splica. - Diga-me 
que voc no quis dizer isso - implorou. -No Fiona.
        A boca de Claire contorceu-se em um dos cantos.
        - Receio que sim - ela disse, no sem compaixo. - Eu lhe perguntei... sobre o grupo druida ao qual sua av pertencia. Ela jurou segredo,  claro, mas eu 
j sabia muito sobre ele e... - Encolheu os ombros, como se pedisse desculpas. - No foi muito difcil faz-la falar. Ela me disse que havia outra mulher fazendo 
perguntas... uma mulher alta, loura, com impressionantes olhos verdes. Fiona disse que a mulher a fazia se lembrar de algum - acrescentou delicadamente, evitando 
com todo o cuidado olhar para ele -, mas ela no sabia quem.
        Roger apenas grunhiu e, curvando-se na cintura, deixou-se cair lentamente para frente at sua testa encostar-se na mesa. Fechou os olhos, sentindo a rigidez 
fria da madeira sob sua cabea.
        - Fiona sabe quem  ela? - ele perguntou, os olhos ainda fechados.
        - Seu nome  Gillian Edgars - Claire respondeu. Ele ouviu-a levantar-se, atravessar o aposento e acrescentar nova dose de usque ao seu copo. Ela voltou 
e parou junto  mesa. Podia sentir seu olhar em sua nuca.
        - Deixo a voc a deciso - Claire disse serenamente. -  seu direito decidir. Devo procur-la?
        Roger ergueu a cabea da mesa e olhou para ela, incrdulo, piscando.
        - Se voc deve procur-la? - ele disse. - Se isso... se tudo isso for verdade... ento, temos que ach-la, no? Se ela vai voltar no tempo para ser queimada 
viva?  claro que precisa ach-la! - exclamou. - Como voc poderia considerar qualquer outra possibilidade?
        - E se eu realmente encontr-la? - ela observou. Colocou a mo delgada sobre o grfico sujo e ergueu os olhos para ele. - O que acontece com voc? - perguntou 
brandamente.
        Ele olhou ao redor, desamparado, para o gabinete abarrotado, iluminado, com a parede de miscelneas, o velho bule de ch lascado sobre a antiga mesa de carvalho. 
Slida como... Agarrou as coxas, fechando as mos sobre o veludo cotel spero como se buscasse se assegurar de que ele era to slido quanto a cadeira onde estava 
sentado.
        - Mas... eu sou real! - irrompeu. - Eu no posso simplesmente... evaporar!
        Claire ergueu as sobrancelhas, considerando suas palavras.
        - No sei se voc evaporaria. No fao a menor idia do que poderia acontecer. Talvez voc nunca viesse a existir? E nesse caso, no precisasse estar to 
agitado agora. Talvez a parte de voc que o torna nico, sua alma ou como quer que queira denomin-la... talvez esteja fadado a acontecer de qualquer modo e voc 
ainda seria voc mesmo, embora nascido de uma linhagem ligeiramente diferente. Afinal, quanto de sua aparncia fsica pode ser atribudo a ancestrais de seis geraes 
atrs? Metade? Dez por cento? - Deu de ombros e contraiu os lbios, examinando-o cuidadosamente.
        - Seus olhos descendem de Geilie, como eu lhe disse. Mas eu vejo Dougal em voc, tambm. Nenhum trao em particular, embora tenha as mas do rosto dos MacKenzie; 
Bri as tem, tambm. No,  algo mais sutil, algo na maneira como voc caminha; uma graciosidade, uma imprevisibilidade... no... - Ela sacudiu a cabea. - No consigo 
descrever. Mas est a.  algo que voc precisa, ser quem voc ? Poderia passar sem essa parcela de Dougal?
        Ela levantou-se pesadamente, demonstrando sua idade pela primeira vez desde que a conhecera.
        - Passei mais de vinte anos buscando respostas, Roger, e s posso lhe dizer uma coisa: no h respostas, apenas escolhas. Eu mesma fiz muitas e ningum pode 
me dizer se foram certas ou erradas. Mestre Raymond, talvez, embora no creia que o fizesse; era um homem que acreditava em mistrios.
        "S consigo ver a opo certa at o ponto de saber que devia contar-lhe... e deixar a escolha para voc."
        Ele pegou o copo e esvaziou-o.
        O Ano de Nosso Senhor de 1968. O ano em que Geillis Duncan entrou no crculo de pedras sagrado. O ano em que ela foi ao encontro de seu destino sob as sorveiras 
nas colinas prximas a Leoch. Um filho ilegtimo... e a morte na fogueira.
        Ele ergueu-se e caminhou de um lado para o outro, ao longo das fileiras de livros que recobriam as paredes do gabinete. Livros cheios de histria, esse assunto 
mutvel e escarnecedor.
        Nenhuma resposta, apenas escolhas.
        Inquieto, Roger correu a mo pelos livros na prateleira mais alta. Compreendiam a histria do movimento jacobita, a histria das rebelies, de 1715 e de 
1745. Claire conhecera muitos dos homens e mulheres descritos nesses livros. Lutara e sofrera com eles, para salvar um povo que lhe era estranho. No processo, perdera 
tudo que lhe era caro. E, no final, fracassara. Mas a escolha fora dela, e agora era dele.
        Haveria uma chance de tudo isso no passar de um sonho, um delrio de alguma espcie? Olhou furtivamente para Claire. Ela estava recostada em sua poltrona, 
os olhos fechados, imvel, a no ser pela pulsao de seus batimentos cardacos, quase invisveis na base de sua garganta. No. Ele podia, por um instante, convencer-se 
de que tudo era um faz-de-conta, mas somente enquanto no olhasse para ela. Por mais que quisesse acreditar no contrrio, no podia olhar para ela e duvidar sequer 
de uma palavra do que ela dissera.
        Espalmou as mos sobre a mesa, depois virou as palmas para cima, observando o labirinto de linhas que as cruzavam. Seria apenas seu prprio destino que jazia 
ali em suas mos ou conteriam o destino de uma desconhecida tambm?
        Nenhuma resposta. Fechou as mos devagar, como se prendesse algo pequeno dentro dos punhos cerrados, e fez sua escolha.
        - Vamos procur-la - ele disse.
        No se ouviu nenhum rudo da figura silenciosa na poltrona bergre e nenhum movimento, a no ser o subir e descer de seu peito arredondado. Claire dormia.
        
        
        
48 - CAA  BRUXA
        
        A velha campainha soou em algum lugar nas profundezas do apartamento. No era a melhor parte da cidade, mas tambm no era a pior. Em sua maioria, eram casas 
de classe operria, algumas, como esta, divididas em dois ou trs apartamentos. Uma nota escrita  mo sob a campainha dizia MCHENRY - TOQUE DUAS VEZES. Roger cuidadosamente 
tocou a campainha de novo, depois limpou as mos nas calas. Suas palmas estavam suadas, o que o aborrecia consideravelmente.
        Havia um vaso comprido de narcisos amarelos junto ao degrau da porta, quase mortos por falta de gua. As pontas das folhas em forma de lminas estavam ressequidas 
e crispadas, e os brotos amarelos e enrolados inclinavam-se desoladamente junto aos seus sapatos.
        Claire os viu tambm.
        - Talvez no haja ningum em casa - ela disse, parando para tocar o solo seco do vaso. - Essa planta no  aguada h mais de uma semana.
        Roger sentiu uma leve onda de alvio com o pensamento; quer ele acreditasse que Geillis Duncan era Gillian Edgars ou no, no estava ansioso por esta visita. 
J se virava para ir embora quando a porta abriu-se repentinamente atrs dele, como um rangido de madeira empenada que fez seu corao subir  boca.
        - Sim? - O homem que atendeu estreitou os olhos para eles, olhos inchados num rosto vermelho e congestionado, escurecido pela barba por fazer.
        - H... desculpe incomod-lo, senhor - Roger disse, esforando-se para se acalmar. Sentia um vazio na boca do estmago. - Procuramos a srta. Gillian Edgars. 
Esta  a residncia dela?
        O homem esfregou a mo curta e rude, recoberta de plos pretos, pela cabea, fazendo os cabelos eriarem-se como espinhos beligerantes.
        -  senhora Edgars, rapaz. E o que voc quer com minha mulher? - Os vapores etlicos do hlito do sujeito fizeram Roger desejar dar um passo para trs, mas 
permaneceu onde estava.
        - S queremos falar com ela - ele disse, da maneira mais conciliadora possvel. - Ela est em casa, por favor?
        - Ela est em casa, por favor? - disse o homem que devia ser o sr. Edgars, contraindo a boca numa imitao estridente e grosseira do sotaque de Oxford de 
Roger. - No, ela no est em casa. Cai fora - avisou, batendo a porta com tal fora que deixou a cortina de renda tremendo com a vibrao.
        - Entendo por que ela no est em casa - Claire observou, erguendo-se na ponta dos ps para espreitar pela janela. - Eu tambm no estaria, se fosse isso 
o que me esperava.
        - Sem dvida - disse Roger sucintamente. - Tem outras sugestes para encontrar esta mulher?
        Claire afastou-se do peitoril da janela.
        - Ele est instalado em frente  televiso - ela relatou. - Vamos deix-lo, ao menos at depois que o pub abrir. Enquanto isso, podemos ir a este instituto. 
Fiona disse que Gillian Edgars fazia cursos l.
        O Instituto de Estudos do Folclore e de Antigidades das Highlands ficava no andar superior de uma casa estreita logo depois da zona comercial. A recepcionista, 
uma mulher baixa e gorda, com um casaquinho marrom e um vestido estampado, pareceu encantada em conhec-los; ela no deve receber muita gente aqui em cima, Roger 
refletiu.
        - Ah, sra. Edgars - ela disse, depois de ouvi-los. Roger achou que um repentino tom de dvida havia se insinuado na voz da sra. Andrews, mas ela continuou 
alegre e comunicativa. - Sim - disse -, ela  freqentadora assdua do instituto, tudo pago por suas aulas. Ela vem aqui freqentemente, a sra. Edgars. - Muito mais 
do que a sra. Andrews realmente desejaria, pelo tom de sua voz.
        - Ela no estaria aqui agora, por acaso, estaria? - Claire perguntou.
        A sra. Andrews sacudiu a cabea, fazendo as dezenas de cachinhos danarem em sua cabea.
        - Ah, no - respondeu. - Hoje  segunda-feira. Somente eu e o dr. McEwan estamos aqui s segundas-feiras. Ele  o diretor, sabe. - Olhou para Roger com ar 
de reprovao, como se ele na verdade j devesse saber disso. Em seguida, aparentemente tranqilizada pela evidente respeitabilidade dos dois visitantes, relaxou 
um pouco.
        - Se querem perguntar pela sra. Edgars, deveriam falar com o dr. McEwan. Vou dizer a ele que esto aqui, est bem?
        Quando comeou a tentar sair de trs de sua mesa, Claire a interrompeu, inclinando-se para a frente.
        - Por acaso voc teria uma fotografia da sra. Edgars? - perguntou direto. Diante do olhar de surpresa da sra. Andrews, Claire sorriu sedutoramente, explicando: 
- No vamos querer desperdiar o tempo do diretor, se no for a pessoa que estamos procurando, no  mesmo?
        A boca da sra. Andrews abriu-se ligeiramente e ela piscou, confusa, mas balanou a cabea aps um instante e comeou a remexer pela escrivaninha, abrindo 
gavetas e falando consigo mesma.
        - Sei que esto aqui em algum lugar. Eu as vi ontem mesmo, portanto no podem ter ido... ah, pronto! - Sacudindo os cachos, brandiu uma pasta retangular 
de fotografias em branco e preto, selecionando-as rapidamente.
        - Aqui est - ela disse. - Esta  ela, em uma das expedies de escavao, fora da cidade, mas no d para ver seu rosto, no ? Deixe-me ver se h alguma 
outra...
        Retomou sua busca, murmurando consigo mesma, enquanto Roger espreitava com curiosidade por cima do ombro de Claire para a fotografia que a sra. Andrews colocara 
sobre a escrivaninha. Mostrava um pequeno grupo de pessoas de p junto a um Land Rover, com um monte de sacos de juta e pequenas ferramentas no cho junto a eles. 
Era uma foto instantnea e vrias das pessoas do grupo no estavam de frente para a cmera. Claire estendeu o dedo sem hesitao, tocando a imagem de uma jovem alta, 
de cabelos louros, lisos e longos, at o meio das costas. Bateu de leve na fotografia e balanou a cabea silenciosamente para Roger.
        - Voc no pode ter certeza - ele murmurou para ela quase inaudivel-mente.
        - O que foi, meu bem? - disse a sra. Andrews, olhando distraidamente por cima dos culos. - Ah, no estavam falando comigo. Tudo bem, ento, achei outra 
um pouco melhor. Ainda no mostra seu rosto inteiro, parece que ela se virou de lado, mas  melhor do que a anterior. - Ela deixou a nova fotografia cair abruptamente 
sobre a outra com um estalido triunfante.
        Essa mostrava um homem mais velho com culos de leitura e a mesma jovem de cabelos louros, inclinada sobre uma mesa, segurando o que, para Roger, parecia 
ser uma coleo de partes enferrujadas de um motor, mas que sem dvida eram artefatos valiosos. Os cabelos da jovem caam ao lado de seu rosto, que estava virado 
para o homem mais velho, mas a linha de um nariz reto e curto, um queixo adoravelmente redondo e a curva de uma bela boca apareciam com clareza. O olho visvel na 
foto estava voltado para baixo, escondido sob pestanas longas e espessas. Roger reprimiu o assovio de admirao que se ergueu de modo espontneo aos seus lbios. 
Ancestral ou no, ela era uma verdadeira beldade, ele pensou irreverentemente.
        Ele olhou para Claire. Ela balanou a cabea, sem falar. Estava ainda mais plida do que o habitual e ele podia ver sua pulsao rpida na garganta, mas 
ela agradeceu  sra. Andrews com sua costumeira serenidade.
        - Sim,  ela. Creio que, ento, ns realmente gostaramos de conversar com o diretor, se ele estiver disponvel.
        A sra. Andrews lanou um olhar rpido para a porta de painis brancos atrs da escrivaninha.
        - Bem, vou perguntar a ele, querida. Mas eu poderia lhe dizer do que se trata?
        Roger j comeara a abrir a boca, em busca de uma desculpa, quando Claire inseriu-se habilmente na brecha.
        - Na verdade, somos de Oxford - ela disse. - A sra. Edgars fez um pedido de bolsa de estudos ao Departamento de Antigidades e deu o instituto como referncia 
com o resto de suas credenciais. Portanto, se no se importar...
        - Ah, compreendo - disse a sra. Andrews, impressionada. - Oxford. Imagine! Vou pedir ao dr. McEwan para atend-los agora mesmo.
        Quando ela desapareceu atrs da porta de painis brancos, parando apenas para uma leve batida antes de entrar, Roger inclinou-se para sussurrar no ouvido 
de Claire.
        - No existe um Departamento de Antigidades em Oxford - ele sibi-lou -, e voc sabe disso.
        - Voc sabe disso - ela retrucou com ar srio - e eu tambm, como to sabiamente destacou. Mas h muita gente no mundo que no sabe e ns acabamos de encontrar 
uma delas.
        A porta de painis brancos comeou a se abrir.
        .- Esperemos que eles no conheam nada fora daqui - Roger disse, enxugando a testa - ou que voc saiba mentir rpido.
        Claire levantou-se, sorrindo para a figura da sra. Andrews que os chamava, enquanto falava pelo canto da boca.
        - Eu? Eu, que li almas para o rei da Frana? - Alisou a saia e a fez rodopiar. - Vai ser moleza.
        Roger inclinou-se ironicamente, gesticulando em direo  porta.
        - Aprs vous, madame.
        Quando ela deu um passo  sua frente, ele acrescentou, num sussurro:
        - Aprs vous, le dluge.
        Os ombros de Claire se empertigaram, mas ela seguiu em frente sem se voltar para trs.
        Para uma certa surpresa de Roger, foi realmente fcil. No sabia ao certo se fora a habilidade de Claire em representar ou a preocupao do prprio dr. McEwan, 
mas a boa-f de ambos no foi questionada. No pareceu ocorrer ao diretor de que fosse altamente improvvel que grupos de inspetores de Oxford se aventurassem pelas 
reas incultas de Inverness para fazer indagaes sobre a formao de uma possvel estudante de ps-graduao. Entretanto, por outro lado, Roger pensou, o dr. McEwan 
parecia ter algo na sua mente; talvez ele no estivesse pensando com tanta clareza como de costume.
        - Beeeem... sim, a sra. Edgars sem dvida  muito inteligente. Muito inteligente - disse o diretor, como se procurasse se convencer. Era um homem alto, magro, 
com o lbio superior longo como o de um camelo, que se balanava conforme ele procurava hesitantemente pela prxima palavra. - Vocs... ela... quer dizer... - Sua 
voz definhou, o lbio superior contorcendo-se, depois perguntou finalmente: - Vocs j se encontraram com a sra. Edgars?
        - No - Roger disse, examinando o dr. McEwan com certa austeridade. -  por isso que estamos fazendo perguntas sobre ela.
        - Existe alguma coisa... - Claire parou delicadamente, instigando o diretor a falar - que ache que talvez o comit devesse saber, dr. McEwan? - Ela inclinou-se 
para frente, arregalando os olhos. - O senhor sabe, investigaes como esta so absolutamente confidenciais. Mas  muito importante que sejamos completamente informados; 
h uma posio de confiana envolvida. - Abaixou a voz sugestivamente. - O ministrio, sabe.
        Roger teria adorado estrangul-la, mas o dr. McEwan balanava a cabea sabiamente, o lbio balanando sem parar.
        - Ah, sem dvida, minha cara senhora. Sim,  claro. O ministrio. Compreendo perfeitamente. Sim, sim. Bem, eu... hum, talvez... no quero de forma alguma 
lhes dar uma impresso errada. E  uma oportunidade maravilhosa, sem dvida...
        Agora Roger queria estrangular os dois. Claire deve ter notado suas mos contorcendo-se no colo com um desejo irresistvel, porque colocou um fim com firmeza 
nos resmungos do diretor.
        - Estamos basicamente interessados em duas coisas - ela disse rpido, abrindo o caderno de notas que carregava e posicionando-o sobre o joelho como se fosse 
us-lo para referncia. Comprar garrafa de xerez para a sra. T., Roger leu pelo canto do olho. Presunto fatiado para piquenique.
        - Queremos saber, primeiro, sua opinio sobre o grau de conhecimentos da sra. Edgars e, segundo, sua opinio sobre sua personalidade de um modo geral. O 
primeiro,  claro, ns mesmos avaliamos - ela fez uma pequena marca em V no caderno de notas, ao lado de uma anotao que dizia Trocar cheques de viagem -, mas o 
senhor possui uma noo muito maior e mais detalhada, sem dvida. - A essa altura, o dr. McEwan balanava a cabea sem parar, hipnotizado.
        - Sim, bem... - Ele arfou um pouco, ento, com um rpido olhar em direo  porta para certificar-se de que estava fechada, e inclinou-se con-fidencialmente 
por cima da mesa. - A qualidade de seu trabalho... bem, sobre isso acho que posso satisfaz-los completamente. Vou lhes mostrar algumas coisas nas quais ela vem 
trabalhando. A outra... - Roger achou que ele estava prestes a ter que aturar outra rodada de tremores labiais e inclinou-se para frente com ar ameaador.
        O dr. McEwan reclinou-se para trs bruscamente, parecendo surpreso.
        - No  nada de mais, na verdade - disse. -  apenas que... bem, ela  uma jovem muito emotiva. Talvez seu interesse parea s vezes um pouco... obsessivo? 
- Sua voz ergueu-se num tom de pergunta. Seus olhos lanaram-se de Roger a Claire, como um rato preso numa armadilha.
        - A direo desse intenso interesse estaria por acaso focalizada em monumentos monolticos? Em crculos de pedras? - Claire sugeriu educadamente.
        - Ah, ento isso ficou claro em seu pedido de bolsa? - O diretor puxou um leno grande e encardido do bolso e enxugou o rosto com ele. - Sim, isso mesmo. 
Claro, muita gente se deixa impressionar por eles - observou. - As histrias sobre eles, o mistrio. Vejam essas almas ignorantes em Stonehenge no solstcio de vero, 
envoltas em mantos e capuzes. Entoando cnticos... toda essa bobagem. No que eu fosse comparar Gillian Edgars a...
        Ele ainda continuou falando por um longo tempo, mas Roger parou de ouvir. Parecia abafado no escritrio acanhado e seu colarinho estava apertado demais; 
podia ouvir seu corao batendo, pulsando incessantemente nos dois ouvidos de forma irritante.
        Simplesmente no era possvel!, pensou. Decididamente impossvel.  verdade, a histria de Claire Randall era convincente - terrivelmente convincente. Mas, 
por outro lado, veja o efeito que ela est causando neste pobre velho, que no saberia o que  erudio acadmica ainda que lhe fosse servida numa bandeja com pepinos 
em conserva. Ela sem dvida era capaz de convencer o mais ctico dos mortais. No que ele, Roger, fosse to suscetvel quanto o dr. McEwan,  claro, mas...
        Transtornado pela dvida e pingando de suor, Roger prestou pouca ateno quando o dr. McEwan pegou um molhe de chaves de sua gaveta e levantou-se para conduzi-los 
por uma segunda porta at um longo corredor salpicado de portas.
        - Saletas de estudo - o diretor explicou. Ele abriu uma das portas, revelando um cubculo de aproximadamente um metro e vinte de lado, mal comportando uma 
mesa estreita, uma cadeira e uma pequena estante. Sobre a mesa, perfeitamente empilhadas, via-se uma srie de pastas de arquivo em cores diferentes. Ao lado, Roger 
viu um grande caderno de notas com capa cinza e uma etiqueta cuidadosamente escrita  mo na frente - MISCELNEA. Por alguma razo, a viso da caligrafia fez um 
calafrio percorrer sua espinha.
        Aquilo estava ficando cada vez mais pessoal a cada instante. Primeiro, fotografias, agora as anotaes da mulher. Foi assaltado por um momento de pnico 
 idia de realmente se encontrar com Geillis Duncan. Quer dizer, Gillian Edgars. Quem quer que ela fosse.
        O diretor abria vrias pastas, apontando e explicando a Claire, que convincentemente fazia crer que tivesse alguma noo do que ele estava falando. Roger 
espreitou por cima de seu ombro, balanando a cabea e dizendo: "Hum-hum, muito interessante", a intervalos, mas as linhas inclinadas e volteios do manuscrito eram-lhe 
incompreensveis.
        Ela escreveu isso, ele no parava de pensar. Ela  real. Carne e osso e lbios e longos clios. E se ela voltar no tempo atravs da pedra, morrer queimada 
- esturricada e enegrecida, com os cabelos acesos como uma tocha na obs-curidade da aurora. E se no voltar, ento... eu no existo.
        Sacudiu a cabea violentamente.
        - Discorda, sr. Wakefield? - O diretor do instituto olhava-o perplexo. Ele sacudiu a cabea outra vez, desta vez de constrangimento.
        - No, no. Quero dizer...  apenas que... seria possvel me dar um copo de gua?
        - Claro, claro! Acompanhe-me, h um bebedouro logo ao virar o corredor, eu lhe mostrarei. - O dr. McEwan empurrou-o para fora da saleta e ao longo do corredor, 
expressando sua preocupao loquaz, desarticulada, com o seu estado de sade.
        Uma vez fora do confinamento claustrofbico da saleta e da proximidade dos livros e pastas de Gillian Edgars, Roger comeou a se sentir ligeiramente melhor. 
Ainda assim, a idia de voltar para aquele minsculo compartimento, onde todas as palavras de Claire sobre seu passado pareciam ecoar das finas paredes... no. Tomou 
uma deciso. Claire podia terminar com o dr. McEwan sozinha. Ele passou depressa pela saleta, sem olhar para dentro, e atravessou a porta que levava de volta  sala 
de recepo.
        A sra. Andrews olhou-o espantada quando ele entrou, os culos brilhando de preocupao e curiosidade.
        - Nossa, sr. Wakefield. No est se sentindo bem? - Roger esfregou a mo no rosto; devia estar com uma pssima aparncia. Sorriu debilmente
        - No, muito obrigado. S estava meio abafado l atrs. Achei melhor descer para tomar um pouco de ar fresco.
        - Ah, sim. - A secretria balanou a cabea compreensivamente. - Os radiadores. Eles emperram, sabe, e no desligam.  melhor eu verificar. -Levantou-se 
de sua escrivaninha, onde a fotografia de Gillian Edgars ainda podia ser vista. Olhou para a foto, depois ergueu o olhar para Roger.
        - No  estranho? - disse em tom de conversa. - Eu estava olhando esta fotografia e imaginando o que havia no rosto da sra. Edgars que me chamou a ateno 
de repente. E no conseguia atinar com o que era. Mas ela tem os seus traos, sr. Wakefield, especialmente em torno dos olhos. No  uma coincidncia? Sr. Wakefield? 
- A sra. Andrews olhou espantada na direo da escada, onde o barulho dos passos de Roger ecoavam dos degraus de madeira.
        - Apertado para ir ao banheiro, eu acho - ela disse amavelmente. -Pobre rapaz.
        O sol ainda estava acima do horizonte quando Claire reuniu-se a Roger novamente na rua, mas a tarde terminava; as pessoas voltavam para casa para o seu ch 
e havia uma sensao de relaxamento geral no ar - uma expectativa de paz e descanso aps um longo dia de trabalho.
        Roger, entretanto, no compartilhava tais sentimentos. Adiantou-se para abrir a porta do carro para Claire, consciente de tal mistura de emoes que ele 
no conseguia decidir o que dizer primeiro. Ela entrou, erguendo os olhos para ele compreensivamente.
        - Um choque e tanto, hein? - foi tudo que ela disse.
        O labirinto diablico de novas ruas de mo nica tornava a travessia do centro da cidade uma tarefa que demandava toda a sua ateno. J estavam bem adiantados 
em seu trajeto at ele finalmente poder tirar os olhos da estrada o suficiente para perguntar:
        - E agora?
        Claire estava recostada no banco, os olhos fechados, os anis dos cabelos desprendendo-se de sua travessa. Ela no abriu os olhos diante da pergunta, mas 
espreguiou-se ligeiramente, ajeitando-se no banco.
        - Por que no convida Brianna para ir jantar em algum lugar? - ela disse. Jantar? De certa forma, parecia-lhe errado parar para jantar em meio a um esforo 
de investigao de vida ou morte, mas por outro lado; Roger percebeu de repente que a sensao de vazio em seu estmago no se devia inteiramente s revelaes da 
ltima hora.
        - Certo, est bem - ele disse devagar. - Mas amanh...
        - Por que esperar at amanh? - Claire interrompeu-o. Estava sentada ereta agora, penteando os cabelos. Eram cheios e rebeldes, e assim, cados em cachos 
sobre seus ombros, faziam-na parecer por um momento muito jovem, Roger pensou. - Voc pode ir falar com Greg Edgars depois do jantar, no ?
        - Como sabe que o nome dele  Greg? - Roger perguntou, curioso.
        - E se ele no quis falar comigo esta tarde, por que o faria  noite?
        Claire olhou para Roger como se de repente duvidasse de sua inteligncia.
        - Sei o nome dele porque vi numa carta na caixa de correio - ela disse.
        - Quanto a por que ele falaria com voc esta noite, ele falar porque voc vai levar-lhe uma garrafa de usque quando for l desta vez.
        - E voc acha que isso o far nos convidar para entrar? Ela ergueu uma das sobrancelhas.
        - Voc viu a coleo de garrafas vazias na lata de lixo dele? Claro que convidar. Na mesma hora. - Recostou-se novamente, as mos enfiadas nos bolsos do 
casaco e olhando para fora, para a rua que passava.
        - Voc pode ver se Brianna vai querer ir com voc - ela disse descon-traidamente.
        - Ela disse que no quer ter nada a ver com isso - Roger observou. Claire olhou-o com impacincia. O sol desaparecia atrs dela e fazia seus olhos brilharem 
na cor mbar, como os de um lobo.
        - Nesse caso, sugiro que no lhe diga o que tem em mente - ela disse, num tom de voz que fez Roger se lembrar que ela era mdica-chefe da equipe de um grande 
hospital.
        Suas orelhas queimavam, mas teimosamente disse:
        - No ser possvel esconder isso, se voc e eu...
        - Eu, no - Claire interrompeu-o. - Voc. Eu tenho outra coisa a fazer.
        Isso j era demais, Roger pensou. Freou o carro sem sinalizar e deslizou at parar por completo no acostamento. Olhou-a furiosamente.
        - Tem outra coisa para fazer, no ? - perguntou. - Gosto disso! Voc est me incumbindo de tentar seduzir um beberro que provavelmente vai me atacar assim 
que me vir e atrair sua filha comigo para observar! O que ? Acha que vou precisar dela para me levar para o hospital depois que Edgars tiver acabado de me dar uma 
pancada na cabea com uma garrafa?
        - No - Claire disse, ignorando o tom de sua voz. - Acho que voc e Greg Edgars juntos podem ter sucesso onde eu no tive, em convencer Bri que Gillian Edgars 
 a mulher que eu conheci como Geillis Duncan. Ela se recusa a me ouvir.  provvel que no queira ouvi-lo tambm, se tentar contar a ela o que descobrimos no instituto 
hoje. Mas ela ouvir Greg Edgars. - Seu tom de voz era calmo e inflexvel, e Roger sentiu seu aborrecimento declinar ligeiramente. Deu partida no carro de novo e 
voltou ao fluxo do trnsito.
        - Est bem, vou tentar - ele disse de m vontade, sem olhar para ela. -E exatamente onde voc estar enquanto eu fao isso?
        Houve um pequeno barulho arrastado a seu lado enquanto ela remexia no bolso outra vez. Ento, retirou a mo do bolso e abriu-a. Os olhos dele avistaram o 
brilho prateado de um pequeno objeto na escurido da palma de sua mo. Uma chave.
        - Vou arrombar o instituto - ela disse calmamente. - Quero aquele caderno de notas.
        Depois de Claire ter pedido licena para ir cuidar de sua "misso" -fazendo Roger estremecer ligeiramente -, ele e Brianna dirigiram-se ao pub, mas resolveram 
adiar um pouco o jantar, j que a noite estava inesperadamente lmpida. Caminharam pelo estreito passeio junto ao rio Ness, e ele esqueceu seus temores e preocupaes 
a respeito da noite no prazer da companhia de Brianna.
        Conversaram com cautela no comeo, evitando qualquer assunto controverso. Depois, a conversa voltou-se para o trabalho de Roger e gradualmente se tornou 
mais animado.
        - E como voc sabe tanto sobre isso? - Roger perguntou, parando bruscamente no meio de uma frase.
        - Meu pai me ensinou - ela respondeu. Diante da palavra "pai", ela ficou um pouco tensa e recuou, esperando que ele dissesse alguma coisa. -Meu verdadeiro 
pai - ela acrescentou explicitamente.
        - Bem, ele com certeza sabia - Roger observou brandamente, deixando de lado a contestao. Haveria muito tempo para isso mais tarde, minha jovem, pensou 
cinicamente. Mas no serei eu a comprar essa briga.
        Logo abaixo na rua, Roger pde ver uma luz na janela da casa de Edgars. A presa estava na toca, portanto. Sentiu um inesperado fluxo de adrenalina  idia 
do confronto iminente.
        A adrenalina deu lugar a uma onda de sucos gstricos que sobreveio quando entraram na atmosfera agradvel do pub. A conversa girou em torno de assuntos gerais 
e amistosos, com um acordo subentendido de evitar qualquer referncia  cena na residncia paroquial no dia anterior. Roger notara a frieza entre Claire e sua filha, 
antes de deix-la no ponto de txi, a caminho do pub. Sentadas lado a lado no banco de trs, pareciam dois gatos estranhos um ao outro, as orelhas abaixadas e as 
caudas balanando, mas ambos evitando o contato olho a olho, que levaria a garras e plos arrancados
        Aps o jantar, Brianna foi buscar os seus casacos enquanto ele pagava a conta.
        - Para que  isso? - ela perguntou, notando a garrafa de usque na mo de Roger. - Planejando uma festa de arromba mais tarde?
        - Festa de arromba? - ele disse, rindo para ela. - Voc est progredindo mesmo, hein? E o que mais voc aprendeu em seus estudos lingsticos?
        Ela abaixou os olhos numa encenao exagerada de modstia.
        - Ah, bem. H uma dana nos Estados Unidos chamada shag. Mas acredito que no deva pedir a voc para dan-la comigo aqui.
        - No, a menos que essa seja sua inteno - ele disse. Ambos riram, mas ele achou que o rubor de suas faces se intensificara e percebeu em si mesmo uma certa 
excitao  idia de sexo que o nome da dana sugeria. Assim sendo, deixou o casaco pendurado sobre o brao, em vez de vesti-lo.
        - Bem, depois desse negcio a, tudo  possvel - ela disse, indicando a garrafa de usque com um sorriso levemente malicioso. - Mas o gosto  terrvel.
        - Tem que ser adquirido, menina - Roger informou-a, carregando no sotaque. - Somente os escoceses j nascem com o gosto pelo usque. Vou lhe comprar uma 
garrafa para voc praticar. Mas esta aqui  um presente, que eu prometi entregar. Quer vir comigo ou devo ir mais tarde? - ele perguntou. No sabia se queria que 
ela o acompanhasse ou no, mas sentiu uma onda de felicidade quando ela assentiu e encolheu os ombros dentro de seu casaco.
        - Claro, por que no?
        - timo. - Estendeu a mo e ajeitou a gola do casaco de Brianna, que estava dobrada. - Fica logo aqui, mais abaixo nesta mesma rua. Vamos andando, est bem?
        A vizinhana parecia um pouco melhor  noite. Um pouco de sua aparncia suja e desgastada era escondida pela escurido e as luzes que brilhavam das janelas 
nos minsculos jardins conferiam  rua um ar de aconchego que no se via durante o dia.
        - No vai levar mais do que um minuto - Roger disse a Brianna quando tocou a campainha. No tinha certeza se queria estar certo ou no. Seu primeiro temor 
passou quando a porta foi aberta; algum estava em casa, e ainda consciente.
        Edgars havia obviamente passado a tarde na companhia de uma das garrafas alinhadas ao longo da borda do aparador velho e abaulado visvel atrs dele. Por 
sorte, ele no pareceu ligar os visitantes noturnos  intruso da tarde. Estreitou os olhos  apresentao de Roger, criada no caminho para a casa.
        - Primo de Gilly? No sabia que ela tinha um primo.
        - Bem, tem, sim - Roger disse, aproveitando-se ousadamente dessa admisso. - Sou eu. - Lidaria com a prpria Gillian quando a visse. Se a visse.
        Edgars piscou uma ou duas vezes, depois esfregou um olho inflamado com o punho cerrado, como se quisesse v-los melhor. Seus olhos se focalizaram com alguma 
dificuldade em Brianna, pairando timidamente atrs de Roger.
        - Quem  esta? - ele perguntou.
        - H... minha namorada - Roger improvisou. Brianna estreitou os olhos para ele, mas no disse nada. Obviamente ela comeava a suspeitar de que algo no estava 
certo, mas passou  sua frente sem protestar quando Greg Edgars abriu mais a porta para que entrassem.
        O apartamento era pequeno e abafado, entulhado de mveis de segunda mo. O ar fedia a cigarro velho e lixo no removido, e os remanescentes de comida pronta 
espalhavam-se negligentemente por toda a superfcie horizontal da sala. Brianna lanou um olhar enviesado a Roger que dizia Belos parentes voc tem, e ele encolheu 
ligeiramente os ombros. No  culpa minha. A dona da casa obviamente no estava e j h algum tempo.
        Ao menos, no no sentido fsico. Virando-se para pegar a cadeira que Edgars lhe ofereceu, Roger deparou-se com uma grande foto de estdio, com moldura de 
metal, bem no centro do minsculo consolo da lareira. Ele mordeu a lngua para reprimir uma exclamao de espanto.
        A mulher parecia estar olhando da fotografia direto para ele, um leve sorriso mal levantando o canto de sua boca. Asas de cabelos louro-claros caam, cheios 
e lustrosos, pelos seus ombros, emoldurando um rosto em forma perfeita de corao. Os olhos verde-escuros como musgo de inverno brilhavam sob pestanas escuras e 
espessas.
        - Boa semelhana, no? - Greg Edgars olhou para a foto, a expresso uma mistura de nostalgia e hostilidade.
        - H... sim. Exatamente como ela . - Roger sentiu-se um pouco sem ar e virou-se para retirar uma embalagem amassada de peixe com fritas de sua cadeira. 
Brianna fitava o retrato com interesse. Olhou da foto para Roger e de novo para a foto, claramente fazendo comparaes. Primos, hein?
        - Gillian no est aqui, est? - Roger comeou a abanar a mo recusando a garrafa que Edgars inclinara inquisitivamente em sua direo, depois mudou de idia 
e balanou a cabea, aceitando a oferta. Talvez uma bebida compartilhada angariasse a confiana de Edgars. Se Gillian no estava em casa, ele precisava saber onde 
ela estava.
        Ocupado em remover a tampa com os dentes, Edgars sacudiu a cabea, depois delicadamente retirou um pedao de cera e papel do lbio inferior.
        - Quase nunca, companheiro. No h tanta baguna aqui quando ela est em casa. - Um gesto largo abrangeu os cinzeiros abarrotados e os copos de papel cados 
por toda parte. - Um pouco, talvez, mas no tanto assim. - Tirou trs copos da cristaleira, espreitando desconfiadamente o fundo de cada um deles, para verificar 
se estavam empoeirados.
        Serviu o usque com o cuidado exagerado de um verdadeiro bbado, levando os copos um de cada vez para suas visitas. Brianna aceitou o dela com igual cuidado, 
mas recusou uma cadeira, apoiando-se, ao invs disso, graciosamente contra o canto do armrio de louas.
        Edgars afundou-se finalmente em um sof cheio de calombos, ignorando os entulhos, e ergueu o copo.
        - Sade, companheiro - disse rapidamente, tomando um grande e barulhento gole. - Qual  mesmo seu nome? - perguntou, emergindo abruptamente de seu mergulho. 
- Ah, Roger, certo. Gilly nunca mencionou... mas ela no o faria - acrescentou, de mau humor. - Nunca soube nada de sua famlia e ela no contava nada. Acho que 
tinha vergonha de todos eles... mas voc no parece nenhum idiota - ele disse generosamente. - Sua rapariga  uma beldade, pelo menos. - Riu estrondosamente, aspergindo 
gotculas de usque para todo lado.
        - Sim - Roger disse. - Obrigado. - Tomou um pequeno gole de sua bebida. Brianna, ofendida, virou-se de costas para Edgars e fingiu examinar o contedo da 
cristaleira pelas portas de vidro bisotado.
        No fazia nenhum sentido ficar fazendo rodeios, Roger decidiu. A essa altura, Edgars no iria reconhecer nenhuma sutileza ainda que ela mordesse seu traseiro. 
Alm disso, parecia haver o perigo considervel de que ele pudesse perder a conscincia a qualquer momento, pelo andar da carruagem.
        - Sabe onde Gillian est? - ele perguntou direto. Toda vez que pronunciava seu nome, ele soava estranho em sua boca. Desta vez, no pde deixar de lanar 
um olhar para o retrato no consolo da lareira, onde a foto sorria serenamente para a desordem abaixo.
        Edgars sacudiu a cabea, balanando-a lentamente de um lado para o outro sobre o copo, como um boi sobre o cocho de comida. Era um sujeito atarracado e corpulento, 
mais ou menos da idade de Roger, talvez, mas parecendo bem mais velho por causa da barba crescida e dos cabelos negros desgrenhados.
        - No - disse. - Achei que talvez voc pudesse saber. Deve estar no Nacs ou no Rosas, provavelmente, mas no tenho notcia. No saberia dizer em qual dos 
dois, especificamente.
        - Nacs? - O corao de Roger acelerou-se. - Quer dizer, os nacionalistas escoceses?
        As plpebras de Edgars comeavam a cair, mas ele piscou e abriu-as outra vez.
        - Ah, sim. Os malditos Nacs. Foi onde conheci Gilly, sabe? --:.
        - Quando foi isso, sr. Edgars?
        Roger ergueu os olhos, surpreso com a voz macia que vinha de cima. No foi a fotografia que falou, mas Brianna, olhando intensamente para Greg Edgars. Roger 
no sabia se ela estava apenas puxando conversa ou se suspeitava de alguma coisa. Seu rosto no demonstrava nada alm de educado interesse.
        - No sei... h uns dois, trs anos. Foi divertido no comeo, hum? Expulsar os malditos ingleses, unir-se ao Mercado Comum por conta prpria... cerveja no 
pub e um amasso no banco de trs na volta dos comcios. Humm. - Edgars sacudiu a cabea outra vez, os olhos sonhadores com a viso. Em seguida, o sorriso desapareceu 
de seu rosto e ele franziu a testa, olhando para seu copo. - Isso foi antes de ela ficar maluca.
        - Maluca? - Roger lanou outra olhada rpida  foto. Determinada, sim. Parecia ser. Mas no doida varrida, certamente. Ou no seria possvel saber, por uma 
foto?
        - Sim. Sociedade da Rosa Branca. Do prncipe Carlos, meu caro. Se ele no vai voltar outra vez e toda essa besteira. Um monte de idiotas vestidos de kilts 
e perucas, com espadas e tudo o mais. Tudo bem, se voc gosta disso,  claro - acrescentou, com uma tentativa vesga de objetividade. - Mas Gilly sempre levou tudo 
longe demais. Sempre falando no Bonnie Prince e em como seria maravilhoso se ele tivesse vencido a rebelio de 1745. Uns caras na cozinha at altas horas, bebendo 
cerveja e discutindo os motivos por que ele no vencera. Em galico, ainda por cima. - Revirou os olhos. - Um monte de besteira. - Esvaziou seu copo para enfatizar 
essa opinio.
        Roger podia ver os olhos de Brianna penetrando no lado de seu pescoo como verrumas. Puxou a gola da camisa para afroux-la, embora no estivesse usando 
gravata e o boto do colarinho estivesse desabotoado.
        - Por acaso sua mulher tambm se interessava por monumentos de pedras, sr. Edgars? - Brianna j no se importava muito com o interesse educado; sua voz era 
cortante o suficiente para fatiar queijo. O efeito perdeu-se quase por completo em Edgars.
        - Pedras? - Pareceu confuso e enfiou o dedo em um dos ouvidos, girando-o laboriosamente, como se esperasse melhorar sua audio.
        - Os crculos de pedras pr-histricos. Como o Clava Cairns - Roger acrescentou, citando um dos marcos locais mais famosos. Desgraa pouca  bobagem, ele 
pensou com um suspiro mental de resignao. Brianna nunca mais iria querer falar com ele de qualquer forma, de modo que era melhor descobrir logo tudo que pudesse.
        - Ah, esses. - Edgars soltou uma risada curta. - Sim, e toda sorte de bobagens antigas de que voc puder se lembrar. Essa foi a ltima gota, e a pior. Enfiada 
l no instituto dia e noite, gastando todo o meu dinheiro em cursos... cursos!  de fazer rir, no? Contos de fadas  o que ensinam l. No se pode aprender nada 
de til naquele lugar, moa, eu disse isso a ela. Ento, ela foi embora - ele disse com voz arrastada. - No a vejo h duas semanas. - Olhou fixamente dentro de 
seu copo como se estivesse surpreso de encontr-lo vazio.
        - Mais um? - ele ofereceu, levando a mo  garrafa, mas Brianna sacudiu a cabea decididamente.
        - No, obrigada. Temos que ir. No , Roger?
        Vendo o perigoso brilho em seus olhos, Roger no sabia se no seria melhor para ele ficar para dividir o resto da garrafa com Greg Edgars. De qualquer modo, 
era uma longa caminhada at em casa, se ele deixasse Brianna levar o carro. Levantou-se com um suspiro e apertou a mo de Edgars em despedida. Sua mo era quente 
e surpreendentemente firme, ainda que um pouco mida.
        Edgars acompanhou-os at a porta, segurando a garrafa pelo gargalo. Espreitou-os atravs da porta de tela, gritando repentinamente pelo caminho de entrada:
        - Se encontrar a Gilly, diga-lhe para vir pra casa, sim?
        Roger virou-se e acenou para a figura indistinta no retngulo iluminado da porta.
        - Vou tentar - ele gritou de volta, as palavras grudando-se em sua garganta.
        Chegaram  calada e percorreram metade da distncia at o pub antes de Brianna interpel-lo.
        - Que diabos voc est tramando? - Sua voz soou com raiva, mas no histrica. - Voc me disse que no tem famlia nas Highlands, ento que histria  essa 
de primos? Quem  aquela mulher na foto?
        Ele olhou ao redor da rua escura em busca de inspirao, mas no havia ajuda possvel. Respirou fundo e segurou-a pelo brao.
        - Geillis Duncan - ele disse.
        Ela parou completamente imvel e o choque da parada repentina repercutiu pelo seu prprio brao. Com grande deliberao, ela tirou o cotovelo de sua mo. 
O delicado tecido da noite rasgara-se ao meio.
        - No... me... toque - ela disse, entre dentes. - Trata-se de algo que minha me inventou?
        Apesar de sua determinao em ser compreensivo, Roger tambm sentiu a raiva crescer. 
        - Olhe, voc s consegue pensar em si mesma nesta histria? Sei que foi um choque para voc. Santo Deus, como poderia no ser? E se no consegue nem pensar 
no assunto... bem, eu no pretendo for-la. Mas h sua me a considerar. E a mim tambm.
        - Voc? O que voc tem a ver com isso? - Estava escuro demais para ver seu rosto, mas a surpresa em sua voz era evidente.
        Ele no pretendia complicar ainda mais a situao contando-lhe a respeito do seu envolvimento, mas obviamente era tarde demais para guardar segredos. E era 
evidente que Claire percebera isso, quando sugeriu que sasse com Brianna naquela noite.
        Em um lampejo revelador, ele compreendeu pela primeira vez exatamente o que Claire pretendera. Ela de fato tinha uma maneira de provar sua histria a Brianna, 
sem deixar dvidas. Ela contava com Gillian Edgars, que - talvez - ainda no tivesse partido ao encontro de seu destino como Geillis Duncan, amarrada a um poste 
em chamas sob as sorveiras de Leoch. O mais teimoso dos cticos se convenceria, acreditava, ao ver algum desaparecendo no passado diante de seus olhos. No era 
de admirar que Claire desejasse encontrar Gillian Edgars.
        Em poucas palavras, ele contou a Brianna seu relacionamento com a suposta bruxa de Cranesmuir.
        - E assim parece que  a minha vida ou a dela - ele terminou, estremecendo, terrivelmente consciente do quanto soava ridiculamente melodramtico. - Claire... 
sua me... ela deixou para mim a deciso. Mas achei que precisava encontr-la, no mnimo.
        Brianna parara de andar para ouvi-lo. A luz turva de uma loja de esquina refletia o brilho de seus olhos enquanto ela o fitava.
        - Ento, voc acredita? - ela perguntou. No havia nenhuma incredulidade ou desprezo em sua voz; estava absolutamente sria.
        Ele suspirou e tomou-a pelo brao outra vez. Ela no resistiu, mas comeou a acompanhar seus passos.
        - Sim - ele disse. - Tinha que acreditar. Voc no viu o rosto de sua me, quando viu as palavras inscritas dentro do anel. Isso foi real... suficientemente 
real para partir meu corao.
        -  melhor voc me contar - ela disse, aps um curto silncio. - Que palavras?
        Quando terminou de contar a histria, haviam chegado ao estacionamento atrs do pub.
        - Bem... - Brianna disse, hesitante. - Se... - parou outra vez, fitando-o nos olhos. Ela estava bastante perto para que ele sentisse o calor de seus seios, 
junto ao seu peito, mas ele no a abraou. A igreja de Santa Kilda estava muito longe e nenhum dos dois queria se lembrar da sepultura sob os teixos, onde os nomes 
dos pais de Brianna estavam inscritos na pedra.
        - No sei, Roger - ela disse, sacudindo a cabea. O letreiro de non acima da porta dos fundos do pub conferia reflexos roxos a seus cabelos. -Eu no posso... 
no consigo pensar nisso ainda. Mas... - Faltaram-lhe as palavras, mas ela ergueu a mo e tocou seu rosto, levemente, como o roar do vento da noite. - Pensarei 
em voc - murmurou.
        No fim das contas, cometer arrombamento com uma chave no  uma proposta muito difcil. A probabilidade de a sra. Andrews ou o dr. McEwan voltar e flagrar-me 
no ato era infinitamente pequena. Ainda que voltassem, tudo que eu precisaria fazer era dizer que eu retornara para procurar uma caderneta que havia perdido e encontrara 
a porta aberta. Eu estava sem prtica, mas a fraude um dia fora como uma segunda natureza para mim. Mentir era como andar de bicicleta, pensei; no se esquece.
        Assim, no era o ato de apoderar-me do caderno de notas de Gillian Edgars que fazia meu corao disparar e minha respirao soar alta aos meus prprios ouvidos. 
Era o caderno em si.
        Como mestre Raymond dissera-me em Paris, o poder e o perigo da magia residem nas pessoas que acreditam nela. Pelo vislumbre que eu tivera do contedo anteriormente, 
as reais informaes registradas naquele caderno de capa dura eram uma extraordinria mistura de fatos, especulao e. completa fantasia que s podia ser importante 
para o escritor. Mas eu senti uma repugnncia quase fsica ao toc-lo. Conhecendo quem o escrevera, sabia o que ele representava: um grimoire, o livro de segredos 
de um bruxo.
        Ainda assim, se houvesse qualquer pista do paradeiro e das intenes de Geillis Duncan, estaria ali. Reprimindo um tremor ao tocar a capa escorregadia, enfiei 
o caderno sob meu casaco, mantendo-o preso com o cotovelo para a descida das escadas.
        A salvo na rua, eu ainda mantinha o livro preso sob meu cotovelo, a capa tornando-se pegajosa de suor enquanto eu andava. Sentia como se estivesse transportando 
uma bomba, algo que devia ser manipulado com extremo cuidado, para evitar uma exploso.
        Caminhei durante algum tempo, finalmente entrando no jardim de um pequeno restaurante italiano com um terrao perto do rio. A noite estava fria, mas um pequeno 
aquecedor eltrico tornava as mesas do terrao suficientemente aquecidas para serem usadas; escolhi uma e pedi um copo de Chianti. Tomei-o em pequenos goles, o caderno 
pousado na pequena toalha de papel  minha frente, na camuflagem da sombra de uma cestinha de po de alho.
        Era final de abril. A apenas alguns dias do Beltane, o festival da primavera. Foi quando eu mesma fiz minha viagem inesperada ao passado. Seria possvel 
que houvesse alguma coisa a respeito da data - ou apenas a poca geral do ano? Era meados de abril quando retornei - isso tornara possvel a assustadora passagem. 
Ou talvez no; talvez a poca do ano no tivesse nada a ver com isso. Pedi outro copo de vinho.
        Poderia ser que somente algumas pessoas tivessem a capacidade de furar uma barreira, slida para todas as demais - talvez alguma coisa na formao gentica? 
Quem saberia? Jamie no conseguira penetr-la, embora eu pudesse. E Geillis Duncan obviamente conseguira - ou conseguiria. Ou talvez no, dependendo. Pensei no jovem 
Roger Wakefield e senti-me ligeiramente enjoada. Achei melhor pedir um prato para acompanhar o vinho.
        A visita ao instituto me convencera de quem quer que fosse Gillian/Geillis, ela ainda no havia feito sua prpria passagem fatal. Qualquer um que tivesse 
estudado as lendas das Highlands saberia que o festival de Beltane estava se aproximando; certamente, qualquer um que estivesse planejando tal expedio procuraria 
realiz-la nessa ocasio. Mas eu no tinha a menor idia de onde ela poderia estar, se no estivesse em casa; escondida? Realizando algum estranho ritual de preparao, 
aprendido com o grupo de novos druidas ao qual Fiona pertencia? O caderno de notas podia conter alguma pista, mas s Deus saberia.
        Tambm s Deus saberia qual era a minha prpria motivao em tudo isso; eu pensei que soubesse, mas no tinha mais certeza. Teria eu envolvido Roger na busca 
por Geillis porque me parecera a nica maneira de convencer Brianna? Entretanto... ainda que a encontrssemos a tempo, meu prprio objetivo s seria alcanado se 
Gillian conseguisse voltar no tempo. E assim, morrer na fogueira.
        Quando Geillis Duncan foi condenada como feiticeira, Jamie me dissera: "No chore por ela, Sassenach;  uma mulher m." E se ela era m ou louca, pouca diferena 
fizera na ocasio. Eu no deveria ter deixado esse assunto em paz, no deveria deix-la ir ao encontro de seu prprio destino? Ainda assim, pensei, ela salvara minha 
vida um dia. Independentemente de quem ela fosse - ou viria a ser -, eu tinha o dever moral de tentar salvar sua vida? E assim, talvez, condenar Roger? Que direito 
eu tinha de interferir ainda mais?
        No  uma questo do que  certo, Sassenach, ouvi a voz de Jamie dizendo, com um tom de impacincia.  uma questo de dever. De honra.
        - No ? - eu disse em voz alta. - E o que  isso? - O garom com meu prato de tortellini olhou-me espantado.
        - Hein? - exclamou.
        - Deixe pra l - eu disse, distrada demais para me importar muito com o que ele pensasse de mim. -  melhor voc trazer o resto da garrafa.
        Terminei minha refeio cercada de fantasmas. Finalmente, fortalecida pela comida e pelo vinho, afastei meu prato vazio e abri o caderno cinza de Gillian 
Edgars.
        
        
        
49 - ABENOADOS SEJAM AQUELES...
        
        
        No h nenhum lugar mais escuro do que uma estrada das Highlands no meio de uma noite sem lua. Eu podia ver o claro de faris que passavam de vez em quando, 
colocando em silhueta a cabea e os ombros de Roger com uma repentina exploso de luz. Eles estavam curvados para frente, como em atitude de defesa contra um perigo 
prximo. Bri tambm estava curvada, enroscada no canto do banco ao meu lado. Ns trs estvamos pouco comunicativos, isolados uns dos outros, fechados em pequenas 
bolsas individuais de silncio, dentro do silncio maior do carro e de sua corrida veloz.
        Meus punhos cerravam-se nos bolsos do meu casaco, distraidamente segurando moedas e pequenos fragmentos de objetos; um pedao de leno-de-papel, um toco 
de lpis, uma minscula bola de borracha deixada no cho do meu consultrio por uma pequena paciente. Meu polegar circundou e identificou a borda frisada de uma 
moeda americana de vinte e cinco cents, a face larga, em alto-relevo, de uma moeda inglesa de um penny e a ponta serrilhada de uma chave - a chave da saleta de estudos 
de Gillian Edgars, que eu no me dei ao trabalho de devolver ao instituto.
        Eu tentara outra vez telefonar para Greg Edgars, logo depois de deixarmos a velha casa paroquial. O telefone tocara incessantemente, sem que ningum atendesse.
        Olhei fixamente para o vidro escuro da janela ao meu lado, no vendo nem meu prprio reflexo difuso nem as formas macias de muros de pedras e rvores dispersas 
que passavam a toda a velocidade na noite. Em vez disso, via a fileira de livros, arrumados na nica prateleira em uma linha to perfeita quanto uma fileira de frascos 
de um boticrio. Embaixo, o caderno de notas repleto com a escrita cursiva e elegante, dispondo de forma absolutamente organizada dedues e alucinaes, misturando 
mito e cincia, citando sbios e lendas, tudo com base no poder dos sonhos. Para qualquer observador superficial, tanto poderia ser uma confuso de bobagens irrefletidas 
ou, na melhor das hipteses, o esboo de um romance tolo. Apenas para mim parecia um plano cuidadoso e deliberado.
        Numa pardia do mtodo cientfico, a primeira seo intitulava-se "Observaes". Continha referncias desconexas, desenhos bem organizados e tabelas cuidadosamente 
numeradas. "A posio do sol e da lua no
        Festival de Beltane" era uma delas, com uma lista de mais de duzentos pares de figuras desenhados abaixo. Tabelas semelhantes existiam para o Hogmanay e 
o Midsummers Day - o solstcio de vero -, e outra para o Samhainn, o festival de Ali Hallows. As festividades antigas do fogo e do sol... e o sol de Beltane se 
levantaria amanh.
        A seo central do caderno de notas intitulava-se "Especulaes". Essa, ao menos, era precisa, refleti ironicamente. Uma das pginas ostentava esta inscrio, 
em letras manuscritas inclinadas e perfeitamente desenhadas: "Os druidas queimavam vtimas de sacrifcios em gaiolas de vime no formato de um homem, mas indivduos 
eram mortos por estrangulamento e tinham a garganta cortada de forma a drenar todo o sangue do corpo. Seria o fogo ou o sangue o elemento necessrio?" A curiosidade 
fria da pergunta trouxe o rosto de Geillis Duncan com clareza diante de mim - no a estudante deslumbrada, de cabelos lisos e compridos, cujo retrato adornava o 
instituto, mas a mulher do fiscal, furtiva, dissimulada, dez anos mais velha, versada no uso de drogas e do corpo, que seduzia os homens para seus propsitos e matava 
friamente para atingir seus fins. E as ltimas pginas do caderno, cuidadosamente intituladas "Concluses", que nos levara quela sombria viagem, na vspera do festival 
de Beltane. Dobrei os dedos sobre a chave, desejando de todo o corao que Greg Edgars tivesse atendido o telefone.
        Roger diminuiu a marcha, entrando no caminho de terra, cheio de depresses, que passava pelo sop da colina denominada Craigh na Dun.
        - No vejo nada - ele disse. Ele no falava h tanto tempo que a declarao veio brusca e rouca, soando beligerante.
        - Bem, claro que no - Brianna disse com impacincia. - No se pode ver o crculo de pedras daqui.
        Roger resmungou em resposta e diminuiu ainda mais a velocidade do carro. Obviamente, os nervos de Brianna estavam tensos, mas os dele tambm estavam. Somente 
Claire parecia calma, sem se deixar afetar pelo crescente ar de tenso no carro.
        - Ela est aqui - Claire disse de repente. Roger pisou nos freios com tanta fora que tanto Claire quanto sua filha foram lanadas para a frente, batendo 
no encosto do banco dianteiro.
        - Cuidado, idiota! - Brianna repreendeu Roger furiosamente. Passou a mo pelos cabelos, afastando-os do rosto com um gesto rpido e nervoso. Engoliu em seco, 
com um movimento visvel em sua garganta enquanto se inclinava para espreitar pela janela escura.
        - Onde? - perguntou.
        Claire fez um movimento com a cabea, indicando  frente e  direita, mantendo as mos enfiadas nos bolsos.
        - H um carro parado ali, logo atrs dos arbustos.
        Roger umedeceu os lbios e estendeu a mo para a maaneta da porta.
        -  o carro de Edgars. Vou dar uma olhada. Fiquem aqui.
        Brianna escancarou sua porta com um rangido estridente de metal das dobradias no lubrificadas. Seu olhar silencioso de desdm fez Roger ficar vermelho 
na fraca claridade da luz do teto do carro.
        Ela j estava de volta quase antes de Roger conseguir sair do carro.
        - No h ningum l - informou. Ergueu os olhos para o topo da colina. - Vocs acham...?
        Claire terminou de abotoar seu casaco e entrou na escurido sem responder  pergunta de sua filha.
        - A trilha  por aqui - ela disse.
        Seguiu na frente, impetuosamente, e Roger, observando a figura plida vagar como um fantasma encosta acima  sua frente, foi forosamente lembrado da viagem 
anterior pela encosta ngreme de outra colina, at o cemitrio de Santa Kilda. Brianna tambm se lembrou; ela hesitou e ele ouviu-a murmurar algo com raiva a meia-voz, 
mas depois sua mo segurou seu cotovelo e apertou-o com fora - se para encoraj-lo ou suplicar seu apoio ele no sabia. O gesto deu coragem a ele, de qualquer forma, 
e ele bateu de leve na mo da jovem e enfiou-a na curva de seu brao. Apesar de todas as suas dvidas, e da inegvel esquisitice de toda a expedio, sentiu uma 
grande empolgao quando se aproximaram do cume da colina.
        Era uma noite lmpida, sem lua e muito escura, sem nada alm dos minsculos pontinhos brilhantes dos flocos de mica  luz das estrelas servindo para distinguir 
as pedras verticais no antigo crculo monoltico da noite ao seu redor. O trio parou no topo suavemente arredondado da colina, aconchegando-se uns contra os outros 
como um grupo de ovelhas desgarradas. A respirao de Roger soava estranhamente alta para ele prprio.
        - Isto - Brianna disse entre dentes -  uma tolice!
        - No, no  - Roger disse. Sentiu-se repentinamente sem ar, como se uma faixa constringisse seu peito, retirando todo o ar contido ali. - H uma luz l 
adiante.
        A luz mal tremeluziu - no passou de uma centelha que prontamente desapareceu -, mas ela a viu. Ele ouviu sua repentina tomada de ar.
        E agora?, Roger perguntou-se. Deveriam gritar? Ou o barulho de visitantes assustaria a caa, precipitando sua ao? E se assim fosse, que ao seria essa?
        Viu Claire sacudir a cabea subitamente, como se tentasse enxotar um inseto zumbindo em seu ouvido. Ela recuou um passo, afastando-se da pedra mais prxima 
e colidiu com ele.
        Ele segurou-a pelo brao, murmurando: "Cuidado, cuidado", como se falaria com um cavalo. O rosto de Claire no passava de uma mancha indistinta  luz das 
estrelas, mas ele pde sentir o tremor que percorreu o seu corpo, como eletricidade atravs de um arame. Ficou paralisado, segurando-a pelo brao, sem saber o que 
fazer.
        Foi o repentino cheiro de gasolina que o fez entrar em ao. Teve uma vaga percepo de Brianna, a cabea levantada bruscamente quando o cheiro atingiu suas 
narinas, virando-se para o extremo norte do crculo. Ento, ele j havia largado o brao de Claire, atravessara os arbustos  volta e as prprias pedras, correndo 
para o centro do crculo, onde uma figura negra agachada parecia uma mancha de tinta contra a grama mais clara.
        A voz de Claire veio de trs dele, forte e imperiosa, estilhaando o silncio.
        - Gillian! - ela gritou.
        Ouviu-se um sopro forte e repentino e a noite iluminou-se com um brilho intenso. Ofuscado, Roger recuou um passo, tropeando e caindo de joelhos.
        Por um instante, no viu nada a no ser a luz em suas retinas e a chama esplendorosa que ocultava tudo que houvesse por trs dela. Ouviu um grito ao seu 
lado e sentiu a mo de Brianna em seu ombro. Ele piscou com fora, os olhos lacrimejando, e a viso comeou a retornar.
        A figura esbelta erguia-se entre eles e o fogo, em silhueta como o desenho de uma ampulheta. Quando sua viso clareou, ele percebeu que ela vestia uma saia 
longa e ampla e um espartilho apertado - roupas de outra poca. Ela virara-se com o grito de Claire e ele teve a breve impresso de olhos arregalados e cabelos louros 
esvoaantes, agitados e arrepiados pelo vento quente do fogo.
        Ele ainda teve tempo, enquanto se esforava para se levantar, de se perguntar como ela arrastara uma tora daquele tamanho at ali. Em seguida, o cheiro de 
pele e cabelos queimados atingiu seu rosto como um soco e ento ele se lembrou. Greg Edgars no estava em casa esta noite. Sem saber se sangue ou fogo era o elemento 
necessrio, ela resolvera usar ambos.
        Passou por Brianna, concentrado apenas na figura esbelta e alta diante dele e a imagem de um rosto que refletia o seu prprio. Ela o viu se lanando em sua 
direo, virou-se e correu como o vento para a pedra fendida no final do crculo. Carregava uma mochila de lona grossa, pendurada no ombro; ouviu-a soltar um gemido 
quando a mochila girou pesadamente e bateu na lateral do seu corpo. 
        Ela parou por um instante, a mo estendida para a rocha, e olhou para trs. Ele podia jurar que seus olhos pousaram nele, fitaram os seus sem se desviar, 
do outro lado da barreira de chamas. Ele abriu a boca num grito sem som. Ento, ela girou nos calcanhares, leve como uma fagulha esvoa-ante, e desapareceu na fenda 
da rocha.
        O fogo, o corpo, a prpria noite desapareceram subitamente num som agudo atordoante. Roger viu-se de rosto no cho, agarrando-se  terra na busca frentica 
de uma sensao familiar  qual ancorar sua sanidade. A procura foi intil; nenhum dos seus sentidos parecia funcionar - at mesmo o toque do solo no tinha consistncia, 
era amorfo como se ele estivesse deitado em areia movedia, e no sobre granito.
        Cego pela claridade, surdo pelo grito da pedra dilacerada, ele tateou, debatendo-se freneticamente, desconectado de suas prprias extremidades, consciente 
apenas de uma fora imensa que o puxava e da necessidade de resistir a ela.
        No havia nenhuma sensao de passagem do tempo; ele tinha a impresso de estar se debatendo no vazio eternamente, quando por fim percebeu algo fora de si 
mesmo. Mos que agarravam seus braos com uma fora desesperada e a maciez esmagadora de seios sobre seu rosto.
        A audio comeou a retornar gradualmente e com ela o som de uma voz chamando-o. Na realidade, xingando-o, arfando entre uma expresso e outra!
        - Seu idiota! Seu... imbecil! Acorde, Roger, seu... estpido! - Sua voz estava abafada, mas o sentido de suas palavras atingia-o claramente. Com um esforo 
sobre-humano, estendeu os braos e agarrou-a pelos pulsos. Rolou no cho, sentindo-se pesado, e viu-se piscando estupidamente para o rosto banhado em lgrimas de 
Brianna Randall, os olhos escuros como cavernas na luz agonizante do fogo.
        O cheiro de gasolina e carne tostada era devastador. Ele virou-se, nauseado, e vomitou convulsivamente na grama molhada. Estava ocupado demais at para se 
sentir agradecido por seu olfato ter retornado.
        Limpou a boca na manga e tateou sem firmeza em busca do brao de Brianna. Ela estava encolhida no cho, tremendo.
        - Ah, meu Deus - ela disse. - Ah, meu Deus. Achei que no iria conseguir segur-lo. Voc estava se arrastando direto para dentro da pedra. Ah, meu Deus.
        Ela no resistiu quando ele a puxou para si, mas tambm no correspondeu ao seu abrao. Apenas continuou tremendo, as lgrimas escorrendo dos olhos vazios 
e arregalados, repetindo: "Ah, meu Deus", de quando em quando, como um disco quebrado.
        - Calma - ele disse, batendo de leve em suas costas. - Tudo vai ficar bem. Calma. - A sensao de tontura em sua cabea estava arrefecendo, embora ele ainda 
sentisse como se tivesse sido dividido em inmeros pedaos e espalhado violentamente entre os quatro pontos cardeais.
        Ouviu-se um leve estalido do objeto enegrecido no cho, mas acima disso e das exclamaes mecnicas de Brianna, a quietude da noite retornava. Ele colocou 
as mos nos ouvidos, como se quisesse silenciar os ecos do rudo mortfero.
        - Voc tambm ouviu? - ele perguntou. Brianna continuou chorando, mas balanou a cabea, aos solavancos, como uma marionete.
        - Sua... - ele comeou, ainda esforando-se para reordenar seus pensamentos, depois se empertigou com um pulo, quando um deles assaltou-o com absoluta clareza.
        - Sua me! - exclamou, agarrando Brianna com toda a fora pelos dois braos. - Claire! Onde ela est?
        Brianna ficou boquiaberta com o choque e levantou-se tropegamente, varrendo os olhos em desespero pelos confins do crculo vazio, onde as pedras da altura 
de um homem assomavam, parcialmente ocultas nas sombras do fogo moribundo.
        - Mame! - ela gritou. - Mame, onde voc est?
        - Est tudo bem - Roger disse, tentando soar convincente e tranqilizador. - Ela vai ficar bem agora.
        Na verdade, ele no fazia a menor idia se Claire Randall viria a ficar bem algum dia. Ela estava viva, ao menos, e isso era tudo que ele podia garantir.
        Eles a encontraram, sem sentidos e inerte na grama perto da borda do crculo, branca como a lua que nascia, sem nada alm da lenta e escura exsudao de 
sangue das palmas de suas mos para atestar que seu corao ainda batia. Da descida infernal pela trilha at o carro, o peso morto de Claire pendurado em seu ombro, 
sacudindo-se desastradamente conforme pedras rolavam sob seus ps e galhos agarravam-se s suas roupas, ele preferia no se lembrar de nada.
        A descida da colina assombrada o deixara exausto; foi Brianna, os ossos da face proeminentes de concentrao, quem dirigira de volta at a residncia paroquial, 
as mos agarradas ao volante como braadeiras. Derreado no banco a seu lado,,Roger teve a ltima viso, pelo espelho retrovisor, da claridade no topo da colina atrs 
deles, onde uma pequena e luminosa nuvem flutuava como a fumaa de um canho, prova muda de uma batalha ali travada.
        Agora, Brianna pairava pelo sof onde sua me estava deitada, imvel como uma esttua de sarcfago. Com um estremecimento, Roger evitara a lareira onde a 
lenha j estava amontoada e preferira ligar o pequeno aquecedor eltrico com que o reverendo costumava aquecer os ps nas noites de inverno. Suas barras brilhavam 
incandescentes e ele fazia um alto e agradvel zumbido que encobria o silncio no gabinete.
        Roger sentou-se num banquinho ao lado do sof, sentindo-se fraco e abatido. Reunindo os ltimos resqucios de fora de vontade, estendeu o brao para a mesinha 
do telefone, a mo pairando a alguns centmetros acima do aparelho.
        - Deveramos... - Teve que parar para clarear a garganta. - Deveramos... chamar um mdico? A polcia?
        - No. - A voz de Brianna soou decidida, mas distante, enquanto se inclinava sobre a figura imvel no sof. - Ela est acordando.
        As plpebras cerradas estremeceram, contraram-se levemente  lembrana renovada de dor, em seguida relaxaram-se e abriram-se. Seus olhos estavam lmpidos 
e suaves como mel. Vagaram de um lado para o outro, deslizaram por Brianna, empertigada e rgida a seu lado, e fixaram-se no rosto de Roger.
        - Ela... voltou?
        Seus dedos estavam contorcidos no tecido de sua saia e ele viu os traos leves e escuros de sangue que deixaram para trs. Suas prprias mos crispavam-se 
instintivamente sobre os joelhos, as palmas latejando. Ento, ela tambm resistira, agarrando-se  grama e aos cascalhos, a qualquer coisa que a impedisse de ser 
engolida pelo passado. Fechou os olhos contra a lembrana da fora de atrao daquela fenda, balanando a cabea.
        - Sim - respondeu. - Ela se foi.
        Os olhos claros voltaram-se imediatamente para o rosto da filha, as sobrancelhas acima deles arqueadas num gesto de interrogao. Mas foi Brianna quem perguntou.
        - Era verdade, ento? - disse, hesitante. - Era tudo verdade? Roger sentiu o pequeno tremor que percorreu o corpo da jovem e, sem pensar duas vezes, estendeu 
o brao para segurar sua mo. Contraiu-se involuntariamente quando ela a apertou com fora e lembrou-se de um dos textos do reverendo: "Abenoados os que no viram 
e acreditaram." E aqueles que precisam ver para acreditar? O efeito da crena obtida atravs da viso tremia assustada a seu lado, aterrorizada por tudo o mais em 
que agora tinha que acreditar.
        Mesmo enquanto a jovem retesava os msculos, preparando-se para enfrentar a verdade que j constatara, os contornos do corpo tenso de Claire no sof relaxaram-se. 
Os lbios plidos curvaram-se num arremedo de sorriso e uma expresso de profunda paz suavizou o rosto plido e tenso, acendendo o brilho dos olhos dourados.
        -  verdade - ela disse. Suas faces plidas recuperaram um pouco de cor. - Sua me mentiria para voc? - E fechou os olhos outra vez.
        Roger estendeu o brao para desligar o aquecedor eltrico. A noite estava fria, mas ele no podia mais permanecer no gabinete, seu santurio temporrio. 
Ainda se sentia debilitado, mas no podia mais adiar. A deciso tinha que ser tomada.
        J era quase dia quando a polcia e o mdico terminaram seu trabalho na noite anterior, preenchendo seus formulrios, tomando depoimentos, colhendo pistas 
vitais e fazendo o melhor para explicar a verdade. "Abenoados os que no viram", pensou, com devoo, "e acreditaram." Especialmente neste caso.
        Finalmente, foram embora, com seus formulrios e distintivos e carros com suas luzes piscando, para supervisionar a remoo do corpo de Greg Edgars do crculo 
de pedras, para emitir uma ordem de priso contra sua mulher, que, tendo atrado o marido para a morte, fugira da cena do crime. Para colocar a questo de forma 
branda, Roger pensou, atordoado.
        Cansado fsica e mentalmente, Roger deixara as Randall aos cuidados do mdico e de Fiona e fora se deitar, sem se dar ao trabalho de se despir ou afastar 
as cobertas, apenas deixando-se cair num esquecimento abenoado. Acordado quase ao pr-do-sol por uma fome corrosiva, descera as escadas tropegamente, encontrando 
suas hspedes igualmente silenciosas, embora mais arrumadas, ajudando Fiona a preparar o jantar.
        Fizeram uma refeio silenciosa. A atmosfera no era tensa; era como se a comunicao acontecesse de forma invisvel entre as pessoas  mesa. Brianna sentara-se 
ao lado da me, tocando-a de vez em quando ao passar um prato, como se quisesse se assegurar de sua presena. Olhara para Roger de vez em quando, olhares breves 
e tmidos por baixo das pestanas, mas no falara com ele.
        Claire falou pouco e no comeu quase nada, permanecendo sentada absolutamente quieta, silenciosa e serena como um lago ao sol, os pensamentos voltados para 
o interior. Aps o jantar, pediu licena e foi sentar-se no banco fundo sob a janela no final do corredor, alegando cansao. Brianna lanara um rpido olhar para 
a me, o rosto voltado para a janela, a figura recortada em silhueta contra a ltima claridade do sol poente, e em seguida fora ajudar Fiona com a loua na cozinha. 
Roger dirigira-se ao gabinete, a boa refeio de Fiona pesando agradavelmente em seu estmago, para pensar.
        Duas horas mais tarde, ele ainda estava pensando, quase sem nenhum proveito. Havia livros empilhados desordenadamente sobre a escrivaninha e sobre a mesa, 
deixados abertos nos assentos das poltronas e no encosto do sof. Grandes espaos vazios nas estantes abarrotadas testemunhavam o esforo de sua pesquisa aleatria.
        Fora necessrio um bom tempo, mas conseguira encontr-lo - o curto trecho de que se lembrava da ltima pesquisa que fizera para Claire Randall. Os resultados 
da pesquisa haviam lhe trazido paz e consolo; este no traria - se ele contasse a ela. E se ele tivesse razo? Mas devia ter; explicava aquela sepultura fora de 
lugar, to distante de Culloden.
        Passou a mo pelo rosto e sentiu a aspereza da barba. No era de admirar que tivesse esquecido de se barbear, com tudo que acontecera. Quando fechava os 
olhos, ainda podia sentir o cheiro de fumaa e sangue; ver o claro das chamas na pedra escura e mechas de cabelos louros, esvoaando fora do alcance de seus dedos. 
Estremeceu com a lembrana e sentiu uma onda repentina de ressentimento. Claire destrura sua prpria paz de esprito; no lhe devia o mesmo? E Brianna - se sabia 
a verdade agora, no deveria saber toda a verdade?
        Claire continuava l no final do corredor; as pernas dobradas, os ps sob o corpo no banco da janela, o olhar distante, fitando a escurido vazia atravs 
da vidraa.
        - Claire? - Sua voz soou spera e rouca por falta de uso; limpou a garganta e tentou outra vez. - Claire? Eu... tenho algo a lhe dizer.
        Ela virou-se e ergueu os olhos para ele, nada alm de uma leve curiosidade visvel em suas feies. Sua expresso era calma, a fisionomia de algum que sofreu 
o terror, o desespero e o luto, e o fardo desesperador da sobrevivncia - e resistiu. Olhando para ela, sentiu repentinamente que no conseguiria.
        Mas ela contara a verdade; ele devia fazer o mesmo.
        - Descobri uma coisa. - Ergueu o livro num gesto breve e intil. - Sobre... Jamie. - Pronunciar aquele nome em voz alta pareceu preparar seu corpo, como 
se o enorme escocs em pessoa tivesse sido evocado pelo seu chamado, surgindo slido e imvel no corredor, entre a sua mulher e Roger. Roger respirou fundo, preparando-se.
        - O que ?
        - A ltima coisa que ele pretendeu fazer. Acho... acho que ele no conseguiu.
        Seu rosto ficou lvido subitamente e olhou para o livro com os olhos
        - Sim, descobri - Roger interrompeu-a. - No, tenho certeza absoluta que ele foi bem-sucedido nisso. Ele conseguiu retirar seus homens. Ele os salvou de 
Culloden e os colocou na estrada rumo a Lallybroch.
        - Mas ento...
        - Ele pretendia voltar... voltar ao campo de batalha... e acredito tambm que tenha conseguido. - Estava cada vez mais relutante, mas era preciso que fosse 
dito. Sem encontrar palavras prprias, abriu o livro e leu em voz alta:
        - Aps a batalha final em Culloden, dezoito oficiais jacobitas, todos feridos, refugiaram-se na velha casa e, durante dois dias, permaneceram ali, sofrendo, 
sem socorro para seus ferimentos; depois, foram levados para fora, para serem fuzilados. Um deles, um Fraser do regimento do senhor de Lovat, escapou ao massacre; 
os outros foram enterrados na margem do parque ao lado da casa.
        - Um deles, um Fraser do regimento do senhor de Lovat, escapou... - Roger repetiu em voz baixa. Ergueu a cabea da pgina e fitou os olhos dela, arregalados, 
sem nada ver, como os de um cervo hipnotizado pelos faris de um carro que avana sobre ele.
        - Ele pretendia morrer no campo de batalha de Culloden - Roger murmurou. - Mas no morreu.
        
        
        
AGRADECIMENTOS
        
        Aos trs jackies (Jackie Cantor, Jackie LeDonne e minha me), anjos da guarda dos meus livros; aos quatro Johns (John Myers, John E. Simpson, Jr., John Woram 
e John Stith) pela leitura constante, pela misce-lnea escocesa e pelo entusiasmo geral; a Janet McConnaughey, Margaret J. Campbell, Todd Heimarck, Deb e Dennis 
Parisek, Holly Heinel e todos os outros membros do Literary Frum que no comeam com a letra J. Em especial, Robert Riffle, pelo plantago, eptetos franceses, teclados 
de bano e seu olhar sempre perspicaz; Paul Solyn, pelos nastrcios tardios, valsas, bela caligrafia e orientao em botnica; a Margaret Bali, por referncias, 
sugestes teis e pela excelente conversa; a Fay Zachary, pelo almoo; ao dr. Gary Hoff, por conselhos e orientao mdica (ele no teve nada a ver com as descries 
de como estripar algum); ao poeta Barry Fogden, por tradues do ingls; a Labhriunn Maclan, pelas imprecaes em galico e pelo uso de seu nome muito potico; 
a Kathy Allen-Webber, pela assistncia geral com o idioma francs (se houver um tempo de verbo errado, a culpa  minha); a Vonda N. Mclntyre, por compartilhar dicas 
da profisso; a Michael Lee West, pelos maravilhosos comentrios sobre o texto e pelo tipo de conversas telefnicas que fazem minha famlia gritar: "Largue esse 
telefone! Estamos mortos de fome!";  me de Michael Lee, pela leitura dos originais, erguendo os olhos de vez em quando para perguntar  sua filha e escritora famosa: 
"Por que voc no escreve algo assim?"; e a Elizabeth Buchan, pelas indagaes, sugestes e conselhos - o esforo envolvido foi quase to colossal quanto a ajuda 
prestada.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
  
http://groups-beta.google.com/group/digitalsource
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